(ou, como é difícil competir com uma possibilidade).
Quando ele me amava, eu não o amava de volta. Não por nada em especial, ele tinha os jeitos certos de me tratar desde a primeira vez em que me viu. Não atrasou no primeiro encontro e, mesmo dizendo que talvez chegaria atrasado, resolveu sair correndo porque ele é quem devia esperar. Confessou ele, alguns meses depois, que tinha medo que eu fosse embora. Ele estava certo mesmo sem saber: sou dessas de ir embora. Por ele - ele também não sabia - eu não iria embora não. Alguma coisa nele tinha me encantado o suficiente pra que eu quisesse ficar. Nem que fosse pra ter certeza que aquela figura que eu tinha imaginado na minha cabeça nada tinha a ver com a personificação do real. No fim das contas tinha sim, mas por alguma razão, não ficamos juntos. Antes eu culpava ele. Achava que ele nunca tinha se irritado muito com esse meu jeito expansivo e piadas fora de hora quando colocada em situações limite. Depois percebi que nossa não-junção foi muito mais por uma falta de comunicação mútua do que por um não-querer. Agora eu acho que foi coisa da vida mesmo: não era pra ser. Assim, bem fatal.
Eis que, como acontece com toda relação que não funciona não por briga, mas sim por impossibilidade: nos tornamos amigos. Muito amigos. Nossa relação foi sempre pautada numa admiração mútua (e meio louca). Uma vez, conversando com um outro amigo, ele me disse que só se ama aquilo que se admira muito. Quanto maior a admiração, maior o amor. Talvez essa seja uma grande verdade da vida ou, talvez, só tenhamos acreditado nisso porque éramos os dois aquarianos. Eu concordei. Eu admirava aquela outra criatura que fazia parte da minha vida como uma coisa quase-perfeita. Até os defeitos dele eram bonitos. Os jeitos estranhos de se portar, as piadas ruins: tudo nele era passível de ser admirado. E tinha mais: ele nunca me decepcionaria, porque a nossa relação era uma das relações mais puras: a amizade. Ele tinha comigo uma idealização louca. Sempre me achava inteligente demais, muito bem vestida, dona das boas piadas, das boas sacadas, das boas comidas. Levava minha opinião em conta, como uma espécie de guru. Se eu não gostasse da coisa a coisa tinha grandes chances de não prestar. Era assim com as bandas, com os livros e, até, com os amores. Os amores dele (foram muito poucos durante a minha estada em sua vida), tinham que passar pelo meu crivo. O que esperar de uma pessoa que a dona da sua admiração não aprova? Nada, ele supunha. Nada de fascinante, ao menos. E foi assim que concluí aquilo que disse logo no início dessa divagação: quando ele me amava, eu não amava de volta.
Um dia, ele me disse, muito convicto que não podia continuar com uma das meninas com quem estava por uma simples razão: eu não gostava dela. Me envaideci, claro, porque qualquer uma se envaideceria diante dessa constatação, mas me assustei. O gosto era dele, assim como a vida, e eu não tinha nenhum direito de intervir como uma espécie de fantasma, ou até mesmo de modelo, na vida amorosa dele. Não tinha, mas intervi. Imagino que eu ficava ali, na memória dele como um espírito ruim. A toda vez que a menina não se aproximava do que eu era, ela perdia pontos. Imaginei ela tentando fazer as piadas que não eram minhas, ou não derrubando um tico que seja de coca na mesa, ou não sabendo dos livros que ele gostaria que ela soubesse (porque eu sabia). Naquele dia ele me disse que desistiria de vez daquela garota, e que eu não me preocupasse, ele encontraria alguém que tivesse mais a ver comigo. Ele falava dela pouquissimas vezes antes do término. Não me contava as histórias dela, e por vezes omitia a presença dela na vida dele. Era como se ela não existisse mesmo quando havia existido. Tudo que eu soube dela foi o começo - em que reprovei um pouco, e o final. O final pra ele parecia um alívio. Ele finalmente tinha se livrado da pessoa que eu não aprovaria. Ele agora estava livre do meu fantasma.
Qualquer pessoa digna da admiração de alguém se torna um fantasma. Ele também era o meu, eu só não dizia. Todas as vezes que os meus amores não agiam como ele agia comigo eu me sentia mal. Eu quase passava tutoriais pra eles de como eles deviam se portar. "Não conta essa piada boa não, conta essa que é ruim, mas que eu vou achar engraçadinha" "Segure minhas sacolas no mercado, erre as combinações de roupa. Cuide de mim. Qualquer coisa assim. A verdade é que ninguém compete com uma possibilidade, uma idealização. Nenhuma menina nunca competiria comigo, porque a nossa relação era perfeita. Nunca uma briga, nunca um defeito grave, algo que irritasse. Nenhum cara nunca competiria com ele, porque ele era o cara perfeito. Éramos, e não éramos. Éramos porque nos admirávamos e nos gostavamos sem restrições. Não éramos porque uma relação de amizade, por mais estreita que seja, não é um relacionamento. É mais. De um amigo você aguenta coisas que, talvez, em um namorado não suportaria. Os amigos fazem tudo um pelo outro. É um amor irrestrito assim como é um amor que não se vê todo dia, não se cobra jantares, onde não se tem direito de brigar por ciúmes. É um amor sem a obrigação do amor. Nenhuma menina nunca chegaria a ser o que eu era porque a relação é outra. Nenhum cara nunca seria o que ele foi, porque a relação é outra. Eu sou outra. Ele é outro. A verdade é simples: não há como competir com uma idealização. Não tem como competir com a pessoa pra quem você não tem medo de ser exatamente aquilo que é. Não tem como competir com a pessoa com quem você divide a vida, que sabe todos os seus gostos, que entendeu seus traumas de infância e sua visão sobre deus e o diabo. Não terá nunca como competir com quem te livra de você mesmo todas as vezes que seu mundo desaba. Não tem como competir com a possibilidade de uma coisa que ainda não foi. Não tem como competir com o amigo ou a amiga que seria seu namorado perfeito, mas que nunca foi seu namorado (ou namorada).
A gente deixou de ser os fantasmas um do outro quando nos tiramos dos pedestais. Ele foi namorar outra menina (que nada tinha a ver comigo) e se libertou. Eu demorei um pouco mais, mas percebi que uma relação (mesmo se fosse com ele) estaria fadada a fracassos. Porque o amor é isso, é um passo antes do fracasso. Estamos sempre um passo antes do fracasso. Nós podíamos nos odiar se namorássemos. Podíamos nos degladiar em terríveis brigas sobre o jeito errado que ele tem de deixar o copo na pia. É a intimidade que afasta. Todos nós nos decepcionaremos. Resta saber se a decepção é maior ou menor que o amor. Ninguém pode competir com uma possibilidade. Elas não conseguiram, eles não conseguiram, e eu já perdi também pra uma possibilidade. Você nunca vai ganhar de uma idealização. Nem sendo a melhor pessoa do mundo. Nem dando o máximo que conseguir. Eu só percebi quando estive do outro lado. Do lado da menina que foi deixada porque não era ela (e competia com seu fantasma).
Os amigos dos amores sempre ganharão, porque eles querem eles e não a gente. E eles não existem. Ninguém nunca vai ser melhor do que alguém que não existe.
Não há como competir com uma possibilidade.
E sucumbiremos. Até que a possibilidade se torne realidade, e a realidade faça o que sabe fazer de melhor: fustrar-nos.
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17.6.12
25.7.11
and there is no modern romance.
Liguei o rádio e soube: dali pra frente nada mais se concretizaria na memória a não ser as lembranças. Tem sido assim. Assim, um eterno lembrar-e-esquecer como um círculo vicioso, um carrossel, uma roda gigante que não para nunca e aonde, por mais que entrem novas pessoas, ela continua sentada no exato mesmo lugar. Dando voltas e voltas, e mais voltas. Teve esse e aquele outro e um belo momento e outro belo momento mas, de alguma forma, no amor a existência tem precedido a essência e a falta de sentido é uma constante. Como em equações matemáticas a vida é dada como: amor-vezes-a-constante-(falta-de-de-sentido)-é-igual-a-zero. Zero.
Pensava nisso enquanto tentava pensar em outra coisa. Sempre assim. A gente pensa que esqueceu, depois ouve uma música qualquer e tudo volta feito ferida que não cicatrizou, e lateja o lugar que a gente tinha esquecido que tem (o coração, talvez?). Foi assim naquela noite fria enquanto tomava meu whisky e fumava meus cigarros de filtro laranja. Tudo que ainda sabia dele é que, continuava com o mesmo senso de humor e, tinha começado a fumar também. "Não fumávamos quando éramos jovens", pensei. Engraçado a inconsequencia ter começado no exato momento em que deixamos de ser. Será que éramos sem saber nosso ponto de equilíbrio, nossa religião? Seria o amor o nosso deus? talvez. Você era a única coisa em que eu acreditava. Personificação do amor. A partir do momento que você se foi o amor deixou de existir e, se você voltar pode ser que ele renasça. Pode ser. Já fazem três anos e tudo que você deixou se transformou em descrença.
Eu olhei o telefone algumas vezes, encarei, sexta feira as onze da noite não deve ser um momento propício pra ligar pra alguém que não nos ama mais e destilar alguma coisa como mágoa ou veneno, e todos esses sentimentos meio amargos que nascem pra disfarçar o amor. Mas pensei. Te mandar um torpedo te dizer "olha, eu sempre te amei, eu sempre vou te amar", mas você não iria entender e ia sentir pena do meu amor, pena de mim, pena de tudo isso que você fez nascer e eu estou cansadíssima das suas penas. Estou cansada do mundo também. Você sabe que tenho me enfiado em bares, bebido muito, caído, fumado cigarros e experimentado novos corpos. Guardo no meu apartamento uma garrafa de whisky pela metade e enquanto me embriago penso em você e em tudo-que-poderíamos-ter-sido, depois busco um número qualquer na minha lista de contatos e discutimos cinema, e literatura e depois transamos sem nenhum amor e nos beijamos sem nenhuma paixão e talvez, eu disse talvez, exista ternura nessas coisas e nesses novos homens e nesses quase-amores mas é tudo tão diferente.
Já ensaiei dizer "te amo" pra novas pessoas, mas eu não sei falar de amor. As vezes até tento, daí engasgo, daí digo "eu-gosto-muito-de-você-e-nunca-quero-te-perder" como um desses cachorrinhos carentes que se enfiam no colo de qualquer um, mas eu sei que no exato momento que ele sair por aquela porta todo significado acabará como a cinza desses cigarros que eu fumo e se espalhará pela mesa da cozinha, pelo chão da sala e depois vai sumir. E eu vou ficar, vou continuar, vou beber whisky sem gelo e vodka com suco de laranja. Vou tentar inventar amor, vou frustrar expectativas de romance, vou responder eu-te-amo-também pensando em você e em você porque é só em você que eu penso quando olho dentro daqueles olhos sem brilho nos beijos sem gosto que tenho dado. Tanto faz quem sejam as novas pessoas agora. São só bocas e cabelos e olhos e elas podem me ter quando quiserem e me deixar quando bem entenderem, eu não sinto ciúmes, nem ternura, nem nada. É só um nada, um vazio, uma necessidade de preencher todo esse buraco que você deixou quando se foi, e eu invento momentos sublimes e interessantes, minha vida tem parecido um desses filmes alternativos de romance que a gente nunca gostou e quem olha de longe quase sente inveja da minha fe-li-ci-da-de.
Não sou feliz, baforo fumaça pra fora pra ver se toda essa cinza espalhada pela casa te exorciza. Se eu cremo o meu amor por você, se de repente um dia eu acordo e faço uma espécie de funeral pra todos os momentos que tivemos juntos nessa casa, nessa imensidão de cidade, e dentro de mim. Pra ver se tudo isso que me destrói aos poucos destrói junto tudo o que sobrou de você em mim. Eu me reinventei, me recriei, me refiz. Refiz uma vida toda pra esquecer e me livrar da vida que eu tinha, daquela que eu era, pra esquecer que eu era sua - e amava. Penso em te abraçar, te ligar, chorar, ajoelhar na porta da sua casa te dizer que depois-que-você-se-foi-a-vida-se-tornou-uma-aventura-errante e penso, todos os dias, em dizer que (ainda) te amo.
Mas tomo um gole de whisky, acendo um cigarro e mando uma mensagem dizendo que "estou com saudades porque lembrei de você nessa noite fria" para um número que não é o seu.
16.6.11
Na posta restante.
Eu só queria encontrar com ela, e se fosse pra dizer alguma coisa, eu diria baixinho: "cuida bem dele, cuida mesmo com toda a força que você pode. Cuida dele como se a sua vida dependesse de cuidar bem do coração desse menino. Pega na mão, não deixa ele cair. Se for fazer ele sofrer, esquece. Não deixa ele sofrer não, ele não pode sofrer. Continua fazendo o café com pouco açucar, e de vez em quando, conta umas piadas pra alegrar o coração. Se permite ser piegas, se permite dançar na sala, se permite um fim de semana inteiro vendo filme e fazendo macarrão. Cuida desse coração como se fosse um vidro frágil, põe numa caixinha se for preciso. Põe numa caixinha e protege dos males do mundo. Segura ele pela mão, mostra que caminho ele deve seguir, sabe. Ele é tão perdido e costuma se perder tão fácil da própria vida. E ele já se perdeu tanto que eu espero mesmo que você seja o caminho, já que o caminho não fui eu. Podia ter sido, podia ter sido pra mim que ele diria todas essas coisas. Essas coisas de amor & paz, de "baby, como você me faz feliz". Mas hoje é você que faz ele feliz, e tudo bem. Tudo bem porque nada mais me importa nessa vida a não ser o fato de que eu quero mesmo que ele seja feliz. E se for pra ser com você, que bom. Só cuida dele, cuida mesmo como você cuida daquilo que te é sagrado. E ama, ama esse menino até não caber mais dentro de si, até que você precise gritar que o amor é muito e imenso. Ah, você não sabe a sorte que tem de carregar do teu lado esse sorriso imenso. Esse sorriso que é dele, com essas coisas que são dele e de mais ninguém. Então cuida bem, que pode ser que você não saiba, mas o universo te presenteou com o único menino incrível do mundo. E ele merece.
18.4.11
Cócega e buraco negro.
Às vezes penso em criar histórias bonitas, imensas metáforas que expliquem qualquer coisa que não sinto, qualquer coisa dessas que não vivi, mas não. Chego a uma conclusão lógica: não tendo ninguém em minha vida só sei falar sobre mim. De mim em relação à mim mesma. Como foi desde o princípio, agora e sempre. Assim, meio profético, meio religião, meio cristão e meio culpado. Eu parafraseei por tempos a minha emoção, tentei me contar de variadas formas, inclusive inventando outros personagem. Quis, como qualquer outro ser humano quer, me entender, me observar de longe como se eu fosse na realidade outra. A outra que ama um outro que também não existe e vendo tudo isso de uma certa distância quem sabe entender o que se passou. Mas passou, hoje não quero mais. Também espero muito pouco me entender. Já sei de mim. Sei dos meus vícios, das minhas crises, da minha mania preguiçosa de postergar ações pra àquele amanhã que é muito mais metafórico do que real, aquele amanhã que tem gosto de nunca, de eternidade que não se cumprirá. Sei que sou assim enquanto a vida exige foco e sei que subjetivo tudo aquilo que as pessoas buscam matematizar.
Hoje subjetivo. Também já somei muito. Já fiz de amor contas matemáticas incríveis, onde a compatibilidade somada com a afinidade e a altura certa caminhariam para a perfeição assim, de imediato. Hoje sei que sentimento é muito mais uma indefinição do existir do que um querer consciente. Sentir é um jeito de tapar os buracos que a existência enfia na gente, de forma até meio cruel. Cheia de buracos então, a pessoa busca tapá-los com um outro ser, também cheio de buracos e tudo que se espera é que se tampem os vazios mutuamente e que formem então, os dois juntos, algum tipo de ser completo capaz de suportar o enorme buraco negro que vamos alimentando - e aumentando - a partir do momento em que nascemos. A grande verdade é que por mais que você formule o ser ideal, você nunca sabe quando e como serão realizados os preenchimentos de alma, e às vezes eles acontecem muito desavisados, descompassados e tão fora de hora que você nem se dá conta que só se sente algo perto de um ser pleno porque do seu lado (real ou metaforicamente) existe outro ser, também buraquento, mas que espera ser pleno e que é por causa dele que existe alguma plenitude na sua vida. A grande coisa é que isso acontece várias e repetidas vezes, os buracos são tapados de maneiras diferentes a cada vez e não existe um padrão, nem regras nem um manual de instruções de como agir com tudo. É muito normal nos seres humanos que eles tropecem, descuidem e estraguem as relações das quais participam. É também notável a incrível capacidade desses mesmos seres em forçar a plenitude, projetando a felicidade em alguém que não pode supri-la. Tentativas desenfreadas de tapar buracos por pessoas que não podem tampá-los, coisa que só faz alimentar o tal buraco negro da alma.
É que talvez a regra da alma seja ser esse imenso buraco negro. A regra é o vazio, o imenso, o infinito. A exceção é o preenchimento das vontades. A sensação de eternidade palpável, que não incomoda nem dói. Talvez seja isso o amor. Uma certa aceitação da estranheza que traz a eternidade. Um aquietamento. Um sorriso em meio a dor. A aceitação do estado de dor e vulnerabilidade como coisa palpável, e bonita. A plenitude em existir. Talvez seja isso. Talvez o amor seja na verdade o que eu pensei esses dias. O amor é fazer cosquinhas. O amor é como se alguém estivesse fazendo cosquinhas em você. As cócegas te fazem rir, mas ao mesmo tempo te deixam sem ar. Te dão uma sensação de que aquilo nunca vai acabar. É bom e ao mesmo tempo sufoca. Você gosta do que recebe mas ao mesmo tempo não quer mais. Você sorri em meio a uma sensação de aflição. A pessoa que faz as cócegas sente prazer com o seu riso ao mesmo tempo que sente prazer com a sua aflição. Ela possui a outra pessoa nas mãos. Sabe que é a responsável pelo riso e pela aflição. É só ela que pode parar o riso e a aflição. E a pessoa que recebe as cócegas quer que aquilo pare, mas ao mesmo tempo não quer. Pois gosta de rir, e gosta também da aflição. Gosta de ser possuida por outra pessoa. Gosta da vulnerabilidade, do riso e do sufoco. Durante a relação muda quem faz as cócegas e quem recebe. Às vezes é um, às vezes é outro. Mas a plenitude do amor acontece mesmo quando os dois sorriem, o fazedor de cócegas aquieta, beija a outra pessoa e os dois riem e se deitam abraçados.
Achei que isso definia, um dia enquanto andava na rua.
A grande verdade é que eu não sei de amor, nem de cócegas faz algum tempo. Não tanto, mas faz. Hoje encontro pequenos "tapa-buracos-existenciais" em cada canto. Um amigo, um affair, um possível-amor, um amor-impossível. A plenitude da vida tem se feito sozinha. Nos livros, nos filmes, nas novas pessoas aqui e ali. Nos momentos como esse. A minha alma continua um imenso buraco negro, e às vezes suga. Desacredito nos meus buracos tapados já faz um tempo. Às vezes me convenço que vou ser um vazio de alma pra sempre. Às vezes acho que terei os buracos tapados e uma aquietação em meio ao sentimento de eternidade. Eu, que não se lidar com sempres, ou com pra-sempres e que enjoo de tudo num mínimo espaço de tempo. É que só sei ser plena enquanto escrevo e escritores parecem se auto-boicotar para conseguir histórias bonitas, narrativas fantásticas e metáforas interessantes. Eu pareço inventar constantemente isso que chamam de sentimento, por vezes me ferindo só pra ver se ainda sei sangrar. E sei. Mas sangro groselha com água, ralinha ralinha e já não tenho talento pro melodrama. Sou esburacada porque gosto de ser assim e no fundo no fundo só quero alguém que alimente esse meu buraco negro com um pouco de poesia e três tantos de verdade. A vida é esse lençol em branco onde eu dei de inventar histórias. Sorrio enquanto sei que eu estou comigo e só. Um dia o amor acontece. Um dia a gente recebe as cócegas certas, deita na cama e aquieta. Daí o buraco negro se desmazela em poeira estrelar. Eu ainda alimento o meu buraco negro com mil frustrações, e sozinha. Nunca pareceu tão confortável, o caos. Não há nenhum equilíbrio como o caos.
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13.4.11
Heart shaped-box
"Quando o amor acaba todas as coisas as quais foram atribuídas significados viram coisas". Tinha lido essa frase em algum lugar, não sabe mais onde. Talvez em algum livro famoso, talvez numa dessas revistas de mulher - tem lido muitas dessas ultimamente, daquelas que ensinam truques de beleza e dicas para chegar ao orgasmo. Mas pensou na tal frase no momento em que olhou o guarda-roupas aberto e conseguiu lembrar, por um momento breve, a roupa que tinha escolhido pra usar no primeiro encontro com aquele que viria a ser o seu (grande?) amor. É engraçado como em cada época da vida de uma pessoa (do sexo feminino, em sua maioria) existe uma roupa que possui dentro de si a falsa capacidade de conquistar a pessoa amada. A daquela época era uma calça jeans skinny, muito apertada no corpo - mas que tinha ficado larga, emagrecera demais naqueles tempos difíceis -, uma blusa rosa por baixo de um casaco roxo, com botões de plástico, com cara de retro. Ainda tinha no guarda roupa todas aquelas peças. As lembranças já tinham se tornado um tanto rarefeitas. Mas olhando com atenção tinha uma bolsa, um doce, um livro. Algumas várias coisas que podiam fazer uma espécie de inventário daquele amor que um dia tinha sido, e não é mais.
Não sabia se de fato enxergava naqueles presentes apenas "coisas". Conseguia se lembrar do momento exato em que eles tinham sido dados. Tinha uma afeição especial por um sapo de pelúcia que tinha sido comprado de surpresa. Tinha afeições menores, mas não menos importantes, por todos os outros objetos. Os pegava na mão e conseguia lembrar que, naquele momento, tinha sido muito feliz. Às vezes a felicidade também vira coisa. Lembrança longe e que a gente tenta pegar com a mão, e não consegue. Milhares de sorrisos eternizados em um objeto que hoje é enfeite no quarto do lado de outros mil objetos diferentes. Os sorrisos embalsamados. Guardados dentro da bolsa, dentro da lata, embaixo dos cachecóis. Hoje, já não sorria tanto. Não com amores, pelo menos. Tinha uma certa felicidade em estar só. Não era comodismo, era outra coisa. A solidão é mais imensa que o amor, porque o amor se divide. A solidão é só sua. E é tão imensa que às vezes aprisiona. Ela se sentia aprisionada dentro da própria solidão. Os passos mudos, os pensamentos rápidos, as músicas. Tudo muito dela, solitário, íntimo, indivisível. Uma paz. A paz de não depender de ninguém. Não esperar ligações, mensagens, e-mails, congratulações. Não ter que esperar jantares, rosas, beijos inesperados as cinco da tarde. Não ter que preparar a comida preferida, desejar 'boa sorte', 'bom trabalho' nem dizer "te cuida, garoto, o mundo é mal". Fora do amor era menos ciumenta, menos posse, menos cuidado com o outro. Bem mais com ela. Pequenos objetos novos fazendo um inventário novo, o inventário da solidão. Roupas compradas em liquidações na rua, livros, filmes, tickets de passeios solitários no cinema, cartões das cafeterias onde ia dividir cappucinos com creme com ela mesma, e fazer um balanço geral do dia. A solidão não cabe dentro da gente.
Sentiu então uma certa inveja daquela pessoa que um dia mereceu presentes, surpresas, declarações, cartas. Um certo rancor de si mesma de ter transformado tanta coisa repleta de significado em pequenos bibelôs espelhados pela casa. Bibelôs empoeirados, esquecidos, etiquetados com datas mentais e que sempre diziam "você já pôde ser feliz". E tinha sido. Mas sempre procurou uma espécie de felicidade completa e nada, nada a preenchia. Nem o emprego (razoavelmente bem sucedido), nem os amigos (vários, sempre presentes), muito menos as novas conquistas (costumava ser apaixonante). Tinha uma preguiça imensa de dividir sua vida com outra pessoa, ensaiar novos ritos, dar significado à novas coisas. Ficava ali, então. Ela, sua solidão amiga, os livros, os discos, as falsas demonstrações de afeto que costumavam vir de tempos em tempos, conforme a necessidade de um novo amor que raramente saia do campo platônico. É que as pessoas costumam ser extremamente desinteressantes quando chegam à luz da realidade. Quase feias. Esse amor ideal não existe, amor acontece no dia-a-dia. Acontece nos passeios de mãos dadas no mercado, quando resolvem trocar o almoço por nuggets. Amor acontece nos domingos à tarde deitados na cama olhando o teto e conversando sobre a vida. Amor acontece quando a gente não está prestando muita atenção, não está fazendo nada de muito grandioso. Nenhuma declaração muito ensaiada, nenhum presente muito caro. Amor é um troço cotidiano, nem tão bonito assim, porque é meio frágil. É mais ou menos como um arco íris, ou uma borboleta. Um dia acaba, ou se tocar muito fundo pode desintegrar. A última coisa que lembra, sobre um desses amores aconteceu na cama do quarto, quando os dois deitados não esboçavam mais emoção, só cansaço. As pernas entrelaçadas, os rostos colados e um eterno cansaço. O cansaço do fim do amor. De quem andou demais, esfolou os pés e de repente não sente mais forças pra continuar.
Mas as despedidas são bonitas. Os ritos, sempre os ritos. Um último beijo, a misericórdia, um gosto doce. Nenhum desses presentes sabia que um dia torna-se-ia bibelô. Enfeite de mesinha de centro, de cabeceira, empoeirado pelo tempo e pesado de tanta lembrança. Pegou um deles na mão, lembrou do momento. Talvez os significados ainda estivessem ali. O sentimento não. Mesmo que ainda existisse, existiria transmutado. E, além do mais, depois de tanta solidão ancestral nem tinha como tirar a poeira que o tempo deixou nos presentes - e no coração. Sentiu uma espécie de gratidão. Ao mundo, ao amor, ao sentimento, à ele. Queria deixar eternizado em algum lugar que já tinha sido feliz. Colou uma etiqueta embaixo de uma boneca, escreveu a data que se lembrava "por volta de setembro" e completou "alguém me fez feliz com isso". Botou de volta no lugar, limpou a poeira e sorriu. Tinha criado uma espécie de mausoléu para a felicidade. Que hoje jazia enterrada a sete palmos e tomava cada vez mais distância do amor.
Não sabia se de fato enxergava naqueles presentes apenas "coisas". Conseguia se lembrar do momento exato em que eles tinham sido dados. Tinha uma afeição especial por um sapo de pelúcia que tinha sido comprado de surpresa. Tinha afeições menores, mas não menos importantes, por todos os outros objetos. Os pegava na mão e conseguia lembrar que, naquele momento, tinha sido muito feliz. Às vezes a felicidade também vira coisa. Lembrança longe e que a gente tenta pegar com a mão, e não consegue. Milhares de sorrisos eternizados em um objeto que hoje é enfeite no quarto do lado de outros mil objetos diferentes. Os sorrisos embalsamados. Guardados dentro da bolsa, dentro da lata, embaixo dos cachecóis. Hoje, já não sorria tanto. Não com amores, pelo menos. Tinha uma certa felicidade em estar só. Não era comodismo, era outra coisa. A solidão é mais imensa que o amor, porque o amor se divide. A solidão é só sua. E é tão imensa que às vezes aprisiona. Ela se sentia aprisionada dentro da própria solidão. Os passos mudos, os pensamentos rápidos, as músicas. Tudo muito dela, solitário, íntimo, indivisível. Uma paz. A paz de não depender de ninguém. Não esperar ligações, mensagens, e-mails, congratulações. Não ter que esperar jantares, rosas, beijos inesperados as cinco da tarde. Não ter que preparar a comida preferida, desejar 'boa sorte', 'bom trabalho' nem dizer "te cuida, garoto, o mundo é mal". Fora do amor era menos ciumenta, menos posse, menos cuidado com o outro. Bem mais com ela. Pequenos objetos novos fazendo um inventário novo, o inventário da solidão. Roupas compradas em liquidações na rua, livros, filmes, tickets de passeios solitários no cinema, cartões das cafeterias onde ia dividir cappucinos com creme com ela mesma, e fazer um balanço geral do dia. A solidão não cabe dentro da gente.
Sentiu então uma certa inveja daquela pessoa que um dia mereceu presentes, surpresas, declarações, cartas. Um certo rancor de si mesma de ter transformado tanta coisa repleta de significado em pequenos bibelôs espelhados pela casa. Bibelôs empoeirados, esquecidos, etiquetados com datas mentais e que sempre diziam "você já pôde ser feliz". E tinha sido. Mas sempre procurou uma espécie de felicidade completa e nada, nada a preenchia. Nem o emprego (razoavelmente bem sucedido), nem os amigos (vários, sempre presentes), muito menos as novas conquistas (costumava ser apaixonante). Tinha uma preguiça imensa de dividir sua vida com outra pessoa, ensaiar novos ritos, dar significado à novas coisas. Ficava ali, então. Ela, sua solidão amiga, os livros, os discos, as falsas demonstrações de afeto que costumavam vir de tempos em tempos, conforme a necessidade de um novo amor que raramente saia do campo platônico. É que as pessoas costumam ser extremamente desinteressantes quando chegam à luz da realidade. Quase feias. Esse amor ideal não existe, amor acontece no dia-a-dia. Acontece nos passeios de mãos dadas no mercado, quando resolvem trocar o almoço por nuggets. Amor acontece nos domingos à tarde deitados na cama olhando o teto e conversando sobre a vida. Amor acontece quando a gente não está prestando muita atenção, não está fazendo nada de muito grandioso. Nenhuma declaração muito ensaiada, nenhum presente muito caro. Amor é um troço cotidiano, nem tão bonito assim, porque é meio frágil. É mais ou menos como um arco íris, ou uma borboleta. Um dia acaba, ou se tocar muito fundo pode desintegrar. A última coisa que lembra, sobre um desses amores aconteceu na cama do quarto, quando os dois deitados não esboçavam mais emoção, só cansaço. As pernas entrelaçadas, os rostos colados e um eterno cansaço. O cansaço do fim do amor. De quem andou demais, esfolou os pés e de repente não sente mais forças pra continuar.
Mas as despedidas são bonitas. Os ritos, sempre os ritos. Um último beijo, a misericórdia, um gosto doce. Nenhum desses presentes sabia que um dia torna-se-ia bibelô. Enfeite de mesinha de centro, de cabeceira, empoeirado pelo tempo e pesado de tanta lembrança. Pegou um deles na mão, lembrou do momento. Talvez os significados ainda estivessem ali. O sentimento não. Mesmo que ainda existisse, existiria transmutado. E, além do mais, depois de tanta solidão ancestral nem tinha como tirar a poeira que o tempo deixou nos presentes - e no coração. Sentiu uma espécie de gratidão. Ao mundo, ao amor, ao sentimento, à ele. Queria deixar eternizado em algum lugar que já tinha sido feliz. Colou uma etiqueta embaixo de uma boneca, escreveu a data que se lembrava "por volta de setembro" e completou "alguém me fez feliz com isso". Botou de volta no lugar, limpou a poeira e sorriu. Tinha criado uma espécie de mausoléu para a felicidade. Que hoje jazia enterrada a sete palmos e tomava cada vez mais distância do amor.
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Clichê com C maíusculo,
Fim
31.3.11
31/03/2011
Achei um bom dia pra desapegar-me. De você. Das lembranças. De nós dois. Achei que por bem devia te deixar junto com os livros que empoeiram na estante. É dificil dizer que de repente eu quero que você não mais volte. Mas prefiro assim. Fica. Você parece ter toda uma vida que já não depende de mim. E eu construindo castelos que dependem das pedras que você ficou de trazer. Não adianta. Não adiantam mais os livros na estante e as memórias que já tem cara e gosto de velhas. Não me lembro nem mais direito como você é. Eu tenho as fotos que você me deixou, um porta-retrato ou outro na estante, um momento ou outro dentro do coração, mas não vai adiantar. Não é como se juntando tudo que eu tenho de você eu fosse te trazer de volta. Eu sei, eu sei. Você foi minha esperança e por muito tempo eu esperei que você fosse minha salvação. Esperei mesmo, sentada, resignada como uma princesa que espera que seu principe venha em um cavalo branco e traga consigo todo o amor que o mundo não permitiu lhe dar. Justo eu, que nunca tive vocação pra contos de fada, cuspia na cara das princesas e queria ser a madrasta da branca de neve, com maçã e tudo. Eu, esperando que o amor de alguém me desse a redenção. Foi bonito, eu sei. Eu choro lembrando de você, vez ou outra. Bob Dylan ainda sente saudades suas quando sussurra que os tempos estão mudando e o meu sofá é grande demais pra mim. Minha casa cheia de ausências, água demais na geladeira. Tudo isso são coisas que você deixou, o tempo coloca poeira em cima, mas às vezes eu limpo e relembro. Eu sinto a sua falta nos dias de chuva, nos dias de sol quando eu tenho preguiça de ir caminhar sozinha. Eu lembro de você no meio de lembranças que eu nem sabia que tinha mais. Mas tudo isso é lindo aqui, na literatura. A vida real é doída. Na vida real eu lacrimejo no meio dessas lembranças todas e não existe beleza nenhuma em deixar um amor encroado. A verdade é uma só: você não vai vir me buscar. Eu posso sapatear, posso colocar uma faixa enorme na frente da sua casa dizendo o quanto eu te amo (eu te amo?) que não vai te trazer de volta. Posso fazer mandinga, oração, simpatia ou te entregar um livro inteirinho cheio de histórias como essa que tudo vai ser igualzinho está. Pode ser que alguma coisa em você ainda balance quando você pensa em mim. Pode até ser que um dia você acorde arrependido e pense que a gente podia ter dado certo no meio daqueles setembros e abris conturbados e quase bonitos. Mas a verdade é que você ama outra. E eu não nasci pra ficar me flagelando. Eu estourei minha cota, meu poder, tudo eu perdi e foi por sua causa. Eu te amo muito, mas agora eu quero amar outra coisa. Eu sei, eu já te disse isso tantas vezes, quantas vezes eu disse? Mas hoje eu quero me desapegar de você de vez. Vai embora. Pode ir. De vez. Da minha casa, do meu coração, da minha vida. Vai amar, vai te descobrir, vai viajar, vai te enxergar nos olhos de outra, de outras, de mil que sejam as suas próximas. Que eu quero mil próximos, quero amar outras criaturas, quero chorar no banheiro, quero sorrir na sacada, quero rolar na cama nas quartas feiras depois da novela. Quero descobrir outros olhos, quero sofrer de doer na carne de novo por qualquer pessoa, qualquer errante, qualquer maltrapilho que esteja disposto a roubar meu coração e depois atirar longe. Porque eu, que nunca pude ser só sua, cansei de sofrer só por você. E eu, que aprendi a sofrer pelos outros com você, quero voltar a sofrer só por mim. Que na verdade, amor, é o que eu sei fazer. É só o que eu aprendi a fazer.
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15.2.11
It takes me back to the start.
Visto meu vestido novo e vou para a poltrona fazer-me de grande escritora. Pergunto-me se um dia, haverá um dia, em que eu passe o dia inteiro sem levar um pensamento que fosse à você. Você nunca nem morou aqui mas deixou comigo o peso de todas as lembranças do mundo. Lembro desse dia, daquele, daquele outro e não sei ficcionar mais nada. Às vezes te enxergo na ponta do colchão, na outra na ponta do sofá, mas tudo que eu consigo é ouvir a minha própria respiração. Constato: estou sozinha. E botar ar pra dentro - ou sendo mais específica- viver, tem sido uma tarefa dura. Claro que nem tanto e só por você, mas também por você. Essas conjunções "não só, mas também" eu uso o tempo-todo, desde que te conheci. É porque desde não consigo pensar outra vida que não só, mas também com você. Às vezes me pego fazendo enormes listas de tudo aquilo que não teria sido caso não tivesse te conhecido: os filmes que não teria visto, os lugares que não teria ido e até as palavras que não teria colocado no meu vocabulário. Hoje mesmo usei uma delas, não propositadamente, é que dou de me referir a mim como você costumava me chamar. Tem isso também, de eu ter virado não só, mas também, um de seus adjetivos. Mas me olho sem tudo aquilo que você me deu e não consigo me enxergar nada que não seja uma figura desforme. Explico: acho que me atrelei a você de maneiras que, se tentasse agora tentar descobrir o que é meu, o que é seu, e o que é nosso, acabaria por puxar milhares de pedaços errados e criar feridas. Você entende? Às vezes eu acho que não, mas sabe, grande coisa também. Eu cansei de te explicar as coisas. Cansei de olhar pra você de jeitos inexatos implorando que de, algum jeito, você enxergasse tudo que estava passando dentro da minha cabeça - e do coração. Eu sei tanto sobre você que chega a doer, e sei cada dia menos de mim. Mas onde levam esses desabafos? Você sabe, a gente trilha uma estrada, segura na mão um do outro e promete nunca mais se largar. Mas um dia larga, eventualmente. Você se esquece que um dia nomeou estrelas com meu nome, e eu finjo que não sei mais o nome da sua música preferida. E talvez não saiba mesmo. Talvez não exista mais nada de você além de uma camisa listrada e o mesmo perfume. Eu só vivo a te buscar porque preciso. Não assim, presente. Mas lembranças de que um dia fui capaz de amar alguém. Outra coisa que não meu próprio ego. Às vezes eu me arrependo de ter tido sempre esse orgulho tremendo, de nunca ter segurado seus joelhos e te pedido pra não ir, tal qual as músicas do chico buarque, mas sabe? Tem dias que eu olho pra tudo e lembro que um dia a gente sonhou em ser astronauta só porque você disse que na lua ia ser mais fácil de dançar sem me pisar nos pés. Mas você me pisou no coração. Nem tocava a nossa música preferida, e você dançou no único dia que eu não te tirei pra dançar. Meu coração, perdido saiu rolando e você pisou desavisado. A grande verdade é que: eu também não esperaria por mim tanto tempo. Eu também devo ter pisado e destroçado seu coração desavisada algumas várias vezes. E você continuou andando. Você continua, a passos tortos, até hoje. Talvez tenha estrelas com o nome dela no teu céu. E talvez vocês já estejam dançando na lua, e você já tenha aprendido a não pisar nos pés das mocinhas enquanto dança. Eu imagino que você esteja aprendendo a andar, e a viver. Eu só estou sozinha. Mas você me disse um dia dessa minha capacidade de estar sozinha, de não gostar de nomear estrelas e de reclamar da mão suando quando me apertavam muito forte. A solidão é confortável, eu te dizia. Depois saia correndo com os braços abertos te deixando pra trás. Eu ainda gosto da sensação de ouvir meus próprios passos e escolher meus rumos. Você vivia caindo, e eu tinha que arrumar um jeito de te ensinar a andar. Um jeito de não te fazer tropeçar mais, um jeito de você deixar de pisar no meu pé. Meu mundo dividido em pedaços de mundo que eram seus. Tomando meu espaço. E a solidão é esse bicho que te toma. Te cativa. Se pertencer é bom, se bastar é melhor ainda. Daí você me tirou dela. Me ensinou a ser sua. Meus pés doeram no começo e depois aprenderam a andar de novo. Hoje meu mundo é tão imenso que eu me perco. O mundo parece enorme quando você não tem com quem dividir. Infinito. Eterno. Dói e confunde. E eu me sinto pequena na imensidão. A grande verdade é que eu fico esperando que você volte a ocupar o seu lugar no sofá pra ver se o meu mundo volta a ter um tamanho confortável. Nem grande demais, nem pequeno demais. Com um céu nem azul demais, nem cinza demais onde quando anoitecer, apareça uma estrela com o meu nome.
23.1.11
Estala, coração de vidro quebrado.
Quando você me conheceu, ow baby, tão perdida no meio da cidade cinza, eu não achei que você seria um caminho. Tanta gente vestindo suas camisetas coloridas sem estampas, tanta gente assim moreno-claro, arisco, com medo do mundo. Tanta gente com essa mesma tristeza no cantinho dos olhos, os tênis gastos pela vida, pelo tempo, pela cidade febril. Tanta gente no mundo, andando, indo, voltando. Sempre com pressa. Tanta gente interessante a gente deve passar pela rua todo dia, ensaiar um olhar, desistir de um contato três segundos depois. Quanta gente eu já deixei passar nessa vida, podia ter deixado passar você também. Tão integrado. Calça jeans, camiseta branca, tênis preto, mochila nas costas, cara de quem está atrasado para um trabalho que não gosta, ouvindo música que antes te deixava em catarse e hoje parece música ambiente. O automático temível, baby. O automático temível podia ter-nos sabotado o encontro. Meu olhar perdido, sempre, desavisado. Os passos tontos e tortos, sempre batendo os dedos nas esquinas (da rua e da vida). Podia não ter te visto, ou ter te visto e te esquecido. Não ter notado o botton do meu cantor preferido atrás da sua mochila velha e não ter cantarolado aquele verso com gosto de esperança, encontro e acaso que fez você sorrir. Hoje eu queria, baby. Queria ter deixado o desespero pra lá, essa minha vontade maluca de procurar identificação em tudo. Nos livros, nas placas de trânsito, nos carros parados na rua, nas atrizes decadentes de novela das seis. Queria não ter tido a esperança de me identificar em você assim, tão espelho-inverso. Mas eu, bicho desesperado a procura de amor (sempre ele, o amor), não pude evitar o encantamento, não pude evitar a palavra ensaiada, não pude evitar o sorriso de lado e quando vi já tinha te cantarolado os versos. Tão batidos os versos. Tão meu, o sentimento de despertencimento do mundo que é ao mesmo tempo universal. E tudo tão certo, o tempo exato. A mulher deixou o lugar vago, você me olhou e disse "senta, pode sentar" e eu retruquei ensaiadamente com um "obrigada, to mesmo cansada e pensar que 'once-upon-a-time-you-felt-so-fine', é doído" e foi ali que todo o descompasso começou. Você me sorriu, natural, solto, alegre. Me perguntou "Bob Dylan né?" e eu respondi "sim, Bob Dylan é deus, a humanidade só encena as histórias que ele criou." E tudo deu margem ao bonito e longo diálogo. Você sentou do meu lado, pediu um cigarro. Eu te disse:
- Não se pode fumar dentro dos veículos automotores mais. Nunca se pôde. Nem dentro dos bares, das casas de show. O mundo tá free tabaco.
- Era pra mais tarde. Gosto de, você sabe, andar ouvindo música e derramando fumaça pra fora. Você fuma?
- Não, tomo café. Eu gosto de, você sabe, tomar café ouvindo música e enfiando cafeína pra dentro.
- Vícios.
- Vícios, concordei.
O ônibus deu quatro ou cinco chacoalhadas, ficou um silêncio enorme que pairava. Eu olhando as minhas unhas, os esmaltes descascados, uma mistura entre um vermelho barato e um azul clarinho que não tinha saído direito da ultima esmaltação de unhas. "ando num descaso enorme da vida", pensei. Os esmaltes craquelados, a vida quebrando. As unhas se roendo. Tudo errado, meu deus. Tudo errado. Me perdi olhando o caminho. As àrvores e tal, as nuvens e tal. O cinza, sempre o cinza de são paulo as seis da tarde e quando alguma coisa na minha cabeça ultrapassava a poluição e chegava no azul, você me perguntou.
- Você desce aonde?
- Há mil léguas daqui, naquela padaria bonitinha de parede laranja, sabe? E você?
- Três mil léguas daqui, e três pontos depois.
- Não é muito perto.
- Não é muito longe.
- Tudo depende do referencial adotado.
- Você parece, assim, pessimista.
- Eu sou assim, tristonha.
- Você parece bem conservada pra uma alma velha e cansada.
- A maquiagem nasceu pra disfarçar os rostos vermelhos e inchados de lágrima e hematoma, rapaz.
- A música também. Pra disfarçar as almas vermelhas e inchadas de lágrima e hematoma.
- A arte, talvez.
- A arte sim, pra disfarçar a vida inchada de lágrima e hematoma.
Te achei bonito, poético, triste. Bonito e sincero demais pra usar aquela camiseta branca com calça jeans e tênis. Perfeito demais pra ser deixado pra trás como um doce daqueles que a gente vê e acha bonito, quer levar, mas parecem extremamente caros. Eu vejo muitos desses na padaria bonitinha laranjinha do ponto em que desço. Lindas tortas de chocolate, bombons de morango. Lindos, poéticos, doces. Mas caros demais para serem levados pra casa em troca de um pouco de prazer. Devia ter te achado caro demais. Devia sim, mas continuei. Porque sou bicho passional, sangüíneo, e dobro frente a qualquer animal oposto que pareça ser caça. Caça suculenta e saciadora do apetite voraz. O apetite voraz da alma, o amor. E retruquei.
- É um bom jeito de pensar, você faz arte?
- Não, ciência da computação.
- Muito número?
- Muita impessoalidade. Pouquíssimo hematoma doído. Distância da vida, a tela fria dos computadores. E você, faz arte?
- Agência de publicidade.
- Mercadológico?
- Pseudo arte vendida barata demais pra ser catartica, entende?
- Mas passa na televisão.
- Tentativa frustrada de vender felicidade vendendo buraco que não encaixa o tempo todo, sabe? Quebra-cabeça faltando peça, é isso que a propaganda vende.
- E continua nisso por quê?
- Arte abre um buraco tão enorme na alma da gente que inflama. A publicidade é meu contato com a realidade. Cruel, mas realidade.
- É comò se voce vendesse caixinhas de sonhos que nunca vão virar sonhos de verdade?
- É como se eu vendesse caixinhas vazias com rótulos a preencher. As pessoas vêem um carro e fazem dele uma caixinha escrito "felicidade", "sucesso", "amor". A caixa é vazia na verdade, mas elas colocam essas etiquetinhas e acreditam nisso até abrirem a caixa e verem que lá dentro não tem nada.
- Você tem um jeito estranho de falar sobre as coisas. Metáfora, poesia. Escreve?
- O tempo todo, mesmo quando não estou escrevendo.
- Redatora?
- Escrevo os textos bonitos das propagandas de banco e não acredito em felicidade.
- Cruel, perigosa. Batom vermelho, cabelo liso. Não quero me meter com você.
- Mas vai. Já está metido e não sabe.
Você me sorriu. Com gosto. Todos os dentes. E na minha experiência de caça eu sabia: a presa estava volúvel. Dois passos, o ataque cruel, o bote certeiro, a morte. A morte do orgulho e da resistência para que se chegue a carne. A carne vermelha, que pulsa, que vibra. Coração. Paixão. Amor vem depois, ou não vem nunca mais. Você me olhou, sorriu, respondeu.
- Vai ver estou.
- Desculpa, às vezes eu solto essas respostas prontas e tudo mais, oferecidíssima, estranho. Te assustei?
- Desde o primeiro momento. Ou você não sabe que você é daquelas que assustam mesmo quando caladas?
- Não tenho essa exata noção não - menti. De sorriso solto, menti verdadeiramente.
- Olha, voce desce no próximo né?
- Desço. Encaro a padaria, não compro os doces que quero, volto pra casa, trabalho e me identifico com um personagem de novela aqui e ali.
- As perigosas.
- As mais inofensivas.
- As que parecem mais inofensivas.
O ônibus deu mais duas chacoalhadas, eu já gostava de você, do seu papo, do seu jeito estranho. Gostava mais ainda da sua vulnerabilidade frente à situação. Me respondia galante, flertava de volta, tinha medo daquilo e admitia. Teu olho não tremia, encarava dentro enquanto você fingia uma timidez com seus pés inquietos. Um menino bonito na palma da minha mão, Uma menina frágil em fantasia de forte na palma da sua e você sem saber o que fazer. É por não saberem como me pegar na mão que resolvo pegar primeiro. Qualquer movimento mais brusco pode - e vai - quebrar meu coração feito de cristal fino de taça de chapangne francesa. Coração fraco de casquinha de ovo é o que eu tenho. Não encosta não, que quebra, moço. Deixa que eu encosto no seu, pego devagarinho, guardo numa caixinha e depois jogo fora. Jogo fora antes que sua mão saia de dentro do seu peito rumo a tocar o meu coração de casquinha de ovo com as pontinhas dos dedos que seja. Sou fraca, sensível, toda doída e quebro. Só encosto. Não deixo encostarem em mim, e nunca-em-hipótese-alguma tocarem por dentro.
- Eu desço aqui, eu acho que isso significa adeus, certo?
- Eu desço com você, continuo à pé depois. Não é muito perto, mas.
- Não é muito longe.
- Talvez voce devessse comprar um desses doces bonitos na padaria, mudança de rotina, sabe?
- Talvez eu devesse me ater aquilo que eu conheço.
- Eu te pago um.
- Acho que é prudente aceitar a gentileza, mas você escolhe.
- Bomba de chocolate. Chocolate amargo por cima, doce por dentro. Lindíssima.
- Faz parte do seu repertório galantear as moçoilas supondo personalidades através de doces?
- Não fazia, até agora. Acertei?
- Isso é o tipo de coisa que se descobre, não se fala. Senão vem o desencanto.
- Você costuma ser ensaiada demais, menina.
Você me deu o doce, que eu fui comendo na rua, tal criança lombriguenta, me melando com creme no nariz que você limpava a cada instante, como pai que cuida de filha espoleta. Mas esquece o édipo, freud, era só, sabe, encantamento. Tal coisa bonita que encanta e você de tão querendo que seja, toca como se fosse sua. Te lambuzei de creme uma vez, na ponta no nariz. Típica e previsível como devia de ser, e chegamos na porta do meu prédio, onde eu não tinha idéia que começaria uma história bonita, de príncipes e princesas, de guerras e cruzadas, de amor e desencanto, na porta que tinha gosto apenas de desalento. Te faço a pergunta crucial, charmosa e espero pela resposta afirmativa como quem espera o nome sendo chamado na lista do vestibular. Conquista. Armadilha da caça. A rede posta. Só te falta cair
- Você quer subir, conversar, tomar um café?
- Não sei se devo.
- Eu não sei se devo ter te convidado também, mas convidei.
- Você só faz o que você quer, menina.
- Sou atiradinha?
- Não, é autêntica. De um jeito, ai, de um jeito terrível.
- Então sobe?
- Subo sim.
Subimos nos olhando fixo no cubículo do elevador. Entrei na minha casa, os sofás cor de vinho, as paredes bege. Tudo tão sem graça, tudo sem ter a minha cara. Te ofereci uma cerveja, você disse que preferia refrigerante. Eu te perguntei se era medo e você só me disse que a embriaguez toda vinha de mim. Te dei o copo, sentei do teu lado. Você me contou coisas sobre a sua vida, seus números, sua falta de perspectiva. Eu te mostrei histórias e rabiscos dos sonhos que inventei para que comprassem. Você me olhava fundo, encantado, e eu tinha medo dos seus olhos sinceros. Eu te contava tanta coisa, tanta coisa, tanta coisa. Tanta conversa, tanto despejo de história de energia que quando eu dei por mim estávamos feito bichos no chão da sala, em habitat natural e eu chorava encostada no teu peito, tomando refrigerante no gargalo, te abrindo todas as portas do meu coração. Te dizendo "ow, baby, se você soubesse o quanto a vida me dói" e você dizia que a sua vida doía também, tanto, que às vezes não dava conta de dar o último respiro e acendia um cigarrro. Depois pensava baixinho "a falta de fôlego vem do pulmão, e não da alma" e baforava fumaça pra fora se livrando de toda a impureza do mundo, da vida, do caos. Você empestiava a minha sala de fumaça, eu molhava sua camiseta branca de lágrimas e soluços e você me olhou baixinho e disse:
- Você é tão linda, menina. E tão menina, menina.
E meu coração de casca de ovo estava prestes a abrir uma rachadura, e foi quando eu te agarrei por impulso e te beijei no ato, no chão da minha sala, com as lágrimas caindo, com gosto de sal. E tinha tanta vida naquele beijo, tanta carga de emoção que eu não ligava pro meu coração de tacinha de cristal prestes a quebrar, e alguma coisa dentro de mim esqueceu que você tinha aparecido na minha vida naquele dia, tanto fazem as datas, você já sabia mais de mim naquelas sete horas do que todas as pessoas que conviviam comigo há sete anos, então eu era mais sua do que de qualquer outra pessoa no mundo. E nos beijamos mais inúmeras vezes, e no meio dos beijos soltávamos mais segredos e no intervalos disso tudo você me olhava lá no fundo dos olhos como se estivesse enxergando por dentro, e não houve nada mais do que beijos, só os beijos e os segredos, tantos segredos perdidos naquela sala de quitinete no meio do centro. É que não precisava de encontro de corpo, corpo-dentro-de-corpo, porque tinha um encontro de alma tão mais profundo que dormimos entrelaçados como bichos, você de calça jeans e camiseta branca, eu com meu vestido listrado. Sem sexo. Mas com um toque profundo de alma que transcende o encontro do corpo.
Você acordou, me preparou um café. Me beijou na testa, me deu uma flor roubada do hall do prédio. Me abraçou por trás, me beijou o rosto, e sussurou no meu ouvido baixinho "você é uma bomba recheada de mel, de tão-tão doce por dentro". Ali eu senti você tocar meu coração de casquinha de ovo com a ponta dos dedos. Foi quando você sentou na minha frente, sério e disse:
- Olha menina, lá fora dessas paredes beges tem uma vida, e sabe, a vida é louca e no meio dessa loucura toda eu te encontrei, e você é assim, doce e eu fiquei assim, volúvel, bichinho frágil na tua mão, menina. Tudo tão lindo, tão filme, e eu queria tanto não ter que te dizer "it-ain't-me-baby-it-ain't-me-you're-looking-for" que eu resolvi esquecer de tudo, mas lá embaixo, três pontos depois tem uma outra mulher esperando por mim. Nem tão doce, nem tão incrível, que não costuma aceitar rosas roubadas, que nunca choraria molhando a minha camiseta branca. Que nunca me confessou segredos desses seus, que eu nem sei se a vida dela dói. Mas ela existe. E talvez esteja me esperando pro café. E na mão direita dela, tem uma aliança marcada pra passar pra mão esquerda daqui há exatos dois meses. E eu podia te prometer, e eu devia te prometer que eu vou ficar aqui com você pra sempre. Mas eu sou fraco, menina. Sou fraco. Eu não quero te machucar, eu só espero que você não sofra tanto quanto eu caso eu resolva não voltar nunca-mais.
E foi chorando molhando a sua camiseta branca que eu retruquei.
- Eu soube desde o ínicio que procurar felicidade não era o seu forte.
- Soube?
- Soube. Teus números, tua falta de hematomas, tua praticidade. Tua poesia perdida, sua tristeza. Você me doeu tanto no meio dessa sua infelicidade que eu quase me achei feliz. Porque eu ao menos estou procurando, sabe? mesmo que não exista eu ralo o joelho todo dia a procura de ser feliz. Tem estoques de corretivos e batons vermelhos naquele armário ali pra maquiar a minha cara de dor a cada vez que uma topada como você aparece na minha vida. Tem salto alto, tem vestido curto, tem frase ensaiada. Mas no fundo, no fundo eu só espero que alguém toque meu coração frágil com a ponta dos dedos, e foi a ponta dos seus dedos que eu senti chegar. Depois de tanto tempo, tanta luta, tanto hematoma. Não tem maquiagem pra você, nem corretivo não. Você que salte na minha dor, porque você precisa mergulhar. Você que viva, saindo daquela porta deixando um coração de cristal de taça barata quebrado pra nunca mais voltar. Você que volte pra sua aliança, pra sua praticidade, pro seu compromisso mas volte sabendo que felicidade, meu amor, felicidade a gente não encontra sempre não. A gente vive maquiado o tempo todo, mas de cara limpa tem um ou dois caras que saem todo dia. Felizes mesmo. Felizes como eu e você quando dormimos no chão dessa sala bege, se ferrando pra vida lá fora. Agora se você prefere não enxergar, eu não ligo. Vai doer, mas eu vou sarar, vou curar o hematoma da cara, da alma e do coração. Mas fica sabendo que uma vez que a gente quebra uma taça com vinho dentro, e por vinho entenda, amor, porque isso que você sentiu aqui hoje é a-mor, pode até se salvar um pedaço da taça. Mas esse vinho que derramou, esse vinho com caco de vidro não dá pra beber nunca mais.
Foi quando você começou a molhar meu vestido listado. E eu vi nos seus olhos vermelhos o menino frágil com quem eu tinha me metido. E eu te disse "vai, vai que meu coração de vidro quebrado ainda tem jeito" e você me sorriu dizendo "mas o meu só bate embaixo de paredes beges". E saiu pela minha porta, depois do beijo mais cheio de amor já estudado pela humanidade, me dizendo "menina, você é doce, menina, você é amor, eu volto pra você. Eu juro que volto". E eu acreditando em você, mas morrendo de medo da vida fora das paredes beges, do tapete empoeirado, do sofá vinho. Morrendo de medo da sua vida longe do meu vestido listrado. Porque a vida lá fora, meu amor, é pra gente grande e você era tão menino na minha mão que sabe-se lá se você tem dessas forças que precisam os homens. Te mandei um beijo da janela, te gritei alto "vai, mas volta pra mim, volta" e senti pela primeira vez meu coração de vidro quebrado partir de tal maneira que soube que só a ponta desses teus dedos leves que o tocou seria capaz de consertar.
- Não se pode fumar dentro dos veículos automotores mais. Nunca se pôde. Nem dentro dos bares, das casas de show. O mundo tá free tabaco.
- Era pra mais tarde. Gosto de, você sabe, andar ouvindo música e derramando fumaça pra fora. Você fuma?
- Não, tomo café. Eu gosto de, você sabe, tomar café ouvindo música e enfiando cafeína pra dentro.
- Vícios.
- Vícios, concordei.
O ônibus deu quatro ou cinco chacoalhadas, ficou um silêncio enorme que pairava. Eu olhando as minhas unhas, os esmaltes descascados, uma mistura entre um vermelho barato e um azul clarinho que não tinha saído direito da ultima esmaltação de unhas. "ando num descaso enorme da vida", pensei. Os esmaltes craquelados, a vida quebrando. As unhas se roendo. Tudo errado, meu deus. Tudo errado. Me perdi olhando o caminho. As àrvores e tal, as nuvens e tal. O cinza, sempre o cinza de são paulo as seis da tarde e quando alguma coisa na minha cabeça ultrapassava a poluição e chegava no azul, você me perguntou.
- Você desce aonde?
- Há mil léguas daqui, naquela padaria bonitinha de parede laranja, sabe? E você?
- Três mil léguas daqui, e três pontos depois.
- Não é muito perto.
- Não é muito longe.
- Tudo depende do referencial adotado.
- Você parece, assim, pessimista.
- Eu sou assim, tristonha.
- Você parece bem conservada pra uma alma velha e cansada.
- A maquiagem nasceu pra disfarçar os rostos vermelhos e inchados de lágrima e hematoma, rapaz.
- A música também. Pra disfarçar as almas vermelhas e inchadas de lágrima e hematoma.
- A arte, talvez.
- A arte sim, pra disfarçar a vida inchada de lágrima e hematoma.
Te achei bonito, poético, triste. Bonito e sincero demais pra usar aquela camiseta branca com calça jeans e tênis. Perfeito demais pra ser deixado pra trás como um doce daqueles que a gente vê e acha bonito, quer levar, mas parecem extremamente caros. Eu vejo muitos desses na padaria bonitinha laranjinha do ponto em que desço. Lindas tortas de chocolate, bombons de morango. Lindos, poéticos, doces. Mas caros demais para serem levados pra casa em troca de um pouco de prazer. Devia ter te achado caro demais. Devia sim, mas continuei. Porque sou bicho passional, sangüíneo, e dobro frente a qualquer animal oposto que pareça ser caça. Caça suculenta e saciadora do apetite voraz. O apetite voraz da alma, o amor. E retruquei.
- É um bom jeito de pensar, você faz arte?
- Não, ciência da computação.
- Muito número?
- Muita impessoalidade. Pouquíssimo hematoma doído. Distância da vida, a tela fria dos computadores. E você, faz arte?
- Agência de publicidade.
- Mercadológico?
- Pseudo arte vendida barata demais pra ser catartica, entende?
- Mas passa na televisão.
- Tentativa frustrada de vender felicidade vendendo buraco que não encaixa o tempo todo, sabe? Quebra-cabeça faltando peça, é isso que a propaganda vende.
- E continua nisso por quê?
- Arte abre um buraco tão enorme na alma da gente que inflama. A publicidade é meu contato com a realidade. Cruel, mas realidade.
- É comò se voce vendesse caixinhas de sonhos que nunca vão virar sonhos de verdade?
- É como se eu vendesse caixinhas vazias com rótulos a preencher. As pessoas vêem um carro e fazem dele uma caixinha escrito "felicidade", "sucesso", "amor". A caixa é vazia na verdade, mas elas colocam essas etiquetinhas e acreditam nisso até abrirem a caixa e verem que lá dentro não tem nada.
- Você tem um jeito estranho de falar sobre as coisas. Metáfora, poesia. Escreve?
- O tempo todo, mesmo quando não estou escrevendo.
- Redatora?
- Escrevo os textos bonitos das propagandas de banco e não acredito em felicidade.
- Cruel, perigosa. Batom vermelho, cabelo liso. Não quero me meter com você.
- Mas vai. Já está metido e não sabe.
Você me sorriu. Com gosto. Todos os dentes. E na minha experiência de caça eu sabia: a presa estava volúvel. Dois passos, o ataque cruel, o bote certeiro, a morte. A morte do orgulho e da resistência para que se chegue a carne. A carne vermelha, que pulsa, que vibra. Coração. Paixão. Amor vem depois, ou não vem nunca mais. Você me olhou, sorriu, respondeu.
- Vai ver estou.
- Desculpa, às vezes eu solto essas respostas prontas e tudo mais, oferecidíssima, estranho. Te assustei?
- Desde o primeiro momento. Ou você não sabe que você é daquelas que assustam mesmo quando caladas?
- Não tenho essa exata noção não - menti. De sorriso solto, menti verdadeiramente.
- Olha, voce desce no próximo né?
- Desço. Encaro a padaria, não compro os doces que quero, volto pra casa, trabalho e me identifico com um personagem de novela aqui e ali.
- As perigosas.
- As mais inofensivas.
- As que parecem mais inofensivas.
O ônibus deu mais duas chacoalhadas, eu já gostava de você, do seu papo, do seu jeito estranho. Gostava mais ainda da sua vulnerabilidade frente à situação. Me respondia galante, flertava de volta, tinha medo daquilo e admitia. Teu olho não tremia, encarava dentro enquanto você fingia uma timidez com seus pés inquietos. Um menino bonito na palma da minha mão, Uma menina frágil em fantasia de forte na palma da sua e você sem saber o que fazer. É por não saberem como me pegar na mão que resolvo pegar primeiro. Qualquer movimento mais brusco pode - e vai - quebrar meu coração feito de cristal fino de taça de chapangne francesa. Coração fraco de casquinha de ovo é o que eu tenho. Não encosta não, que quebra, moço. Deixa que eu encosto no seu, pego devagarinho, guardo numa caixinha e depois jogo fora. Jogo fora antes que sua mão saia de dentro do seu peito rumo a tocar o meu coração de casquinha de ovo com as pontinhas dos dedos que seja. Sou fraca, sensível, toda doída e quebro. Só encosto. Não deixo encostarem em mim, e nunca-em-hipótese-alguma tocarem por dentro.
- Eu desço aqui, eu acho que isso significa adeus, certo?
- Eu desço com você, continuo à pé depois. Não é muito perto, mas.
- Não é muito longe.
- Talvez voce devessse comprar um desses doces bonitos na padaria, mudança de rotina, sabe?
- Talvez eu devesse me ater aquilo que eu conheço.
- Eu te pago um.
- Acho que é prudente aceitar a gentileza, mas você escolhe.
- Bomba de chocolate. Chocolate amargo por cima, doce por dentro. Lindíssima.
- Faz parte do seu repertório galantear as moçoilas supondo personalidades através de doces?
- Não fazia, até agora. Acertei?
- Isso é o tipo de coisa que se descobre, não se fala. Senão vem o desencanto.
- Você costuma ser ensaiada demais, menina.
Você me deu o doce, que eu fui comendo na rua, tal criança lombriguenta, me melando com creme no nariz que você limpava a cada instante, como pai que cuida de filha espoleta. Mas esquece o édipo, freud, era só, sabe, encantamento. Tal coisa bonita que encanta e você de tão querendo que seja, toca como se fosse sua. Te lambuzei de creme uma vez, na ponta no nariz. Típica e previsível como devia de ser, e chegamos na porta do meu prédio, onde eu não tinha idéia que começaria uma história bonita, de príncipes e princesas, de guerras e cruzadas, de amor e desencanto, na porta que tinha gosto apenas de desalento. Te faço a pergunta crucial, charmosa e espero pela resposta afirmativa como quem espera o nome sendo chamado na lista do vestibular. Conquista. Armadilha da caça. A rede posta. Só te falta cair
- Você quer subir, conversar, tomar um café?
- Não sei se devo.
- Eu não sei se devo ter te convidado também, mas convidei.
- Você só faz o que você quer, menina.
- Sou atiradinha?
- Não, é autêntica. De um jeito, ai, de um jeito terrível.
- Então sobe?
- Subo sim.
Subimos nos olhando fixo no cubículo do elevador. Entrei na minha casa, os sofás cor de vinho, as paredes bege. Tudo tão sem graça, tudo sem ter a minha cara. Te ofereci uma cerveja, você disse que preferia refrigerante. Eu te perguntei se era medo e você só me disse que a embriaguez toda vinha de mim. Te dei o copo, sentei do teu lado. Você me contou coisas sobre a sua vida, seus números, sua falta de perspectiva. Eu te mostrei histórias e rabiscos dos sonhos que inventei para que comprassem. Você me olhava fundo, encantado, e eu tinha medo dos seus olhos sinceros. Eu te contava tanta coisa, tanta coisa, tanta coisa. Tanta conversa, tanto despejo de história de energia que quando eu dei por mim estávamos feito bichos no chão da sala, em habitat natural e eu chorava encostada no teu peito, tomando refrigerante no gargalo, te abrindo todas as portas do meu coração. Te dizendo "ow, baby, se você soubesse o quanto a vida me dói" e você dizia que a sua vida doía também, tanto, que às vezes não dava conta de dar o último respiro e acendia um cigarrro. Depois pensava baixinho "a falta de fôlego vem do pulmão, e não da alma" e baforava fumaça pra fora se livrando de toda a impureza do mundo, da vida, do caos. Você empestiava a minha sala de fumaça, eu molhava sua camiseta branca de lágrimas e soluços e você me olhou baixinho e disse:
- Você é tão linda, menina. E tão menina, menina.
E meu coração de casca de ovo estava prestes a abrir uma rachadura, e foi quando eu te agarrei por impulso e te beijei no ato, no chão da minha sala, com as lágrimas caindo, com gosto de sal. E tinha tanta vida naquele beijo, tanta carga de emoção que eu não ligava pro meu coração de tacinha de cristal prestes a quebrar, e alguma coisa dentro de mim esqueceu que você tinha aparecido na minha vida naquele dia, tanto fazem as datas, você já sabia mais de mim naquelas sete horas do que todas as pessoas que conviviam comigo há sete anos, então eu era mais sua do que de qualquer outra pessoa no mundo. E nos beijamos mais inúmeras vezes, e no meio dos beijos soltávamos mais segredos e no intervalos disso tudo você me olhava lá no fundo dos olhos como se estivesse enxergando por dentro, e não houve nada mais do que beijos, só os beijos e os segredos, tantos segredos perdidos naquela sala de quitinete no meio do centro. É que não precisava de encontro de corpo, corpo-dentro-de-corpo, porque tinha um encontro de alma tão mais profundo que dormimos entrelaçados como bichos, você de calça jeans e camiseta branca, eu com meu vestido listrado. Sem sexo. Mas com um toque profundo de alma que transcende o encontro do corpo.
Você acordou, me preparou um café. Me beijou na testa, me deu uma flor roubada do hall do prédio. Me abraçou por trás, me beijou o rosto, e sussurou no meu ouvido baixinho "você é uma bomba recheada de mel, de tão-tão doce por dentro". Ali eu senti você tocar meu coração de casquinha de ovo com a ponta dos dedos. Foi quando você sentou na minha frente, sério e disse:
- Olha menina, lá fora dessas paredes beges tem uma vida, e sabe, a vida é louca e no meio dessa loucura toda eu te encontrei, e você é assim, doce e eu fiquei assim, volúvel, bichinho frágil na tua mão, menina. Tudo tão lindo, tão filme, e eu queria tanto não ter que te dizer "it-ain't-me-baby-it-ain't-me-you're-looking-for" que eu resolvi esquecer de tudo, mas lá embaixo, três pontos depois tem uma outra mulher esperando por mim. Nem tão doce, nem tão incrível, que não costuma aceitar rosas roubadas, que nunca choraria molhando a minha camiseta branca. Que nunca me confessou segredos desses seus, que eu nem sei se a vida dela dói. Mas ela existe. E talvez esteja me esperando pro café. E na mão direita dela, tem uma aliança marcada pra passar pra mão esquerda daqui há exatos dois meses. E eu podia te prometer, e eu devia te prometer que eu vou ficar aqui com você pra sempre. Mas eu sou fraco, menina. Sou fraco. Eu não quero te machucar, eu só espero que você não sofra tanto quanto eu caso eu resolva não voltar nunca-mais.
E foi chorando molhando a sua camiseta branca que eu retruquei.
- Eu soube desde o ínicio que procurar felicidade não era o seu forte.
- Soube?
- Soube. Teus números, tua falta de hematomas, tua praticidade. Tua poesia perdida, sua tristeza. Você me doeu tanto no meio dessa sua infelicidade que eu quase me achei feliz. Porque eu ao menos estou procurando, sabe? mesmo que não exista eu ralo o joelho todo dia a procura de ser feliz. Tem estoques de corretivos e batons vermelhos naquele armário ali pra maquiar a minha cara de dor a cada vez que uma topada como você aparece na minha vida. Tem salto alto, tem vestido curto, tem frase ensaiada. Mas no fundo, no fundo eu só espero que alguém toque meu coração frágil com a ponta dos dedos, e foi a ponta dos seus dedos que eu senti chegar. Depois de tanto tempo, tanta luta, tanto hematoma. Não tem maquiagem pra você, nem corretivo não. Você que salte na minha dor, porque você precisa mergulhar. Você que viva, saindo daquela porta deixando um coração de cristal de taça barata quebrado pra nunca mais voltar. Você que volte pra sua aliança, pra sua praticidade, pro seu compromisso mas volte sabendo que felicidade, meu amor, felicidade a gente não encontra sempre não. A gente vive maquiado o tempo todo, mas de cara limpa tem um ou dois caras que saem todo dia. Felizes mesmo. Felizes como eu e você quando dormimos no chão dessa sala bege, se ferrando pra vida lá fora. Agora se você prefere não enxergar, eu não ligo. Vai doer, mas eu vou sarar, vou curar o hematoma da cara, da alma e do coração. Mas fica sabendo que uma vez que a gente quebra uma taça com vinho dentro, e por vinho entenda, amor, porque isso que você sentiu aqui hoje é a-mor, pode até se salvar um pedaço da taça. Mas esse vinho que derramou, esse vinho com caco de vidro não dá pra beber nunca mais.
Foi quando você começou a molhar meu vestido listado. E eu vi nos seus olhos vermelhos o menino frágil com quem eu tinha me metido. E eu te disse "vai, vai que meu coração de vidro quebrado ainda tem jeito" e você me sorriu dizendo "mas o meu só bate embaixo de paredes beges". E saiu pela minha porta, depois do beijo mais cheio de amor já estudado pela humanidade, me dizendo "menina, você é doce, menina, você é amor, eu volto pra você. Eu juro que volto". E eu acreditando em você, mas morrendo de medo da vida fora das paredes beges, do tapete empoeirado, do sofá vinho. Morrendo de medo da sua vida longe do meu vestido listrado. Porque a vida lá fora, meu amor, é pra gente grande e você era tão menino na minha mão que sabe-se lá se você tem dessas forças que precisam os homens. Te mandei um beijo da janela, te gritei alto "vai, mas volta pra mim, volta" e senti pela primeira vez meu coração de vidro quebrado partir de tal maneira que soube que só a ponta desses teus dedos leves que o tocou seria capaz de consertar.
9.1.11
O amor não existe.
Era domingo, era tedioso, modorrento - e doía. Não porque todos os domingos costumam doer de alguma maneira - todo fim de ciclo dói, pontudo - mas porque sentia uma dor que era mais que dor, e virou angústia. Virou angústia, numa terça, talvez numa quarta e ela nem sentiu porque já tinha se acostumado com tudo isso que as pessoas costumam não suportar: a angústia, o vazio, a solidão. Era entusiasta da solidão. Vez ou outra pegava a bolsa vermelha e entrava no carro e ia dirigindo pra lugar nenhum. Só ela, e a música. Nunca ansiava chegar a um lugar específico, porque sua vida era um eterno andar sem saber pra onde, nem porquê. Às vezes encontrava um campo com trigos no meio do caminho e achava por bem ficar ali pensando na vida. Às vezes parava o carro e ia andar na chuva sem guarda chuva e às vezes sentia uma vontade infantil de parar pra tomar sorvete, e parava. Deu-se essa mania estranha de fazer aquilo que bem entendesse, desde a mais tenra infância. Coisa que era ao mesmo tempo liberdade e solidão. Porque ser livre é ser um tanto sozinho, também.
Mas naquele domingo, em específico, ser sozinha deu angústia. Sentou-se no parapeito da sacada então, observando os carros e as poucas pessoas que iam e voltavam e avistava coisas como famílias aparentemente felizes e casais andando de mãos dadas passeando com um cachorro. A normalidade da vida cotidiana que cansa e encanta ao mesmo tempo. No rádio o pink floyd gritava "wish you were here" e ela não conseguia pensar em nenhum ser humano vivo que ela quisesse que dividisse a sacada com ela. Não naquele momento. Depois veio o Bob dylan gritando rouco e tresloucado que "ain't me your looking for" e não houveram dedos suficientes pra contar nas mãos quantas vezes tinha falado - ou pelo menos pensado em falar - aquilo para outra pessoa. Nunca era ela. Mesmo quando era, nunca era ela. Porque é muita fantasia pra uma pessoa só. É muita mania, muita histeria, muita necessidade de mudança. Não dá pra agüentar. "É que um dia eu estou sentada num café dizendo 'você-é-o-amor-da-minha-vida' e no outro eu digo 'não-existe-ninguém-mais-errado-pra-casar-que-esse-cara'", pensou. E é assim, não tinha jeito. Amor era coisa de gente crescida demais, convicta demais, que se doava demais. Não coisa pra uma menina que não sabe decidir nem que tênis vai colocar com a roupa que escolheu. "De repente ninguém sabe mesmo de amor", refletiu. E podia bem ser que seja. Mesmo aqueles que sabem, não sabem.
Mas olhava prós casais felizes de mãos dadas passeando no domingo e tinha angústia. Porque sabia que tinha passado, naqueles vinte e poucos anos de vida, muito mais domingos sozinha do que domingos segurando mãos. Também segurou poucas mãos na vida, e mesmo as que segurava tentava soltar rápido demais. Existia nela um terrível paradoxo entre sonho e personalidade destrutiva. Sonhava com uma casa, um jardim enorme com árvores que dão frutas, porque de repente acha importante que as crianças trepem em cima das árvores como macacos, mesmo que isso consista em cair e quebrar os joelhos. Ela nunca conseguiu subir nem no primeiro nível da árvore. Medo demais de cair do céu e despencar no chão. Realismo demais, pragmatismo demais. Desde os sete anos de idade nunca se permitiu sair do chão. Sonhar sim, mas nunca o risco demasiado. Ou amor, se preferir. Sonhava com essa casa com espaço, ar livre, o verde. Mas de repente pensava de novo e achava que os filhos iam acabar sendo mesmo crianças-de-apartamento, como ela. Dessas que passam o dia todo no computador, ou nos jogos de tabuleiro. Quem sabe um video-game. Nada lúdico, nada educacional e é por isso que sonhava também com um marido extremamente criativo que aceitasse ter uma chácara pra passar as férias com a crianças, e aceitasse de bom grado fazer as malas numa sexta feira depois do serviço, pegar o carro e sair com as crianças num tipo de passeio sem-rumo cantando músicas de viagem, ou beatles. Simples fantasias. Um marido zeloso, apaixonado, dois filhos - um menino e uma menina - uma casa confortável, um emprego flexível, ser-feliz.
Encontraria seu marido em um lugar inespecífico, puxaria assunto, teria um gosto parecido com ele para culturas em geral, e talvez eles gostassem do mesmo tipo de bizarrice, tipo perder uma noite inteirinha de sono pra comer pizza de marguerita em cima da cama conversando e bebendo coca no gargalo. As pessoas não sabem, mas elas são muito influenciáveis pelo fato de alguém no mundo compartilhar - ou ao menos entender - os gostos estranhos delas. No caso dela seus gostos estranhos incluíam música brega dos anos oitenta, desejos por comidas gordurosas em plena madrugada e dormir de meias, mesmo no calor. E tudo isso parecia um sonho impossível pra quem não conseguia gostar nem de um refrigerante por mais de três semanas seguidas. Pensava nesse tipo de coisa, no meio da angústia. Quando será que existiria alguém capaz de escrever na vida real uma história que tivesse ares de filme romântico alternativo? E respondia pra si mesma: nunca.
Alguns números no celular, algumas pessoas pra quem poderia ligar quem-sabe dividir uma cerveja no bar. Afinal é domingo, seis da tarde e talvez seja isso que se espere das pessoas que não tem um namorado, uma família ou mesmo um cachorro pra levar junto na padaria pra comprar seis pães e um litro de leite gelado. Uma ligação, um encontro, uma conversa que vale a vida, o começo de um grande amor quem sabe. Mas não. Já conhecia aquelas pessoas, sabia que irritava nelas qualquer coisa que seja. O dente canino pontudo demais, a mania de sair pra fumar no meio da conversa, o gosto por filmes de ficção científica, a mania de escolher o toque mais irritante pro celular, não querer ter filhos, dirigir devagar demais, não gostar de bandas de brit-pop, ser sério, ou simplesmente ser um doce mas não suscitar nela qualquer tipo de sentimento que chegasse próximo do amor verdadeiro (e ele tinha beatle preferido, que terrível). Então debruçou no parapeito da janela, quase acendeu um cigarro, quase foi pegar uma cerveja na geladeira, quase calculou quanto tempo um corpo jogado do décimo quinto andar demoraria pra chegar ao chão, quase ligou pra três pessoas, quase mandou ume mensagem bonita, quase inventou um novo amor, mas no fim só mudou de música porque o amor parecia bonito demais enquanto um dos irmãos do oásis cantava "and-all-I-know-is-that-I'm-in-love-with-someone-who-loves-me-too" e então gritou "o amor não existe!" bem alto, no meio da melancolia, da angústia, e achando que algum casal separaria as mãos depois de ter bradado o que pra ela seria a grande verdade universal ainda não revelada pela humanidade. O amor não existe. Só existe na literatura, e no cinema e o dia dos namorados foi inventado para as pessoas se sentirem um lixo por causa de uma coisa que todos sabem que não existe. O amor não existe. Não existe nas segundas feiras a tarde, nem nas quintas feiras frias com vinho e macarrão, nem nos sábados felizes e muito menos nos domingos modorrentos.
"Pra que doer por causa de uma coisa que nem existe?" se perguntou. E tentou dançar, e tentou cantarolar "happiness-is-a-warm-gun" e quase concordou "é sim, john, é claro que é". E se sentiu feliz por um instante. E tentou fumar um cigarro, e tentou beber a cerveja de geladeira, e tentou ligar para duas pessoas, e tentou mandar uma mensagem bonita, e tentou inventar um amor. E falhou. E de repente olhou de novo pra fora, tão out, e viu que um homem sorria segurando uma mulher pela mão como quem mostra pro mundo "é minha". e ela sorria de ser dele. E duas crianças mais pra frente, pulavam, e se sentiam amadas. Daí pensou que o amor existe sim. Estranho, errado, manco, bonito, sublime, do jeito que for. E pensou que quem sabe, o amor acontece, num desses domingos modorrentos, de angústia que dói, de solidão encroada de anos e meses, e dias. No meio da rua, aparece alguém que tem o mesmo gosto estranho por pizza as três da manhã, um canino que não incomoda e uma tremenda capacidade de fazer nascer amor.
Dividiriam então uma trajetória juntos, quereriam uma árvore por acharem os dois ser indispensável para uma criança trepar nas árvores até ganhar tantos hematomas quanto puder. Passariam a lua de mel de mochila nas costas, desbravando a américa do sul ou a europa e casariam de tênis - por ser mais confortável. Antes disso teriam dividido várias pizzas as três da manhã onde conversavam até secar a saliva e descobririam numa dessas conversas que odeiam o filme preferido um do outro, e não ligariam. Assistiram novos filmes, identificariam um ao outro em personagens de literatura, escreveriam bilhetes com citações que lembrarem o outro, gravariam DVDs com filmes que não gostaram tanto, mas sabiam que o outro amaria. Dividiriam pedaços de vida, de história e do último pedaço de doce que sobrou na geladeira. Doariam um pro outro às vezes, o último copo de leite. Ele lembraria de comprar pra ela seu bombom preferido quando fosse à padaria comprar pão. Enxergariam traços um do outro em seus filhos. A cor dos olhos, a ondulação do cabelo ou o jeito despretensioso como ela olha às vezes, igualzinho à mãe. Brigariam, refletiriam sobre o fato do amor ainda existir. E ela ia querer fugir mil vezes tentando gritar que "o amor não existe". Pois se sabe criança imatura, que não sabe brincar de amor, mas que espera um dia dizer que não sabe amar, e ouvir de volta "está tudo bem, eu te ensino". E quem sabe seria feliz. Com os pés fora do chão. Casando de tênis, as quatro da tarde, no meio do mato dizendo sim para o homem no qual enxergou no fundo dos olhos um futuro lindo e descobriu que o amor existe sim, e dá pra pegar na mão, num dia de chuva cantarolando que "you-and-I-will-gonna-live-forever" e sorrindo. Num domingo cinzento, às cinco da tarde, enquanto alguém na sacada observa e já não tem coragem de gritar que o amor não existe.
2.1.11
Minha cerveja, Teu cigarro.
Você me apareceu em um daqueles dias em que eu estava com preguiça de dizer "feliz ano novo". Antes da meia noite, ou depois da meia noite do dia trinta e um aquele foi o ano em que qualquer cumprimento me parecia irrelevante. E aí você me apareceu, calça jeans azul escuro, camiseta preta, camisa xadrez. Perdido, tímido, estranho, e com os tênis furados de quem já cansou de tanto andar - ou de tanto viver. Tanta gente esquisita e sem sentido no mundo, tanta gente que a gente não conhece, nunca-viu, a gente nunca sabe o que vai encontrar no minuto seguinte e, naquela dia, você era o meu minuto seguinte. Quis te desejar qualquer coisa bonita porque dentro dos teus olhos não tinha a minha vida toda estampada, nem retrospectiva, ou qualquer-coisa-assim pra querer te desejar, pra ter que te dizer "olha, você esteve comigo nos momentos mais difíceis, me ajudou e, foi tão-importante-pra-mim que eu só posso te desejar tudo de maravilhoso que existe na terra porque eu devo à você um milhão de coisas". Achei naquele ano uma carga tão chata dever coisas à alguém - a vida, principalmente. Era bom encontrar no começo do ano alguém com quem eu não dividi nenhuma carga dramática, e alguém pra quem toda a felicidade que eu desejasse não quisesse cobrir alguma tristeza, alguma dívida, gratidão que fosse. Eu podia te desejar um ano novo lindo, simplesmente porque você existe e eu acho que você deve merecer. E se não merecer também, só prova que o coração era mais aberto do que se imaginava.
Às vezes a gente cansa, cansa tanto dessas obrigações. Os recados que tem que chegar às pessoas amadas até a meia noite, as retrospectivas, as listas de coisas pra se fazer. Já fiz mil listas, planos, já pulei ondas, já tentei langeries de todas as cores possíveis e quer saber, o ano acaba que é o que tem de ser e pouco importa a cor da sua calcinha, quantas pessoas você abraçou ou se beijou uma pessoa ao tilintar da meia noite. Lembro de um ano novo com gosto de luz que culminou no ano mais desastroso de toda a minha curta existência, e nem é como se eu acreditasse em carma, mas aconteceu. Aconteceu também você, ilustre desconhecido que brilhou no meio dos outros ilustres desconhecidos naquela festa, naquele dia, e no meio da minha solidão. Qualquer coisa no seu existir tinha uma coisa-a-mais. Dizem que é nessa coisa-a-mais que nasce o amor e que é dessa coisa-a-mais que nascem os sonhos. Deve ser. A coisa-a-mais que não se explica, mas naquela noite morou ali, nos seus tênis rasgados. Tinha você, dois amigos, e você parecia mais preocupado em olhar qualquer coisa que seja, sempre pra fora. Out, out, out. O olho perdido nas estrelas, o copo de refrigerante na mão, um sonho qualquer, sei lá o que você sonhava. Eu, no meio daquela gente toda, eloqüente, brilhante, e transitante, em cima do meu salto alto, com meu batom vermelho e o sorriso fácil de quem confunde chegada de novo ano com entorpecência liberada. Meus copos de cerveja, você nem deve saber, costumam maquiar a minha timidez. Uma timidez louca, típica de quem parece querer o mundo mas espera de verdade uma pessoa, três conversas jogadas, e principalmente, o entendimento profundo sobre a alma de outro ser humano. Troca, encontro, reciprocidade.
Eu não queria nada a meia noite. Meia dúzia de abraços, um brinde, mentalizar "oxalá-que-o-ano-novo-seja-bom-oxalá". Histeria típica, uns gritos, fé, fé, fé. Toda a fé do mundo durando ali naquela contagem regressiva. Nenhum feliz ano novo especial, nem fazer planos, nem sonho nem nada. Do dia trinta e um pro dia primeiro. E fim. E te olhei. No canto, pra fora, sempre pra fora. Um cigarro apagado nas mãos, o copo de refrigerante meio vazio, os tênis furados, a solidão. Uma hora e você ainda não sabia o que procurava no céu. E eu não sabia o que procurava. Nunca soube. Mas você tinha jeito de quem tinha andado muito pra chegar até ali - teus tênis diziam. Tinha jeito de quem não acreditava em ano novo, em rito, em passagem. Mas tinha jeito de quem acreditava. Em quê eu não sei, mas acreditava. E então fui - do jeito desajeitado que sei entrar na vida das pessoas - ao seu encontro, despencando do salto, da compostura, da vida. De sorriso vermelho-borrado, de champanhe barato na taça. Fui até você na esperança de saber que fé era aquela, da onde vinha, pra quê? Eu só encostei do teu lado e fiquei olhando o céu. Você olhou pra mim, nem sorriu, nem fez nada. Só abaixou a cabeça e começou a procurar qualquer coisa que seja. E eu olhei pra você numa intenção louca de te encontrar, me encontrar, encontrar qualquer coisa e foi assim, sem pudor, sem rito, sem ensaio que eu quis te desejar feliz ano novo de coração aberto. Eu queria que você fosse feliz, não por gratidão, dívida ou pra te salvar da tristeza. Só queria te dar uma alegria qualquer. Alegria descompromissada, pura, daquelas que a gente dá e não espera nada em troca. E tropeçando nas palavras como estava bem acostumada a tropeçar, na vida, disse:
- Feliz ano novo.
Você me olhou, não entendeu, bebeu um gole do refrigerante, jogou o cigarro da sacada e ainda, olhando pra fora, respondeu.
- Feliz ano novo.
- Você acredita que desejar feliz ano novo traz mesmo um bom ano novo pra pessoa em questão?
- Na verdade não acredito, mas acho válida a tentativa.
- Você parece tão perdido, aqui, no meio dessa gente toda.
- Eu sou perdido no meio do mundo, eu acho.
- Todo mundo é, um pouco.
- Você parece razoavelmente integrada ao meio.
- É que voce não me viu tropeçando com esse meu salto alto, derrubando a champanhe e superando o pavor de abraçar desconhecidos.
- Você não tem lá muita cara de quem tem pavor.
- Tenho cara do que?
- De confiança exagerada.
- Por que?
- Porque veio aqui, se debruçou no parapeito, sem pudor nenhum e me desejou feliz ano novo. Eu sou um total desconhecido, isso só pode ser coragem.
- Mas é medo.
- Medo?
- Não tenho nenhum vínculo com você. É muito mais fácil lidar com o fracasso das relações que ainda não existem.
- Aceita um cigarro?
- Não fumo.
- Perfeitamente compreensível. Também não gosto de fumar.
- E fuma por que?
- Pra preencher as mãos.
- Do que?
- Do mundo, do nervosismo, da timidez. É como segurar na mão da confiança.
- Eu bebo pra isso.
- Não sei beber. Nunca soube.
- Perfeitamente compreensível, os refrigerantes são mais doces.
- É que de amargo já basta a vida.
- O que voce tanto olhava lá em cima?
- Nada, assim, exatamente. Tava pensando. Não gosto de ano novo, desse clima todo de festividade por um dia.
- Acho que é pra compensar o resto do ano.
- Toda a fé de trezentos e sessenta e cinco dias depositada em um dia só. Não era melhor dividir? Pequenos reveillons a cada semana.
- Fé em doses homeopáticas.
- Faz bem.
O barulho de fogos, o frio, as pessoas. Tudo tinha sumido do alcance enquanto você tinha comigo a conversa mais doce de toda a minha vida. A blusa xadrez em cima da camiseta preta, teus olhos verdes. Agora tinha como ver. Verdes, verdíssimos, cor-de-esperança. Os teus cigarros acesos um atrás do outro correndo na sua mão nervosa. Os olhos que olhavam pro céu - pra fora, out, sempre pra fora - e não pra mim. O jeito de falar baixo, quase enrolado, as frases certas na hora certa. O pensamento rápido, o refrigerante quente. Tudo aquilo junto, na noite de ano novo parecia ser as sete ondas que eu deveria pular. Te transpor em uma onda de cada vez, que é pra dar sorte.
- No que voce acredita?
- Não sei. Acho que era isso que eu estava tentando descobrir enquanto olhava pra cima. Você acredita em alguma coisa assim, específica?
- Não, nem em ano novo.
- Falta de fé, ou de esperança?
- Os dois.
- Menina, isso é cansaço.
- Você fala assim e eu me sinto uma velha.
- Não precisa ter passado por vários anos pra ser cansada. Às vezes um, na hora errada, basta.
- O meu foi o último.
- Eu também tô um pouco cansado. Mas foi de ano em ano.
- Anos ruins?
- Anos bons, anos ruins, que nem todo mundo. É que eu ainda acredito em alguma coisa. Não sei no que, mas acredito.
- Talvez ter te encontrado no ano novo seja um bom sinal.
- Acho que você taba me procurando. Tem toda a cara.
- De quem te procura?
- De quem procura qualquer coisa.
- De repente eu acerto.
- Menina, eu sou tímido.
- Meu nome é Fernanda.
- O meu é Fábio.
- O que te traz aqui, no ano novo, Fábio?
- Meus amigos. Com uma raciocínio simples "Você precisa sair de casa, Fábio. É ano novo". E me arrastaram.
- Não queria vir?
- Não me sinto bem em festas. Só faço fumar. Não socializo, não dá pra conversar direito, esse monte de gente gente e gente. E haja cigarro pra ocupar a mão.
- Você detesta tanto as pessoas?
- Não, eu gosto muito de pessoas. Meu problema é com o convívio social obrigatório.
- Eu estou te fazendo socializar por obrigação?
- Por incrível que pareça, não.
- Devo levar isso como um elogio?
- Vai ver.
- Você é sempre assim, tímido?
- Um pouco mais do que isso, na verdade.
- Mais?
- Sim, é que você fala bastante. Dá uma certa segurança.
- Achei que fossem os cigarros.
- Também.
- Você não quer ir ali pro gramado não?
- Posso ir.
- Vem cá, você nunca vai me olhar nos olhos não?
- Não agora.
Eu fui andando na frente e você ia do meu lado. Os passos curtos encarando os próprios pés. Uma mão segurando o cigarro, a outra no bolso. Você não sabia pra onde estava indo, mas ia. E eu ia te levando. Sem saber exatamente pra onde. Mas tinha flor, tinha gramado, e tinha umas estrelas. O total silêncio de duas pessoas que de uma hora pra outra resolveram trilhar o mesmo caminho. Os pés lado a lado. O destino era o mesmo, o fim não se sabe.
- Você não vai falar nada, o caminho inteiro?
- Quem conduz a conversa aqui é você.
- O que voce faz da vida?
- Estudo.
- O que?
- Ciências contábeis.
- E gosta de matemática?
- Odeio.
- E gosta do que?
- Filmes, livros, boa música e café.
- Mas disso não tem faculdade né?
- Suponho que não.
- Eu faço cinema.
- Já quis fazer cinema.
- É legal, mas não tanto. Obrigação criativa, sabe? Criação como trabalho. Não sei.
- Parece combinar com você.
- Por que?
- Não sei, voce parece que vive atrás de criar histórias.
- Pode ser aqui?
Apontei um banco embaixo de uma árvore.
- Pode.
- Quais são as chances de você superar a barreira intransponível do convívio social amigável até amanhecer?
- Com você as perspectivas são favoráveis.
- Bom saber.
- É esse teu jeito.
- Que jeito?
- De entrar na vida da gente sem pedir licença.
- Podia ter ido embora.
- Não, voce é agradável.
- Obrigada. É bonito aqui né?
- Bastante. E tem menos gente.
- Você vai mesmo continuar a três metros de distância de mim?
- Olha, menins, eu já estou mais perto de você do que eu ousei chegar de qualquer outra criatura.
- Quantas namoradas?
- Três.
- Amou quantas delas?
- Todas.
- Amor se constrói ou acontece?
- Se constrói.
- Então não amou nenhuma. Quantas demonstrações públicas de amor?
- Nenhuma.
- E a vontade incontrolável de querer guardar a pessoa dentro de uma caixinha para protegê-la de todo mal?
- Do que voce tá falando?
- De amor.
- Isso não é amor, é possessão.
- Esses teus tênis gastos não te ensinaram nada nada sobre a vida, Fabito.
Você permaneceu num silêncio ancestral que podia se ouvir de outra cidade. E eu cheguei mais perto.
- Se a proximidade estiver desconfortável, me diz.
- Como se tivesse alguma coisa que você tem vontade de fazer, e não faz.
- Você me conhece muito pouco.
- E voce quer me conhecer inteiro.
- Minha nova resolução de ano novo.
- Você é sempre assim, eloqüente?
- Só quando me interessam os encontros.
- E quantas vezes isso aconteceu?
- Várias. Mas poucas valeram o investimento.
- Quantas vezes você amou?
- Uma.
- E como foi?
- Aconteceu.
- Como?
- Amor não se explica, que coisa, acontece. E um dia você sente no peito a vontade inconsolável de não querer mais nada, além da outra pessoa.
- Você é louca.
- Amor é loucura, voce que nunca experimentou.
- Define amor.
- Amor não se define, se sente.
- E como é?
- É uma vontade louca de querer ouvir sempre a mesma música, sem enjoar. É um falar o nome da outra pessoa e sorrir, é imaginar um futuro sem medo é enxergar no fundo dos olhos da pessoa a sua vida inteira.
- Simples assim?
- O amor é. Mas sentir é sempre complicado.
Pela primeira vez você olhou nos meus olhos enquanto eu falava.
- Teus olhos são castanhos.
- são. normais, chatos, comuns.
- É que alguma coisa tem que ser assim em você.
- Você tá me dizendo que eu sou excêntrica?
- Não exatamente. Mas não é normal, nem chata, e muito menos comum.
Eu te sorri.
- voce descobriu o que procurava olhando pro céu? parou de olhar.
- Tem alguma coisa pra descobrir nos teus olhos, também.
- E o que é?
- Eu ainda não descobri, por isso não parei de olhar.
- Quando voce descobrir, você me conta.
- Qual o sentido desse encontro todo hei?
- Não tem que ter sentido, fábio, meu deus. Os encontros acontecem porque tem que acontecer. O destino da gente é se encontrar.
- E depois se perder.
- Quantas vezes você já se perdeu?
- Todas. Quantas vezes você já se encontrou?
- Nenhuma.
- Deve ser por isso que voce vive procurando.
E me sorriu.
- Se esse fosse teu filme, terminava como?
- Eu levantava, e ia embora.
- Assim? E o encontro?
- Aconteceu. O reencontro é mistério.
- E é assim que vai ser?
- Isso é vida, não filme, rapaz.
- Teu olho é castanho claro. Deve esverdear no sol.
- Esverdeia. O teu azula?
- Não. É verde. Convictamente verde.
- Combina com você. De uma cor só. Cor de esperança.
- E isso termina como, então?
- Não sei, amanhece, eu te puxo pelo braço e a gente vai rumo a uma aventura fantástica.
- Mesmo?
- Não. A gente continua conversando, até cansar. E se não cansar não para. E se der sono a gente dorme, e uma hora a gente vai pra casa. E se você quiser meu telefone eu te dou. E se você quiser me ligar quando eu acordar você liga. E se quiser me ligar numa terça feira cinzenta as três e quarenta da tarde pra me chamar pra um café você pode. Você pode ouvir uma música e lembrar de mim, e me ligar. E você pode me ligar e me chamar pro cinema. E você pode me esquecer por um mês, ou dois, ou por um ano. E depois pode ligar pra mim com a desculpa que passou por aqui, e se lembrou. Eu posso estar com o mesmo telefone, ou não. Ou posso ter encontrado um amor. Ou a gente pode sair amanhã. Ou você pode me chamar pra dormir na sua casa. E a gente pode transar, quem sabe. Ou a gente pode adormecer ouvindo música. E você pode me fazer um café, ou não. Ou a gente pode ter medo de se tocar e dormimos em camas separadas e depois acordar segurando as mãos. Ou você pode me beijar agora e me dizer que eu sou o possível amor da sua vida. Ou eu posso te beijar agora e te dizer o mesmo. Ou a gente pode sair daqui e não se encontrar nunca mais.
- A vida pra você é um filme com vários finais.
- A vida pra mim é real, e é cheia de possibilidades. Mais que o filme. Porque é real.
Nós nos sorrimos.
- Pra quem não me olhava você está me olhando demais.
- Eu não sei o que fazer. Não tem mais cigarro, não tem mais nada, eu estou bicho-solto na sua mão.
- Primeiro troca o cigarro pela minha mão. Se der certo, vai ser como segurar na mão da confiança.
E você me deu a mão.
- Se sente seguro?
- Como se eu nunca tivesse sido de outra maneira.
- Agora eu te levo.
- Pra onde?
- O destino é mistério.
E te segurei na mão, de tênis furado, tropeçando no salto, no desajeito, no sentimento. É que no meio da minha busca por nada eu te encontrei. E era ano novo, e tinha uma fé em alguma coisa. E eu seguro na sua mão e tenho fé em você, em mim, no mundo. Olho no teu olho e vejo, tem cor de esperança. Um silêncio tão lindo, tão doce. Os passos sincronizados, a estrada rumo a lugar nenhum. Você de repente começou a me contar as suas histórias, e eu te contei as minhas. E você me deu um pedaço da tua vida, que eu misturei com a minha. E a gente não sabia bem pra ponde estava indo, mas ia. E se deu o silêncio exato, o beijo certo, mágico. Debaixo de uma árvore, no amanhecer de um dia primeiro de um ano qualquer. O perfeito encontro, mais que beijo, mais que junção de corpo, saliva, língua. Era coração, pulsante, vibrante, eterno. Eu te desejei feliz ano novo e ganhei de presente uma vida. Te dei de presente um encontro. Te ensinei que o amor acontece, e troquei teu cigarro pela minha mão. Você se tornou a minha bebida. Num novo ano, nasceu um novo encontro. O reencontro é mistério.
Às vezes a gente cansa, cansa tanto dessas obrigações. Os recados que tem que chegar às pessoas amadas até a meia noite, as retrospectivas, as listas de coisas pra se fazer. Já fiz mil listas, planos, já pulei ondas, já tentei langeries de todas as cores possíveis e quer saber, o ano acaba que é o que tem de ser e pouco importa a cor da sua calcinha, quantas pessoas você abraçou ou se beijou uma pessoa ao tilintar da meia noite. Lembro de um ano novo com gosto de luz que culminou no ano mais desastroso de toda a minha curta existência, e nem é como se eu acreditasse em carma, mas aconteceu. Aconteceu também você, ilustre desconhecido que brilhou no meio dos outros ilustres desconhecidos naquela festa, naquele dia, e no meio da minha solidão. Qualquer coisa no seu existir tinha uma coisa-a-mais. Dizem que é nessa coisa-a-mais que nasce o amor e que é dessa coisa-a-mais que nascem os sonhos. Deve ser. A coisa-a-mais que não se explica, mas naquela noite morou ali, nos seus tênis rasgados. Tinha você, dois amigos, e você parecia mais preocupado em olhar qualquer coisa que seja, sempre pra fora. Out, out, out. O olho perdido nas estrelas, o copo de refrigerante na mão, um sonho qualquer, sei lá o que você sonhava. Eu, no meio daquela gente toda, eloqüente, brilhante, e transitante, em cima do meu salto alto, com meu batom vermelho e o sorriso fácil de quem confunde chegada de novo ano com entorpecência liberada. Meus copos de cerveja, você nem deve saber, costumam maquiar a minha timidez. Uma timidez louca, típica de quem parece querer o mundo mas espera de verdade uma pessoa, três conversas jogadas, e principalmente, o entendimento profundo sobre a alma de outro ser humano. Troca, encontro, reciprocidade.
Eu não queria nada a meia noite. Meia dúzia de abraços, um brinde, mentalizar "oxalá-que-o-ano-novo-seja-bom-oxalá". Histeria típica, uns gritos, fé, fé, fé. Toda a fé do mundo durando ali naquela contagem regressiva. Nenhum feliz ano novo especial, nem fazer planos, nem sonho nem nada. Do dia trinta e um pro dia primeiro. E fim. E te olhei. No canto, pra fora, sempre pra fora. Um cigarro apagado nas mãos, o copo de refrigerante meio vazio, os tênis furados, a solidão. Uma hora e você ainda não sabia o que procurava no céu. E eu não sabia o que procurava. Nunca soube. Mas você tinha jeito de quem tinha andado muito pra chegar até ali - teus tênis diziam. Tinha jeito de quem não acreditava em ano novo, em rito, em passagem. Mas tinha jeito de quem acreditava. Em quê eu não sei, mas acreditava. E então fui - do jeito desajeitado que sei entrar na vida das pessoas - ao seu encontro, despencando do salto, da compostura, da vida. De sorriso vermelho-borrado, de champanhe barato na taça. Fui até você na esperança de saber que fé era aquela, da onde vinha, pra quê? Eu só encostei do teu lado e fiquei olhando o céu. Você olhou pra mim, nem sorriu, nem fez nada. Só abaixou a cabeça e começou a procurar qualquer coisa que seja. E eu olhei pra você numa intenção louca de te encontrar, me encontrar, encontrar qualquer coisa e foi assim, sem pudor, sem rito, sem ensaio que eu quis te desejar feliz ano novo de coração aberto. Eu queria que você fosse feliz, não por gratidão, dívida ou pra te salvar da tristeza. Só queria te dar uma alegria qualquer. Alegria descompromissada, pura, daquelas que a gente dá e não espera nada em troca. E tropeçando nas palavras como estava bem acostumada a tropeçar, na vida, disse:
- Feliz ano novo.
Você me olhou, não entendeu, bebeu um gole do refrigerante, jogou o cigarro da sacada e ainda, olhando pra fora, respondeu.
- Feliz ano novo.
- Você acredita que desejar feliz ano novo traz mesmo um bom ano novo pra pessoa em questão?
- Na verdade não acredito, mas acho válida a tentativa.
- Você parece tão perdido, aqui, no meio dessa gente toda.
- Eu sou perdido no meio do mundo, eu acho.
- Todo mundo é, um pouco.
- Você parece razoavelmente integrada ao meio.
- É que voce não me viu tropeçando com esse meu salto alto, derrubando a champanhe e superando o pavor de abraçar desconhecidos.
- Você não tem lá muita cara de quem tem pavor.
- Tenho cara do que?
- De confiança exagerada.
- Por que?
- Porque veio aqui, se debruçou no parapeito, sem pudor nenhum e me desejou feliz ano novo. Eu sou um total desconhecido, isso só pode ser coragem.
- Mas é medo.
- Medo?
- Não tenho nenhum vínculo com você. É muito mais fácil lidar com o fracasso das relações que ainda não existem.
- Aceita um cigarro?
- Não fumo.
- Perfeitamente compreensível. Também não gosto de fumar.
- E fuma por que?
- Pra preencher as mãos.
- Do que?
- Do mundo, do nervosismo, da timidez. É como segurar na mão da confiança.
- Eu bebo pra isso.
- Não sei beber. Nunca soube.
- Perfeitamente compreensível, os refrigerantes são mais doces.
- É que de amargo já basta a vida.
- O que voce tanto olhava lá em cima?
- Nada, assim, exatamente. Tava pensando. Não gosto de ano novo, desse clima todo de festividade por um dia.
- Acho que é pra compensar o resto do ano.
- Toda a fé de trezentos e sessenta e cinco dias depositada em um dia só. Não era melhor dividir? Pequenos reveillons a cada semana.
- Fé em doses homeopáticas.
- Faz bem.
O barulho de fogos, o frio, as pessoas. Tudo tinha sumido do alcance enquanto você tinha comigo a conversa mais doce de toda a minha vida. A blusa xadrez em cima da camiseta preta, teus olhos verdes. Agora tinha como ver. Verdes, verdíssimos, cor-de-esperança. Os teus cigarros acesos um atrás do outro correndo na sua mão nervosa. Os olhos que olhavam pro céu - pra fora, out, sempre pra fora - e não pra mim. O jeito de falar baixo, quase enrolado, as frases certas na hora certa. O pensamento rápido, o refrigerante quente. Tudo aquilo junto, na noite de ano novo parecia ser as sete ondas que eu deveria pular. Te transpor em uma onda de cada vez, que é pra dar sorte.
- No que voce acredita?
- Não sei. Acho que era isso que eu estava tentando descobrir enquanto olhava pra cima. Você acredita em alguma coisa assim, específica?
- Não, nem em ano novo.
- Falta de fé, ou de esperança?
- Os dois.
- Menina, isso é cansaço.
- Você fala assim e eu me sinto uma velha.
- Não precisa ter passado por vários anos pra ser cansada. Às vezes um, na hora errada, basta.
- O meu foi o último.
- Eu também tô um pouco cansado. Mas foi de ano em ano.
- Anos ruins?
- Anos bons, anos ruins, que nem todo mundo. É que eu ainda acredito em alguma coisa. Não sei no que, mas acredito.
- Talvez ter te encontrado no ano novo seja um bom sinal.
- Acho que você taba me procurando. Tem toda a cara.
- De quem te procura?
- De quem procura qualquer coisa.
- De repente eu acerto.
- Menina, eu sou tímido.
- Meu nome é Fernanda.
- O meu é Fábio.
- O que te traz aqui, no ano novo, Fábio?
- Meus amigos. Com uma raciocínio simples "Você precisa sair de casa, Fábio. É ano novo". E me arrastaram.
- Não queria vir?
- Não me sinto bem em festas. Só faço fumar. Não socializo, não dá pra conversar direito, esse monte de gente gente e gente. E haja cigarro pra ocupar a mão.
- Você detesta tanto as pessoas?
- Não, eu gosto muito de pessoas. Meu problema é com o convívio social obrigatório.
- Eu estou te fazendo socializar por obrigação?
- Por incrível que pareça, não.
- Devo levar isso como um elogio?
- Vai ver.
- Você é sempre assim, tímido?
- Um pouco mais do que isso, na verdade.
- Mais?
- Sim, é que você fala bastante. Dá uma certa segurança.
- Achei que fossem os cigarros.
- Também.
- Você não quer ir ali pro gramado não?
- Posso ir.
- Vem cá, você nunca vai me olhar nos olhos não?
- Não agora.
Eu fui andando na frente e você ia do meu lado. Os passos curtos encarando os próprios pés. Uma mão segurando o cigarro, a outra no bolso. Você não sabia pra onde estava indo, mas ia. E eu ia te levando. Sem saber exatamente pra onde. Mas tinha flor, tinha gramado, e tinha umas estrelas. O total silêncio de duas pessoas que de uma hora pra outra resolveram trilhar o mesmo caminho. Os pés lado a lado. O destino era o mesmo, o fim não se sabe.
- Você não vai falar nada, o caminho inteiro?
- Quem conduz a conversa aqui é você.
- O que voce faz da vida?
- Estudo.
- O que?
- Ciências contábeis.
- E gosta de matemática?
- Odeio.
- E gosta do que?
- Filmes, livros, boa música e café.
- Mas disso não tem faculdade né?
- Suponho que não.
- Eu faço cinema.
- Já quis fazer cinema.
- É legal, mas não tanto. Obrigação criativa, sabe? Criação como trabalho. Não sei.
- Parece combinar com você.
- Por que?
- Não sei, voce parece que vive atrás de criar histórias.
- Pode ser aqui?
Apontei um banco embaixo de uma árvore.
- Pode.
- Quais são as chances de você superar a barreira intransponível do convívio social amigável até amanhecer?
- Com você as perspectivas são favoráveis.
- Bom saber.
- É esse teu jeito.
- Que jeito?
- De entrar na vida da gente sem pedir licença.
- Podia ter ido embora.
- Não, voce é agradável.
- Obrigada. É bonito aqui né?
- Bastante. E tem menos gente.
- Você vai mesmo continuar a três metros de distância de mim?
- Olha, menins, eu já estou mais perto de você do que eu ousei chegar de qualquer outra criatura.
- Quantas namoradas?
- Três.
- Amou quantas delas?
- Todas.
- Amor se constrói ou acontece?
- Se constrói.
- Então não amou nenhuma. Quantas demonstrações públicas de amor?
- Nenhuma.
- E a vontade incontrolável de querer guardar a pessoa dentro de uma caixinha para protegê-la de todo mal?
- Do que voce tá falando?
- De amor.
- Isso não é amor, é possessão.
- Esses teus tênis gastos não te ensinaram nada nada sobre a vida, Fabito.
Você permaneceu num silêncio ancestral que podia se ouvir de outra cidade. E eu cheguei mais perto.
- Se a proximidade estiver desconfortável, me diz.
- Como se tivesse alguma coisa que você tem vontade de fazer, e não faz.
- Você me conhece muito pouco.
- E voce quer me conhecer inteiro.
- Minha nova resolução de ano novo.
- Você é sempre assim, eloqüente?
- Só quando me interessam os encontros.
- E quantas vezes isso aconteceu?
- Várias. Mas poucas valeram o investimento.
- Quantas vezes você amou?
- Uma.
- E como foi?
- Aconteceu.
- Como?
- Amor não se explica, que coisa, acontece. E um dia você sente no peito a vontade inconsolável de não querer mais nada, além da outra pessoa.
- Você é louca.
- Amor é loucura, voce que nunca experimentou.
- Define amor.
- Amor não se define, se sente.
- E como é?
- É uma vontade louca de querer ouvir sempre a mesma música, sem enjoar. É um falar o nome da outra pessoa e sorrir, é imaginar um futuro sem medo é enxergar no fundo dos olhos da pessoa a sua vida inteira.
- Simples assim?
- O amor é. Mas sentir é sempre complicado.
Pela primeira vez você olhou nos meus olhos enquanto eu falava.
- Teus olhos são castanhos.
- são. normais, chatos, comuns.
- É que alguma coisa tem que ser assim em você.
- Você tá me dizendo que eu sou excêntrica?
- Não exatamente. Mas não é normal, nem chata, e muito menos comum.
Eu te sorri.
- voce descobriu o que procurava olhando pro céu? parou de olhar.
- Tem alguma coisa pra descobrir nos teus olhos, também.
- E o que é?
- Eu ainda não descobri, por isso não parei de olhar.
- Quando voce descobrir, você me conta.
- Qual o sentido desse encontro todo hei?
- Não tem que ter sentido, fábio, meu deus. Os encontros acontecem porque tem que acontecer. O destino da gente é se encontrar.
- E depois se perder.
- Quantas vezes você já se perdeu?
- Todas. Quantas vezes você já se encontrou?
- Nenhuma.
- Deve ser por isso que voce vive procurando.
E me sorriu.
- Se esse fosse teu filme, terminava como?
- Eu levantava, e ia embora.
- Assim? E o encontro?
- Aconteceu. O reencontro é mistério.
- E é assim que vai ser?
- Isso é vida, não filme, rapaz.
- Teu olho é castanho claro. Deve esverdear no sol.
- Esverdeia. O teu azula?
- Não. É verde. Convictamente verde.
- Combina com você. De uma cor só. Cor de esperança.
- E isso termina como, então?
- Não sei, amanhece, eu te puxo pelo braço e a gente vai rumo a uma aventura fantástica.
- Mesmo?
- Não. A gente continua conversando, até cansar. E se não cansar não para. E se der sono a gente dorme, e uma hora a gente vai pra casa. E se você quiser meu telefone eu te dou. E se você quiser me ligar quando eu acordar você liga. E se quiser me ligar numa terça feira cinzenta as três e quarenta da tarde pra me chamar pra um café você pode. Você pode ouvir uma música e lembrar de mim, e me ligar. E você pode me ligar e me chamar pro cinema. E você pode me esquecer por um mês, ou dois, ou por um ano. E depois pode ligar pra mim com a desculpa que passou por aqui, e se lembrou. Eu posso estar com o mesmo telefone, ou não. Ou posso ter encontrado um amor. Ou a gente pode sair amanhã. Ou você pode me chamar pra dormir na sua casa. E a gente pode transar, quem sabe. Ou a gente pode adormecer ouvindo música. E você pode me fazer um café, ou não. Ou a gente pode ter medo de se tocar e dormimos em camas separadas e depois acordar segurando as mãos. Ou você pode me beijar agora e me dizer que eu sou o possível amor da sua vida. Ou eu posso te beijar agora e te dizer o mesmo. Ou a gente pode sair daqui e não se encontrar nunca mais.
- A vida pra você é um filme com vários finais.
- A vida pra mim é real, e é cheia de possibilidades. Mais que o filme. Porque é real.
Nós nos sorrimos.
- Pra quem não me olhava você está me olhando demais.
- Eu não sei o que fazer. Não tem mais cigarro, não tem mais nada, eu estou bicho-solto na sua mão.
- Primeiro troca o cigarro pela minha mão. Se der certo, vai ser como segurar na mão da confiança.
E você me deu a mão.
- Se sente seguro?
- Como se eu nunca tivesse sido de outra maneira.
- Agora eu te levo.
- Pra onde?
- O destino é mistério.
E te segurei na mão, de tênis furado, tropeçando no salto, no desajeito, no sentimento. É que no meio da minha busca por nada eu te encontrei. E era ano novo, e tinha uma fé em alguma coisa. E eu seguro na sua mão e tenho fé em você, em mim, no mundo. Olho no teu olho e vejo, tem cor de esperança. Um silêncio tão lindo, tão doce. Os passos sincronizados, a estrada rumo a lugar nenhum. Você de repente começou a me contar as suas histórias, e eu te contei as minhas. E você me deu um pedaço da tua vida, que eu misturei com a minha. E a gente não sabia bem pra ponde estava indo, mas ia. E se deu o silêncio exato, o beijo certo, mágico. Debaixo de uma árvore, no amanhecer de um dia primeiro de um ano qualquer. O perfeito encontro, mais que beijo, mais que junção de corpo, saliva, língua. Era coração, pulsante, vibrante, eterno. Eu te desejei feliz ano novo e ganhei de presente uma vida. Te dei de presente um encontro. Te ensinei que o amor acontece, e troquei teu cigarro pela minha mão. Você se tornou a minha bebida. Num novo ano, nasceu um novo encontro. O reencontro é mistério.
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Não come não que é ficção,
Não fui eu foi meu eu-lírico,
Utopia
3.11.10
Não me olhe assim eu sou parte de você (você não é parte de mim)
A primeira coisa que me fez notar toda a influência que eu tive em você durante esses anos todos, foi o fato de você um dia, sem perceber, ter chamado a sua namorada pelo apelido que eu costumava te chamar. Assim, exatamente aquele. Ainda se fosse um apelido comum, mas era uma coisa tão minha que não podia ter vindo de outro lugar senão de mim. às vezes você se trai, assim. Acaba por me colocar na sua vida sem perceber, mas coloca. Ainda coloca. Não que isso seja ruim, ou bom. Só acontece. às vezes acontece comigo, também. Eu ajo como se você estivesse por perto e fosse chegar a qualquer momento. As piadas que só você riria, eu ainda faço. As piadas que só eu riria, você ainda faz. Você ainda gosta das coisas que só eu gosto e eu ainda gosto das coisas que só você ia gostar. Não existe uma explicação lógica para isso que não seja o fato que duas pessoas, depois de se conhecerem e se gostarem, se influenciam mutuamente. Eu não estou querendo apontar na sua cara: você não me esqueceu. E tripudiar em cima dos seus novos sentimentos. Longe de mim. Também não quero dizer que eu não te esqueci. Pelo menos não assim, nesses sentido de, você sabe, continuar te amando. Às vezes você age como se eu fosse viver eternamente apaixonada por você e isso não é possível. Pra ninguém. Um dia eu vou estar fazendo as minhas coisas e vou parar de me preocupar com a sua vida, como se ela fosse um pedaço da minha. Eu já faço isso. Passo dias inteiros sem sentir sua falta, ou necessitar da sua presença. E isso é bom. Embora meu coração ainda caia do cabinho algumas vezes, eu estou seguindo a minha vida, e você a sua. Do jeito que achamos que devemos. Eu estou feliz aqui, e você feliz ali. Que bom pra gente. Eu já não lembro mais de você em todo café nem em toda comida. Só em algumas. Você também deve lembrar de mim em algumas coisas. Lembra sim, porque ainda trata as coisas que você ama pelo mesmo nome que eu trato as coisas que eu amo. Mas vai me esquecer, e eu vou te esquecer. Só que às vezes eu vou contar aquela piada que só você ria. Às vezes você vai mostrar pra alguém uma coisa que só eu ia gostar. É porque, apesar de tudo, a gente não pode negar. Eu sou uma parte de você, e você é uma parte de mim. Tudo tão assim, simbiose, que a sua parte em mim já se tornou eu. E a minha parte em você, já se tornou você. Indivisível. Mas que merda.
20.9.10
Cigarros, abraços e um pouco de sonho.
Na hora em que você me viu, depois de meses, talvez um ano inteiro, eu estava acendendo um cigarro. Marlboro vermelho, ou um lucky strike azul. Podia ser qualquer um desses. Nenhum daqueles que você aprendeu a fumar. Não aquelas merdas. Aquelas merdas encaixotadas vindas do paraguai cheias de nicotina b. Quando eu resolvi que ia fumar eu tinha que ter alguma dignidade. Aquela que você me roubou. Tinha que enfiar pra dentro dos meus pulmões alguma coisa melhor do que isso que você tem colocado na boca. Eu estou falando de tudo. Das coisas que eu sei e do que eu não sei. De uns tempos pra cá, por mais que eu te amasse, você exalava merda. Por todos os lados. Aquele cheiro de sujeira com burrice, porque burrice fede. E o cheiro vinha de você, não vinha de nenhum lugar. Não vinha do cigarro barato, das suas roupas ou das pessoas com quem você andava. Vinha de você. Você cheirava merda. Foi quando você me viu.
Eu, no meio daquela gente toda que não cheirava nada acendi um cigarro azul ou vermelho. Não lembro se tinha filtro. Não lembro que cor. Mas acendi. Fumaça entrando e saindo por todos os lugares. Pela garganta, pelo nariz. Por onde desse. Eu sempre fumei pra colocar ar dentro de mim. E não importa se era ar carbonizado, com mais de mil substâncias tóxicas. Que se foda isso. Faltava ar dentro de mim, muito ar, todo ar do mundo. Desde que você partiu. E quando você voltou lá estava eu colocando ar dentro de mim de algum jeito. Mas quando eu te vi acho que nem fumar mais eu sabia. E você ficou tão paralisado, tão me mostrando que aquilo não combinava comigo. E eu pensava que aquela merda também não combinava com você, porra. Claro que não. Principalmente aquela nicotina sem nome que cheirava a merda. E apaguei o cigarro, mesmo precisando de todo ar quente do mundo.
Você, a mesma calça jeans, a mesma camiseta e o mesmo tênis. Me olhando. Como se eu fosse um ET. Eu fumo também agora, caramba. E eu uso essas roupas cheias de "informação de moda". Eu também não sei porque. Eu também não sei porque você me idealizou tanto assim. Eu nunca soube porque você achava que eu era tanto assim pra você. Eu nunca fui. Eu sempre fui uma bosta de uma menina manipuladora, chata e até arrogante. Eu sempre fui menos inteligente que você. Agora eu nem quero saber o quão menos inteligente que você eu sou. Também não sei o quanto você embrurreceu. Vai ver agora a gente está do mesmo jeito. Burros e estúpidos. E fumando cigarros. Os meus caros, os seus baratos, mas com o mesmo câncer. Vai ver é isso, estamos adoecendo. Vai ver já estávamos doentes a muito tempo e não tínhamos nos dado conta. Faltam os livros, os filmes, os discos e as noites regadas a vinho e filme francês. Ou italiano. Longas discussões sobre filosofias que eu não entendia. Eu nem me lembro mais quando foi que isso se perdeu. Mas se perdeu. Que nem fumaça de cigarro. Só fica o cheiro.
O fato é que você me viu e ficou me olhando, como se pensasse que eu enfiava aquela fumaça tóxica dentro de mim por sua causa. E era mesmo. E eu quis te dizer: se eu tiver câncer, é culpa sua. Se eu morrer, sabe. E se você morrer, é culpa sua. Que não me ouviu. Culpa sua. Toda essa merda, culpa sua. Mas não disse nada, apaguei o cigarro, fiz cara de blasé e esperei que você me ignorasse. E você não ignorou. Eu sentei do seu lado, você me perguntou se eu fumava agora eu eu pensei "fumo sim, quero morrer de câncer, por sua causa". Mas não. Só sorri e disse que fumava as vezes, mas que tava tentando parar, que essa merda dá câncer na gente. Você concordou, disse que dava mesmo e que tinha parado também, que na verdade nunca gostou disso de fumar. O gosto, a fumaça, sei lá. Ai eu pensei em te dizer que todo mundo sabe porque você fumava, que era porque você tinha ficado burro que agora fedia merda. Mas também não disse, disse que ainda bem que você tinha se tocado, que isso não combinava nada com você e tudo mais. Essas coisas que eu digo pra você porque não tenho coragem nenhuma e quando eu vi eu já estava conversando com você do jeito que sempre fiz, cheio de risos e soquinhos, e você me respondia como se a gente se falasse todo dia, sei lá, e você nem fedia merda mais. Eu não sabia o que estava acontecendo e queria desesperadamente perguntar cadê, onde está a sua namorada, aquela merda toda de antes da gente se sumir assim, mas não tinha coragem porque ela bem que podia existir ainda, quer dizer, nada impede da gente se tratar cordialmente e termos namorados. Eu ficava pensando que dez minutos depois viria o momento em que você se daria por si e ia perceber que você estava me tratando bem demais só que você tinha alguém te esperando em casa, e daí não podia. Você já tinha feito isso algumas vezes e depois ficava eu e meus cigarros vermelhos, meus cigarros azuis, meus cigarros com gosto de menta botando pra dentro todo ar que você tinha mais ume vez levado com você. E ficava o cheiro de merda brotando.
Mas dessa vez eu não queria mais, nenhuma noite mais cheia de cigarros variados, aquela fumaça toda, cerveja, não sei. Não queria mais perder o ar. Eu já tinha acostumado a viver com o tanto de ar que me foi dado. Aí esperei você sentar, sorrir, me olhar do jeito que eu já conhecia e perguntei logo de uma vez. Cadê sua namorada? E quase que não coube dentro da minha camisa xadrez, achei que ia sumir ali dentro enquanto você abaixava e sorria de novo, dessa vez desajeitado, e aí eu já sabia que ela ainda existia e ok, mais um erro, mais uma noite mais cigarros, quem sabe um maço deles e aí sim, pelo amor de qualquer coisa eu ia te largar pra sempre porque não é possível viver assim, colocando ar pra dentro o tempo todo. E com a falta dele mais ainda. E já estava quase me levantando, tentando esquecer o frio dentro da minha camisa xadrez e foi quando você disse:
- Eu não sei.
Ai eu pensei meu deus, você só pode estar brincando porque como assim não sabe, claro que você sabe. Aí eu queria logo de uma vez dizer pra você parar com isso porque eu não agüentava mais essa sua indecisão, ia ser pra sempre assim? fala logo então, diz que existe alguma coisa, ou para de falar comigo pra sempre e cospe na minha cara, qualquer coisa, qualquer coisa, mas não tira mais meu ar. Eu queria te dizer qualquer coisa assim mas só respondi de qualquer jeito
- Como assim não sabe?
- Não sei. Além do mais, namorada mesmo eu nunca tive. Não essa que você está se referindo.
Eu só te olhava.
- Tem ou não tem?
- Não tenho. Acho que não tenho. Não quero ter mais.
- Não?
- Cansei. Tava cansado. Vim pra cá, no meio dessa gente toda pra ver se descobria alguma coisa, se colocava alguma coisa dentro da minha cabeça. Tem me faltado tanto ar, você sabe como é isso? Daí te vi, e eu nem ia conversar com você, porque não agüento mais te magoar. Eu só faço isso. Eu sei que eu faço isso. Aí eu te vi fumando e eu sabia que era por minha causa. Aí fiquei pensando, minha nossa, o que eu fiz com essa menina? Você parecia tão diferente e daí eu precisava saber se era verdade mesmo. Essa sua diferença toda. Você ali, no meio daquela gente. Você não é assim, e aí eu quis te tirar dali, mas eu não tenho coragem de fazer mais nada com você, daí só puxei o assunto e apesar das roupas, do cigarro, desse seu cabelo e tal, você continua igualzinha. Sério, igualzinha. E eu acho que eu descobri, eu não quero aquilo mais.
Você ficou ali daquele jeito envergonhado, triste e sorrindo de nervoso. Com aquele sorriso mais lindo do mundo. Aquele que eu conhecia e aí eu não soube nem te falar qualquer coisa que fosse e nem fazer qualquer coisa que fosse e só te abracei, e só isso já foi um passo enorme, mas daí você pegou na minha mão e disse obrigada, obrigada por tudo isso que você fez por mim, e eu te juro que eu quase chorei. Aï você me perguntou se eu queria dar uma volta, sair dali e eu disse que claro, e quase ensaiei dizer que com você eu ia pra qualquer lugar que fosse, mas fiquei quieta, e só aceitei o convite e fomos então andar na rua, sei lá se era rua aquilo, ou um parque, eu sei que tinha um banco há uns metros dali e dava pra ver e aí você me disse se eu queria ir até lá e fomos, e fazia frio, e você de repente parou e me olhou e me abraçou. E era tão forte o abraço que eu pensei que meu deus, eu não queria sair de lá nunca mais, e eu sei lá por quanto tempo a gente se abraçou, eu sei que foi muito tempo. Ou nem foi. Mas parecia, era assim a eternidade. As camisetas xadrez se encontravam e formavam uma pessoa só, mas é claro que eu não pensei isso, é que vendo tudo isso agora eu penso que aquele foi o dia em que as camisetas xadrez iam formar uma pessoa só, naquela hora eu só pensei: "esse abraço é o meu abraço" e poderia ficar ali pra todo o sempre, mas a gente andou, se abraçou mais uma vez e chegou no banco, que foi quando eu descobri que seu peito era o meu peito e começamos a falar bobagens porque não cabia mais nada além de bobagens naquele sentimento tão grande.
- Me diz, desde quando você usa essas roupas?
- Desde sem-pre
- A blusa xadrez tá uma graça mesmo, mas essa calça não combina nada com você.
- Também acho, muito agarrada.
- Não por isso, você é magrinha. Mas não combina.
- Eu acho, muito agarrada. Tô usando essa blusa de menino pra cobrir a bunda.
- Hahahahaa, não disse? Igualzinha.- Pelo menos a minha calça é de vinil, ó, super chic. Não é couro barato, daqueles que ficam sobrando atrás da batata da perna, sabe como? paguei caro nessa merda.
- Tá bonita. Não combina com você, mas de muito bom gosto.
- Obrigada. Espero que agora você saiba o que é isso, boooom gooostooo!
E voce riu, e me abraçou como se fosse a última pessoa do mundo. Depois riu mais uma vez das minhas calças de vinil, falando que aquelas calças tinham bocas muito estreitas, olha aqui, olha isso, como você entra nessas coisas hein menina? daí eu disse que simples, porque sou magríssima, e assim, meio modelo. Aí você comentou que eu estava me achando demais e eu disse que não, que eu só estava feliz e no meio daquela felicidade não sabia falar de quase nada, daí tinha que falar das minhas calças, e além do mais faz um frio nesse lugar que a gente tem que ficar conversando. Aí você disse que não, que então a gente podia ir embora, além do mais estava tarde, vai que roubam a sua calça de vinil e aí você disse que eu podia entrar dentro da sua jaqueta e eu perguntei como fazia isso, e você disse que era simples, era assim ó, e abriu a sua jaqueta e me abraçou por trás e disse pra mim que agora a gente ia demorar três vezes mais pra chegar em casa (na minha ou na sua?) mas pelo menos não ia sentir frio. E eu disse que aquele momento merecia uma foto, a gente andando assim, tão desajeitado e disse que até tinha uma câmera na bolsa, será que sai a foto, e você disse que mesmo que mais ou menos ia sair e a gente ia saber que aquele foi o dia em que a gente de camisas xadrez e calças horrorosas passou uma das melhores noites da nossa vida e eu disse que poxa, vão ter mais e você disse que claro que ia ter mais muitos mais, mas aquele era o primeiro. Pelo menos assim, de nós dois. E nisso passa uma menina na rua e a gente pergunta se ela quer tirar a foto, mesmo sabendo que ela podia sumir por aí com a minha câmera, pra sempre e ela diz que tira sim e quase me derrubando com o seu desajeito e com o sorriso maior do mundo, seu e meu você disse.
- Tira essa foto agora que a minha menina tá linda aqui dentro de mim.
E eu soube, aquele homem era o meu homem. E eu, a menina dele. E tinha tanto ar e tanto amor dentro de mim que eu não respirava. De tanto. Mas pela primeira vez, era bom.

Eu, no meio daquela gente toda que não cheirava nada acendi um cigarro azul ou vermelho. Não lembro se tinha filtro. Não lembro que cor. Mas acendi. Fumaça entrando e saindo por todos os lugares. Pela garganta, pelo nariz. Por onde desse. Eu sempre fumei pra colocar ar dentro de mim. E não importa se era ar carbonizado, com mais de mil substâncias tóxicas. Que se foda isso. Faltava ar dentro de mim, muito ar, todo ar do mundo. Desde que você partiu. E quando você voltou lá estava eu colocando ar dentro de mim de algum jeito. Mas quando eu te vi acho que nem fumar mais eu sabia. E você ficou tão paralisado, tão me mostrando que aquilo não combinava comigo. E eu pensava que aquela merda também não combinava com você, porra. Claro que não. Principalmente aquela nicotina sem nome que cheirava a merda. E apaguei o cigarro, mesmo precisando de todo ar quente do mundo.
Você, a mesma calça jeans, a mesma camiseta e o mesmo tênis. Me olhando. Como se eu fosse um ET. Eu fumo também agora, caramba. E eu uso essas roupas cheias de "informação de moda". Eu também não sei porque. Eu também não sei porque você me idealizou tanto assim. Eu nunca soube porque você achava que eu era tanto assim pra você. Eu nunca fui. Eu sempre fui uma bosta de uma menina manipuladora, chata e até arrogante. Eu sempre fui menos inteligente que você. Agora eu nem quero saber o quão menos inteligente que você eu sou. Também não sei o quanto você embrurreceu. Vai ver agora a gente está do mesmo jeito. Burros e estúpidos. E fumando cigarros. Os meus caros, os seus baratos, mas com o mesmo câncer. Vai ver é isso, estamos adoecendo. Vai ver já estávamos doentes a muito tempo e não tínhamos nos dado conta. Faltam os livros, os filmes, os discos e as noites regadas a vinho e filme francês. Ou italiano. Longas discussões sobre filosofias que eu não entendia. Eu nem me lembro mais quando foi que isso se perdeu. Mas se perdeu. Que nem fumaça de cigarro. Só fica o cheiro.
O fato é que você me viu e ficou me olhando, como se pensasse que eu enfiava aquela fumaça tóxica dentro de mim por sua causa. E era mesmo. E eu quis te dizer: se eu tiver câncer, é culpa sua. Se eu morrer, sabe. E se você morrer, é culpa sua. Que não me ouviu. Culpa sua. Toda essa merda, culpa sua. Mas não disse nada, apaguei o cigarro, fiz cara de blasé e esperei que você me ignorasse. E você não ignorou. Eu sentei do seu lado, você me perguntou se eu fumava agora eu eu pensei "fumo sim, quero morrer de câncer, por sua causa". Mas não. Só sorri e disse que fumava as vezes, mas que tava tentando parar, que essa merda dá câncer na gente. Você concordou, disse que dava mesmo e que tinha parado também, que na verdade nunca gostou disso de fumar. O gosto, a fumaça, sei lá. Ai eu pensei em te dizer que todo mundo sabe porque você fumava, que era porque você tinha ficado burro que agora fedia merda. Mas também não disse, disse que ainda bem que você tinha se tocado, que isso não combinava nada com você e tudo mais. Essas coisas que eu digo pra você porque não tenho coragem nenhuma e quando eu vi eu já estava conversando com você do jeito que sempre fiz, cheio de risos e soquinhos, e você me respondia como se a gente se falasse todo dia, sei lá, e você nem fedia merda mais. Eu não sabia o que estava acontecendo e queria desesperadamente perguntar cadê, onde está a sua namorada, aquela merda toda de antes da gente se sumir assim, mas não tinha coragem porque ela bem que podia existir ainda, quer dizer, nada impede da gente se tratar cordialmente e termos namorados. Eu ficava pensando que dez minutos depois viria o momento em que você se daria por si e ia perceber que você estava me tratando bem demais só que você tinha alguém te esperando em casa, e daí não podia. Você já tinha feito isso algumas vezes e depois ficava eu e meus cigarros vermelhos, meus cigarros azuis, meus cigarros com gosto de menta botando pra dentro todo ar que você tinha mais ume vez levado com você. E ficava o cheiro de merda brotando.
Mas dessa vez eu não queria mais, nenhuma noite mais cheia de cigarros variados, aquela fumaça toda, cerveja, não sei. Não queria mais perder o ar. Eu já tinha acostumado a viver com o tanto de ar que me foi dado. Aí esperei você sentar, sorrir, me olhar do jeito que eu já conhecia e perguntei logo de uma vez. Cadê sua namorada? E quase que não coube dentro da minha camisa xadrez, achei que ia sumir ali dentro enquanto você abaixava e sorria de novo, dessa vez desajeitado, e aí eu já sabia que ela ainda existia e ok, mais um erro, mais uma noite mais cigarros, quem sabe um maço deles e aí sim, pelo amor de qualquer coisa eu ia te largar pra sempre porque não é possível viver assim, colocando ar pra dentro o tempo todo. E com a falta dele mais ainda. E já estava quase me levantando, tentando esquecer o frio dentro da minha camisa xadrez e foi quando você disse:
- Eu não sei.
Ai eu pensei meu deus, você só pode estar brincando porque como assim não sabe, claro que você sabe. Aí eu queria logo de uma vez dizer pra você parar com isso porque eu não agüentava mais essa sua indecisão, ia ser pra sempre assim? fala logo então, diz que existe alguma coisa, ou para de falar comigo pra sempre e cospe na minha cara, qualquer coisa, qualquer coisa, mas não tira mais meu ar. Eu queria te dizer qualquer coisa assim mas só respondi de qualquer jeito
- Como assim não sabe?
- Não sei. Além do mais, namorada mesmo eu nunca tive. Não essa que você está se referindo.
Eu só te olhava.
- Tem ou não tem?
- Não tenho. Acho que não tenho. Não quero ter mais.
- Não?
- Cansei. Tava cansado. Vim pra cá, no meio dessa gente toda pra ver se descobria alguma coisa, se colocava alguma coisa dentro da minha cabeça. Tem me faltado tanto ar, você sabe como é isso? Daí te vi, e eu nem ia conversar com você, porque não agüento mais te magoar. Eu só faço isso. Eu sei que eu faço isso. Aí eu te vi fumando e eu sabia que era por minha causa. Aí fiquei pensando, minha nossa, o que eu fiz com essa menina? Você parecia tão diferente e daí eu precisava saber se era verdade mesmo. Essa sua diferença toda. Você ali, no meio daquela gente. Você não é assim, e aí eu quis te tirar dali, mas eu não tenho coragem de fazer mais nada com você, daí só puxei o assunto e apesar das roupas, do cigarro, desse seu cabelo e tal, você continua igualzinha. Sério, igualzinha. E eu acho que eu descobri, eu não quero aquilo mais.
Você ficou ali daquele jeito envergonhado, triste e sorrindo de nervoso. Com aquele sorriso mais lindo do mundo. Aquele que eu conhecia e aí eu não soube nem te falar qualquer coisa que fosse e nem fazer qualquer coisa que fosse e só te abracei, e só isso já foi um passo enorme, mas daí você pegou na minha mão e disse obrigada, obrigada por tudo isso que você fez por mim, e eu te juro que eu quase chorei. Aï você me perguntou se eu queria dar uma volta, sair dali e eu disse que claro, e quase ensaiei dizer que com você eu ia pra qualquer lugar que fosse, mas fiquei quieta, e só aceitei o convite e fomos então andar na rua, sei lá se era rua aquilo, ou um parque, eu sei que tinha um banco há uns metros dali e dava pra ver e aí você me disse se eu queria ir até lá e fomos, e fazia frio, e você de repente parou e me olhou e me abraçou. E era tão forte o abraço que eu pensei que meu deus, eu não queria sair de lá nunca mais, e eu sei lá por quanto tempo a gente se abraçou, eu sei que foi muito tempo. Ou nem foi. Mas parecia, era assim a eternidade. As camisetas xadrez se encontravam e formavam uma pessoa só, mas é claro que eu não pensei isso, é que vendo tudo isso agora eu penso que aquele foi o dia em que as camisetas xadrez iam formar uma pessoa só, naquela hora eu só pensei: "esse abraço é o meu abraço" e poderia ficar ali pra todo o sempre, mas a gente andou, se abraçou mais uma vez e chegou no banco, que foi quando eu descobri que seu peito era o meu peito e começamos a falar bobagens porque não cabia mais nada além de bobagens naquele sentimento tão grande.
- Me diz, desde quando você usa essas roupas?
- Desde sem-pre
- A blusa xadrez tá uma graça mesmo, mas essa calça não combina nada com você.
- Também acho, muito agarrada.
- Não por isso, você é magrinha. Mas não combina.
- Eu acho, muito agarrada. Tô usando essa blusa de menino pra cobrir a bunda.
- Hahahahaa, não disse? Igualzinha.- Pelo menos a minha calça é de vinil, ó, super chic. Não é couro barato, daqueles que ficam sobrando atrás da batata da perna, sabe como? paguei caro nessa merda.
- Tá bonita. Não combina com você, mas de muito bom gosto.
- Obrigada. Espero que agora você saiba o que é isso, boooom gooostooo!
E voce riu, e me abraçou como se fosse a última pessoa do mundo. Depois riu mais uma vez das minhas calças de vinil, falando que aquelas calças tinham bocas muito estreitas, olha aqui, olha isso, como você entra nessas coisas hein menina? daí eu disse que simples, porque sou magríssima, e assim, meio modelo. Aí você comentou que eu estava me achando demais e eu disse que não, que eu só estava feliz e no meio daquela felicidade não sabia falar de quase nada, daí tinha que falar das minhas calças, e além do mais faz um frio nesse lugar que a gente tem que ficar conversando. Aí você disse que não, que então a gente podia ir embora, além do mais estava tarde, vai que roubam a sua calça de vinil e aí você disse que eu podia entrar dentro da sua jaqueta e eu perguntei como fazia isso, e você disse que era simples, era assim ó, e abriu a sua jaqueta e me abraçou por trás e disse pra mim que agora a gente ia demorar três vezes mais pra chegar em casa (na minha ou na sua?) mas pelo menos não ia sentir frio. E eu disse que aquele momento merecia uma foto, a gente andando assim, tão desajeitado e disse que até tinha uma câmera na bolsa, será que sai a foto, e você disse que mesmo que mais ou menos ia sair e a gente ia saber que aquele foi o dia em que a gente de camisas xadrez e calças horrorosas passou uma das melhores noites da nossa vida e eu disse que poxa, vão ter mais e você disse que claro que ia ter mais muitos mais, mas aquele era o primeiro. Pelo menos assim, de nós dois. E nisso passa uma menina na rua e a gente pergunta se ela quer tirar a foto, mesmo sabendo que ela podia sumir por aí com a minha câmera, pra sempre e ela diz que tira sim e quase me derrubando com o seu desajeito e com o sorriso maior do mundo, seu e meu você disse.
- Tira essa foto agora que a minha menina tá linda aqui dentro de mim.
E eu soube, aquele homem era o meu homem. E eu, a menina dele. E tinha tanto ar e tanto amor dentro de mim que eu não respirava. De tanto. Mas pela primeira vez, era bom.
Aquele abraço, era o meu abraço.
5.9.10
Justificando
É que eu quero dizer que eu só fiquei amarga assim porque eu estou triste, porque eu nunca, nunca senti tanto a falta de alguém assim na minha vida. É que eu perdi a única coisa que eu amei mais que eu mesma e desde que ele se foi eu não sei mais pra onde ir. E nem sentir eu sei mais. E nem viver eu sei mais. Sequei. Parti junto com ele e não sei quando (e se) volto.
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3.9.10
Você só tem tralha nesse seu coração.
Fazia muitos dias desde o dia em que ele se foi e ela só conseguia pensar "meu deus vocês são todos burros, tão indiscriminadamente burros, e desinteressantes, meu deus como são desinteressantes vocês…" e era isso que pensava na janela do quinto andar que dava para uma rua qualquer em São Paulo, Capital, cidade de ares vazios desde. Hoje, sexta feira, não havia bar ou companhia que a tirasse do pensamento isso "vocês são burros e desinteressantes, meu deus como são burros vocês…" e então lhe fazia companhia uma garrafa de cerveja alemã e nenhuma dignidade. Cerveja gelada, no bico, a janela e as meias sujas por vício vestindo os pés mas sem esquentar o coração - esse frio e desinteressantíssimo. E pensava então entre carros e luzes e aquele ar pesado de poluição que ele havia partido "ontem-mesmo" e depois repensava e relembrava que o ontem-mesmo já estava quase completando três anos inteiros e quem tinha ido embora na verdade tinha sido ela. Ela que havia deixado a cidade um dia com uma mala mais ou menos grande, cheia de roupas e sapatos e quase nenhum sonho. Deixou-o ali com o pensamento que percorreu cada pedacinho de linha amarela que formava o caminho até São paulo: "que seja feliz, por deus, que seja muito feliz você". Só pensava, pois foi embora sem se despedir, sem deixar endereço e fez questão de mudar todas as formas de comunicação possíveis, deixando apenas o velho e-mail e o telefone intactos, "pra quem sabe um dia". Pensava que um dia ele poderia lembrar dela no meio daquele monte de coisas que ela decidiu por bem nunca pegar de volta, e quem sabe comunicar-se e achou também muita pobreza de espírito sumir assim de vez e obrigá-lo a fazer uma imensa saga rumo a achar onde estava ela perdida, justo ela, que nunca quis se perder dele - pelo menos não assim, completamente.
E sabe-se lá porque, mas três semanas depois de terminar o último namoro deu de achar todo mundo burro e desinteressantíssimo, foi logo num dia que chegou cansada de viver e ligou pra um desses amigos ocasionais e tentou contar-lhe os problemas, mas ele ouvia a ela como quem ouvia a qualquer pessoa, e fez muito esforço em tentar ajudar - mas de jeito errado. Não que ela estivesse julgando o fato dele ter tentado ajudar, mas foi o "jeito-errado" que naquele dia lhe pesou como duas bigornas nos ombros. Se tivesse ligado pra "ele", "ele" provavelmente não faria nada de diferente, e pior ainda, nem ia fazer esforço em ajudar, mas ela ia sentir pelas linhas de fibras óticas de cabos de telefone que ele sentia um pouco da dor dela, e se compadecia. Então tentaria pegar-lhe na mão com medo de quebrar e ia ficar observando como quem observa um objeto estranho e raríssimo, e sem saber o que fazer não faria nada, mas ela se sentiria confortada pelo resto do tempo que sobrasse. Não sabia também ela porque deu de pensar nele depois de tanto tempo, de quere-lo depois de tanto tempo e de achar todo mundo desinteressante assim depois de tanto tempo. São Paulo tem tanta gente mais legal, mais interessante e até mais bonita que ele. Mais descolada, mais cheia de atitude e com tênis menos bregas. Gosto musicais menos fúteis, com uma noção melhor de valores e principalmente, menos influenciável.
Pensava nele e imaginava como deveria estar e até pensou "deve estar burro e desinteressantíssimo, como todos os outros que eu conheço". "Deve estar pensando em casar, juntar dinheiro pra comprar um carro popular, ou uma moto, nossa, ele tem tanta cara de quem compraria uma moto e carregando outra menina burra e desinteressantíssima pelo braço com o orgulho maior do mundo. É isso que ele deve estar fazendo agora. E planos, e mais planos e depois mais planos e tudo isso sendo nada bem sucedido, naquela cidadezinha onde todo mundo morre sem dinheiro a não ser que tenha nascido com ele. Se é que ele ainda mora naquela cidadezinha, mas deve morar." "Ah, deve morar" Foi isso que ela pensou e quase pensou de novo em ligar o computador e escarafunchar a vida dele, tentando descobrir cada pedacinho de vida que ele tinha agora, mas desistiu. Preferiu terminar a cerveja no copo de plástico sem nenhuma dignidade, ler alguma coisa e sonhar com ele procurando meio mundo atrás dela, tentando achar na agenda o telefone novo do celular dela que ele deve ter anotado em algum lugar e perdido. "Do jeito que ele perde as coisas, já deve até ter me perdido lá dentro dele. Acho que nem me acha mais", foi o que ela pensou, meio bêbada meio sóbria e achando a constatação completamente triste. "Ninguém se perde assim tão fácil dentro de alguém, e ele, poxa, ele não é tão imenso assim. Ele era até bem pequenino. Acho que eu era a maior coisa que ele guardava dentro dele. Só que ele não sabia, vai que ele nunca descobre o meu tamanho e não me acha mais, no meio das tralhas. Daquelas tralhas no coração dele." Foi nessa hora que ela pegou um pedacinho de papel e como quem escreve um bilhete endereçado a ele escreveu com letras enormes "CARA, VOCÊ GUARDA MUITA TRALHA NESSE SEU CORAÇÃO". E ficou olhando um tempo, pensando como ia ser engraçado se um dia ele lesse aquilo. "Muita-tralha-nesse-seu-coração, genial". "Mas guarda mesmo, só tralha tem naquele coração, eu devia chegar lá e dizer pra ele. TRALHA. é isso que você juntou nesses anos, UM MONTE DE TRALHA" . E ria toda vez que pensava nele ouvindo isso, nela falando de tralha. Pensava nele ficando um pouco mal, lembrando das tralhas e sentindo um pouco de vergonha de toda tralha que ele guardou ao longo dos anos, não agüentando nem olhar pra cara dela de tanta vergonha da tralha, daí ela diria "Não importa, sempre dá pra limpar, ou reciclar a tralha, você quer cerveja?" e aí ele aceitaria e bebericariam e ele ia demorar mais três anos inteiros pra dizer que ele desocupou o coração dele das tralhas e que ela podia morar lá agora, que tava limpinho. Depois riu e pensou "Ah, mas ele nunca falaria uma coisa bonita dessas, no máximo ia dizer alguma coisa parecida". E achando tudo muito engraçado e lembrando das pessoas desinteressantíssimas e burras, foi dormir logo depois de gritar "NEM TRALHA VOCÊS TEM NESSES CORAÇÕES DE VOCÊS, VOCÊS SÃO VAZIOS DEMAIS, É ISSO, VAZIOS DEMAIS". E foi, e se sentindo leve dormiu com a roupa do corpo pensando em um coração cheio de tralhas pra desentulhar.
Então no outro dia acordou, sem lembrar muito bem das tralhas que tinha pensado na noite anterior, e como de costume foi checar os e-mails. Três convites pra redes sociais, porcariada do trabalho, piadas "puta merda quem ainda manda piada no e-mail" e de repente um com um assunto inusitado "espero que esse ainda seja o seu e-mail". Nem olhou destinatário nem nada, só abriu e leu. Era uma coisinha pequena, umas quatro ou cinco linhas, que leu meio sem acreditar mas dizia assim:
Oi Fernanda,
Não sei se esse é seu e-mail ainda, eu espero que seja, o MSN eu sei que mudou. Mas é que eu precisava de um favor. Eu consegui um trabalho aí em são paulo, mas eu preciso ver se dá certo antes, e eu só sei de você que mudou pra aí. Pelo menos foi o que me disseram, que você mudou pra São Paulo, virou jornalista, eu li suas colunas esses dias, mas não tinha e-mail lá. Aï mandei pra esse, será que você podia me hospedar uns dias, quer dizer, se não for incomodar nem nada, ou pelo menos me indicar um lugar barato pra eu ficar aí em São Paulo? Eu vou logo na quinta, se você ler esse e-mail me liga é esse telefone aqui, senão eu me viro, morro esfaqueado qualquer coisa assim, mas me viro.
Beijos, Leonardo.
Não se conteve dentro dela mesma e só conseguia pensar "Deve ter desentulhado muita tralha pra ter lembrado de mim" e depois sorriu "ou eu que nunca deixei de ser grande". E respondeu a ele cordialmente, sem mencionar tralhas, ou blilhetes, e sem ao menos perguntar se ele estava burro demais, ou quem sabe, desinteressantíssimo. Só sabia assim, como quem tem certeza que ele tinha desentulhado as tralhas e que não vinha encontra-la portanto nenhuma menina burra e mega desinteressante pelo braço, senão não tinha mandado e-mail nenhum, tinha é alugado um muquifo com suas últimas economias e ficado por lá, depois dia dizer "ih, não sabia que você tava morando em são paulo, senão tinha te ligado", bem típico, por medo de perder a tralha que guardava no coração. Pois passaram-se três dias e ele chegou, de taxi, bem independente como lhe era de costume, mesmo com ela tendo falado mil vezes que buscava ele na rodoviária. "Vai ver ele achou que ia ficar desconfortabilíssimo a gente no mesmo carro, ele sem saber o que falar", daí mal ela assustou e ele chegou na porta dela, com aquela mesmo mochila de dez anos atrás nas costas e uma mala pequena, quase que dizendo "vou-embora-em-cinco-dias", e ela achou foi engraçado aquele jeito de cidadezinha que ele ainda tinha porque logo que chegou ele disse "nossa, como é grande aqui, não lembrava que era tão grande" e ela só sorriu e disse "ah, mas você se acostuma, logo fica pequenininha essa cidade, e chaaaata…" e então pegou as malas dele, botou no quarto, perguntou se ele queria café, ele aceitou, nunca recusou um café na vida. E então conversaram e conversaram e depois conversaram um pouco mais e ele então resolveu perguntar "mas você jura que eu não vou atrapalhar de ficar aqui, não sei, de repente você tem um namorado" e ela então sorrindo completou "Não, há três semanas atrás ia ter problema sim, mas agora eu já desentulhei tudo, não tem mais tralha dele aqui em casa, e nem no coração" depois, lembrando da última sexta feira disse ainda "além do mais, as pessoas aqui são chatas e desinteressantíssimas, vai ser bom, sabe, ter companhia". E passaram se dias, e depois de dividirem a mesma casa, sem perceberem estavam dividindo a mesma vida, as rotinas, os cafés e as pontas do sofá. Acostumaram-se. Um dia ele foi limpar os papéis na mesa dela, e enquanto pensava "meu deus, como é desorganizada essa menina, não sei como se acha aqui no meio dessa bagunça" e nisso encontrou um papel rosa, escrito em caneta preta bem rabiscado e em letras enormes "Cara, você guarda muita tralha nesse seu coração" e riu que não se agüentava, como era de costume, e então foi correndo perguntar pra ele que maluquice era aquela de tralha e coração, e ela no meio da cumplicidade que nem percebeu que tinha se (re)instalado disse "isso daí é pra você. Escrevi uns dias antes de sequer saber que você ainda lembrava que eu existia, achei que você tinha me perdido no meio das tralhas. Era genial, eu ia dizer bem gritando assim, olha aqui, tem muita tralha nesse seu coração, garoto!"
E então ele olhou pra ela, e ela percebeu que o olhar ficou sério, e na hora que ela ia rir e dizer que "não-tem-problema-tem-sempre-como-reciclar-a-tralha-quer-uma-cerveja?" ele abaixou a cabeça e disse "é, tinha mesmo" e ficou ali, estático, sem saber o que fazer, olhando aquela coisa enorme que morava dentro dele, mas que hoje estava fora, rindo e falando de tralhas. Ela pegou uma cadeira, sentou do lado dele, encostou no ombro e disse "tudo bem vai, não eram tralhas" e ele só respondeu "ah, eram sim, eu juntei um monte de tralha nesses anos… a única coisa que…" e abaixou a cabeça e então ela não podia deixar de pensar nele falando que agora tinha desocupado tudo e que tava limpinho, e que ela podia morar lá. Mas não disse nada e só completou "a única coisa que…?" e olhando pro chão ele disse "a única coisa que não era tralha ali no meio era você, e bagunceira do jeito que você é, você sempre aparece no meio de qualquer tralha que seja, não tinha como não te ver, garota.. Espaçosa…". E riu. Riu um riso tímido de quem não sabe falar de amor, mas sabe arrumar a bagunça e deixar a mesa com bilhetes engraçadinhos. Depois disso ela abraçou ele com gosto, e num soquinho disse "agora vê se não vai lotar de tralha tudo de novo, por favor, depois você não me acha mais" e totalmente confortável no abraço imenso dela, ele só completou "não, pode deixar, eu já descobri que meu destino é desocupar as tralhas pra você não se perder mais, dentro de casa… e no meu coração". E bebendo cerveja, sete sextas feiras depois daquelas, continua achando todas as pessoas burras, e desinteressantíssimas e resmunga, "vocês são muio burros, e desinteressantes, meu deus do céu como são desinteressantes" E de repente olha pra baixo e enxerga são paulo como um depósito, cheio de tralha. E olha pra sua mesa arrumada, ele dormindo no sofá e grita "vocês não tem nem tralha nesses corações de vocês, são vazios. EU TENHO O MUNDO" e deitada do lado dele, sente a paz, a eternidade enfim. Fodam-se as tralhas.
E sabe-se lá porque, mas três semanas depois de terminar o último namoro deu de achar todo mundo burro e desinteressantíssimo, foi logo num dia que chegou cansada de viver e ligou pra um desses amigos ocasionais e tentou contar-lhe os problemas, mas ele ouvia a ela como quem ouvia a qualquer pessoa, e fez muito esforço em tentar ajudar - mas de jeito errado. Não que ela estivesse julgando o fato dele ter tentado ajudar, mas foi o "jeito-errado" que naquele dia lhe pesou como duas bigornas nos ombros. Se tivesse ligado pra "ele", "ele" provavelmente não faria nada de diferente, e pior ainda, nem ia fazer esforço em ajudar, mas ela ia sentir pelas linhas de fibras óticas de cabos de telefone que ele sentia um pouco da dor dela, e se compadecia. Então tentaria pegar-lhe na mão com medo de quebrar e ia ficar observando como quem observa um objeto estranho e raríssimo, e sem saber o que fazer não faria nada, mas ela se sentiria confortada pelo resto do tempo que sobrasse. Não sabia também ela porque deu de pensar nele depois de tanto tempo, de quere-lo depois de tanto tempo e de achar todo mundo desinteressante assim depois de tanto tempo. São Paulo tem tanta gente mais legal, mais interessante e até mais bonita que ele. Mais descolada, mais cheia de atitude e com tênis menos bregas. Gosto musicais menos fúteis, com uma noção melhor de valores e principalmente, menos influenciável.
Pensava nele e imaginava como deveria estar e até pensou "deve estar burro e desinteressantíssimo, como todos os outros que eu conheço". "Deve estar pensando em casar, juntar dinheiro pra comprar um carro popular, ou uma moto, nossa, ele tem tanta cara de quem compraria uma moto e carregando outra menina burra e desinteressantíssima pelo braço com o orgulho maior do mundo. É isso que ele deve estar fazendo agora. E planos, e mais planos e depois mais planos e tudo isso sendo nada bem sucedido, naquela cidadezinha onde todo mundo morre sem dinheiro a não ser que tenha nascido com ele. Se é que ele ainda mora naquela cidadezinha, mas deve morar." "Ah, deve morar" Foi isso que ela pensou e quase pensou de novo em ligar o computador e escarafunchar a vida dele, tentando descobrir cada pedacinho de vida que ele tinha agora, mas desistiu. Preferiu terminar a cerveja no copo de plástico sem nenhuma dignidade, ler alguma coisa e sonhar com ele procurando meio mundo atrás dela, tentando achar na agenda o telefone novo do celular dela que ele deve ter anotado em algum lugar e perdido. "Do jeito que ele perde as coisas, já deve até ter me perdido lá dentro dele. Acho que nem me acha mais", foi o que ela pensou, meio bêbada meio sóbria e achando a constatação completamente triste. "Ninguém se perde assim tão fácil dentro de alguém, e ele, poxa, ele não é tão imenso assim. Ele era até bem pequenino. Acho que eu era a maior coisa que ele guardava dentro dele. Só que ele não sabia, vai que ele nunca descobre o meu tamanho e não me acha mais, no meio das tralhas. Daquelas tralhas no coração dele." Foi nessa hora que ela pegou um pedacinho de papel e como quem escreve um bilhete endereçado a ele escreveu com letras enormes "CARA, VOCÊ GUARDA MUITA TRALHA NESSE SEU CORAÇÃO". E ficou olhando um tempo, pensando como ia ser engraçado se um dia ele lesse aquilo. "Muita-tralha-nesse-seu-coração, genial". "Mas guarda mesmo, só tralha tem naquele coração, eu devia chegar lá e dizer pra ele. TRALHA. é isso que você juntou nesses anos, UM MONTE DE TRALHA" . E ria toda vez que pensava nele ouvindo isso, nela falando de tralha. Pensava nele ficando um pouco mal, lembrando das tralhas e sentindo um pouco de vergonha de toda tralha que ele guardou ao longo dos anos, não agüentando nem olhar pra cara dela de tanta vergonha da tralha, daí ela diria "Não importa, sempre dá pra limpar, ou reciclar a tralha, você quer cerveja?" e aí ele aceitaria e bebericariam e ele ia demorar mais três anos inteiros pra dizer que ele desocupou o coração dele das tralhas e que ela podia morar lá agora, que tava limpinho. Depois riu e pensou "Ah, mas ele nunca falaria uma coisa bonita dessas, no máximo ia dizer alguma coisa parecida". E achando tudo muito engraçado e lembrando das pessoas desinteressantíssimas e burras, foi dormir logo depois de gritar "NEM TRALHA VOCÊS TEM NESSES CORAÇÕES DE VOCÊS, VOCÊS SÃO VAZIOS DEMAIS, É ISSO, VAZIOS DEMAIS". E foi, e se sentindo leve dormiu com a roupa do corpo pensando em um coração cheio de tralhas pra desentulhar.
Então no outro dia acordou, sem lembrar muito bem das tralhas que tinha pensado na noite anterior, e como de costume foi checar os e-mails. Três convites pra redes sociais, porcariada do trabalho, piadas "puta merda quem ainda manda piada no e-mail" e de repente um com um assunto inusitado "espero que esse ainda seja o seu e-mail". Nem olhou destinatário nem nada, só abriu e leu. Era uma coisinha pequena, umas quatro ou cinco linhas, que leu meio sem acreditar mas dizia assim:
Oi Fernanda,
Não sei se esse é seu e-mail ainda, eu espero que seja, o MSN eu sei que mudou. Mas é que eu precisava de um favor. Eu consegui um trabalho aí em são paulo, mas eu preciso ver se dá certo antes, e eu só sei de você que mudou pra aí. Pelo menos foi o que me disseram, que você mudou pra São Paulo, virou jornalista, eu li suas colunas esses dias, mas não tinha e-mail lá. Aï mandei pra esse, será que você podia me hospedar uns dias, quer dizer, se não for incomodar nem nada, ou pelo menos me indicar um lugar barato pra eu ficar aí em São Paulo? Eu vou logo na quinta, se você ler esse e-mail me liga é esse telefone aqui, senão eu me viro, morro esfaqueado qualquer coisa assim, mas me viro.
Beijos, Leonardo.
Não se conteve dentro dela mesma e só conseguia pensar "Deve ter desentulhado muita tralha pra ter lembrado de mim" e depois sorriu "ou eu que nunca deixei de ser grande". E respondeu a ele cordialmente, sem mencionar tralhas, ou blilhetes, e sem ao menos perguntar se ele estava burro demais, ou quem sabe, desinteressantíssimo. Só sabia assim, como quem tem certeza que ele tinha desentulhado as tralhas e que não vinha encontra-la portanto nenhuma menina burra e mega desinteressante pelo braço, senão não tinha mandado e-mail nenhum, tinha é alugado um muquifo com suas últimas economias e ficado por lá, depois dia dizer "ih, não sabia que você tava morando em são paulo, senão tinha te ligado", bem típico, por medo de perder a tralha que guardava no coração. Pois passaram-se três dias e ele chegou, de taxi, bem independente como lhe era de costume, mesmo com ela tendo falado mil vezes que buscava ele na rodoviária. "Vai ver ele achou que ia ficar desconfortabilíssimo a gente no mesmo carro, ele sem saber o que falar", daí mal ela assustou e ele chegou na porta dela, com aquela mesmo mochila de dez anos atrás nas costas e uma mala pequena, quase que dizendo "vou-embora-em-cinco-dias", e ela achou foi engraçado aquele jeito de cidadezinha que ele ainda tinha porque logo que chegou ele disse "nossa, como é grande aqui, não lembrava que era tão grande" e ela só sorriu e disse "ah, mas você se acostuma, logo fica pequenininha essa cidade, e chaaaata…" e então pegou as malas dele, botou no quarto, perguntou se ele queria café, ele aceitou, nunca recusou um café na vida. E então conversaram e conversaram e depois conversaram um pouco mais e ele então resolveu perguntar "mas você jura que eu não vou atrapalhar de ficar aqui, não sei, de repente você tem um namorado" e ela então sorrindo completou "Não, há três semanas atrás ia ter problema sim, mas agora eu já desentulhei tudo, não tem mais tralha dele aqui em casa, e nem no coração" depois, lembrando da última sexta feira disse ainda "além do mais, as pessoas aqui são chatas e desinteressantíssimas, vai ser bom, sabe, ter companhia". E passaram se dias, e depois de dividirem a mesma casa, sem perceberem estavam dividindo a mesma vida, as rotinas, os cafés e as pontas do sofá. Acostumaram-se. Um dia ele foi limpar os papéis na mesa dela, e enquanto pensava "meu deus, como é desorganizada essa menina, não sei como se acha aqui no meio dessa bagunça" e nisso encontrou um papel rosa, escrito em caneta preta bem rabiscado e em letras enormes "Cara, você guarda muita tralha nesse seu coração" e riu que não se agüentava, como era de costume, e então foi correndo perguntar pra ele que maluquice era aquela de tralha e coração, e ela no meio da cumplicidade que nem percebeu que tinha se (re)instalado disse "isso daí é pra você. Escrevi uns dias antes de sequer saber que você ainda lembrava que eu existia, achei que você tinha me perdido no meio das tralhas. Era genial, eu ia dizer bem gritando assim, olha aqui, tem muita tralha nesse seu coração, garoto!"
E então ele olhou pra ela, e ela percebeu que o olhar ficou sério, e na hora que ela ia rir e dizer que "não-tem-problema-tem-sempre-como-reciclar-a-tralha-quer-uma-cerveja?" ele abaixou a cabeça e disse "é, tinha mesmo" e ficou ali, estático, sem saber o que fazer, olhando aquela coisa enorme que morava dentro dele, mas que hoje estava fora, rindo e falando de tralhas. Ela pegou uma cadeira, sentou do lado dele, encostou no ombro e disse "tudo bem vai, não eram tralhas" e ele só respondeu "ah, eram sim, eu juntei um monte de tralha nesses anos… a única coisa que…" e abaixou a cabeça e então ela não podia deixar de pensar nele falando que agora tinha desocupado tudo e que tava limpinho, e que ela podia morar lá. Mas não disse nada e só completou "a única coisa que…?" e olhando pro chão ele disse "a única coisa que não era tralha ali no meio era você, e bagunceira do jeito que você é, você sempre aparece no meio de qualquer tralha que seja, não tinha como não te ver, garota.. Espaçosa…". E riu. Riu um riso tímido de quem não sabe falar de amor, mas sabe arrumar a bagunça e deixar a mesa com bilhetes engraçadinhos. Depois disso ela abraçou ele com gosto, e num soquinho disse "agora vê se não vai lotar de tralha tudo de novo, por favor, depois você não me acha mais" e totalmente confortável no abraço imenso dela, ele só completou "não, pode deixar, eu já descobri que meu destino é desocupar as tralhas pra você não se perder mais, dentro de casa… e no meu coração". E bebendo cerveja, sete sextas feiras depois daquelas, continua achando todas as pessoas burras, e desinteressantíssimas e resmunga, "vocês são muio burros, e desinteressantes, meu deus do céu como são desinteressantes" E de repente olha pra baixo e enxerga são paulo como um depósito, cheio de tralha. E olha pra sua mesa arrumada, ele dormindo no sofá e grita "vocês não tem nem tralha nesses corações de vocês, são vazios. EU TENHO O MUNDO" e deitada do lado dele, sente a paz, a eternidade enfim. Fodam-se as tralhas.
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