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20.3.12

se chega é pra dizer: vou embora.

Me olho no espelho repetidas vezes. Esse rosto com esse cabelo não é meu. Identidade é um conceito flutuante, não é? Nunca soube quem eu sou. Nem loira, nem morena, nem ruiva. Hoje só estou cansada. De existir. Ouvi uma música hoje, depois de dois anos dela dedicada pra mim e só agora fui entender o que ela significava. Hoje, quando a gente não se ama mais. Se é que eu te amei um dia. "Guess how much I love you? Much more than that". De fato, ele me amava mais. Bem mais do que eu imaginava. Mas eu quis duvidar. Eu o amei bem pouco. Uns quatro ou cinco meses. Apaixonadamente. Depois virou amor. Depois amorzinho. Depois descobri o amor da minha vida ali do lado, e hoje nem amor da vida eu tenho mais. Não fazemos mais sentido. Tanto não fazemos sentido que ontem vi o amor da vida numa foto com a garota dele e quis desejar felicidades. Ele era um cara legal, ela faz ele feliz, ele merece. Só que ele ia me achar louca. Desejei baixinho: que sejam felizes. Não tem mais rancor. É a vida. "Não era pra ser". Queria meus livros de volta. Os meus malditos livros com as anotações, porque sou egocêntrica. E o pequeno príncipe da minha mãe com as minhas anotações infantis, mas foda-se. Sei lá onde ele enfiou essas coisas. Vai ver escondeu. Penso em comprar esses livros de novo. Pela primeira vez deixo de acreditar na estante compartilhada dos livros que o destino iria juntar. Procurar novos exemplares dos livros que ficaram com ele é a maior prova de que ele não existe mais em mim. Nem ele, e nem o sonho de uma estante compartilhada. Nada existe.

Nada existe e é mais difícil viver assim. Estou completamente sozinha. O fantasma do amor da vida não me assombra mais. Não comparo com os referenciais de outrora. Se alguém me deixar, o destino não vai me juntar de novo com o "amor da minha vida", porque já não existe ninguém ocupando esse posto mais. O amor da minha vida não era o amor da minha vida. É o amor da vida dela. Dá pra ver. Eles saem bem nas fotos e tem gostos parecidos. Nem tão parecidos assim. Mas não é disso que são feitos os amores. Os amores são feitos de atrações inevitáveis, e eu devia ter desconfiado que o amor tinha acontecido de verdade pra ele desde o dia que ele me deixou chorando na cadeira e foi embora com ela. Se ele me amasse, teria me buscado na cadeira. O amor da vida volta e busca a gente na cadeira chorando. Mas ele pegou ela pela mão e foi viver a vida dele. Hoje estão felizes. Difícil é ver que eu demorei quase dois anos processando o luto. Tudo bem que ele está mais magro, e mais feio, mas isso também pode ser porque eu não enxergo mais ele com os olhos do encantamento. Acabou-se. O amor da minha vida não era esse, esse é o amor da vida dela. E o amor da minha vida, quem será?

Me faço essa pergunta e acho uma bobagem. Às vezes queria voltar a ter 21 anos e estar naquela cadeira chorando por ter perdido meu grande amor. Tudo parecia mais puro quando eu tinha algo em que acreditar. Isso soa clichê. E babaca. Mas é pra ser assim mesmo. Hoje perdi a vontade. Sei que perdi a vontade quando repito baixinho pra mim mesma "o amor da vida não existe". Às vezes até caio na máxima aquariana de dizer que "todo mundo que passa pela nossa vida é um pouco o amor da vida da gente", mas fiquei velha pra isso. Velha pra isso e pra aquele ideal louco de liberdade que me encantava há alguns anos (ou meses) atrás. Preciso um pouco de coisas concretas. Coisas palpáveis. Coisas ditas de verdade. Canso de tentar entender o que me dizem no meio das entrelinhas. Não tem mais beleza nisso. Disse pro tal amor da vida uma vez, que ele não sabia brincar de amor e que eu estava muito velha pra ensinar, e que portanto deveriamos botar as coisas às claras logo de uma vez. Ou nos perderíamos. Não botamos as coisas às claras, mas acho que nos perderíamos de qualquer jeito. Hoje me sinto mais velha ainda. E mais cansada. Acho que qualquer pessoa vai se perder de mim de qualquer jeito. Até o amor da minha vida, se ele existir. Ele vai me ver sentada na cadeira chorando e eu vou sair correndo. Não acredito mais em nada. Nem em mim eu acredito. Sinto uma coisa e depois não sei exatamente o que foi isso, daí desacredito. Lido com tudo como se fosse acabar no momento seguinte, porque eu acho que vai. Não acredito que ninguém seja capaz de me amar e acho que tudo está fadado a estar perdido desde o princípio. Tenho medo. Desde aquele dia, naquela cadeira, tenho muito medo da vida. Fui abandonada chorando da única vez que resolvi admitir que amava de verdade. Não sei se aguentaria se acontecesse de novo. Sempre acho que o passo posterior a admitir que eu amo alguém verdadeiramente é ser abandonada numa cadeira. Chorando. Enquanto o ser em questão sai de mãos dadas com o verdadeiro amor da vida dele. Não tenho mais coragem.

Quando eu achava que ele vinha me buscar na cadeira era mais fácil. Desilusões atrás de desilusões porque eu tinha que continuar naquela cadeira esperando o dia em que o amor da minha vida viesse me buscar. E agora que eu sei que não é ele, como se procede? Não tem cadeira nenhuma pra continuar esperando. Não existe ninguém. Ninguém. Eu estou sozinha no mundo sem ter ao menos o fantasma da idealização pra me apegar. Tenho muito medo. Fico esperando certezas e sei que elas não virão. E mesmo que vierem, será que um dia eu vou conseguir dizer tudo isso de novo? Dizer tudo isso sem o medo de no momento seguinte a pessoa digna do amor sair por aí de mãos dadas com aquele que era o par dela? Estou velha demais pra acreditar em destino, designios, "se tiver que ser será". Até me forço, mas canso. Estou cansada, tenho medo. De repente você se ferrou tanto, sofreu tanto, passou tantas noites em claro que fica repensando se vale o sofrimento. Acho que não sei me jogar de cabeça. Também não sei ponderar, entrar em jogos de ego, ir passo a passo. Me desgasto. Me desgastei. Quero ficar naquela cadeira pra sempre chorando até que alguém venha me buscar. Alguém que prometa não machucar esse coração esquisito, cheio de feridas. Não sou a pessoa leve que eu era. A vida me botou muito peso nos ombros. Não tenho mais tolerância à frustrações. Não sei botar a cara pra bater. Não quero amar mais ninguém que não me ame de volta. Não quero mais aquela cadeira em que eu fui abandonada, chorando de moletom roxo. Mesmo que eu não use mais moletom. Mesmo que hoje eu saiba maquiar as feridas com corretivo e batom vermelho. Mesmo que meus all stars furados tenham sido trocados por sapatos de mulher. O coração cresceu dois anos e explodiu. Se aquece com moletons, usa all-stars furados e borra o lápis preto enquanto chora. Bate desajeitado, medroso, se encolhe na cadeira e não se atreve. Eu não me atrevo. Volto a ter vinte um anos, os mesmos cabelos descoloridos, o mesmo medo, fico encolhidinha no cantinho e choro baixinho pra ninguém perceber. Enxugo as lágrimas na manga do meu moletom manchado de comida. Não sei me portar perante a sociedade, erro as vírgulas e não quero mais sofrer por amor. Não tenho mais estrutura. Quebrei o espelho, torci o joelho, não vou mais jogar. 

I'm pretty fucked up.

27.12.11

Quanto a escrever,

Minha crise criativa vem em momentos de crise de vida em que me refastelo no sofá assistindo todas as novelas que posso. Estou dizendo assim, em primeira pessoa, não pretendo nesse texto criar qualquer personagem que seja: me sinto rasa demais pra isso. O mundo reviravoltou, minha vida é o mar em ressaca e não existe amor ou ódio, tristeza ou alegria demais que me faça querer assim, literatura. Desisti de ler também, faz meses. Cem anos de solidão continua recostado no meu criado mudo cheio de bijouterias, no meio desse meu quarto cheio de coisas que já fizeram parte da minha história - e hoje não fazem mais.

Precisava desses tempos de descanso, inclusive das pessoas (talvez principalmente das pessoas), porque - dizem - olhando as coisas de longe se enxerga melhor. Não sei se enxerguei alguma coisa, me vejo sem perspectivas e sem vontades, completamente esquecida pelo crivo do destino. O crivo do destino é mau, a vida quando não pensada muito bem te leva para caminhos esquisitos. Me lembro que Mathieu, um dos protagonistas das histórias de jean paul sartré, engravidava sua namorada de quem, aparementemente, não gostava tanto-assim e saia pelas ruas de paris procurando uma senhora que fizesse um aborto nessa criança não quista. A criança de Marcelle. Sinto um pouco a minha vida nesse fim de ano como a criança de Marcelle, e sou Mathieu, procurando pelos cantos e becos dessa paris (que é londrina), alguém que possa tirar essa vida e me dar outra perspectiva. Ao mesmo tempo - assim como Mathieu - acabo por me questionar se quero mesmo sair dessa vida. Não sei se quero abortar a criança, é tudo confuso demais.

Me enfio a escrever livros, escrevo seis, sete páginas, depois odeio. Assim como odeio tudo que faço, enjoo dos meus empregos, das pessoas que escolhi pra amar (salvo certos amigos, que permanecem inabaláveis), enjoo até de mim e resolvo querer outra vida. Mas não se aborta vidas assim, pelas ruas de paris, com velhas em seus consultórios sujismundos e sem estrutura. A vida é a criança de Marcelle que não pode ser abortada, porque na vida a gente tem que lidar com os erros que cometeu, não se aborta escolhas com intervenções cirúrgicas e já dizia sartré que a angústia do homem é a angústia das escolhas. Nunca sei se escolhi bem, se escolhi certo ou errado e me angustio no momento seguinte à escolha. Mas não há o que se fazer, uma vez escolhido escolhido está, e é a angústia também, inabalável. Porque a angústia nunca cessa. Existe a angústia pré escolha de fazer a escolha certa, a angústia durante a escolha de estar escolhendo, e a angústia pós escolha de dever, talvez, ter escolhido outra coisa. Viver é a própria angústia e exige responsabilidade.

Exige responsabilidade de mim, que não sei nem arrumar meu quarto, e guardo comigo escritos de quando tinha treze ou catorze anos, junto com os livros de sociologia que talvez nunca mais lerei. Meu quarto é um amontoado de presentes de gente que já foi embora, de livros que sei que não vou ler, de fotos de gente que nunca mais verei, de roupas que já não fazem mais meu estilo. Minha vida também, um pouco disso, cheio de restos de coisas que não sou mais, de escolhas insensatas e rápidas demais, e gente que eu quero que fique indo embora e trombando com gente que eu não quero que fique: mas permanecem. Me vejo cansada, andando por todos os lados da vida procurando o que fazer, que carreira seguir, de que jeito me portar e como me vestir. Me vejo um ser mutável, sempre com escolhas novas, me angustiando demais pelo peso de não sabê-las certas. Escolhi os amigos que devia? Disse tudo que devia dizer? Estou na profissão correta? Faço a pós graduação que deveria? Escolhi o tema mais satisfatório? Nunca saberei, assim como nunca se sabe se foi certo ou não abortar uma criança, escolher a sua vida ou a vida do outro. Sempre a angústia, uma angústia que nenhum deus salva - só alivia, quem sabe.

Procuro paz nas ruas quentes de londrina, quero distância de tudo aquilo que me pressiona, me vejo refastelada no sofá, comendo doces, às vezes sem nem ter tanta vontade assim de ver gente, ou movimento. Meu mundo já me basta, me cansa demais, há muitas escolhas a serem feitas e eu não sei por onde começar. Há muitas coisas sobre as quais, quem sabe, eu poderia escrever mas escolhi calar por julgar imprudente. Calo então qualquer possível literatura, qualquer possível amor, qualquer possível convite, qualquer possível ensaio. Calo até as bandas novas que não conheci e os livros que ainda não abri, calo as mensagens de texto que não pensei em escrever, calo meus livros ruins que não passam da página dez, calo tudo que posso porque estou cansada, e gente cansada não sabe lidar com angústia, escolha, amor, ou até mesmo literatura. Me calo porque me angustiei, e porque nada é tão importante assim. Até a minha vida, calei e deixei pro ano que vem, as escolhas, a angústia, adiei-a. Deixei o filho de marcelle na barriga pra depois ver o que se faz. E quanto à escrever, mais vale um cachorro vivo. (um yorkshire, quem sabe).


18.10.11

don't wanna be myself no more


(I wanna be somebody else) 

tinha descoberto que precisava de equilíbrio. e não era um desses equilíbrio que vendem em comercial de tv não, uma paz interior qualquer. era um equilíbrio mesmo, um equilíbrio de verdade. tinha percebido que era assim, mais uma daquelas pessoas descontroladas que povoavam o mundo. todo mundo no mundo moderno tem neuroses, todo mundo tem os seus problemas. ela tinha se dado conta dos dela. era isso, era sempre afastar o outro por medo do abandono, era a neurose paranóica da possibilidade da perda. sempre um achar que existe uma tramóia por trás de tudo, porque é difícil e perigoso ser feliz. ser feliz não dura. fazia um tempo que tinha então abdicado de qualquer salto no escuro, esperando assim a coisa vir até ela. às vezes também tentava destruir a coisa. qualquer coisa que pegue qualquer profundidade que seja precisa ser afastada porque pode ferir. tinha amado uma vez e foi bom, foi lindo, sentia-se viva e o sangue corria pelas veias, pelos cabelos, o sorriso da paixão se via nas fotos, o olhar dele pra ela, o olhar dela pra ele. se amavam mais quando desavisados porque o amor aparecia. o amor aparecia nos arquivos perdidos no computador. qualquer dúvida sobre o fato do amor ter acontecido estava acabada ali, naqueles arquivos de alguns mil megapixels. mas acabou, como tudo sempre acaba, e desde então é cansaço. cansaço, neurose, medo. medo de ser abandonada por outra, medo de sofrer caso aconteça e é por isso que desapegou-se. desapegou-se desde a infância em que seu pai foi-se pra longe, não parava em casa, trabalhava demais. percebeu ser mais fácil a partida daqueles a quem não nos apegamos muito. quando tem apego tem dor e todo mundo vai embora, não vai? preferi deixar antes se for assim. e deixa. deixa até o que poderia dar certo, inventando histórias, narrativas fantásticas. "ele não me ama mais, ele nunca seria capaz de me amar", diz baixinho. a realidade não existe. não nesse mundo desequilibrado em que escolheu viver. sabota-se, mutila-se, resguarda-se, abandona, desapega. amar é muito karma, é difícil, é terrível, tem que se entregar. e depois de se entregar o inferno. a paranóia, o controle, a chantagem, o medo do abandono, sempre o medo do abandono. "você me esqueceu?", perguntava ingênua. quase sempre respondiam que não, mas sabe-se lá. não acreditava nos outros, duvidava, testava o amor sempre que podia. tudo isso no meio de histórias, de sonho de "ele não me ama mais". tudo isso no meio de frustrações por qualquer convite recusado, qualquer resposta demorada, qualquer recusa percebida. histórias inventadas, fantasias terríveis, o se frustrar por uma realidade que não é. o medo. o medo do abandono. o teste do amor. cansou-se. daí deu-se conta de tudo isso. que difícil é viver assim, nesse medo, nessa urgência, nessa neurose, nesse abandono-iminente. resolveu mudar. mas dói. a cada novo sintoma um respiro fundo. "isso não está acontecendo do jeito que você vê". virou vício. um trabalho, um exercício, um dia de cada vez. tentar viver, tentar se entregar, tentar não se desesperar com as frustrações cotidianas. difícil, pesado, doloroso. difícil sair do isolamento pra colocar o pé na vida de novo. ser sozinha dói menos, bem menos. é menos esforço, menos necessidade de controle, menos briga consigo mesma. o terrível exercício diário do equilíbrio, do ver as coisas claras, do não se desesperar, do não fazer tempestades em copo d'água, de não manipular, jogar a culpa, espalhar indiretas infundadas. surtar, enfim. todo dia uma luta no silêncio que precede o surto. era mais fácil viver na negação, mas agora que deu-se conta, quer parar de sofrer pelo simples fato de estar viva. quer ser, quem sabe, plena. quem sabe de novo o bom corpo, o sorriso, o amor que se vê pelas fotos. lidar com o silêncio que precede o surto. ir um dia de cada vez. tentar, enfim. 

à todos, do passado e do presente, desculpa qualquer coisa. 

14.10.11

Entre o ser e o nada

Jean paul satre ou um outro filosofo qualquer disse que o ser humano esta fadado a uma terrivel angustia a partir do momento em que se dá conta da própria existência. Essr mesmo sartre escreveu um livro chamado a naúsea. Naúsea é o que eu estou sentindo agora. Nausea do existir. Quero vomitar minha vida pela boca. Quero nascer de novo. Quero ao menos conseguir revidar o tapa, sair da inércia, gritar a dor: voltar a sentir enfim. Porque hoje sou o ser - e o nada. Sinto meu coração na ponta da faca, sangra, mas eu não sei mais gritar. Estou cansada de existir - a naúsea.

23.8.11

questo silencio dentro te

ninguém me entedia muito bem, era meio normal que nem todo mundo compreendesse que às vezes o problema todo dessa minha confusão era justamente essas pessoas todas tentando me dizer o que fazer, que eu não devia ficar sozinha, que eu devia me importar mais com as pessoas, ligar pra elas, dizer que eu sinto a falta delas. E eu até sinto, mas é essa obrigação que a gente acaba tendo com os outros que me mata, essa rotina. Eu tentava explicar que pra eu me sentir completa eram terrivelmente necessários esse momentos em que eu ficava só, completamente só. Eu e minha música, eu e meu quarto, eu e meus livros. Tem dia que a gente não precisa de companhia pra viver, e tudo bem. A auto suficiência parece errada, mas é o único jeito que eu aprendi de saber lidar comigo.

Eu tentava explicar esse monte de coisas pra Camila e ela me olhava como se eu fosse um desses extraterrestres, essas coisas que pertencem a algum planeta distante. Eu sei que eu olhava pra ela segurando o copo de cerveja e dizia "mas é que é assim, sabe? eu amei uma vez e amei demais e quando a gente ama demais a gente sabe que qualquer coisa que a gente sinta menos que aquilo não vai ser o suficiente". Daí ela me dizia que eu tinha que tentar, que eu tinha que me envolver mais com as pessoas, que eu tinha que correr atrás da minha felicidade, porque a felicidade a gente busca, ela não cai num potinho em cima da gente como chuva no meio do verão. Só que eu pensava que cai, cai sim. Felicidade quando vem, aparece sem avisar e todas as vezes que a gente corre atrás dela a gente tropeça. Amor também, forçar amor é tropeçar num sentimento que foi feito pra te sugar que nem coisa grande, imensa, não pra ficar colando tijolinhos com argamassa pra ver se de repente forma um castelo. Ou é, ou não é.

Tinha esses dias que eu tinha muita vontade de contar o quanto quando um amor é grande ele fica guardado ali e você aprende a conviver com ele. Não se deixa de viver, mas a gente sabe, a gente sempre sabe que certas coisas simplesmente não serão tão imensas e às vezes, às vezes na vida a gente quer escolher coisas imensas e não quer se esforçar pras coisas rasas, então é melhor ficar barquinho na correnteza do que se esforçar, remar, lutar contra as correntes do ártico e do pacífico pra no fim chegar numa dessas terras que a gente nem queria tanto desbravar assim. Não tenho querido muito nenhuma dessas terras que me aparecem, eu acho que também é um direito da gente a gente querer conhecer vários países e não criar uma casa em nenhum deles. Eu acho que sim.

E ela me dizia que não, que é necessário criar pequenas casas pra ver como funciona a cultura local e de repente eu não queria ouvir mais nada, só falar. Só falar que tudo que eu queria naquele dia, e não só naquele dia, era sair por aí sem rumo, e eu ia sozinha mesmo, não importa, às vezes cansam essas pessoas do lado da gente olhando a gente como se a gente estivesse falando uma bobagem imensa, mas não é como se doesse, é só um cansaço porque não há de se esperar compreensão de quem nunca entendeu o seu universo do jeito que ele é. E então eu queria sair andando, descobrindo esses pequenos novos universos que vivem em cada pessoa, mas só descobrir, porque o que me importa é a descoberta do novo território, não a conquista. Não quero conquistar nada, nem fincar bandeirinhas, nem mesmo dar nome a uma nova civilização. Só descobrir que elas existem, fazer contato, trocar a identidade cultural e depois partir. Porque eu gosto de descobrir e partir. Agora eu gosto disso, é o que eu quero, não tem mal nisso, não tem mal em gostar de ficar sozinho, tem mal em ser solitário. E a Camila me olhava, e não entendia nada. "Às vezes existe mais solidão com outra pessoa do que sozinho em casa" eu disse. Ela não concordou. Mas tinha entendido.

4.7.11

do fundo do poço.

E ela estava encolhida no cantinho do quarto, chorando baixinho, se cortando baixinho com as navalhas imaginárias que a vida deu. Essas navalhas que não são de metal nem de aço, essas navalhas que não fazem sangrar a pele - essas navalhas que perfuram o coração de uma vez só. Esse coraçãozinho machucado, menina. Esse coração estraçalhado de dor & desamor, com todo o desamor do mundo morando lá dentro. Desamor, cansaço, falta de vida. É tanta coisa que de repente vai morar no coração da gente. Desapercebidos, assim. Os longos suspiros de um surto que era ciclico. Vez ou outra ao chegar do trabalho, ao ouvir um comentário meio maldoso vinha um choro com barulho, um choro sem fim nem começo - mas que doia. De repente o mundo não era mais mundo e ela flutuava. Flutuava porque não fazia parte e não era um flutuar leve. As coisas iam de um lado pro outro, rápidas, como quem queria engoli-la. E ela corria. Corria e chorava e as lágrimas caiam sem controle nenhum. Só caiam. Uma cachoeira inteira de dor invadindo aquele rosto novo e cansado de junhos e julhos tristes e pesados. Tontura, vertigem, o mundo embaçando, o barulho fica alto. "Deus, o que você quer dizer com isso?" ela grita. Porque ficou abandonada, no meio do nada, no meio do cinza. Os carros passam, e passam as pessoas, e as luzes também passam e tudo aquilo quer engoli-la e ela num esforço terrível e meio ridículo de tentar sobreviver, de tentar respirar no meio do ar rarefeito do mundo - o ar que o mundo a impediu de respirar.

O mundo às vezes impede a gente de respirar, às vezes a gente de depara com esses lapsos de não-normalidade, pequenas alterações na linha-reta-e-constante que se faz a vida. Pequenos surtos baixinhos, no canto da sala e no meio da rua. Ela tinha surtado ali, no meio da rua, seis e meia da tarde, horário de rush. Saiu do ônibus, se deparou desrealizando, despersonificando e foi. As lágrimas caiam, a vida parecia sem sentido, o respirar era dolorido. E depois teve essa outra vez, meia noite, no quarto, no cantinho da parede se cortando de levinho com as navalhas imaginárias do coração. E tudo isso é decadência, o fundo do poço, tudo isso é falta de vida, falta, falta, falta - ausência. Todos os cafés do mundo serão tomados afim de produzir úlcera. Todas as drogas existentes serão experimentadas na esperança do alívio. Todos os cigarros serão fumados pra que saia ar (mesmo que sujo) de onde já não se respira. Morrer é um acidente do acaso, é uma curva na vida, é o fim inevitável. Toda bebida do mundo será ingerida para causar embriaguez. Zen budismo, religião, existencialismo, cabala - qualquer coisa. Uma estrada que redime e destrói ao mesmo tempo, é nisso que ela queria entrar. A cada nova desilusão um gole, a cada nova frustração um trago, a cada nova perda um calmante com wisky. A cada novo alívio, a destruição.

Todo clichê é perdoável.

Experimentar todos os corpos, todas as oportunidades, todas as pequenas ofertas da vida. Beijos sem compromisso, sexo casual e navalha no coração. As músicas que tocam ao fundo não tocam mais o coração. As pessoas ao lado são irreconhecíveis. Tudo é um misto de interesse & hedonismo. Tudo é cansaço e preguiça. E dor. Microagulhas entranhadas embaixo da pele, uma a uma, preparadas para fazer sangrar aos poucos a dor que é estar viva - e ter se perdido. Não existe estrada para a felicidade, não existe amor, não existe esperança e o fim é inevitável. Numa vida das oito às seis, ela se esconde embaixo dos seus casacos pretos e seu batom vermelho. Ela está cansada, os balões não colorem o céu e a vida não é um filme, afinal. Nem uma minisérie em apenas um capítulo. A vida - a vida dela - é uma poesia suja, marginal, sem métrica e nem rima. Poesia decadente de páginas grudadas, perdida na estante de um sebo que ninguém nunca vai entrar.

No fundo do poço só se vê o chão.

É que depois de tanta esperança falsa, de tanto amor em vão de tanta energia gasta, de tanta perda, de tanta estrada que não era - e nunca foi - caminho, o olho se cega pra luz, a saída não existe mais e a gente chafurda a cara na lama. Se a gente ficar morre, mas se for lá fora é a vida - e a vida também mata. Mas mata de cansaço, de desilusão, de desamor, de frustração, de preguiça e de descaso. E se é pra morrer, que seja em paz.

16.6.11

Na posta restante.

Eu só queria encontrar com ela, e se fosse pra dizer alguma coisa, eu diria baixinho: "cuida bem dele, cuida mesmo com toda a força que você pode. Cuida dele como se a sua vida dependesse de cuidar bem do coração desse menino. Pega na mão, não deixa ele cair. Se for fazer ele sofrer, esquece. Não deixa ele sofrer não, ele não pode sofrer. Continua fazendo o café com pouco açucar, e de vez em quando, conta umas piadas pra alegrar o coração. Se permite ser piegas, se permite dançar na sala, se permite um fim de semana inteiro vendo filme e fazendo macarrão. Cuida desse coração como se fosse um vidro frágil, põe numa caixinha se for preciso. Põe numa caixinha e protege dos males do mundo. Segura ele pela mão, mostra que caminho ele deve seguir, sabe. Ele é tão perdido e costuma se perder tão fácil da própria vida. E ele já se perdeu tanto que eu espero mesmo que você seja o caminho, já que o caminho não fui eu. Podia ter sido, podia ter sido pra mim que ele diria todas essas coisas. Essas coisas de amor & paz, de "baby, como você me faz feliz". Mas hoje é você que faz ele feliz, e tudo bem. Tudo bem porque nada mais me importa nessa vida a não ser o fato de que eu quero mesmo que ele seja feliz. E se for pra ser com você, que bom. Só cuida dele, cuida mesmo como você cuida daquilo que te é sagrado. E ama, ama esse menino até não caber mais dentro de si, até que você precise gritar que o amor é muito e imenso. Ah, você não sabe a sorte que tem de carregar do teu lado esse sorriso imenso. Esse sorriso que é dele, com essas coisas que são dele e de mais ninguém. Então cuida bem, que pode ser que você não saiba, mas o universo te presenteou com o único menino incrível do mundo. E ele merece.

18.4.11

Cócega e buraco negro.

Às vezes penso em criar histórias bonitas, imensas metáforas que expliquem qualquer coisa que não sinto, qualquer coisa dessas que não vivi, mas não. Chego a uma conclusão lógica: não tendo ninguém em minha vida só sei falar sobre mim. De mim em relação à mim mesma. Como foi desde o princípio, agora e sempre. Assim, meio profético, meio religião, meio cristão e meio culpado. Eu parafraseei por tempos a minha emoção, tentei me contar de variadas formas, inclusive inventando outros personagem. Quis, como qualquer outro ser humano quer, me entender, me observar de longe como se eu fosse na realidade outra. A outra que ama um outro que também não existe e vendo tudo isso de uma certa distância quem sabe entender o que se passou. Mas passou, hoje não quero mais. Também espero muito pouco me entender. Já sei de mim. Sei dos meus vícios, das minhas crises, da minha mania preguiçosa de postergar ações pra àquele amanhã que é muito mais metafórico do que real, aquele amanhã que tem gosto de nunca, de eternidade que não se cumprirá. Sei que sou assim enquanto a vida exige foco e sei que subjetivo tudo aquilo que as pessoas buscam matematizar.

Hoje subjetivo. Também já somei muito. Já fiz de amor contas matemáticas incríveis, onde a compatibilidade somada com a afinidade e a altura certa caminhariam para a perfeição assim, de imediato. Hoje sei que sentimento é muito mais uma indefinição do existir do que um querer consciente. Sentir é um jeito de tapar os buracos que a existência enfia na gente, de forma até meio cruel. Cheia de buracos então, a pessoa busca tapá-los com um outro ser, também cheio de buracos e tudo que se espera é que se tampem os vazios mutuamente e que formem então, os dois juntos, algum tipo de ser completo capaz de suportar o enorme buraco negro que vamos alimentando - e aumentando - a partir do momento em que nascemos. A grande verdade é que por mais que você formule o ser ideal, você nunca sabe quando e como serão realizados os preenchimentos de alma, e às vezes eles acontecem muito desavisados, descompassados e tão fora de hora que você nem se dá conta que só se sente algo perto de um ser pleno porque do seu lado (real ou metaforicamente) existe outro ser, também buraquento, mas que espera ser pleno e que é por causa dele que existe alguma plenitude na sua vida. A grande coisa é que isso acontece várias e repetidas vezes, os buracos são tapados de maneiras diferentes a cada vez e não existe um padrão, nem regras nem um manual de instruções de como agir com tudo. É muito normal nos seres humanos que eles tropecem, descuidem e estraguem as relações das quais participam. É também notável a incrível capacidade desses mesmos seres em forçar a plenitude, projetando a felicidade em alguém que não pode supri-la. Tentativas desenfreadas de tapar buracos por pessoas que não podem tampá-los, coisa que só faz alimentar o tal buraco negro da alma.

É que talvez a regra da alma seja ser esse imenso buraco negro. A regra é o vazio, o imenso, o infinito. A exceção é o preenchimento das vontades. A sensação de eternidade palpável, que não incomoda nem dói. Talvez seja isso o amor. Uma certa aceitação da estranheza que traz a eternidade. Um aquietamento. Um sorriso em meio a dor. A aceitação do estado de dor e vulnerabilidade como coisa palpável, e bonita. A plenitude em existir. Talvez seja isso. Talvez o amor seja na verdade o que eu pensei esses dias. O amor é fazer cosquinhas. O amor é como se alguém estivesse fazendo cosquinhas em você. As cócegas te fazem rir, mas ao mesmo tempo te deixam sem ar. Te dão uma sensação de que aquilo nunca vai acabar. É bom e ao mesmo tempo sufoca. Você gosta do que recebe mas ao mesmo tempo não quer mais. Você sorri em meio a uma sensação de aflição. A pessoa que faz as cócegas sente prazer com o seu riso ao mesmo tempo que sente prazer com a sua aflição. Ela possui a outra pessoa nas mãos. Sabe que é a responsável pelo riso e pela aflição. É só ela que pode parar o riso e a aflição. E a pessoa que recebe as cócegas quer que aquilo pare, mas ao mesmo tempo não quer. Pois gosta de rir, e gosta também da aflição. Gosta de ser possuida por outra pessoa. Gosta da vulnerabilidade, do riso e do sufoco. Durante a relação muda quem faz as cócegas e quem recebe. Às vezes é um, às vezes é outro. Mas a plenitude do amor acontece mesmo quando os dois sorriem, o fazedor de cócegas aquieta, beija a outra pessoa e os dois riem e se deitam abraçados.

Achei que isso definia, um dia enquanto andava na rua.

A grande verdade é que eu não sei de amor, nem de cócegas faz algum tempo. Não tanto, mas faz. Hoje encontro pequenos "tapa-buracos-existenciais" em cada canto. Um amigo, um affair, um possível-amor, um amor-impossível. A plenitude da vida tem se feito sozinha. Nos livros, nos filmes, nas novas pessoas aqui e ali. Nos momentos como esse. A minha alma continua um imenso buraco negro, e às vezes suga. Desacredito nos meus buracos tapados já faz um tempo. Às vezes me convenço que vou ser um vazio de alma pra sempre. Às vezes acho que terei os buracos tapados e uma aquietação em meio ao sentimento de eternidade. Eu, que não se lidar com sempres, ou com pra-sempres e que enjoo de tudo num mínimo espaço de tempo. É que só sei ser plena enquanto escrevo e escritores parecem se auto-boicotar para conseguir histórias bonitas, narrativas fantásticas e metáforas interessantes. Eu pareço inventar constantemente isso que chamam de sentimento, por vezes me ferindo só pra ver se ainda sei sangrar. E sei. Mas sangro groselha com água, ralinha ralinha e já não tenho talento pro melodrama. Sou esburacada porque gosto de ser assim e no fundo no fundo só quero alguém que alimente esse meu buraco negro com um pouco de poesia e três tantos de verdade. A vida é esse lençol em branco onde eu dei de inventar histórias. Sorrio enquanto sei que eu estou comigo e só. Um dia o amor acontece. Um dia a gente recebe as cócegas certas, deita na cama e aquieta. Daí o buraco negro se desmazela em poeira estrelar. Eu ainda alimento o meu buraco negro com mil frustrações, e sozinha. Nunca pareceu tão confortável, o caos. Não há nenhum equilíbrio como o caos.

28.3.11

O astronauta.

O astronauta sai da terra. O ar rarefeito, as roupas pesadas, o medo do desconhecido. Uma pequena cápsula perdida no ar. A terra, vista de longe parece simples. Estar flutuando em meio ao espaço é uma sensação única. Ilógica. Reconfortante. Você só pode voar se estiver fora de órbita. O último conceito parece se aplicar à tudo. "Você só pode voar se estiver fora de órbita". Faz sentido. A pequena nave se distancia cada vez mais daquilo que conhecia como casa. "Planeta terra". Não parece tão assustador visto de longe.

Visto daqui um terremoto pareceria uma simples movimentação de terra. A terra dançando. A dança da destruição. Visto daqui talvez nem existissem terremotos. A terra parece um prédio de apartamentos com a janela fechada. Visto de longe. Não se sabe se as pessoas lá dentro sorriem ou brigam. Ou se simplesmente assistem televisão. A cada momento o astronauta se sente mais um pedaço de gente jogado no meio do espaço. Dentro de uma cápsula, indo pra sabe-se lá onde. A sensação não incomoda porque é familiar. Não é tão diferente de estar vivo, no fim das contas.

Estar longe de tudo é o mais perto da felicidade que conseguiu encontrar. Enxergar a si mesmo é como ter um planeta inteiro dentro de si. Visto de perto. Com guerras e terremotos. Se sente mais vivo fora da terra do que dentro dela. Fora do mundo e dentro de si mesmo. Faz sentido já que não sabe a quanto tempo está voando. Não tem certeza se vai voltar. Não se incomoda.

Não há nenhum humano capaz de entender o que se passa com ele num raio de milhares de quilômetros. Não é muito diferente da vida real. Está flutuando. Se sente livre. Nenhum contato com as pessoas reais, nenhum medo. Apenas uma cápsula jogada no espaço. Que respira um ar rarefeito e flutua. O sentimento é familiar. Não sabe a quantos dias está longe. O tempo é um conceito relativo. O tempo não existe no espaço. O tempo não existe. Estar vivo é só uma questão de referencial.

27.3.11

a lua inteira agora é um manto negro.

Aquela parte da sua vida em que você chega à conclusão que ou você muda, ou sofrerá algum tipo de consequência grave. Consequências graves deve ser entendidas como cortes profundos na alma, ou ferimentos doloridos naquilo que chamam de essência. Um dia você acorda, seis da manhã, olha pela janela e percebe que os padrões que te tornaram quem você é foram readequados. Ninguém te avisou, as mudanças não foram bruscas, ninguém te tirou o chão debaixo dos pés de uma vez só. Foi aos poucos, sua vida estava construída em cima de um chão laminado de madeira e foram tirando um piso por vez. Quando você se deu conta estava flutuando numa queda sem fim. Não tinha mais chão, nem terra firme, nem lugar pra construir sua vida. Tudo perdido flutuando em um ambiente de gravidade zero. Nenhum referencial, nenhum parâmetro, nada mais em que se apoiar. Acabaram os modelos, os moldes, não se enxerga mais as pessoas. Você está só. E se apercebe que a grande verdade é que você sempre esteve só.

Reencontrou-se.

23.3.11

como consertar maria?

Maria, que não é nem gorda nem magra; nem baixa nem alta; nem bonita nem feia. Maria que não é burra nem inteligente, nem quieta nem agitada, nem normal demais e nem estranha. Maria que vive em São Paulo cinza, num apartamento fechado de paredes verdes descascadas e fuma cigarros baratos despejando as cinzas em um pires. Maria que ouve as bandas da moda, compra suas roupas em brechós e diz ter feito seu próprio estilo e ter subvertido o mundo à sua própria vida. Maria que não gosta de rótulos, exibe contente seu marlboro vermelho ou seu lucky strike mentolado, em suas calças que já foram forum, com uma blusinha vintage de sua vó e seus converse all star do ano de 2007. Rasgadinhos na sola. Maria que tentou ser famosa, tentou ser simpática, tentou ser popular e só conseguiu ser estranha. Então resolveu que tinha que comer de estranhezas, em seus coturnos mal colocados nos vestidos floridos rasgados do fundo de armário, de quando tentou ir em uma festa legal e só se achou inapropriada. Maria foi achar sua turma, foi achar seu lugar, leu muito john fante, arrotou muito bukowiski nos bares bonitos da augusta, bebeu muita cerveja no meio fio.

Maria que já usou os ultimos trocados do seu empreguinho chinfrim pra comprar um café no starbucks que estragou seu all-star vermelho, ano de 2009. Maria que já quis ser aceita, hoje quer ser estranha pra poder ser querida em seu grupo de estranhos. Maria no meio de suas maquiagens carregadas, seu perfume-imitação, seus looks de internet. Ela que já tentou ser autêntica hoje copia a si mesma todos os dias no espelho antes de sair pro trabalho. Antes de sair pro trabalho se troca. A calça jeans, o all star velho, as camisetas poídas. Pega dois ônibus e um metrô. Entra. Não é bem sucedida. Não fez faculdade. Trabalha numa loja de discos usados em troca de dois salários mínimos que compram suas roupas e seus fins de semana. Os trocados que compram as suas companhias. Maria que antes gostava de pink floyd saiu da loja com uma versão rara em vinil de uma banda indie que ela não sabe pronunciar o nome. Também não sabe pronunciar o som. Não escuta bem os solos de guitarra, não entende o porquê da flauta e já não sabe mais ler a sua alma.

Maria que nasceu feiosa, que nunca foi querida pelos meninos da escola se envergonhava de suas botas ortopédicas. Depois dos seus óculos. Depois do seu aparelho. Hoje usa botinhas pretinhas e óculos enormes. Maria nunca leu um clássico da literatura e erra concepções básicas de português, mas citou saramago num sarau. Nunca entendeu a ausência das vírgulas e nunca soube falar de ausência. Tom zé grita num rádio longe da sua cama que amanhã de manhã a felicidade vai desabar sobre os homens. Maria não acredita no que ouve. Mas sorri. Maria se olha no espelho, se coloca lápis preto, batom vermelho, rimel, blush. Meia calça arrastão, shorts, sapato de salto. Sai com cara de desarrumada depois de uma minuciosa produção. Compra uma cerveja no posto, senta no meio fio, conversa com dois caras, acende um marlboro velmelho. Traga. Coloca fumaça pra dentro, pra fora. Observa São Paulo. Só queria ser querida. Tem uma amiga mais bonita que ela. Tem mais três meninas mais interessantes. Maria sabe de suas limitações e por isso tenta ser agradável. Consegue a empatia de uns meninos nem gordos nem magros, nem bonitos nem feios, nem inteligentes nem burros demais. Sai de mãos dadas, ensaia um conto de fadas. Esquece. A vida é muito curta para que fantasiemos.

Maria volta pra casa, os pés doidos dos saltos, se olha no espelho e já não sabe quem é. Já nem sabe se um dia se chamou maria ou se atendia por outro nome. Todo passado é distante. Ela é distante dela mesma. A noite passada maria brilhou cinco ou dez minutos enquanto dançou bêbada no meio da pista. Maria, rainha de qualquer coisa por um dia. Nem se lembrava direito mais, mas ensaiou os passos na frente do espelho. Quase tropeçou. Nao reconhecia a figura disforme que tentava dançar na sua frente. Perguntou "quem é você?", mas não obteve resposta. Só um eco. Um vazio. Sabe-se lá. Maria deitou na cama com sua maquiagem borrada, e suas meias arrastão. Trabalhava no outro dia.

Maria nem gorda nem magra, nem bonita nem feia, nem burra nem muito inteligente veste sua calça, seus all-star vermelhos 2008, sua blusinha sem marca, pega dois ônibus e depois se perde na fila do metrô. Olha pros lados e de repente se acha perdida no meio de tanta gente. Olha pro chão e vê pelo menos uns cinco tênis iguais aos dela. Olha pro lado e reconhece alguns cortes de cabelo idênticos. Quase todos vestem calça jeans. Metade delas estão com blusinhas sem marca. Todos estão indo trabalhar. Ninguém que olhasse de longe os reconheceria como um ser humano isolado.

Maria é só mais uma na multidão. E sabe disso.

18.5.10

todos os caminhos tendem a zero.

(carta para o intelecutor nome de ninguém específico).

Eu queria te contar sobre tantas tantas coisas enormes que eu nem sei por onde começar, mas quando eu falo de te contar eu quero dizer: te contar sobre a minha vida, porque não existe outra coisa que eu queira mais falar e mais esquecer que isso. Hoje não faz sentido a conversa fiada no portão sobre o sol, ou a chuva, ou esse frio que tem assolado a cidade impedindo a gente de sair sem blusa. Se for pra falar de frio, só vou saber falar sobre o frio que faz aqui dentro.

Não assim, exatamente um frio e nem é uma coisa assim como se congelasse, tavez fosse mais pra falar de vazio mesmo. O frio também atrapalha, tudo que eu sinto vontade é deitar debaixo de uma coberta enorme e quente e comer pipoca enquanto assisto filme, ou só ficar ali, sonhando acordada ou dormir pra sempre. Talvez fosse isso: dormir pra sempre, ou pelo menos acordar somente quando estivesse no seu devido lugar. Sabe, existe uma falta enorme de perespectiva que sei lá quando acontece, deve acontecer na vida de todo mundo, que é um acordar e não saber o que vai ser do resto do dia, quanto mais do resto dos dias.

Eu sei de obrigações, claro, tenho um monte delas e costumo falhar em mais da metade. Acordar mais ou menos as sete da manhã e pegar aquele ônibus cheio de gente por todos os lados ouvindo quase sempre as mesmas músicas para encontrar com as mesmas pessoas, inclusive aquelas que me fazem doer. Nesses quase quatro anos eu fui fazendo toda uma coleção de gente que me faz doer, dava até pra nomear por cores. As de rosa me fazem doer por causa de um ex-amor, as de verde me fazem doer porque me fizeram perder a esperança e as de vermelho me fazem doer porque eu amo demais.

Esses dias me disseram que se existe uma pessoa que se apega aos outros esse alguém sou eu. Nem faz tanto tempo assim, a gente estava falando sobre essa coisa de todo mundo me ver e enxergar essa pessoa descolada e desapegada com tudo. Eu pareço realmente muito desapegada, principalmente quanto eu me sinto amada. Quando eu vejo uma certeza de amor eu costumo me desapegar, ou fingir um desapego, quase uma indiferença mórbida, mas pelo contrário, eu amo demais. Devem existir uma três ou quatro pessoas vestidas de vermelho, elas me fizeram doer por amar demais. E se foram junto com meu desapego.

Hoje passei o dia inteiro pensando em coisas atrás de coisas, eu tenho querido tanto me apegar a alguma coisa, qualquer coisa que pareça a perespectiva de um futuro mais ou menos certo, ou um futuro todo incerto, mas planos pelo menos. Essa minha vida toda feita assim as pressas, sair do colégio cair na faculdade, grudar um relacionamento no outro, as coisas foram tanto acontecendo e eu nem sei como ou quando foi. mas foi.

hoje eu queria dizer, que enquanto olho pra essa cidade cinza e vinícius canta no meu ouvido sobre a rua-nascimento-silva-cento-e-sete eu só consigo pensar em um monte de coisas que não existem. Sabe, esse monte de coisas que não existem? o meu futuro que não existe, o amor que doesse em paz que não existe. Eu estou esperando tantas coisas enormes que encham tanto a minha alma que eu me sinta completamente incapaz de escolher uma cor pra minha alma sem dizer que eu só acho que ela é assim, colorida, de tão imensa.

Não é muito, assim, é quase nada quando você coloca em palavras: eu quero viver do que eu gosto e quero ter um amor que me leve pra fazer piquenique aos domingos. Quer dizer, o que é pedir viver do que se ama e um grande amor? As palavras diminuem tanto o sentido das coisas as vezes, e parece até pouco querer isso, mas na verdade é imenso. E difícil. E desde que parece ter se tornado tão dificil encarar essa falta de nos meus dias cinzas que eu só sinto uma melancolia enorme, uma melancolia maior do que os ônibus que eu tenho que pegar todo dia.

Tudo tem parecido de um esforço imenso, quase sobre humano, tudo tem parecido demais. E de parecer demais parece impossível. E parecendo impossível dá vontade de largar. É isso, eu quero largar todo esse vazio essa incerteza, essa enorme ausência de. Quero largar os ônibus, as pessoas com caras iguais. Quero largar também as pessoas que eu colori, as que me fazem doer. Quero largar tudo aquilo que eu um dia amei demais pra poder amar outra coisa, sabe? E mais que amar outra coisa eu quero amar qualquer coisa que pareça certa, e não ficar me dando assim, me entregando seca do jeito que tem sido, sabendo que não se pode esperar nada em troca e mesmo assim esperando o mundo.

Você sabe, qualquer pessoa sem perspectivas costuma esperar o mundo de qualquer coisa e costuma amar demais qualquer coisa. Qualquer coisa que seja, só pela perspectiva de quem sabe ser feliz. Eu quero a impossibilidade. Eu quero ser imensa. Eu quero andar na rua, trombar com um total desconhecido e ouvir ele me dizer que ele é meu estranho e que eu posso pular.

Eu quero pular na vida, meu deus. Eu quero ver as coisas fazendo algum sentido, qualquer sentido que seja. Eu quero amar, eu quero ser amada, eu quero os frios na barriga, eu quero aquela felicidade que de tão grande dá medo de quebrar. Eu quero sair desse vazio, desse ser sem sal, desses ônibus, desse frio, desse acordar as sete da manhã e principalmente dessa ausência que me invade, que é maior que a minha alma.

Eu quero um caminho, tom estava me cantando hoje, sabe? "é preciso acabar com essa tristeza, é preciso inventar de novo o amor". Eu quero tanto. Mas todos os caminhos que eu encontro, tendem a zero.

17.3.10

Mesmo que mude (é sempre amor).

"Ela vai mudar,vai gostar de coisas que ele nunca imaginou. Vai ficar feliz de ver que ele também mudou. Pelo jeito não descarta uma nova paixão, mas espera que ele ligue a qualquer hora só pra conversar e perguntar se é tarde pra ligar. Dizer que pensou nela, estava com saudade, mesmo sem ter esquecido que é sempre amor, mesmo que acabe com ela aonde quer que esteja. É sempre amor, mesmo que mude, é sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou.

Ele vai mudar, escolher um jeito novo de dizer "alô". Vai ter medo de que um dia ela vá mudar que aprenda a esquecer sua velha paixão, mas evita ir até o telefone para conversar, pois é muito tarde pra ligar. tem pensado nela, estava com saudade. Mesmo sem ter esquecido que é sempre amor, mesmo que acabe com ele aonde quer que esteja. É sempre amor, mesmo que mude, é sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou.

Para conversar nunca é muito tarde pra ligar. Ele pensa nela. Ela tem saudade. Mesmo sem ter esquecido que é sempre amor, mesmo que acabe com ele aonde quer que esteja.

É sempre amor, mesmo que mude. É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou." (bidê ou balde - Mesmo que mude)

E dizendo assim, que pode ser qualquer coisa dessas, dessas coisas inúteis que me lembre qualquer coisa inútil tipo amor, mudança esse estar constante e esse não ser. Qualquer coisa, Caio F., Clarice, Bidê ou Balde. Uma palavra, uma foto, um dia ou um gesto, usando qualquer coisa dessas pra tentar te dizer aquilo que dia após dia eu só sei é sentir: Garoto, você (ainda) me dói.

11.3.10

a saudade é arrumar o quarto de um filho que já morreu.

É difícil te dizer essas coisas.
Mais difícil ainda porque tenho tentado repetidamente há alguns meses sem sucesso algum. Não que eu não saiba as palavras certas. Você tem que concordar comigo que de palavras eu sempre entendi. De amor nem tanto, mas sobre palavras, como colocá-las da maneira certa pra te atingir aqui ou ali eu sempre soube. Talvez saiba até hoje, mas já não tenho tanta certeza.

Existe algo, aqui dentro, que vem quebrado repetidamente. Todos os dias quebra mais um pouquinho. Não sei se você entende sobre coisas que quebram. Eu sempre fui a quebrada das coisas. Você sabe, bem por detrás do meu sorriso bonito sempre teve alguma coisa quebrada. Dor, ou qualquer coisa assim. Aquela coisa que você olhava ou ouvia e depois me dizia que não sabia como agir quando eu lhe dizia essas coisas. Eu sempre achei bonito. Bonito esse seu não-saber-mas-querer. Eram momentos assim que me faziam querer te guardar em caixinhas. Daquelas pequeninas, ali na estante. Sentimento. Dos bons.

Eu tenho repetido rotas. Rotas que repito todos os dias, repetidamente. Comigo, com outras dez pessoas, com uma só, só que outra. Partes do meu cotidiano assim, imagens daquelas tão corriqueiras que se nos pedirem os detalhes a gente nem lembra. Faz um tempo que em todas as minhas rotas lembro de você. E não importa quantas vezes eu tenha passado lá com outras pessoas e nem quantas vezes ou quanto tempo faz desde que o trajeto não é feito com os seus pés de tênis sujos do lado do meu, mas tudo grita: vo-cê. Em detalhes.

A esquina em que um dia deixei você ir e fiquei te esperando, sentada, vendo o sorriso bonito. O caminho que devo ter feito dez, vinte, sessenta e sete vezes desde a única vez que o fiz com você, mas lembro é de ti, em detalhes. Me lembro do dia que te esperei e te vi. Me lembro do único dia que me esperastes, nervoso. Me lembro dos teus pés do lado dos meus, silenciosos quase e eu gritando nervos, falando demais, como sempre-sempre. Me lembro de primeiras vezes, de únicas, de rotinas esquecidas aqui e ali. Me lembro de você. Do cheiro e do sorriso. Do jeito de rir, dos dentes errados, do desajeitamento, da altura exata e até das vezes que eu deveria ter prestado mais atenção eu me lembro.

Tenho me lembrado, que nem doença, de você.
Me lembrado como se lembra das pessoas que morreram. O não as ter nos faz lembrar delas em trajetos e rotas e rotinas. Faz lembrar do que um dia se teve e não se vai ter mais. Por fatalidade. Um dia você acorda e te contam que aquela pessoa nunca mais fará parte da sua vida. Nunca mais os telefonemas, as visitas, as tardes e as rotinas.
Nunca mais.
E é quando você começa a viver com lembranças. Me lembro do dia que. Daquele outro dia que. Da camiseta verde. Da camiseta azul marinho. Da bolsa. Da carteira. Lembranças. Lembranças que qualquer dia somem e só sobra a essência. O cheiro de morte, tudo que deveria ainda ser e não é mais.

O que eu quero dizer, sem eufemismos ou tragédia demais, é que você morreu pra mim. Não por dentro. Ninguém morre por dentro de ninguém. As pessoas que morrem continuam tão vivas ou mais vivas que as pessoas que respiram e andam perto da gente. Mas em algum lugar, você morreu. Um dia eu acordei e te vi, morto, sem nenhuma respiração ou aspiração na minha vida. Tenho contado os dias, e os meses. Tenho vestido meu luto. Tem doído. Eu tinha resolvido não aceitar. Eu tinha vestido meu luto na frente da porta e esperado você voltar. Todos os dias eu esperava você voltar. Todos os dias a saudade aumentava um pouco. Todos os dias a dor aumentava demais. Cada pedaço de terra, de rua, de comida ou de livro me lembrava você. Eu tenho um quarto todo mobiliado com coisas suas desde que você morreu. Eu tenho esperado como a mulher que perde o marido na guerra ou a mãe que espera o filho desaparecido. Eu tenho sentido as saudades mais doídas. Todos os dias.

Mas hoje eu olhei a ausência e pensei na falta de sentido que faz conservar os mortos. O falar em cada conversa, o esperar em cada jantar, o guardar os presentes e as lembranças. E é isso que eu queria te dizer, que eu espero que você morra dentro de mim, como já morreu fora. Delicadamente, causando pouco estrago, aos poucos. Eu não espero acordar amanhã e ver você morto dentro de mim. Eu sei que eu ainda vou me recolher no meu luto algumas vezes, sei que ainda vou chorar sua partida, e mais que tudo vou desejar que você estivesse comigo, vivo e falante, com todos os trejeitos que eu conheço tão bem.

Mas por hoje, eu decidi que eu quero que você morra, e é isso que eu queria te dizer. Faz tanto tempo que você se foi e eu aqui, cultivando essa saudade, esse vazio essa vontade de. Eu não posso mais, o te ter viva em mim é que me faz morrer.




30.8.09

E nesses dias tão estranhos

(fica a poeira se escondendo pelos cantos)

Já não sei mais escrever com música. Os meus vinte anos de boy, that's over baby. Parece estranho sentir um peso ancestral depois de duas décadas, mas hoje sinto que preciso do silêncio. Porque o silêncio me dói. E eu ainda só sei escrever com dor, o que é um clichê dos piores. Minha mãe diria que eu estou sempre usando a palavra "clichê" e então, se um dia ela me pegasse um pouco mais espirituosa eu diria que só se fala daquilo que se é, e eu sou um clichezão enorme. Hoje é o ultimo dia do mês e o começo de uma nova, daquelas bem velhas etapas. Eu nunca deixei de ser a garota de dois anos atrás e de certa forma isso me enjoa um pouco. Todo mundo quer evoluir, ser diferente e eu só me sinto um pouco mais perdida.

Antes "acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto" me cabia bem, mas hoje é um leque tão grande de possibilidades que não virão a ser que eu acho que eu nem sei do que eu não gosto. Estou acostumada, indiscutivelmente acostumada às coisas que faço e também às que deixo de fazer. João Ubaldo diria que " a gente se acostuma a tudo" e eu, relutante demorei a acreditar nisso, mas hoje acredito que sim. Não paro pra pensar na minha vida faz algum tempo e tento me ocupar com mil e uma babaquices só para preencher o tempo e ter algum assunto. E aí quem me vê acha que eu vi mil e um filmes e conheço várias bandas e leio muitos livros, mas eu só sou uma farsa bem arranjada com alguma pitada de bom humor. Ultimamente não estou dando nem pra escrever e sinto um sono que eu não posso nem explicar.

Hoje pensei muito sobre felicidade, sobre realizações. Gosto de ver as pessoas perto de mim um pouco felizes, bastante felizes, realizadas. Nunca fui assim e nem posso te dizer que um dia o seja. A falta de alguma coisa parece fazer tanto parte de mim que se um dia eu resumir que estou feliz e só eu não serei mais eu. Claro que isso é uma das bobagens sem tamanho que a gente diz quando sabe que ser feliz há algum tempo não é uma opção. Ou desde sempre. Pessoas infelizes gostam de dizer que são mais produtivas desse modo e assim o fazem, e aí se tornam pessoas interessantes porque gente que não sabe o que fazer tem um ar de mistério que sempre é de alguma forma, interessante. Mas ar de mistério às vezes é só tristeza e solidão e depois de quase duas décadas fica desinteressantíssimo ser uma pessoa com a qual nem você mesmo gosta de conviver pacificamente.

E então, olhando para os lados vi umas duas pessoas que se diziam completamente felizes e senti uma certa inveja, porque eu de alguma forma não sou feliz. Alguma música do chico termina assim, bem com esse verso ' não fui feliz'. E eu sempre posso ficar dizendo e repetindo isso no fim de qualquer coisa, que eu ainda não fui feliz. E é a mais pura verdade. Ando assim, cheia de dias estranhos, e se paro pra pensar há uma tristeza que me invade me lembrando das vinte e sete coisas que eu preferia esquecer. Queria esquecer de muitas coisas, porque tenho todas as ferramentas para ser uma pessoa feliz, mas não consigo usá-las para tal. Existem pessoas que não aproveitam a própria sorte e disperdiçam sua fortuna. Eu tento todos os dias desde que nasci não disperdiçar a minha fortuna, mas sou muito desconfiada e depois de achar que não tenho fortuna nenhuma e largo tudo pra trás, do jeito que sempre foi. Não gosto de ficar sozinha, mas me acostumo assim se preciso for.

Sofro de síndrome da insatisfação crônica e tenho quase certeza que nada nunca estará bom pra mim. Mas depois de duas décadas se instaura em ti um medo, e é ele quem me acompanha todos os dias. Com vinte anos já é hora de ter sua vida mais ou menos arranjada e desarranjar ela de uma hora pra outra pode ser coisa pra se arrepender para todo o resto dela. Hoje tenho medo de tudo que me desarranje e vivo então um dia depois do outro e depois do outro e depois do outro. Já não tenho certeza de nada e os dias nem doem nem alegram, só são. de tristezas e alegrias ocasionais todo mundo vive, inclusive eu. E eu tenho vinte anos, sou morena, viceral e ainda não fui feliz.

4.8.09

O que está acontecendo?

( o mundo está ao contrário e ninguém reparou; ou desabafo)

"It's a mad, mad world", gary jules diria cantado no final de donnie darko enquanto você se dá conta dos universos paralelos. Universo paralelo, prazer, é de onde estou observando de leve o mundo em que me encontro. Ou todo mundo enlouqueceu, ou sou eu que tenho problemas com me adaptar a realidade. Não sabendo a resposta certa, eu digo que talvez seja tudo uma louca questão de ponto de vista e que no fim não faça diferença nenhuma o que eu acho, ou deixo de achar, mas eu só preciso dizer que eu já não sei mais o que estamos fazendo de nós.

Então me dizes que acabaram todas as fronteiras e que podes se comunicar rápido como um foguete com qualquer pessoa em qualquer lugar do universo. E achas graça, porque agora seu universo é grande e extenso, mas não cabes dentro de si. Trocas então qualquer conversa por telefone por seu computador e esqueces que pode chamar alguém para tomar um café, porque então te lembras que vives sozinho e faz algum tempo que ninguém frequenta a sua casa. Tentas então as teclas, procurando algum amigo, e ele até te ouve, mas sabes que tentas em vão porque no fundo (sem saber) sabe que letras coloridas não substituem olhares compreensivos, mas nem te lembras mais como eram, então cala-te e dorme, porque não tens tempo para pensar bobagens.

Não te lembras quantos amigos já perdestes, mas lembra-te de às vezes, mandar algum recado diznedo que está com saudades, que a outra pessoa responderá dizendo que também está e que poderiam se ver, sabendo que não se verão nunca mais. Ambos possuem outras vidas agora e não tem tempo de se desvencilharem das mesmas para correr atrás do passado. Passado aliás é uma palavra muito malvista. Dizes passado, lembram-se de velho e ninguém mais gosta do velho. Gosta-se de futuro, de novo, de presente. Gosta-se do que está aqui e agora. Do rápido, do prático, do enlatado.

Então já não sabes mais se compra a blusa que viu na loja para a sua esposa ou para sua filha, afinal se vestem ambas tão parecidas e nem sabes mais quem tem mais fotos na internet ou entende mais de computadores. E vê em todas as revistas milhares de pessoas dizendo em vinte e cinco formas diferentes de se manter mais jovem junto com as trinta e sete maneiras de parecer mais magra e só sabes que pensam muito em aparência e em parecer, mas já está tão acostumado que nem ligas.

Se perde no meio da loucura de aproveitar o presente e então nem te lembras mais que também é uma opção ficares em casa, sozinho, repensando suas idéias. Te lembras que parar é perder tempo, então faz. Então buscas. Então tens. Tens dinheiro, diversão, festas e tudo isso que trás a felicidade. Estás jovem e ativo e assim sempre estará, e permanecerá e se isso não for possível, ao menos parecerá. Então tentas a todo custo se manter em trinta e sete cirurgias plásticas e visitas semanais à academia. Já estreiou a boate da moda, entendes completamente tudo e todos e te livrastes dos preconceitos. Acreditas em sexo casual, e buscas experimentar pois experimentar é o único jeito de saber. Não paras mais. Estas sempre em algum lugar, estás sempre em busca da felicidade que está sempre um passo a frente de você, mas sabe que um dia irá alcançá-la. Estás atrás da juventude que um dia sabes que perderás, mas não te importa, pois seu espírito é jovem e não envelhecerá jamais.

Então corres, tresloucado para nunca parecer ultrapassado, e se livras do passado, e de repente, olha, serás moderno. E nasces como um robô belamente programado para não parar, não envelhecer e ser feliz. E para ser feliz não há limites. Então bebes, e e sai, e ri e conhece quantas pessoas quanto puderes e te envolve com quantas pessoas quanto puderes e largas quantas pessoas quanto puderes para sempre ter todas as pessoas que quiseres, sem se dar conta que nunca nunca tens ninguém. E te sentes pertencido porque todos os outros são como você. Bonitos, e jovens, sempre sempre jovens.

Eis que sem perceberes perdeste a vida. E perdeste, que ironia, tentando ser feliz. E envelheceu enquanto tentava ser jovem. E foi ridículo enquanto se sentia totalmente pertencido. Agora olhas pro lado e vê, vê aquele alguém que sempre julgaste fora dos padrões e louco. Vês teu amigo que dizias feio pois assumiste as rugas. Vês teu amigo que dizias perder tempo, pois passavas muito tempo contemplando. Vês teu amigo a quem dizias que estava deixando a vida passar por entre os dedos, sem aproveitar. Vês teu amigo que sempre achou bobo, pois um dia se envolveu demais com alguém, e com uma só pessoa decidiste ficar. Vês seu amigo que tinha tempo para os filhos, e que resolveu assumi-se pai, e não companheiro de balada. Que resolveu tomar seu tempo, fazendo as coisas que julgava de seu tempo. Vês seu amigo a quem julgavas velho, antiquado, a quem dizia não saber se adequar as mudanças do mundo atual. Vês seu amigo que tomou tempo para ler, para caminhar, que não ganhou tanto dinheiro e teve tempo para a família. Vês seu amigo que um dia sossegou, e não tenho uma vida cheia de luxos, teve conforto o suficiente para curtir a palavra que detestavas, a velhice.

Vês teu amigo pleno, e de rugas no rosto, sentado numa cadeira na varanda e pensas em perguntar como vai levando a vida. Pensas em perguntar mas desistes, porque enxergas no rosto do amigo aquilo que passou a vida inteira procurando, mas não encontrou. A palavra mágica, o elixir da juventude, da boa saúde, da vida plena. Aquilo que não se encontra com vinte e cinco jeitos práricos, com mil noites ou com fórmulas magicas de juventude eterna. Encontras no rosto de teu amigo aquilo que sempre julgastes ter a fórmula mágica para conseguir e aquilo que julgou a vida toda estar tendo, mas nunca soube como era. Encontras no rosto do teu amigo, hoje velho, mas de essência viva, a mesma de muito e muitos anos atrás, aquilo que estão todos loucos procurando enquanto colocam os pés pelas mãos: a felicidade.

E então entendes que tudo que ficastes velho buscando a juventude, perdestes tempo tentando aproveitar a vida e principalmente, ficastes sozinho, tentando ser feliz. E então choras a te olhar no espelho, desfigurado por seres aquilo que não és mais, sente-se ridículo, e pensas em querer voltar tudo e pensas em querer começar de novo e pela primeira vez se encontra com o único mal irremediável: O tempo que não volta mais. E choras, não foi feliz. E então te perguntas "até quando continuaremos assim?" e ficas, porque (não sabes que) sabes que ninguém te responderá. Não sabem a resposta. Continuarão. Eterno-retorno-Eterno de busca sem fim.

30.7.09

Minha sorte tinha nome e se chama estevo.

E sempre me perguntei porque nunca escrevi sobre a sua morte, e só posso pensar que é porque eu não me sentia totalmente confortável com a sua ausência, e admitindo mais ainda te digo que até hoje não sei te dizer como é que eu existo sem você existir. Depois penso um pouco e te digo que existe tanto de ti em mim que é como se ainda vivesses aqui. E então não há como falar sobre mortes de pessoas que nunca morrem, porque eu sei que você na verdade nunca morreu. Não dentro de mim.

Foram vinte anos de convivência bruta e quase diária. Posso me lembrar ano a ano tudo que esteves e fizesses por mim. Tudo. Lembro de ti desde que eu era muito meninota me deixando fazer festa nas lojas brasileiras - que há muito deixaram de existir - voltando feliz com um saquinho cheio de caramelos de todos os tipos. Lembro também de te contar não posso nem te dizer quantas vezes as histórias do macaco que botou a mão na cumbuca, e do pulo do gato. Lembro até hoje, vivo em mim, seu sorriso debochado ao ver a tragédia do gato. E por isso me repetia tantas vezes, gostava de te fazer rir. Sempre riu com vontade. Sempre foi tão feliz.

Me lembro também de te fazer cuidar de minhas bonecas. Me lembro de sentar no meio fio contigo e ficar ali, enquanto você me contava histórias. Eu sempre te achei a pessoa mais adimirável do universo todo não só por todas as coisas que era, mas por todas as coisas que me ensinastes. E não foram poucas. Me mimastes tanto. Tanto. E desde pequena nutri um gosto não muito comum em crianças da minha idade por salame, provolone e bacon frito. E não existe nada mais justo, porque eu tenho que concordar contigo que não existe coisa melhor nesse mundo.

Cressestes comigo. E eu digo que cresceu, porque você não envelheceu nunca. Sempre foi tão criança quanto eu. E assim comiámos balas enquanto assistiamos ao jogo do são paulo, e eu te via colocar duas balas na boca e não entendia nada, porque não havia porque ser tao esformeado assim. Mas achava graça. Sempre achei muito bonito seu jeito de ser. Lembro de você me irritando todo sábado ao chamar meu pai de velho, e na minha cumplicidade de criança com meu amado pai, o defendia dizendo que ele não era velho. Morrias de rir. Depois me acostumei e dizia quieta que ele tinha ido ao futebol, e sentava no braço da poltrona na frente do lugar do sofá que ocupavas e ali ficava um pouco vendo tv contigo.

Me lembro de domingos ao som de chorinho, e me lembro de você me pedindo para que colocasse música. De certo achava bonito, tão nova criança saber mexer em tão complicado aparelho tocador de cds, mas tenho que te dizer que na minha época a gente meio que nasce sabendo. Mas gostava e ia toda orgulhosa ali colocar o cd do demônios da garoa, cheio das nossas músicas engraçadas. E eu te digo nossas, porque sabia que gostavas muito da música do gato e a colocava várias e repetidas vezes só para te ver rindo com vontade. Seu riso é coisa que sempre vou guardar em mim, não importa quanto tempo passe. E se falo de gatos me lembro de ti espantando todos os meus gatos com pequenos potes de água, e depois ria-se todo, enquanto eu não entendia porque maldade tal com tais bichinhos. Mas depois te imitava. Sempre te imitei, porque sempre fostes meu exemplo.

E me lembro de depois de um tempo, fazer por ti o mesmo que fizestes por mim. E então eu te cuidava, e te dava remédios e prestava atenção para que não fizesses estripulias. E já não era mais você quem compravas para mim as coisas que eu gostava de comer, e sim eu que te levava as balas e salames e foi contigo que aprendi a cortar salame fininho, de faca amolada e a cortar laranjas e fazer uma 'tampinha' que depois de tanto fazeres pra mim, aprendi a fazer sozinha. E creio que foi assim, que tudo que aprendi com você hoje sei fazer sozinha. Sei ter seu bom humor nas piores situações e sei contar a sua história da raiva pra todo mundo, para que saibam que eu te tive e te guardo com carinho.

E sinceramente, eu não sei mesmo falar da sua ausência, ainda que ela se sinta toda crua e fria, porque para mim sempre existirás aqui dentro, e assim, nunca nunca morrerás, meu eterno, querido, amado e melhor avô.

21.7.09

Esse sentimento

E sentes de novo a essencia exata do que é a solidão e a dor de existir. Mas o que sempre existiu não é novidade. Então o sentimento senta ali e fica quieto, nem respira, nem canta, nem dói. Senta pra tomar um café, pra assitir televisão, pra tentar nao ser percebido. Mas é.
E aí te lembra de coisas simples e pensa em trinta e sete relacionamentos quebrados que já te acompanharam vida afora e vê que teus pés nem caminham mais do lado deles, que tem um abismo no novo mundo que se formou de ambos os lados e é abismo que ponte nenhuma pode alcançar. Aí sabes que se sente fraco, sozinho, triste, abatido e até dizem que você está cansado quando te revêem que é um jeito mais educado de dizer que conseguem ver de longe a sua alma despedaçada e seu vazio de existir.
Pensas então em mais de milhares e milhares de jeitos de melhorar, mas não pensa em nada. Sempre soube que a felicidade é coisa simples, coisa de momento, lugar, de ter bons amigos e boas companhias. É coisa de clichê. E sempre soube que existem milhares de jeitos novos e de cores diferentes para alcançá-la, mas aquilo que hoje bebe café com você não te deixa pensar em nenhum.
Então nem tenta mais e te cala, porque só sabe sentir que esforços são em vão. Senta ali com esse sentimento e fica. fica. Porque sabe que já perdeu a força de ir há muito tempo, e que felicidade é coisa que hoje não consegue alcançar. só por hoje. aquieta. dorme. sente. chora. é assim.

30.6.09

Vinte e nove maneiras e meia de não reconhecer-se.

E eu não sei quanto tempo faz, mas se fazem meses desde a última vez que essa solitária eu adentrava qualquer ruído que fosse fora da incomensúravel rotina que já me quebrou em vinte quatro mil trezentos e sessenta e uma partes. Não me lembro de mim comigo mesma desde nem posso me lembrar quando e isso é coisa ruim que se sente nos ossos. Sinto saudades de mim como era, e sou, dessa essência desajeitada, sempre querendo chamar atenção. Desses bom humores que escondem vastas tristezas.

Gosto de ser como sou, embora doa um tanto. Sei que estou essencialmente precisando de conversas, de novos ares, não sei me sentir presa. Sempre soube que qualquer responsabilidade que me fosse imposta doeria nos ossos. Nasci pra ser cuidada. Não sei cuidar e nunca soube carregar peso demais nos meus ombros. Preciso de um momento só pra mim. Um vão que seja, para que fluam as coisas que aqui estão presas.

Sempre tive medo da solidão. Agora a abraço tranquila, como criança que corre de mãos dadas com um novo amigo. Juntas abraçamos a melancolia e nos damos as mãos rumo a caminhos sórdidos. Acontece sempre, eu sei. E acontecerá assim até que não precise mais acontecer.

Hoje preciso respirar até encher trinta e cinco pulmões. Preciso estar em trezentos e quarenta e sete lugares diferentes. Preciso das minhas vinte e seis maneiras diferentes de enchergar um mesmo problema. Preciso me encontrar no meio dessas brincadeiras de não ser. Preciso de razões para viver, e mais ainda, razões para continuar viva. Novecentas e quarenta e três razões de cores diferentes. E só.

8.6.09

Das sensaçoes

Da absurda agonia de existir papel e caneta, mas faltarem as palavras. Da inquieta sensação de respirar e existir, mas faltar a vida. Da estranha frustração de ser o malfeito entre caio e clarice e odiar esse existencialismo barato, sem bebida, sem cigarro, engolido à seco, clichê por clichê, como se saboreasse belos doces, que na verdade são feitos de fel. Das sensações misturadas da necessidade de proteção a quem não precisa e das agonias de gostar demais a ponto de nunca nunca conseguir deixar. Da inquietação perene vinda do vício estranho por cafeína. Das saudades suicidas de tudo aquilo que já foi e nunca mais vai ser, mas poderia. Da tristeza ocasional de saber que nunca será tudo aquilo que desejastes, mesmo que tentes com toda a alma e deseje de todo o seu coração. Do aperto na alma de não ser aquilo que o modelo perfeito de você queria que você fosse. Das horríveis dores de cabeça pelas noites mal dormidas. Do frio inquietante que gela ossos e alma do acordar cedo para honrar aquilo que não considera importante. Dos buracos abertos dos amores que são perdidos ano a ano, mês a mês, durante toda a vida. Da esperança bandida de encontrar um lugar só seu e ser feliz feliz feliz feliz. Do vício suicida de ser feliz com aquilo que lhe faz mal, e do que te faz mal te fazer sorrir teu sorriso mais sincero. Da certeza de saber que não casarás com o amor da sua vida, porque ele já se foi. Do enjôo matinal por ser essencialmente romântica nos dedos, e seca como uma esponja na vida. Do pesar de perder todas as pessoas que um dia amou, algum dia, ainda que longínquo. Da absurda agonia de existir e ser, e continuar vivo. Estou.