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14.10.10

De guarda-chuva vermelho.

- é que tem tanta gente-escritora nesse mundo que nem sei.

- você é diferente do resto da gente-escritora.

- não sou não, porque no fundo, todo mundo sente a mesma merda, o mesmo vazio. Veio do nada, sabe. Vai pro nada também. típico. Todo mundo escreve sobre os entremeios.

- os seus entremeios são diferentes.

- não são, são a mesma merda. Meia duzia de escolhas erradas, solidão, eu-não-pertenço-à-esse-lugar que depois evolui pra um eu-não-pertenço-à-esse-mundo e aí tem aquele vazio enorme de existir e no meio disso tudo uns amores frustrados.

- você poetisa seus entremeios de um jeito diferente.

- me acho tão igual o resto-todo. e não só a gente-escritora não. to falando. me acho igual à gente-toda.

- se tu fosse igual à gente-toda, eu não tinha te escolhido.

- e tu parece que não sabe, que quando as pessoas se apaixonam pelas outras elas vêem tudo diferente nessa pessoa, por mais que ela seja igualzinha à gente-toda.

- e eu te notei como?

- sorte, destino, grande junção dos polos, o encontro de saturno. Vai saber que merda, mas a grande verdade é que a gente tava andando na rua, sentou no mesmo café, você achou aquilo um grande-encontro-cósmico e veio comentar sobre o grande-encontro-cósmico comigo, e disse bem assim: "qual é a chance, no meio desse universo de bilhões de pessoas, nós dois, estivéssemos desde o meio do caminho nos dirigindo ao mesmo lugar, e usando guarda-chuvas vermelhos?" eu nem ia te dar confiança, mas você usava guarda-chuva vermelho e isso denotava qualquer uma das quatro qualidades que eu ressalto em um ser humano: ou tu era engraçadinho, ou excêntrico, ou tava usando o guarda chuva da tua mãe, ou era pão duro mesmo. Porque ninguém, além de mim, sairia de casa com um guarda-chuva vermelho. E homem ainda.

- tu nunca me contou isso.

- tu nunca me disse porque tinha o guarda chuva.

- comprei numa promoção, achei bonito, dei pra minha mãe e continuei usando.

- todas as alternativas anteriores. Eu tava é bem certa quando te dei confiança.

- eu só fui conversar com você porque você rabiscava loucamente um pedacinho de papel, depois de procurar incessantemente uma caneta como quem procurava a saída de um túnel pra escapar da morte. O lance do encontro-cósmico era pra puxar assunto.

- e o que é escrever senão tentar achar incessantemente a saída de um túnel pra escapar da morte? E você nunca soube o que eu escrevi ali.

- soube sim.

- soube nada!

- você foi no banheiro, eu li. dizia "chove mil e novecentos litros e eu ainda não aprendi a sair de bota, esses all-star molhando meu pé todo. No caminho, enquanto tocava yellow do chris martin

- totalmente típico - e eu me molhava de capuz pensando estar na praia, mas não era praia nenhuma, era concreto-e-asfalto. Na minha frente vinha um guri, ele tava todo vestido de preto, tinha uns cabelos ondulados bonitos (acho que eram ondulados, ele tava de capuz também ) de all star (deve estar molhadíssimo) e guarda-chuva vermelho, igualzinho ao meu. Eu fico pensando que um homem que tem um guarda chuva vermelho só pode ter uma das quatro caracteristicas que eu prezo num ser humano: ou é engraçadinho, ou é excentrico, ou pegou da mãe ou é pão duro mesmo. Ele sentou do meu lado. Se fosse um filme a gente ia se falar, derrubar café um-no-outro e comentar dos guarda-chuvas vermelhos. Ele ia ser o grande-amor-da-minha-vida. Mas só vou voltar pra casa e comentar com alguém que era bem bonitinho aquele menino do guarda chuva vermelho. Daí nunca mais vou ver na vida. Já perdi assim setenta e sete grandes amores da minha vida. Não vai ser por falta desse"

- você guardou o guardanapo, por isso que eu nunca-mais achei! também esqueci dele, tava meio encantada com você, seu guarda chuva e seu papo que tropeçava toda vez no final da frase, vinha uma gaguejada. Eu fingia que não tava percebendo e tomava café.

- Agora tu vai e diz que um amor que começou com esse trecho-escrito é de gente-toda. É de gente-escritora, do tipo que encara cada palavra como uma saída de um túnel que te salva da morte.

- Digo sim, sou gente. gente-toda. igualzinha essa gente aí.

- Tu usa um guarda-chuva vermelho. quem no mundo usa um guarda-chuva vermelho?

- Tu.

- É por isso que eu quis te encontrar. É que eu queria que todos os nossos dias fossem um pedaço de guardanapo narrados por você.

- Tu gosta-tanto das coisas que eu escrevo assim?

- Gosto de você e com você vem esse teu jeito de escrever, de amarrar as palavras como se tu soubesse exatamente que verbo e preposição usar depois de cada uma delas e parece que você escolhe cada uma delas como um balé, depois tira pra dançar. E você fala assim, e dedica as coisas assim, desse seu jeito de ficar parada e depois soltar uma frase-perfeita e eu te digo que desde o dia que eu li aquele guardanapo e guardei que eu viveria o resto da vida pra ouvir você contar essas suas palavras, palavra por palavra, como se cada uma delas fosse um passo pra me salvar de um túnel que leva a morte.

- Tais errado.

- Por que?

- Tu que não é igual a gente-toda. E eu soube que tu era diferente desde o dia que eu te vi ali de capuz e guarda chuva vermelho, você tem um jeito tão esquisito de se comportar, você anda como se você tivesse medo de tudo, do mundo. Tava encolhidinho debaixo da roupa preta, todo curvado, de all-star encharcado e nem olhava pros lados. Aí toda vez que me via dava de abaixar a cabeça como se eu fosse te roubar, ou qualquer coisa que fosse. E você ali, todo escondido, nem dava pra te ver. Só pelo guarda chuva, o guarda chuva te mostrava pro mundo e tu não queria. Mas eu te vi. E soube, tu é diferente da gente-toda.

- Mas eu não tenho nenhum talento especial, só essas coisas que eu faço e nunca dão certo, e esse meu jeito esquisito de querer te levar pra conhecer todas as coisas do mundo, como se o mundo fosse acabar daqui três minutos, é que às vezes eu esqueço que eu tenho o resto da vida pra compartilhar com você e às vezes também acho o resto da vida tão pouco, e eu te acho tão interessante que parece que eu tenho que retribuir isso com essas coisas que eu conheço, esses filmes, esses livros, durante esse tempo que você tá atarantada com as suas coisas que não são exatamente a literatura,mas são outras, que você gosta tanto-quanto. E eu sou só um cara normal, eu trabalho numa agência e tudo e dou aula no resto do tempo e você tem as suas roupas e os seus filmes, seus livros, seus roteiros. Eu preciso te dar o mundo em troca.

- E você me dá;

- Dou?

- Tu não percebeu ainda não? Aquele guardanapo, eu só escrevi porque você tava lá. O resto também, o resto eu só escrevo porque você existe. E as outras coisas, elas também só me deixam feliz porque você me dá forças, é que você tem que entender é que você faz a minha história. Eu só escrevo ela. Enfeitadinha.

- É que eu te amo.

- É que eu te amo de volta.

- É que você é a minha pessoa. No meio da gente-toda.

- É que você é meu guarda-chuva vermelho. No meio da gente-toda.

14.5.10

diálogo imaginário número do fim em reticências.

- oi.
- oi.
- é legal essa música que você tá ouvindo.
- eu sei.
- eu fiz uma influência notável em você, hahaha.
- nem tão notável assim. mas a música é boa.
- para mentes evoluídas.
- é. me diz uma coisa, por que você resolveu falar comigo agora?
- eu não sei, eu acho que eu sinto sua falta.
- como?
- como assim, como?
- embora você pareça não saber, existem inúmeros jeitos de se sentir falta. e você provavelmente sente falta dessa amiga-mãe que eu costumava ser pra você.
- é só saudades.
- não é, é dependência. você podia me deixar em paz, cara.
- eu queria que a gente continuasse amigos.
- você devia ter pensado nisso antes de fazer tudo isso que você fez.
- tudo isso o que?
- tudo isso que você sempre faz. não se explicar, pedir umas desculpas sem sal, fingir que eu não existo e depois agir como se nada tivesse acontecido.
- eu só não sabia como me aproximar.
- eu sei, eu não estou te culpando.
- então você vai ser minha amiga?
- eu nunca deixei de ser sua amiga.
- por que?
- porque eu nunca fui sua amiga, apesar de ser.
- e o que isso quer dizer?
- todas as coisas que mesmo que eu explicasse em diagramas você não entenderia.
- caramba, eu não queria te magoar.
- mas magoou.
- eu te peço desculpas.
- eu já te desculpei.
- e esqueceu?
- impossível esquecer.
- como você me desculpou então?
- porque eu te conheço tanto que sei fazer um tratado justificando o porquê de você ter agido assim comigo. e o pior é que todo esse tratado faria sua ação tão tremendamente justificável que não tem como não te desculpar.
- e qual é o sentido nisso tudo?
- existe e não existe um sentido. existe todo o sentido de todo o porquê de você ter feito todas essas coisas, mas nisso tudo não existe um sentido.
- o que você acha que vai acontecer comigo?
- te dou seis meses pra você se decepcionar. três pra pensar em me pedir desculpas. e mais o resto da sua vida pra você não fazer nada a respeito.
- você realmente acha que eu errei né?
- eu tenho certeza.
- e por que?
- porque eu te conheço.
- e o que vai acontecer?
- não sei, eu só sei que um dia você vai voltar a ser triste.
- por que?
- porque toda essa felicidade é pela metade e por mais que você tente justificar que toda a felicidade nunca é perfeita, todo mundo sabe que não é assim.
- eu não sei o que te dizer quando você me diz essas coisas.
- você nunca soube. mas eu sei o que você diria. diria pra eu te esquecer, que você está em outra agora e que você está feliz e embora eu esteja apegada a uma imagem, a imagem que existe na verdade é essa e tem aquela palavra que você gosta muito que se chama "desapego" que você ia usar também e com ela justificaria suas babaquices.
- e você?
- eu ia fazer que sim com a cabeça, te dar um abraço, e dizer que eu espero que você seja feliz.
- e o que você vai fazer agora?
- a mesma coisa.
- e vai ser sincero?
- exceto a parte em que eu concordo com você.
- por que?
- porque eu sei que não é assim.
- por que?
- porque qualquer um sabe que não é assim.
- e eu?
- você precisa ouvir que está certo, ganhar um abraço e ouvir alguém dizer que espera que você seja muito feliz.
- mas eu espero ser muito feliz, e eu sei que eu estou certo.
- você acha que você está certo, e ninguém vai te provar ao contrário agora.
- você quer dizer que eu vou descobrir que você é o amor da sua vida?
- não, eu não sou o amor da sua vida. eu nunca fui, nunca senti assim.
- e quem é então?
-o dia que você encontrar você vai perceber que a felicidade quando é de verdade, geralmente é completa.
- você realmente acha que esse dia vai chegar?
- os dois. o que você descobre que está triste e o outro em que descobre a felicidade completa.
- e onde você vai estar?
- do seu lado.
- quer dizer, eu vou estar com você?
- não. é que existe uma coisa que você ainda não percebeu. Eu sempre vou estar ao seu lado, independentemente de. eu vou olhar pra você, concordar, te dar um abraço e esperar que você seja muito feliz.
- e qual é a diferença se você está fazendo isso agora?
- é que eu espero pelo dia que seja sincero. e que embora eu diga que eu espero que você seja muito feliz, no fundo eu já saiba que você vai ser.

- eu te amo.
- eu sei, eu te amo exatamente do mesmo jeito.
- e como é isso?
- é um eterno estar um do lado do outro até esperar o dia que ao desejar que o outro seja feliz, e ao fazer isso, olhar nos olhos e perceber que ele já é.

Porque todo amor de verdade só se (re)transforma em amor.

11.11.09

trechos bonitos do que já foi.

(trechos da história que eu inventei)

[...] " Você tem uns olhos de ressaca sem nunca beber e se veste tão bem que às vezes eu fico vontade de fazer bonequinhas com as suas roupas pra um dia dar pros filhos que eu sei que nós não vamos ter juntos. Eu fico te olhando tão completa e baixamente e fico pensando o que aconteceria depois de uns três copos de vodka barata com limão e muito açúcar. será que assim você ia ter por súbito a vontade de me pegar pelo pescoço e me beijar ou simplesmente deitar no meu ombro e dizer, fica comigo, só essa noite, eu gosto taanto de você...?" Ela não conseguia parar de pensar nisso enquanto encarava os olhos castanho-escuro de matheus a olhando fixo. " Três-copos-de-vodka.. Por súbito.. gosto taaanto de você...". A boca dele se mexia enquanto os olhos meio que riam pra ela, mas tudo o que ela conseguia ouvir era aquele trecho dito pelos mesmos olhos que riam e a boca que mexia há três dias atrás. " Vodka-Pescoço-so essa noite-Gosto taanto". Não dava pra pensar em outra coisa.
- Lu..
- Claro.
- Claro o que, Luana?
- Não sei, Matheus. Acho que eu tava viajando.
- Err, Estranha. Você está sempre viajando. Viajando e rindo sozinha.
- Rindo das coisas que eu lembro que você disse.
- Rindo porque você é triste, Luana.
- Também. Você, você é feliz?
- Ninguém é.
- Alguém deve ser. Não a gente, mas alguém. Não sei, tem uma gente que ri de dentro. Uns casais que saem por aí de mãos dadas e a menina não parece estar fingindo o sorriso. Tem sei lá, umas pessoas que são felizes. Eu não sei porque, mas tem.
- Ou elas fingem.
- Ninguém consegue fingir o tempo todo. Tem gente que não tem esse traço de tristeza no fundo dos olhos, que nem eu e você.
- Eu tenho traço de tristeza no fundo dos olhos?
- Tem. Quando pára e fica olhando subtamente pro horizonte. sabe, você para e fica olhando. Depois me faz algum comentário melancólico. Ou simplesmente diz " ê, luana." e me dá um tapinha. Eu juro que eu fico com vontade te abraçar nessas horas, mas eu só te olho e digo " ê, gênio." e a gente ri. A gente ri de novo porque a gente sabe que é triste.
- Eu nunca sei o que te dizer quando você me diz essas coisas.
- Eu nunca sei o que te dizer.

...

- Você percebeu?
- O que?
- Aquela estrela grande lá.
- Venus, Matheus. Não é estrela, é planeta.
- É bonito.
- Eu achava que dava pra fazer pedidos, quando eu era pequena.
- E o que você pedia?
- Geralmente uma idiotice. O menino que eu gostava.
- E hoje, o que você pediria?
- Pra ser feliz.
-O menino que você gosta.
- Isso é ser feliz?
- Não, mas é um começo.
- O que você pediria, Matheus?
- três copos de Vodka com Limão e muito açucar.
- Me passa o vinho, vai.


- Sabe, eu não pediria nada pra estrela.
- Nada?
- Não. Felicidade deve ser isso daqui. Isso, você, vinho barato e essas conversas que vão de filosofia à quadrinhos em meio segundo. Tudo, e umas estrelas pra acompanhar.
- Está finalmente admitindo que eu sou uma boa companhia?
- Eu não, o vinho deve estar.
- Você nem bebeu, Luana.
- Eu sei, mas você já me viu admitir alguma vez que eu gosto de você?
- Não.
- Então, não vai ser agora, gênio.
- Podia. Vodka, sabe?
- Não quero falar sobre isso.
- Você tem medo, Luana?
- Tenho. de tudo, você sabe, montanhas russas...
- ... e tudo que possa tirar os seus pés do chão.
- Exatamente.
- Eu tiro seus pés do chão?
- Totalmente.
- Mesmo?
- Matheus, o que mais você acha que me faria sair de casa, sábado, dez de noite, dirigir até o mirante pra olhar estrelas e tomar vinho ruim no copo de plástico?
- Vontade, espírito aventureiro?, gnomos?
- Você.
- Era a quarta opção, você nunca me deixa terminar nada.

....

Eu sempre gostei de você.
- Isso era inevitável.
- Desde a primeira vez.
- A primeira?
- Na primeira frase eu sabia que era você.
- Eu sempre soube.
- Deixou de saber um dia?
- Eu tive medo.
- Eu ainda tenho.
- Medo de que exatamente, Luana?
- De tudo, sempre fui medrosinha.
- Você tem medo de mim?
- De você não, do que você causa em mim.
- Raiva?
- Pior que isso.
- É nessa hora que eu presumo que você me ama?
- Se a gente fosse convencional, sim. Mas eu nunca vou deixar.
- Nunca vai deixar o que?
- você ter certeza que eu te amo.
- O que você quer dizer com isso?
- Que eu nunca sei o que te dizer, Matheus.

- Amor de verdade é o pior sentimento do mundo.
- Luana, para de ser fria.
- É o pior sentimento do mundo.
- Por que voce diz isso?
- Porque quando você ama alguém de verdade isso faz com que a pessoa tenha um certo direito de fazer qualquer coisa com você. Amar de verdade significa nunca mais deixar de amar, apesar de.
- E tudo isso quer dizer que você não pode admitir que me ama porque você me ama de verdade?
- Eu uma palavra pra você entender: vulnerabilidade. Não gosto.
- Vulnerabilidade signfica?
- Você fazer a pior piada do mundo, eu rir e querer te abraçar.
- Isso não é o significado de vulnerabilidade.
- No meu mundo é.
- Seu mundo sempre foi todo estranho, luana.
- No meu mundo você meio que reina, então além dele ser estranho só eu vou querer morar nele.
- Eu vivo no seu mundo?
- Não, você é o cara que recria ele todos os dias. E que pinta ele de aquarela e nanquim.
- Provavelmente é o mundo mais bem desenhado de todos os mundos.
- Não.
- Não?
- Não, mas eu tenho um puta orgulho dele ser como ele é.

- Você namoraria comigo?
- Agora.
- E depois?
- Depois eu não sei.
- Como assim?
- Depois que eu aceitasse nosso namoro ia deixar de ser como eu penso que ia ser. Realidade frustra as pessoas, cara.
- Depressiva. Quer um chocolate?
- Besta.
- Eu já te disse como eu imagino.
- E eu concordo com você. Mas isso a gente já faz, só que sem os beijos. Coloca relacionamento, compromisso na parada e a gente pode estragar tudo.
- É disso que você tem medo?
- Não.
- Do que é então?
- De te perder. Eu tenho medo de te perder até quando eu ainda não te tenho.
- Como assim?
- De te perder de mim. Que um dia que olhe pra você e te veja irreconhecível.
- Lu, para, isso nunca vai acontecer.
- Você está mudando já. Gradativamente. E disso que você se torna, eu não gosto.
- Eu estou te decepcionando?
- Lembra daquilo que eu disse sobre amor de verdade? Você nunca me decepciona. Mesmo quando decepciona.
- Se tu continuar comigo eu não vou ter como me perder de você.
- Eu sempre vou continuar com você. Mas essa não é a questão.
- Qual é a questão então?
- A questão é se você vai continuar comigo.
- Eu sempre continuo, não continuo?
- Se isso de você voltar sempre é o que você chama de continuar, então sim.
- você se incomoda com isso, não?
- Não, eu só me incomodaria de fato se você não voltasse mais.

- Eu te machuco, luana?
- Você me dói.
- Isso quer dizer que eu te machuco, não quer?
- Quer dizer que você me dói.
- E doer não é machucar?
- Não, gênio. Doer é sentir.
- Você me sente?
- Você me dói em todos os meus pedacinhos.
- E isso é ruim?
- Isso só quer dizer que você vive em mim.
- Em você é um bom lugar pra se viver.
- Você não sabe.
- Não?
- Não, porque eu sei que você vive em mim, mas você ainda não se sente vivendo.
- E como a gente sabe a diferença?
- Eu pra você sou externa, e pra mim você vive dentro.

....

- gosto do seu jeito aleatório.
- Quero encostar no teu joelho e dormir no teu ombro.
- É disso que eu estou falando.
- Eu sempre quis.
- sempre quis o que, luana?
- Encostar no teu joelho e deitar no teu ombro. Faz uns meses que é nisso que eu penso enquanto eu te olho.
- Só nisso?
- Não, em em universo de coisas.
- que universo?
- você.
- eu não te entendo.
- minha atual definição de universo: você.

...

- Eu sempre gostei de você, sua besta.
- Você sempre me considerou pra caralho. Gostar é uma coisa diferente.
- gostar para luana significa?
- vou saber.
- gostar para matheus significa?
- considerar pra caralho.
- isso não quer dizer nada.
- Eu te amo.
- Isso também não.
- E o que quer dizer alguma coisa pra você?
- O que você faz, não o que você diz.

- Encosta no meu joelho, dorme no meu ombro.
- eu faria isso todos os dias da minha vida.
- Eu não ia deixar.
- Tu nem gosta de mim.
- não, é que num mundo justo a gente revezaria.

...

- É uma relaçao de duas pessoas que se amam. A gente só não se beija.
- você não me trata como sua namorada.
- Mas te dou todos os direitos de você me tratar como se fosse o seu.
- De fato.
- Concordando comigo, luana?
- Não, é que esse foi um direito que eu institui.
- Você?
- É, desde sempre. Você só me permitiu.

...

- Não, eu só sei que a gente nunca vai deixar de se amar.
- Por que isso?
- Por causa da sua definição de amor-verdadeiro: amar de verdade significa nunca deixar de amar apesar de.
- Agora o quer você sente por mim é amor de verdade?
- Eu sempre chamei de "puta consideração"
- Porra, que nome sem romantismo.
- Mas significa a mesma coisa.
- E como você tem certeza que a gente nunca vai deixar de se amar?
- Foi um direito que eu institui, você só me permitiu.

- Um copo de vodka com limão e muito açucar, matheus.
- você disse que não ia precisar disso.
- só se eu tivesse certeza que você gosta de mim.
- E tá, você não tem?
- não, eu sempre soube que você gostava de mim.
- E porque nunca fez nada?
- Porque não precisava.
- E agora precisa?
- Precisa da vodka.
- Pra quê?
- Pra eu pegar no teu pescoço e te dizer que eu gosto tanto de você.
- você já me disse isso.
- Quando?
- Inúmeras vezes.
- De fato.
- Só que sem dizer.
- E como a gente fica?
- Juntos.

- você é meu namorado então?
- sou, prazer.
- prazer.
- posso dizer pra todo mundo que você é meu?
- isso todo mundo sempre soube.
- achei que você nunca ia admitir.
- Eu sempre admiti, garotinha, você que nunca quis se convencer.
- Eu tinha medo de te perder.
- Você nunca vai me perder.
- Amor de verdade?
- puta consideração.

....

( a vida é bem mais fácil na literatura.)

28.4.09

Joy and I, and a little conversation.

Larissa. diz:
você imagine, eles fazem design.
Alain .:: [ah2] ::. Ocular diz:
quebraram as quatro linhas do gramado, eu aposto.
Alain .:: [ah2] ::. Ocular diz:
gramado bom, que eu deito e rolo.
Larissa. diz:
é, eles até tentaram me acanhar, mas eu não sou tacanha.
Alain .:: [ah2] ::. Ocular diz:
eu não queria bancar o bom rapaishhhhhhhhhhhh,
Alain .:: [ah2] ::. Ocular diz:
mas um conto sobre seus colegas mal não faz.
Alain .:: [ah2] ::. Ocular diz:
como foi?


Só pra deixar resgistrado que existe alguém, logo ali, que possui as mesmas linhas de humor, os mesmos problemas estanhos, as mesmas visões. Alguém como eu, só que diferente. Alguém em que nada existe, porque existe tudo. Em que tudo existe, porque não existe mais nada. Alguém por quem eu nutro meus mais bonitos sentimentos de proteção admiração, vindos do fundo do peito de uma pesssoa que não aprendeu a amar, mas tenta. Assim como todos nós, ou ninguém. Pelo menos como nós dois.

A minha consideração ao brother, Gramado bom em que eu deito e rolo e sou artilheira.

18.8.08

O retorno de saturno

- dizem que ele morreu com dois tiros na cabeça, no dia do retorno de saturno. E ele odiava astrologia.
- Eu nunca penso nisso...
- Em tiros?
- Não, em saturno.
- Eu sempre fico pensando nisso.
- Em saturno?
- Não, em tiros.
- Por quê?
- Porque eu penso em tiros?
- Não, porque você nunca pensa em saturno.
- Eu penso, às vezes. Por causa dos anéis. Acho bonito. Sabe, aquele planeta amarelo-alaranjado e os anéis... Acho muito bonito. E você?
- O que eu acho dos anéis?
- Não. Por que você nunca pensa em saturno.
- Eu penso. Quando me perguntam qual é meu planeta predileto eu respondo saturno. Talvez porque eu nunca lembre de nenhum outro planeta pra falar. Gostava de Plutão, por causa do nome: plu-tão. Me parecia qualquer coisa engraçada que fazia rir. E eu sempre preciso de coisas que façam rir. Agora Plutão foi rebaixado, não pode mais responder isso. Mas pra pensar em saturno precisa de um estímulo. Não é espontâneo como pensar em tiros. Gosto de Vênus, mas Vênus sempre me parece mais uma estrela.
- Por quê?
- Porque Vênus me parece mais uma estrela?
- Não. Por que você pensa mais facilmente em tiros.
- Porque tiros me lembram morte e quando se está vivo fatalmente se lembra de morte. Todo começo pressupõe um fim.
- Como assim?
- Como todo começo pressupõe um fim?
- Não, como você interliga tiros e morte. Você acha interessante?
- Acho.
- A morte, ou os tiros?
- Os tiros que antecedem a morte.
- Só os tiros que antecedem a morte?
- Só. Se você vive depois de um tiro é algum tipo de milagre, de descontinuação. Me interesso mais pelas coisas que seguem uma certa lógica.
- Por que isso?
- Porque eu prefiro coisas que seguem uma certa lógica?
- Não. Por que você só se interessa por tiros que antecedem a morte.
- Porque é rápido e simples. Um projétil estranho adentra o seu corpo e estoura suas veias, explode seu frágil corpo e jorra sangue por todos os lados, sem parar. Não importa se você era uma pessoa forte ou qualquer coisa. A bala perfura seus órgãos e em alguns segundos é só sangue e uma dor insuportável, um grito e o alívio. É como dormir, só que pra sempre.
- As crianças costumam dormir depois de chorarem. Talvez elas queiram sentir o alívio.
- Os depressivos dormem para esquecer a dor de estar vivo.
- Dizem que a morte é o alívio para dor de viver.
- Você acredita nisso?
- Que a morte é o alívio pra dor de viver?
- Não, que viver dói.
- às vezes. É mais ou menos como pensar em saturno. Só penso nisso quando me perguntam. Não é como pensar em morte, ou em tiros.
- por que?
- Porque eu nunca penso se viver dói?
- Não. Por que você pensa em morte e tiros.
- Não é pelo mesmo motivo que você. Eu só penso em morte e tiros porque tenho medo. Medo que aconteça comigo. Medo que um dia eu esteja andando na rua e um projétil estranho adentre as minhas víceras e depois de uma perfuração rápida e muito sangue, uma dor insuportável, um grito e o alívio.
- Todo mundo que vive tem medo de morrer.
- Você também?
- Também. Mas tenho bastante medo de estar viva.
- Tenho mais medo de levar um tiro e morrer. Por mais que seja rápido e simples. Mas e você?
- Se eu tenho medo de levar um tiro?
- Não. Se você acha que a vida dói.
- Continuamente.
- E você pensa nisso?
- Não.
- E como você sente que dói?
- Eu não sinto. Eu sei. É como uma dor crônica. Depois que dói todos os dias você esquece da dor. Mas você sabe que está doendo. É como dores crônicas nas costas, ou um casamento falido. Você se acostuma a viver com isso. Mas sabe que dói.
- E você nunca sente?
- Quase ninguém sente. Porque você acha que as pessoas estão sempre correndo o tempo todo?
- Por causa da dor?
- Pra não sentir.
- Sempre?
- Sempre. Você sente a dor quando está só você e você mesmo. Sabe, aquela hora que você acorda no meio da noite, ou o breve caminho do ponto de ônibus até em casa, quando seus pensamentos roubam seus monstros mais escondidos e colocam pra fora. É aí que dói. Não tem como evitar.
- Você faz isso?
- Se ocupar?
- Não, ficar só você e você mesma.
- Só quando eu não posso evitar.
- E se acontecer?
- Eu penso no alívio.
- Os tiros?
- Não. Dormir.

[ To be continued...
Isso ainda vira uma história total, um livro, um filme, ou o que eu inventar e me permitirem. Só a prévia. ]