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25.6.12

pequena nota sobre o erro

é que o erro não foi nem tanto meu, nem tanto seu. nada daria certo antes que estivéssemos completamente crescidos. nós, e o sentimento. nada daria certo porque não era a hora certa. eu precisava disso, você talvez não precisasse de mim (não agora), e tudo se configurou do jeito que a vida  devia ser. agora que cresci sei que a culpa nem foi minha, e nem foi sua. foi culpa do tempo. naquele tempo, daquele jeito torto e atropelado nada daria certo. nada daria certo, enfim.

não deu.
suerte, que seja. ao futuro a vida. sempre ao futuro, a vida.
a gente se conforma. e vive. por hoje, pelo menos.
"amanhã, ninguém sabe", já diria o chico. E você sabe, o Chico sempre tem razão.

3.4.12

Leve, como leve pluma muito leve pousa.

"Leve, como leve pluma
Muito leve, leve pousa.
Muito leve, leve pousa.

Na simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma
Suave coisa nenhuma.

Sombra, silêncio ou espuma.
Nuvem azul
Que arrefece.

Simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma.
Que em mim amadurece" (Amor - Secos&Molhados). 


Queria escrever alguma coisa. Qualquer coisa no dia que me faltam as palavras. Sinto um turbilhão de coisas e não sei como transformá-las em prosa ou poesia. A vida nos toma muito tempo. O tempo todo muito tempo. Mesmo quando a vida em si nem existe. Preencho meus dias com corridas ao ar livre e pequenas frases jogadas ao acaso no mundo narcisista das redes sociais. Quero a atenção que sempre tive. A atenção de ser o melhor texto da sala, a piada mais engraçada do bar, a menina mais inteligente do grupo de amigos. Quero ser amada, como todo mundo quer. Sou sozinha. Sempre fui sozinha. Guardo comigo a condição de sempre ter sido solitária. Filha única, passava meu tempo entre gibis, livros e os programas de tv cultura. Nunca gostei muito de gente. Me irritavam as crianças que corriam. Nunca gostei de pique-esconde. Tinha pavor de ser a última a ser encontrada. Ou a primeira. Nunca me encantou o mistério do gato mia. Nunca pintaram na infância minha cara com rolha por conta do dorminhoco. Eu preferia os adultos, os amigos mais velhos, minhas bonecas e os livros do monteiro lobato. Ainda não sou muito dada a gente. Tenho um desses universos grandes em que hesito em deixar alguém entrar. Faço força pra conseguir descobrir alguém que saiba todos os meus segredos. Ninguém sabe. Tem sempre alguma coisa a esconder. Ou a calar. Todos aqueles que um dia quiseram entrar nesse universo que não faço questão de contar eu afastei. Preciso dos segredos porque senão não existe literatura. A literatura se faz do mistério, do escondido, das caixinhas que não se conta nem pro terapeuta (embora ultimamente eu não acredite em terapeutas). 

Ser sozinha é uma condição-karma. Ninguém gosta tanto assim de gente sozinha. Ninguém sabe lidar muito bem com a solidão. As pessoas querem estar juntas, preferem a presença e olham com um certo desprezo ou descaso aqueles que sentam sozinhos nas mesas dos cafés e compram um só ingresso pro cinema. Eu preciso estar sozinha. Preciso ter comigo a certeza de que sou eu que estou tomando as rédeas da minha vida. Por isso hesito ao pedir conselhos. Por isso por vezes falho nas relações amorosas. Tem gente que exige fazer parte da sua vida demais, fazer parte das suas particularidades demais. Quer deitar na cama e dividir o momento solitário com você. Não respeita o secreto. Não tem como viver com gente que não respeita o secreto. Preciso do silêncio. Preciso caminhar oito, dez quilômetros e não ouvir a voz de ninguém a não ser a minha própria música. Preciso do meu espaço de seis ou sete metros quadrados em que durmo e escrevo. Preciso tomar café na padaria e não encontrar ninguém conhecido. Preciso estar em contato porque sempre precisei. Desde pequena. Desde quando o barulho das crianças que brincavam de pique-esconde me irritava. Sempre soube muito mais ser sozinha do que ser junto. É difícil a condição. É difícil porque é preciso compartilhar pra viver. É preciso estar-junto. É preciso que se tenha alguém pra contar e outra pessoa embaixo do seu cobertor, mesmo que esporadicamente. Sei que me livrar da solidão é um exercício. Um exercício diário e saber enxergar e dar lugar pro outro. Um pedacinho da cama. Um pedacinho da vida. Uma história que nunca se contou pra ninguém. Um segredo.

Sei também que ser sozinha é um dom. O dom de saber que se é um ser completo. Não no sentido de não precisar de mais ninguém, mas no sentido de ser pleno. Existe plenitude na solidão. Felicidade em ir no shopping fazer compras sem ninguém ao lado, em ouvir sua própria seleção de músicas, escolher o canal da tv, ir ao cinema às 7 da noite ver um filme que ninguém gosta muito. A plenitude do ser. Estar sozinho e saber que se sente confortável em sua própria pele. No silêncio e no barulho que estar dentro de si faz. Ser sozinho não é ser solitário. É gostar de, de vez em quando, estar sem ninguém. É precisar do próprio espaço, é gostar das próprias idéias. É principalmente estar com outra pessoa porque se quer estar, e não porque sente necessidade de. Querer o outro é muito mais bonito do que precisar do outro. Porque querer é vontade plena, e precisar é necessidade, prisão, coisa pesada. Querer é saber que podia-se viver sozinho se precisasse, se o outro te deixasse, se de repente tudo terminasse. É ter consciência de que, caso não exista o outro, ainda se vive, se sobrevive, se pode ser feliz. É saber que podia-se estar completamente sozinha e quem sabe até bastante feliz, mas não se quer estar. Por escolha, porque faz bem. Porque sim. É que todas as vezes que me senti precisar de alguém pra viver era a coisa errada, o barco furado, o descontrole que levava ao caos. Só fui feliz mesmo nas vezes em que ao invés de precisar, quis perto. Por escolha. Podia não estar com, mas quis. 

E de repente existe alguma leveza nessa liberdade meio solitária que carrego desde a infância. Reencontrei-me. O descontrole nunca me pertenceu. As coisas que são verdadeiramente suas não são as coisas que você aprisionou. São as que deixaram-se ficar.


(qualquer texto escrito de madrugada vai parecer auto ajuda).

27.12.11

Quanto a escrever,

Minha crise criativa vem em momentos de crise de vida em que me refastelo no sofá assistindo todas as novelas que posso. Estou dizendo assim, em primeira pessoa, não pretendo nesse texto criar qualquer personagem que seja: me sinto rasa demais pra isso. O mundo reviravoltou, minha vida é o mar em ressaca e não existe amor ou ódio, tristeza ou alegria demais que me faça querer assim, literatura. Desisti de ler também, faz meses. Cem anos de solidão continua recostado no meu criado mudo cheio de bijouterias, no meio desse meu quarto cheio de coisas que já fizeram parte da minha história - e hoje não fazem mais.

Precisava desses tempos de descanso, inclusive das pessoas (talvez principalmente das pessoas), porque - dizem - olhando as coisas de longe se enxerga melhor. Não sei se enxerguei alguma coisa, me vejo sem perspectivas e sem vontades, completamente esquecida pelo crivo do destino. O crivo do destino é mau, a vida quando não pensada muito bem te leva para caminhos esquisitos. Me lembro que Mathieu, um dos protagonistas das histórias de jean paul sartré, engravidava sua namorada de quem, aparementemente, não gostava tanto-assim e saia pelas ruas de paris procurando uma senhora que fizesse um aborto nessa criança não quista. A criança de Marcelle. Sinto um pouco a minha vida nesse fim de ano como a criança de Marcelle, e sou Mathieu, procurando pelos cantos e becos dessa paris (que é londrina), alguém que possa tirar essa vida e me dar outra perspectiva. Ao mesmo tempo - assim como Mathieu - acabo por me questionar se quero mesmo sair dessa vida. Não sei se quero abortar a criança, é tudo confuso demais.

Me enfio a escrever livros, escrevo seis, sete páginas, depois odeio. Assim como odeio tudo que faço, enjoo dos meus empregos, das pessoas que escolhi pra amar (salvo certos amigos, que permanecem inabaláveis), enjoo até de mim e resolvo querer outra vida. Mas não se aborta vidas assim, pelas ruas de paris, com velhas em seus consultórios sujismundos e sem estrutura. A vida é a criança de Marcelle que não pode ser abortada, porque na vida a gente tem que lidar com os erros que cometeu, não se aborta escolhas com intervenções cirúrgicas e já dizia sartré que a angústia do homem é a angústia das escolhas. Nunca sei se escolhi bem, se escolhi certo ou errado e me angustio no momento seguinte à escolha. Mas não há o que se fazer, uma vez escolhido escolhido está, e é a angústia também, inabalável. Porque a angústia nunca cessa. Existe a angústia pré escolha de fazer a escolha certa, a angústia durante a escolha de estar escolhendo, e a angústia pós escolha de dever, talvez, ter escolhido outra coisa. Viver é a própria angústia e exige responsabilidade.

Exige responsabilidade de mim, que não sei nem arrumar meu quarto, e guardo comigo escritos de quando tinha treze ou catorze anos, junto com os livros de sociologia que talvez nunca mais lerei. Meu quarto é um amontoado de presentes de gente que já foi embora, de livros que sei que não vou ler, de fotos de gente que nunca mais verei, de roupas que já não fazem mais meu estilo. Minha vida também, um pouco disso, cheio de restos de coisas que não sou mais, de escolhas insensatas e rápidas demais, e gente que eu quero que fique indo embora e trombando com gente que eu não quero que fique: mas permanecem. Me vejo cansada, andando por todos os lados da vida procurando o que fazer, que carreira seguir, de que jeito me portar e como me vestir. Me vejo um ser mutável, sempre com escolhas novas, me angustiando demais pelo peso de não sabê-las certas. Escolhi os amigos que devia? Disse tudo que devia dizer? Estou na profissão correta? Faço a pós graduação que deveria? Escolhi o tema mais satisfatório? Nunca saberei, assim como nunca se sabe se foi certo ou não abortar uma criança, escolher a sua vida ou a vida do outro. Sempre a angústia, uma angústia que nenhum deus salva - só alivia, quem sabe.

Procuro paz nas ruas quentes de londrina, quero distância de tudo aquilo que me pressiona, me vejo refastelada no sofá, comendo doces, às vezes sem nem ter tanta vontade assim de ver gente, ou movimento. Meu mundo já me basta, me cansa demais, há muitas escolhas a serem feitas e eu não sei por onde começar. Há muitas coisas sobre as quais, quem sabe, eu poderia escrever mas escolhi calar por julgar imprudente. Calo então qualquer possível literatura, qualquer possível amor, qualquer possível convite, qualquer possível ensaio. Calo até as bandas novas que não conheci e os livros que ainda não abri, calo as mensagens de texto que não pensei em escrever, calo meus livros ruins que não passam da página dez, calo tudo que posso porque estou cansada, e gente cansada não sabe lidar com angústia, escolha, amor, ou até mesmo literatura. Me calo porque me angustiei, e porque nada é tão importante assim. Até a minha vida, calei e deixei pro ano que vem, as escolhas, a angústia, adiei-a. Deixei o filho de marcelle na barriga pra depois ver o que se faz. E quanto à escrever, mais vale um cachorro vivo. (um yorkshire, quem sabe).


18.10.11

don't wanna be myself no more


(I wanna be somebody else) 

tinha descoberto que precisava de equilíbrio. e não era um desses equilíbrio que vendem em comercial de tv não, uma paz interior qualquer. era um equilíbrio mesmo, um equilíbrio de verdade. tinha percebido que era assim, mais uma daquelas pessoas descontroladas que povoavam o mundo. todo mundo no mundo moderno tem neuroses, todo mundo tem os seus problemas. ela tinha se dado conta dos dela. era isso, era sempre afastar o outro por medo do abandono, era a neurose paranóica da possibilidade da perda. sempre um achar que existe uma tramóia por trás de tudo, porque é difícil e perigoso ser feliz. ser feliz não dura. fazia um tempo que tinha então abdicado de qualquer salto no escuro, esperando assim a coisa vir até ela. às vezes também tentava destruir a coisa. qualquer coisa que pegue qualquer profundidade que seja precisa ser afastada porque pode ferir. tinha amado uma vez e foi bom, foi lindo, sentia-se viva e o sangue corria pelas veias, pelos cabelos, o sorriso da paixão se via nas fotos, o olhar dele pra ela, o olhar dela pra ele. se amavam mais quando desavisados porque o amor aparecia. o amor aparecia nos arquivos perdidos no computador. qualquer dúvida sobre o fato do amor ter acontecido estava acabada ali, naqueles arquivos de alguns mil megapixels. mas acabou, como tudo sempre acaba, e desde então é cansaço. cansaço, neurose, medo. medo de ser abandonada por outra, medo de sofrer caso aconteça e é por isso que desapegou-se. desapegou-se desde a infância em que seu pai foi-se pra longe, não parava em casa, trabalhava demais. percebeu ser mais fácil a partida daqueles a quem não nos apegamos muito. quando tem apego tem dor e todo mundo vai embora, não vai? preferi deixar antes se for assim. e deixa. deixa até o que poderia dar certo, inventando histórias, narrativas fantásticas. "ele não me ama mais, ele nunca seria capaz de me amar", diz baixinho. a realidade não existe. não nesse mundo desequilibrado em que escolheu viver. sabota-se, mutila-se, resguarda-se, abandona, desapega. amar é muito karma, é difícil, é terrível, tem que se entregar. e depois de se entregar o inferno. a paranóia, o controle, a chantagem, o medo do abandono, sempre o medo do abandono. "você me esqueceu?", perguntava ingênua. quase sempre respondiam que não, mas sabe-se lá. não acreditava nos outros, duvidava, testava o amor sempre que podia. tudo isso no meio de histórias, de sonho de "ele não me ama mais". tudo isso no meio de frustrações por qualquer convite recusado, qualquer resposta demorada, qualquer recusa percebida. histórias inventadas, fantasias terríveis, o se frustrar por uma realidade que não é. o medo. o medo do abandono. o teste do amor. cansou-se. daí deu-se conta de tudo isso. que difícil é viver assim, nesse medo, nessa urgência, nessa neurose, nesse abandono-iminente. resolveu mudar. mas dói. a cada novo sintoma um respiro fundo. "isso não está acontecendo do jeito que você vê". virou vício. um trabalho, um exercício, um dia de cada vez. tentar viver, tentar se entregar, tentar não se desesperar com as frustrações cotidianas. difícil, pesado, doloroso. difícil sair do isolamento pra colocar o pé na vida de novo. ser sozinha dói menos, bem menos. é menos esforço, menos necessidade de controle, menos briga consigo mesma. o terrível exercício diário do equilíbrio, do ver as coisas claras, do não se desesperar, do não fazer tempestades em copo d'água, de não manipular, jogar a culpa, espalhar indiretas infundadas. surtar, enfim. todo dia uma luta no silêncio que precede o surto. era mais fácil viver na negação, mas agora que deu-se conta, quer parar de sofrer pelo simples fato de estar viva. quer ser, quem sabe, plena. quem sabe de novo o bom corpo, o sorriso, o amor que se vê pelas fotos. lidar com o silêncio que precede o surto. ir um dia de cada vez. tentar, enfim. 

à todos, do passado e do presente, desculpa qualquer coisa. 

23.8.11

questo silencio dentro te

ninguém me entedia muito bem, era meio normal que nem todo mundo compreendesse que às vezes o problema todo dessa minha confusão era justamente essas pessoas todas tentando me dizer o que fazer, que eu não devia ficar sozinha, que eu devia me importar mais com as pessoas, ligar pra elas, dizer que eu sinto a falta delas. E eu até sinto, mas é essa obrigação que a gente acaba tendo com os outros que me mata, essa rotina. Eu tentava explicar que pra eu me sentir completa eram terrivelmente necessários esse momentos em que eu ficava só, completamente só. Eu e minha música, eu e meu quarto, eu e meus livros. Tem dia que a gente não precisa de companhia pra viver, e tudo bem. A auto suficiência parece errada, mas é o único jeito que eu aprendi de saber lidar comigo.

Eu tentava explicar esse monte de coisas pra Camila e ela me olhava como se eu fosse um desses extraterrestres, essas coisas que pertencem a algum planeta distante. Eu sei que eu olhava pra ela segurando o copo de cerveja e dizia "mas é que é assim, sabe? eu amei uma vez e amei demais e quando a gente ama demais a gente sabe que qualquer coisa que a gente sinta menos que aquilo não vai ser o suficiente". Daí ela me dizia que eu tinha que tentar, que eu tinha que me envolver mais com as pessoas, que eu tinha que correr atrás da minha felicidade, porque a felicidade a gente busca, ela não cai num potinho em cima da gente como chuva no meio do verão. Só que eu pensava que cai, cai sim. Felicidade quando vem, aparece sem avisar e todas as vezes que a gente corre atrás dela a gente tropeça. Amor também, forçar amor é tropeçar num sentimento que foi feito pra te sugar que nem coisa grande, imensa, não pra ficar colando tijolinhos com argamassa pra ver se de repente forma um castelo. Ou é, ou não é.

Tinha esses dias que eu tinha muita vontade de contar o quanto quando um amor é grande ele fica guardado ali e você aprende a conviver com ele. Não se deixa de viver, mas a gente sabe, a gente sempre sabe que certas coisas simplesmente não serão tão imensas e às vezes, às vezes na vida a gente quer escolher coisas imensas e não quer se esforçar pras coisas rasas, então é melhor ficar barquinho na correnteza do que se esforçar, remar, lutar contra as correntes do ártico e do pacífico pra no fim chegar numa dessas terras que a gente nem queria tanto desbravar assim. Não tenho querido muito nenhuma dessas terras que me aparecem, eu acho que também é um direito da gente a gente querer conhecer vários países e não criar uma casa em nenhum deles. Eu acho que sim.

E ela me dizia que não, que é necessário criar pequenas casas pra ver como funciona a cultura local e de repente eu não queria ouvir mais nada, só falar. Só falar que tudo que eu queria naquele dia, e não só naquele dia, era sair por aí sem rumo, e eu ia sozinha mesmo, não importa, às vezes cansam essas pessoas do lado da gente olhando a gente como se a gente estivesse falando uma bobagem imensa, mas não é como se doesse, é só um cansaço porque não há de se esperar compreensão de quem nunca entendeu o seu universo do jeito que ele é. E então eu queria sair andando, descobrindo esses pequenos novos universos que vivem em cada pessoa, mas só descobrir, porque o que me importa é a descoberta do novo território, não a conquista. Não quero conquistar nada, nem fincar bandeirinhas, nem mesmo dar nome a uma nova civilização. Só descobrir que elas existem, fazer contato, trocar a identidade cultural e depois partir. Porque eu gosto de descobrir e partir. Agora eu gosto disso, é o que eu quero, não tem mal nisso, não tem mal em gostar de ficar sozinho, tem mal em ser solitário. E a Camila me olhava, e não entendia nada. "Às vezes existe mais solidão com outra pessoa do que sozinho em casa" eu disse. Ela não concordou. Mas tinha entendido.

4.7.11

do fundo do poço.

E ela estava encolhida no cantinho do quarto, chorando baixinho, se cortando baixinho com as navalhas imaginárias que a vida deu. Essas navalhas que não são de metal nem de aço, essas navalhas que não fazem sangrar a pele - essas navalhas que perfuram o coração de uma vez só. Esse coraçãozinho machucado, menina. Esse coração estraçalhado de dor & desamor, com todo o desamor do mundo morando lá dentro. Desamor, cansaço, falta de vida. É tanta coisa que de repente vai morar no coração da gente. Desapercebidos, assim. Os longos suspiros de um surto que era ciclico. Vez ou outra ao chegar do trabalho, ao ouvir um comentário meio maldoso vinha um choro com barulho, um choro sem fim nem começo - mas que doia. De repente o mundo não era mais mundo e ela flutuava. Flutuava porque não fazia parte e não era um flutuar leve. As coisas iam de um lado pro outro, rápidas, como quem queria engoli-la. E ela corria. Corria e chorava e as lágrimas caiam sem controle nenhum. Só caiam. Uma cachoeira inteira de dor invadindo aquele rosto novo e cansado de junhos e julhos tristes e pesados. Tontura, vertigem, o mundo embaçando, o barulho fica alto. "Deus, o que você quer dizer com isso?" ela grita. Porque ficou abandonada, no meio do nada, no meio do cinza. Os carros passam, e passam as pessoas, e as luzes também passam e tudo aquilo quer engoli-la e ela num esforço terrível e meio ridículo de tentar sobreviver, de tentar respirar no meio do ar rarefeito do mundo - o ar que o mundo a impediu de respirar.

O mundo às vezes impede a gente de respirar, às vezes a gente de depara com esses lapsos de não-normalidade, pequenas alterações na linha-reta-e-constante que se faz a vida. Pequenos surtos baixinhos, no canto da sala e no meio da rua. Ela tinha surtado ali, no meio da rua, seis e meia da tarde, horário de rush. Saiu do ônibus, se deparou desrealizando, despersonificando e foi. As lágrimas caiam, a vida parecia sem sentido, o respirar era dolorido. E depois teve essa outra vez, meia noite, no quarto, no cantinho da parede se cortando de levinho com as navalhas imaginárias do coração. E tudo isso é decadência, o fundo do poço, tudo isso é falta de vida, falta, falta, falta - ausência. Todos os cafés do mundo serão tomados afim de produzir úlcera. Todas as drogas existentes serão experimentadas na esperança do alívio. Todos os cigarros serão fumados pra que saia ar (mesmo que sujo) de onde já não se respira. Morrer é um acidente do acaso, é uma curva na vida, é o fim inevitável. Toda bebida do mundo será ingerida para causar embriaguez. Zen budismo, religião, existencialismo, cabala - qualquer coisa. Uma estrada que redime e destrói ao mesmo tempo, é nisso que ela queria entrar. A cada nova desilusão um gole, a cada nova frustração um trago, a cada nova perda um calmante com wisky. A cada novo alívio, a destruição.

Todo clichê é perdoável.

Experimentar todos os corpos, todas as oportunidades, todas as pequenas ofertas da vida. Beijos sem compromisso, sexo casual e navalha no coração. As músicas que tocam ao fundo não tocam mais o coração. As pessoas ao lado são irreconhecíveis. Tudo é um misto de interesse & hedonismo. Tudo é cansaço e preguiça. E dor. Microagulhas entranhadas embaixo da pele, uma a uma, preparadas para fazer sangrar aos poucos a dor que é estar viva - e ter se perdido. Não existe estrada para a felicidade, não existe amor, não existe esperança e o fim é inevitável. Numa vida das oito às seis, ela se esconde embaixo dos seus casacos pretos e seu batom vermelho. Ela está cansada, os balões não colorem o céu e a vida não é um filme, afinal. Nem uma minisérie em apenas um capítulo. A vida - a vida dela - é uma poesia suja, marginal, sem métrica e nem rima. Poesia decadente de páginas grudadas, perdida na estante de um sebo que ninguém nunca vai entrar.

No fundo do poço só se vê o chão.

É que depois de tanta esperança falsa, de tanto amor em vão de tanta energia gasta, de tanta perda, de tanta estrada que não era - e nunca foi - caminho, o olho se cega pra luz, a saída não existe mais e a gente chafurda a cara na lama. Se a gente ficar morre, mas se for lá fora é a vida - e a vida também mata. Mas mata de cansaço, de desilusão, de desamor, de frustração, de preguiça e de descaso. E se é pra morrer, que seja em paz.

18.4.11

Cócega e buraco negro.

Às vezes penso em criar histórias bonitas, imensas metáforas que expliquem qualquer coisa que não sinto, qualquer coisa dessas que não vivi, mas não. Chego a uma conclusão lógica: não tendo ninguém em minha vida só sei falar sobre mim. De mim em relação à mim mesma. Como foi desde o princípio, agora e sempre. Assim, meio profético, meio religião, meio cristão e meio culpado. Eu parafraseei por tempos a minha emoção, tentei me contar de variadas formas, inclusive inventando outros personagem. Quis, como qualquer outro ser humano quer, me entender, me observar de longe como se eu fosse na realidade outra. A outra que ama um outro que também não existe e vendo tudo isso de uma certa distância quem sabe entender o que se passou. Mas passou, hoje não quero mais. Também espero muito pouco me entender. Já sei de mim. Sei dos meus vícios, das minhas crises, da minha mania preguiçosa de postergar ações pra àquele amanhã que é muito mais metafórico do que real, aquele amanhã que tem gosto de nunca, de eternidade que não se cumprirá. Sei que sou assim enquanto a vida exige foco e sei que subjetivo tudo aquilo que as pessoas buscam matematizar.

Hoje subjetivo. Também já somei muito. Já fiz de amor contas matemáticas incríveis, onde a compatibilidade somada com a afinidade e a altura certa caminhariam para a perfeição assim, de imediato. Hoje sei que sentimento é muito mais uma indefinição do existir do que um querer consciente. Sentir é um jeito de tapar os buracos que a existência enfia na gente, de forma até meio cruel. Cheia de buracos então, a pessoa busca tapá-los com um outro ser, também cheio de buracos e tudo que se espera é que se tampem os vazios mutuamente e que formem então, os dois juntos, algum tipo de ser completo capaz de suportar o enorme buraco negro que vamos alimentando - e aumentando - a partir do momento em que nascemos. A grande verdade é que por mais que você formule o ser ideal, você nunca sabe quando e como serão realizados os preenchimentos de alma, e às vezes eles acontecem muito desavisados, descompassados e tão fora de hora que você nem se dá conta que só se sente algo perto de um ser pleno porque do seu lado (real ou metaforicamente) existe outro ser, também buraquento, mas que espera ser pleno e que é por causa dele que existe alguma plenitude na sua vida. A grande coisa é que isso acontece várias e repetidas vezes, os buracos são tapados de maneiras diferentes a cada vez e não existe um padrão, nem regras nem um manual de instruções de como agir com tudo. É muito normal nos seres humanos que eles tropecem, descuidem e estraguem as relações das quais participam. É também notável a incrível capacidade desses mesmos seres em forçar a plenitude, projetando a felicidade em alguém que não pode supri-la. Tentativas desenfreadas de tapar buracos por pessoas que não podem tampá-los, coisa que só faz alimentar o tal buraco negro da alma.

É que talvez a regra da alma seja ser esse imenso buraco negro. A regra é o vazio, o imenso, o infinito. A exceção é o preenchimento das vontades. A sensação de eternidade palpável, que não incomoda nem dói. Talvez seja isso o amor. Uma certa aceitação da estranheza que traz a eternidade. Um aquietamento. Um sorriso em meio a dor. A aceitação do estado de dor e vulnerabilidade como coisa palpável, e bonita. A plenitude em existir. Talvez seja isso. Talvez o amor seja na verdade o que eu pensei esses dias. O amor é fazer cosquinhas. O amor é como se alguém estivesse fazendo cosquinhas em você. As cócegas te fazem rir, mas ao mesmo tempo te deixam sem ar. Te dão uma sensação de que aquilo nunca vai acabar. É bom e ao mesmo tempo sufoca. Você gosta do que recebe mas ao mesmo tempo não quer mais. Você sorri em meio a uma sensação de aflição. A pessoa que faz as cócegas sente prazer com o seu riso ao mesmo tempo que sente prazer com a sua aflição. Ela possui a outra pessoa nas mãos. Sabe que é a responsável pelo riso e pela aflição. É só ela que pode parar o riso e a aflição. E a pessoa que recebe as cócegas quer que aquilo pare, mas ao mesmo tempo não quer. Pois gosta de rir, e gosta também da aflição. Gosta de ser possuida por outra pessoa. Gosta da vulnerabilidade, do riso e do sufoco. Durante a relação muda quem faz as cócegas e quem recebe. Às vezes é um, às vezes é outro. Mas a plenitude do amor acontece mesmo quando os dois sorriem, o fazedor de cócegas aquieta, beija a outra pessoa e os dois riem e se deitam abraçados.

Achei que isso definia, um dia enquanto andava na rua.

A grande verdade é que eu não sei de amor, nem de cócegas faz algum tempo. Não tanto, mas faz. Hoje encontro pequenos "tapa-buracos-existenciais" em cada canto. Um amigo, um affair, um possível-amor, um amor-impossível. A plenitude da vida tem se feito sozinha. Nos livros, nos filmes, nas novas pessoas aqui e ali. Nos momentos como esse. A minha alma continua um imenso buraco negro, e às vezes suga. Desacredito nos meus buracos tapados já faz um tempo. Às vezes me convenço que vou ser um vazio de alma pra sempre. Às vezes acho que terei os buracos tapados e uma aquietação em meio ao sentimento de eternidade. Eu, que não se lidar com sempres, ou com pra-sempres e que enjoo de tudo num mínimo espaço de tempo. É que só sei ser plena enquanto escrevo e escritores parecem se auto-boicotar para conseguir histórias bonitas, narrativas fantásticas e metáforas interessantes. Eu pareço inventar constantemente isso que chamam de sentimento, por vezes me ferindo só pra ver se ainda sei sangrar. E sei. Mas sangro groselha com água, ralinha ralinha e já não tenho talento pro melodrama. Sou esburacada porque gosto de ser assim e no fundo no fundo só quero alguém que alimente esse meu buraco negro com um pouco de poesia e três tantos de verdade. A vida é esse lençol em branco onde eu dei de inventar histórias. Sorrio enquanto sei que eu estou comigo e só. Um dia o amor acontece. Um dia a gente recebe as cócegas certas, deita na cama e aquieta. Daí o buraco negro se desmazela em poeira estrelar. Eu ainda alimento o meu buraco negro com mil frustrações, e sozinha. Nunca pareceu tão confortável, o caos. Não há nenhum equilíbrio como o caos.

28.3.11

O astronauta.

O astronauta sai da terra. O ar rarefeito, as roupas pesadas, o medo do desconhecido. Uma pequena cápsula perdida no ar. A terra, vista de longe parece simples. Estar flutuando em meio ao espaço é uma sensação única. Ilógica. Reconfortante. Você só pode voar se estiver fora de órbita. O último conceito parece se aplicar à tudo. "Você só pode voar se estiver fora de órbita". Faz sentido. A pequena nave se distancia cada vez mais daquilo que conhecia como casa. "Planeta terra". Não parece tão assustador visto de longe.

Visto daqui um terremoto pareceria uma simples movimentação de terra. A terra dançando. A dança da destruição. Visto daqui talvez nem existissem terremotos. A terra parece um prédio de apartamentos com a janela fechada. Visto de longe. Não se sabe se as pessoas lá dentro sorriem ou brigam. Ou se simplesmente assistem televisão. A cada momento o astronauta se sente mais um pedaço de gente jogado no meio do espaço. Dentro de uma cápsula, indo pra sabe-se lá onde. A sensação não incomoda porque é familiar. Não é tão diferente de estar vivo, no fim das contas.

Estar longe de tudo é o mais perto da felicidade que conseguiu encontrar. Enxergar a si mesmo é como ter um planeta inteiro dentro de si. Visto de perto. Com guerras e terremotos. Se sente mais vivo fora da terra do que dentro dela. Fora do mundo e dentro de si mesmo. Faz sentido já que não sabe a quanto tempo está voando. Não tem certeza se vai voltar. Não se incomoda.

Não há nenhum humano capaz de entender o que se passa com ele num raio de milhares de quilômetros. Não é muito diferente da vida real. Está flutuando. Se sente livre. Nenhum contato com as pessoas reais, nenhum medo. Apenas uma cápsula jogada no espaço. Que respira um ar rarefeito e flutua. O sentimento é familiar. Não sabe a quantos dias está longe. O tempo é um conceito relativo. O tempo não existe no espaço. O tempo não existe. Estar vivo é só uma questão de referencial.

27.3.11

a lua inteira agora é um manto negro.

Aquela parte da sua vida em que você chega à conclusão que ou você muda, ou sofrerá algum tipo de consequência grave. Consequências graves deve ser entendidas como cortes profundos na alma, ou ferimentos doloridos naquilo que chamam de essência. Um dia você acorda, seis da manhã, olha pela janela e percebe que os padrões que te tornaram quem você é foram readequados. Ninguém te avisou, as mudanças não foram bruscas, ninguém te tirou o chão debaixo dos pés de uma vez só. Foi aos poucos, sua vida estava construída em cima de um chão laminado de madeira e foram tirando um piso por vez. Quando você se deu conta estava flutuando numa queda sem fim. Não tinha mais chão, nem terra firme, nem lugar pra construir sua vida. Tudo perdido flutuando em um ambiente de gravidade zero. Nenhum referencial, nenhum parâmetro, nada mais em que se apoiar. Acabaram os modelos, os moldes, não se enxerga mais as pessoas. Você está só. E se apercebe que a grande verdade é que você sempre esteve só.

Reencontrou-se.

25.1.11

Eu só queria dizer, obrigada.

Espio a sacada, a vida lá fora. O dia amanheceu com um gosto eterno de melancolia. Tinha sido um pouco assim ao dormir, mas existe sempre aquela esperança de que, ao acordar, tudo tenha ficado dentro de um mundo estranho feito de sonho. Mas eis que acordei de ressaca - de sentimento e de você - e não sinto vontade de comer porque estou enjoada - da vida. Um mundo tão imenso lá fora, e eu aqui, presa nesse quarto que é cheio de lembranças de você. Remexi as nossas cartas, e acho que cheguei a uma conclusão meio inevitável: eu sinto mais falta de mim do que de você. Não que eu não sinta falta de você, também. Seu perfume barato e enjoado, as roupas quase nunca combinando, a segurança em que eu sentia de andar do seu lado. Sinto falta disso sim, ultimamente tenho andando muito sozinha, tendo que tomar muita conta de mim. Você tinha sempre essa impressão de que um dia eu ia me jogar da janela, então exercia sobre mim um certo cuidado, que me fazia bem. É que você me conheceu destruindo, e destrutiva. Ciumenta, histérica, terrível. E sentiu que era a sua obrigação me livrar do meu maior mal: eu mesma.

Durante os anos que passamos juntos, houve calma. É claro que inevitavelmente às vezes eu perdia a paciência, e entrava em terríveis ataques de melancolia que você tentava curar me desviando do assunto. Desviar do assunto sempre culminava naquela ladainha bonita de "sua vida é tão maravilhosa, você tem tantos amigos" ou até um leve afago de evo que dizia "mas você é tão talentosa e inteligente". Eu achava meio absurdo o fato de você admirar uma pessoa tão descontrolada como eu. Talvez você admirasse justamente por eu ser o seu oposto. Você, sempre parado no mesmo exato lugar, poucos riscos, poucos amores, e eu sempre esperando da vida um "algo mais" que ela não podia dar, e me atropelando. Você costumava limpar com mertiolate meus atropelos, até que chegou um dia em que do seu lado eu finalmente encontrei a paz, o nirvana. Eu sinto muita falta de mim agora que estou sem você. É como se com você eu tivesse um ponto de equilíbrio. Mais ou menos como aquela criança que transmuta o comportamento porque não quer decepcionar os pais. Eu sempre tive muito medo de te decepcionar. Muito. Eu li tantos livros, vi tantos filmes, inventei tantas teorias, criei mil novas receitas. E estava leve, sabe? Leve. Fui sorrateiramente me livrando dessa urgência louca de querer aquilo que não existe, desistindo de aventuras de fim de semana e sonhando com uma casa, calma, futebol na tv aos domingos. Minha vida simples era boa. Você ouvia as minhas frustrações, cortava as asinhas da minha depressão ancestral e me fazia sorrir em meio a tardes comuns.

Depois que você se foi eu fui tomada por um eterno descontrole. Que existia, sempre existiu. Mas que você de certa forma curou. Hoje eu me vejo de novo esperando soluções imediatas, chorando de raiva a cada decepção. Às vezes comendo muito, às vezes tomando porres homéricos que me fazem esquecer até o meu nome. Figurinha decadente eu me tornei. Tão diferente daquela menina magra, sensata, leitora, interessada, viva. Ah, eu era tão viva na sua presença. De uma vivacidade que não precisava de nada, só existia. O sorriso fácil e solto, a calma, a espera, o futuro. Um futuro nem tão brilhante assim, simplista, amornado, mas com brigadeiro depois do almoço e café no fim da tarde. Longas conversas. Você me ouvindo reclamar e me achando extremamente critica, e me dando o antídoto de ver as coisas com mais calma, com mais amor, com mais tolerância. Você me ensinou a ser tão tolerante. Com as pessoas, com os livros, os filmes, as músicas. Até a minha família eu dei de amar de um jeito maior depois de ter te encontrado. Eu não bebia demais, não comia demais, não chorava demais. Nem rir, eu ria demais. Eu apenas era feliz. Tudo ali, na medida certa. E hoje eu sinto muita falta de mim.

Senti falta de mim ao dormir chorando, senti falta de mim ao me ver inventado amores, soluções simplistas, querendo fugir. Eu tinha me esquecido dessa pessoa que eu era antes de te encontrar e te perder. Esquecido da minha histeria, do meu descontrole, do meu choro infantil. Esquecido dos meus altos e baixos, da minha doação de mentira, dos meus porres. Esquecido da minha rebeldia sem causa, da minha procura sem encontro. Tanta procura sem encontro desde que você se foi, tanta perda. Essa perda de mim, do meu eixo. Fico esperando coisas que eu não quero ser, não foco, não me sinto capaz. Tenho entrado em malditos jogos de sedução, me machucado em carne viva, sangrando. Tenho jogado sal na minha própria ferida e desistindo de mim a cada dia achando que estou conseguindo soluções. Não estou nada bem, nada bem mesmo e o problema é muito menos não ter você do que eu imaginava. O problema é comigo, sou eu, é a minha destruição, é o meu problema, é o meu sintoma. Você foi por alguns anos a cura, o antídoto, o contrário que me fazia enxergar as coisas mais leves. E agora que você se foi, tudo pesado, negro, terrível. Decadente. Entrei em uma decadência sem fim, e eu que vivia reclamando de não te reconhecer mais talvez também não fosse reconhecida por você. Regredi. Empalhei. Tenho doído, tenho saído carregada dos lugares, tenho me olhado no espelho e me visto infeliz. Estou três anos lá atrás, antes de você, comigo que sempre fui a minha pior inimiga. Tem sido triste, minha vida tem estado uma bagunça sem fim, e por vezes me vejo insuportável. Insuportável pra mim, prós outros, o grande peso in e out. O mesmo peso que eu tinha quando te conheci e que você mesmo sem saber o que fazer com ele, disseminou, tornou leve, me transformou em criatura bonita.

Sabe, eu não espero que você volte. Não agora, não pra mim. Não te espero na minha vida, no meu sofá, nem nada. Nem amor, essa palavra, estou querendo distância de amor. Você parece mais centrado que eu, no momento e eu cansei de tentar achar que eu era a sua salvação, quando na verdade você foi a minha. Hoje eu enxergo isso, no meio dessa loucura toda que anda essa minha vida pesada, terrível, negra, sem perspectivas. Eu enxergo que não sou karma, não sou destino, não sou a irremediável bagunça que um dia me fizeram acreditar que eu era. Não sou, não preciso, não quero sair quebrando corações como se quebram copos, me machucando, abrindo feridas, tendo longos ataques de histeria, ciúme, as acusações colocadas sobre a mesa, exigindo tudo em troca de dar nada, absolutamente nada. Eu já tive cura, eu já fui tão melhor, tão mais viva, centrada, bonita, feliz, sorridente. Nas quartas feiras de noite, nos sábados à tarde, nas madrugadas em casa. Tão mais leve. E foi no meio de um desses ataques terríveis, que assustam e apavoram e sobra caco de vidro cortante pra tudo quanto é lado, pegando em tudo quanto é gente, que eu descobri que você foi como aquela pessoa que te ensina a andar de bicicleta. Primeiro ela vai te segurando, você cai, ela continua te segurando, você cai mais umas vezes. Até que ela resolve te soltar. Daí você cai, rala o joelho, ela te dá a mão e depois te solta de vez. Você cambaleia uma duas vezes, acha que vai morrer, acha que vai se machucar muito, mas consegue ir. Depois pega o jeito, não precisa de mais ninguém segurando. Vai sozinha, livre, leve. Eu te amei muito, mas hoje, acho que amo mais tudo aquilo que você deixou em mim, tudo aquilo que você me ensinou ser. Hoje acho que amo tanto-quanto aquela menina que nasceu do teu lado, que pode e consegue ser boa. Que se doa pelo outro, que se faz infeliz pra ver o outro sorrir. Me deu vontade de resgatar tudo isso. Mas você já me ensinou como faz, já me mostrou que eu posso. Agora eu sei, garoto. Eu tenho que ir sozinha. E vou.

11.5.10

A insustentável leveza do ser. (sendo tereza)

"Em trabalhos práticos de física, qualquer aluno pode fazer experimentos para verificar a exatidão de uma hipótese científica. Mas o homem, porque não tem senão a vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer um sentimento..."

De tudo que me lembro, lembro da minha vocação para tereza. Lembro dessa absurda vontade de sair do meu espaço medíocre para viver um grande amor. Grande. Imenso. Enorme. De tudo que eu lembro, lembro de querer coencidências. Me encontrastes de novo as seis da tarde e foi as seis da tarde que nos encontramos pela primeira vez. Espero alguém que me ame como se ama uma mulher, e me puxe pelo braço dizendo: "a minha mulher". Mulher no sentido de ter alguma coisa de virtude e ao mesmo tempo alguma coisa de subimissa. Penso em noites atrás de noites em que nada se diz, ou se faz, mas se dorme e acorda de mãos dadas e se sabe o tamanho amor que cabe naquele momento. Quanto amor cabe num entrelassar de mãos? Só que nesse ser tereza, não cabem sabinas. Por mais que todas as sabinas de todas as terezas só terem consigo aquele encamento que existe em todo ser humano que escolhe ser livre - e carnal - nunca me couberam sabinas. Existe em mim esse ar interiorano cheio de fotografias que só espera amar, amar e depois amar mais um pouco. E um amor que perdoa as sabinas todas, embora eu saiba que tudo que eu sempre quis é ser única.

Tenho amado demais. rápido e ligeiro e tenho pensado em cada possibilidade como um novo ( e grande!) possível amor. Espero quem sabe ir embora para depois encontrar de novo as seis da tarde e achar possível somente porque assim queria o destino. Eu tenho esperado demais do destino, dos encontros fortuitos em busca de amores conturbados e grandes, com piqueniques no parque ou não, aqui ou em qualquer cidade desse planeta. Eu tenho esperado me agarrar a qualquer coisa, meu deus, eu ando tão presa em tudo isso que eu não quero que eu só espero que alguem me liberte e me redima. Me redima assim, por amor. E que eu diga que foi por amor que eu me redimi, que foi pelo destino que aconteceu e que foi no entrelaçar das mãos ao dormir que se concebeu. E tudo isso sendo tão tereza. E tantas sabinas aí rodando e me roubando meus grandes amores, porque os homens, ah, os homens se encantam muito facilmente com essa liberdade que possuem as sabinas e ficam as terezas, as mulheres dignas, esperando o entrelaçar de mãos.

Foi exatamente nesse oco que ficou enquanto ele foi querer sabinas e eu fiquei esperando o entrelaçar de mãos que você me apareceu. Exatamente assim como se faz nos tais encontros fortuitos, destinos, sabe-se-lá-que-nome-se-dá a esses encontros sem nome que se fazem na vida da gente. E sem nem querer eu enxerguei tão-tão rápido em você a possibilidade de me tirar desse meu mundo tão pequeno, não sem perspectivas novas. Eu me apeguei tanto a imprevisibilidade dos fatos, daquele dizer que as coisas acontecem quando a gente menos espera e são essas coisas assim, as que você não procura que te tiram desse pequeno mundo de desamores tão conhecidos e te fazem tereza. É isso que eu sem querer enxerguei em você, rápido. A possibilidade do entrelaçar as mãos e dormir. A possibilidade de sentir a insustentável leveza de ser.

Mas hoje não sei, tudo tão cheio de dúvidas, de incertezas, tão um querer-ser-sem-saber. Deus me livre, eu te disse, deus me livre de outra decepção dessas. Eu queria tão pouco, eu só queria ser a sua tereza, a sua mulher, mas sem sobra de nenhuma sabina. tão única, importante, perfeita. tão amada e sublime que eu esqueceria todas essas minhas pequenezas, todos esses meus desamores, toda essa bagagem de amar demais e além da conta e depois me perder no meio de tudo isso. Eu tenho todo um medo, um medo de ter inventado tudo isso e não existir na verdade amor nenhum. E na verdade nem existe, eu estou me agarrando na possibilidade. Eu estou me agarrando tanto em você com os meus braços, com as minhas pernas e principalmente com as minhas palavras que eu nem sei se ainda tem jeito. De um jeito tão rápido e cru que é quase um nó desses, que parecem não desatar. Não sei explicar. Não sei como deve ser.

É que eu queria ser a sua tereza, eu queria ser a sua única tereza, aquilo que você chama de amor. Mas hoje eu acordei me sentindo tão a sua sabina. E tenho certeza que quando eu olhar pro lado, você já vei ter me deixado. E vai estar dançando com a sua tereza escolhida, num quarto de hotel que eu nunca conheci.

"Para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se juntem desde o primeiro instante, como passarinhos sobre os ombros de são francisco de assis"

10.3.10

trecho.

Daí ela me perguntou de onde vinham aquelas coisas e eu queria lhe explicar que todas aquelas coisas vinham da minha cabeça. Todas aquelas coisas, desde as coisas mais bonitas até as coisas mais sujas. Aquelas coisas que a tinham encantado, até as coisas que a fariam me ter asco profundo para todo o sempre, todas aquelas coisas, eu não tinha emprestado nem lido, todas elas vinham de mim. Diretamente da minha cabeça.

4.2.10

Verbo corpo canção

"Pra ser sincero não espero de você
Mais do que educação
Beijos sem paixão, crimes sem castigo
Aperto de mão.
Apenas bons amigos.

Nós dois temos os mesmos defeitos
sabmos tudo a nosso respeito
Somos suspeitos de um crime perfeito
Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos

Um dia desses, num desses encontros casuais
Talvez a gente se encontre
Talvez a gente encontre expliacação
Um dia desses, num desses encontros causais
Talvez eu diga, minha amiga
Pra ser sincero, prazer em vê-la
Até mais."
(Engenheitos do hawaii in pra ser sincero)


(para o dia que o gessinger se fez carne)
Então foi assim. Eu pensei em você verbo e você me apareceu: corpo. A distância inenarrável entre o você, verbo, meu. E o você, corpo, sabe-se-lá-de-quem. Mas foi assim, logo depois do você-canção você se materializou em mim. Corpo. De todos os seus estados possíveis, existe esse com o qual eu não sei lidar. O você-corpo. Quando você existe verbo, sou eu quem te conto. Eu te escrevo, te domino, te dou vida com as palavras que são minhas. Então, você é meu. Quando você é canção, é a minha interpretação sobre o seu existir. Ainda é meu, de controle. Já o você-corpo sai por aí fazendo o que lhe cabe. Sorri, anda, e principalmente, não é meu. Não te controlo, não te faço sorrir pra quem eu quero e nem mesmo sei o que se passa dentro de você. No nosso instante encontro aconteceu assim, o verbo se fez carne. E eu só sei lidar com verbos, não com carnes. Se fez então o meu encontro causal, o nosso, coisa estranha. Você-verbo ainda morava em mim, você- canção ainda estava nos meus ouvidos. Você carne, em sua existencia bruta se fez assim, distância. A indiscutível distância entre dois corpos. Fria. Ali. Já não somos mais, apenas bons amigos. Mas serás pra sempre meu verbo, e minha canção. Pequeno grande pedaço eterno do meu ser; verbo, poesia, canção e corpo. Indivizivel.

30.8.09

E nesses dias tão estranhos

(fica a poeira se escondendo pelos cantos)

Já não sei mais escrever com música. Os meus vinte anos de boy, that's over baby. Parece estranho sentir um peso ancestral depois de duas décadas, mas hoje sinto que preciso do silêncio. Porque o silêncio me dói. E eu ainda só sei escrever com dor, o que é um clichê dos piores. Minha mãe diria que eu estou sempre usando a palavra "clichê" e então, se um dia ela me pegasse um pouco mais espirituosa eu diria que só se fala daquilo que se é, e eu sou um clichezão enorme. Hoje é o ultimo dia do mês e o começo de uma nova, daquelas bem velhas etapas. Eu nunca deixei de ser a garota de dois anos atrás e de certa forma isso me enjoa um pouco. Todo mundo quer evoluir, ser diferente e eu só me sinto um pouco mais perdida.

Antes "acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto" me cabia bem, mas hoje é um leque tão grande de possibilidades que não virão a ser que eu acho que eu nem sei do que eu não gosto. Estou acostumada, indiscutivelmente acostumada às coisas que faço e também às que deixo de fazer. João Ubaldo diria que " a gente se acostuma a tudo" e eu, relutante demorei a acreditar nisso, mas hoje acredito que sim. Não paro pra pensar na minha vida faz algum tempo e tento me ocupar com mil e uma babaquices só para preencher o tempo e ter algum assunto. E aí quem me vê acha que eu vi mil e um filmes e conheço várias bandas e leio muitos livros, mas eu só sou uma farsa bem arranjada com alguma pitada de bom humor. Ultimamente não estou dando nem pra escrever e sinto um sono que eu não posso nem explicar.

Hoje pensei muito sobre felicidade, sobre realizações. Gosto de ver as pessoas perto de mim um pouco felizes, bastante felizes, realizadas. Nunca fui assim e nem posso te dizer que um dia o seja. A falta de alguma coisa parece fazer tanto parte de mim que se um dia eu resumir que estou feliz e só eu não serei mais eu. Claro que isso é uma das bobagens sem tamanho que a gente diz quando sabe que ser feliz há algum tempo não é uma opção. Ou desde sempre. Pessoas infelizes gostam de dizer que são mais produtivas desse modo e assim o fazem, e aí se tornam pessoas interessantes porque gente que não sabe o que fazer tem um ar de mistério que sempre é de alguma forma, interessante. Mas ar de mistério às vezes é só tristeza e solidão e depois de quase duas décadas fica desinteressantíssimo ser uma pessoa com a qual nem você mesmo gosta de conviver pacificamente.

E então, olhando para os lados vi umas duas pessoas que se diziam completamente felizes e senti uma certa inveja, porque eu de alguma forma não sou feliz. Alguma música do chico termina assim, bem com esse verso ' não fui feliz'. E eu sempre posso ficar dizendo e repetindo isso no fim de qualquer coisa, que eu ainda não fui feliz. E é a mais pura verdade. Ando assim, cheia de dias estranhos, e se paro pra pensar há uma tristeza que me invade me lembrando das vinte e sete coisas que eu preferia esquecer. Queria esquecer de muitas coisas, porque tenho todas as ferramentas para ser uma pessoa feliz, mas não consigo usá-las para tal. Existem pessoas que não aproveitam a própria sorte e disperdiçam sua fortuna. Eu tento todos os dias desde que nasci não disperdiçar a minha fortuna, mas sou muito desconfiada e depois de achar que não tenho fortuna nenhuma e largo tudo pra trás, do jeito que sempre foi. Não gosto de ficar sozinha, mas me acostumo assim se preciso for.

Sofro de síndrome da insatisfação crônica e tenho quase certeza que nada nunca estará bom pra mim. Mas depois de duas décadas se instaura em ti um medo, e é ele quem me acompanha todos os dias. Com vinte anos já é hora de ter sua vida mais ou menos arranjada e desarranjar ela de uma hora pra outra pode ser coisa pra se arrepender para todo o resto dela. Hoje tenho medo de tudo que me desarranje e vivo então um dia depois do outro e depois do outro e depois do outro. Já não tenho certeza de nada e os dias nem doem nem alegram, só são. de tristezas e alegrias ocasionais todo mundo vive, inclusive eu. E eu tenho vinte anos, sou morena, viceral e ainda não fui feliz.

4.8.09

O que está acontecendo?

( o mundo está ao contrário e ninguém reparou; ou desabafo)

"It's a mad, mad world", gary jules diria cantado no final de donnie darko enquanto você se dá conta dos universos paralelos. Universo paralelo, prazer, é de onde estou observando de leve o mundo em que me encontro. Ou todo mundo enlouqueceu, ou sou eu que tenho problemas com me adaptar a realidade. Não sabendo a resposta certa, eu digo que talvez seja tudo uma louca questão de ponto de vista e que no fim não faça diferença nenhuma o que eu acho, ou deixo de achar, mas eu só preciso dizer que eu já não sei mais o que estamos fazendo de nós.

Então me dizes que acabaram todas as fronteiras e que podes se comunicar rápido como um foguete com qualquer pessoa em qualquer lugar do universo. E achas graça, porque agora seu universo é grande e extenso, mas não cabes dentro de si. Trocas então qualquer conversa por telefone por seu computador e esqueces que pode chamar alguém para tomar um café, porque então te lembras que vives sozinho e faz algum tempo que ninguém frequenta a sua casa. Tentas então as teclas, procurando algum amigo, e ele até te ouve, mas sabes que tentas em vão porque no fundo (sem saber) sabe que letras coloridas não substituem olhares compreensivos, mas nem te lembras mais como eram, então cala-te e dorme, porque não tens tempo para pensar bobagens.

Não te lembras quantos amigos já perdestes, mas lembra-te de às vezes, mandar algum recado diznedo que está com saudades, que a outra pessoa responderá dizendo que também está e que poderiam se ver, sabendo que não se verão nunca mais. Ambos possuem outras vidas agora e não tem tempo de se desvencilharem das mesmas para correr atrás do passado. Passado aliás é uma palavra muito malvista. Dizes passado, lembram-se de velho e ninguém mais gosta do velho. Gosta-se de futuro, de novo, de presente. Gosta-se do que está aqui e agora. Do rápido, do prático, do enlatado.

Então já não sabes mais se compra a blusa que viu na loja para a sua esposa ou para sua filha, afinal se vestem ambas tão parecidas e nem sabes mais quem tem mais fotos na internet ou entende mais de computadores. E vê em todas as revistas milhares de pessoas dizendo em vinte e cinco formas diferentes de se manter mais jovem junto com as trinta e sete maneiras de parecer mais magra e só sabes que pensam muito em aparência e em parecer, mas já está tão acostumado que nem ligas.

Se perde no meio da loucura de aproveitar o presente e então nem te lembras mais que também é uma opção ficares em casa, sozinho, repensando suas idéias. Te lembras que parar é perder tempo, então faz. Então buscas. Então tens. Tens dinheiro, diversão, festas e tudo isso que trás a felicidade. Estás jovem e ativo e assim sempre estará, e permanecerá e se isso não for possível, ao menos parecerá. Então tentas a todo custo se manter em trinta e sete cirurgias plásticas e visitas semanais à academia. Já estreiou a boate da moda, entendes completamente tudo e todos e te livrastes dos preconceitos. Acreditas em sexo casual, e buscas experimentar pois experimentar é o único jeito de saber. Não paras mais. Estas sempre em algum lugar, estás sempre em busca da felicidade que está sempre um passo a frente de você, mas sabe que um dia irá alcançá-la. Estás atrás da juventude que um dia sabes que perderás, mas não te importa, pois seu espírito é jovem e não envelhecerá jamais.

Então corres, tresloucado para nunca parecer ultrapassado, e se livras do passado, e de repente, olha, serás moderno. E nasces como um robô belamente programado para não parar, não envelhecer e ser feliz. E para ser feliz não há limites. Então bebes, e e sai, e ri e conhece quantas pessoas quanto puderes e te envolve com quantas pessoas quanto puderes e largas quantas pessoas quanto puderes para sempre ter todas as pessoas que quiseres, sem se dar conta que nunca nunca tens ninguém. E te sentes pertencido porque todos os outros são como você. Bonitos, e jovens, sempre sempre jovens.

Eis que sem perceberes perdeste a vida. E perdeste, que ironia, tentando ser feliz. E envelheceu enquanto tentava ser jovem. E foi ridículo enquanto se sentia totalmente pertencido. Agora olhas pro lado e vê, vê aquele alguém que sempre julgaste fora dos padrões e louco. Vês teu amigo que dizias feio pois assumiste as rugas. Vês teu amigo que dizias perder tempo, pois passavas muito tempo contemplando. Vês teu amigo a quem dizias que estava deixando a vida passar por entre os dedos, sem aproveitar. Vês teu amigo que sempre achou bobo, pois um dia se envolveu demais com alguém, e com uma só pessoa decidiste ficar. Vês seu amigo que tinha tempo para os filhos, e que resolveu assumi-se pai, e não companheiro de balada. Que resolveu tomar seu tempo, fazendo as coisas que julgava de seu tempo. Vês seu amigo a quem julgavas velho, antiquado, a quem dizia não saber se adequar as mudanças do mundo atual. Vês seu amigo que tomou tempo para ler, para caminhar, que não ganhou tanto dinheiro e teve tempo para a família. Vês seu amigo que um dia sossegou, e não tenho uma vida cheia de luxos, teve conforto o suficiente para curtir a palavra que detestavas, a velhice.

Vês teu amigo pleno, e de rugas no rosto, sentado numa cadeira na varanda e pensas em perguntar como vai levando a vida. Pensas em perguntar mas desistes, porque enxergas no rosto do amigo aquilo que passou a vida inteira procurando, mas não encontrou. A palavra mágica, o elixir da juventude, da boa saúde, da vida plena. Aquilo que não se encontra com vinte e cinco jeitos práricos, com mil noites ou com fórmulas magicas de juventude eterna. Encontras no rosto de teu amigo aquilo que sempre julgastes ter a fórmula mágica para conseguir e aquilo que julgou a vida toda estar tendo, mas nunca soube como era. Encontras no rosto do teu amigo, hoje velho, mas de essência viva, a mesma de muito e muitos anos atrás, aquilo que estão todos loucos procurando enquanto colocam os pés pelas mãos: a felicidade.

E então entendes que tudo que ficastes velho buscando a juventude, perdestes tempo tentando aproveitar a vida e principalmente, ficastes sozinho, tentando ser feliz. E então choras a te olhar no espelho, desfigurado por seres aquilo que não és mais, sente-se ridículo, e pensas em querer voltar tudo e pensas em querer começar de novo e pela primeira vez se encontra com o único mal irremediável: O tempo que não volta mais. E choras, não foi feliz. E então te perguntas "até quando continuaremos assim?" e ficas, porque (não sabes que) sabes que ninguém te responderá. Não sabem a resposta. Continuarão. Eterno-retorno-Eterno de busca sem fim.

21.7.09

Esse sentimento

E sentes de novo a essencia exata do que é a solidão e a dor de existir. Mas o que sempre existiu não é novidade. Então o sentimento senta ali e fica quieto, nem respira, nem canta, nem dói. Senta pra tomar um café, pra assitir televisão, pra tentar nao ser percebido. Mas é.
E aí te lembra de coisas simples e pensa em trinta e sete relacionamentos quebrados que já te acompanharam vida afora e vê que teus pés nem caminham mais do lado deles, que tem um abismo no novo mundo que se formou de ambos os lados e é abismo que ponte nenhuma pode alcançar. Aí sabes que se sente fraco, sozinho, triste, abatido e até dizem que você está cansado quando te revêem que é um jeito mais educado de dizer que conseguem ver de longe a sua alma despedaçada e seu vazio de existir.
Pensas então em mais de milhares e milhares de jeitos de melhorar, mas não pensa em nada. Sempre soube que a felicidade é coisa simples, coisa de momento, lugar, de ter bons amigos e boas companhias. É coisa de clichê. E sempre soube que existem milhares de jeitos novos e de cores diferentes para alcançá-la, mas aquilo que hoje bebe café com você não te deixa pensar em nenhum.
Então nem tenta mais e te cala, porque só sabe sentir que esforços são em vão. Senta ali com esse sentimento e fica. fica. Porque sabe que já perdeu a força de ir há muito tempo, e que felicidade é coisa que hoje não consegue alcançar. só por hoje. aquieta. dorme. sente. chora. é assim.

30.6.09

Vinte e nove maneiras e meia de não reconhecer-se.

E eu não sei quanto tempo faz, mas se fazem meses desde a última vez que essa solitária eu adentrava qualquer ruído que fosse fora da incomensúravel rotina que já me quebrou em vinte quatro mil trezentos e sessenta e uma partes. Não me lembro de mim comigo mesma desde nem posso me lembrar quando e isso é coisa ruim que se sente nos ossos. Sinto saudades de mim como era, e sou, dessa essência desajeitada, sempre querendo chamar atenção. Desses bom humores que escondem vastas tristezas.

Gosto de ser como sou, embora doa um tanto. Sei que estou essencialmente precisando de conversas, de novos ares, não sei me sentir presa. Sempre soube que qualquer responsabilidade que me fosse imposta doeria nos ossos. Nasci pra ser cuidada. Não sei cuidar e nunca soube carregar peso demais nos meus ombros. Preciso de um momento só pra mim. Um vão que seja, para que fluam as coisas que aqui estão presas.

Sempre tive medo da solidão. Agora a abraço tranquila, como criança que corre de mãos dadas com um novo amigo. Juntas abraçamos a melancolia e nos damos as mãos rumo a caminhos sórdidos. Acontece sempre, eu sei. E acontecerá assim até que não precise mais acontecer.

Hoje preciso respirar até encher trinta e cinco pulmões. Preciso estar em trezentos e quarenta e sete lugares diferentes. Preciso das minhas vinte e seis maneiras diferentes de enchergar um mesmo problema. Preciso me encontrar no meio dessas brincadeiras de não ser. Preciso de razões para viver, e mais ainda, razões para continuar viva. Novecentas e quarenta e três razões de cores diferentes. E só.

8.6.09

Das sensaçoes

Da absurda agonia de existir papel e caneta, mas faltarem as palavras. Da inquieta sensação de respirar e existir, mas faltar a vida. Da estranha frustração de ser o malfeito entre caio e clarice e odiar esse existencialismo barato, sem bebida, sem cigarro, engolido à seco, clichê por clichê, como se saboreasse belos doces, que na verdade são feitos de fel. Das sensações misturadas da necessidade de proteção a quem não precisa e das agonias de gostar demais a ponto de nunca nunca conseguir deixar. Da inquietação perene vinda do vício estranho por cafeína. Das saudades suicidas de tudo aquilo que já foi e nunca mais vai ser, mas poderia. Da tristeza ocasional de saber que nunca será tudo aquilo que desejastes, mesmo que tentes com toda a alma e deseje de todo o seu coração. Do aperto na alma de não ser aquilo que o modelo perfeito de você queria que você fosse. Das horríveis dores de cabeça pelas noites mal dormidas. Do frio inquietante que gela ossos e alma do acordar cedo para honrar aquilo que não considera importante. Dos buracos abertos dos amores que são perdidos ano a ano, mês a mês, durante toda a vida. Da esperança bandida de encontrar um lugar só seu e ser feliz feliz feliz feliz. Do vício suicida de ser feliz com aquilo que lhe faz mal, e do que te faz mal te fazer sorrir teu sorriso mais sincero. Da certeza de saber que não casarás com o amor da sua vida, porque ele já se foi. Do enjôo matinal por ser essencialmente romântica nos dedos, e seca como uma esponja na vida. Do pesar de perder todas as pessoas que um dia amou, algum dia, ainda que longínquo. Da absurda agonia de existir e ser, e continuar vivo. Estou.

aleatoriedades de uma mente sem atividades.

E a menina sempre usava roupas que na verdade não lhe cabiam. Porque a menina nunca coube dentro de si.

***

E a minha abstração é tão concreta quanto viradas repetitivas de pás de ventilador.

***

Porque não foi o seu sempre existir que te aproximou daquilo que ela não era. Foi o que nunca existiu em ti que te tornou próximo do que na verdade ela sempre foi.

***

Odeio estar literária. Minha criatividade nunca coube dentro de mim. É maior, é sublime, não me pertence. É anterior. Sou muito parca. Pobre. Sou Normal. Não me abarco. Nunca abarcarei. Transbordo.

***

E das coisas que vivem em mim, vai ser sempre você a transbordar o que existe de mais bonito. E sublime. E seu.

***

Gostarei sempre de sorrir contigo. E de tomar café em manhãs tristes e frias. E conversar ao relento. Gostarei sempre de estar contigo. E te sentir presente perto presente meu. Gostarei ainda mais de como me fazes sorrir mesmo quando não está presente. Presente meu.

***

E ela tinha tendências estranhas a gostar de manteiga, chocolate, bacon e principalmente a estranah tendência de gostar a ponto de nunca mais poder desgostar.


***

E das coisas que eu amo, te digo que você é pra sempre. porque amizades que existiram anteriores a existência, continuarão a existir quando a existência nos for posterior.

4.5.09

des reencontros

"De você eu nem lembro nada, amor nem era. o que eu sentia por você era só a beleza do contraste dos olhos azuis tão lindos com meus olhos castanhos estranhos e sem jeito. eu nunca pensei, você já pensou a gente junto? eu pensava e despensava logo em seguida, porque eu queria era ter você aqui pra mim mais que como um troféu, umas águas-marinhas bonitas do meu lado, porque eu sempre fui uma pedra sem nome. o que eu lembro de você são 6.58, as coisas que eu estraguei sem querer e mais uns vários copos de coca na escada, enquanto você aparecia sem eu perceber, assim com a gente acabou: despercebido."

E aí a gente desapercebidamente encontra de novo, na hora do almoço na segunda feira neblinenta de Londrina e continua assim, despercebido. Pra nunca nunca nunca mais.