4.6.12
but you look so cute when you're frustrated, dear
13.4.11
Heart shaped-box
Não sabia se de fato enxergava naqueles presentes apenas "coisas". Conseguia se lembrar do momento exato em que eles tinham sido dados. Tinha uma afeição especial por um sapo de pelúcia que tinha sido comprado de surpresa. Tinha afeições menores, mas não menos importantes, por todos os outros objetos. Os pegava na mão e conseguia lembrar que, naquele momento, tinha sido muito feliz. Às vezes a felicidade também vira coisa. Lembrança longe e que a gente tenta pegar com a mão, e não consegue. Milhares de sorrisos eternizados em um objeto que hoje é enfeite no quarto do lado de outros mil objetos diferentes. Os sorrisos embalsamados. Guardados dentro da bolsa, dentro da lata, embaixo dos cachecóis. Hoje, já não sorria tanto. Não com amores, pelo menos. Tinha uma certa felicidade em estar só. Não era comodismo, era outra coisa. A solidão é mais imensa que o amor, porque o amor se divide. A solidão é só sua. E é tão imensa que às vezes aprisiona. Ela se sentia aprisionada dentro da própria solidão. Os passos mudos, os pensamentos rápidos, as músicas. Tudo muito dela, solitário, íntimo, indivisível. Uma paz. A paz de não depender de ninguém. Não esperar ligações, mensagens, e-mails, congratulações. Não ter que esperar jantares, rosas, beijos inesperados as cinco da tarde. Não ter que preparar a comida preferida, desejar 'boa sorte', 'bom trabalho' nem dizer "te cuida, garoto, o mundo é mal". Fora do amor era menos ciumenta, menos posse, menos cuidado com o outro. Bem mais com ela. Pequenos objetos novos fazendo um inventário novo, o inventário da solidão. Roupas compradas em liquidações na rua, livros, filmes, tickets de passeios solitários no cinema, cartões das cafeterias onde ia dividir cappucinos com creme com ela mesma, e fazer um balanço geral do dia. A solidão não cabe dentro da gente.
Sentiu então uma certa inveja daquela pessoa que um dia mereceu presentes, surpresas, declarações, cartas. Um certo rancor de si mesma de ter transformado tanta coisa repleta de significado em pequenos bibelôs espelhados pela casa. Bibelôs empoeirados, esquecidos, etiquetados com datas mentais e que sempre diziam "você já pôde ser feliz". E tinha sido. Mas sempre procurou uma espécie de felicidade completa e nada, nada a preenchia. Nem o emprego (razoavelmente bem sucedido), nem os amigos (vários, sempre presentes), muito menos as novas conquistas (costumava ser apaixonante). Tinha uma preguiça imensa de dividir sua vida com outra pessoa, ensaiar novos ritos, dar significado à novas coisas. Ficava ali, então. Ela, sua solidão amiga, os livros, os discos, as falsas demonstrações de afeto que costumavam vir de tempos em tempos, conforme a necessidade de um novo amor que raramente saia do campo platônico. É que as pessoas costumam ser extremamente desinteressantes quando chegam à luz da realidade. Quase feias. Esse amor ideal não existe, amor acontece no dia-a-dia. Acontece nos passeios de mãos dadas no mercado, quando resolvem trocar o almoço por nuggets. Amor acontece nos domingos à tarde deitados na cama olhando o teto e conversando sobre a vida. Amor acontece quando a gente não está prestando muita atenção, não está fazendo nada de muito grandioso. Nenhuma declaração muito ensaiada, nenhum presente muito caro. Amor é um troço cotidiano, nem tão bonito assim, porque é meio frágil. É mais ou menos como um arco íris, ou uma borboleta. Um dia acaba, ou se tocar muito fundo pode desintegrar. A última coisa que lembra, sobre um desses amores aconteceu na cama do quarto, quando os dois deitados não esboçavam mais emoção, só cansaço. As pernas entrelaçadas, os rostos colados e um eterno cansaço. O cansaço do fim do amor. De quem andou demais, esfolou os pés e de repente não sente mais forças pra continuar.
Mas as despedidas são bonitas. Os ritos, sempre os ritos. Um último beijo, a misericórdia, um gosto doce. Nenhum desses presentes sabia que um dia torna-se-ia bibelô. Enfeite de mesinha de centro, de cabeceira, empoeirado pelo tempo e pesado de tanta lembrança. Pegou um deles na mão, lembrou do momento. Talvez os significados ainda estivessem ali. O sentimento não. Mesmo que ainda existisse, existiria transmutado. E, além do mais, depois de tanta solidão ancestral nem tinha como tirar a poeira que o tempo deixou nos presentes - e no coração. Sentiu uma espécie de gratidão. Ao mundo, ao amor, ao sentimento, à ele. Queria deixar eternizado em algum lugar que já tinha sido feliz. Colou uma etiqueta embaixo de uma boneca, escreveu a data que se lembrava "por volta de setembro" e completou "alguém me fez feliz com isso". Botou de volta no lugar, limpou a poeira e sorriu. Tinha criado uma espécie de mausoléu para a felicidade. Que hoje jazia enterrada a sete palmos e tomava cada vez mais distância do amor.
31.3.11
31/03/2011
26.12.10
vou tirar as passas do arroz, e venha o que vier.

Lembranças e saudades. É assim que eu categorizo o ano que ainda-não-se-foi. O ano do não-presente, da espera pro futuro e da saudade do passado. Não me lembro de ter tido anos piores. Meus vinteeum anos me pesam como dois grandes sacos de 10kg em cima das costas. Uma dor nos joelhos, um enjôo de existir e o tédio. As pessoas continuam vivendo a vida delas em seus círculos paralelos enquanto eu fiquei meio presa nesse ano que nem existiu de verdade. Um ano que passou com uma terrível vontade de que se acabasse e com uma eterna saudade daquilo que foi e que não é mais. Vejo na parede fotos de pessoas que já se foram, e que a gente sabe, não voltam. Guardo no meu computador retratos-e-canções de tudo aquilo que um dia prometeu ser. Estou cansada, e por vezes choro. Tem dias que eu enjôo da vida, tem dias que ai. Acabaram-se os ciclos, acabaram-se os ritos, acabaram-se as promessas. Acabaram-se os amores. Acabou-se.
O que recomeça então, a gente se pergunta, e eu não sei. Tenho na colher o gosto de um brigadeiro que já se foi, e tenho em mim o sabor das conquistas que podiam ter sido, mas não foram. O fracasso, o medo, a insegurança. O amor, ah, o amor. Um ano inteiro de tanto amor e pouco espaço, de pouco amor e muita confusão. Um ano inteiro de tanta fantasia, tanta saudade, tanto apego, tanto dispêndio de energia, pra no fim continuar trilhando estradas por si mesma. Eu sei, e todo mundo sabe. A gente nasceu sozinho e morre assim também, no fim. E têm mudado tanto as pessoas que resolvem que dividirão comigo então a tal trajetória na vida. O que se leva, afinal, o que é pra sempre, quem é insubstituível, o que vai doer, o que vai ficar, quem vai me fazer feliz até o dia da minha morte? Tantas perguntas, nenhuma resposta, e as terríveis reflexões de fim de ano. Depois de quantas cervejas é possível saber de verdade o que a gente quer da vida? Depois de quantos abraços, de quantos brindes, de quantos desejos de um ano novo lindo, sabor de doce é possível saber que a gente vai ser feliz de fato? E quanto tempo demora até se concretizar a felicidade? E felicidade plena, existe? Existe no fim de tudo, a certeza da dúvida. E uma angústia. Uma angústia eterna de 365 dias se tornarem tudo aquilo que a gente sempre quis.
Um ano inteiro de saudades, e esforços. Eu ri, sim. É porque também se ri no sofrimento, ali no meio. Quando o sofrimento dói na carne, ou a gente se entrega, ou sorri. Arrisco a dizer que dei meus sorrisos mais sinceros durante esse ano. Lindos, abertos, perfeitos. Saí de cabeça erguida de todas as dificuldades e sorri também porque se sorri na hora da morte. Antes de fechar os olhos. Conservo em mim um orgulho infantil, uma capacidade de superação e uma eterna preguiça de viver. Conservo em mim o enjôo de anos de fracasso sem glória nem sorriso. O enjôo das despedidas sem ritos. Do não poder chorar na cara, do não poder dizer "vai, mas não vai sem saber que um pedaço de mim vai junto". Só a separação. A separação das pessoas, dos amores, dos sentimentos. A separação daquilo que se era e que se sabe, nunca mais será o mesmo. Será que é o peso dos anos que faz com que tudo perca um pouco a música, que com isso se vá embora a poesia, que se coma brigadeiros com gosto de saudade? Será que a cada fim de ano se perde a esperança do "que seja o melhor ano da minha vida" e se troca para "que seja melhor que o próximo".
É que às vezes a gente promete pra gente mesmo um ano novo cor de esperança, de nova-vida, de felicidade. Diz que vai fazer o melhor ano novo do mundo, se veste de branco promete e pede a paz. Escreve uma lista e sonha. Renova, reescreve, reinventa, abraça meio-mundo pulando num pé só, pulando ondas, sendo aquilo que dá pra ser, esperando sonhar um sonho, dois sonhos, e querendo que todos os sonhos do mundo caibam num ano só. Só que vida pressupões frustração e sonho nem sempre se concretiza. É certo que hão de vir anos terríveis e anos melhores-um-pouco. É certo que um dia a gente acorda no dia 29 de setembro e de repente começa ali um ano novo cor de felicidade. É que a vida é feita de encontro-e-desencontro. De gente que vai pra sempre prometendo voltar amanhã e não volta nunca-mais e de gente que vai pra nunca-mais e a gente encontra numa esquina qualquer da vida. É que tem vez que é a gente que vai pra nunca-mais. Tem vez que é a gente que se despede sem rito, tem vez que a gente que é surpreendido, mas tem vez que é a gente que surpreende. É que às vezes acontece de você ter o ano novo mais iluminado do mundo, e os piores 365 dias da história da sua vida. Aconteceu comigo. Pode ser que seja do barco ir firme e sem tribulação, e pode ser do barco virar. Pode ser do amor vir, e pode ser do amor acabar. Pode ser de acabar o amor que era pra sempre, pode ser de ser pra sempre o amor que já tinha terminado. É que no meio desse turbilhão terrível de ano, ainda tem o pouco-que-sobrou. Ainda tem um sorrisinho de canto-de-boca pra distribuir. Ainda tem uma roupa guardada e uma taça querendo-brindar que oxalá, o próximo ano há de ser iluminado, há de ser de paz, de conquista de doçura e só. É que no fim das contas, o brigadeiro ainda é doce, se tem saudade valeu a pena e cai um pacotinho novo de esperança piegas a cada dia trinta e um que faz gritar: "vai embora, ano velho, e traz pra mim um ano lindo".
22.12.10
"E não pensa que eu fui por não te amar."
Eu fiquei pensando, depois de ouvir o barulho dos pássaros, que eu nunca vi o sol nascer. Ouvi, várias vezes. Vi também o dia clarear, mas o primeiro raio de sol eu não sei donde vem. E enquanto penso nisso, penso também em você, porque hoje o dia foi meio teu. Um dia todo cinza, chuvoso, com eminências de te encontrar, histórias tuas, arrependimentos. Eu fico pensando que devo ter perdido dias pensando em você com a mesma freqüência que perdi nasceres de sol por estar dormindo. Com você eu vi o dia amanhecer uma vez só. E teve poesia na estranheza, mas isso é só mais uma daquelas histórias que eu teimo em contar pra quem ainda não enjoou de nós-dois. Teve também a outra vez que eu acordei tendo certeza que queria ver todos os dias amanhecerem do teu lado, mas te deixei ir, desapegado como sempre.
Eu sei que eu tempo perdido muita vida. Tenho insistido em reviver histórias, em causar encontros casuais forçados, em tentar encontrar aquele amor que eu via refletir dos teus olhos nos meus em algum lugar. É difícil viver sem você. Mas é mais difícil ainda viver sem amor. Eu já não sei o que eu espero de você. Das poucas vezes que o dia amanheceu e eu vi, não teve nenhum olho pra refletir nada. Eu revejo nossa história, eu tento deixar isso vivo no papel, eu sou capaz de lembrar das cores das suas roupas em cada encontro. Eu não sei se eu sei mais. Faz tanto tempo que você se foi. Eu fico no esforço tão infantil para não deixar você morrer. É tudo uma grande desculpa. Ora eu digo que eu acho que você não está feliz, depois eu teimo em me convencer que lá no fundo alguma coisa coisa em você ainda me ama. É que eu acho injusto te deixar morrer, sabe? um-amor-tão-grande-assim. Mas por quanto tempo?
Por quanto tempo eu vou esperar que a sua vida mude de rumo e se encontre de vez com a minha. Eu sei, é muito bonito escrever um amor e, como uma flor no quintal, não deixar morrer, podar as pontas, os galhos mortos, colocar adubo pra crescer mais forte e bonita, mas de que adianta? Fica a flor num canto, enfeite-de-parede, linda-linda, mas sem ninguém pra ver, amar, pra presentear com a flor. É a flor e só. Sabe, eu não quero um amor pra alegrar o ambiente, eu nem nasci com vocação pra ficar encostadinha na estante esperando você vir me resgatar dos males do mundo.
Eu sei que eu construí um castelo e esperei que você morasse nele, mas não dá. Tem toda uma história que eu cansei de rescrever, reinventar, enfiar fins em que você voltava por aquela porta com um ramo de flores. Pode até ser que você seja mesmo o meu fim, o fim em si mesmo, o amor-maior. Eu não duvido de nada, eu até espero que seja assim. Mas eu estou perdendo os entremeios. Cansei de escrever você, rescrever você, reinventar você. Cansei de você ser meu verbo e a minha canção. Ainda acho o nosso amor lindo-lindo. Ainda lembro como era me ver refletida nos teus olhos, sorrindo. Mas e a vida, onde fica a vida, as histórias paralelas, as tramas secundárias, as flores que nasceram pra morrer, os castelos construídos pra ruir? Onde ficam meus encantamentos sem amor, histórias inventadas que não vão ser eternas, mas tentam.
Me diz onde fica a minha vida agora que você resolveu ir e nem sabe se volta. Eu te dei de presente a história de amor mais linda que duas pessoas não chegaram a viver. Um livro inteiro de memórias póstumas de um amor que nem nasceu pra que pudesse morrer. Cartas não enviadas, bilhetes no espelho, despedidas doloridas e músicas que você ainda não ouviu. Você foi o meu grande-amor, a minha literatura e o meu verbo enquanto deu-de-durar. Eu ainda te amo, eu não minto não, me doem as chuvas e as noites em que eu passo em você, me dói ter o sofá inteirinho pra mim, mas de repente me deu uma vontade louca de tentar outra coisa, outra história, outro momento, outra paixão. Inventar outra casa, outra vida e deixar crescer outra flor no jardim. Deixar a flor crescer, podar as arestas, aguar toda semana três vezes por dia, cuidar de outro amor, outro encantamento. Teu amor ainda tá aqui, tá guardado, tem livro, tem casa, tem castelo e tem sonho. Poxa vida, quanto sonho coube (e cabe) no nosso amor. Mas agora me deixa, eu quero soltar da tua mão, quero provar outras coisas. Eu sei o quanto é difícil essa redescoberta, mas da janela do meu quarto olhando o sol nascer eu de repente não vejo tanto-sentido-assim nesse amor que não é, que insiste em não ser e eu insisto em dar vida.
Eu dei de descobrir em outro lugar pra que lado nasce o sol - "para que minha vida siga adiante"
5.10.10
Esse sim é pra você. - O último e o primeiro.
É que é bem assim, hoje eu decidi que eu ia dormir mais cedo, que eu ia fazer as coisas e aí tô protelando de novo. Eu tinha um arquivo de texto com cartas pra você, era até uma coisa bonita, mas hoje, antes de dormir tarde por - eu prometo - a última vez na minha semana eu preciso te dizer essas coisas. Essas coisas que você nunca vai ler. Ou vai, e vai ficar bravíssimo como se cada palavra que eu escrevesse nova fosse um tipo de alfinetada pra você. Eu não sei o que é, mas ultimamente todo mundo tem pensado que eu me preocupo muito com elas a ponto de escrever pra elas. E isso é uma bobagem porque eu sou muito egoísta. São poucas às vezes que eu não estou escrevendo para mim mesma e querendo irritar a mim mesma. Pouquíssimas. Mas aí as pessoas me olham, acham que eu sou algum tipo de filha da puta que fica aí enchendo o saco de todo mundo o tempo todo, e eu até sou. Mas não assim. Na verdade, eu me preocupo pouco demais com os outros pra que deseje machucá-los de alguma maneira. Você menos ainda. Eu não ia querer te machucar de qualquer maneira, até porque, eu gosto muito de você. Gosto muito. É isso, nada mais que isso. Você não vai ouvir mais da minha boca que eu te amo, que eu morreria por você. Isso tudo já me machucou demais, já fez calo demais em mim e em você. E eu sei lá se eu te amo, se é que eu amo alguém. E eu espero que você entenda. Espero que você entenda também que essa é a última coisa que eu te escrevo, diretamente ou indiretamente porque nem tem lugar mais na minha literatura pra ficar inventando histórias sobre você. As coisas foram se tornando repetitivas. Minha vida foi se tornando repetitiva, é um eterno acordar e pensar que eu estou infeliz, depois pegar um ônibus ouvindo no meu ouvido que eu já fui mais feliz e ficar me esquivando da realidade tomando aqueles cafés que ora são muito doces e ora muito amargos. Depois eu fico me inventando, me reinventando e procurando companhia aqui e ali, mas isso não surte o mínimo efeito. E eu nem consigo disfarçar na sua frente que eu é, não sou feliz. E você não pense que eu faço isso pra jogar na sua cara que eu acho que você está fazendo coisas erradas ou isso ou aquilo, é só que eu preciso dizer em algum lugar que a minha vida não tá assim tão legal. E eu não sou nem tão digna e nem tão adulta assim pra fingir que comigo nada aconteceu.
Minha vida anda vazia e ultimamente eu tenho feito um tremendo esforço pra reparar as besteiras que eu fiz no passado, até pensei, podia te chamar pra conversar, mas você ia confundir de novo as coisas. Você é mais covarde que eu, em todos os aspectos. E entenda que eu não estou te dizendo isso porque eu quero te atacar. Eu te acho suficientemente interessante e suficientemente legal, mas não dá mais. Pra mim. Eu tentei ser civilizada o tanto que pude, e tentei não invadir a sua vida e tentei até fingir que eu estava bem pra não te magoar. Mas até isso tem um limite, uma linha. E a linha era entre aquilo que era a minha vida e a sua vida. Eu nunca coloquei o dedo na sua cara e te apontei tudo que eu achava que você tinha feito de errado e nem tem lugar pra isso. E aliás, você nem está fazendo nada de errado. Você só está vivendo a sua vida do jeito que você acha que deve e por mais que eu te olhe e ache que isso depois de nove ou dez meses não vai dar em nada, não importa. O que importa é que você esteja feliz do jeito que lhe cabe, e eu feliz do jeito que eu ache que deva. O seu problema, e o problema de todo mundo é se achar o centro do universo. De que tudo aquilo que eu faço, ou falo e até as lágrimas que eu derramo são pra você. Às vezes até é, mas na maioria das vezes eu só estou preocupada com a minha dor. E além da minha dor, com a minha vida. Tem todo um universo aí que você deixou de conhecer há muito tempo dentro de mim e que só é um pouco de dor misturado com um pouco de literatura. Minha vida podia ser do jeito que eu escrevo, e às vezes até soa mais bonita, mas por mais que eu e você nos enxerguemos dentro da história, aquilo não existe. Nunca existiu. É como se eu tivesse escrevendo um livro. A nossa história é isso, um livro. Uma coisa que eu inventei com começo meio e fim pra poder suportar a falta de coerência dos personagens. Esse desencontro todo não é bonito, não soa bem. Em algum lugar a história tinha que existir de outra maneira. E existiu.
Na verdade eu não espero mais nada de você. Nada além do que você pode me dar, e tudo o que você pode me dar é muito pouco perto do que eu preciso. Às vezes é hora de reconhecer que meia dúzia de palavras jogadas e duas tardes de conversa não vão me fazer ter uma vida mais legal, por mais que eu sinta saudades suas, assim, como pessoa. E talvez seja a hora de você perceber isso também. Acabou, nós temos outra vida e por mais que a separação doa, foi você que escolheu assim. Um dia, literal ou não literalmente, eu fiquei sentada na cadeira te vendo ir embora e você foi. Sem mim. Eu ensaiei três sorrisos, ensaiei falar de outra coisa, mas no fim, no fim eu acabei chorando. Eu fiquei lá chorando enquanto você ia embora sem mim. E só isso já foi uma dor maior do que eu podia suportar. Depois eu tentei, eu esperei que você viesse me buscar em outro lugar, e me explicasse tudo o que tinha acontecido de verdade pra que eu pudesse levar minha vida de um jeito mais suave. "tudo bem não deu certo, mas a gente se vê por aí." "é, se vê por aí" "espero que você seja feliz" "eu também, eu espero que você seja muito feliz" "a gente se vê" "é, a gente se vê". E aí a gente ia se encontrar no ônibus, no mercado, na esquina, você ia me contar como está a sua vida me negando os detalhes que você não ia querer que eu soubesse e eu ia te contar da minha vida também te negando os detalhes que podiam te magoar e ia ser assim até que um dia a gente se encontrasse de novo, ou não, no meio de uma outra vida, de um outro universo. Mas não foi assim. Eu que fiquei chorando, eu que doí, eu que levantei da cadeira atrás de você, eu que corri atrás de uma explicação que não veio e então fui eu que dei o fim na história que eu conhecia, sem fim nenhum. E por mais que eu saiba que eu podia lidar com isso caso isso tivesse acontecido de um jeito menos dolorido, eu que resolvi ir embora de vez. É, assim, hoje. E decidi me doer sozinha, pegar dois ônibus, lidar com a minha infelicidade que tem gosto de café doce e continuar te deixando em paz. Hoje eu decidi que eu não durmo mais depois das duas da manhã, que eu vou fazer uma dieta, que eu vou correr cinco quilômetros três vezes por semana, cortar o cabelo, viajar, ler livros, escrever cartas, e principalmente, não dedicar mais nenhuma linha que seja a você. Não que eu tivesse feito isso antes. Essa é a primeira e a última coisa especialmente endereçada a você que eu deixo ao acaso pra que você leia. O resto eram histórias. O resto era a sua culpa te dizendo que eu queria te machucar. Eu nunca quis. Eu sei que você não queria também, mas machucou. E devido a minha falta de tato com tudo, eu resolvi te deixar pra lá. Por você, mas principalmente por mim. Eu realmente espero que você seja feliz. Realmente. Eu nunca julguei suas escolhas. Eu só tinha medo que você fosse infeliz. E ainda tenho. Mas se você for, não é problema meu. Você tem o direito. Se um dia você ainda quiser me ver, você sabe onde me encontrar. É capaz de eu continuar naquela mesma cadeira em que você me deixou chorando um dia. Porque tudo que se definiu daquele dia em diante, fui eu que inventei. No mundo real, nada aconteceu desde o dia em que eu fiquei sentada lá. Se um dia você quiser me tirar de lá, é só me procurar. Só que também pode ter acontecido de eu ter decidido ir embora sozinha.
Eu já dei o primeiro passo.
23.4.10
Olhar pro sol só ver janela e cortina?
p/E: eu fico pensando que já fazem cinco anos, quase. e isso é toda a sua faculdade e isso é tantotanto tempo, mas eu olho nos seus olhos de jaboticaba e acho que foi ontem que eu me encantei pelos seus cachos caídos no seu rosto, sem saber porque. e é assim porque a gente não muda, a gente vive se encontrando de olhos no chão e sua bolsa nem mudou, nem meu all-star. eu nunca soube o que era nós dois, nós dois existimos sem existir se é que isso é possível. eu e você é uma coisa tão maior que eu acho que se um dia eu encostar eu quebro, e eu prefiro deixar assim, imaginado. nossos olhos e cabelos castanhos e as mesmas roupas e alguma coisa sobre baleias e baleiros que você nem sabia que eu sabia de você, mas eu sei. assim como eu acho que você sabe tanto sobre mim que eu não posso nem pensar, mas fica ali, escrito, naqueles olhos que me voltam cinco anos atrás, e temos catorze-dezesseis e eu sou de novo, inexperiente, sem saber lidar com tudo aquilo que podia ter sido e não foi. mas de você eu tenho tudo e tanto. eu tenho a saudade mais bonita de todas as saudades bonitas que podem existir ainda que se passem mais cinco vezes dez anos e eu nem consiga lembrar que laranja e azul não combina nada, mas em você fica sempre bem.( Foi quando amei na o cara do segundo colegial, na oitava série, aos catorze)
p/R: de você eu nem lembro nada, amor nem era. o que eu sentia por você era só a beleza do contraste dos olhos azuis tão lindos com meus olhos castanhos estranhos e sem jeito. eu nunca pensei, você já pensou a gente junto? eu pensava e despensava logo em seguida, porque eu queria era ter você aqui pra mim mais que como um troféu, umas águas-marinhas bonitas do meu lado, porque eu sempre fui uma pedra sem nome. o que eu lembro de você são 6.58, as coisas que eu estraguei sem querer e mais uns vários copos de coca na escada, enquanto você aparecia sem eu perceber, assim com a gente acabou: despercebido. (Foi quando amei o menino de olhos azuis da sala do lado, aos quinze).
p/S quando eu era tudo pra você eu fazia questão de fingir que você não era nada pra mim, porque uma menina-como-eu nunca ficaria com um-cara-como-você, o que era a mais tremenda mentira do universo. um cara-como-você era tudo o que uma menina-como-eu queria, mas eu nunca admitiria isso. seu amor por mim era bonito, mas era quieto. era eu aqui e você ali e aqueles seus cabelos compridos com sotaque engraçado. eu já gostei muito muito de você, amor eu não sei. o que eu gostava mesmo era o contraste dos meus cabelos pretos com os seus cabelos loiros, enquanto as nossas jaquetas e tênis faziam par completo. mas quando você era tudo pra mim, eu já não era mais nada pra você e a gente acabou, assim, perdido. a gente tinha tantotanto pra dar certo e a gente deu errado por causa do nosso orgulho bobo, a gente era igual demais pra dar as mãos e sair correndo por aí, bilinguemente com capuzes na cabeça. e eu que ficava gritando yo tengo tanto miedo de perderte, perdi, e aún que te llames, no volverás. assim como yo tambíen no volverei e ficamos suspensos, perdidos no espaço enquanto você fica comigo no escuro me cuidando só pra esperar eu ir embora pra não voltar mais, ( acho que) nunca mais. (Foi quando amei o menino de sotaque engraçado, stalker, da sala da frente, aos dezesseis)
p/L: tem tanta coisa nossa jogada por aí, que vez ou outra eu esbarro com uma coisa que eu escrevi pra você ou uma foto que eu tirei pra você, ou uma noite que você me telefonou e foi aquela bagunça enorme. eu fico sempre pensando em você me desejando feliz ano novo, toda vez, toda vez mesmo, porque eu me lembro de você dizendo que aquele era o nosso ano e dois meses depois a gente acabou. mas tudo acaba, e lembra aquele poema do vinícius? o amor de tão forte tornou tudo tão frágil... mas as vezes eu me pego pensando nas suas pequenas delicadezas e seus sonhos infantis e em tantos planos e naquelas suas promessas tão bonitas de me deixar descançar no fim de semana. de cabelos brancos, de sermos lindos lindos ainda que se passasem trezentos anos e seus olhos verdes e meus cabelos castanhos fizesssem companhia pras nossas rugas. penso nos nossos futuros filhos e nas pequenas coisas que se perderam mas que foram tantotanto naquele tempo e até que acho que a gente foi feliz porque você me deu tanta força quando eu precisei. e se não fosse por você eu juro, eu não estaria aqui. e que loucura, porque foi justamente isso que nos fez perceber que a gente não tinha jeito. e você disse que um dia eu ia te entender, hoje eu te entendo e de coração eu espero que você seja feliz, sabe? acontece, e quem saberia? mas eu não te adorava só não, eu te amava sim, eu calei isso tantas vezes. e a gente foi tão bonito juntos, mas a gente se perdeu no meio dos planos meio que olhando pro céu, sem perceber. a nossa felicidade estava no chão. e a gente esqueceu boba e infantilmente de tentar pegá-la. ( Foi quando amei o irmão da minha melhor amiga, aos dezessete)
p/ T: eu nunca fui sua, mas você ainda é meu. Queria te guardar numa dessas caixinhas e abrir de vez em quando pra você me fazer rir com essa brincadeira de ser prepotente, pequeno gênio incompreendido. Nunca fomos. Não chegamos a. desisti, saí correndo, copos pelo chão e você nem precisou de explicações. Acordo mútuo entre bons amigos que sempre fomos, antes mesmo de querermos um dia, quem saber - ser. ser aquilo, bonito, duas pessoas solteiras, dois traumas passados, um novo-amor-quem-sabe-ele-é-tão-legal. um-novo-amor-quem-sabe-ela-é-tão-divertida. Te quero longe e muito perto. Minha dualidade necessária, garoto-problema predileto, aquele que eu adoro ignorar entre piadas em graça, coisas que são só suas e gostos que são só nossos. Criança grande, sonhador perdido, abraço alto, pra eu por um dia que seja me sentir quase pequenina. Adoro suas risadas altas, daquele jeito. adoro a sua total falta de jeito e a não cordialidade quase que ensaiada que vive flertando comigo. quase finjo ignorar sua mania de estar assim, como se sempre estivesse e tudo fosse seu. te gosto tanto tanto tanto e tantos tanto quiseres. te cuido. te guardo. me preocupo mais do que deveria e adoro. me fazes sorrir. tu talvez nunca mais seja meu. mas eu sempre serei sua. (foi quando amei o cara da faculdade, aos dezoito - quase dezenove e depois aos vinte, quase vinte um)
Foi só pra dizer que eu já fui tão tão cheia de amor e tão tão feliz. E ainda sou tão cheia de amor e tão tão feliz. E aos que não estão aqui, ainda estão vivos e não viraram parágrafos. São, existem e vivem. Dentro, para muitos e muitos textos. E pra muito mais vida que literatura - no meu coração fiz um lar, meu coração é o teu lar. E de que me adianta tanta mobilia se você não está comigo? (hoje) só é possível, te amar. Que a vida é feita de amores e a minha - sempre tão repleta deles - transbordou. E transborda.
Let go
18.4.10
You'll look for me and I'll be gone.
No seu livro deve ter um ponto final bem grande e você contando, no próximo capítulo, orgulhoso, o quanto você com a sua distância soube fazer eu me desapegar de você. Exatamente com essa palavra de-sa-pe-gar. E deve ter no segundo parágrafo que a explicação para a sua atitude é essa palavra aí de-sa-pe-gar. Só que a doutoura em semântica sempre fui eu, você só ilustra seu livro. Vai fazendo desenhos, colocando imagens. Vive fatos. Um atrás do outro correndo em busca da felicidade. Como num filme sem roteiro. E filmes sem roteiros as vezes terminam em grandes fracassos sem nenhum sucesso de bilheteria e com o esquecimento total do protagonista, enquanto os coadjuvantes as vezes conseguem algum sucesso em outros filmes, até mesmo como protagonistas. Mas não é disso que eu estou falando. É da nossa grande história.
Então eu te explico, como boa continuista que sou, que a consequencia da sua atitude talvez seja o de-sa-pe-gar, mas que a razão é bem diferente. E fica ali entre covardia e falta de caráter e passa um pouquinho pela falta de consideração. Consequencia normal da não reciprocidade de sentimentos é o desapego. Acontece sem ninguém precisar forçar. E é bonito esse (des)apegar. É como ir perdendo o medo lentamente da montanha russa em voltas repetidas até você conseguir lembrar da montanha russa como uma coisa bonita. Mas sua atitude só foi, como eu posso dizer, decepcionante. E não tem nada a ver com o desapego que você queria propor. Tem a ver com a sua covardia. Com o você saber que não saberia como lidar comigo enquanto eu me desapegava de você e então resolveu fazer tudo da maneira mais fácil e rápida, que é sair pra comprar cigarros e nunca mais voltar.
Exatamente como naquele filme, em que a menina fica presa ao fogão enquanto o cara foge e some em busca de uma vida, porque ele não sabe lidar com aquela que ele tem, e nem com a garota loira que hoje trabalha num cabaré. Engraçado pensar que no teu filme você talvez um dia teria escolhido ser esse cara, e parabéns, hoje você é. Só que sem dignidade nenhuma e sem nenhuma poesia, dessas dignas de filme. Mas eu não tenho ressentimentos, é exatamente como aquele trecho em que ela fala que tentava ter longas conversas com você, até o dia que não lembrava mais da sua voz. Isso é desapego. E tem dor. Eu não sinto dor, nem desapego. Eu só desisti de você, tão racionalmente que talvez você agora se sinta orgulhoso de tudo que fez.
Mas não se sinta. Orgulho não é o que você deve sentir pot você mesmo. Tem que ser alguma coisa entre arrependimento e medo. No meu livro você sempre esteve, ali, coadjuvante e é justamente pelo respeito que se deve pelas pessoas que fazem parte da sua história é que eu não merecia ter desistido desse jeito. Você merecia. Mas nós mereciamos um desapego. Desses de aprender a não ter medo de montanhas russas. Desses de lembrar de tudo com carinho, mas você estragou tudo.
E talvez, a parte boa é ter conseguido não sentir nem peso por tudo o que você já não significa pra mim. Você deve pensar que vai ser melhor assim pra mim. Mas não vai. Eu consegueria te esquecer de uma forma bonita. Eu merecia isso. Eu só quero que você saiba que você foi embora sim, e por mais que isso tenha sido bom, você me deixou amarrada no fogão. E esse tipo de marca, esse tipo de machucado é do tipo que marca pra sempre.
Seis, sete anos depois talvez você me encontre em algum lugar e eu tenha que te contar como se deu tudo, essa separação brusca e quem vai saber se até lá eu vou ter raiva, ou se não vou sentir nada, ou se vou dizer que eu te entendo. Mas o que eu queria te dizer, é que tudo que você tem, igualzinho, do personagem que você admira é isso, ser um fugitivo. Você saiu correndo. E sinceramente, cara, isso não é admirável, ou orgulhoso e nem tampouco foi nobre para comigo. Eu não vou te agradecer. Eu não vou te entender. Tudo que eu sei é que você é igualzinho a ele. Um fugitivo, um covarde. Talvez com um pouco de nobreza.
Mas saiba que nem sempre a nobreza redime. e nem sempre o amor salva. eu odeio te conhecer tanto quanto eu conheço, e no meio de tudo isso ainda entender suas razões, a covardia e a indiferença. Eu sei exatamente. Não precisa me explicar. Mas hoje não se justifica mais. Porque eu não te amo e nosso jardim secou. Pode ser o que você queria, mas não precisava ter sido assim.
Mas eu (ainda) espero que você seja feliz. Hoje sem lirismo ou poesia, e sem mim. Mas feliz.
14.4.10
Engenheiros explica.
O sol nascendo sem saber o que iria iluminar.
Eu abri meu coração como se fosse um motor
E na hora de voltar sobravam peças pelo chão
Mesmo assim eu fui à luta... eu quis pagar pra ver
Onde estavam as armas químicas? O que diziam os poemas?
Afinal de contas o que nos trouxe até aqui?
Medo ou coragem? Talvez nenhum dos dois
Sopra o vento, um carro passa pela praça
E já foi... já foi
Por acaso eu fui à luta... eu quis pagar pra ver."
(Engenheiros do Hawaii in armas químicas e poemas)
( minha ex história de cinema, humberto gessinger explica. Abre-se o coração como um motor, que no fim se desmazela em partes que ficam pelo chão, perdidas. Coisas de quem vai a luta, de quem decide pagar pra ver e no fim, nenhuma arma química destruiu nada e nenhum poema dizia nada além do que dizem os poemas normalmente - o poeta é um fingi-dor finge a dor que deveras sente, fernando - nem medo, nem coragem. Nenhum dois dois. Enquanto o vento sopra, um carro (ou uns carros) passam pela minha sacada e tudo que eu consigo pensar - com alguma paz vinda sei lá daonde, mas graças a ela - é que já foi. E por acaso - e só por acaso - eu fui a luta, e eu quis pagar pra ver )
O que só eu escrevia e não sabia nem sentir, hoje, engenheiros explica. Sem descuido ou poesia. Cru, e que assim seja.
4.2.10
Verbo corpo canção
Mais do que educação
Beijos sem paixão, crimes sem castigo
Aperto de mão.
Apenas bons amigos.
Nós dois temos os mesmos defeitos
sabmos tudo a nosso respeito
Somos suspeitos de um crime perfeito
Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos
Um dia desses, num desses encontros casuais
Talvez a gente se encontre
Talvez a gente encontre expliacação
Um dia desses, num desses encontros causais
Talvez eu diga, minha amiga
Pra ser sincero, prazer em vê-la
Até mais."
(Engenheitos do hawaii in pra ser sincero)
(para o dia que o gessinger se fez carne)
Então foi assim. Eu pensei em você verbo e você me apareceu: corpo. A distância inenarrável entre o você, verbo, meu. E o você, corpo, sabe-se-lá-de-quem. Mas foi assim, logo depois do você-canção você se materializou em mim. Corpo. De todos os seus estados possíveis, existe esse com o qual eu não sei lidar. O você-corpo. Quando você existe verbo, sou eu quem te conto. Eu te escrevo, te domino, te dou vida com as palavras que são minhas. Então, você é meu. Quando você é canção, é a minha interpretação sobre o seu existir. Ainda é meu, de controle. Já o você-corpo sai por aí fazendo o que lhe cabe. Sorri, anda, e principalmente, não é meu. Não te controlo, não te faço sorrir pra quem eu quero e nem mesmo sei o que se passa dentro de você. No nosso instante encontro aconteceu assim, o verbo se fez carne. E eu só sei lidar com verbos, não com carnes. Se fez então o meu encontro causal, o nosso, coisa estranha. Você-verbo ainda morava em mim, você- canção ainda estava nos meus ouvidos. Você carne, em sua existencia bruta se fez assim, distância. A indiscutível distância entre dois corpos. Fria. Ali. Já não somos mais, apenas bons amigos. Mas serás pra sempre meu verbo, e minha canção. Pequeno grande pedaço eterno do meu ser; verbo, poesia, canção e corpo. Indivizivel.
31.1.10
This is the last song.
Tentei de tudo. De todas as coisas que pode tentar uma pessoa eu tentei. Mas assim como todas as coisas um dia acabam, também acabou nossa canção sem tom definido. Junto com piano que eu nunca tive eu esqueci todas as bobagens que eu (ainda) pensei de te dizer apesar daquilo tudo. E eu te escrevi. Te escrevi em forma de música, quase bolero, tudo aquilo que eu queria te dizer e nunca disse. Derreti. Ali, no piano, no violão, no livro, no teclado, na máquina de escrever. Derreti em sentimento mal feito e escrevi meu último tratado de amor por você.
Vômito de palavras, como sempre vomitei em você e te deixei sujo sujo de mim. E eu esperava reações, qualquer uma delas. Morna, fria, desesperada, qualquer reação que fosse mais do que olhar pra mim com seus olhos baixos e me contar sobre seu dia. Eu queria que você me batesse, que me abraçasse, eu preferia que você tivesse cuspido em mim do que ter feito isso que você fez. Isso que faz todas as relações estacionarem exatamente no lugar onde estavam e ficarem por isso mesmo. Isso de ficar estático enquanto eu falo falo falo e me derramo. Depois você se levanta, pede as desculpas menos sinceras que a humanidade já teve contato e se vai, prometendo voltar só por costume, e eu fico sentada ali, esperando o dia que você ia voltar pra eu te dedicar outra canção.
E eu soube. Eu soube no momento que você entrou por aquela porta me dizendo que você precisava falar comigo que você não tinha entendido as minhas bobagens. Eu te olhei e soube que nada iria mudar. Nada. Eu ia continuar vivendo a minha vida aqui, você ia continuar vivendo a sua vida aí e eu então iria me acostumar com a ausência. Assim como me acostumo agora e quando penso em você se faz uma coisa fora de lugar. Pensar em você é como querer trazer dez anos atrás de volta e vivê-los do jeito que estou hoje. Quando uma pessoa vai deixando lacunas enormes como as que você deixou, não há forma de preenchê-las de volta. E assim se fez.
Hoje eu olho e até penso em te escrever canções com outros ritmos, penso em te dizer cento e sessenta coisas,mas olha, já te dediquei todas as canções que podia, com todas as melodias, compassos, ritmos e até com as desritimias, descompassos, desafinos que uma canção desesperada pode ter e agora eu só penso que nada disso vai adiantar. Você não me ouve, você não entende mais minha frequência e nossa canção já não é mais atemporal como os beatles que gostamos tanto. Você já sabe tudo o que deveria saber, eu já cantei tudo que deveria te cantar, de balada indie a bolero desesperado e brega, e se mesmo depois dessa overdose de me ouvir você resolveu coninuar onde está, eu desisto.
E então não há mais canção nem sobre mim, nem sobre você e muito menos sobre nós. Esse nosso "nós" que nunca existiu, que sempre foi um "eu e você"sempre assim, bem separadinho. Uma música pra mim, uma música pra você. Eu que teimei em juntar canções e fingir que existia uma música pra nós que estava sendo escrita a passos vagarosos, tão linda a nossa canção... Mas nem existia canção nenhuma, as bobagens ficaram em mim e agora se foram com você, aí pra esse lugar que eu não sei onde é e não quero descobrir.
Esqueça o bolero, a balada, a salsa, o nossa canção tema. Esquece de tudo, aproveite e esqueça de mim também, me faz de canção ruim, mal escrita, mal cantada, fora de ritmo, descompassada, como eu sempre fui com você. Daí eu te escrevo uma canção linda, cheia de métricas, rimas, amores, boleros sinceros,amores e te dedico: essa é a última canção que eu dedico a você. E acabou, você leva embora a nossa música e joga fora isso que eu já chamei de "nós"mas que de hoje em diante é "eu" e "você". Eu: bolero, você: música clássica. Eu me derramando e você soberbo. Cada um de nós em um lado da canção. Separados. Como deveria ter sido desde o princípio.
Para ouvir ao som da sua música preferida que eu odeio.
21.12.09
O infinito não existe.
O infinito não existe. Você me disse isso numa das nossas inúmeras conversas. Dessas que a gente teve há algum tempo que nem existe mais. E eu concordei com você, cética que sou, ainda que acreditasse no nosso infinito. Nossa história era bonita. Todo mundo tem uma história bonita pra contar se puxar bem pela memória e você era a minha. Toda vez que eu precisava de uma história bonita pra contar pra alguém, recorria a nossa biblioteca particular. Eu nunca fui muito de ter histórias bonitas. Sempre fui malfeita. A malfeita das histórias inacabadas. E histórias inacabadas não são bonitas. Exceto as que se tornam infinitas. Mas todas as minhas histórias tinham sido inacabadas porque eram malfeitas. Ficaram sem final, mas nunca foram infinitas.
Infinito era você. Infinito e minha história bonita. Aí era assim até enquanto eu pude me lembrar. Nasceram flores, jardins, e todo esse lugar comum que todo mundo sabe. Eu deixava você construir um castelo pra você, ou qualquer outra coisa, mesmo que pra isso você tivesse que quebrar todas as minhas coisas. Tudo em você era lindo, e renascia. Renascia em mim, então fazia bem. Pra te deixar do meu lado eu fazia qualquer coisa, inclusive me machucar. Eu me machucaria pra te ver feliz e pra te ver perto. Ridiculamente como todo altruísmo sem volta é. Assim. E te guardando do meu lado tudo era infinito. A jarra d'água, as colheres, e teu lugar no sofá. Tudo teu, com etiquetas imaginárias marcadas e tudo. Dentro de mim, tudo teu também. Com etiquetas imaginárias e tudo. Sua música, seus filmes, seus livros, sua camiseta, seu jeito. seu, seu, seu, seu. Em mim. E só.
Depois de um tempo, tinha tanta coisa sua em mim que já não tinha como jogar fora. é assim, quando a gente tem muito de alguém dentro da gente já não tem como jogar fora. Não importa, pode acontecer qualquer coisa. E o universo pode conspirar o quanto quiser. Marte pode encontrar Saturno no dia e dizer que na casa seis tem espaço pra pessoas que querem se livrar das coisas velhas dentro das gavetas da alma, mas se a gente não quiser a gente não se livra de nada. Fica tudo lá, e depois você acha que é tudo seu. Pois daí que essa sou eu, essa mistura híbrida entre eu e você que faz uma pessoa quase admirável. Ou deveria. Ou fazia. Hoje não faz mais. Eu olho pra essa massa desforme que não é nem você nem eu e fico me olhando e tentando descobrir onde foi que você não colocou a sua mão, ou onde é que não existem partes etiquetadas com teu nome. Não acho. Nem as suas etiquetas, nem as minhas. É tudo meu. E machuca.
Talvez se eu nunca tivesse deixado você construir castelos com as minhas coisas que você desmontou, tudo teria algum jeito. Eu quis construir com os teus castelos a minha história bonita, mas não deu. Estava tudo errado desde que a eu comecei a falar que era a minha história bonita. Se fosse a nossa a gente tinha construído junto, mas a gente nem tem nada. Já teve, tinha. Eu ainda tenho um universo de coisas suas aqui, sem etiqueta e eu nem sei bem o que é teu e o que é meu. Às vezes me lembro quando sento no teu lugar no sofá, pego a tua água ou mexo nas tuas colheres. Tá escrito lá: "isso sou eu em você". E olha, eu já achei essa uma das partes mais bonitas da minha história bonita. Hoje isso é um buraco. Você não me preenche e essas coisas tuas só me lembram uma coisa: vazio. Você deixou um vazio imenso que não dói nem alivia, só incomoda. E parece não ter fim, e transborda.
Hoje eu tenho uns castelos teus aqui, uns planos, e umas lembranças grandes de fim de tarde, de noite e de começo de manhã. Me lembro de olhar em você e enxergar o infinito. Todo ele, incrível e lindo. O futuro no teus olhos. A eternidade nos teus braços. Daí hoje eu te olho e penso em você me falando que o infinito não existe. Concluo: não existe. E nem saturno encontrando marte na casa nove é capaz de mudar isso. O universo, os astros, qualquer coisa infinita assim não muda nossa história. Eu te digo, a gente acabou, e você estava certo. O infinito não existe (em nós).
13.12.09
voce em mim.
30.7.09
Minha sorte tinha nome e se chama estevo.
Foram vinte anos de convivência bruta e quase diária. Posso me lembrar ano a ano tudo que esteves e fizesses por mim. Tudo. Lembro de ti desde que eu era muito meninota me deixando fazer festa nas lojas brasileiras - que há muito deixaram de existir - voltando feliz com um saquinho cheio de caramelos de todos os tipos. Lembro também de te contar não posso nem te dizer quantas vezes as histórias do macaco que botou a mão na cumbuca, e do pulo do gato. Lembro até hoje, vivo em mim, seu sorriso debochado ao ver a tragédia do gato. E por isso me repetia tantas vezes, gostava de te fazer rir. Sempre riu com vontade. Sempre foi tão feliz.
Me lembro também de te fazer cuidar de minhas bonecas. Me lembro de sentar no meio fio contigo e ficar ali, enquanto você me contava histórias. Eu sempre te achei a pessoa mais adimirável do universo todo não só por todas as coisas que era, mas por todas as coisas que me ensinastes. E não foram poucas. Me mimastes tanto. Tanto. E desde pequena nutri um gosto não muito comum em crianças da minha idade por salame, provolone e bacon frito. E não existe nada mais justo, porque eu tenho que concordar contigo que não existe coisa melhor nesse mundo.
Cressestes comigo. E eu digo que cresceu, porque você não envelheceu nunca. Sempre foi tão criança quanto eu. E assim comiámos balas enquanto assistiamos ao jogo do são paulo, e eu te via colocar duas balas na boca e não entendia nada, porque não havia porque ser tao esformeado assim. Mas achava graça. Sempre achei muito bonito seu jeito de ser. Lembro de você me irritando todo sábado ao chamar meu pai de velho, e na minha cumplicidade de criança com meu amado pai, o defendia dizendo que ele não era velho. Morrias de rir. Depois me acostumei e dizia quieta que ele tinha ido ao futebol, e sentava no braço da poltrona na frente do lugar do sofá que ocupavas e ali ficava um pouco vendo tv contigo.
Me lembro de domingos ao som de chorinho, e me lembro de você me pedindo para que colocasse música. De certo achava bonito, tão nova criança saber mexer em tão complicado aparelho tocador de cds, mas tenho que te dizer que na minha época a gente meio que nasce sabendo. Mas gostava e ia toda orgulhosa ali colocar o cd do demônios da garoa, cheio das nossas músicas engraçadas. E eu te digo nossas, porque sabia que gostavas muito da música do gato e a colocava várias e repetidas vezes só para te ver rindo com vontade. Seu riso é coisa que sempre vou guardar em mim, não importa quanto tempo passe. E se falo de gatos me lembro de ti espantando todos os meus gatos com pequenos potes de água, e depois ria-se todo, enquanto eu não entendia porque maldade tal com tais bichinhos. Mas depois te imitava. Sempre te imitei, porque sempre fostes meu exemplo.
E me lembro de depois de um tempo, fazer por ti o mesmo que fizestes por mim. E então eu te cuidava, e te dava remédios e prestava atenção para que não fizesses estripulias. E já não era mais você quem compravas para mim as coisas que eu gostava de comer, e sim eu que te levava as balas e salames e foi contigo que aprendi a cortar salame fininho, de faca amolada e a cortar laranjas e fazer uma 'tampinha' que depois de tanto fazeres pra mim, aprendi a fazer sozinha. E creio que foi assim, que tudo que aprendi com você hoje sei fazer sozinha. Sei ter seu bom humor nas piores situações e sei contar a sua história da raiva pra todo mundo, para que saibam que eu te tive e te guardo com carinho.
E sinceramente, eu não sei mesmo falar da sua ausência, ainda que ela se sinta toda crua e fria, porque para mim sempre existirás aqui dentro, e assim, nunca nunca morrerás, meu eterno, querido, amado e melhor avô.
28.7.09
Para os domingos que não vão mais ter cheiro de perfume velho.
Não me passastes vícios. Nunca me ensinou a fazer coisa alguma que hoje posso dizer que não teria aprendido, não fosse a sua mão. Guardo de domingos alguns cheiros, padarias, leites com nescau e primos que comigo conviviam como irmãos. Guardo quartos, conversas, churrascos. Sei que algumas lembranças minhas de infância não teriam existido não fossem as reuniões na sua casa. Mas não são lembranças suas. São lembranças minhas, com outras pessoas, na sua casa. Creio que não tenha acontecido porque querias. Simplesmente aconteceu. E até te digo que várias vezes imaginei outras pessoas tão melhores em seu lugar. Imaginei sim.
Imaginei porque venho de um ambiente sem cobranças e cheio de presentes. Sempre gostei da liberdade, da nao obrigação, e das lições de vida e não morais que me ensinavam em outra casa com quem tinhamos o mesmo parentesco. E então nunca me cobraram um ser meu que não era ser eu, mesmo que não concordassem. E criaram assim uma viciada em cafeína, amante dos frios e latícineos, com um bom humor inabalável e leitora assídua dos jornais matinais.
Mas tenho que dizer que de ti tenho geneticamente certos traços. Falo demais, alto demais, expansiva demais. Mas preciso criar confiança para. Sou teimosa, julgo. Tenho defeitos que sempre odiei em ti. Tenho que te dizer que várias vezes me irritastes como não se pode irritar alguem que ama. Já quis te dizer que não vives a vida dos outros e que eu nao nasci católica e nem pretendo o ser, tampouco quero comer muito ou mesmo ser batizada ou até encontrar um namorado que se pareça mais comigo. Nunca te dei o direito de me dizer o que fazer porque nunca me conhecestes. Então pouco podias saber sobre o namorado que eu precisava, ou quando eu deveria casar, ou mesmo a religião que eu deveria escolher. Nunca soube nada de mim em vinte anos mas tinhamos uma relação de parentesco.
Vou dizer que vou sim sentir falta dos meus domingos com cheiro de perfune velho, daqueles que vem em vidros trabalhadinhos. Vai existir a ausência do "deus te abençoe" dito para mim como quem tem certeza de que eu não acredito. Vou sentir falta da proximidade que achavas que tinha construído quando não construiu, e vou achar incrivelmente vazio os dias em que não me dará dores de cabeça de tanto falar rápido e muito e de coisas passadas que nada tinham a ver com o assunto. Vou sentir falta da perocupação em eu ter comido ou não e se estavam ou não sujando o meu papel, porque eu sempre estava escrevendo, quando perto de ti. Vou sentir falta até da cordialidade com o meu namorado que depois de desvairava em criticas e preocupações sobre o casamento. Sei que era só teu jeito estranho de gostar, e não te culpo.
Meus domingos não terão mais teu cheiro e tua implicância e ganharei duas horas vazias que já não mais serão preenchidas com você, vó. Que partiu com a mesma pressa que tinha para se contar, mas que deixará um silêncio imenso dentro de nós, que no fundo, mesmo que reclamássemos de seu barulho, preferíamos não estar ouvindo.
2.7.09
Coisas Maiores.
No fim das contas a gente sempre acaba concordando com esses clichês baratos de filme pra assistir de tarde, comendo brigadeiro, que de certa forma as coisas acontecem porque tem que acontecer. E se tem coisas que não se concretizam, é porque no fundo, o coração suburbano de todo mundo espera coisas (e riquezas) maiores. Sempre. Sempre. Sempre.
4.5.09
des reencontros
E aí a gente desapercebidamente encontra de novo, na hora do almoço na segunda feira neblinenta de Londrina e continua assim, despercebido. Pra nunca nunca nunca mais.
7.4.08
O porquê
quando percebeu suas lágrimas caiam uma a uma, naquele pequeno espaço branco com luzes em spot queimadas.
A dor era alguma coisa inexplicavel e inteligível, mas era pungente e completamente real.
Talvez fosse o mundo, ou todas as coisas que esperavam dela e ela simplesmente não podia dar.
Ela não tinha mais o futuro brilhante que todo mundo esperava. Ela era simplesmente um ponto na linha reta da humanidade. Diferença ela devia fazer pra alguém, em algum lugar, mas naquele momento não importava.
Era simplesmente uma pequena menina surtando e chorando copiosamente sem nem saber porque. Podia cortar seus braços com gilete, ou tomar milhões de comprimidos brancos de uma vez. Podia gritar, se jogar do décimo quinto andar. Podia roubar a arma do pai e se matar com um simples tiro. Podia acabar com a vida naquele momento. A gente se suicida quando não aguenta a dor de viver, alguém tinha dito um dia. Mas ela era covarde, nem isso podia fazer, nem queria. ia pensar em todas as ridicularidades que implicariam se matar ali, naquela hora com vinte anos e há dois anos de terminar a merda da faculdade. pensando na merda da faculdade antes de morrer, que bosta era aquela? era ela. maria fernanda, uma idiota sem sentido que estava chorando no banheiro sem saber porque.
Mas sem saber porque era o normal da sua vidinha medíocre. Ela namorava um cara sem saber porque. Na verdade sabia, era muito mais medo de ficar sozinha do que vontade de ficar junto. Tinha três na sua lista além dele, e a dúvida nem a deixava dormir mas na verdade não amava ninguém. Entre ficar sozinha, escolheu ficar com a opção mais sólida, o bom menino, aquele que casaria com ela, e pagaria suas contas. Ou simplesmente a amava um tanto mais que suficiente. E ele devia ser bipolar também, e ela nem gostava tanto assim dele. Sofria de carência afetiva e tinha escolhido não tomara anti-depressivos porque tem horror a depêndencia. Namora por simples medo de ficar sozinha. e nem ama nenhum dos três que habitam a sua vida. Nem o namorado, nem o ex-namorado fantasma, e nem o amigo com quem ficaria se pedisse. Por ela viveria uma vida de aventuras, pegaria todos os caras possíveis e imagináveis, e estaria voando de boca em boca, corpo em corpo, mesa de bar em mesa de bar. Nos bares sujos, nos lugares que não são frequentados por meninas de bem. Ela nem seria mesmo uma menina de bem. Estaria perdida na vida, e aí se ela morresse nem ia importar pra ninguém. Morrer de overdose num beco qualquer, babando, com a roupa rasgada depois de ter pegado um bêbado que nem sabia o nome.
Mas se chamava Maria fernanda, menina de família, covarde e só vai mesmo chorar no banheiro sem saber porque.
Namorar o namorado que não ama, esquecer o ex que se pudesse voltava na hora, e não beijar o amigo num ímpeto estranho só por simples questão de pele. Não vai largar a faculdade, vai continuar tentando ser jornalista mesmo odiando escrever e nao entendendo nada de política, só porque o pai tem um jornal. Vai ter um emprego dígno, dois filhos, uma família de comercial de margarina e vai agradar a todos, exceto a ela mesma.
Não vai se matar agora porque isso ia fazer uma sujeirada danada, e Maria fernanda não quer sujar o chão. Ou atrapalhar a passagem na rua.
Ela só vai chorar no banheiro sem saber porque. só sabendo que está se tornando o que nunca quis ser.
8.3.08
Bianca.
Mesmo. Eu não esotu nem ligando se ela resolveu ir embora e me largou aqui. Foi até bom, tem mais espaço no nosso apartamento. e não tem aquela mania estúpida que ela tinha de ficar deixando a calcinha no registro do chuveiro. Agora o chuveiro é só meu. Posso até mijar lá e ficar tudo fedendo a xixi que ninguém vai reclamar.
Ninguém. Principalmente a Bianca e aquela voz irritante dela. Aquela mania de levantar a sombancelha toda vez que eu fazia alguma coisa errado.
Agora eu posso fazer tudo. Posso até ver futebol de quarta feira sem ela ficar com aquela coisa de querer sair, e ainda por cima em bar que não tinha telão. Depois que a Bianca foi embora eu posso ir em bar com telão e gritar a torto e a direito. Posso encher o rabo de cerveja sem ela falar que não gostava de me beijar com gostinho de cerveja e que beijo aromatizado não tinha graça. A Bianca não gostava de cerveja, aquela fresca. Alías, a Bianca chama Bianca. Nome de mulher fresca e chiliquenta, não sei porque eu inventei de morar com ela. Amor. Deus me livre que atpe um homem como eu caiu nessas.
Mas agora não, estou livre na praça, aqui sentado nessa sala enorme com essa tevê enorme só pra mim. Posso até esticar as pernas. A bianca as vezes não deixava. ela falava que as minhas pernas pesavam demais e ela era frágil. ela era mesmo. eu tinha que meio ficar cuidando dela.
Agora eu não tenho mais que cuidar dela. Agora, minha vida é minha e só minha.
E além da vida, a cama. Agora eu tenho a cama inteira só pra mim. A bianca tinha uma mania chata de ficar com a maior parte da cama, além de puxar minha coberta. Eu tinha que levantar toda noite e ir pegar outro cobertor pra mim. Dava dó acordar a Bianca. Ela dormia de um jeito sereno, sempre parecia sonhar com algo bom. Eu levantava e pegava cobretor pra mim. Que merda. Ela bem que podia não roubar as minhas cobertas, ou não domir tão bem.
Posso também fazer xixi e deixar a tampa levantada. A Bianca reclamava que eu nunca lembrava. Agora eu nunca mais vou ter que abaixar a tampa da privada. Posso até arrancar a tampa da privada se eu quiser. Posso mijar fora da patente. Nunca mais vou ver a Bianca com franzindo os lábios de lado, levantando a sombrancelha direita, depois a esquerda, batendo o pê, dando uma respirada e me dizendo que eu parecia uma criança, que não aprendia a deixar a tal da tampa da patente abaixada. E eu rindo dela, dizendo que ela estava fazendo um ótimo trabalho em tentar ser minha mãe, mas que eu preferia mesmo ela como mulher. Nunca mais vou ter que ver a cara de desprezo dela quanto a essa frase.
Bianca nunca mais vai falar que eu não sei combinar roupas. Eu posso sair por aí parecendo uma árvore de natal que eu não vou ter que ouvir que eu so um fashion week que não deu certo. Ninguém nunca mais vai falar que eu sou um fashion week que não deu certo.
Eu vou poder pegar a rebouças pra ir no shopping. A brianca falava que pegar a rebouças era o pior caminho. Eu nunca achei, mas a Bianca achava. E ela fazia uma cara um tanto convincente. Isso e falava que eu era um motorista frustrado de fórmula truck quando corria demais. Pois agora eu posso fazer rachas na pista que ninguém vai me incomodar.
Posso deixar a louça estragando por meses, sem que ela diga pra eu limpar a pia, posso ligar as músicas que ela odiava no último volume sem ter que ouvir ela sarcáticamente falando que ama minha generosidade em compartilhar com ela meu gosto musical duvidoso, posso acordar as 10 e não as 9 pra tomar café da manhã com ela, posso nunca mais ir em restaurante japonês, posso não ter que tocar vinte vezes a nossa música no violão só porque ela ficava com os olhos brilhantes e me dava os beijos mais apaixonados do mundo.
Nunca mais. Agora eu só faço o que eu quero. Agora não tem bianca cabelos ruivos, sorrisos e laços, brincadeiras. Agora, eu posso fazer tantas coisas...
...só que eu não quero fazer nada.
E eu gostava dela, sim.
E muito.