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16.8.12

Friendship never ends.

(só um texto cafona sobre amizades, descobertas e todo mais que o cerca) 

Não saberia dizer, ou esboçar uma fórmula exata de porquê certas amizades vingam e outras não. 
As amizades, provavelmente, dependem da mesma série de fatores que um relacionamento amoroso. Muito se diz sobre o fato da amizade ser mais fácil porque não traz consigo a conotação sexual. Discordo: sexo todo mundo faz. Não é - embora viva se dizendo o contrário - tão difícil assim encontrar um parceiro sexual competente. Performance - embora os homens muito se gabem - é uma coisa que ou depende de prática, ou depende de saber ouvir. Sabendo entender o que a parceira quer, ou emendando um feijão-com-arroz bem feitinho as chances de êxito são bastante grandes. A verdade é simples: rolar na cama com prazer é bem mais fácil do que entender outro ser humano. É por isso, primordialmente, que a amizade tem de ser superior ao relacionamento amoroso. Relacionamentos amorosos, depois de cair na mesmisse, podem continuar apenas pelo sexo. O desejo carnal mantêm relações à séculos. Casais que não conseguem conversar trepam. O marido pode não entender muito bem o que a parceira quis dizer depois daquele discurso imenso sobre como precisa ser entendida e bem tratada, mas com certeza, depois de alguns anos, já memorizou com algum êxito as posições que ela prefere na cama. Não sabe ouvir, mas sabe fazer. Às vezes basta. Não por muito tempo, é verdade, mas basta.

Nas relações de amizade, não tem como cortar os silêncios indo pra cama. Um silêncio constrangedor entre duas pessoas que não têm relações sexuais e nem se interessam em tê-las deve ser preenchido com uma conversa. Amigos tem que se entender, compreender, saber de várias facetas chatas da outra pessoa - e continuar aturando. Cabe ao amigo ouvir dez vezes a mesma história, analizar com frieza o porquê da sobrancelha arqueada do namorado da amiga quando ela perguntou se podia deixar o casaco na casa dele e pegar depois. Cabe ao amigo estar junto em programas furados. Cabe ao amigo aguentar o namorado da amiga, as outras amigas da amiga, a tpm da amiga. Cabe ao amigo o pacote completo sem o bônus de levar pra cama depois do nhé-nhé-nhé. Cabe o amigo o ônus com menos bônus ainda. Amigos aguentam reclamações, ciúmes, cobranças, julgamentos descabidos e conselhos que eles não pediram. É do amigo a função de ver o outro errando repetidamente e não poder fazer nada além de aconselhar e depois aguentar o choro. Um amigo vale mais do que um caso, do que um namorico, e às vezes vale mais até do que a própria família.

Pra uma relação de amizade existir é necessário conviver com os defeitos. Um amigo pontual aguenta um outro amigo que sempre atrasa. É pela amizade que a gente vai em festa que não gosta muito, aguenta show da banda preferida do outro, sai em programa de casal pra ficar de vela. A principal característica da amizade deve ser: estar disposto. Um amigo está sempre disposto. Mesmo quando não está. Ser amigo é tirar o pijama pra socorrer o outro aflito. É aguentar terríveis festas em que os dois sabiam que não deviam ter ido, mas precisavam. É se juntar pra falar mal da pessoa insuportável que é amiga de um outro amigo. Um dia eu li em uma revista uma stripper dizendo que ser stripper é fácil porque é simples mostrar o peito, difícil é mostrar o coração. Tive que concordar. O número de pessoas pra quem mostrei o peito é bem maior do que o número de pessoas pra quem já desabafei. E olhem, se despir de sentimento é muito mais nocivo do que ficar nua. A nudez passa, a vergonha acaba. O constrangimento de se mostrar exatamente aquilo que se é deve ser a maior vulnerabilidade de que se tem notícia. Bem parecido com a vulnerabilidade que se sente quando se está apaixonado de verdade. As duas coisas, saibam, acontecem pouquíssimas vezes na vida. 

Nesse estranho ano tive a oportunidade de perceber, cafonamente falando, que tenho amigos de verdade e outros que passei pra lista de colegas. Amigo de verdade é aquele que te aguenta depressivo, repetindo pausadamente a mesma ladainha de sempre, e que te leva pro programa que você está disposto, mesmo não sendo exatamente aquele que ele queria. Foi pra essas poucas pessoas que pude falar, sem julgamentos, todo o horror que foi o meu começo de ano. Foram eles que aguentaram meus traumas, minha indisposição e que me fizeram perceber que as pessoas pra quem você mostrou o coração são realmente aquelas que importam na sua vida. Essas pessoas são as que acreditam em você mesmo quando a vida não vai, o trabalho não dá certo, o cara que você gostava te sacaneou. Essas pessoas te defendem de um jeito quase cego, nem querendo ouvir a versão do outro, como um leoa defenderia sua cria de um predador faminto. Amigo de verdade é meio mãe. Sabe renunciar amor, noite de sono, hora de trabalho, momentinho de estudo e até visão de mundo porque você está precisando dele. Amo os meus amigos que pensam como eu penso, mas aprendi a respeitar as visões ideológicas divergentes porque amizade é amar, também, apesar de. Amar por causa de é muito fácil. Meus amigos são esses seres iluminados que tiram da fossa com guindaste, dividem lugar fuleiro, festivalzinho de cinema francês, cover de banda podre, palylist de sertanejo e pagode,  meus discursos sobre política, minhas explanações sobre redes sociais, minhas mensagens destilando ódio porque eu não sei acalmar antes de falar. Meus amigos são essas pessoas que me acham a melhor pessoa do mundo mesmo quando eu não sou, mas que falam as verdades. Meus amigos aguentam meus erros, tratam bem minhas escolhas erradas pra depois vir dizer que sempre souberam que aquilo ali não ia dar certo, mas não podiam botar água na minha felicidade. Meus amigos já me carregaram bêbada e limpariam meu vômito. Meus amigos, acima de tudo, já não me julgam - só me aceitam. E quando acham que devem, aconselham, falam a verdade e me chacoalham.

Eu cansei de relações unilaterais, rabugice, cobrança, julgamento, cara feia, negligência. Amigo que é amigo corre em nossa defesa que nem bicho bravo e renuncia parte da vida, se for preciso, pra salvar a nossa. Acostumei a passar vergonha com os meus, fazer eles passarem vergonha também, e me despir de coração inteirinho. É com eles que eu saltito na boate quase vazia e é também com eles que quase choro no meio fio e discuto os percalços da recente vida adulta. Uma vez eu disse pra um dos meus amigos que ter ele na minha vida era melhor do que ter namorado porque desde que nos conhecemos meus casos já tinham ido e voltado, mas ele continua. Amigo é essa pessoa que vem antes dos outros relacionamentos e, com certeza, vai embora depois. A amizade é superior ao amor porque tem que se valer única e exclusivamente dela própria. Essa é a minha declaração cafona. Amo todos vocês, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença - até que a morte nos separe. Já diziam as spiceys (que a gente sempre canta a plenos pulmões) que se você quiser ser meu amante, tem que aguentar meus amigos - e assim será. 

17.6.12

os amigos dos amores

(ou, como é difícil competir com uma possibilidade).

Quando ele me amava, eu não o amava de volta. Não por nada em especial, ele tinha os jeitos certos de me tratar desde a primeira vez em que me viu. Não atrasou no primeiro encontro e, mesmo dizendo que talvez chegaria atrasado, resolveu sair correndo porque ele é quem devia esperar. Confessou ele, alguns meses depois, que tinha medo que eu fosse embora. Ele estava certo mesmo sem saber: sou dessas de ir embora. Por ele - ele também não sabia - eu não iria embora não. Alguma coisa nele tinha me encantado o suficiente pra que eu quisesse ficar. Nem que fosse pra ter certeza que aquela figura que eu tinha imaginado na minha cabeça nada tinha a ver com a personificação do real. No fim das contas tinha sim, mas por alguma razão, não ficamos juntos. Antes eu culpava ele. Achava que ele nunca tinha  se irritado muito com esse meu jeito expansivo e piadas fora de hora quando colocada em situações limite. Depois percebi que nossa não-junção foi muito mais por uma falta de comunicação mútua do que por um não-querer. Agora eu acho que foi coisa da vida mesmo: não era pra ser. Assim, bem fatal.

Eis que, como acontece com toda relação que não funciona não por briga, mas sim por impossibilidade: nos tornamos amigos. Muito amigos. Nossa relação foi sempre pautada numa admiração mútua (e meio louca). Uma vez, conversando com um outro amigo, ele me disse que só se ama aquilo que se admira muito. Quanto maior a admiração, maior o amor. Talvez essa seja uma grande verdade da vida ou, talvez, só tenhamos acreditado nisso porque éramos os dois aquarianos. Eu concordei. Eu admirava aquela outra criatura que fazia parte da minha vida como uma coisa quase-perfeita. Até os defeitos dele eram bonitos. Os jeitos estranhos de se portar, as piadas ruins: tudo nele era passível de ser admirado. E tinha mais: ele nunca me decepcionaria, porque a nossa relação era uma das relações mais puras: a amizade. Ele tinha comigo uma idealização louca. Sempre me achava inteligente demais, muito bem vestida, dona das boas piadas, das boas sacadas, das boas comidas. Levava minha opinião em conta, como uma espécie de guru. Se eu não gostasse da coisa a coisa tinha grandes chances de não prestar. Era assim com as bandas, com os livros e, até, com os amores. Os amores dele (foram muito poucos durante a minha estada em sua vida), tinham que passar pelo meu crivo. O que esperar de uma pessoa que a dona da sua admiração não aprova? Nada, ele supunha. Nada de fascinante, ao menos. E foi assim que concluí aquilo que disse logo no início dessa divagação: quando ele me amava, eu não amava de volta.

Um dia, ele me disse, muito convicto que não podia continuar com uma das meninas com quem estava por uma simples razão: eu não gostava dela. Me envaideci, claro, porque qualquer uma se envaideceria diante dessa constatação, mas me assustei. O gosto era dele, assim como a vida, e eu não tinha nenhum direito de intervir como uma espécie de fantasma, ou até mesmo de modelo, na vida amorosa dele. Não tinha, mas intervi. Imagino que eu ficava ali, na memória dele como um espírito ruim. A toda vez que a menina não se aproximava do que eu era, ela perdia pontos. Imaginei ela tentando fazer as piadas que não eram minhas, ou não derrubando um tico que seja de coca na mesa, ou não sabendo dos livros que ele gostaria que ela soubesse (porque eu sabia). Naquele dia ele me disse que desistiria de vez daquela garota, e que eu não me preocupasse, ele encontraria alguém que tivesse mais a ver comigo. Ele falava dela pouquissimas vezes antes do término. Não me contava as histórias dela, e por vezes omitia a presença dela na vida dele. Era como se ela não existisse mesmo quando havia existido. Tudo que eu soube dela foi o começo - em que reprovei um pouco, e o final. O final pra ele parecia um alívio. Ele finalmente tinha se livrado da pessoa que eu não aprovaria. Ele agora estava livre do meu fantasma.

Qualquer pessoa digna da admiração de alguém se torna um fantasma. Ele também era o meu, eu só não dizia. Todas as vezes que os meus amores não agiam como ele agia comigo eu me sentia mal. Eu quase passava tutoriais pra eles de como eles deviam se portar. "Não conta essa piada boa não, conta essa que é ruim, mas que eu vou achar engraçadinha" "Segure minhas sacolas no mercado, erre as combinações de roupa. Cuide de mim. Qualquer coisa assim. A verdade é que ninguém compete com uma possibilidade, uma idealização. Nenhuma menina nunca competiria comigo, porque a nossa relação era perfeita. Nunca uma briga, nunca um defeito grave, algo que irritasse. Nenhum cara nunca competiria com ele, porque ele era o cara perfeito. Éramos, e não éramos. Éramos porque nos admirávamos e nos gostavamos sem restrições. Não éramos porque uma relação de amizade, por mais estreita que seja, não é um relacionamento. É mais. De um amigo você aguenta coisas que, talvez, em um namorado não suportaria. Os amigos fazem tudo um pelo outro. É um amor irrestrito assim como é um amor que não se vê todo dia, não se cobra jantares, onde não se tem direito de brigar por ciúmes. É um amor sem a obrigação do amor. Nenhuma menina nunca chegaria a ser o que eu era porque a relação é outra. Nenhum cara nunca seria o que ele foi, porque a relação é outra. Eu sou outra. Ele é outro. A verdade é simples: não há como competir com uma idealização. Não tem como competir com a pessoa pra quem você não tem medo de ser exatamente aquilo que é. Não tem como competir com a pessoa com quem você divide a vida, que sabe todos os seus gostos, que entendeu seus traumas de infância e sua visão sobre deus e o diabo. Não terá nunca como competir com quem te livra de você mesmo todas as vezes que seu mundo desaba. Não tem como competir com a possibilidade de uma coisa que ainda não foi. Não tem como competir com o amigo ou a amiga que seria seu namorado perfeito, mas que nunca foi seu namorado (ou namorada).

A gente deixou de ser os fantasmas um do outro quando nos tiramos dos pedestais. Ele foi namorar outra menina (que nada tinha a ver comigo) e se libertou. Eu demorei um pouco mais, mas percebi que uma relação (mesmo se fosse com ele) estaria fadada a fracassos. Porque o amor é isso, é um passo antes do fracasso. Estamos sempre um passo antes do fracasso. Nós podíamos nos odiar se namorássemos. Podíamos nos degladiar em terríveis brigas sobre o jeito errado que ele tem de deixar o copo na pia. É a intimidade que afasta. Todos nós nos decepcionaremos. Resta saber se a decepção é maior ou menor que o amor. Ninguém pode competir com uma possibilidade. Elas não conseguiram, eles não conseguiram, e eu já perdi também pra uma possibilidade. Você nunca vai ganhar de uma idealização. Nem sendo a melhor pessoa do mundo. Nem dando o máximo que conseguir. Eu só percebi quando estive do outro lado. Do lado da menina que foi deixada porque não era ela (e competia com seu fantasma).

Os amigos dos amores sempre ganharão, porque eles querem eles e não a gente. E eles não existem. Ninguém nunca vai ser melhor do que alguém que não existe.

Não há como competir com uma possibilidade.
E sucumbiremos. Até que a possibilidade se torne realidade, e a realidade faça o que sabe fazer de melhor: fustrar-nos.

8.8.11

Maldita seja a distância entre nós.

eu sinto saudades daqueles rabiscos, sabe. dos meus também, um pouco. eu tinha menos, é claro. bem menos que você. É que a minha vida era mais bagunçada. Gente bagunçada demais não dá conta nem de rabiscar direito e costuma encarar vazios. Hoje é a minha parede descascada e o meu teto branquíssimo. Engraçado, né? Um pequeno pedaço de casa vira de repente um universo. Às vezes eu acho que o tempo passa e a gente cria mesmo um mausoléu. Sabe, as coisas vão morrendo e aí a gente joga as cinzas aqui e ali ou enterra mesmo. Fica numa esperança louca que as coisas que passaram, assim com acreditam os budistas, passem por uma espécie de roda de samsara e renasçam (melhores).

Bendita seja a distância entre nós. Distância que foi se configurando aos poucos, e quando a gente se deu conta estava em outra vida. Vez ou outra eu sento na mesa e ainda sinto cheiro de lasanha, ou pavê, ou sorvete de flocos semi-derretido. Fico pensando quantas relações ainda serão constituidas de puro vazio até chegar perto dessa coisa que já existiu. Tudo parecia simples, e bobo e até um pouco infantil. Porque era comum. Nunca achei que um dia eu iria acordar e estivesse tudo assim, meio desmanzelado. O universo não parecia assim tão deserto de almas naquela época. Porque gente tem. Gente tem de monte, andando nas ruas, comprando coisas, enchendo sacolas, jogando lixo, indo nas academias, comprando carros novos ou até mesmo passando fome. Tem muita gente no mundo. Agora alma sei lá. E fica até meio clichê isso, a gente reclamando de alma, de essência, de vida. Um dia eu expliquei pra vocês que a pós modernidade estava chegando. E olha, chegou. Um indvidualismo tão louco, né? A gente parece parte de um mundo que já existiu - e que não volta.

Penso em vocês na sacada, penso na gente, poxa, na gente falando tanto sobre nós mesmos. E enormes momentos de silêncio e pausa, de violão de poucos acordes, de suspiros longos. Amar não é concordar o tempo todo. Amar não é nem mesmo amar o tempo todo. Eu já odiei vocês. Já quis que vocês sumissem tal qual os balões de cinza que jogamos da janela. A vida é um pouco isso né. Esses balões de jornais que sobem bonitos depois queimam no chão. Acho que queimamos um pouco no chão, não sei se sobe. Não sei se agora existe um jeito de dar a volta, um retorno desses que bota a gente de novo na estrada onde tava e refaz o caminho. Parece que não. A gente já bebeu menos, já se acabou menos, já comeu menos. A gente já foi mais a gente, sem se auto destruir. Amor mesmo, sabe, amor de verdade já embriaga por si só. E a gente era meio embriagado, meio embriagado de sentimento.

Às vezes a vida doia no meio dos copos de coca. O mundo passando, as pessoas comprando mc donald's em volta e a gente tentando entender que vida era aquela, o que o mundo estava fazendo dele mesmo, porque é que a gente não conseguia fazer parte, jogar o jogo, ser parte do time. A gente ainda não consegue, mesmo separado a gente sabe que não consegue. Que não conseguirá. Só que as crises agora são longe, e eu sei que meus copos só estão assim, até a borda de tanta cerveja porque eu não tenho mais vocês. Não do jeito que era antes, não dá mais pra discar o numero de vocês e dizer que tudo bem, a vida é uma merda, ninguém se ama mais só que a gente tem a gente, e uma travessa de macarrão e um pote de sorvete. A gente tem a gente e pode gritar da sacada, e pode segurar a mão um do outro, mesmo que de um jeito metafórico, mesmo que a gente nem saiba nada sobre os contatos físicos imediatos.

O que é a vida agora senão um erro? a gente se perdendo, perdendo o trato com as pessoas. A gente se convencendo que nunca quis muito ser feliz, né? a gente nunca quis, não muito, tá bom assim do jeito que tá. Meio caído, meio vazio, cheio de coisa errada, mas a gente vai levando. O pedro não podia achar ninguém melhor que a mariana. A fernanda não podia achar ninguém melhor que o cristiano e ok, tá tudo bem nesses namoros sem amor que a gente leva, nessas noites cheias de "diversão" que a gente tem. Uns brincam de amar, os outros se jogam da sarjeta, eu cansei de brincar de amor e caio na sarjeta. Às vezes eu acho que vocês também ficam em casa, olhando o teto, as paredes descascadas, o universo-quarto de vocês e sentindo saudades do que a gente era. Às vezes eu acho que a gente deve abrir ao mesmo tempo o facebook um do outro e pensar em perguntar como vai a vida, se você continua gostando de macarrão com molho, de sorvete de flocos meio derretido, se ele continua esse desastre social cheio de mancadas.

Mas tem os namoros, os quase-casamentos, os trabalhos, as faculdades, as distâncias, as mudanças que vem com a vida e a gente se perde mesmo, né? E o que sobra é isso. A melhor época das nossas vidas eternizada numa foto granulada e escura em que ninguém saiu muito bem, mas eu juro que estávamos felizes. E tudo que eu queria era juntar todos os pedaços daquela foto depois de dez anos e nos ouvir realizados. Mas nós sabemos que não vai acontecer. Não tem como ser feliz depois de ter se perdido tanto. Não tem mais alma nessa vida que a gente leva. E sem alma, não tem nada.

E o pior de tudo é saber que continuaremos. Mesmo com dor, mesmo sem alma, mesmo sem ter pra quem contar a vida, mesmo levando a vida só pra gente. Mesmo guardando o peso sozinho, carregando a cruz sem saber bem pra onde. Mesmo infeliz e sabendo disso. É que não tem outro caminho a não ser continuar. É que continuando talvez a gente se encontre, desavisado, na mesa do bar ou debaixo da ponte, procurando aquele mesmo retorno que vai nos botar de volta no caminho certo.

Oxalá.

(eu não sei se sinto mais saudades de vocês, ou de mim. Maldita seja a distância entre nós).

13.4.11

Heart shaped-box

"Quando o amor acaba todas as coisas as quais foram atribuídas significados viram coisas". Tinha lido essa frase em algum lugar, não sabe mais onde. Talvez em algum livro famoso, talvez numa dessas revistas de mulher - tem lido muitas dessas ultimamente, daquelas que ensinam truques de beleza e dicas para chegar ao orgasmo. Mas pensou na tal frase no momento em que olhou o guarda-roupas aberto e conseguiu lembrar, por um momento breve, a roupa que tinha escolhido pra usar no primeiro encontro com aquele que viria a ser o seu (grande?) amor. É engraçado como em cada época da vida de uma pessoa (do sexo feminino, em sua maioria) existe uma roupa que possui dentro de si a falsa capacidade de conquistar a pessoa amada. A daquela época era uma calça jeans skinny, muito apertada no corpo - mas que tinha ficado larga, emagrecera demais naqueles tempos difíceis -, uma blusa rosa por baixo de um casaco roxo, com botões de plástico, com cara de retro. Ainda tinha no guarda roupa todas aquelas peças. As lembranças já tinham se tornado um tanto rarefeitas. Mas olhando com atenção tinha uma bolsa, um doce, um livro. Algumas várias coisas que podiam fazer uma espécie de inventário daquele amor que um dia tinha sido, e não é mais.

Não sabia se de fato enxergava naqueles presentes apenas "coisas". Conseguia se lembrar do momento exato em que eles tinham sido dados. Tinha uma afeição especial por um sapo de pelúcia que tinha sido comprado de surpresa. Tinha afeições menores, mas não menos importantes, por todos os outros objetos. Os pegava na mão e conseguia lembrar que, naquele momento, tinha sido muito feliz. Às vezes a felicidade também vira coisa. Lembrança longe e que a gente tenta pegar com a mão, e não consegue. Milhares de sorrisos eternizados em um objeto que hoje é enfeite no quarto do lado de outros mil objetos diferentes. Os sorrisos embalsamados. Guardados dentro da bolsa, dentro da lata, embaixo dos cachecóis. Hoje, já não sorria tanto. Não com amores, pelo menos. Tinha uma certa felicidade em estar só. Não era comodismo, era outra coisa. A solidão é mais imensa que o amor, porque o amor se divide. A solidão é só sua. E é tão imensa que às vezes aprisiona. Ela se sentia aprisionada dentro da própria solidão. Os passos mudos, os pensamentos rápidos, as músicas. Tudo muito dela, solitário, íntimo, indivisível. Uma paz. A paz de não depender de ninguém. Não esperar ligações, mensagens, e-mails, congratulações. Não ter que esperar jantares, rosas, beijos inesperados as cinco da tarde. Não ter que preparar a comida preferida, desejar 'boa sorte', 'bom trabalho' nem dizer "te cuida, garoto, o mundo é mal". Fora do amor era menos ciumenta, menos posse, menos cuidado com o outro. Bem mais com ela. Pequenos objetos novos fazendo um inventário novo, o inventário da solidão. Roupas compradas em liquidações na rua, livros, filmes, tickets de passeios solitários no cinema, cartões das cafeterias onde ia dividir cappucinos com creme com ela mesma, e fazer um balanço geral do dia. A solidão não cabe dentro da gente.

Sentiu então uma certa inveja daquela pessoa que um dia mereceu presentes, surpresas, declarações, cartas. Um certo rancor de si mesma de ter transformado tanta coisa repleta de significado em pequenos bibelôs espelhados pela casa. Bibelôs empoeirados, esquecidos, etiquetados com datas mentais e que sempre diziam "você já pôde ser feliz". E tinha sido. Mas sempre procurou uma espécie de felicidade completa e nada, nada a preenchia. Nem o emprego (razoavelmente bem sucedido), nem os amigos (vários, sempre presentes), muito menos as novas conquistas (costumava ser apaixonante). Tinha uma preguiça imensa de dividir sua vida com outra pessoa, ensaiar novos ritos, dar significado à novas coisas. Ficava ali, então. Ela, sua solidão amiga, os livros, os discos, as falsas demonstrações de afeto que costumavam vir de tempos em tempos, conforme a necessidade de um novo amor que raramente saia do campo platônico. É que as pessoas costumam ser extremamente desinteressantes quando chegam à luz da realidade. Quase feias. Esse amor ideal não existe, amor acontece no dia-a-dia. Acontece nos passeios de mãos dadas no mercado, quando resolvem trocar o almoço por nuggets. Amor acontece nos domingos à tarde deitados na cama olhando o teto e conversando sobre a vida. Amor acontece quando a gente não está prestando muita atenção, não está fazendo nada de muito grandioso. Nenhuma declaração muito ensaiada, nenhum presente muito caro. Amor é um troço cotidiano, nem tão bonito assim, porque é meio frágil. É mais ou menos como um arco íris, ou uma borboleta. Um dia acaba, ou se tocar muito fundo pode desintegrar. A última coisa que lembra, sobre um desses amores aconteceu na cama do quarto, quando os dois deitados não esboçavam mais emoção, só cansaço. As pernas entrelaçadas, os rostos colados e um eterno cansaço. O cansaço do fim do amor. De quem andou demais, esfolou os pés e de repente não sente mais forças pra continuar.

Mas as despedidas são bonitas. Os ritos, sempre os ritos. Um último beijo, a misericórdia, um gosto doce. Nenhum desses presentes sabia que um dia torna-se-ia bibelô. Enfeite de mesinha de centro, de cabeceira, empoeirado pelo tempo e pesado de tanta lembrança. Pegou um deles na mão, lembrou do momento. Talvez os significados ainda estivessem ali. O sentimento não. Mesmo que ainda existisse, existiria transmutado. E, além do mais, depois de tanta solidão ancestral nem tinha como tirar a poeira que o tempo deixou nos presentes - e no coração. Sentiu uma espécie de gratidão. Ao mundo, ao amor, ao sentimento, à ele. Queria deixar eternizado em algum lugar que já tinha sido feliz. Colou uma etiqueta embaixo de uma boneca, escreveu a data que se lembrava "por volta de setembro" e completou "alguém me fez feliz com isso". Botou de volta no lugar, limpou a poeira e sorriu. Tinha criado uma espécie de mausoléu para a felicidade. Que hoje jazia enterrada a sete palmos e tomava cada vez mais distância do amor.

4.2.10

Verbo corpo canção

"Pra ser sincero não espero de você
Mais do que educação
Beijos sem paixão, crimes sem castigo
Aperto de mão.
Apenas bons amigos.

Nós dois temos os mesmos defeitos
sabmos tudo a nosso respeito
Somos suspeitos de um crime perfeito
Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos

Um dia desses, num desses encontros casuais
Talvez a gente se encontre
Talvez a gente encontre expliacação
Um dia desses, num desses encontros causais
Talvez eu diga, minha amiga
Pra ser sincero, prazer em vê-la
Até mais."
(Engenheitos do hawaii in pra ser sincero)


(para o dia que o gessinger se fez carne)
Então foi assim. Eu pensei em você verbo e você me apareceu: corpo. A distância inenarrável entre o você, verbo, meu. E o você, corpo, sabe-se-lá-de-quem. Mas foi assim, logo depois do você-canção você se materializou em mim. Corpo. De todos os seus estados possíveis, existe esse com o qual eu não sei lidar. O você-corpo. Quando você existe verbo, sou eu quem te conto. Eu te escrevo, te domino, te dou vida com as palavras que são minhas. Então, você é meu. Quando você é canção, é a minha interpretação sobre o seu existir. Ainda é meu, de controle. Já o você-corpo sai por aí fazendo o que lhe cabe. Sorri, anda, e principalmente, não é meu. Não te controlo, não te faço sorrir pra quem eu quero e nem mesmo sei o que se passa dentro de você. No nosso instante encontro aconteceu assim, o verbo se fez carne. E eu só sei lidar com verbos, não com carnes. Se fez então o meu encontro causal, o nosso, coisa estranha. Você-verbo ainda morava em mim, você- canção ainda estava nos meus ouvidos. Você carne, em sua existencia bruta se fez assim, distância. A indiscutível distância entre dois corpos. Fria. Ali. Já não somos mais, apenas bons amigos. Mas serás pra sempre meu verbo, e minha canção. Pequeno grande pedaço eterno do meu ser; verbo, poesia, canção e corpo. Indivizivel.

23.7.09

E depois eu pergunto da distância.

(E você não sabe me responder. Porque ninguém sabe.)

E aí eu te pergunto da distância, dessa distância infeliz que se deu a gente não sabe como, nem quando, nem onde, mas que se deu. Te pergunto como foi acontecer isso, assim, entre a gente que sempre foi tão bonito, junto, reunido, perfeito e você não sabe me responder. Não te culpo, também não sei. Sei de vinte mil fatos aleatórios que nos fizeram chegar até aí, mas te responder com certeza, vai saber. E eu digo você da maneira mais abrangente possível, porque estou falando de milhares de pessoas que perdi entre meus dedos e que sei, não tem volta. Embora esteja também falando das que tem volta, das que consigo ver e sei que consigo resgatar (consigo?).

Justificativas sempre são e sempre serão inúteis e inválidas. Eu te digo que mudastes e aí me dizes que sou eu quem mudei, mas mudanças implicam tanto assim nos fatos de não conseguirmos mais existir juntos. Me ponho a pensar, porque, de coisas sinceras, sei que enxergaria tímida a menina de cabelos ruivos e roupas pretas que um dia já foi pra você a única companheira. penso em milhares de coisas diferentes, é verdade. talvez nem ache mais graça das mesmas piadas, mas de tantas afinidades um dia existentes não sobraram nenhuma? aí me ponho a pensar e vejo que em você eu não enxergo mais meu porto seguro, porque nos seus olhos isso não existe mais e consigo perceber que foi ali que tudo se perdeu. nao consigo mais confiar na sinceridade e por mais que eu minta, eu sempre tenho em mim uma aura de coisas que não me deixam mentir. pra você, eu não consegueria. Existem coisas que quebram e marcam de um jeito que se tornam então, inapagáveis. E eu não guardo mágoas, mas sei que eu não enxergarei mais aquilo que enxergava em ti e assim, não existe mais jeito de existir.

Se penso em outras pessoas então, vejo que daí podemos nos afastar pelos motivos mais bobos possíveis, e aí culpamos a falta de tempo e os afazeres tantos de todo dia, mas é bem verdade que se quiséssemos mesmo eu teria ido te visitar, ou terias vindo e eu nem teria prometido ligar em vão. tenho que dizer que as vezes falta esforço e isso não significa que tenha deixado de amar todos vocês que um dia foram tudo para mim. Acho que não se deixa de amar ninguém assim. não depois de anos de convivência e sem nenhuma partida bruta. mas acho que as maiores distâncias são mesmo feitas das partidas sutis, porque pouco a pouco a gente acha que já nadou demais para poder voltar a costa, e acaba atracando em outro porto, meio que sentindo saudades, mas meio que deixando de lembrar.

Se penso em vocês que estão todos os dias, aí sei bem que não sei o que dizer, e te pergunto das distâncias e irão então me dizer que não existe distância, porque não há de existir distãncia entre pessoas que todo o dia se vêem. ai eu te digo então que essa é das piores, porque mascaramos tão bem o fato de já não estarmos próximos que fingimos então não existir distância alguma, quando de fato existe. e caímos num abismo tão disfarçado que quando percebemos estamos lá, sozinhos em meio a vinte e cinco pessoas conhecidas. sozinhos em meio as pessoas mais próximas. e sei então que teríamos que nos juntar e conversar e perceber que tudo que está errado pode ser consertado, porque ainda encontramos em nós mesmos razões para permanecermos e se existe razões é porque ainda existe sentimento, e posso então te dizer que o sentimento é maior do que as coisas menores que sentimos, mas isso em teoria.

Na prática exuste rancor e uma pequena (grande?) predisposição à aceitar o que é fácil, sem esforço, que acontece lindamente por simplesmente acontecer. sem manutenção, eu te digo, as coisas bonitas não acontecem. quer dizer, não permanecem. e estamos todos meio perdidos procurando por coisas que durem, mas nao sabemos permanecer. pois eis então que nos deixamos, estamos nos deixando em busca de parar em outro porto qualquer porque começar de novo parece mais fácil do que reparar os nossos próprios erros.

E eu estou te dizendo da distância entre nós, e aí você me pergunta porque não podemos olhar por outro lado e eu te respondo que se eu soubesse eu poderia ser tão mais feliz e não carregar em mim o buraco de todas as pessoas que deveriam ter permanecido e se foram, e nem estaria com o consaço ancestral das perdas inúteis que se fazem durante a vida; e tampouco comeria tanto chocolate e pensaria num sonho tão simples quanto uma madrugada sem nada, só com cobertores e conversas, sem nada em troca.

E então te digo, que sei, que quando se precisa de coisas pequenas demais é porque se sente dores grandes demais. Sei que sentimos. Sei que pergunto da distância entre nós, e você não sabe me responder, porque ninguém sabe. Mas no fundo, todos sentimos pungentes e queríamos continuar de um outro jeito, de um outro modo, e caímos estatelados e sozinhos querendo um mundo todo, quando nos contentaríamos com um pedacinho só. Aquele pedaço colorido que você sempre sonhou e já teve, mas que deixou passar, assim, sem perceber. E que agora teme pegar de volta, porque é cheio de orgulhos bobos e mente ter se acostumado com essa distância, essa distância entre nós que você diz que nem existe.


(mas sabe que ali está.)

E a gente está falando é de mudanças.

( e distâncias.)

Se me disessem a cinco anos atrás que eu estaria levando a vida que estou vivendo hoje, juro que não teria como conceber. seria de rir e gritar que era mentira, porque hpa cinco anos atrás minha cabeça não se parecia em nada com essa e meus sonhos eram outros. Sempre se sonha com coisas grandiosas e estranhas quando se tem quatorze ou quinze anos, porque com quatorze ou quinze anos o mundo nem cabe dentro da gente. O meu não cabia, e eu queria abraçar tudo, e tudo ao mesmo tempo. agora. Foi assim anos a frente até uns dois anos atrás quando sosseguei.

Eu não existo mais. Algumas pessoas vivem dizendo que eu mudei, eu sorrio e digo, ora, mas mudastes também, todo mundo muda um dia. quando a gente é jovenzinho demais, tudo que a gente quer é ser de extremos. eu era. das músicas aos olhos pretos e aos all-stares sujos e furados, sempre fui de extremos. podemos dizer que ainda sou e tudo seria assim, a gente não muda nunca. mas muda sim.

hoje ouço outras músicas, estou cercada de outras gentes, me visto de outro jeito. tenho listas de livros que li e lista de livros pra ler. perdi minha concentração e minha vontade de abraçar o mundo. e aí você me pergunta como? e eu digo que meu mundo diminuiu. meu mundo agora não espera ir pra inglaterra, conhecer o mundo todo e ser complemente independente. sabe; ser independente é tantas vezes ser sozinha, e isso de solidão já não comina mais comigo. já combinou. hoje não sei mais ser auto-suficiente e preciso de alguem pra deitar junto comigo, pra segurar a minha mão, pra dizer que tudo vai estar bem. Meu mundo diminuiu porque hoje eu sepero muito mais felicidades pequenas do que grandes. felicidade é coisa pequena. é ter minha casa, ali, decoradinha, é casar e ter dois filhos. é ter meu emprego, e fazer o que eu gosto. pra ser feliz a gente não precisa ser grande. a gente só precisa de um mundo que caiba dentro da gente, que caiba direitinho, que caiba.

Sempre vou gostar disso que a gente é em essencia. é isso que vai sempre me encantar. é aquilo que a gente vai sempre poder enxergar nos olhos dos outros, mesmo que se passem anos e cabelos branqueiem e que as roupas todas mudem, e os gostos por músicas, e escritores, e cores, sabores, tudo isso. tem coisas em mim que eu sei que não morrerão jamais. e é isso que eu sempre vou amar. gostos são gostos, mas ser é maior que isso. gostos mudam, mas o que a gente é, o que faz a gente ser, permanece. tudo tão clichê.

Estou tão feitas de distâncias que se eu pudesse contar eu nem consegueria. Todas essas mudanças criam afastamentos incriveis, grandes, do tamanho de abismos. tem gente que nem volta mais pra gente. tem dia que a gente acorda e pensa que podia estar todo mundo junto, reunido, porque a gente tinha que estar juntos sempre. mas todo mundo muda um pouco, e aquilo que juntava as afinidades não sobram mais. não é culpa de ninguém, só acontece. dói. mas aí sobram as saudades, que é pra gente lembrar sempre.

Nós estamos falando é de mudanças, de distências de coisas que acontecem na vida de todo mundo.De coisas que não são poéticas, nem bonitas e nem dão um texto bom, mas que são. E que a gente precisa relembrar, de vez em quando, porque tudo muda, até meu jeito de me contar. às vezes. Só às vezes.

10.7.09

Carta à minha menina.

Vejo uma menina, num avião saindo. Menina que olha tímida, cheia de saudades. Menina que provavelmente vai se lembrar de um 'leitê quentê' de uma noite atrás e rir um pouco, sozinha, sem deixar nem espaço pra pessoa senta ali do seu lado entender do que se trata. Menina que hoje, dia dez de julho de dois mil e oito, deixa pra trás aquilo que um dia já foi seu maior sonho. Já foi, porque hoje não é mais. Hoje essa menina espera por coisas maiores. Seu coração suburbano sempre esperou riquezas maiores, e ela sempre soube. E logo logo vai descer do avião pra pisar concreta no que é só o começo da sua nova vida. Dessa nova vida sonhada e (quase) concreta que a menina de cabelos loiros e olhos verdes começa(rá) a viver. Sempre torci por essa menina, minha menina. Menina que conhci aos dezessete anos, vinda de cidade de interior, cheia cheia de sonhos, tão parecida comigo que chegava a doer. Conheci e tivemos identificação imediata, não tinha como ser de outro modo. Torci por todos os sonhos da menina. Os dela, os nossos. Os grandes, os pequenos. Torcíamos juntas, porque ela também sempre torceu por mim. Vi minha menina crescer e criar asas. Vi projeções de filhos, família, que não foram, porque não eram pra ser. Vi-a saltando vôo, chegando em Curitiba estranha, se acostumando. Vi a menina que passa no vestibular e fica feliz. Depois participei das frustrações da menina, porque tinha sonhado errado, todo mundo sonha errado algum dia. Minha menina precisava se encontrar com aquela partinha dela que sempre existiu. Partezinha que faz a gente ser feliz. E então ela descobriu que o que a fazia feliz era outro sonho. Então se permitiu sonhar de novo, porque todo mundo tem uma segunda chance. Agora vejo minha menina crescida, correndo atrás daquilo que quer, sem medo nenhum de ser feliz. Ela já está sendo feliz. Eu torço pela minha menina, assim como torço por mim mesma. Quero vê-la brilhante, toda cheia de si com seu sonho realizado. Crianças, Aprendizado, Família. Marido, Filhos, uma casa feliz. Uma vida simples, mas completa, do jeito que ela sempre quis. Minha menina Manuelli foi voar pra (mais) longe. Mas foi porque ela quer ser feliz, e ela sendo feliz, eu vou estar feliz também. Então a deixo ir, livre e contente, porque estarei com ela, sonhando junto o sonho ela, e realizada quando ela realizar cada partezinha dele. Estaremos longe, mas não existe longe pra quem já vive aqui dentro. E minha menina Manuelli vai sempre viver aqui dentro, bom humor e sorrisos de quando a gente tinha dezessete anos e só sabia sonhar. Vai viver aqui dentro porque é uma das pessoas que eu mais amo nesse mundo. E as pessoas que a gente ama, vivem para sempre.

Toda a sorte do mundo pra você, amiga, cumadi, parceira. Eu vou torcer por você sempre.
Te amo ;*





. Manuelli Kölln é minha amiga e comparsa há quase três anos completos e está se mudando para o mato grosso, para goiânia, coisa bem longe daqui para tentar a felicidade perto da família, da pedagogia, das crianças um tico mais perto do namorado. Deixa Curitiba cheia de saudades, e fica mais longe ainda da amiga que vos fala, mas estará feliz e em boas mãos. Assim espero. Se ela estiver feliz, assim estarei também por ela. Obrigada por tudo, toda a sorte do mundo. Porque amiga assim é pra poucas, e eu ganhei. (:

26.6.09

Mesmo que mude

Vocês estão ficando todos diferentes e eu estou sentindo vazio de existir. Queria pegar cada um de vocês e dizer o tudo e tanto que a gente às vezes precisa que seja dito para que a gente possa se encontrar com aquele pedacinho da gente que não muda nunca. Gosto dos teus pedacinhos que não mudam nunca. Gosto mais desses do que de qualquer outro pedaço que venha a existir, ainda que novo, ainda que belo, e mesmo que sublime. Vou gostar sempre do que as pessoas são em essência. E vou sempre amar apesar de, porque sempre achei amar por causa de, fácil demais.

Sei de poucas coisas. De dias chuvosos que me invadem, de saudades pouco transparentes e de dúvidas grandes, dessas de fazer ponto de interrogação cair na cabeça de qualquer um. Queria ser feliz, daquele jeito e tanto, de novo. Sinto saudades de velhas tardes empoeiradas com cheiro de torta de liquidificador que aconteciam toda semana, cheias de risos nervosos e sinceros, e quem sabe, um pouco de ciúmes. Sei daquilo tudo que aquilo era a gente existindo completo, existindo em quatro jeitos de existir diferentes mas que formavam um só. Gosto, sempre gostei, vou continuar a gostar até que não exista mais jeito de existir.

E sinto nos ossos essas mudanças brutas. Um dia a gente acorda e perde tudo aquilo que nos fazia feliz e não sabe nem mesmo dizer como, ou porquê. Agora eu sei de cada um de nós perdido numa coisa diferente que nunca nos pertenceu, mas nos fingimos felizes e inteiros, leais e amigos, como sempre fomos, mas não somos mais, apesar do fato que seremos sempre. Preciso dizer que amo cada pedaço que existe em cada uma dessas três pessoas que são pra mim o de mais precioso vivendo perto. E mesmo que se sinta a necessidade de um dia sentar e dizer tudo aquilo que sempre precisou ser dito mas que será entendido com olhares, a gente sabe da certeza, eu pelo menos sempre sei da certeza daquela música empoeirada, que isso que a gente sente, ou que eu sinto vai ser sempre amor (daquele mais genuíno) mesmo que mude.

Que nunca nos afastemos, é só o que eu preciso ter certeza. Amarei sempre os três pedaços mais importantes dessa mesa que me faz existir, sem vocês sou manca, digo e repito e além de todo o mais, pre-ci-so.

23.5.09

Vazio de presença.

Eu só queria que você voltasse a ser o que você sempre foi.

4.5.09

Pra você-mim.

( porque a ordem dos fatores nunca altera nada)

Tenho pensado muito naquilo que você me disse numa dessas conversas que a gente sempre tem. Tenho pensando muito nas coisas que eu te disse também, porque conversar com você é como conversar comigo mesma e acho que você sente mais ou menos da mesma forma. Nunca te olho nos olhos e estamos sempre tão tão distantes que já nem percebemos. Não sabemos existir de outra maneira e que assim seja. Para amizades não existirão nunca fronteiras ou limites. Sei perfeitamente que posso ficar um mês sem saber de ti, e quando voltares será exatamente como aquele domingo perdido em meados de 2006, quando nos encontramos sem querer. Sem querer porque assim foi, sempre quis te encontrar. Sempre. Só que não sabia. E agora que a tenho sei que o existir com você é mais completo. Já não sei mais ser eu que não seja sem você.

Em todo caso, tenho pensado muito. Não só nas coisas que você disse, mas principalmente naquelas que você me obriga a pensar. Você sabe e eu não preciso te dizer o quanto vivo confusa e impaciente, e o quanto nunca sei o que fazer da minha vida. Você não tem a receita pra me curar disso, porque se tivesse já tinha se curado também. Creio que não viveríamos padecendo do mal das incertezas e instisfações se não tivéssemos. Não temos vocação pro auto-fragelamento, é o que eu acho. Tenho pensado no que conversamos sobre amores e em tudo aquilo que a gente acredita que é e tem que ser. Você sempre me diz parafraseando a banda que eu não gosto muito ' pra eu não me preocupar, ter fé e ver coragem no amor'. Agora é você quem me diz isso. Sempre sempre diz que sim, existe, logo ali, ou não, alguém com quem a gente se sinta totalmente completo e perfeito. A gente sempre acreditou nisso. às vezes a gente trocava e quem te dizia que isso existia e estava logo ali adiante, um pouquinho pra frente na linha da vida era eu. A gente vive trocando de papéis. Eu gosto assim.

A gente continua acreditando que isso existe. A gente sempre vai acreditar. Sofremos do mal que não tem cura. Temos esperança. Um dia a gente morre disso. Mas morre feliz.

Lembro de ti também me dizendo que nós eramos diferentes. Vive tilintando na minha cabeça essa coisa toda de existirem mundos diferentes e de repente você simplesmente não ter feito e não poder fazer parte do mundo em que a outra pessoa vive, ou pertence. Eu sou tão interiorana que dói. Nunca admito, minha cidade tem meio milhão de pessoas. Mas sou. Gosto de chá com bolachas, de café, de cappucino. Gosto de primo rodando e correndo na mesa, gosto de colo, da família unida, das brigas ocasionais. Gosto de ficar em casa vendo tv. Passei minha adolescência toda revezando entre casa de amigos e shopping, a gente nunca teve vida noturna. Foi você que me disse, que a gente daqui nem tem acesso à essas coisas. Como é que a gente ia ser alternativa aos 15 anos? Não dava. Ainda bem que não deu.

Aí me dei conta que aprendi com você que onde a gente vive e com quem é quem forma quem a gente é. E não adianta tentar mudar, nçao adianta esperniar muito. A gente tem aquilo que chama de essencia. E são pessoas com as mesmas essências que nós que causarão em nós identificações imediatas e posteriores. Porque identificações imediatas são fáceis. Você é igualzinho milhares de pessoas nas superficialidades. Mas ser igual, conocrdar mesmo naquilo que importa, a gente conta nos dedos quantas pessoas são.

Te digo que com você tenho a identificação posterior maior e mais valiosa. Mas não estou falando disso, estou falando de você existir e me fazer pensar. Estou falando da nossa "origem humilde" ter nos feito parecidas, mesmo estando tão separadas. Estou falando da força que você me dá e de tudo que podemos enxergar juntas. Disse hoje pra alguém, que pra viver mil anos com alguém é preciso que os defeitos dessa pessoa não te irrite de forma que você não aguente. Os defeitos estão ali, você enxerga, mas deixa passar. Se pessoas assim existem? existem. Não estão por aí aos baldes, mas existem.

Na minha vida, uma delas é você. E eu nem comecei querendo falar de você. Comecei querendo falar disso que tenho pensado por sua causa porque você sempre me faz enxergar alguma coisa nova em cada conversa que a gente tem. Quis falar de mim, mas falar de mim é de certa forma falar de você. Das minhas poucas certezas, sei da minha identificação total com você e de nosso futuro de família interiorana e unida, com direito a cumadragem. Sei que em essencia somos isso, e é isso que esperamos. Eu espero também ser feliz, e te espero feliz. Eu te gosto, te cuido e me preocupo contigo. Assim como alguém se preocupa consigo mesmo. És parte de mim, Manuelli. Parte importante e indispensável. Parte que eu amo e à quem entrego os meus mais sinceros sentimentos de amizade e consideração e mais que isso, e mais, e tudo e um obrigada para completar.

1.5.09

para guardar em caixinhas.

eu nunca fui sua, mas você ainda é meu. Queria te guardar numa dessas caixinhas e abrir de vez em quando pra você me fazer rir com essa brincadeira de ser prepotente, pequeno gênio incompreendido. Nunca fomos. Não chegamos a. desisti, saí correndo, copos pelo chão e você nem precisou de explicações. Acordo mútuo entre bons amigos que sempre fomos, antes mesmo de querermos um dia, quem saber - ser. ser aquilo, bonito, duas pessoas solteiras, dois traumas passados, um novo-amor-quem-sabe-ele-é-tão-legal. um-novo-amor-quem-sabe-ela-é-tão-divertida. Te quero longe e muito perto. Minha dualidade necessária, garoto-problema predileto, aquele que eu adoro ignorar entre piadas em graça, coisas que são só suas e gostos que são só nossos. Criança grande, sonhador perdido, abraço alto, pra eu por um dia que seja me sentir quase pequenina. Adoro suas risadas altas, daquele jeito. adoro a sua total falta de jeito e a não cordialidade quase que ensaiada que vive flertando comigo. quase finjo ignorar sua mania de estar assim, como se sempre estivesse e tudo fosse seu. te gosto tanto tanto tanto e tantos tanto quiseres. te cuido. te guardo. me preocupo mais do que deveria e adoro. me fazes sorrir. tu talvez nunca mais seja meu. mas ainda seremos nós. amigos totais e fiéis.

28.4.09

Joy and I, and a little conversation.

Larissa. diz:
você imagine, eles fazem design.
Alain .:: [ah2] ::. Ocular diz:
quebraram as quatro linhas do gramado, eu aposto.
Alain .:: [ah2] ::. Ocular diz:
gramado bom, que eu deito e rolo.
Larissa. diz:
é, eles até tentaram me acanhar, mas eu não sou tacanha.
Alain .:: [ah2] ::. Ocular diz:
eu não queria bancar o bom rapaishhhhhhhhhhhh,
Alain .:: [ah2] ::. Ocular diz:
mas um conto sobre seus colegas mal não faz.
Alain .:: [ah2] ::. Ocular diz:
como foi?


Só pra deixar resgistrado que existe alguém, logo ali, que possui as mesmas linhas de humor, os mesmos problemas estanhos, as mesmas visões. Alguém como eu, só que diferente. Alguém em que nada existe, porque existe tudo. Em que tudo existe, porque não existe mais nada. Alguém por quem eu nutro meus mais bonitos sentimentos de proteção admiração, vindos do fundo do peito de uma pesssoa que não aprendeu a amar, mas tenta. Assim como todos nós, ou ninguém. Pelo menos como nós dois.

A minha consideração ao brother, Gramado bom em que eu deito e rolo e sou artilheira.

14.1.09

às minhas metades.

à vocês dois.
( pequena sonata para quem tentou salvar meu dia.)

ao meu casal importante, dedico versos bobos e vãos. sei que não são um casal, não existem juntos, nem se conhecem para que eu possa dizer a grande verdade, mas existem dentro de mim e em minha vida totalmente completos.

à você, amiga, teria que escrever parágrafos e parágrafos sem fim para tentar sem sucesso dizer o tanto que és dentro de mim e fora e em todos os lados em que habita porque você é uma coisa que eu não sei explicar. já te disse tantas vezes, a gente já disse uma a outra tantas vezes que só pode agradecer muito a essa força maior estranha que nos uniu em uma tarde de domingo em que não deveríamos nem estar ali. pois agradeço todos os dias por ter um dia sido presente na sua vida desse jeito que assim somos, porque mesmo que não estejas perto de mim eu sei que estará pronta pra me ouvir tão logo eu te mande uma mensagem, ou um recado, ou te ligue desesperada dizendo que alguma coisa em mim quebrou. não sei disfarçar nada de ti, não sei te mentir, vivo te dizendo quando não estou bem e tenho o maior prazer em me abrir completa pra você que é a irmã que eu não tive, a amiga presente sempre sempre que eu precisar. confio tanto em você, daquele jeito que nunca confiei em ninguém eu acho. e no meu dia péssimo estavas ali de janela verde pronta pra me escutar e pra me ouvir dizer e pra dizermos juntas o quanto temos sorte de um dia termos nos encontrado por aí, nas esquinas sinuosas da vida e o quanto esperamos pelo encontro nosso e temos tanta tanta coisa pra fazer juntas ainda. tanta tanta coisa pra passar juntas. tantas cocas cola com conversas sem fim e brócolis e a coisa toda. você não está aqui, eu desejei que estivesse, desejei forte mesmo que estivesse aqui comigo enquanto me sentia abandonada, mas de algum jeito sei que estaria. nem que fosse só pra te mandar que eu estou me sentindo uma merda e saber que mesmo que não respondesse de pronto se preocuparia comigo e viria com o doce " nós temos muito o que conversar". você também coloca muitos sorrisos em finais de tarde, de noite em mim, tenho que te dizer. e o maior deles, manuelli, é por ser essa amiga foda e presente sempre sempre. e mesmo que não tão presente quando as circustâncias se mostram maiores tenho o sorriso grande e bonito só de saber que alguém longe sim, mas existente é a minha amiga-espelho, a minha amiga que não me olha com cara de reprovação, a minha amiga que é amiga em todo o sentido da palavra e que vive provando cada dia mais o quanto eu quero que seja pra sempre, dia após dia. só um grande e ruidoso OBRIGADA POR TUDO. eu sinceramente não sei mais o que seria da minha vida sem você do outro lado da tela e dentro da minha vida.

à você, que porra, seu depressivo do caramba, vou dizer o quê? não sei ser sentimental contigo, apesar de saberes mais que ninguém o quanto eu posso ser absolutamente sensível a maior parte das vezes. tenho que agradecer, teria que o fazer diariamente, porque você me ajuda inclusive quando não sabe o que dizer. eu te entendo tanto, por mais que vivam dizendo que a gente é diferente, que eu te transformei em algo ou que a gente ficou essa coisa assim, estranha, reclusa, quieta. mas não teria, mesmo que eu tivesse inventado alguém capaz de completar as frases que eu penso e ninguém nunca completou. sempre te mando alguma coisa do tipo bem brother, como " te considero pra caramba", mas a verdade é que isso não mostra nem metade do que você realmente é pra mim. já tive com você conversas que valeram a minha vida toda, que me fizeram me entender por inteiro. já fiquei noites acordadas, já passei horas no telefone, já passei dias inteiros dividindo coca no império capitalista chamado shopping sem nem pensar em ir embora, discutindo tantas coisas quanto podia imaginar e sem filtro. porque pra você só digo as coisas que vêm a minha cabeça e transformo em palavras, linha após linha, sem medo do que pode acontecer depois. porque você, mesmo que não saiba o que me falar, mesmo que não tenha a solução pra metade dos meus problemas ( eu nunca esperei que tivesse, eu mesma não as tenho) está ali do meu lado, telefone ligado, ouvidos abertos, passos prontos pra me encontrar quando eu estou visivelmente desabando, ou não. pra tudo. pras coisas mais sérias, as minhas bobeiras, as suas bobeiras, e as nossas paranóias e tristezas tão grandes que não sabem em nós por isso dividimos. te gosto de um jeito que eu realmente não consigo explicar e te agradeço por estar comigo tanto tanto e sempre e por todas as coisas que jpa fez, faz e eu tenho certeza que ainda farás por mim e eu sei que também farei por você. mais que amizade, quase uma parceria, sou absurdamente feliz de ter com quem dividir e ainda bem que é com você, llamparino.


um sincero obrigada pra vocês que nem sabem, mas me fizeram sentir um pouco menos abandonada nesse dia que parecia não terminar nunca.

15.10.08

Porque ( é esse porque que usa?) hoje foi um dia essencialmente de saudades.

Onde foi que a gente foi se perder?

Faz calor. Qualquer ser humano em pleno estado de consciência odeia esse tempo. Qualquer ser humano fica imprestável. Qualquer ser humano fica sedento por banhos e copos de água, e não de coca cola, que loucura. Seres humanos como eu, aproveitam o ar condicionado do shopping e tomam coca.

Não sozinha. Isso de não ter companhia é deprimente principalmente em dias calorentos, sudorentos, febris (ainda) e com pessoas devorando batatas recheadas com pouco recheio por todos os lados. Eu só senti saudades, o dia todo, a conversa toda. Eu só conseguia tentar me lembrar ondeéqueagentefoiseperder.

Eu não sei. Não sei o dia exato, não sei a sucessão dos fatos. Mas primeiro foram vocês dois. De jantares semanais com baralho à nada. Tudo virou nada, nenhum contato, nenhum telefonema e raproximações sem sucesso. A gente se perdeu, eu não sei onde, eu não sei como nem quando. Mas parece não ter mais volta. Nem panquecas com frango, duas garrafas de coca cola, carrot cake and wine, jogos de menino, proteção dos meninos, filmes de meninos e visitas persistentes e necessárias, com pipoca. A gente perdeu. Isso ficou ali, guardado na minha sala junto com as músicas bregas que a gente nunca mais cantou. Ficaram as saudades. Acho que a gente já se perdeu demais pra poder voltar. Eu acho que eu quero estar tão errada que chegue a ser feio.

E depois foi você, dadas as sucessões dos fatos, eu não sei que dia, que dia depois dela que a gente nunca mais trocou mais do que oi. Eu gosto tanto de você. Sabe, é daqueles amigos que eu queria pro resto da minha vida. Eu gosto das conversas e das preocupações provocações e eu odeio o seu jeito ridículo de se portar diante dos fatos, eu odiava resolver seus problemas, suas posturas infantis, seu ar superior, as infantilidades e as piadas sem graça e é de tudo isso que eu sinto saudades. A gente ainda não se perdeu. E eu fico colocando bandeirinhas brancas e fico pensando que não podia e não vai poder acabar assim, não por isso, por aquilo, por essas coisas bobas que não levam ninguém a lugar nenhum. Não porque a minha vida era uma chiquititas e porque alguma coisa ficou podre ali no meio e eu nem tinha nada a ver com isso. Eu fiquei pensando que tem volta, tem que ter volta, não faz sentido. Amizades não se acabam assim, no meio do nada, por nada, não é possível. Eu não quero que seja. Cansei de perder pessoas por não fazer manutenção.

Isso é só o que eu lembro hoje, mas as coisas foram se perdendo, eu fui me perdendo, a gente foi se perdendo. Sobrou a gente ali, duas coca colas, bolachas de chocolate e conversas sem fim sobre como a vida é meio boba e sem sentido. Sobre como é que a gente foi se perder deles, dele, de todo mundo. De como não existem mais tardes de sexta feira felizes, de como os sábados vêm sendo trocados por outros programas com outras pessoas e a gente ficou. A gente ficou ali, dois velhos de vinte anos reclamando que a vida já foi melhor, as sextas feiras mais felizes e os sábados mais cheios. Reclamando que a gente nunca mais fez comentários sobre como um pouco de bacon pode custar 1,20 e isso é um absurdo, reclamando porque deve fazer meses desde o último macarrão e a gente nem lembra quando e porque direito a gente foi se perder. Mas a gente se perdeu, um dia, foi gradativo. A gente só espera que tenha volta, porque esperança é nosso vício, sempre foi e acabar é normal na minha e na sua vida, só que não faz mais sentido, não tem razão de ser, enjoou.

Entre as outras saudades a necessidade do estar junto ali, fisicamente, beijos, abraços, colo e conversa de perto. Loucura, ainda sinto seu cheiro, seu gosto, seu beijo. Cada parte dessa casa e de mim tem um pedaço seu. Já me imaginou estar descontrolada? Eu, assim, saudades invadindo e não é como se fosse ruim. É só saber que certa presença é necessária, precisa, quase que impressíndivel e que deixar você ir embora vai ser cada vez mais difícil, mas tudo bem, estamos chegando cada dia mais perto, ainda que a passos lentos do dia que você não vai embora e nem eu vou. A gente eu sei que não está se perdendo, não vai se perder, não agora. Eu não quero, não deixo, eu te aperto forte, eu faço você ficar, eu te amo tanto tanto e isso é meio novo pra mim. é sempre assim, uma semana de " eu não gosto quando você vai embora". Eu nunca vou gostar. Mas bagunçaram o tempo-espaço e eu acostumo, o importante é a gente ter se conhecido, o importante é a gente não ter se perdido do caminho certo e ter se encontrado. O importante é eu, fora do prumo, do jeito, um pouco menos racional, mas nunca tão feliz, eu só te amo, você eu não perco.

É só um dia de saudades, perdas, coca-cola, chocolate, muito calor e um pouco de manha pra fazer passar. Mas essencialmente, saudades.

3.7.08

amigoamigo.

São quatro horas da tarde, quarta feira fria e ensolarada, coisas típicas do sul do Brasil, norte do paraná, mas mais são paulo do que qualquer coisa. um copo de fanta vazio do meu lado, às vezes eu esqueço que fanta depois de enxaguante bucal ( é esse o nome daquelas coisas coloridas que ardem quando você passa na boca e que deixam você com hálito bom?) deixa a fanta amarga. talvez porque eu não goste muito de fanta e muito menos tenha costume de usar enxaguante bucal, principalmente esse vermelho que tem um gosto estranho que não é cereja nem morango e ainda arde a boca da gente. flúor sempre me fez enjoar. desde pequena. fluór e a vida.

Uma dor de garganta que não passa, que agora está passando pros ouvidos e um sono que eu não consegui deixar. cochilei quando não devia e quando podia dormir o sono foi embora, assim como é tudo na minha vida. quando eu não devo eu faço, quando eu posso não dá certo, ou eu não consigo.

zapeei a televisão umas várias vezes, acabei parando num desses programas de tarde em que resolvem os problemas dos outros. eu também precisava de alguém pra resolver meus problemas. às vezes eu fico pensando se aquela mulher compreensiva da televisão também me entenderia se eu fosse lá e sentasse naquela cadeira desconfortável e começasse a contar todos os meus problemas. eu acho que não. ou talvez sim. no fundo eu nem sou tão complicada assim.

eu ouço música ruim e falo de amor, eu acredito em amor e com certeza isso não é nenhum pecado. sou brega, perco as chaves, estou sempre atrasada, tenho gosto de cabo de guarda chuva na boca todo dia, um cabelo desbotado e uma total falta de jeito com as pessoas. as coisas que eu escrevo nunca saem as mesmas quando eu chego no fim. eu sou uma pessoa como qualquer outra e eu pareço assim.

mas eu pareço mais com aquela moça da televisão do que com as pessoas que ela ajuda. tem sempre alguém sentado em alguma cadeira na minha frente esperando a minha ajuda. hoje foi você. tem sido você naquela cadeira há algum tempo e a gente nem se conhece tanto assim. mas na minha manhã estranha e sonolenta eu achei tudo tão bonito. não tudo, mas aquela parte, aquela parte que não durou nem dez minutos, essa coisa de você confiar em mim e tudo mais, eu nunca fui confiável, sabe? eu acabo me sentindo feliz em te fazer sorrir, dois minutos no meio dessa loucura toda que é a minha e a sua vida.

eu me irrito com os seus problemas sim, eu finjo levar tudo com uma grande brincadeira e às vezes você me deixa tão tão nervosa... eu fico com vontade de pegar pelo braço e te dizer " pelo amor de Deus, não faz isso". eu rio na sua cara e eu acabo falando verdades que te deixam com aquela cara de quem acha que eu nem me importo com você. eu só digo as coisas porque eu gosto tantotanto de você e você é tãotão parte da minha vida que eu só quero que você seja feliz, assim, de verdade. talvez do jeito que nem eu sou. queria que você encontrasse o amor que procura, que fosse supersuper bem sucedido e que daqui há dez anos você fosse jantar lá em casa e a gente conversasse sobre a nossa vida enquanto você toma cerveja com meu marido.

eu só queria sair com você e ver a gente contar nossas mil alegrias ao invés de toda vez sentar no banco e depois ficarmos os dois comentando o quanto aquela conversa nos fez perceber que o mundo é uma porcaria e que a gente só queria ser felizfeliz uma horinha que fosse. eu queria pegar no seu braço e dizer que a gente ainda vai ser felizfeliz um tempo grandegrande, infantil assim e repetindo palavras.

eu só queria mesmo que você soubesse que amizade é isso daí, é olhar no olho e ver confiança e é sentar do seu lado e ver que eu posso falar tudotudo, é sair pra fazer coisas que eu não faria sozinha tendo certeza que vai ser divertido, nem que seja porque você vai fazer alguma porcaria, eu vou derrubar alguma coisa e a gente vai rir. eu nem falo isso, você sabe, eu sou ruimruim com sentimentos, você também é um merda com isso e deve ser por isso que no fim das contas, entre estranhezas, afastamentos e voltas a gente se dá tão bem.

mas eu preciso te dizer que eu vou ser a pessoa na frente da sua cadeira quando você precisar e vou até fazer cara de compreensiva mesmo você me achando uma víbora ás vezes. se tem alguém que eu tenho o maior orgulho e a maior vergonha de ser amigaamiga esse alguém é você e eu te gosto muitomuito porque dizer amo é sentimental demais pra mim, mas é verdade. verdadeverdade.

13.2.08

Conversa no parque.

Oi. Você quer mesmo conversar comigo é? Não, eu não sei se é uma boa idéia não, moço. Eu posso começar a chorar e tudo mais. É, moço, eu sei eu já estou chorando e tudo. Por isso que você veio conversar comigo? Não foi pena. É, eu sei que não foi. Você não tem cara daquelas pessoas que sentem pena das outras não. Não, não tô te chamando de frio nem nada não viu?! Você só não tem cara daquelas pessoas que ficam por ai como livros de auto-ajuda ambulantes pensando em salvar a humanidade. Eu também acho essas pessoas chatas, sim. É que elas querem se sentir bem com elas mesmas, ai elas ficam tentando ajudar o universo, mas é pra salvar elas mesmas. Guilherme, posso te chamar de Guilherme, então? É, é melhor que chamar de moço, sim. Eu me chamo Natália. Bem nome de menina frágil, né moço? Desculpa, Guilherme. Ainda mais quando insistem em chamar de Nati e coisa e tal. Não, pode chamar de nati se quiser, só digo que pareço mais menina frágil com esse apelido. Ah, dezenove anos, guilherme. É, eu tenho cara de quinze, todo mundo me fala isso, mas tenho dezenove mesmo. Anham, faço faculdade sim, é, publicidade. nada a ver comigo não. eu sou toda a favor do direito das nações e resolvo fazer publicidade. Ah, sei lá sabe? tem coisas que a gente fica fazendo porque sei lá. Se é por isso que eu tô triste? Não é não, Guilherme. Pode chamar de Gui? meio que economiza espaço. então tá. gui, não é por isso não, nem gosto da minha faculdade mas isso a gente acostuma. minha vida é que anda meio mal das pernas. é, faz algum tempo sim, mas hoje que eu percebi. anham, eu venho aqui sempre quando tô mal. você já viu? nunca te vi não, eu nem olho pro mundo quando eu tô triste, tá todo mundo contente, sabe? meio que irrita. é sim, que nem naquele filme sim, queria que parassem os automóveis. é, pra passar com a minha dor. O que foi? tô mal, guilherme. naqueles dias que a vida dói, me entende? Anham, nada de muito especial não. é quando você para pra pensar e tudo fica sem sentido. O que? tudo gui, tudo. de repente eu paro e penso, o que eu tenho da vida? uns poucos amigos. pouquissimos que se preocupam de verdade. Chato mesmo. pra você ter idéia teve um deles que nem parabéns me deu, eles meio que se preocupam com outras coisas agora. Não, não sabem conciliar coisas novas e as velhas não. É, é um problema. Não, não é só isso não. Me sinto uma coisinha deixada num canto. ninguem presta muita atenção se eu estou respirando ou não. Namorado? tenho sim. mas ele tá longe. Quanto? não sei, sabe quanto é de Londrina até o Rio? Isso daí. Gosto, claro que gosto. amo pra falar a verdade. Ah, claro ia ser bem mais difícil né? Anham, é isso mesmo, tem dia que a solidão bate e tudo mais. ai eu venho pra cá. Não, tudo bem, acho até bom ter alguém pra conversar, que incomodar que nada. Gostar? sei lá. antes era de tanta coisa, agora nem sei. escrever, ouvir música, tirar fotos. Desanimada? muito gui, muito. Nada tem graça não. por isso que eu tô aqui chorando. pareço uma folha em branco. to muito descrente, guilherme, é chato. Tão nova né? a gente fica impotente as vezes, você sabe. Sumir, anham, queria. Onde? um lugar que alguém me entendesse. É, perto dele seria interessante. mas ele ainda vem. além do mais essas coisas passam. Dar uma volta? não, não. só isso de conversar tá bom. Linda? pode até ser, mas não adianta nada, nunca melhorou minha vida. Aquario. Independente, e decidida e moderna. É, um pouco, mas só um pouco. meio natália-fragil ultimamente. Anham, chorando em filme de amor. sonho? um lugar meu, onde eu me sinta bem. dificil isso por aqui. Triste, é isso triste e descrente. Forte? dizem mesmo, não acredito neles não. Mais vezes? você vai esquecer de mim, moço. sou muito normal, passo batido. ninguém me encherga. não sei como você me enchergou aqui. Diferente? brigada, moço. Guilherme, é. É, sol tá se pondo. Anham, viu, parei de chorar. Que nada, fez bem, Brigada. Vou, vou pra casa. Tô melhor sim, vou ficar bem. Anham, pode sim. Ahh, também quero demorar pra voltar. Anota aí, mas vai esquecer. nem vai lembrar amanhã. nao sou do tipo de coisa que marca. Marquei? brigada. Amigo, gosto disso. Anham, amigos então. Ih, de nada, quem agradece sou eu. Isso, isso. Já passou.

( ela volta pra casa. De repente o nada que não fazia sentido vira tudo. Um obrigado a Guilherme que veio pra nunca mais voltar, porque ela é sim, do tipo de pessoa que a gente acorda e esquece. De memorável só o sorriso, que era a única coisa que ela não tinha pra mostrar naquele dia.)