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27.5.13

eu também sei dançar se não for com você

Foi ele que me fez dançar de novo. Coisa besta dessas, pensei enquanto descia do carro, numas das mil e uma vezes em que ele me deixou em casa. Às vezes as pessoas ficam na vida da gente e a gente não percebe. Custei a perceber que foi ele que me ajudou a encarar aqueles dias horríveis de cinza e medo, enquanto me levava pra passear nos lugares conhecidos da minha cidade velha. Nem sei se ele dançava, antes de mim. Imagino que não, acho que lembro de uma vez em que ele me disse que fazia anos que estava aqui, mas nunca tinha ido em lugar de dançar. Fomos em lugar de dançar, e você dançava esquisito e daí eu podia dançar esquisito também. Não lembro, antes dele, quando é que tinha dançado. Talvez com um outro, um pouco antes dele, é verdade, que me fez dançar na sala. A gente só se beijava quando dançava, coisa esquisita. Mas depois desse veio um outro, que não me fez dançar e não me fez feliz, e aí eu parei de dançar. Parei de gostar de mim, também. E aí ele apareceu e aos poucos foi me fazendo dançar de novo. Foi ele que me fez dançar de novo. 

A vida é cruel. Sentada no meu quarto, depois de uma longa viagem, percebo o mundaréu de coisas que a gente deixa pra trás. Nas gavetas da escrivaninha, o manual da câmera que meu tio me deu logo que eu comecei a tirar fotos. A câmera empoeirada, num canto, com o filme da minha última viagem pra Curitiba. Nunca mais fotografei nada, eu disse assim, baixinho pra mim, como quem conta um segredo triste. Perto das câmeras, meus trinta e poucos livros não lidos. Não lembro quando, exatamente, eu parei de tirar fotos ou de ler livros. Só sei que aconteceu. Aconteceu eu, ali, perdida na vida e de frente pro meu computador querendo achar um sentido qualquer pra existência e falhando miseravelmente. Quietinha embaixo das cobertas, no frio, um ano atrás, eu não tinha vontade de viver. Só sabia escrever. E sei que escrevia porque esse era o meu único jeito de dizer que eu ainda existia. Existência besta, eu sei; mas ainda existência. Depois que tudo aquilo aconteceu eu me perdi de mim. Eu não sabia dançar, eu não sabia ler, e eu nunca mais tirei nenhuma foto. Numa pasta velha no meu computador, encontro fotografias de shows que eu fui. O mundo visto através das lentes ruins da minha câmera ruim. A voz do meu tio me perguntando a quantas anda a fotografia e eu respondendo baixinho, como quem sentencia uma morte: nunca mais fotografei. Nunca mais. 

Foi esse ano que voltei a dançar e que, timidamente, voltei a ler alguns livros. Concentração me falta, e vez ou outra eu prefiro mesmo ficar na internet perdendo tempo com a vida das pessoas que não são eu. A vida dos outros não é melhor que a minha, mas tem como grande qualidade: não ser a minha. Estive bem. Estive tão bem que parei de falar de mim. Não precisava, não tinha o quê e o mundo parecia ter, agora, algumas nuanças. Eu tinha voltado a dançar com ele. Eu, ainda que devagar, ia riscando a lista de livros a ler. Ia vivendo. Não era ainda o melhor jeito de viver, mas era um jeito. Um jeito meu. No meio disso tudo até peguei a câmera de novo e tentei tirar umas fotos, acho que uma orquestra, não lembro bem. O filme deve estar velho e é bem capaz que ao revelar amarele ou queime tudo. Não importa. É um pequeno registro de quando eu voltei a ver. Voltar a ver é importante. Voltar a ser, parece imprescindível.

Uns dois meses atrás - talvez menos, não me lembro bem -  entretanto, as coisas voltaram feito filme de terror. A mesma história. De novo, aquilo, a mesma conversa. Que saco sou eu que não sei viver a vida que nem gente, sempre nos meus tempos estranhos, na minha falta de planejamento e urgência, nos meus livros não terminados. Que saco sou eu, sempre andando em círculos, sendo pouco atraente, com o cabelo estranho, seco, toda fora de compasso e sempre conferindo o sentido certo do metrô. Merda de cidade enorme em que a gente chora no meio da rua e ninguém percebe. De novo eu chorando na rua e me perguntando porque é que eu me maltratava assim? Desci dois pontos antes do que devia de medo de não chegar no lugar certo. Minha ansiedade ainda ia me matar. Um dia ainda mata, essa merda que não sei controlar ainda. Mata também essa urgência besta de querer ser feliz e se atrapalhar, sempre atravancada pela vontade dos outros. Tudo de novo. O quarto escuro, o sono que não passava, uns tremeliques que vinham do nada. Eu, encolhida entre cobertores paraíba, numa cidade que nem frio fazia, chorando de vontade não viver nunca mais. E lá na escrivaninha se formavam de novo pilhas de livros que não lia mais e uma câmera que empoeirava. Eu já não queria que ninguém me tirasse pra dançar. Tudo chato, não adianta, eu sou um desastre. Queria dizer pra todo mundo ir embora de uma vez. Eu não ia dar certo. Não tinha como. Não tinha como alguém descompassada como eu dar certo. Era necessário que todos soubessem logo disso. Eu ia gritar pro mundo: eu sou um fracasso. Era isso, fracasso. Nunca terminarei de ler um livro, que dirá escrever meu próprio, e sou um fracasso.

Os dias iam passando feito assombração. Era tudo lento, tudo triste, tudo cinza. Cinza feito as olheiras imensas que iam se formando embaixo dos meus olhos que agora já tinham voltado a ser tristes. Tudo vai indo porque tem que ir. Eu não queria dançar. Não queria fotografar. Não queria saber o fim dos livros que comecei. Não queria nunca mais aprender alemão. Nem francês. Nem nada. As pontinhas dos meus dedos formigavam e no coração tinha uma espécie de peso que é difícil de explicar. Eu queria que tudo isso desse um conto bonito, mas eu não conseguia escrever. A duras penas ia completando as minhas atividades, até que as coisas foram ficando mais leves. No começo da semana ele tinha me levado pra dançar. Meus coturnos pesados atrapalhavam tudo, mas ele tinha esse jeito torto de me fazer sorrir no meio da tragédia. De vez em quando a gente tinha que perder a hora dos compromissos do outro dia. Fiz tudo que devia. Ia renascendo no meu tempo, mas ia. Sou meio desorientada, mas ia dar conta. Estava dando. Tudo parecia leve. Eu ia suportar. Até que vem tudo de novo. O mesmo inferno. As mesmas brigas. Você é louca você é louca você é louca sendo repetido como um mantra. Eu quase acreditei. Eu era louca mesmo, não era? Por que é que eu me maltratava assim? Não sabia responder. Olhava pra sacada tentando entender tudo aquilo que ele tinha me dito e o mundo rodava esquisito. O mundo não girava. Era isso. O mundo tinha empacado de novo e eu tinha ficado. Besta. Sou cheia de bestagens. Eu era um fracasso. Era isso, eu ia fracassar de novo. Perdida em pensamentos e naquelas mesmas desilusões no dia de começar de vez um projeto. Adeus, mestrado. Adeus. Eu te deixei por conta de uma desilusão. Chorava feio, daqueles choros de criança sentida. Até soluçava. Não era possível. Mais uma vez. A gente cansa de se reerguer. Eu já tinha decidido: nunca terminarei nada e sou um fracasso. 

Ia ser mais uma nas coisas que eu deixei pra trás. Sonhos ali empilhados na estante junto com uma máquina com filme pela metade e uma porção de livros que pouco me interessa o final. Tudo inacabado, feito eu. A única coisa que eu conseguia sentir era dor. Punhal enferrujado no coração devia doer uma dor feito aquela. Desilusão. Mais uma pra botar na estante. De novo. O inferno. Tudo que lembro daquele dia foi ter me enfiado numa cama qualquer com um desses caras de sempre e quase ter chorado baixinho no começo de tudo. Mas depois gozei. Acho, nem lembro. Só lembro dele me dizendo que ia ficar tudo bem enquanto me dava suco pronto de maracujá. Desses de pozinho. Era tudo que eu precisava, no fim das contas. Aí decidi que não dava pra negligenciar a vida por mais um ano. Fui lá e fiz. Chorando, mas terminei tudo que tinha que fazer. De novo estava eu naquela cidade chata carregando documentos e subindo ladeiras. Conferindo no mapa o sentido do metrô. Dóia um pouco ainda. Lá dói um pouco mais. Inferno de cidade empacada. Mas eu ia sobreviver. Ia colocar a desilusão do lado das coisas que eu não uso mais, ali na estante. Estante das desilusões. Era problema de quem esperava demais da vida. Certamente. Depois tudo foi indo. Às vezes doía, mas doer acaba que dói sempre. Não era a primeira vez. Era isso: não era a primeira vez. 

Deve fazer um mês, mais ou menos - talvez menos, não me lembro bem. Sei que faz uma semana que voltei de viagem e percebi o mundaréu de coisas que a gente deixa pra trás. Meus livros, minha paixão pela fotografia, minha mania de dançar, meu gosto pelo futebol e minha vida. Lá estava eu deixando minha vida pra trás mais uma vez. Que perigo. Aí resolvi que não dava. Voltei com os livros, prometi deixar tudo em ordem, acordar cedo. Não dá pra ficar fazendo doer pra sempre. Por que é que eu me maltratava assim? Seja o que for, se um dia valeu, hoje não vale mais a pena. Daí dei de andar na chuva, dar trela pra desconhecido, sair pra dançar sempre que der e ler antes de dormir. Quando tiver tempo volto a fotografar também. Fiquei sabendo de gente que comenta futebol. Voltei a ver futebol. Ouvi que é muito legal que eu saiba sobre diversos assuntos. Começo a achar engraçado o espanto que, de quando em vez, meu cabelo causa. Sei que sou perdida e louca. Aceitei. Gosto de mim assim, mesmo que esse "ser assim" me cause formigamentos nas pontas dos dedos. Dia desses andei na chuva, descabelada, ouvindo música. Sozinha. Sou, primordialmente, uma pessoa sozinha. Sorri baixinho, como quem descobre um grande segredo. Quase chorei de levinho quando me li comentando futebol de novo. Senti leve orgulho de conseguir ler meio livro em dois dias. Volto a ser eu. Dia atrás ele me fez dançar de novo. Sou feliz quando danço com ele, coisa besta dessas pensei descendo do carro e aí quase pensei que talvez, quem sabe, ele fosse a escolha certa a se fazer e que a escolha às vezes está mais perto do que imaginamos, o grande clichê. Mas ele não é a única pessoa que dança no mundo, e talvez essa seja a grande chave de tudo. Tem muita gente pra dançar comigo no mundo. E pensando assim, sei que volto a ser livre, como sempre fui. Percebi o mundaréu de coisas que a gente deixa pra trás. No meio delas, estava eu. E aí eu me fiz dançar de novo. 

14.6.12

and anything that makes you, you.

John Fante tem um livro chamado "1933 foi um ano ruim". Meu ano de 2012, excluindo algumas partes, poderiam dar um livro com esse título. Todo momento de crise é, também, um momento de auto descobrimento. Quando sento no meu quarto de paredes beges completamente descascadas (tinha nelas fotografias coladas que arranquei num desses momentos de auto descobrimento e com a fita saiu também a tinta, o que culminou numa parede bastante - mas bastante mesmo - descascada), percebo que cheguei ao fim de um ciclo estranho que poderia ter me levado pra outros caminhos, mas não levou. Não digo isso com pesar. Digo até com um certo alívio. Estive num período de euforia bastante complicado. É muito estranho não saber o que se quer já que, quando não se sabe o que se quer, teoricamente, qualquer coisa serve. O gato da alice já diria que, quando você não sabe pra onde ir, qualquer caminho serve. Quase me enfiei num emprego qualquer, aluguei um apartamento qualquer e fui viver os riscos que a vida podia me oferecer. Eu sei, eu sei, eu não morreria. Meu vô continua certíssimo em dizer que só se morre quando tem que morrer e, talvez, eu pudesse ter usado todo esse erro como aprendizado lá pra frente, e curado minhas crises com um porre ou outro no meu apartamentinho pequeno na grande São Paulo.

Mas daí o emprego não vingou, e quando eu tinha resolvido procurar tudo com um pouco mais de afinco, a vida veio de viés. Por algumas semanas, talvez meses, eu quis maldizer a vida - e a mim mesma - por tudo que aconteceu. Não é justo afinal que, toda vez que a gente pareça ter achado um caminho, ela chegue com os seus caminhos irônicos e nos mande pra longe. Não era a primeira vez que a vida tinha me pregado peças. É claro que eu já caí de cara no chão milhares de vezes, e levantei. De nariz sangrante, mas levantei. Não seria diferente dessa vez. Não seria, mas foi. Tudo foi se acumulando de um jeito meio louco. Perdi o emprego, não sabia mais se era aquilo mesmo que eu queria. Fui pra outra cidade, conheci outras pessoas, ensaiei outras possibilidades. Tudo sem muita certeza. Eu não sabia o que eu realmente gostava e quase sempre aceitava as sugestões dos outros sobre o que comer, ou a que lugar ir. Aceitava, inclusive, sugestões sobre a minha vida. Se me diziam que talvez fosse melhor ir por ali, eu cogitava ir por ali. Decorei poucos caminhos, comi coisas que nem gostava tanto assim, frequentei lugares por hábito e fui indo. Barquinho na correnteza. Desacreditei da minha capacidade milhares de vezes. Tinha dificuldade em listar meus escritores preferidos. Não sabia quem (ou o quê) eu gostava mesmo de ouvir. Meu estilo de roupas acabou ficando uma coisa meio editorial de moda, nada original. Tudo que eu estava sendo eu via nos outros. Não via mais filmes. Lidava com gente que nada tinha a ver comigo porque eu tinha me tornado adaptável. Eu ria de piadas que eu não achava graça e cogitei seriamente parar de esfumar o canto do olho. A maquiagem que eu usava tinha aprendido num tutorial da internet. Eu não falava muito de mim. Eu não pensava muito em mim. Eu corria todas as manhãs ouvindo músicas pop que me distrairiam da vida. Eu corria 10km por dia e não conseguia encontrar nada, nem me livrar de mim mesma. Eu nunca soube que sabor de café do starbucks eu gostava mais. Eu não sabia sequer se eu gostava mesmo de starbucks. Ou das minhas roupas. Ou da padaria. Ou de londrina. Ou da minha pós graduação. Ou do jeito que me tratavam. Eu pintei meu cabelo de loiro e deixei crescer. Eu e as minhas roupinhas do sartorialist. Um copinho de starbucks na mão. Uma identidade paulistana que eu criei.

Em São Paulo, saibam, todo mundo é passível de ser confundido com um morador nativo porque tem tanta gente que ninguém tem cara de nada.

Daí eu perdi a última coisa que eu ainda tinha. Desastrosamente. Eu me distanciei tanto de mim que eu nem sabia mais quando eu estava ou não feliz. Podia ser qualquer coisa. Podia morar em qualquer lugar, comer qualquer comida, apreciar qualquer vinho. Me vestir do jeito que soasse mais interessante. Eu editoraria livros, se fosse o caso. Ou trabalharia no jornal. Ou seria social media. Designer Gráfica, quem sabe? Webdesigner. Assistente de usabilidade. Fazer aplicativos pra dispositivos móveis. Mandar textos para vagas de redatora. Escrever pequenos contos e tentar as revistas femininas. Vomitar uma casa inteira e continuar ouvindo arctic monkeys na sala. Sair no outro dia como se nada tivesse acontecido. Me vestir de hipster em meio aos hipsters. Cantar todas as músicas de uma banda que nunca foi a minha banda preferida. Me portar como se nada nunca tivesse me pertencido. Voltar pra casa e entrar num buraco negro tão profundo que ficava difícil acreditar que fundo do posso tem alguma coisa a mais que subsolo.

O fundo do poço tem muitas casinhas. Inúmeras casinhas. Quartos fechados com monstros que você nunca imaginou que existissem dentro de você. Nas portinhas do fundo do poço tem pânico. Tem compulsão. Tem culpa. No fundo do poço só tem apatia. Mais nada. Amor? Não tem. Raiva? Também não. Arrependimento? Não tem também. Tem só apatia e desespero. Um desespero tão grande que te faz pensar se um dia você vai mesmo sair dali. Você sobe alguns degraus, depois. Nesses as portinhas te assombram com tudo aquilo que te fez mal. A não identidade do sujeito cria um sujeito frankstein. Milhares de pedacinhos remendados. Chega uma hora que os remendos doem. Tudo aquilo que eu passei por cima pra agradar, ou simplesmente por não saber o que fazer me doia. Eu tinha sido mutilada. Ninguém me forçou, ninguém colocou uma arma na minha cabeça. Ninguém me estuprou, mas estupraram. A cada vez que eu fiz algo que não era exatamente meu, eu fui violentada. Chegou uma hora que eu tinha noção que a violência era tanta que o simples fato de me olhar no espelho me deixava estranha. Teve uma vez, num dos meus únicos episódios de bebedeira, em que eu tomei um drink com algumas coisas. Não se sabe que coisas eram essas, mas tudo que eu me lembro era de me olhar no espelho e sentir que a minha cara estava derretendo. Toda vez que eu colocava a mão no meu rosto, ao olhar no espelho, eu me sentia colocando a mão no rosto de outra pessoa. A pessoa que eu via minha mão tocar no espelho não era eu, era outra. Pois bem, eu também não era eu: era outra. Uma outra qualquer.

É claro que essa conclusão não veio assim, tipo foguete. Não se saber é um troço muito dolorido. No começo eu não queria nem sair da minha cama. Depois comecei a me culpar. Eu devia estar bem sucedida, sabe? Todo mundo faz alguma coisa. Todo mundo sabe se portar. Algumas vezes eu pensei em arrumar um emprego qualquer, só pra fazer parte de algo. Outras vezes eu pensava em mudar de vez pra aquele ser centrado e organizado que exigiram que eu fosse. Tinha vezes que eu queria pedir desculpas publicamente por ser uma bagunça. E era aí que eu continuava sentadinha no sofá da minha sala com meu pijama sujo de comida. Nas últimas semanas, eu subi um tanto mais pra borda do poço. Daí percebi que, antes de tudo, eu sou uma pessoa. Ok, isso soa débil. Uma pessoa independente de qualquer outra coisa. Eu tenho gostos que formei, maneiras de me portar, tiques nervosos, traços de personalidade herdados genéticamente, gostos muito próprios, um humor construído ao longo de vinte e poucos anos. Bagagens. Sofrimentos vários. Sonhos. Planos pro resto da vida. Coisas que me fazem sorrir. Gente que eu admiro. Lugares que amo e lugares que detesto. Eu quero ser feliz também, como todo mundo quer.

Só que pra ser feliz a gente não pode ficar sendo estuprada por aí. Os fluidos dos gostos de alguém, ou daquilo que esperam que eu seja, não podem entrar assim, indiscriminadamente, pelo meu corpo. Foi aí que eu descobri que eu nunca soube de verdade se eu queria mesmo mudar pra São Paulo e resolvi me ater ao presente. O presente inclui o que eu tenho que fazer. Eu tenho que fazer uma monografia pra um TCC de pós graduação que, pra uma menina de 23 anos é um avanço bastante grande, obrigada. Eu realmente não sei se eu quero mesmo trabalhar com design. E enquanto eu não souber, eu pretendo ficar quieta. Eu não sou uma fracassada, sabe. Eu sou um pouco espontânea, eu escrevo razoavelmente bem (embora eu erre bastante as vírgulas), as pessoas costumam gostar bastante de mim. Eu posso esperar seis meses pra começar a construir uma carreira, seja ela qual for. Daí eu mudo de cidade. Ano que vem sim, mudarei de cidade. Eu não preciso me vestir igual um ediorialzinho de moda o tempo todo. Eu não sou uma bagunça, e eu tenho todo o direito de ser desajeitada. Todo mundo quebra seus copos de vez em quando e isso não torna ninguém pior ou melhor. Eu ainda gosto muito de cinema. E de literatura. E de futebol. E de redes sociais. E estou muito, mas muito feliz em ser (ainda) essa mulher de ideais feministas que não se submete a qualquer coisa. Eu assisto tv, eu desmembro meus lanches todos ao comer, eu tenho preguiça de ler alguns livros, eu não sei dizer que tenho saudades, eu ainda sou péssima em fazer convites. Eu falo alto demais, rio alto demais, uso gíria de gay demais. Meu escritor preferido continua sendo o mutarelli, meu roteirista preferido continua sendo o kaufman. Minha banda preferida continua sendo o Oasis. Eu ainda amo o chico buarque. Eu sou uma escritorazinha de merda, mas tenho devaneios de grandeza. Isso sou eu, sabe. Precisa de ajustes (porque sempre precisa), mas sou eu. Tudo isso me constrói. Eu tenho 23 anos, e olha, eu não sei exatamente o que eu quero da minha vida. Porque eu acho que ninguém sabe exatamente. Sair correndo louca atrás de um propósito não vai me fazer melhor. Só vai fazer com que eu visite o fundo do poço mais frequência. Eu visitei ele esse ano. Eu estraguei bastante a minha vida, mas podia ter sido pior. Tudo é um ridículo aprendizado. E todo aprendizado, eventualmente, consiste em descascar paredes. O tempo destrói tudo - e reconstrói tudo depois.

Eu podia ter morrido, mas eu continuo aqui. Todos nós sobrevivemos. A grande verdade é que a gente não sabe da gente quando se olha no espelho, o espelho nos mostra invertidos. A gente sabe da gente quando olha pra dentro. No fundo do poço. No silêncio. Mutarelli diria que a vaidade destrói tudo. Eu diria que a vida também destrói. E constrói mais uma vez. O eterno retorno. A leminscata. No meu quarto de paredes sem tinta eu chego à conclusão derradeira: eu estou exatamente onde eu deveria estar agora.


20.3.12

se chega é pra dizer: vou embora.

Me olho no espelho repetidas vezes. Esse rosto com esse cabelo não é meu. Identidade é um conceito flutuante, não é? Nunca soube quem eu sou. Nem loira, nem morena, nem ruiva. Hoje só estou cansada. De existir. Ouvi uma música hoje, depois de dois anos dela dedicada pra mim e só agora fui entender o que ela significava. Hoje, quando a gente não se ama mais. Se é que eu te amei um dia. "Guess how much I love you? Much more than that". De fato, ele me amava mais. Bem mais do que eu imaginava. Mas eu quis duvidar. Eu o amei bem pouco. Uns quatro ou cinco meses. Apaixonadamente. Depois virou amor. Depois amorzinho. Depois descobri o amor da minha vida ali do lado, e hoje nem amor da vida eu tenho mais. Não fazemos mais sentido. Tanto não fazemos sentido que ontem vi o amor da vida numa foto com a garota dele e quis desejar felicidades. Ele era um cara legal, ela faz ele feliz, ele merece. Só que ele ia me achar louca. Desejei baixinho: que sejam felizes. Não tem mais rancor. É a vida. "Não era pra ser". Queria meus livros de volta. Os meus malditos livros com as anotações, porque sou egocêntrica. E o pequeno príncipe da minha mãe com as minhas anotações infantis, mas foda-se. Sei lá onde ele enfiou essas coisas. Vai ver escondeu. Penso em comprar esses livros de novo. Pela primeira vez deixo de acreditar na estante compartilhada dos livros que o destino iria juntar. Procurar novos exemplares dos livros que ficaram com ele é a maior prova de que ele não existe mais em mim. Nem ele, e nem o sonho de uma estante compartilhada. Nada existe.

Nada existe e é mais difícil viver assim. Estou completamente sozinha. O fantasma do amor da vida não me assombra mais. Não comparo com os referenciais de outrora. Se alguém me deixar, o destino não vai me juntar de novo com o "amor da minha vida", porque já não existe ninguém ocupando esse posto mais. O amor da minha vida não era o amor da minha vida. É o amor da vida dela. Dá pra ver. Eles saem bem nas fotos e tem gostos parecidos. Nem tão parecidos assim. Mas não é disso que são feitos os amores. Os amores são feitos de atrações inevitáveis, e eu devia ter desconfiado que o amor tinha acontecido de verdade pra ele desde o dia que ele me deixou chorando na cadeira e foi embora com ela. Se ele me amasse, teria me buscado na cadeira. O amor da vida volta e busca a gente na cadeira chorando. Mas ele pegou ela pela mão e foi viver a vida dele. Hoje estão felizes. Difícil é ver que eu demorei quase dois anos processando o luto. Tudo bem que ele está mais magro, e mais feio, mas isso também pode ser porque eu não enxergo mais ele com os olhos do encantamento. Acabou-se. O amor da minha vida não era esse, esse é o amor da vida dela. E o amor da minha vida, quem será?

Me faço essa pergunta e acho uma bobagem. Às vezes queria voltar a ter 21 anos e estar naquela cadeira chorando por ter perdido meu grande amor. Tudo parecia mais puro quando eu tinha algo em que acreditar. Isso soa clichê. E babaca. Mas é pra ser assim mesmo. Hoje perdi a vontade. Sei que perdi a vontade quando repito baixinho pra mim mesma "o amor da vida não existe". Às vezes até caio na máxima aquariana de dizer que "todo mundo que passa pela nossa vida é um pouco o amor da vida da gente", mas fiquei velha pra isso. Velha pra isso e pra aquele ideal louco de liberdade que me encantava há alguns anos (ou meses) atrás. Preciso um pouco de coisas concretas. Coisas palpáveis. Coisas ditas de verdade. Canso de tentar entender o que me dizem no meio das entrelinhas. Não tem mais beleza nisso. Disse pro tal amor da vida uma vez, que ele não sabia brincar de amor e que eu estava muito velha pra ensinar, e que portanto deveriamos botar as coisas às claras logo de uma vez. Ou nos perderíamos. Não botamos as coisas às claras, mas acho que nos perderíamos de qualquer jeito. Hoje me sinto mais velha ainda. E mais cansada. Acho que qualquer pessoa vai se perder de mim de qualquer jeito. Até o amor da minha vida, se ele existir. Ele vai me ver sentada na cadeira chorando e eu vou sair correndo. Não acredito mais em nada. Nem em mim eu acredito. Sinto uma coisa e depois não sei exatamente o que foi isso, daí desacredito. Lido com tudo como se fosse acabar no momento seguinte, porque eu acho que vai. Não acredito que ninguém seja capaz de me amar e acho que tudo está fadado a estar perdido desde o princípio. Tenho medo. Desde aquele dia, naquela cadeira, tenho muito medo da vida. Fui abandonada chorando da única vez que resolvi admitir que amava de verdade. Não sei se aguentaria se acontecesse de novo. Sempre acho que o passo posterior a admitir que eu amo alguém verdadeiramente é ser abandonada numa cadeira. Chorando. Enquanto o ser em questão sai de mãos dadas com o verdadeiro amor da vida dele. Não tenho mais coragem.

Quando eu achava que ele vinha me buscar na cadeira era mais fácil. Desilusões atrás de desilusões porque eu tinha que continuar naquela cadeira esperando o dia em que o amor da minha vida viesse me buscar. E agora que eu sei que não é ele, como se procede? Não tem cadeira nenhuma pra continuar esperando. Não existe ninguém. Ninguém. Eu estou sozinha no mundo sem ter ao menos o fantasma da idealização pra me apegar. Tenho muito medo. Fico esperando certezas e sei que elas não virão. E mesmo que vierem, será que um dia eu vou conseguir dizer tudo isso de novo? Dizer tudo isso sem o medo de no momento seguinte a pessoa digna do amor sair por aí de mãos dadas com aquele que era o par dela? Estou velha demais pra acreditar em destino, designios, "se tiver que ser será". Até me forço, mas canso. Estou cansada, tenho medo. De repente você se ferrou tanto, sofreu tanto, passou tantas noites em claro que fica repensando se vale o sofrimento. Acho que não sei me jogar de cabeça. Também não sei ponderar, entrar em jogos de ego, ir passo a passo. Me desgasto. Me desgastei. Quero ficar naquela cadeira pra sempre chorando até que alguém venha me buscar. Alguém que prometa não machucar esse coração esquisito, cheio de feridas. Não sou a pessoa leve que eu era. A vida me botou muito peso nos ombros. Não tenho mais tolerância à frustrações. Não sei botar a cara pra bater. Não quero amar mais ninguém que não me ame de volta. Não quero mais aquela cadeira em que eu fui abandonada, chorando de moletom roxo. Mesmo que eu não use mais moletom. Mesmo que hoje eu saiba maquiar as feridas com corretivo e batom vermelho. Mesmo que meus all stars furados tenham sido trocados por sapatos de mulher. O coração cresceu dois anos e explodiu. Se aquece com moletons, usa all-stars furados e borra o lápis preto enquanto chora. Bate desajeitado, medroso, se encolhe na cadeira e não se atreve. Eu não me atrevo. Volto a ter vinte um anos, os mesmos cabelos descoloridos, o mesmo medo, fico encolhidinha no cantinho e choro baixinho pra ninguém perceber. Enxugo as lágrimas na manga do meu moletom manchado de comida. Não sei me portar perante a sociedade, erro as vírgulas e não quero mais sofrer por amor. Não tenho mais estrutura. Quebrei o espelho, torci o joelho, não vou mais jogar. 

I'm pretty fucked up.

30.1.12

e se ele existir, que me deixe em casa.

Querido Deus,

Em primeiro lugar, não quero entrar no mérito da questão do fato de você existir ou não. Acho isso tremendamente chato, e até um pouco desnecessário. Chamo aqui de Deus, essa criatura qualquer que existe (ou não), num plano superior e nesse minuto é capaz de me ouvir. O senhor sabe (e eu imagino que saiba, porque muito falam sobre a sua onipresença), que eu sempre fui uma criatura muito perdida. Desde assim, desde sempre. E ultimamente, eu ando um pouco mais perdida do que de costume. Antes as coisas iam. Eu sempre detestei o presente em que eu era inserida (o senhor deve lembrar das minhas inúmeras reclamações), e sempre desejei estar dois passos à frente. Uma vez que chegava nesse passo à frente descobria odiar isso também, e entrava nessa insatisfação sem fim. Eu não sei se o senhor tem uma explicação pra isso, e mesmo que tenha, eu não sei no que nisso pode ajudar. Mas o que eu quero dizer é que, eu detestava o ensino fundamental, daí fui pro ensino médio e detestei, e fui pra faculdade e detestei e  comecei a trabalhar e também detestei um pouco, mas até então eu não tinha parado. Esse mês eu parei, e sabe, olha Deus, eu ando mesmo muito perdida. Nos últimos anos eu fui me enfiando em tudo que podia. Porque, sei lá com que massa o senhor me fez, mas eu acabo mesmo conseguindo tudo aquilo que me proponho a conseguir (e até o que não me proponho tanto assim).

Sendo assim, passei no meu primeiro vestibular, fiquei com todos os caras que queria, namorei quem eu queria namorar, passei na primeira pós graduação que tentei, arrumei os empregos que me propus arrumar. E até aí tudo bem. Eu me frustrei aqui e ali, perdi um grande amor justamente porque sempre quis ter demais e acabei me atropelando, mas ok, é a vida, talvez você aí do céu tenha um propósito maior pra isso tudo. Fato é, que hoje eu estou aqui, sentadinha na minha cama, com milhares de dúvidas e eu só posso dizer que ó: eu me atropelei. Isso de conseguir tudo o que ser "quer" é muito legal quando você tem certeza do que você quer, mas no meu caso eu fui conseguindo tudo o que me apareceu. E agora é isso. Eu tenho uma vida que um monte de gente inveja, mas eu não sei se eu queria ela. Eu não sei se eu queria ser essa designer que eu sou, se eu queria com 22 anos já ter feito um ano de pós graduação, se eu queria ter namorado todos esses caras, e ter conquistado todos os caras que me propus a conquistar (mesmo quando eu não queria eles). Isso de não quebrar a cara nunca te bota muito pouco em cheque com a vida e te faz pensar que não tem mesmo o que pensar. Eu nunca tive uma frustração muito grande que me fizesse parar e pensar "olha, talvez esse não seja o caminho certo". Até que eu perdi o emprego. Esse emprego que, bem sabe o senhor, eu achava que não ia perder nunca. Aliás, toda essa trajetória até aqui me fez uma pessoa que acha que não vai perder nunca. Porque eu nunca perdi. Exceto aquela vez, aquele grande amor, que você sabe melhor do que eu, porque sendo deus, já deve ter me espiado chorando no quarto milhares e milhares de vezes.

E daí é isso. Me vejo aqui, pouco estimulada à qualquer coisa, meus amigos todos também, pouco estimulados. E fico esperando que o senhor (ou qualquer coisa que seja) me dê um sinal. Porque de uma hora pra outra, depois de tanta desilusão eu acho que eu dei pra acreditar em sinais. Me oferecem um emprego eu acho que é um sinal, uma nova pessoa aparece eu acho que é um sinal, a havaiana cai de um jeito diferente e eu acho que é um sinal. Porque o senhor bem deve se lembrar, ano passado eu entrei numa estrada que ia rumo à decadência, bebi bastante, minha mãe teve que me aguentar desmaiada na cama algumas várias vezes, eu aceitei todos os convites pra todas as festas, eu fiquei acordada até tarde, eu saí em dias de semana. Tudo isso pra ver se eu achava algum sentido, e o sentido não existe. Também não existe essa pessoa que você vai conhecer e vai ser capaz de mudar toda a sua vida, porque ela até pode mudar um pouquinho, mas todo mundo te decepciona, vez ou outra, o o filtro pra decepções vai ficando cada vez menor. E como o senhor já deve ter percebido, eu não ando com nenhuma tolerância ao fracasso. E também tem isso de arrumar um emprego e eu não sei nem com que raios eu quero trabalhar. Não sei de nada, e escrevo essa carta com um intuito meio infantil de que quem sabe alguma luz venha, ou a minha havaiana caia de um jeito diferente e isso seja um sinal. Só que o senhor bem sabe, que eu não gosto de havaianas.

Eu tenho sido muito forte. Eu, se fosse o senhor, me orgulharia de me ver daí do céu. Eu tenho sido muito forte porque faz dois anos que eu tive que lidar com o trauma mais relevante da minha vida e eu continuei vivendo. O senhor também deve saber que é desde esse dia que viver se tornou mais difícil, mais complicado e cheio de latas de cervejas e coisas que eu não-queria-tanto-assim. É que eu perdi a única coisa que eu desejei com certeza na vida, e depois disso, tudo ficou muito difícil de conseguir continuar. Eu nunca quis nada tanto assim, mas você sabe que ele eu quis. É difícil admitir que uma pessoa só foi responsável por boa parte de tudo que você fez de bonito na vida. Ele era meu equilíbrio, meu norte, minha espécie de deus particular (embora fosse bastante humano), e é estranho pensar que, caso ele ainda estivesse aqui, eu nem estaria endereçando essa carta pra você. Talvez a vida me doesse, mas eu estaria te sorrindo. Você deve se lembrar que eu costumava sorrir bastante, mesmo em meio às minhas depressões, quando ele estava aqui. Teve até um dia que nós dois paramos na sacada pra discutir sobre a existência desse tal de "Deus". Chegamos à conclusão que se o senhor existisse de fato, teria coisas mais legais pra se preocupar do que com essas nossas mesquinharias. E achamos a conclusão bem acertada, embora pouco soubéssemos (ou queríamos saber) sobre esses mistérios de vida & morte. Tinha isso de ver o jogo do barcelona, de fazer lasanha, das pequenas alegrias corriqueiras da vida. O senhor deve saber melhor do que ninguém que meu coração está cansado. Muito cansado. E com o coração cansado fica muito mais difícil conseguir o que se quer da vida. Principalmente pra mim, que nunca soube direito o que queria. Mas a vida é isso. Você viu que meus passos me tornaram designer e que sabe-se lá porque a vida tirou a única coisa que eu tinha certeza que queria de mim. E deu p'raquela outra garota que deve estar cuidando bem dele. Eu espero que esteja, pelo menos. E sabe, de repente ficou mais fácil de acreditar que tudo isso que aconteceu, aconteceu porque tinha que acontecer. Me conforta mais pensar que minha certeza não era a certeza certa, e que agora eu tenho que depositar minha esperança num outro lugar qualquer.

E sabe, se você estiver mesmo me olhando daí do céu, eu estou esperando por um sinal. É porque faz dois anos que eu não sei mais no que depositar a minha fé. Sabe, e eu nem falo de fé religiosa não. Falo de fé na vida, sabe? Fé no meu trabalho, num emprego, numa amizade, em planos, em um novo amor. Qualquer coisa assim. Eu tenho medo de me atropelar, mais uma vez, porque eu sempre me atropelo. E eu tenho medo de, em mais um desses meus atropelos, acabar perdendo a única coisa que eu tinha certeza de querer. Porque eu acho que eu vou encontrar outra coisa e ter certeza que eu quero ela. E essa coisa pode nem ser pessoa. Você entende o que eu estou falando? Eu acho que entende. Eu nem sei o que eu estou te pedindo. Você sabe que eu não sou de pedir muito, sou de me deixar levar. Não sei exigir muita coisa. Não da vida. Fico esperando por esses sinais, fico esperando que as coisas se encaminhem, se mostrem claras, que haja fé em qualquer coisa que seja. Não sei se o senhor está me ouvindo. E caso esteja, eu nem sei se o senhor gosta mesmo que a gente te transforme em literatura. Mas é tarde demais, eu já transformei. Fui eu mesma a escrever em outro texto que "nós somos a geração de um deus que não há". Eu não sei no que acreditar, eu não sei o que pedir, eu não sei o que esperar. Eu não sei nem ao menos o que devo fazer amanhã. Eu nunca soube. Você - ou a vida - me tiraram a única certeza que eu tinha, e pra isso eu tive que realinhar todos os meus planos de novo. E eu (espero) que exista uma razão bastante lógica pra isso. Que eu estou esperando o senhor me contar. Traga qualquer coisa até mim, uma pessoa qualquer, um sinal, um emprego, a oportunidade da minha vida, o dia mais feliz dos meus vinte três anos de existência. Vire meu all star do lado errado na rua, me faça tropeçar na frente do amor da minha vida, inviabilize o que eu quero, ou faça tudo se alinhar do jeito que deve, assim, fácil. Faz dois anos que eu vivo anestesiada, sem esperar nada da vida, sem fazer planos, sem querer nada de verdade porque a única coisa que eu quis a vida levou numa onda gigante e eu nem tive tempo de me reanimar. Só que agora eu cansei. Cansei disso, de me lamentar, de chorar molhando meu teclado frente às fotos dos dias que não voltam. Eu preciso acreditar em alguma coisa. E mesmo que você não exista, hoje eu preciso de você.

27.12.11

Quanto a escrever,

Minha crise criativa vem em momentos de crise de vida em que me refastelo no sofá assistindo todas as novelas que posso. Estou dizendo assim, em primeira pessoa, não pretendo nesse texto criar qualquer personagem que seja: me sinto rasa demais pra isso. O mundo reviravoltou, minha vida é o mar em ressaca e não existe amor ou ódio, tristeza ou alegria demais que me faça querer assim, literatura. Desisti de ler também, faz meses. Cem anos de solidão continua recostado no meu criado mudo cheio de bijouterias, no meio desse meu quarto cheio de coisas que já fizeram parte da minha história - e hoje não fazem mais.

Precisava desses tempos de descanso, inclusive das pessoas (talvez principalmente das pessoas), porque - dizem - olhando as coisas de longe se enxerga melhor. Não sei se enxerguei alguma coisa, me vejo sem perspectivas e sem vontades, completamente esquecida pelo crivo do destino. O crivo do destino é mau, a vida quando não pensada muito bem te leva para caminhos esquisitos. Me lembro que Mathieu, um dos protagonistas das histórias de jean paul sartré, engravidava sua namorada de quem, aparementemente, não gostava tanto-assim e saia pelas ruas de paris procurando uma senhora que fizesse um aborto nessa criança não quista. A criança de Marcelle. Sinto um pouco a minha vida nesse fim de ano como a criança de Marcelle, e sou Mathieu, procurando pelos cantos e becos dessa paris (que é londrina), alguém que possa tirar essa vida e me dar outra perspectiva. Ao mesmo tempo - assim como Mathieu - acabo por me questionar se quero mesmo sair dessa vida. Não sei se quero abortar a criança, é tudo confuso demais.

Me enfio a escrever livros, escrevo seis, sete páginas, depois odeio. Assim como odeio tudo que faço, enjoo dos meus empregos, das pessoas que escolhi pra amar (salvo certos amigos, que permanecem inabaláveis), enjoo até de mim e resolvo querer outra vida. Mas não se aborta vidas assim, pelas ruas de paris, com velhas em seus consultórios sujismundos e sem estrutura. A vida é a criança de Marcelle que não pode ser abortada, porque na vida a gente tem que lidar com os erros que cometeu, não se aborta escolhas com intervenções cirúrgicas e já dizia sartré que a angústia do homem é a angústia das escolhas. Nunca sei se escolhi bem, se escolhi certo ou errado e me angustio no momento seguinte à escolha. Mas não há o que se fazer, uma vez escolhido escolhido está, e é a angústia também, inabalável. Porque a angústia nunca cessa. Existe a angústia pré escolha de fazer a escolha certa, a angústia durante a escolha de estar escolhendo, e a angústia pós escolha de dever, talvez, ter escolhido outra coisa. Viver é a própria angústia e exige responsabilidade.

Exige responsabilidade de mim, que não sei nem arrumar meu quarto, e guardo comigo escritos de quando tinha treze ou catorze anos, junto com os livros de sociologia que talvez nunca mais lerei. Meu quarto é um amontoado de presentes de gente que já foi embora, de livros que sei que não vou ler, de fotos de gente que nunca mais verei, de roupas que já não fazem mais meu estilo. Minha vida também, um pouco disso, cheio de restos de coisas que não sou mais, de escolhas insensatas e rápidas demais, e gente que eu quero que fique indo embora e trombando com gente que eu não quero que fique: mas permanecem. Me vejo cansada, andando por todos os lados da vida procurando o que fazer, que carreira seguir, de que jeito me portar e como me vestir. Me vejo um ser mutável, sempre com escolhas novas, me angustiando demais pelo peso de não sabê-las certas. Escolhi os amigos que devia? Disse tudo que devia dizer? Estou na profissão correta? Faço a pós graduação que deveria? Escolhi o tema mais satisfatório? Nunca saberei, assim como nunca se sabe se foi certo ou não abortar uma criança, escolher a sua vida ou a vida do outro. Sempre a angústia, uma angústia que nenhum deus salva - só alivia, quem sabe.

Procuro paz nas ruas quentes de londrina, quero distância de tudo aquilo que me pressiona, me vejo refastelada no sofá, comendo doces, às vezes sem nem ter tanta vontade assim de ver gente, ou movimento. Meu mundo já me basta, me cansa demais, há muitas escolhas a serem feitas e eu não sei por onde começar. Há muitas coisas sobre as quais, quem sabe, eu poderia escrever mas escolhi calar por julgar imprudente. Calo então qualquer possível literatura, qualquer possível amor, qualquer possível convite, qualquer possível ensaio. Calo até as bandas novas que não conheci e os livros que ainda não abri, calo as mensagens de texto que não pensei em escrever, calo meus livros ruins que não passam da página dez, calo tudo que posso porque estou cansada, e gente cansada não sabe lidar com angústia, escolha, amor, ou até mesmo literatura. Me calo porque me angustiei, e porque nada é tão importante assim. Até a minha vida, calei e deixei pro ano que vem, as escolhas, a angústia, adiei-a. Deixei o filho de marcelle na barriga pra depois ver o que se faz. E quanto à escrever, mais vale um cachorro vivo. (um yorkshire, quem sabe).


18.10.11

don't wanna be myself no more


(I wanna be somebody else) 

tinha descoberto que precisava de equilíbrio. e não era um desses equilíbrio que vendem em comercial de tv não, uma paz interior qualquer. era um equilíbrio mesmo, um equilíbrio de verdade. tinha percebido que era assim, mais uma daquelas pessoas descontroladas que povoavam o mundo. todo mundo no mundo moderno tem neuroses, todo mundo tem os seus problemas. ela tinha se dado conta dos dela. era isso, era sempre afastar o outro por medo do abandono, era a neurose paranóica da possibilidade da perda. sempre um achar que existe uma tramóia por trás de tudo, porque é difícil e perigoso ser feliz. ser feliz não dura. fazia um tempo que tinha então abdicado de qualquer salto no escuro, esperando assim a coisa vir até ela. às vezes também tentava destruir a coisa. qualquer coisa que pegue qualquer profundidade que seja precisa ser afastada porque pode ferir. tinha amado uma vez e foi bom, foi lindo, sentia-se viva e o sangue corria pelas veias, pelos cabelos, o sorriso da paixão se via nas fotos, o olhar dele pra ela, o olhar dela pra ele. se amavam mais quando desavisados porque o amor aparecia. o amor aparecia nos arquivos perdidos no computador. qualquer dúvida sobre o fato do amor ter acontecido estava acabada ali, naqueles arquivos de alguns mil megapixels. mas acabou, como tudo sempre acaba, e desde então é cansaço. cansaço, neurose, medo. medo de ser abandonada por outra, medo de sofrer caso aconteça e é por isso que desapegou-se. desapegou-se desde a infância em que seu pai foi-se pra longe, não parava em casa, trabalhava demais. percebeu ser mais fácil a partida daqueles a quem não nos apegamos muito. quando tem apego tem dor e todo mundo vai embora, não vai? preferi deixar antes se for assim. e deixa. deixa até o que poderia dar certo, inventando histórias, narrativas fantásticas. "ele não me ama mais, ele nunca seria capaz de me amar", diz baixinho. a realidade não existe. não nesse mundo desequilibrado em que escolheu viver. sabota-se, mutila-se, resguarda-se, abandona, desapega. amar é muito karma, é difícil, é terrível, tem que se entregar. e depois de se entregar o inferno. a paranóia, o controle, a chantagem, o medo do abandono, sempre o medo do abandono. "você me esqueceu?", perguntava ingênua. quase sempre respondiam que não, mas sabe-se lá. não acreditava nos outros, duvidava, testava o amor sempre que podia. tudo isso no meio de histórias, de sonho de "ele não me ama mais". tudo isso no meio de frustrações por qualquer convite recusado, qualquer resposta demorada, qualquer recusa percebida. histórias inventadas, fantasias terríveis, o se frustrar por uma realidade que não é. o medo. o medo do abandono. o teste do amor. cansou-se. daí deu-se conta de tudo isso. que difícil é viver assim, nesse medo, nessa urgência, nessa neurose, nesse abandono-iminente. resolveu mudar. mas dói. a cada novo sintoma um respiro fundo. "isso não está acontecendo do jeito que você vê". virou vício. um trabalho, um exercício, um dia de cada vez. tentar viver, tentar se entregar, tentar não se desesperar com as frustrações cotidianas. difícil, pesado, doloroso. difícil sair do isolamento pra colocar o pé na vida de novo. ser sozinha dói menos, bem menos. é menos esforço, menos necessidade de controle, menos briga consigo mesma. o terrível exercício diário do equilíbrio, do ver as coisas claras, do não se desesperar, do não fazer tempestades em copo d'água, de não manipular, jogar a culpa, espalhar indiretas infundadas. surtar, enfim. todo dia uma luta no silêncio que precede o surto. era mais fácil viver na negação, mas agora que deu-se conta, quer parar de sofrer pelo simples fato de estar viva. quer ser, quem sabe, plena. quem sabe de novo o bom corpo, o sorriso, o amor que se vê pelas fotos. lidar com o silêncio que precede o surto. ir um dia de cada vez. tentar, enfim. 

à todos, do passado e do presente, desculpa qualquer coisa. 

8.10.11

do aleatório do ser que derrama em plena madrugada

chego em casa. penso em escrever. penso em conversar. penso em dizer quinhentas mil coisas que ficaram engasgadas em mim, mal resolvidas. as noites não tem sido assim tão interessantes, e nem adianta mais ser a menina mais-bem-vestida-da-festa. as coisas não fazem sentido. não é culpa sua, não é culpa minha, não é culpa de tudo-que-deveria-ter-sido-e-não-foi. não é culpa do passado nem do presente, nem dos trânsitos astrológicos pelos quais estou passando. é da vida. é da vida essa insatisfação sem fim, essa busca sem fim em si mesma. uma semana a gente flerta com a decadência, vomita a alma pela boca, desmaia e não lembra de nada. na outra a gente sai e volta dama da sociedade, garota alternativa e bem vestida de classe média. é tudo assim, meio cíclico, meio errado, meio cheio de voltas. é tudo assim, meio indefinido. queria  escrever o texto da minha vida, queria a catarse, o perfeito, a criação. queria tirar de mim o que quer que seja isso. o peso que ficou nos meus ombros depois de tanta perda, de tanta morte, de tanta solidão. cheguei na terrível parte da vida em que se todas as pessoas que eu conheço sumirem eu sou capaz de acostumar. vivo sozinha, um bicho meio apático, ninguém sabe muito das coisas que eu quero, das coisas que eu faço. nem eu mesma. por isso não culpo. hedonismo. a busca pelo prazer. sei lá, que seja. eu vomito na janela do carro, eu experimento tudo que há para experimentar, eu vivo nesse filme sem nexo pierrô retrocesso meio bossa nova e rock and roll e ninguém se importa muito. nem eu mesma. joãozinho bobo na mão da vida, se você me empurrar eu vou. pra qualquer lugar que seja. não esperem de mim as mais belas cartas de amor, as demonstrações mágicas, os textos bem escritos. tudo deu um tempo. sobrou em mim esse vida que vai indo do jeito que dá, do jeito que pode. um dia beija, depois não beija mais, um dia sai, depois não sai mais. passo dias inteiros indo em casas desconhecidas, refazendo amizades, conversando sobre qualquer assunto. depois outra semana inteira em casa com meus livros & filmes, minha pizza metade napolitana metade brócolis. tanto faz. tanto faz você, tanto faz eu, tanto faz a vida. tanto faz. eu já quis ser feliz, eu juro, eu quis mesmo. quis ser feliz, equilibrada, quis levar essa vida regrada que todo mundo gosta tanto. essa vida de tv no domingo, de ligar pra dar boa noite. mas não sei lidar. tudo na minha vida veio fácil demais pra que eu quisesse manter comigo, não sei, vai saber, essas coisas não fazem mesmo o mínimo sentido. eu não faço o mínimo sentido. hoje só sei viver assim. um dia não bebo nada, depois bebo demais, chego em casa, vomito no meu próprio pé, tenho pena de mim mesma, me acho velha demais pra essas coisas. sento na cama digo pra mim mesma que quero sossegar, quero viver mais calma, quero um amor-quem-sabe, alguém pra me pegar na mão, pra me fazer feliz. mas sei que esse não é o caminho, o caminho sou eu. eu sou meu próprio desequilíbrio. eu sou isso. sou um dia de videogame e coca e outro dia de porre de cerveja com tequila. sou de ímpeto, de aventura, de ser livre. sou assim de ser livre e acho que não há o que fazer. olho pra mim cansada, os cabelos mal cuidados e as roupas mal escolhidas e sorrio porque podia ser pior, podia ser muito pior. eu sei que podia. eu sei que me mantenho nesse equilíbrio frágil. um equilíbrio que toma porre, e fala demais. que diz o que não deve e que se atropela, mas o meu equilíbrio. eu sou capaz, eu sei, eu sou bastante capaz mas no momento, sabe, no momento que seja, tanto faz, tanto faz de verdade. no momento eu não sei ser de outro jeito e não tem pra quê ter pena de mim. talvez eu devesse quem sabe ser mais capaz, mais ajuizada, mais dessas pessoas que não acham que tudo acaba, tudo-sempre-acaba. quando você acha que tudo acaba você aproveita tudo muito intensamente mas esquece de fazer-durar. é assim com tudo até com a minha vida. não sei lidar com manutenção, não sei atender expectativas, eu vou sempre as minhas mensagens guardadas na pasta de rascunho, inadequadas. vou ser sempre esses textos de desabafo, o querer consolar e fazer piada, o não saber demonstrar nada muito profundamente. mas por enquanto nada incomoda, vai bem assim, obrigada. todo mundo sabe que a gente muda quando tem que mudar, quando chegar a hora eu mudo também. alguém me ensina. eu aprendo. ou ninguém ensina nada pra ninguém nem aprende nada e sai de mão dada tropeçando e atropelando a vida.

tanto faz. no fim todo mundo é feliz na medida que pode. menos feliz do que queria ser. (bem) mais infeliz do que diz ser.

10.3.11

Capítulo 1

(you've never seen me that way)

Sair do personagem é coisa difícil para uma escritora. Depois que isso entra no seus genes, não parece haver outro jeito de existir. É mais fácil moldar a vida pra virar história, do que deixar de escrever histórias para caber dentro da vida. É assim, tem sido assim, não há como mudar isso. Meus arquivos dizem que faz três semanas que não escrevo. A escritora dentro de mim fugiu. Diz arturo bandini que a gente deve ter todas as experiências do mundo para poder escrever sobre elas. Um escritor não pode falar sobre algo que não viveu. Um escritor talvez possa. Eu não vivi tudo aquilo que escrevi. Eu escrevo o que eu queria ser. Hoje, eu vou escrever sobre aquilo que eu sou.

Alguém, não importa quem, não importa aonde (pois para as histórias, ficcionais ou não, não importam as circustâncias) se achou no direito de dizer que a pessoa que vos escreve costuma ter certos desvios de caráter. Resumo para bom português: que essa que vos fala se orgulha em não ser uma boa pessoa. Algumas coisas me machucam, algumas coisas me magoam e algumas coisas me fazem pensar. Essa me fez pensar, porque a pessoa em questão não me conhece. Se um dia minha mãe chegasse e me dissesse: "filha, você não é uma boa pessoa", eu desabaria. Certas pessoas não me atingem porque não me conhecem. Eu só decidi me escrever porque em alumas esquinas da minha vida eu já recebi definições como: escrota, rancorosa, não ama ninguém, não se apega, filha-da-puta, insensível. As pessoas que me apontaram isso na cara, nunca me viram chorar. Talvez uma coisa não justifique a outra, mas o que eu quero dizer é que é muito fácil pegar partes da vida de uma pessoa e fazer um julgamento. É como julgar o que eu sou pelo meu quarto. É como dizer que eu não sei organizar a minha vida porque eu nunca soube oraniganizar meus livros em ordem alfabética. É como achar que sabe o que eu sou, lendo o que eu escrevo. É como achar que eu sou o que eu nunca te contei.

Desde peqjuena, e eu quero dizer, muito jovem mesmo, eu lidei com rejeições. A pior delas foi quando um dia eu contei um segredo para uma amiga minha e ela se achou no direito de contar isso pra todo mundo que ela conhecia. Eu chorei. Eu passei alguns recreios sozinha. Eu tive que depender da pena das pessoas, por assim dizer. Ninguém se sente confortável com uma menina que chora na sala. Ninguém se sente confortável com alguém que passa os recreios na biblioteca, e então resolve sentir pena. Não confio nas pessoas. É uma predisposição. Não confio antes de conhecer e posso aprender a confiar depois, mas isso não é uma regra. Eu aprendi a escrever, porque o papel não contava minhas histórias pra ninguém. Eu aprendi a escrever porque não tinha mais pra quem me contar.

As pessoas sabem o que eu acho dos meus amigos. É disso que eu falo. Das roupas que eles usam e das besteiras que eles aprontam comigo. Porque eu pretendo manter as pessoas longe quando eu acho que elas vão me magoar. É claro que nesses vinte e dois anos, alumas pessoas conseguiram romper essas barreiras. Algumas se foram (eu costumo ser intolerante com falta de atenção) e algumas ficaram. Duas amigas e dois amigos. Um ex namorado. As únicas pessoas que um dia me conheceram por inteiro e que se um dia quisessem falar: " Larissa, você é uma bosta de ser humano" iam me fazer chorar. As meninas que arrumam tempo em suas agendas pra comer bolo no pátio de tarde, e que arrumam brechas em suas agendas no café da manhã. Um dia eu disse pra carol que eu gostava dela porque ela não me julgava. Eu disse a mesma coisa pra amanda. Porque caráter não se mede pelo fato de você ser uma pessoa frágil e sentir pena das pessoas, vocês me entendem?

Eu sou uma pessoa humana. Eu tenho raivas, rancores, eu guardo mágoas. Eu guardo muitas mágoas. Eu me machuquei a vida toda. Eu tive uma vó doente, eu perdi um vô, meu pai tem depressão. Eu tenho crises terríveis de ansiedade. Eu sou hipocondríaca. Eu sou inrolerante com certos tipos de comportamento. Eu sou inconsequente com a minha vida amorosa, mas pera aí, eu nunca machuquei ninguém. Eu costumo ser sincera. Todo mundo sabe a bagunça que eu sou, e se resolvem me aceitar assim, eu só tenho que agradecer. Eu errei, milhares de vezes. Erraram comigo outro tanto de vezes. Eu já pedi desculpas, e eu já perdoei. Eu sou dura com certas pessoas porque eu tenho medo que elas sejam infelizes. Eu tenho medo das pessoas que eu amo serem infelizes. Assim como eu tenho medo de ser infeliz. Mas eu tenho mais medo por elas.

Eu abdiquei de amizades. Eu abdiquei de amores e deixei que eles fossem porque de alguma forma eles se sentem mais felizes sem mim. Vocês não sabem quantas vezes eu chorei no meu quarto sozinha pra deixar que a outra pessoa fosse feliz. Eu já abdiquei pela minha felicidade por outra(s) pessoa(s). Eu exerço pelo meus amigos um certo tipo de controle. Tipo mãe. Você não deve fazer isso. Você não pode fazer aquilo. ás vezes eu vejo todos eles se enfiando em caminhos tão tortuosos que eu sinto raiva. Raiva deles. Porque eles vão ser infelizes e eu não posso fazer nada. Nada. Porque eu não posso fazer as escolhas por eles. Eu não posso acabar com os namoros, eu não posso colocar eles nas faculdades certas, eu não posso dar empregos melhores, eu não posso fazer com que eles virem os cineastas, os músicos, as mães e os pais que eles querem. Não posso pegar eles pela mão e enfiá-los no caminho que eu acho que vai estar certo. Eu aconselho. Eu grito. E quando eles continuam pelos caminhos erôneos eu sinto raiva. Eu sei o que é ser infeliz. Ninguém mais precisa saber como é. Vai doer, vai sim, vai doer. E eu não quero que eles doam. Mas não ter mertiolate que eu possa dar pra evitar que eles sofram então se eu vejo que eles estão prestes a tropeçar eu só sinto raiva. Raiva deles, porque vão sofrer. Raiva de mim, que não posso fazer nada.

As pessoas vão pelos caminhos que elas escolhem. E às vezes elas não enxergam, no meio de seus caminhos aquilo que você quer dizer. Eu? Eu só quero que as pessoas a minha volta sejam felizes. Porra. Vai ter coragem de ser feliz e se mexe atrás da sua felicidade. Eu tenho vontade de dizer: isso não é felicidade. Mas elas acham que é. E eu vou estar errada se disser que eu não acho. Então eu me calo. E sinto raiva. Mas de qualquer modo eu prometo dentro de mim estar ali pra segurar quando eles caírem. Eu sempre estou, não estou?

O que precisa ser explicado é que eu não sou sentimental. Eu não sinto dó de cachorrinhos que passam na rua, mas eu sinto dó de gente. Eu não choro em filme de amor, eu tenho opiniões firmissímas. E eu brigo por tudo aquilo que eu acredito. Eu quero ser feliz, porra. Todo mundo quer ser feliz. Eu nunca passei em cima de ninguém pra ser feliz, eu nunca roubei namorados, eu respeito tudo que eu posso o máximo que eu posso. Só não aprendi a ser moralista. Mas moral é um conceito pessoal. Ética é uma coisa geral. É isso que as pessoas não entendem. Dentro da minha moral, se perdoa traições, se divide sentimento de pura atração carnal, se fala daquilo que não gosta sem pudores. Mas sempre fui uma pessoa ética. Eu não sabotaria ninguém por uma vaga de emprego, eu não trairia meu namorado, eu não seria desleal com meus amigos. E eu não sou desleal. Quando eu falo deles, é simplesmente porque eu tenho raiva do caminho frente a infelicidade que eles às vezes tomam. E tenho mesmo. Daí entra a ética. Você não diz pra uma pessoa que ama o namorado que acha que o namorado dela vai fazer ela infeliz. Você não diz a pessoa que se acha talentosa que talvez ela não seja tão-maravilhosa assim. Algumas coisas não se pode dizer sem magoar. Algumas coisas tem de ficar implícitas.

Eu não gosto das pessoas boazinhas, e nem das pessoas malvadas. Eu acho que uma pessoa é boa a partir do momento que ela não falta com respeito com ninguém. Pra isso você não tem que ser polyana. Pra isso você não tem que ser uma pessoa frágil. A vida exigiu de mim ser forte desde cedo. A vida me botou de frente com gente sem caráter antes dos doze anos de idade. Eu aprendi a não me machucar tanto, não ser feita de boba tanto. Mas eu aprendi a perdoar. Porque as pessoas só são legais porque são diferentes. E a gente tem que aprender a respeitar. Talvez a gente não concorde com tudo. Talvez não seja possível amar todas as pessoas. Mas é sempre preciso respeitar. A escritora, e o ser humano que habita em mim aprendeu que antes de dizer que uma pessoa é boa ou não, há de se conhecer.

E é difícil dizer isso, mas quase ninguém me conhece. Ás vezes porque eu não quero, às vezes porque eu não deixo, e na maioria das vezes porque elas me julgam por aquilo que elas querem enxergar e não pelo que eu sou de verdade. E o que eu sou de verdade, é, muitas vezes diferente de você. E isso não me faz nem melhor, e nem pior. E isso não te faz nem melhor e nem pior que eu.

Eu me orgulho muito do que eu sou. Eu me orgulho muito do que os meus pais me ensinaram a ser. Eu tenho orgulho dos amigos que eu escolhi ter perto de mim. Eu amo as minhas meninas, e os meus meninos. ás vezes você conhece uma pessoa por anos e percebe que não a conhece. às vezes você conhece uma pessoa por duas horas e ela te leva metade da vida. Questão de afinidade, questão de confiança e acima de tudo, questão de tolerância. O jeito mais bonito de amar é amar por tudo aquilo que uma pessoa é, mas acima de tudo amá-la apesar das coisas que você não concorda. Amar o igual é muito fácil, difícil é amar aquilo que incomoda.

Talvez eu tenha um grande ego. Talvez eu tenha muitos defeitos. Talvez eu tenha muita confiança naquilo que eu sou. Eu sou humana, eu erro, eu tropeço milhares de vezes, mas eu tento ser tudo aquilo que eu quis. E o que eu quero é meia duzia de amigos, uma casa simples, um emprego bom e a minha família. Eu sou crítica, eu sou chata, eu sou ranzinza. Eu sei que eu sou difícil às vezes, mas eu tento. Eu só queria dizer que ninguém tem o direito de dizer que eu sou filha da puta e que eu me orgulho disso. Porque eu me conheço. Eu sei o que eu sou.

Vocês nunca estiveram tão errados sobre mim.

O ser humano dentro de mim saiu pra fora e quis dizer isso. Não é literatura, sou eu. Pela primeira vez. Mas agora me deem licença que eu só sou confortável na internet dentro de um personagem. Só sei me literaturar ficcionando. A quem sabe o que eu sou, e me ama por isso, amor eterno. Ao resto, me desculpem, vocês não me conhecem.