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19.2.13

Despedir dá febre


Ao encontrar com ela depois de tanto tempo eu não sabia o que dizer. Ela não tinha mudado muito. Não tinha mudado nada, eu podia dizer. Tinha mudado bem pouco, essa era a verdade. Apareceu pra mim com uns cabelos bem curtos, umas roupas um pouco diferentes, mas sorria do mesmo jeito. Aquele mesmo jeito de sorrir colocando a língua por de trás dos dentes e franzindo o nariz de um jeito que eu acho que só ela consegue. Provavelmente não também, né? Várias outras mulheres no mundo devem saber franzir o nariz do jeito que ela faz, e talvez até sorriam colocando a língua por trás dos dentes, mas acho que isso de gostar muito de alguém, ou pelo menos lembrar muito de alguém faz com que a gente ache que essa pessoa é única. Pra mim, naquele momento, ela era a única pessoa no mundo capaz de rir franzindo o nariz e colocando a língua por trás do dente. Nenhuma outra mulher no mundo, nem as mais lindas teriam essa habilidade. As mulheres da red light street em amsterdã poderiam saber todos os segredos do sexo, todas as posições proibidas, segredos milenares escondidos para dar prazer a um homem, mas isso não me importava, eu não trocaria ela por nenhuma delas. Por nenhuma puta, nenhuma artista de tevê, por nenhuma menina bonita que conheci andando na rua. Não trocaria ela por ninguém porque só ela me importava. Ela, aquele cabelo curto preto jogado de lado, os óculos de armação surrada, a mania de quase-nunca usar vestidos, o jeito de sorrir franzindo o nariz e colocando a língua por trás dos dentes.

Fazia anos que eu não a via. Havíamos nos encontrado numa dessas festas de faculdade sem muita importância. Ela fazia ciências sociais, eu fazia jornalismo, ela passou a festa inteira segurando um livro de capa vermelha que depois acabei descobrindo que era "grande sertão: veredas". Ela gostava de guimarães rosa e eu também, eu gostava de cerveja e ela também, ela gostava de dançar e eu não muito. Ela parece não ter me ouvido quando eu disse que não, não ia dançar coisa nenhuma e acabou me puxando pelo braço, me levando pro meio da festa e dançando "here comes your man" do pixies, que na época fazia algum grande sucesso nessas festas universitárias. Era 1996, logo depois disso começou a tocar skank, ela disse que não gostava, eu gostava mas não quis dizer que sim e ela acabou me levando lá pra fora pra gente conversar. Foi a primeira vez que ela me sorriu franzindo o nariz e colocando a língua por trás dos dentes, mas na hora eu acho que não percebi nada disso. Ela me ofereceu um cigarro, eu disse que não fumava, ela perguntou se eu me importava que ela fumasse, eu disse que não e aí ela começou a contar da vida dela. Contou tudo, contou do curso, dos seus dezoito anos recém feitos, contou que gostava muito de música, de literatura, do David Bowie, do Radiohead, que ouvia Smiths antes de deitar, que detestava o Skank, e que simpatizava com essa nova onda de axe que ia tomando conta do Brasil. Aí ela ria, dizia que todo mundo tem que descer na boquinha da garrafa um dia se quiser ser feliz mesmo de verdade. "Se quiser ser feliz mesmo de verdade a gente não pode se levar a sério", ela concluiu. Lembro disso até hoje, foi nessa hora que eu acho que comecei a gostar dela, gostar assim de querer levar pra casa e dizer qual era meu filme preferido e mostrar meu filme preferido pra ver se de repente ela gostava. Ela falava tudo, sobre todas as coisas e eu ficava meio quieto balançando a cabeça. Depois ela me confessou, numa outra conversa, que não gosta de silêncios e tentava ocupar os espaços do meu silêncio falando e falando e falando. Até que teve uma hora que ela parou, olhou pra mim e disse "E você? me conta de você". Não soube responder. Dei uma gaguejada e disse "Eu?…Eu não sei, eu gosto do Skank". Daí ela riu e ficou me olhando. Daí eu dei um beijo nela porque eu já não sabia mais o que fazer, e ela parece ter gostado do beijo e até um pouco de mim porque me deu o telefone dela e disse que eu podia ligar quando quisesse, pra assim, quem sabe, tomar um café.

Liguei, tomamos aquele café, vários outros cafés em vários outros dias, nos encontrávamos nos intervalos das aulas, nas tardes que faziam sol e nas que choviam também e ela me contava dela com um fervor admirável, e me contava dos livros que lia, dos filmes que viu, me detalhava o nome dos diretores e vez ou outra aparecia com VHS que tinha alugado na locadora mas gostado tanto que queria que eu visse também. Depois ela pegou intimidade e levava logo a fita pra gente ver o filme juntos. Quando eu percebi eu também já contava as minhas coisas, as minhas angústias, todas essas coisas sobre o mundo que a gente tem ânsia de compartilhar com alguém que gosta de estar junto. Às vezes eu deitava no colo dela e sentia medo de tudo que eu dizia. Medo porque ela podia não gostar e eu tinha tanto medo que ela não gostasse de mim e parasse de aparecer com aqueles filmes, com um CD novo, que parece de ligar o rádio e cantarolar axé enquanto a gente ficava deitado na cama. Eu tinha medo que ela fosse embora então às vezes não falava nada, só escutava ela falar sobre todas aquelas coisas, e aquelas imensidões, e esperava ela trazer seus livros grifados com as suas partes preferidas pra me dizer "olha, olha isso que lindo!" e aí eu concordava que era lindo mesmo e ela me olhava meio de canto de olho como quem desconfia e aí dizia rindo "você gosta de tudo que eu gosto, assim não vale!". Daí pulava em cima de mim e me beijava feito louca e foi num desses dias que eu pensei que até podia viver sem ela se eu precisasse o problema é que eu não queria mais viver sem ela, daquele jeito dela de falar feito louca, de dançar no meio do quarto de rir franzindo o nariz e colocando a língua por trás do dente. Só que eu não sabia até que ponto podia ir, não sabia se a gente podia se mandar bilhete de amor, se eu podia dizer no meio do café que senti saudades de dormir com ela quando ela não dormia lá em casa, não sabia quando seria permitido chamar de "amor" (se é que um dia seria permitido), não sabia direito onde colocar a mão quando a gente andava na rua, não sabia se podia dizer que gostava dela assim, desse jeito de querer acordar de manhã e ver ela dormindo encolhida na minha cama de solteiro segurando a pontinha da coberta. É que o começo do amor é isso, é esse bebê que não sabe se equilibrar e a gente vai andando meio torto, sempre com medo de cair e o meu medo era dar um passo em falso e perder ela, por isso eu nem falava muito de sentimento nem nada, só ficava ali abraçado com ela enquanto ela trazia os filmes, os livros, as músicas; enquanto ela fazia as comidas, os bolos, as tortas e enquanto ela tentava tímida descobrir coisas sobre mim que eu nem sempre contava, mas às vezes tinha urgência de contar também e aí enchia os ouvidos dela de bobagens. Tinha ficado aquilo: a urgência de compartilhar tudo de importante com ela, sempre com medo dela me achar bobo, um pouco burro, desajeitado, incapaz. Às vezes tinha com ela longas conversas sobre o que eu queria ser, sobre as coisas que eu gostava, e às vezes até coisas mais sérias como as minhas inseguranças, como o fato do meu pai ter me abandonado quando criança e aí ela se compadecia toda e me colocava no colo daí acabava dizendo de novo que se a gente quisesse mesmo ser feliz não podia levar a vida tão a sério e no fim me beijava o nariz, ou subia em cima de mim e fazia alguma gracinha infantil pra tirar o clima estranho que fica toda vez que alguém que nunca desabafa acaba dizendo algo delicado.

Teve um dia que ela foi em casa e aí contou do curso, dos novos sociólogos, e tudo com muita empolgação e aí eu só olhava pra ela rindo que nem bobo até que percebi que era isso, eu gostava mesmo dela, não tinha mais jeito e aí danei a ficar pensativo, olhar pra frente, não falar mais nada porque se eu falasse qualquer outra coisa ia acabar me revelando. Aí ela percebeu e acabou perguntando "o que foi, tá tão quieto" aí eu ia dizer que não era nada, bobagem, coisa da sua cabeça, fiquei estudando até tarde, qualquer bobagem assim, mas acabou que falei "muita coisa importante falta nome". Aí ela sorriu, reconheceu a citação e falou "acho que não precisa inventar neologismo pro amor não, já inventaram a palavra". Aí eu sorri de volta até que ela perguntou de vez "Você acha que a gente ia dar certo namorando?" Aí eu respondi que sim, ela concordou que sim e resolvemos dar nome àquilo que na verdade já acontecia há muito tempo. Namoramos os quatro anos da faculdade e eu me lembro de poucos períodos na vida em que tenha sido mais feliz. Ela melhorava meus dias, dava vida a qualquer coisa dentro de mim que eu nem sabia o que era e nossa estante de livros, vhs e cds foi ficando cada vez maior. A gente dividia um quarto e sala modesto perto da universidade, e a casa tinha o jeito dela mas tinha o meu também. Daí eu me formei, ela se formou também, a gente mudou pra um apartamento um pouco maior no centro, ela se encarregava de uns afazeres, eu fazia o resto, a gente transava em todos os lugares da casa e eu achei que a gente ia durar pra sempre. Até que um dia me chega ela com uma carta, diz que recebeu uma proposta de trabalho na alemanha, que era pra fazer um curso e trabalhar lá "um ano, talvez mais, daí depende"  e antes que eu pudesse dizer que eu ia com ela até pra sibéria se fosse necessário ela disse "mas vou sozinha, acho que não tá dando mais. Preciso disso, assim, longe de você. não sei o que é, é muita coisa importante falta nome". Me lembro de quase querer jogar ela da sacada quando ela me veio com essa de usar pra terminar o relacionamento a frase que eu sei pra dizer que amava ela. Tentei insistir, ela dizia que não, que não dava que olha o que a gente estava fazendo com a nossa vida, nem vinte e e dois anos e já com planos de casar e isso e aquilo e ela dizendo que ela nunca conheceu outra vida que não eu, que precisava disso, que precisava ir embora pra ver se ela voltava pra mim um dia que era assim que ia ser e pronto. Fez as malas e em uma semana estava na Alemanha. Não me deixou ir no aeroporto, só deixou o grande sertão comigo com a frase "a gente só sabe bem aquilo que não entende. Te amo" escrita como dedicatória. Deixou também uma carta que ela tinha uma mania de carta e na verdade ela nunca voltou da Alemanha. Fiquei sabendo dela, quase casou por lá, depois descasou, depois voltou pra cá e namorou uns outros caras mas nunca quis saber de me procurar. Até que um dia toca o telefone e é ela. Sete anos depois. Sete anos inteiros depois ela resolve me procurar e bagunçar tudo aquilo que eu tinha conseguido ser sem ela. Logo que ela foi embora foi o inferno. Não conseguia sair de casa, me afundei, achei que nunca mais ia conseguir escrever uma matéria de jornal e o que dirá amar de novo. Amar igual amei ela não amei mesmo, mas encontrei umas garotas legais, pensei em casar, depois despensei e meu emprego ia muito bem, eu já era um jornalista de renome. Estava tudo certo na minha vida até que eu ouço a voz dela naquele maldito telefonema e ela marca comigo num café e eu não consigo dizer não porque naquelas alturas nem mágoa mais eu tinha. 

Ela continuava quase do mesmo jeito, exceto por um certo cansaço. Perguntei da Alemanha, ela disse que foi tudo bem por lá, que ela precisava daquilo, que se a gente tivesse continuado do jeito que estava a gente teria tido uma separação traumática e nos odiaríamos pra sempre. "Traumática foi", pensei. "talvez não pra você, mas traumática foi bastante". Não disse nada. Deixei ela contar e ela me disse que tinha virado pesquisadora, tinha alguns livros publicados, e acabou fazendo doutorado por lá. Estava bem estabelecida, decidida e bastante jovem pra uma mulher de quase trinta anos. Não tinha mudado nada da menina de dezoito por quem me apaixonei, a não ser pelos cabelos curtos e porque agora se arrumava mais (embora tenha confessado que ainda não gosta muito de vestidos). Aí contei de mim, do meu trabalho, que estava bem, que tinha dado certo na carreira de jornalista que me trazia tantas dúvidas na época em que namorávamos e ela me ouvia compenetrada, embora continuasse com aquela mesma mania de contar tudo que podia sobre ela como se o mundo fosse acabar no próximo minuto. No começo foi tudo esquisito, a gente não sabia muito bem sobre o que podia falar e sobre o que não podia. Ela falava bem mais que eu e eu me sentia de novo naquela festa em que nos conhecemos. Eu era de novo aquele cara do lado de fora ouvindo ela contar sobre todas as coisas que achava, e nem percebia, mas achava tudo encantador. De repente ela me tira da bolsa um DVD e diz "Manhattan ainda é seu filme preferido? O Woody allen tava fazendo uma noite de autógrafos em nova york quando eu passei por lá, era de um livro na verdade, mas daí lembrei de você, que era seu filme preferido e resolvi te trazer". Aí eu não sabia mais o que fazer, ficava pensando se ela vez ou outra lembrava de mim enquanto andava pelas ruas da Alemanha fria. Se já tinha pensado em me ligar. Se ficava na sacada relembrando das coisas que eu tinha lhe dito. Se alguma vez releu grande sertão e chorou. Não quis perguntar nada, não era hora. Só agradeci muito o presente e disse: "Acho que ainda gosto muito, mas não tive mais coragem de ver". "Também não tive", ela respondeu. E me contou que na verdade tinha o DVD fazia pelo menos uns três anos e tinha tido bastante vontade de me dar, só que aí não sabia como, não sabia como me ligava, se podia ligar, se eu um dia ia querer falar com ela de novo. "Daí guardei, só te liguei agora porque achei que não tinha nada a perder" "E da fato não tinha", respondi. Aí continuamos a conversar, mas de certa forma eu tinha medo de dizer qualquer coisa, errar o tom, fazer ela ir embora me achando um completo idiota. Também não tinha sentido nos reencontrar e dizermos que nossa, na verdade sempre nos amamos e devíamos começar a história de novo agora. Tantos anos, tanto tempo, tanta gente na nossa vida. Não é simples assim. Daí enquanto ela comia um pedaço de bolo me disse "Sabe, eu te deixei aquele livro com aquela frase na dedicatória. Sempre gostei muito disso, dessa sensação da gente só saber bem aquilo que não entende. Eu fui embora quando eu não sabia mais o que eu sentia por você. Não entendia, não dava, não dava liga. Acho que não entendo bem até hoje, mas sei. Sei, sempre soube que um dia ia ser isso, a gente ia se encontrar de novo e não ia ter estranheza nem mágoa, eu sempre soube que você não ia pisotear em cima do DVD do woody allen nem nada porque eu acho que eu sei muito sobre você, eu sei muito sobre a gente, eu sei muito sobre isso que a gente não entende e eu sei que você sabe também". Naquela hora me senti exatamente do mesmo jeito que me senti quando ela me perguntou "E você, fala de você". Daí respondi meio idiota "Eu sei, eu sempre soube sobre a gente". Ela me sorriu. Ela continua tomando café forte e sem açúcar, gosta dos mesmos escritores, descobriu uns outros, amadureceu, diz que não tem mais vontade sair correndo toda vez que sente que está indo rumo a algo mais sério (seja no amor, seja na profissão), ela ainda é de esquerda só que nem tanto e continua me dando olhar desconfiado quando eu digo que concordo com ela. Ela continua. Essa era a verdade toda, ela continua. 

E aí eu queria dizer pra ela sobre todas as coisas, sobre a infinidade do universo, sobre todos os textos que eu tenho escrito, sobre esses prêmios que me deram. Queria contar pra ela de todos os livros que li e pensei nela achando que ela ia gostar. Queria dizer sobre os CDs que guardei numa caixinha pensando que seria legal ouvirmos enquanto conversávamos e tomávamos cerveja. Ela gosta de cerveja e eu também. E era tanta coisa que eu queria falar pra aquela mulher que no fundo era a mesma, porque eu também era o mesmo e eu queria levar ela pra ver meus filmes preferidos pra ver se ela também gosta dos meus filmes preferidos e eu queria contar de todos os mistérios do mundo, dos escândalos, das verdades, das mentiras, das músicas bonitas que fizeram e não ouvimos juntos, das coisas que tenho feito, de tudo que mudei e ela ainda não sabe, de tudo que permaneço e ela já sentiu. Era tanta coisa que eu queria dizer e tanto medo de que ela não gostasse de nada disso que eu tenho pra falar, que eu quero falar em madrugadas eternas que passaríamos acordados. É tanta coisa que que quero dividir, eu quero mostrar meus textos e todas as pessoas que eu conheci e eu quero ensinar pra ela tudo que ela ainda não sabe sobre mim e quero que aprendamos juntos tudo que a gente ainda não sabe sobre nós e sobre o mundo, e sobre fotografia, cinema, física quântica, gastronomia, jogar tranca, buraco, regras de tênis, qualquer coisa. Eu queria falar, eu queria pegar ela pela mão e não parar de falar nunca mais só que eu tinha tanto medo que acendi um cigarro, perguntei se ela queria, ela disse que não fumava mais, perguntei se ela se importava com o cigarro e ela disse que não, e aí  fiquei ouvindo ela contar aquelas banalidades que ela gostava tanto. Ela me disse que eu continuava muito quieto. Eu retruquei "E a senhora sabe o que é o silêncio? O silêncio é a gente mesmo demais". Ela sorriu. Lembrei do livro dela e capa vermelha dentro da minha pasta e devolvi. Ela me sorriu franzindo o nariz e colocando a língua atrás dos dentes. Eu novamente não sabia o que dizer pra aquela menina que segurava um livro de capa vermelha e me perguntava "E você? Me fala de você!".  "Eu?… Acho que eu não gosto mais de Skank".  Ao encontrar com ela depois de tanto tempo eu continuava sem saber direito o que dizer., só que dessa vez não lhe dei um beijo. Vai que apresso demais as coisas, vai que a gente se atropela e se perde. O diabo é isso de se sentir menino de novo já sendo meio velho. O diabo é ela, outra vez. Ela diz que se a gente quisesse mesmo ser feliz a gente não podia levar nada tão a sério. Aí sorrimos. Recomeça. 

23.10.12

a idade de nenhuma razão

fico sentada aqui, esperando que as coisas façam algum sentido. Nunca fazem. Prometo todos os dias, sem faltar nenhum, que dormirei mais cedo, que acordarei mais cedo, que finalmente conseguirei tomar café no horário cedo e, quem sabe, comer um pedaço de bolo. Olho pra minha cara cheia de sono no espelho e concluo: as olheiras estão cada vez mais funda e a apatia, embora mais amena, ainda é visível.    A tinta do meu cabelo sempre desbota; faz dias que eu não sei direito o que é me arrumar pra sair. Quase não vejo a luz do sol, exceto quando olho pela janela um pouquinho antes de sentar na mesa em que costumo desempenhar minhas atividades corriqueiras que consistem em fingir que eu faço tudo aquilo que eu deveria estar fazendo de fato. Talvez devesse ter rotina, como todo mundo; sair todo dia às sete da manhã de casa, encarar aquelas pessoas de olhares tristes que nunca sequer souberam o que era querer ter alguma coisa a mais do que uma casa com tv pra ver o jornal e a novela. No meio disso tudo, desejar ser uma dessas pessoas; desejar ter uma casa, uma quitenete que seja e eletrodomésticos financiados em doze vezes sem juros no cartão. Uma geladeira, uma tv, um computador, um sofá mais ou menos, uma poltrona, um microondas. Depois um carro, uma fruteira bonita, qualquer parafernalha dessas de decoração de casa. Mas não saio, não quero nada. Minha existência se resume à duas novelas e alguns programas sobre culinária. O de sempre.

Nesses mesmos dias imagino ligar pra ele, convidar pra uma cerveja. Fico sempre pensando nele tentando me aconselhar de um jeito meio torto, depois me perguntando de uns livros; livros que nem li inteiros, mas gostava de fingir. Às vezes eu tinha que explicar alguma coisa usando minhas figuras estranhas de linguagem, minhas metáforas cheias de cultura pop. Ele ria. Ser mais equilibrado que eu era um pouco fácil, e mesmo quando eu chegava bufando ele tinha um jeito de dizer que "não era bem assim que as coisas eram, tem de ter paciência". Quase nunca soube agradecer. Ali na estante tem uma revista que comprei faz mais de um mês pra dar pra ele. Já imaginei todos os cenários possíveis. Convidar pra uma cerveja sem contar da revista; contar da revista com um pretexto pra sair; deixar na portaria do prédio dele com algum bilhete engraçadinho e esperar a resposta. Em qualquer uma das possibilidades me sinto inadequada. Aí fica a revista e eu esperando pelo dia em que estaremos nos braços dele de novo. Se é que um dia estaremos. Minha hipocondria heróica já antevê até essa dor de coração. Tenho medo de morrer empalada nessa montanha russa de sentimento que não sei como lidar. É como uma crise de pânico. Tenho medo de ter medo. Tenho medo de tudo que posso fazer de errado e aí não faço nada. Sou eu naquela última cena do alfie dizendo que todos eles fizeram muito por mim e eu não fiz nada por ele. Eu nunca fiz nada por ele. 

Meu rosto no espelho fatigado de tanta besteira & mágoa. As olheiras de quem passou um ano terrível. Corta o filme e eu faço meu cafuné desajeitado no cabelo dele. Três ou quatro vezes até conseguir encostar a mão. Aí encostava e girava os dedos do jeito errado. Nem sei se sei fazer cafuné. Das coisas que aprendi por amor, anteriormente, acho que só me sobrou o café. De resto, sei pouco. Acho que ele me ouviria falar sobre essas coisas que agora me interessam mas não interessam ninguém mais tanto assim. Não sei, também. Olho pros meus livros do Sartre na estante e quase consigo ouvir ele me dizer em sotaque francês que vai ser sempre assim: a gente sempre vai ter essa angústia pré escolha. Porque a angústia da escolha é sempre essa: a da coisa escolhida e a da coisa deixada. Fico pensando se seria capaz de largar um pedaço da minha liberdade por ele, e ao mesmo tempo penso no revés: quero largar ele por um tico de liberdade? Não sei responder. O sartre me olharia com aqueles olhos vesguinhos dele e talvez me entendesse. Talvez. A vida é sempre isso, afinal: um eterno não saber. 

Enquanto escrevo tudo isso o relógio marca que, mais uma vez, não conseguirei tomar café, tomar bolo, estar em pé antes do jornal da hora do almoço. De novo as olheiras cansadas de quem não consegue sair de casa pra comer uma coxinha, tomar um sorvete, ver se a rua continua do mesmo jeito ou se, quem sabe, construíram uma loja de alguma coisa qualquer no trajeto de sempre. As ruas são sempre assim: cheias de coisas que a gente nem queria pra invejar. Dei de andar sozinha e invejar os casais, as mulheres vendedoras em suas rotinas desgastantes, as meninas ricas que compram na arezzo às três da tarde. E eu ali, tendo que tirar dinheiro no caixa eletrônico pra comer uma coxinha, os cabelos desgrenhados, sem um propósito. Dia desses estive tão assim-assim que quase entrei na catedral. Depois fiquei pensando que estar na catedral seria mais ou menos como estar num daqueles shows que não conheço as músicas, mas todo mundo a minha volta conhece: o total despertencimento. Talvez seja isso a vida também, esse eterno show onde todo mundo conhece as músicas, menos eu. Fico querendo sumir; não sumo. Quero mandar uma mensagem pra ele; deixo pra amanhã. Ontem cantei uma dessas músicas que sempre canto e achei que ele entenderia. Sinto falta dele quando faço coisas que são exclusivamente minhas, e não sei o que significa porque não sei de nada. Enquanto escrevo tudo isso um bicho chato pousa na tela do meu computador. Canso de escrever do mesmo jeito que canso da vida; sinto muito sono e não durmo. Sei que amanhã vou desligar o despertador no momento em que ele tocar e deixar na estante. Na estante também está aquela revista que comprei pra dar pra ele e finjo pra mim mesma que agora é uma decoração pro meu quarto. Às vezes até acredito que comprei pra mim mesma. A cidade em que eu moro não faz barulho às quatro da manhã. A cidade em que eu moro é a cidade em que ele mora também. Meu coração faz um barulho estranho. Às vezes olho pra foto dele e não gosto da sensação; meu coração faz um barulho estranho. O barulho do não saber. Me olho no espelho e meus olhos estão vermelhos de sono. Prometo pra mim mesma que um dia lhe dou a tal revista. Nem eu acredito em mim. Vejo uma foto qualquer dele que surge por aí e penso envergonhada "ai de mim se ele ler esse texto". Agora sou simone de beauvoir segurando uma arma e Sartre me tendo pela cintura diz: "vai, atira!". Eu não faço nada e digo "o problema de escolher soltar a bala é a angústia de não saber o que aconteceria caso a bala tivesse ficado na espingarda". Ele me fita de olhos vesgos e sorri com os dentes podres: "a vida é a eterna angústia de não saber o que teria sido se a bala tivesse ficado na espingarda. E ao ficar, a angústia de não saber o que aconteceria se tivesse atirado". "A vida é uma merda, então", concluo. 

17.2.12

half the world away

(I've been lost I've been found and I don't feel down)

Era difícil transformar a distância em coisa palpável, digna de ser escrita. Talvez fosse necessário uma metáfora, dessas assim bem feitas, dessas que traduzem perfeitamente o sentimento que não tem representação, e nem se pode desenhar. Podia, é claro, desenhar no mapa, contar em quilômetros, representar através do google maps qual era a trajetória mais rápida para ligar dois pontos. 480km. 8 horas de viagem de ônibus. 6 horas de carro. 1 hora de avião. 84 reais de passagem. 60 reais de pedágio. 119 reais pela gol em promoção. Qualquer coisa dessas não seria digna de traduzir o que é estar longe daquilo que se queria perto. A distância é cruel. Sabe-se que é cruel quando se vê os choros nos aeroportos e nas rodoviárias, as pessoas se abraçando sôfregas, se beijando com gosto de sal, não querendo largar as mãos. Depois que se entra no ônibus, no carro, ou no avião, tudo é uma coisa meio sem volta. Meio porque sempre há como se voltar, pegar o mesmo avião em que se partiu, voltar pelo mesmo caminho que se foi, pagar os mesmos reais na passagem de ônibus, mas enquanto a volta não acontece tudo é cruel.

Os dias passam rápido demais quando em boa presença, mas dão de passar devagar depois que se dá a distância. É difícil se manter presente na ausência. Às vezes as palavras dizem muito pouco, e por mais que a tecnologia esteja avançada, os audiovisuais ainda não aprenderam a substituir o toque. Consolar à distância também se torma uma arte difícil, é preciso fazer todo um tratado, uma epopéia quem sabe, pra poder chegar perto do que um chá e um colo - quem sabe um cafuné - fariam. Estar distante é sentir-se preocupado por coisas que não fazem parte da sua rotina, é estar aqui e a cabeça voar pra outro lugar, é querer notícias e notificações em qualquer lugar que seja, que digam que o agente causador da saudade está bem, vivo, respirando e quem sabe: feliz. Sentir que a outra pessoa não vai bem na distância dói duas vezes. Dói primeiro como doeria em qualquer pessoa, porque ninguém gosta de ver a pessoa que gosta sofrendo, e depois dói porque ao ver a pessoa que se gosta sofrendo, as formas de fazer isso se atenuar se tornam escassas. É possível, é claro, dizer várias palavras por telefone, mandar e-mails, sms, conversar pelo skype, pelo msn, seja lá por onde for, mas não se pode abraçar, não se pode olhar nos olhos e dizer que vai ficar tudo bem, não se pode dar as mãos, levar pra um café, colocar um filme, fazer uma comida. A distância extirpa a possibilidade mais bonita do estar com a outra pessoa: o silêncio que só é possível em presença. Porque às vezes não é preciso dizer nada, só é necessário estar junto. E pra se fazer presente em meio à distância é preciso a fala, é preciso o texto, é preciso o aúdio, e não é possível o calor do toque.

A distância é cruel porque tira a possibilidade mais primitiva do relacionamento entre duas pessoas: o simples estar junto. E é no meio da distância que às vezes a gente percebe que pra estar bem, não é necessário muito, é só necessário estar junto. É claro, são interessantíssimos os programas a dois, os cinemas, os bares, as lojas, as livrarias, os restaurantes e todo o universo que uma cidade é capaz de dar a duas pessoas que saem juntas, mas existem dias que nada disso é assim, tão imprescindível. Era possível que estivéssemos felizes sentados na calçada, na cama, no sofá da sala. Era possível que estivéssemos felizes se ele estivesse no quarto lendo um livro enquanto eu termino um trabalho no computador. Era possível até, que estivéssemos cada um em uma parte da cidade, mas pudéssemos contar com a certeza do encontro daqui há algumas horas, quando fosse necessário, ou quando simplesmente quiséssemos. A distância é cruel porque tira a possibilidade da presença, diminuindo ela aos feriados, às viagens, aos telefones, às mensagens de texto, às chamadas no skype. A distância é cruel porque separa. Porque separa dois corpos, duas mãos, duas bocas, dois olhares, dois cheiros, porque mina a possibilidade de. A distância é cruel porque faz com que se viva as vidas meio que pela metade. Tudo que se vive aqui acontece duas vezes, ou acontece pela metade. Acontece duas vezes quando eu penso que esse café é legal, mas também seria legal na presença dele. Acontece pela metade quando um lugar é chato, mas poderia ser legal na presença dele. Acontece triste, quando eu sei que ele não está bem e eu não posso fazer muita coisa. Acontece preocupada quando eu não estou bem, e ele sabe que não pode fazer tanta coisa assim. E dói porque por mais que façamos, sabemos que poderíamos fazer mais, se estivéssemos mais perto. A distância é cruel porque ata, porque diminui, porque impossibilita.

É difícil dar nome e voz à distância. É difícil mensurar a saudades, a falta, a preocupação. É difícil suprir a vontade de um abraço com uma mensagem de texto, é estranho querer chamar pra um café e só poder ligar. A distância é o livro que leio e não posso te mostrar, é o lugar novo que conheci e que não posso te levar, é o sorriso que dei e você não viu, a distância é aquele cachorro que corre em círculos tentando pegar o próprio rabo sem nunca conseguir. A distância é o andar em círculos desse cachorro que corre, que quer muito, que chega perto, que tem a parte junto de si em seu corpo, mas que nunca alcança de fato. A distância é essa lágrima que cai e que ninguém seca. É o vazio da presença, é o estar nessa cidade, no meio de 500 mil pessoas diferentes e nenhuma delas servir tão bem quanto. É um querer que ninguém mais ocupe o lugar do seu lado no cinema, é sentir-se plenamente feliz faltando um pedaço, é um quebra-cabeça que sempre falta uma peça. Estar distante é não conseguir dividir a tristeza e nem compartilhar a alegria, é o simulacro quase sem sentido da realidade que acontece separada, é ficar tentando emular como seria se estivéssemos perto, é nos mandar beijos por vídeo esperando que eles fossem reais. A distância - eu pensava que não - é essa coisa que castiga. Castiga meu coraçãozinho forte, que pensava sobreviver (porque já sobreviveu) à longas distâncias e baixas temperaturas. Sobreviver ele sobrevive, mas hoje bate devagar, como viajante que respira menos em longas altitudes. A distância é meu coração tentando respirar com ar rarefeito. 

Eu respiro com o ar rarefeito nessa cidade de terra vermelha, sinto um tico da sua dor e me sinto impotente. Tenho vontade estar mais perto, e de algum jeito estranho - e muito pouco racional pra essa cabecinha que sempre gostou de coisas palpáveis, exatas: dois mais dois é igual a quatro - sei que vai ser  possível. É que apesar de todos os pormenores da distância que castiga, existe aquele sorriso de fim de noite, depois de uma ligação que me gastou metade dos meus créditos telefônicos, porque existe alguém ali pra mim. Alguém que se faz presente em mensagens de texto, notificações de redes sociais e na conversa rápida do audiovisual e das linhas telefônicas. Alguém que é o meu café pra começar o dia disposta, e o chá de camomila depois do dia cansativo. O ombro pra encostar, o olho esquerdo piscando moleque, uma espécie de porto seguro pra essa minha vida que vai barquinho na correnteza, o cais onde eu posso quem-sabe atracar por tempo (in)determinado. Hoje eu sou aquele cachorro que abocanha o próprio rabo. Porque a distância existe, castiga, machuca, mas parece transponível. A distância é só um clique. 



25.9.11

eau de perfume

Lembro. Quero dizer alguma coisa, qualquer coisa assim que invadisse todos os sentidos, os poros, que fizesse uma sinestesia da alma. Qualquer coisa que fizesse a alma ter cor, gosto, cheiro, que desse pra pegar a alma com a ponta dos dedos. Ensaio. Ensaio mil e uma vezes o melhor jeito de dizer, sem que pareça muito, sem que pareça pouco, sem que pareça nem demais e nem raso. O suficiente. Queria dizer o suficiente dessa coisa assim, sabe, essa coisa que não tem nem nome nem jeito, nem denominação. Dessa coisa que chegou um dia, de madrugada, não avisou nada, não avisou como vinha e nem se ia embora. Teria nascido a coisa? o que nasceu afinal? nasceu assim de um jeito torto, estranho, linha cruzada da vida. Interferência, atraso, desvio, atalho. Caminho? Seria esse o caminho a seguir? Não sei. Sei que lembro. Lembro e repasso os momentos aqui e ali, num de cada vez, não sei o que pensar, despenso, não sei o que dizer, desdigo, tento escrever e não sai. Canto, canto para mim qualquer coisa assim sobre você, mas não isso porque essa não é a banda certa. Danço na sala, relembro de novo, ensaio uma declaração de qualquer coisa, te dedico todos os versos. Depois te esqueço, te enfio debaixo dos cobertores e saio, sou sozinha, sempre fui, te afasta, te afasta eu não sei o que te dizer. Não hoje, não assim desse jeito, amanhã talvez-quem-sabe, mas amanhã também não, amanhã é muito cedo, ou seria tarde demais? Quando é o tempo certo. Existe? o tempo, senhor relativo das coisas, apressado, cruel. Penso no instante certo e o instante se foi, se perdeu, eu me perdi. O que foi que aconteceu? o que é isso que tem acontecido? Não sei. Esqueço. Lembro de novo. Faz frio. Aquele caminho, sempre aquele caminho. Corro. Corro dez metros, vinte, trinta, cem metros, um quilômetro inteiro e quase explodo. Explodo e depois caminho. Caminho devagar pensando. Lembro. Queria dizer alguma coisa, qualquer coisa, gritar, correr, tentar explicar usando as palavras, um gesto, um cartaz, gifs animados. Queria soar menos brega, menos clichê, mais madura, queria uma ficção bonita, inventada pra dizer tudo isso. Tudo isso o que? Nem eu sei. Existe? Penso de novo em versos, saudades quem sabe, pipoca às três da tarde, uma metáfora qualquer. Uma história dessas, dois personagens, aventuras, o romantismo está nas pequenas coisas. Pequenínissimas. O mesmo verso cantado da música. Você me faz sorrir. Talvez seja isso. Talvez não. Lembro. Queria uma história inventada, qualquer coisa sublime, sentir orgulho, terminar de escrever e sorrir, explicar tudo isso, mas não consigo. Não sei dizer das coisas vivas. Só das que já morreram. E essa coisa sem nome se faz viva. Viva demais. E invade como esses perfumes baratos que impregnam. Invade e fica no nariz. Esse cheiro de perfume. E eu, que sofro do medo ancestral de perder tudo, prefiro me afastar. Me dissipo no ar como o perfume que não dura. E acabo por não dizer nada.

21.4.11

Verborragia metafórica

"Como eu vou te explicar, é assim como, como se eu tivesse construindo uma casa, sabe? uma casa simples e de repente começasse a não querer mais uma casa simples, porque uma casa simples não supria mais as minhas necessidades e daí eu resolvo comprar um pouco mais de tijolos, e refazer o projeto e tudo isso vai criando uma casa maior e de repente eu não quero aquela casa mais, quero outra, e tudo isso vai aumentando e aumentando e de repente eu invento de construir um castelo e nesse castelo tem muitos quartos e salas, e janelas e jardins, imensos jardins onde eu começo a colocar flores e muitas árvores, inúmeras árvores onde eu espero que você me ensine a subir, você sabia que eu nunca soube subir em árvores? pois é, eu não sei, eu sempre tive medo, eu sempre tive muito medo de tudo, inclusive de você e não só de você, das pessoas e de tudo isso, sabe? se tudo isso de sentir e tudo mais, sentir é muito pior do que construir casas, ou castelos, e é mais ou menos isso que eu quero te explicar porque eu sentia uma coisa que cabia numa casa e de repente não coube e eu tive que aumentar e aumentar e de repente precisei de um castelo, um castelo inteiro pra colocar tudo isso que eu sentia em cômodos separados, em cada um eu colocava um sentimento diferente e às vezes era ódio e às vezes raiva e às vezes satisfação. Tinha até solidão, indiferença, mas tinha coisas bonitas também, tinha consideração e alegria, e euforia e tinha também um pouco de paixão porque tem que existir paixão pra que se valha a pena construir castelos e casas ou criar jardins com árvores e tinha essa esperança também uma certa esperança que você me ensinasse a subir nas árvores que eu plantei e na verdade eu não sei o que eu espero construindo esses castelo eu não sei se eu precisava construir um castelo porque eu construi tudo isso e na verdade eu nem sei, talvez eu ainda esteja construindo uma casa pequena e tudo mais e nem tenha árvores nem nada, só mato um monte de mato pra cortar e daí quem sabe plantar alguma coisa, é que às vezes eu me imagino morando na casa e acho tudo muito pequeno e ruim e tudo aquilo não me preenche, e às vezes penso num castelo e acho demais, é demais um castelo, é muito grande pra mim e eu não sei lidar com castelos, só com coisas pequenas, bem pequenas, pequenas como um quarto que não exigem muito trabalho, talvez menores que um quarto, você entende? eu quero coisas que ocupem uma gaveta, é isso, uma gaveta. Uma gaveta em que eu possa trancar a coisa lá dentro porque a gente pode ter total controle sobre as coisas que estão dentro de uma gaveta e mexer nelas como bem entender e até é assim com uma casa também, as coisas fogem um pouco do controle às vezes, mas dá pra dar um jeito, precisa de pouco tempo, mas imagina um castelo, a gente não tem controle sobre o castelo, podem estar acontecendo coisas que a gente não se dá conta e quando vê elas já aconteceram, já foram é assim tão irreversível se mudar pra um castelo que eu nem sei te dizer, porque com certeza você se perde porque tem vezes que você tá no jardim subindo em árvores feliz e nem se dá conta que coisas terríveis podem estar acontecendo nos quartos, ou na sala e podem entrar pessoas novas no seu castelo e quando você percebe já é tarde demais, pode ter sujeira enfiada debaixo dos tapetes e um monte de segredos entre os corredores, é muita ingenuidade achar que vai conseguir dar conta de um castelo. Mas também quando você se dá conta você j;a construiu e já se mudou lá pra dentro, mas eu nem sei se construi alguma coisa, nem sei se isso é uma gaveta ou se é uma casa, ou um castelo, é que me encanta a idéia das árvores, não dá pra colocar árvores dentro de uma gaveta e cabem poucas dentro de uma casa, dentro de um castelo cabem várias, mas também cabem outras coisas, cabem até masmorras coisas que matam que destroem e talvez seja melhor esquecer as àrvores e ficar mesmo com as gavetas, no máximo as casas pequenas, sem árvores, quem sabe um arbusto e no máximo um canteirinho de flores, é mais seguro assim não é, e sei que as casas não são tão bonitas quanto os castelos e tem as árvores eu sei, as árvores em que você me ensinaria a subir, mas se pode cair das árvores também por mais bonitas que elas sejam, pode se cair e se machucar e não há como se machucar em uma gaveta, no máximo prender o dedo, mas não se quebra uma perna ou morre, é, talvez você tenha razão uma gaveta, uma gaveta bonita e bem arrumada que a gente pode trancar quando quiser, é isso, uma gaveta veja estou cuidando de uma gaveta, é isso eu estou cuidando de uma gaveta construí uma gaveta e é só isso, uma simples gaveta só que o que eu quero te explicar é isso e é também te dizer, é que na verdade eu queria te dizer que tem essa gaveta e tal mas ela tá dentro do castelo, sabe? um dia talvez eu queira sair da gaveta e olhar o castelo eu acho que é isso, eu queria te dizer que eu tenho medo das casas, e das casas grandes, e dos castelos e das árvores eu tenho muito medo das árvores então o que quer que eu construa eu queria te pedir, não me deixa não me deixa morrer, tá tudo bem se eu cair, se eu me machucar, eu já me machuquei tantas vezes mesmo, mas me deixa longe dessas coisas que matam escondidas debaixo dos tapetes dos castelos, em cima das torres, nos galhos das árvores, me livra disso. Me livra de morrer porque eu sei que sobre essas coisas que matam a gente não tem controle porque elas crescem. Elas crescem até no fundo falso das gavetas, é que até as gavetas tem um fundo falso e quando a gente se deu conta já morreu então não me deixa morrer, nem nessa gaveta, nem uma casa e nem num castelo enorme subindo nas árvores que eu plantei. Mas se for o caso de construir jardins, constrói comigo, planta as flores, rega as árvores, sobe nelas comigo e cuida do jardim, cuida de mim e não deixa morrer.

8.4.11

De novo, aquela palavra.

E passam-se três anos desde. E vê-se sentindo da mesma maneira. Só que diferente. Percebe então que não está sentindo-se ainda da mesma maneira, e sim que se sente de novo da mesma maneira. Dessa vez sem filme, sem sacada, sem livro. Sem olhos e sem encontro. Coisa que acontece no meio de novos marços, entrando novos abris, que fazem nascer outras coisas. Mas o sentimento é o mesmo. Há três anos atrás não sabia o que isso significava. Hoje sabe que essa coisa arrebatadora e ridícula atende por um nome. Nome que prefere guardar. Melhor não dizer que a palavra quebra. É cheio de quebrar essa tal palavra. É cheio de fazer doer quando se sente. Há três anos atrás não sabia no que ia dar isso tudo. Hoje já deu, já acabou, foi-se. Depois de três anos ainda não sabe o que a coisa nova vai dar. Pode nem começar. Pode não dar em nada, mas não sabe. Desligaria com um simples apertar de botão, se pudesse. Mas sabe que não vai. A tal palavra ainda não dita não é coisa de botão. É coisa de sentir. A gente desliga e ela continua pulsando. A gente tenta ligar e ela não funciona. É que essa tal coisa não aceita estímulo, nem mandinga, nem simpatia. É que às vezes a vida dá de fazer nascer na gente coisas nos lugares em que a gente não imagina que possa. Nasce um dia, como se nasce uma flor. Vida nascendo no sertão. Improvável como flor nascendo na pedra. Um jardim inteiro brotando numa pedra. Florescendo. Ainda os brotos. Não se sabe se darão flores. Talvez morram antes, onde já se viu flor nascer na pedra? Mas nasceu. O sentimento. Aquela palavra.

23.1.11

Estala, coração de vidro quebrado.

Quando você me conheceu, ow baby, tão perdida no meio da cidade cinza, eu não achei que você seria um caminho. Tanta gente vestindo suas camisetas coloridas sem estampas, tanta gente assim moreno-claro, arisco, com medo do mundo. Tanta gente com essa mesma tristeza no cantinho dos olhos, os tênis gastos pela vida, pelo tempo, pela cidade febril. Tanta gente no mundo, andando, indo, voltando. Sempre com pressa. Tanta gente interessante a gente deve passar pela rua todo dia, ensaiar um olhar, desistir de um contato três segundos depois. Quanta gente eu já deixei passar nessa vida, podia ter deixado passar você também. Tão integrado. Calça jeans, camiseta branca, tênis preto, mochila nas costas, cara de quem está atrasado para um trabalho que não gosta, ouvindo música que antes te deixava em catarse e hoje parece música ambiente. O automático temível, baby. O automático temível podia ter-nos sabotado o encontro. Meu olhar perdido, sempre, desavisado. Os passos tontos e tortos, sempre batendo os dedos nas esquinas (da rua e da vida). Podia não ter te visto, ou ter te visto e te esquecido. Não ter notado o botton do meu cantor preferido atrás da sua mochila velha e não ter cantarolado aquele verso com gosto de esperança, encontro e acaso que fez você sorrir. Hoje eu queria, baby. Queria ter deixado o desespero pra lá, essa minha vontade maluca de procurar identificação em tudo. Nos livros, nas placas de trânsito, nos carros parados na rua, nas atrizes decadentes de novela das seis. Queria não ter tido a esperança de me identificar em você assim, tão espelho-inverso. Mas eu, bicho desesperado a procura de amor (sempre ele, o amor), não pude evitar o encantamento, não pude evitar a palavra ensaiada, não pude evitar o sorriso de lado e quando vi já tinha te cantarolado os versos. Tão batidos os versos. Tão meu, o sentimento de despertencimento do mundo que é ao mesmo tempo universal. E tudo tão certo, o tempo exato. A mulher deixou o lugar vago, você me olhou e disse "senta, pode sentar" e eu retruquei ensaiadamente com um "obrigada, to mesmo cansada e pensar que 'once-upon-a-time-you-felt-so-fine', é doído" e foi ali que todo o descompasso começou. Você me sorriu, natural, solto, alegre. Me perguntou "Bob Dylan né?" e eu respondi "sim, Bob Dylan é deus, a humanidade só encena as histórias que ele criou." E tudo deu margem ao bonito e longo diálogo. Você sentou do meu lado, pediu um cigarro. Eu te disse:

- Não se pode fumar dentro dos veículos automotores mais. Nunca se pôde. Nem dentro dos bares, das casas de show. O mundo tá free tabaco.
- Era pra mais tarde. Gosto de, você sabe, andar ouvindo música e derramando fumaça pra fora. Você fuma?
- Não, tomo café. Eu gosto de, você sabe, tomar café ouvindo música e enfiando cafeína pra dentro.
- Vícios.
- Vícios, concordei.

O ônibus deu quatro ou cinco chacoalhadas, ficou um silêncio enorme que pairava. Eu olhando as minhas unhas, os esmaltes descascados, uma mistura entre um vermelho barato e um azul clarinho que não tinha saído direito da ultima esmaltação de unhas. "ando num descaso enorme da vida", pensei. Os esmaltes craquelados, a vida quebrando. As unhas se roendo. Tudo errado, meu deus. Tudo errado. Me perdi olhando o caminho. As àrvores e tal, as nuvens e tal. O cinza, sempre o cinza de são paulo as seis da tarde e quando alguma coisa na minha cabeça ultrapassava a poluição e chegava no azul, você me perguntou.

- Você desce aonde?
- Há mil léguas daqui, naquela padaria bonitinha de parede laranja, sabe? E você?
- Três mil léguas daqui, e três pontos depois.
- Não é muito perto.
- Não é muito longe.
- Tudo depende do referencial adotado.
- Você parece, assim, pessimista.
- Eu sou assim, tristonha.
- Você parece bem conservada pra uma alma velha e cansada.
- A maquiagem nasceu pra disfarçar os rostos vermelhos e inchados de lágrima e hematoma, rapaz.
- A música também. Pra disfarçar as almas vermelhas e inchadas de lágrima e hematoma.
- A arte, talvez.
- A arte sim, pra disfarçar a vida inchada de lágrima e hematoma.

Te achei bonito, poético, triste. Bonito e sincero demais pra usar aquela camiseta branca com calça jeans e tênis. Perfeito demais pra ser deixado pra trás como um doce daqueles que a gente vê e acha bonito, quer levar, mas parecem extremamente caros. Eu vejo muitos desses na padaria bonitinha laranjinha do ponto em que desço. Lindas tortas de chocolate, bombons de morango. Lindos, poéticos, doces. Mas caros demais para serem levados pra casa em troca de um pouco de prazer. Devia ter te achado caro demais. Devia sim, mas continuei. Porque sou bicho passional, sangüíneo, e dobro frente a qualquer animal oposto que pareça ser caça. Caça suculenta e saciadora do apetite voraz. O apetite voraz da alma, o amor. E retruquei.

- É um bom jeito de pensar, você faz arte?
- Não, ciência da computação.
- Muito número?
- Muita impessoalidade. Pouquíssimo hematoma doído. Distância da vida, a tela fria dos computadores. E você, faz arte?
- Agência de publicidade.
- Mercadológico?
- Pseudo arte vendida barata demais pra ser catartica, entende?
- Mas passa na televisão.
- Tentativa frustrada de vender felicidade vendendo buraco que não encaixa o tempo todo, sabe? Quebra-cabeça faltando peça, é isso que a propaganda vende.
- E continua nisso por quê?
- Arte abre um buraco tão enorme na alma da gente que inflama. A publicidade é meu contato com a realidade. Cruel, mas realidade.
- É comò se voce vendesse caixinhas de sonhos que nunca vão virar sonhos de verdade?
- É como se eu vendesse caixinhas vazias com rótulos a preencher. As pessoas vêem um carro e fazem dele uma caixinha escrito "felicidade", "sucesso", "amor". A caixa é vazia na verdade, mas elas colocam essas etiquetinhas e acreditam nisso até abrirem a caixa e verem que lá dentro não tem nada.
- Você tem um jeito estranho de falar sobre as coisas. Metáfora, poesia. Escreve?
- O tempo todo, mesmo quando não estou escrevendo.
- Redatora?
- Escrevo os textos bonitos das propagandas de banco e não acredito em felicidade.
- Cruel, perigosa. Batom vermelho, cabelo liso. Não quero me meter com você.
- Mas vai. Já está metido e não sabe.

Você me sorriu. Com gosto. Todos os dentes. E na minha experiência de caça eu sabia: a presa estava volúvel. Dois passos, o ataque cruel, o bote certeiro, a morte. A morte do orgulho e da resistência para que se chegue a carne. A carne vermelha, que pulsa, que vibra. Coração. Paixão. Amor vem depois, ou não vem nunca mais. Você me olhou, sorriu, respondeu.

- Vai ver estou.
- Desculpa, às vezes eu solto essas respostas prontas e tudo mais, oferecidíssima, estranho. Te assustei?
- Desde o primeiro momento. Ou você não sabe que você é daquelas que assustam mesmo quando caladas?
- Não tenho essa exata noção não - menti. De sorriso solto, menti verdadeiramente.
- Olha, voce desce no próximo né?
- Desço. Encaro a padaria, não compro os doces que quero, volto pra casa, trabalho e me identifico com um personagem de novela aqui e ali.
- As perigosas.
- As mais inofensivas.
- As que parecem mais inofensivas.

O ônibus deu mais duas chacoalhadas, eu já gostava de você, do seu papo, do seu jeito estranho. Gostava mais ainda da sua vulnerabilidade frente à situação. Me respondia galante, flertava de volta, tinha medo daquilo e admitia. Teu olho não tremia, encarava dentro enquanto você fingia uma timidez com seus pés inquietos. Um menino bonito na palma da minha mão, Uma menina frágil em fantasia de forte na palma da sua e você sem saber o que fazer. É por não saberem como me pegar na mão que resolvo pegar primeiro. Qualquer movimento mais brusco pode - e vai - quebrar meu coração feito de cristal fino de taça de chapangne francesa. Coração fraco de casquinha de ovo é o que eu tenho. Não encosta não, que quebra, moço. Deixa que eu encosto no seu, pego devagarinho, guardo numa caixinha e depois jogo fora. Jogo fora antes que sua mão saia de dentro do seu peito rumo a tocar o meu coração de casquinha de ovo com as pontinhas dos dedos que seja. Sou fraca, sensível, toda doída e quebro. Só encosto. Não deixo encostarem em mim, e nunca-em-hipótese-alguma tocarem por dentro.

- Eu desço aqui, eu acho que isso significa adeus, certo?
- Eu desço com você, continuo à pé depois. Não é muito perto, mas.
- Não é muito longe.
- Talvez voce devessse comprar um desses doces bonitos na padaria, mudança de rotina, sabe?
- Talvez eu devesse me ater aquilo que eu conheço.
- Eu te pago um.
- Acho que é prudente aceitar a gentileza, mas você escolhe.
- Bomba de chocolate. Chocolate amargo por cima, doce por dentro. Lindíssima.
- Faz parte do seu repertório galantear as moçoilas supondo personalidades através de doces?
- Não fazia, até agora. Acertei?
- Isso é o tipo de coisa que se descobre, não se fala. Senão vem o desencanto.
- Você costuma ser ensaiada demais, menina.

Você me deu o doce, que eu fui comendo na rua, tal criança lombriguenta, me melando com creme no nariz que você limpava a cada instante, como pai que cuida de filha espoleta. Mas esquece o édipo, freud, era só, sabe, encantamento. Tal coisa bonita que encanta e você de tão querendo que seja, toca como se fosse sua. Te lambuzei de creme uma vez, na ponta no nariz. Típica e previsível como devia de ser, e chegamos na porta do meu prédio, onde eu não tinha idéia que começaria uma história bonita, de príncipes e princesas, de guerras e cruzadas, de amor e desencanto, na porta que tinha gosto apenas de desalento. Te faço a pergunta crucial, charmosa e espero pela resposta afirmativa como quem espera o nome sendo chamado na lista do vestibular. Conquista. Armadilha da caça. A rede posta. Só te falta cair

- Você quer subir, conversar, tomar um café?
- Não sei se devo.
- Eu não sei se devo ter te convidado também, mas convidei.
- Você só faz o que você quer, menina.
- Sou atiradinha?
- Não, é autêntica. De um jeito, ai, de um jeito terrível.
- Então sobe?
- Subo sim.

Subimos nos olhando fixo no cubículo do elevador. Entrei na minha casa, os sofás cor de vinho, as paredes bege. Tudo tão sem graça, tudo sem ter a minha cara. Te ofereci uma cerveja, você disse que preferia refrigerante. Eu te perguntei se era medo e você só me disse que a embriaguez toda vinha de mim. Te dei o copo, sentei do teu lado. Você me contou coisas sobre a sua vida, seus números, sua falta de perspectiva. Eu te mostrei histórias e rabiscos dos sonhos que inventei para que comprassem. Você me olhava fundo, encantado, e eu tinha medo dos seus olhos sinceros. Eu te contava tanta coisa, tanta coisa, tanta coisa. Tanta conversa, tanto despejo de história de energia que quando eu dei por mim estávamos feito bichos no chão da sala, em habitat natural e eu chorava encostada no teu peito, tomando refrigerante no gargalo, te abrindo todas as portas do meu coração. Te dizendo "ow, baby, se você soubesse o quanto a vida me dói" e você dizia que a sua vida doía também, tanto, que às vezes não dava conta de dar o último respiro e acendia um cigarrro. Depois pensava baixinho "a falta de fôlego vem do pulmão, e não da alma" e baforava fumaça pra fora se livrando de toda a impureza do mundo, da vida, do caos. Você empestiava a minha sala de fumaça, eu molhava sua camiseta branca de lágrimas e soluços e você me olhou baixinho e disse:

- Você é tão linda, menina. E tão menina, menina.

E meu coração de casca de ovo estava prestes a abrir uma rachadura, e foi quando eu te agarrei por impulso e te beijei no ato, no chão da minha sala, com as lágrimas caindo, com gosto de sal. E tinha tanta vida naquele beijo, tanta carga de emoção que eu não ligava pro meu coração de tacinha de cristal prestes a quebrar, e alguma coisa dentro de mim esqueceu que você tinha aparecido na minha vida naquele dia, tanto fazem as datas, você já sabia mais de mim naquelas sete horas do que todas as pessoas que conviviam comigo há sete anos, então eu era mais sua do que de qualquer outra pessoa no mundo. E nos beijamos mais inúmeras vezes, e no meio dos beijos soltávamos mais segredos e no intervalos disso tudo você me olhava lá no fundo dos olhos como se estivesse enxergando por dentro, e não houve nada mais do que beijos, só os beijos e os segredos, tantos segredos perdidos naquela sala de quitinete no meio do centro. É que não precisava de encontro de corpo, corpo-dentro-de-corpo, porque tinha um encontro de alma tão mais profundo que dormimos entrelaçados como bichos, você de calça jeans e camiseta branca, eu com meu vestido listrado. Sem sexo. Mas com um toque profundo de alma que transcende o encontro do corpo.

Você acordou, me preparou um café. Me beijou na testa, me deu uma flor roubada do hall do prédio. Me abraçou por trás, me beijou o rosto, e sussurou no meu ouvido baixinho "você é uma bomba recheada de mel, de tão-tão doce por dentro". Ali eu senti você tocar meu coração de casquinha de ovo com a ponta dos dedos. Foi quando você sentou na minha frente, sério e disse:

- Olha menina, lá fora dessas paredes beges tem uma vida, e sabe, a vida é louca e no meio dessa loucura toda eu te encontrei, e você é assim, doce e eu fiquei assim, volúvel, bichinho frágil na tua mão, menina. Tudo tão lindo, tão filme, e eu queria tanto não ter que te dizer "it-ain't-me-baby-it-ain't-me-you're-looking-for" que eu resolvi esquecer de tudo, mas lá embaixo, três pontos depois tem uma outra mulher esperando por mim. Nem tão doce, nem tão incrível, que não costuma aceitar rosas roubadas, que nunca choraria molhando a minha camiseta branca. Que nunca me confessou segredos desses seus, que eu nem sei se a vida dela dói. Mas ela existe. E talvez esteja me esperando pro café. E na mão direita dela, tem uma aliança marcada pra passar pra mão esquerda daqui há exatos dois meses. E eu podia te prometer, e eu devia te prometer que eu vou ficar aqui com você pra sempre. Mas eu sou fraco, menina. Sou fraco. Eu não quero te machucar, eu só espero que você não sofra tanto quanto eu caso eu resolva não voltar nunca-mais.

E foi chorando molhando a sua camiseta branca que eu retruquei.

- Eu soube desde o ínicio que procurar felicidade não era o seu forte.
- Soube?
- Soube. Teus números, tua falta de hematomas, tua praticidade. Tua poesia perdida, sua tristeza. Você me doeu tanto no meio dessa sua infelicidade que eu quase me achei feliz. Porque eu ao menos estou procurando, sabe? mesmo que não exista eu ralo o joelho todo dia a procura de ser feliz. Tem estoques de corretivos e batons vermelhos naquele armário ali pra maquiar a minha cara de dor a cada vez que uma topada como você aparece na minha vida. Tem salto alto, tem vestido curto, tem frase ensaiada. Mas no fundo, no fundo eu só espero que alguém toque meu coração frágil com a ponta dos dedos, e foi a ponta dos seus dedos que eu senti chegar. Depois de tanto tempo, tanta luta, tanto hematoma. Não tem maquiagem pra você, nem corretivo não. Você que salte na minha dor, porque você precisa mergulhar. Você que viva, saindo daquela porta deixando um coração de cristal de taça barata quebrado pra nunca mais voltar. Você que volte pra sua aliança, pra sua praticidade, pro seu compromisso mas volte sabendo que felicidade, meu amor, felicidade a gente não encontra sempre não. A gente vive maquiado o tempo todo, mas de cara limpa tem um ou dois caras que saem todo dia. Felizes mesmo. Felizes como eu e você quando dormimos no chão dessa sala bege, se ferrando pra vida lá fora. Agora se você prefere não enxergar, eu não ligo. Vai doer, mas eu vou sarar, vou curar o hematoma da cara, da alma e do coração. Mas fica sabendo que uma vez que a gente quebra uma taça com vinho dentro, e por vinho entenda, amor, porque isso que você sentiu aqui hoje é a-mor, pode até se salvar um pedaço da taça. Mas esse vinho que derramou, esse vinho com caco de vidro não dá pra beber nunca mais.

Foi quando você começou a molhar meu vestido listado. E eu vi nos seus olhos vermelhos o menino frágil com quem eu tinha me metido. E eu te disse "vai, vai que meu coração de vidro quebrado ainda tem jeito" e você me sorriu dizendo "mas o meu só bate embaixo de paredes beges". E saiu pela minha porta, depois do beijo mais cheio de amor já estudado pela humanidade, me dizendo "menina, você é doce, menina, você é amor, eu volto pra você. Eu juro que volto". E eu acreditando em você, mas morrendo de medo da vida fora das paredes beges, do tapete empoeirado, do sofá vinho. Morrendo de medo da sua vida longe do meu vestido listrado. Porque a vida lá fora, meu amor, é pra gente grande e você era tão menino na minha mão que sabe-se lá se você tem dessas forças que precisam os homens. Te mandei um beijo da janela, te gritei alto "vai, mas volta pra mim, volta" e senti pela primeira vez meu coração de vidro quebrado partir de tal maneira que soube que só a ponta desses teus dedos leves que o tocou seria capaz de consertar.

11.11.10

Você não ama ninguém, Honey.

Te conheci no meio daqueles outubros mornos, e não poderia ser de outra maneira. Naquele dias que não fazem nem frio e nem calor, sua camiseta vermelho-e-verde me chamou a atenção. Você, no meio de todas as pessoas. Tentei, do meu jeito sem sal-nem-açucar puxar um assunto qualquer que fosse e você me olhava com cara de quem nunca tinha visto alguém assim, tão cara-de-pau. Foi quando eu te disse "não se engana não, garoto, eu sou tímida. Olha a minha mão aqui, suando". Foi o primeiro sorriso que você me deu. Bonito seu sorriso. Não assim um puta-sorriso, mas bonito. Não abriu em mim aquela infinidade de jardins de outrora, mas dadas as circunstâncias, eu me encantaria com o primeiro que me fizesse desabrochar uma flor. E você fez. Não assim uma dúzia de rosas, nem uma trepadeira daquelas que tiram todo mundo que esteve ali do lugar e tomam o lugar só pra elas. Uma margarida, quem sabe. Quem sabe um girassol.

Era um dia de sol, mas fazia um friozinho. Clima ameno, eu disse. Você concordou. Te perguntei umas dez coisas, você de repente me disse tudo o que você gostava de fazer. Interesses normais de todo mundo. Todo mundo que tem interesses-interessantes. Ler, ver filmes, conhece gabriel garcía, desconhece julio cortazár (não é um erro grave) e sabe que garcia llosa ganhou o último prêmio nobel, embora desconheça a vasta obra do peruano (e eu também). Conhece tarantino, woody allen e gosta de Godard. Ok. Tudo ok pra um primeiro encontro sem muitas expectativas. De repente você me olha, depois de eu dizer as minhas coisas: Gosto de escrever, de estudar mais-ou-menos, não tenho nenhuma perspectiva de vida, mas não quero morrer aos trinta e ao contrário de você, acho julio cortazár o máximo; e diz "te achei o máximo, menina. Quero te ver mais trinta mil vezes"

"Quero te ver mais trinta mil vezes". Figura de linguagem. Hipérbole. E como eu precisava de algumas mil flores, eu acreditei em você. Respondendo "E eu quero te ver mais sessenta mil". Figura de linguagem. Hipérbole. Vício constante. Exagero em pessoa. Eu. Pronome pessoal do caso reto. Muito mais palavra do que sentimento. Você me olha e diz "espero que a gente se veja então". E eu respondo "Eu também espero". A grande cordialidade do fim dos encontros, pensei. Pensei em nunca mais te ver pelos próximos é, trinta mil anos. Mas você me mandou um e-mail, desses bonitos me contando mil detalhes da sua vida. E eu, a própria hipérbole, que adoro detalhes, achei assim, de uma doçura ímpar. Nessa hora já se formava meio jardim de margaridas. Você marcou no parque, um café. Eu fui. Você me contou mil histórias, e eu te contei as minhas.

Sonhava você casar, ter filhos e uma casa de portão verde com jardim. Eu também sonhava em casar, ter filhos e uma casa de portão amarelo. Mas nesse dia disse "amarelo, talvez verde quem-sabe" e você me sorriu. Você me contou dos seus sonhos, dos filmes que já assistiu, dos filmes que queria-assistir e eu sorri em todas as observações. Eu te contei meu mundo como se meu mundo fosse acabar no segundo seguinte. A hipérbole do tempo, achando que o tempo ia acabar no instante em que você levantasse daquela mesa e fosse me levar pro lugar onde esperaria comigo meu ônibus chegar. Afinal de contas, a gente não morava tão perto a ponto de você "me acompanhar até em casa". Tinha que ir sozinha, pensando em você no caminho e sorrindo cultivando margaridas, ou girassóis.

"Honey, você não pode largar as pessoas de lado como um brinquedo que não gosta mais". Eu te disse que tinham me dito isso uma vez. Você só me olhou. Te contei dessa minha mania de nunca me apegar, te contei dos meus jardins que morreram e de como eu esperava que nascessem girassóis. E de quantas ervas daninhas nasceram no lugar deles enquanto isso. Você só me olhava. Depois dizia "Ai, honey, eu me machuquei tanto ao longo desses anos todos que acho que amor é aquela coisa assim, impossível, mas ao mesmo tempo tão boa. Só que não quero mais brincar de amor."

E eu pensei "A gente está brincando de amor nesse exato momento. Amor não é uma coisa de querer"

E no meio do seu romantismo incurável, no meio da casa de portão verde, num outro dia desses sem sol nem chuva eu descobri sem querer que você era do tipo que cultivava em todo mundo uma margarida, e depois acabava por fazer essa margarida se tornar um jardim, mas nunca pensava em realmente cuidar dos jardins que fez crescer. Depois dizia "honey, eu espero te ver ainda umas trinta mil vezes" e esperava sorrisos de todas as bocas a quem proferia as mesmas palavras. Dizia não querer brincar de amor, mas brincava com o amor todos os dias. Na verdade eu soube no exato dia em que te disse oi, que a minha atração inevitável vinha muito mais por reconhecimento do que qualquer outra coisa. Eu me vi em você. No fundo dos teus olhos de timidez ensaiada, dentro da sua hipérbole eu soube. Eu soube que eu ia me machucar assim, umas trinta mil vezes, no meio dessa coisa de ser mais uma no meio de várias. Justo eu, filha única de pais zelosos, que nunca soube dividir um brinquedo, e que não sabe até hoje como se brinca de amor.

Te encontrei em outro café (no encontro de número três, não no de número trinta mil) e te disse "honey, a gente está tão perdido". Você me sorriu, acho que concordou por vício. Depois me contou dos seus planos de casas verdes com portões cor-de-rosa e três filhos. Me disse que não sabia brincar de amor, mas que queria tentar (e claro que não era comigo). Eu te disse "ninguém sabe, é o amor que vive brincando com a gente. Cabe a gente saber-jogar" Você concordou e me disse pela milésima vez "eu quero te encontrar mais umas trinta, quarenta, sessenta mil vezes. Você é o máximo, menina". Sorri. Te dei um abraço forte te dizendo "e eu quero te ver mais umas cento e setenta e cinco mil vezes" Você sorriu. Não tinha mais margarida, nem Girassol. Só umas flores de rua assim, coloridinhas, que dão um sorriso de canto de boca na gente. Umas flores assim, parecidas comigo. Marias-sem-vergonhas, quem sabe. Olhei nesses teus olhos verdes, rapaz, me enxerguei como em espelho. Eu quis te dizer "Honey, nem tenta. Você quer brincar de amor, mas só sabe brincar com o amor. Todos os dias". Fiquei quieta, sorri, pulei no teu pescoço dizendo "sessenta mil vezes". Você me sorriu dizendo "setenta e sete mil vezes". Fomos até o ponto, você me deixou no ônibus em que eu seguia como na vida: sem você. Você me mandou um beijo e eu sorri pensando "Ah honey, a gente se ama porque a gente ama todo mundo. E não ama ninguém"

13.10.10

trecho de qualquer coisa-que-seja

É que às vezes acontece, assim, no meio das improbabilidades do universo, e pode ser que seja assim, que você encontre no café, no bar, no cinema, ou que trombe na rua e chame aquilo de simples acidente, ou quem sabe, de encantamento-fantástico, ou quem sabe seria simplesmente o encontro-de-nossas-vidas. É assim que se referiria então ao dia que conheceu aquela garota até-então sem nome e que depois viria a chamar de amor. Contaria, depois de onze e anos e dez meses do ocorrido, para a uma outra garota (que hoje te encara como você-mesmo, mas tem o cabelo e o sorriso que te encantou há exatos onze anos e dez meses ), que, se hoje ela existe e pode chamar aquele ser encantadoramente lindo de "mãe", é porque depois de um simples acidente, aconteceu um encantamento fantástico, já que no encontro-de-nossas-vidas, cada palavra nova tinha gosto de sorriso.

(e assim elas permanecem)

29.5.10

(parece bolero-tequero-tequero)

Ah, se eu não tivesse me descoberto (com você?) essa enorme entusiasta do mistério, eu teria assim, que desistido de ti tantos e tantos dias atrás. Mas uma vez descoberta a coisa, não se pode (des)descobrir até ela se tornar inteira, até ela se fazer plena, até ela se fazer carne (podre ou pulsante) e não mais mistério.

18.5.10

todos os caminhos tendem a zero.

(carta para o intelecutor nome de ninguém específico).

Eu queria te contar sobre tantas tantas coisas enormes que eu nem sei por onde começar, mas quando eu falo de te contar eu quero dizer: te contar sobre a minha vida, porque não existe outra coisa que eu queira mais falar e mais esquecer que isso. Hoje não faz sentido a conversa fiada no portão sobre o sol, ou a chuva, ou esse frio que tem assolado a cidade impedindo a gente de sair sem blusa. Se for pra falar de frio, só vou saber falar sobre o frio que faz aqui dentro.

Não assim, exatamente um frio e nem é uma coisa assim como se congelasse, tavez fosse mais pra falar de vazio mesmo. O frio também atrapalha, tudo que eu sinto vontade é deitar debaixo de uma coberta enorme e quente e comer pipoca enquanto assisto filme, ou só ficar ali, sonhando acordada ou dormir pra sempre. Talvez fosse isso: dormir pra sempre, ou pelo menos acordar somente quando estivesse no seu devido lugar. Sabe, existe uma falta enorme de perespectiva que sei lá quando acontece, deve acontecer na vida de todo mundo, que é um acordar e não saber o que vai ser do resto do dia, quanto mais do resto dos dias.

Eu sei de obrigações, claro, tenho um monte delas e costumo falhar em mais da metade. Acordar mais ou menos as sete da manhã e pegar aquele ônibus cheio de gente por todos os lados ouvindo quase sempre as mesmas músicas para encontrar com as mesmas pessoas, inclusive aquelas que me fazem doer. Nesses quase quatro anos eu fui fazendo toda uma coleção de gente que me faz doer, dava até pra nomear por cores. As de rosa me fazem doer por causa de um ex-amor, as de verde me fazem doer porque me fizeram perder a esperança e as de vermelho me fazem doer porque eu amo demais.

Esses dias me disseram que se existe uma pessoa que se apega aos outros esse alguém sou eu. Nem faz tanto tempo assim, a gente estava falando sobre essa coisa de todo mundo me ver e enxergar essa pessoa descolada e desapegada com tudo. Eu pareço realmente muito desapegada, principalmente quanto eu me sinto amada. Quando eu vejo uma certeza de amor eu costumo me desapegar, ou fingir um desapego, quase uma indiferença mórbida, mas pelo contrário, eu amo demais. Devem existir uma três ou quatro pessoas vestidas de vermelho, elas me fizeram doer por amar demais. E se foram junto com meu desapego.

Hoje passei o dia inteiro pensando em coisas atrás de coisas, eu tenho querido tanto me apegar a alguma coisa, qualquer coisa que pareça a perespectiva de um futuro mais ou menos certo, ou um futuro todo incerto, mas planos pelo menos. Essa minha vida toda feita assim as pressas, sair do colégio cair na faculdade, grudar um relacionamento no outro, as coisas foram tanto acontecendo e eu nem sei como ou quando foi. mas foi.

hoje eu queria dizer, que enquanto olho pra essa cidade cinza e vinícius canta no meu ouvido sobre a rua-nascimento-silva-cento-e-sete eu só consigo pensar em um monte de coisas que não existem. Sabe, esse monte de coisas que não existem? o meu futuro que não existe, o amor que doesse em paz que não existe. Eu estou esperando tantas coisas enormes que encham tanto a minha alma que eu me sinta completamente incapaz de escolher uma cor pra minha alma sem dizer que eu só acho que ela é assim, colorida, de tão imensa.

Não é muito, assim, é quase nada quando você coloca em palavras: eu quero viver do que eu gosto e quero ter um amor que me leve pra fazer piquenique aos domingos. Quer dizer, o que é pedir viver do que se ama e um grande amor? As palavras diminuem tanto o sentido das coisas as vezes, e parece até pouco querer isso, mas na verdade é imenso. E difícil. E desde que parece ter se tornado tão dificil encarar essa falta de nos meus dias cinzas que eu só sinto uma melancolia enorme, uma melancolia maior do que os ônibus que eu tenho que pegar todo dia.

Tudo tem parecido de um esforço imenso, quase sobre humano, tudo tem parecido demais. E de parecer demais parece impossível. E parecendo impossível dá vontade de largar. É isso, eu quero largar todo esse vazio essa incerteza, essa enorme ausência de. Quero largar os ônibus, as pessoas com caras iguais. Quero largar também as pessoas que eu colori, as que me fazem doer. Quero largar tudo aquilo que eu um dia amei demais pra poder amar outra coisa, sabe? E mais que amar outra coisa eu quero amar qualquer coisa que pareça certa, e não ficar me dando assim, me entregando seca do jeito que tem sido, sabendo que não se pode esperar nada em troca e mesmo assim esperando o mundo.

Você sabe, qualquer pessoa sem perspectivas costuma esperar o mundo de qualquer coisa e costuma amar demais qualquer coisa. Qualquer coisa que seja, só pela perspectiva de quem sabe ser feliz. Eu quero a impossibilidade. Eu quero ser imensa. Eu quero andar na rua, trombar com um total desconhecido e ouvir ele me dizer que ele é meu estranho e que eu posso pular.

Eu quero pular na vida, meu deus. Eu quero ver as coisas fazendo algum sentido, qualquer sentido que seja. Eu quero amar, eu quero ser amada, eu quero os frios na barriga, eu quero aquela felicidade que de tão grande dá medo de quebrar. Eu quero sair desse vazio, desse ser sem sal, desses ônibus, desse frio, desse acordar as sete da manhã e principalmente dessa ausência que me invade, que é maior que a minha alma.

Eu quero um caminho, tom estava me cantando hoje, sabe? "é preciso acabar com essa tristeza, é preciso inventar de novo o amor". Eu quero tanto. Mas todos os caminhos que eu encontro, tendem a zero.

14.5.10

punchdrunk lovesick.

(and no singalong)

- e qual é o sentido nisso tudo?
- nisso o que?
- nisso. Eu e você
- era pra existir um sentido?
- deveria. ou sou eu, eu sempre tento achar um sentido nas coisas.
- não existe.
- talvez não exista.
- não é talvez. não existe. existe a improbabilidade de acontecer as coisas que aconteceram e foi isso que fez a gente ser isso, eu e você.
- pra você a gente é alguma coisa?
- não sei. pra você?
- hoje qualquer coisa pra mim seria capaz de ser alguma coisa.
- até eu?
- inclusive. você já é.
- e qual é o sentido?
- não existe sentido. se existisse, você não seria nada.
- por que?
- porque eu descobri hoje que eu sei que você vai me deixar. exatamente do jeito que me encontrou.
- é isso que você acha?
- eu tenho certeza. eu fui uma improbabilidade. eu existo porque em você existe uma série de fatores que permite que hoje eu seja eu e você seja você e exista um quase-nós. depois, não vai existir nada.
- eu não sei se vai ser assim.
- é porque agora você se sente sentimental o suficiente pra me amar.
- e depois?
- depois você vai me esquecer.
- e você?
- eu vou saber que você foi fruto da minha improbabilidade. desses fatores de existência que incluem na vida da gente que qualquer pessoa que aparece pode preencher os vazios todos que existem e mesmo que ela não caiba nos vazios por aquele momento a gente faz caber. e parece que preenche.
- eu preencho os seus vazios?
- por enquanto sim.
- e depois?
- depois é você que não vai deixar mais eu preenchê-los com você.

11.5.10

A insustentável leveza do ser. (sendo tereza)

"Em trabalhos práticos de física, qualquer aluno pode fazer experimentos para verificar a exatidão de uma hipótese científica. Mas o homem, porque não tem senão a vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer um sentimento..."

De tudo que me lembro, lembro da minha vocação para tereza. Lembro dessa absurda vontade de sair do meu espaço medíocre para viver um grande amor. Grande. Imenso. Enorme. De tudo que eu lembro, lembro de querer coencidências. Me encontrastes de novo as seis da tarde e foi as seis da tarde que nos encontramos pela primeira vez. Espero alguém que me ame como se ama uma mulher, e me puxe pelo braço dizendo: "a minha mulher". Mulher no sentido de ter alguma coisa de virtude e ao mesmo tempo alguma coisa de subimissa. Penso em noites atrás de noites em que nada se diz, ou se faz, mas se dorme e acorda de mãos dadas e se sabe o tamanho amor que cabe naquele momento. Quanto amor cabe num entrelassar de mãos? Só que nesse ser tereza, não cabem sabinas. Por mais que todas as sabinas de todas as terezas só terem consigo aquele encamento que existe em todo ser humano que escolhe ser livre - e carnal - nunca me couberam sabinas. Existe em mim esse ar interiorano cheio de fotografias que só espera amar, amar e depois amar mais um pouco. E um amor que perdoa as sabinas todas, embora eu saiba que tudo que eu sempre quis é ser única.

Tenho amado demais. rápido e ligeiro e tenho pensado em cada possibilidade como um novo ( e grande!) possível amor. Espero quem sabe ir embora para depois encontrar de novo as seis da tarde e achar possível somente porque assim queria o destino. Eu tenho esperado demais do destino, dos encontros fortuitos em busca de amores conturbados e grandes, com piqueniques no parque ou não, aqui ou em qualquer cidade desse planeta. Eu tenho esperado me agarrar a qualquer coisa, meu deus, eu ando tão presa em tudo isso que eu não quero que eu só espero que alguem me liberte e me redima. Me redima assim, por amor. E que eu diga que foi por amor que eu me redimi, que foi pelo destino que aconteceu e que foi no entrelaçar das mãos ao dormir que se concebeu. E tudo isso sendo tão tereza. E tantas sabinas aí rodando e me roubando meus grandes amores, porque os homens, ah, os homens se encantam muito facilmente com essa liberdade que possuem as sabinas e ficam as terezas, as mulheres dignas, esperando o entrelaçar de mãos.

Foi exatamente nesse oco que ficou enquanto ele foi querer sabinas e eu fiquei esperando o entrelaçar de mãos que você me apareceu. Exatamente assim como se faz nos tais encontros fortuitos, destinos, sabe-se-lá-que-nome-se-dá a esses encontros sem nome que se fazem na vida da gente. E sem nem querer eu enxerguei tão-tão rápido em você a possibilidade de me tirar desse meu mundo tão pequeno, não sem perspectivas novas. Eu me apeguei tanto a imprevisibilidade dos fatos, daquele dizer que as coisas acontecem quando a gente menos espera e são essas coisas assim, as que você não procura que te tiram desse pequeno mundo de desamores tão conhecidos e te fazem tereza. É isso que eu sem querer enxerguei em você, rápido. A possibilidade do entrelaçar as mãos e dormir. A possibilidade de sentir a insustentável leveza de ser.

Mas hoje não sei, tudo tão cheio de dúvidas, de incertezas, tão um querer-ser-sem-saber. Deus me livre, eu te disse, deus me livre de outra decepção dessas. Eu queria tão pouco, eu só queria ser a sua tereza, a sua mulher, mas sem sobra de nenhuma sabina. tão única, importante, perfeita. tão amada e sublime que eu esqueceria todas essas minhas pequenezas, todos esses meus desamores, toda essa bagagem de amar demais e além da conta e depois me perder no meio de tudo isso. Eu tenho todo um medo, um medo de ter inventado tudo isso e não existir na verdade amor nenhum. E na verdade nem existe, eu estou me agarrando na possibilidade. Eu estou me agarrando tanto em você com os meus braços, com as minhas pernas e principalmente com as minhas palavras que eu nem sei se ainda tem jeito. De um jeito tão rápido e cru que é quase um nó desses, que parecem não desatar. Não sei explicar. Não sei como deve ser.

É que eu queria ser a sua tereza, eu queria ser a sua única tereza, aquilo que você chama de amor. Mas hoje eu acordei me sentindo tão a sua sabina. E tenho certeza que quando eu olhar pro lado, você já vei ter me deixado. E vai estar dançando com a sua tereza escolhida, num quarto de hotel que eu nunca conheci.

"Para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se juntem desde o primeiro instante, como passarinhos sobre os ombros de são francisco de assis"

8.5.10

Tem que beber pra falar o que deseja.

Não teve bar, não teve encontro e não teve magia nenhuma naquele dia, mas ela pensou que foi a primeira vez que ela pensou em escrever pra ele. Sem poesia, magia, ou cortesia nenhuma e sem encontros de olhares ou conversas mágicas, mas pensou. Foi exatamente depois de ouvir uma música dessas que falam de qualquer coisa - amor talvez? - cheias de lugares comuns que teria lhe dedicado não fosse uma frase dessas que falam de beijos e de casar. Ainda muito cedo pra dizer exatamente assim, sem metáfora nenhuma que queria chamar ele pra conversar e depois casar e separar. Ainda que houvessem as poesias implicitas e os exageros de literatura era tudo muito aparente. E ainda não era hora de coisas aparentes. Era a hora de dizer as coisas, mas assim, como quem não diz, estupidamente como se deve fazer nos jogos de amor que ela estava acostumada - embora nunca tivesse aprendido nada - a fazer há alguns anos.

Não teve nada, foi só uma música dessas que tocam em rádio que a fez pensar que talvez queria lhe dizer tudo aquilo, mas tudo aquilo ainda não deveria ser dito e então pensou escrever tudo de um modo que não parecesse que ela queria dizer alguma coisa a ele, especificamente, sendo tudo aquilo que ela estava dizendo totalmente cabível de ser dito para qualquer pessoa que habitasse o planeta terra e fosse capaz de ser amado.

Queria além de dedicar músicas, muito mais que isso - muito mais do que dedicar simplesmente coisas não escritas por ela que queiram dizer aquilo que ela não sabe -, queria dizer. Dizer um universo de coisas e fazer todo um outro universo de perguntas dessas que só chegam depois de enormes madrugadas deitados na grama olhando as estrelas, possivelmente no frio quando timidamente o interlocutor percebe no ouvinte uma estranha sintonia que alguns chamariam "atração inevitável" e sente vontade abraçar por subito o ouvinte, embora saiba que o máximo que vai fazer é concordar e sorrir, depois de dizer alguma coisa que queira dizer tudo, mas sem dizer muito - bem menos que o suficiente - mas o necessário. É quando um homem e uma mulher percebem um no outro a possibilidade de um grande amor.

Mas não existe gramado, noites frias, estrelas, nem interlocutor, nem ouvinte nem duas pessoas que habitam o mesmo espaço e conversam, existe isso. Todas aquelas coisas que mais do que dedicar ela queria dizer, mas como dizer tudo quando lhe faltam as palavras? Ou as palavras até sobram, e existem mas parecem extremamente inexatas para o momento. Dizer, assim, olha eu tenho sentido a sua falta e você se tornou uma coisa dentro da minha vida que eu não sei como foi, mas aconteceu e aconteceu também de hoje eu querer te escrever, e mais ainda além de querer te escrever aconteceu de eu ouvir essa música que me lembrou você em tantos aspectos, nesses aspectos que eu inventei, sabe, porque existem ainda tantos aspectos pra eu conhecer e odiar ou amar, ou querer levar comigo pra sempre. Existe aí tanta coisa no mundo pra descobrir que eu queria descobrir com você e queria que você me ajudasse a descobrir, mas hoje - e aí ela colocaria o dia e a hora exatos - eu queria dizer que eu senti a sua falta, assim, vai saber como, mas senti.

Então esquece de dizer - lá existe maneira de dizer tudo isso, assim? - e só rabisca nos rascunhos "essa foi a primeira vez que eu pensei em escrever pra você" sabendo que não vai escrever e dizer coisa alguma e muito menos falar daquela música. E sai cantarolando meio alto, meio feliz, meio envergonhada e um tanto esperançosa "vou te chamar para casar e separar/Vou te chamar para beijar e apanhar/Ô garçom, serve logo essa cerveja/ Tem que beber para fazer o que deseja" pensando em chamar o garçom e quem sabe (até) pedir a tal cerveja se tudo isso fizer ela rabiscar no caderno: "essa foi a primeira vez que eu te disse alguma coisa" e esperar por mais vinte e nove mil primeiras vezes rabiscadas - musicais e coloridas.