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27.5.13

eu também sei dançar se não for com você

Foi ele que me fez dançar de novo. Coisa besta dessas, pensei enquanto descia do carro, numas das mil e uma vezes em que ele me deixou em casa. Às vezes as pessoas ficam na vida da gente e a gente não percebe. Custei a perceber que foi ele que me ajudou a encarar aqueles dias horríveis de cinza e medo, enquanto me levava pra passear nos lugares conhecidos da minha cidade velha. Nem sei se ele dançava, antes de mim. Imagino que não, acho que lembro de uma vez em que ele me disse que fazia anos que estava aqui, mas nunca tinha ido em lugar de dançar. Fomos em lugar de dançar, e você dançava esquisito e daí eu podia dançar esquisito também. Não lembro, antes dele, quando é que tinha dançado. Talvez com um outro, um pouco antes dele, é verdade, que me fez dançar na sala. A gente só se beijava quando dançava, coisa esquisita. Mas depois desse veio um outro, que não me fez dançar e não me fez feliz, e aí eu parei de dançar. Parei de gostar de mim, também. E aí ele apareceu e aos poucos foi me fazendo dançar de novo. Foi ele que me fez dançar de novo. 

A vida é cruel. Sentada no meu quarto, depois de uma longa viagem, percebo o mundaréu de coisas que a gente deixa pra trás. Nas gavetas da escrivaninha, o manual da câmera que meu tio me deu logo que eu comecei a tirar fotos. A câmera empoeirada, num canto, com o filme da minha última viagem pra Curitiba. Nunca mais fotografei nada, eu disse assim, baixinho pra mim, como quem conta um segredo triste. Perto das câmeras, meus trinta e poucos livros não lidos. Não lembro quando, exatamente, eu parei de tirar fotos ou de ler livros. Só sei que aconteceu. Aconteceu eu, ali, perdida na vida e de frente pro meu computador querendo achar um sentido qualquer pra existência e falhando miseravelmente. Quietinha embaixo das cobertas, no frio, um ano atrás, eu não tinha vontade de viver. Só sabia escrever. E sei que escrevia porque esse era o meu único jeito de dizer que eu ainda existia. Existência besta, eu sei; mas ainda existência. Depois que tudo aquilo aconteceu eu me perdi de mim. Eu não sabia dançar, eu não sabia ler, e eu nunca mais tirei nenhuma foto. Numa pasta velha no meu computador, encontro fotografias de shows que eu fui. O mundo visto através das lentes ruins da minha câmera ruim. A voz do meu tio me perguntando a quantas anda a fotografia e eu respondendo baixinho, como quem sentencia uma morte: nunca mais fotografei. Nunca mais. 

Foi esse ano que voltei a dançar e que, timidamente, voltei a ler alguns livros. Concentração me falta, e vez ou outra eu prefiro mesmo ficar na internet perdendo tempo com a vida das pessoas que não são eu. A vida dos outros não é melhor que a minha, mas tem como grande qualidade: não ser a minha. Estive bem. Estive tão bem que parei de falar de mim. Não precisava, não tinha o quê e o mundo parecia ter, agora, algumas nuanças. Eu tinha voltado a dançar com ele. Eu, ainda que devagar, ia riscando a lista de livros a ler. Ia vivendo. Não era ainda o melhor jeito de viver, mas era um jeito. Um jeito meu. No meio disso tudo até peguei a câmera de novo e tentei tirar umas fotos, acho que uma orquestra, não lembro bem. O filme deve estar velho e é bem capaz que ao revelar amarele ou queime tudo. Não importa. É um pequeno registro de quando eu voltei a ver. Voltar a ver é importante. Voltar a ser, parece imprescindível.

Uns dois meses atrás - talvez menos, não me lembro bem -  entretanto, as coisas voltaram feito filme de terror. A mesma história. De novo, aquilo, a mesma conversa. Que saco sou eu que não sei viver a vida que nem gente, sempre nos meus tempos estranhos, na minha falta de planejamento e urgência, nos meus livros não terminados. Que saco sou eu, sempre andando em círculos, sendo pouco atraente, com o cabelo estranho, seco, toda fora de compasso e sempre conferindo o sentido certo do metrô. Merda de cidade enorme em que a gente chora no meio da rua e ninguém percebe. De novo eu chorando na rua e me perguntando porque é que eu me maltratava assim? Desci dois pontos antes do que devia de medo de não chegar no lugar certo. Minha ansiedade ainda ia me matar. Um dia ainda mata, essa merda que não sei controlar ainda. Mata também essa urgência besta de querer ser feliz e se atrapalhar, sempre atravancada pela vontade dos outros. Tudo de novo. O quarto escuro, o sono que não passava, uns tremeliques que vinham do nada. Eu, encolhida entre cobertores paraíba, numa cidade que nem frio fazia, chorando de vontade não viver nunca mais. E lá na escrivaninha se formavam de novo pilhas de livros que não lia mais e uma câmera que empoeirava. Eu já não queria que ninguém me tirasse pra dançar. Tudo chato, não adianta, eu sou um desastre. Queria dizer pra todo mundo ir embora de uma vez. Eu não ia dar certo. Não tinha como. Não tinha como alguém descompassada como eu dar certo. Era necessário que todos soubessem logo disso. Eu ia gritar pro mundo: eu sou um fracasso. Era isso, fracasso. Nunca terminarei de ler um livro, que dirá escrever meu próprio, e sou um fracasso.

Os dias iam passando feito assombração. Era tudo lento, tudo triste, tudo cinza. Cinza feito as olheiras imensas que iam se formando embaixo dos meus olhos que agora já tinham voltado a ser tristes. Tudo vai indo porque tem que ir. Eu não queria dançar. Não queria fotografar. Não queria saber o fim dos livros que comecei. Não queria nunca mais aprender alemão. Nem francês. Nem nada. As pontinhas dos meus dedos formigavam e no coração tinha uma espécie de peso que é difícil de explicar. Eu queria que tudo isso desse um conto bonito, mas eu não conseguia escrever. A duras penas ia completando as minhas atividades, até que as coisas foram ficando mais leves. No começo da semana ele tinha me levado pra dançar. Meus coturnos pesados atrapalhavam tudo, mas ele tinha esse jeito torto de me fazer sorrir no meio da tragédia. De vez em quando a gente tinha que perder a hora dos compromissos do outro dia. Fiz tudo que devia. Ia renascendo no meu tempo, mas ia. Sou meio desorientada, mas ia dar conta. Estava dando. Tudo parecia leve. Eu ia suportar. Até que vem tudo de novo. O mesmo inferno. As mesmas brigas. Você é louca você é louca você é louca sendo repetido como um mantra. Eu quase acreditei. Eu era louca mesmo, não era? Por que é que eu me maltratava assim? Não sabia responder. Olhava pra sacada tentando entender tudo aquilo que ele tinha me dito e o mundo rodava esquisito. O mundo não girava. Era isso. O mundo tinha empacado de novo e eu tinha ficado. Besta. Sou cheia de bestagens. Eu era um fracasso. Era isso, eu ia fracassar de novo. Perdida em pensamentos e naquelas mesmas desilusões no dia de começar de vez um projeto. Adeus, mestrado. Adeus. Eu te deixei por conta de uma desilusão. Chorava feio, daqueles choros de criança sentida. Até soluçava. Não era possível. Mais uma vez. A gente cansa de se reerguer. Eu já tinha decidido: nunca terminarei nada e sou um fracasso. 

Ia ser mais uma nas coisas que eu deixei pra trás. Sonhos ali empilhados na estante junto com uma máquina com filme pela metade e uma porção de livros que pouco me interessa o final. Tudo inacabado, feito eu. A única coisa que eu conseguia sentir era dor. Punhal enferrujado no coração devia doer uma dor feito aquela. Desilusão. Mais uma pra botar na estante. De novo. O inferno. Tudo que lembro daquele dia foi ter me enfiado numa cama qualquer com um desses caras de sempre e quase ter chorado baixinho no começo de tudo. Mas depois gozei. Acho, nem lembro. Só lembro dele me dizendo que ia ficar tudo bem enquanto me dava suco pronto de maracujá. Desses de pozinho. Era tudo que eu precisava, no fim das contas. Aí decidi que não dava pra negligenciar a vida por mais um ano. Fui lá e fiz. Chorando, mas terminei tudo que tinha que fazer. De novo estava eu naquela cidade chata carregando documentos e subindo ladeiras. Conferindo no mapa o sentido do metrô. Dóia um pouco ainda. Lá dói um pouco mais. Inferno de cidade empacada. Mas eu ia sobreviver. Ia colocar a desilusão do lado das coisas que eu não uso mais, ali na estante. Estante das desilusões. Era problema de quem esperava demais da vida. Certamente. Depois tudo foi indo. Às vezes doía, mas doer acaba que dói sempre. Não era a primeira vez. Era isso: não era a primeira vez. 

Deve fazer um mês, mais ou menos - talvez menos, não me lembro bem. Sei que faz uma semana que voltei de viagem e percebi o mundaréu de coisas que a gente deixa pra trás. Meus livros, minha paixão pela fotografia, minha mania de dançar, meu gosto pelo futebol e minha vida. Lá estava eu deixando minha vida pra trás mais uma vez. Que perigo. Aí resolvi que não dava. Voltei com os livros, prometi deixar tudo em ordem, acordar cedo. Não dá pra ficar fazendo doer pra sempre. Por que é que eu me maltratava assim? Seja o que for, se um dia valeu, hoje não vale mais a pena. Daí dei de andar na chuva, dar trela pra desconhecido, sair pra dançar sempre que der e ler antes de dormir. Quando tiver tempo volto a fotografar também. Fiquei sabendo de gente que comenta futebol. Voltei a ver futebol. Ouvi que é muito legal que eu saiba sobre diversos assuntos. Começo a achar engraçado o espanto que, de quando em vez, meu cabelo causa. Sei que sou perdida e louca. Aceitei. Gosto de mim assim, mesmo que esse "ser assim" me cause formigamentos nas pontas dos dedos. Dia desses andei na chuva, descabelada, ouvindo música. Sozinha. Sou, primordialmente, uma pessoa sozinha. Sorri baixinho, como quem descobre um grande segredo. Quase chorei de levinho quando me li comentando futebol de novo. Senti leve orgulho de conseguir ler meio livro em dois dias. Volto a ser eu. Dia atrás ele me fez dançar de novo. Sou feliz quando danço com ele, coisa besta dessas pensei descendo do carro e aí quase pensei que talvez, quem sabe, ele fosse a escolha certa a se fazer e que a escolha às vezes está mais perto do que imaginamos, o grande clichê. Mas ele não é a única pessoa que dança no mundo, e talvez essa seja a grande chave de tudo. Tem muita gente pra dançar comigo no mundo. E pensando assim, sei que volto a ser livre, como sempre fui. Percebi o mundaréu de coisas que a gente deixa pra trás. No meio delas, estava eu. E aí eu me fiz dançar de novo. 

7.5.12

you and I will gonna live forever.

sonhei com você. eu, que não vejo seu resto faz pelo menos um ano sonhei com você. acho que tenho sentido saudades. não sei qual é o motivo do inconsciente projetar sonhos meus com você. queria que fosse karma, ilusão, vidência. queria que fosse vidência porque no sonho eu te reencontrava mais velha num desses bares perdidos por aqui. você continuava o mesmo e eu continuava a mesma. a gente tinha tanto assunto. tanto tanto assunto. mais ou menos igual daquela primeira vez que eu conversei com você e você levou bronca porque devia ter ido dormir já que tinha que trabalhar no dia seguinte. menino crescido tomando bronca. no sonho já não tinha mais bronca, e já não tinha mais culpa. eu era livre, apesar dos meus traumas e dos meus açoites eu era feliz, e você parecia também. eu te contava toda a minha vida, você contava a sua e a gente terminava comentando um folheto de show do cover daquela banda que a gente gosta tanto. eu te dizia que o cover era bom, e que podíamos ir qualquer dia e você dizia que sim, que podíamos ir.

na narrativa não linear dos sonhos tua mãe vinha te buscar e dizia que sentia muitas saudades de mim, que como raios eu tinha sumido da sua vida desse jeito enquanto você namorava outra pessoa. eu não respondia nada, e ela me abraçava porque sabia a resposta. ela não te levou de volta pra casa. te deixou comigo, disse que a gente devia ter muito o que conversar e que eu sabia cuidar bem de você. você sorria o mesmo sorriso que tinha quando eu fazia as piadas mais sem graça do mundo, e eu sorria do jeito que eu nunca mais me vi sorrir. daí a gente ia, andava na rua de mão dada e conversava sobre tudo que tinha pra conversar. era tanta coisa que eu não sabia mais de você e era tanta coisa que você não sabia mais de mim. daí já era tarde demais e a gente precisava de um taxi. um taxi pra minha casa porque a sua casa continua sendo longe demais. um taxi pra minha casa e depois você ia embora quando amanhecesse e eu fosse trabalhar, e tudo bem, minha mãe não se importaria porque ela te adora.

só que as filas do taxi eram enormes, ninguém sabe porquê. e esperávamos no fim da fila do taxi enorme enquanto você me guiava. você me perguntava se não era melhor você pegar um mototaxi pra sua casa e nos despedirmos de vez e eu te dizia que não. daí você ficava, porque no fundo você sempre fica. a gente andava pela rua e meu melhor amigo passava e eu mostrava pra ele "olha, a gente se reencontrou de novo".  talvez meu jeito tolo de sentir orgulho por ser a menina que segura a sua mão, mais uma vez. e daí começava a chover na fila do taxi e você resolvia de vez que não ia mais me abandonar e tirava de dentro de qualquer lugar um guarda chuva enorme, que cabia nós dois e você me abraçava com um braço pra eu caber no guarda chuva e com o outro segurava ele. e eu te abraçava pra que você não sumisse mais de mim. e o táxi chega e você senta de novo no meu sofá e a minha mãe diz que você pode dormir ali ou onde você quiser. vocês continuam fazendo piadas sobre o meu estabanamento e a minha preguiça.

e daí de repente é outro dia e estamos tomando café já numa casa esquisita onde as pessoas não me conhecem. e depois estamos no show que tinhamos marcado de ir e você não tem como voltar pra casa. daí aparece a sua namorada e ela te puxa pelo braço dizendo "vamos amor, eu te levo". e você vai indo com ela, e eu vou ficando de novo enquanto a banda vai guardando as guitarras e os baixos, até que você volta. daí você volta e senta na mesa. a mesa que de repente é a mesa de jantar da minha ou da sua casa, e onde as nossas mães festejam nossa recente união. daí você me sorri e diz que quer ficar comigo todos os dias da sua vida. e eu acordo. a realidade é que eu sou essa moça sozinha que vai pra um churrasco em família onde você nunca mais apareceu depois daquela única aparição louvável.

e eu não sei onde estaremos daqui há dois anos. sempre te imagino casado, já que você já é meio casado até. não sei mais notícias suas. fico querendo saber mas te tirei dos meus contatos e acho que é melhor assim. eu me senti tão violentada nesses últimos tempos, você nem sabe. meu coração voltou pequeno, o sorriso agora é meio sem graça e eu acho que eu queria mesmo que você tivesse comigo nas filas enormes dos taxis que fazem naquela cidade me protegendo com o guarda chuva que você tira sei lá da onde. só que cá estou eu perdida nessa cidade de novo, me fazendo de forte mas me sentindo usada e o pior de tudo é saber que você não existe nas mesas dos bares, nem no sofá da minha casa. nem hoje, nem daqui dois anos. e então o que sobra pra mim é enfrentar as chuvas sem guarda chuva e esperar sozinha nas filas intermináveis sem ninguém pra me acompanhar até em casa. um ano inteiro sem te ver, ou mais, e a minha memória ainda guarda até os teus tiques nervosos. às vezes, desavisada, chamo isso que sobrou de amor, mas eu acho que eu te guardo como o único homem que me protegeu da vida, que me fez descansar de saber os caminhos da cidade e andava comigo na chuva. você carregava meus guarda-chuvas (sempre se molhando mais) e me dava abraços desengonçados. você me levava pelas ruas, limpava o canto da minha boca sempre sujo de molho do cachorro quente da esquina e me tirava de perto das janelas com medo que eu caísse.

antes e depois de você, eu tive que ser senhora da minha vida. e por vezes falhei, porque isso cansa e agora sou assim, um pouco apática. esse foi meu novo adjetivo: apática. você não acreditaria que eu fiquei assim depois dos traumas da vida. você que sempre me acusou de fazer tudo sozinha, o tempo todo sozinha e tirava da minha mão as cestas do mercado. não precisa tanto assim, fazer tanto assim. pode dividir também. você que me ensinou, eu não aprendi direito e na gana de querer abraçar a vida surtei, e acabei ficando apática. se eu te contar que não tomei nem decisões simples esse ano acho que você não acreditaria. mas estou bem de novo, só sinto falta, você sabe. não sei se um dia alguém vai querer me ensinar de novo a ser cuidada. daí fico sonhando com você sorrindo das minhas piadas sem graça e dizendo com as suas camisetas roxas que não combinam que queria ficar comigo pra sempre.

só que eu não acredito em pra sempre. nem em sonhos premonitórios. nem em mim, nem em você, nem na mesa com as nossas mães nem no show cover da nossa banda preferida. eu não acredito em nada. só nessa saudade louca que eu sinto de quando eu era feliz. desde que você se foi ninguém nunca mais soube enxergar além da minha histeria (que é coração machucado) e das minhas camisetas sujas de molho.

desde que você se foi nunca mais.

3.4.12

Leve, como leve pluma muito leve pousa.

"Leve, como leve pluma
Muito leve, leve pousa.
Muito leve, leve pousa.

Na simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma
Suave coisa nenhuma.

Sombra, silêncio ou espuma.
Nuvem azul
Que arrefece.

Simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma.
Que em mim amadurece" (Amor - Secos&Molhados). 


Queria escrever alguma coisa. Qualquer coisa no dia que me faltam as palavras. Sinto um turbilhão de coisas e não sei como transformá-las em prosa ou poesia. A vida nos toma muito tempo. O tempo todo muito tempo. Mesmo quando a vida em si nem existe. Preencho meus dias com corridas ao ar livre e pequenas frases jogadas ao acaso no mundo narcisista das redes sociais. Quero a atenção que sempre tive. A atenção de ser o melhor texto da sala, a piada mais engraçada do bar, a menina mais inteligente do grupo de amigos. Quero ser amada, como todo mundo quer. Sou sozinha. Sempre fui sozinha. Guardo comigo a condição de sempre ter sido solitária. Filha única, passava meu tempo entre gibis, livros e os programas de tv cultura. Nunca gostei muito de gente. Me irritavam as crianças que corriam. Nunca gostei de pique-esconde. Tinha pavor de ser a última a ser encontrada. Ou a primeira. Nunca me encantou o mistério do gato mia. Nunca pintaram na infância minha cara com rolha por conta do dorminhoco. Eu preferia os adultos, os amigos mais velhos, minhas bonecas e os livros do monteiro lobato. Ainda não sou muito dada a gente. Tenho um desses universos grandes em que hesito em deixar alguém entrar. Faço força pra conseguir descobrir alguém que saiba todos os meus segredos. Ninguém sabe. Tem sempre alguma coisa a esconder. Ou a calar. Todos aqueles que um dia quiseram entrar nesse universo que não faço questão de contar eu afastei. Preciso dos segredos porque senão não existe literatura. A literatura se faz do mistério, do escondido, das caixinhas que não se conta nem pro terapeuta (embora ultimamente eu não acredite em terapeutas). 

Ser sozinha é uma condição-karma. Ninguém gosta tanto assim de gente sozinha. Ninguém sabe lidar muito bem com a solidão. As pessoas querem estar juntas, preferem a presença e olham com um certo desprezo ou descaso aqueles que sentam sozinhos nas mesas dos cafés e compram um só ingresso pro cinema. Eu preciso estar sozinha. Preciso ter comigo a certeza de que sou eu que estou tomando as rédeas da minha vida. Por isso hesito ao pedir conselhos. Por isso por vezes falho nas relações amorosas. Tem gente que exige fazer parte da sua vida demais, fazer parte das suas particularidades demais. Quer deitar na cama e dividir o momento solitário com você. Não respeita o secreto. Não tem como viver com gente que não respeita o secreto. Preciso do silêncio. Preciso caminhar oito, dez quilômetros e não ouvir a voz de ninguém a não ser a minha própria música. Preciso do meu espaço de seis ou sete metros quadrados em que durmo e escrevo. Preciso tomar café na padaria e não encontrar ninguém conhecido. Preciso estar em contato porque sempre precisei. Desde pequena. Desde quando o barulho das crianças que brincavam de pique-esconde me irritava. Sempre soube muito mais ser sozinha do que ser junto. É difícil a condição. É difícil porque é preciso compartilhar pra viver. É preciso estar-junto. É preciso que se tenha alguém pra contar e outra pessoa embaixo do seu cobertor, mesmo que esporadicamente. Sei que me livrar da solidão é um exercício. Um exercício diário e saber enxergar e dar lugar pro outro. Um pedacinho da cama. Um pedacinho da vida. Uma história que nunca se contou pra ninguém. Um segredo.

Sei também que ser sozinha é um dom. O dom de saber que se é um ser completo. Não no sentido de não precisar de mais ninguém, mas no sentido de ser pleno. Existe plenitude na solidão. Felicidade em ir no shopping fazer compras sem ninguém ao lado, em ouvir sua própria seleção de músicas, escolher o canal da tv, ir ao cinema às 7 da noite ver um filme que ninguém gosta muito. A plenitude do ser. Estar sozinho e saber que se sente confortável em sua própria pele. No silêncio e no barulho que estar dentro de si faz. Ser sozinho não é ser solitário. É gostar de, de vez em quando, estar sem ninguém. É precisar do próprio espaço, é gostar das próprias idéias. É principalmente estar com outra pessoa porque se quer estar, e não porque sente necessidade de. Querer o outro é muito mais bonito do que precisar do outro. Porque querer é vontade plena, e precisar é necessidade, prisão, coisa pesada. Querer é saber que podia-se viver sozinho se precisasse, se o outro te deixasse, se de repente tudo terminasse. É ter consciência de que, caso não exista o outro, ainda se vive, se sobrevive, se pode ser feliz. É saber que podia-se estar completamente sozinha e quem sabe até bastante feliz, mas não se quer estar. Por escolha, porque faz bem. Porque sim. É que todas as vezes que me senti precisar de alguém pra viver era a coisa errada, o barco furado, o descontrole que levava ao caos. Só fui feliz mesmo nas vezes em que ao invés de precisar, quis perto. Por escolha. Podia não estar com, mas quis. 

E de repente existe alguma leveza nessa liberdade meio solitária que carrego desde a infância. Reencontrei-me. O descontrole nunca me pertenceu. As coisas que são verdadeiramente suas não são as coisas que você aprisionou. São as que deixaram-se ficar.


(qualquer texto escrito de madrugada vai parecer auto ajuda).

17.2.12

half the world away

(I've been lost I've been found and I don't feel down)

Era difícil transformar a distância em coisa palpável, digna de ser escrita. Talvez fosse necessário uma metáfora, dessas assim bem feitas, dessas que traduzem perfeitamente o sentimento que não tem representação, e nem se pode desenhar. Podia, é claro, desenhar no mapa, contar em quilômetros, representar através do google maps qual era a trajetória mais rápida para ligar dois pontos. 480km. 8 horas de viagem de ônibus. 6 horas de carro. 1 hora de avião. 84 reais de passagem. 60 reais de pedágio. 119 reais pela gol em promoção. Qualquer coisa dessas não seria digna de traduzir o que é estar longe daquilo que se queria perto. A distância é cruel. Sabe-se que é cruel quando se vê os choros nos aeroportos e nas rodoviárias, as pessoas se abraçando sôfregas, se beijando com gosto de sal, não querendo largar as mãos. Depois que se entra no ônibus, no carro, ou no avião, tudo é uma coisa meio sem volta. Meio porque sempre há como se voltar, pegar o mesmo avião em que se partiu, voltar pelo mesmo caminho que se foi, pagar os mesmos reais na passagem de ônibus, mas enquanto a volta não acontece tudo é cruel.

Os dias passam rápido demais quando em boa presença, mas dão de passar devagar depois que se dá a distância. É difícil se manter presente na ausência. Às vezes as palavras dizem muito pouco, e por mais que a tecnologia esteja avançada, os audiovisuais ainda não aprenderam a substituir o toque. Consolar à distância também se torma uma arte difícil, é preciso fazer todo um tratado, uma epopéia quem sabe, pra poder chegar perto do que um chá e um colo - quem sabe um cafuné - fariam. Estar distante é sentir-se preocupado por coisas que não fazem parte da sua rotina, é estar aqui e a cabeça voar pra outro lugar, é querer notícias e notificações em qualquer lugar que seja, que digam que o agente causador da saudade está bem, vivo, respirando e quem sabe: feliz. Sentir que a outra pessoa não vai bem na distância dói duas vezes. Dói primeiro como doeria em qualquer pessoa, porque ninguém gosta de ver a pessoa que gosta sofrendo, e depois dói porque ao ver a pessoa que se gosta sofrendo, as formas de fazer isso se atenuar se tornam escassas. É possível, é claro, dizer várias palavras por telefone, mandar e-mails, sms, conversar pelo skype, pelo msn, seja lá por onde for, mas não se pode abraçar, não se pode olhar nos olhos e dizer que vai ficar tudo bem, não se pode dar as mãos, levar pra um café, colocar um filme, fazer uma comida. A distância extirpa a possibilidade mais bonita do estar com a outra pessoa: o silêncio que só é possível em presença. Porque às vezes não é preciso dizer nada, só é necessário estar junto. E pra se fazer presente em meio à distância é preciso a fala, é preciso o texto, é preciso o aúdio, e não é possível o calor do toque.

A distância é cruel porque tira a possibilidade mais primitiva do relacionamento entre duas pessoas: o simples estar junto. E é no meio da distância que às vezes a gente percebe que pra estar bem, não é necessário muito, é só necessário estar junto. É claro, são interessantíssimos os programas a dois, os cinemas, os bares, as lojas, as livrarias, os restaurantes e todo o universo que uma cidade é capaz de dar a duas pessoas que saem juntas, mas existem dias que nada disso é assim, tão imprescindível. Era possível que estivéssemos felizes sentados na calçada, na cama, no sofá da sala. Era possível que estivéssemos felizes se ele estivesse no quarto lendo um livro enquanto eu termino um trabalho no computador. Era possível até, que estivéssemos cada um em uma parte da cidade, mas pudéssemos contar com a certeza do encontro daqui há algumas horas, quando fosse necessário, ou quando simplesmente quiséssemos. A distância é cruel porque tira a possibilidade da presença, diminuindo ela aos feriados, às viagens, aos telefones, às mensagens de texto, às chamadas no skype. A distância é cruel porque separa. Porque separa dois corpos, duas mãos, duas bocas, dois olhares, dois cheiros, porque mina a possibilidade de. A distância é cruel porque faz com que se viva as vidas meio que pela metade. Tudo que se vive aqui acontece duas vezes, ou acontece pela metade. Acontece duas vezes quando eu penso que esse café é legal, mas também seria legal na presença dele. Acontece pela metade quando um lugar é chato, mas poderia ser legal na presença dele. Acontece triste, quando eu sei que ele não está bem e eu não posso fazer muita coisa. Acontece preocupada quando eu não estou bem, e ele sabe que não pode fazer tanta coisa assim. E dói porque por mais que façamos, sabemos que poderíamos fazer mais, se estivéssemos mais perto. A distância é cruel porque ata, porque diminui, porque impossibilita.

É difícil dar nome e voz à distância. É difícil mensurar a saudades, a falta, a preocupação. É difícil suprir a vontade de um abraço com uma mensagem de texto, é estranho querer chamar pra um café e só poder ligar. A distância é o livro que leio e não posso te mostrar, é o lugar novo que conheci e que não posso te levar, é o sorriso que dei e você não viu, a distância é aquele cachorro que corre em círculos tentando pegar o próprio rabo sem nunca conseguir. A distância é o andar em círculos desse cachorro que corre, que quer muito, que chega perto, que tem a parte junto de si em seu corpo, mas que nunca alcança de fato. A distância é essa lágrima que cai e que ninguém seca. É o vazio da presença, é o estar nessa cidade, no meio de 500 mil pessoas diferentes e nenhuma delas servir tão bem quanto. É um querer que ninguém mais ocupe o lugar do seu lado no cinema, é sentir-se plenamente feliz faltando um pedaço, é um quebra-cabeça que sempre falta uma peça. Estar distante é não conseguir dividir a tristeza e nem compartilhar a alegria, é o simulacro quase sem sentido da realidade que acontece separada, é ficar tentando emular como seria se estivéssemos perto, é nos mandar beijos por vídeo esperando que eles fossem reais. A distância - eu pensava que não - é essa coisa que castiga. Castiga meu coraçãozinho forte, que pensava sobreviver (porque já sobreviveu) à longas distâncias e baixas temperaturas. Sobreviver ele sobrevive, mas hoje bate devagar, como viajante que respira menos em longas altitudes. A distância é meu coração tentando respirar com ar rarefeito. 

Eu respiro com o ar rarefeito nessa cidade de terra vermelha, sinto um tico da sua dor e me sinto impotente. Tenho vontade estar mais perto, e de algum jeito estranho - e muito pouco racional pra essa cabecinha que sempre gostou de coisas palpáveis, exatas: dois mais dois é igual a quatro - sei que vai ser  possível. É que apesar de todos os pormenores da distância que castiga, existe aquele sorriso de fim de noite, depois de uma ligação que me gastou metade dos meus créditos telefônicos, porque existe alguém ali pra mim. Alguém que se faz presente em mensagens de texto, notificações de redes sociais e na conversa rápida do audiovisual e das linhas telefônicas. Alguém que é o meu café pra começar o dia disposta, e o chá de camomila depois do dia cansativo. O ombro pra encostar, o olho esquerdo piscando moleque, uma espécie de porto seguro pra essa minha vida que vai barquinho na correnteza, o cais onde eu posso quem-sabe atracar por tempo (in)determinado. Hoje eu sou aquele cachorro que abocanha o próprio rabo. Porque a distância existe, castiga, machuca, mas parece transponível. A distância é só um clique. 



24.1.12

nevermind I'll find someone like you.

Sabe, garoto, hoje eu vi de novo a cena final de vanilla sky. E não teve porquê. Postaram na timeline do meu facebook e eu vi de novo a cena. Porque as lembranças e as coisas acontecem assim. Vêm. Aconteceu de hoje ser a cena final de vanilla sky, o filme que nunca vimos juntos. Nunca veríamos. Nunca veremos. Tentei encontrar com você, no meio dos dvds meio caros da livraria, o dvd original de vanilla sky, da primeira vez que saímos. Encontramos, mas você preferiu um cd do coltrane. Encontrei o mesmo dvd na pratileira de uma americanas em promoção e pensei em levar pra te dar. Achei inadequado, nunca comprei. Não lembro de filme direito, lembro porém de todos os outros que você me mostrou, e de todos aqueles que você me ensinou a amar. Senti saudades. Fiquei imaginando como seria se um dia você fosse o meu tom cruise e eu a sua penélope cruz. Talvez tivesse sido bonito, talvez tivéssemos nos amado até o fim dos tempos. Mesmo que eu estivesse morta, e você congelado. Não sei o que aconteceria. Teus livros ainda estão na minha estante, e eu sei que tem muita coisa que eu não seria se não fosse por você. Minha literatura (a que eu odeio e amo), renasceu com você, meu gosto por piadas malfeitas, as bandas indies. Tudo isso que hoje eu recriei é um pouco seu, e vem um pouco de você. Antes doía. Antes eu ouvia adele e doia, ouvia coldplay e doía, ouvia qualquer banda que fosse e doía. Me lamentei muito ao som de baladas bregas, quis você em todos os meus relacionamentos frustrados (e não foram poucos). Chorei de novo nas cenas dos nossos filmes preferidos, comprei um deles e nunca nem consegui tirar do plastiquinho. Guardei na gaveta. Com os livros que você me emprestou e eu nunca devolvi, com a filosofia pós moderna que eu desisti de ler desde que você se foi. Você levou meu jean baudrillard e eu fiquei com um maffesoli mudo. Não tem mais pra quem contar sobre o livro que inspirou matrix. Por algum tempo ficou sem fazer sentido ir na orquestra, ver filme novo do tarantino, contar minhas impressões sobre o oscar. Desisti até de parecer inteligente. Hoje está tudo bem. I heard that you settle down, that you found a girl and you're married now. Eu, por minha vez, não casei, não arranjei outro namorado, me aventurei bastante e enjoei bastante da vida. Às vezes teimava que você nunca mais ia ser feliz do jeito que fomos, com os sorrisos que mostramos em nossas fotos empoeiradas e nos momentos que ficaram guardados, meio que pra sempre. Hoje eu sei que você deve ser feliz, do jeito que você pode. E eu sou também. Eu tento. A saudade não me corrói mais, eu não acho que você seja o último homem do mundo pra mim, embora por vezes eu tenha chorado nos jogos do campeonato espanhol porque não vejo mais sentido nenhum num barcelona sem real madrid. Não suporto mais o messi, e às vezes fico pensando se eu amava mesmo tudo aquilo, ou se eu amava porque você amava também. Também te vejo tão diferente do que você era, e fico pensando se de repente isso que a gente é agora não é o que a gente é verdadeiramente, e o que éramos juntos era uma espécie de ilusão. Acho que nunca saberemos, garoto. Você não me dói mais. Eu sinto saudades, porque desde que você se foi, eu tenho que arrumar vários outros melhores amigos pra botar no seu lugar, e às vezes eu canso. Canso da vida, e ninguém nunca mais disse que "seus amigos não gostam de te ver depressiva, então pare". Também não vejo nas pessoas a impaciência por não saber o que me dizer, querendo achar as palavras certas nos meus surtos (que a gente sabe que não são poucos), elas só me deixam pra lá, e dificilmente sorriem me dizem que "a sua vida é muito boa, não tem porquê isso". Eu brigava com você na época, mas você já enxergava o que eu só consegui ver agora. Minha vida era muito boa. Yesterday was the time of our lives. Mas eu sobrevivo. Sobrevivo porque tudo deve ter acabado quando tinha que acabar, and guess she gave you things, I didn't gave to you. Não quero achar ninguém como você, porque eu sei que não tem. Quero achar outra pessoa, me divertir com outra pessoa, amá-la tanto quanto eu te amei. Ou mais. Quero amá-la mais, se você não se importar. Porque sabe, garoto, talvez o nosso amor não fosse mesmo pra essa vida. Porque cada minuto que passa é uma chance de mudar tudo pra sempre. E eu te encontro em outra vida, quando nós dois formos gatos.


16.1.12

500 maneiras de enlouquecer um homem na cama.

Tinha sido isso, sexo e só. Por mais que exista afeto é impossível amar alguém que se conhece há menos de dois dias. Todo o jogo que tinha sido feito até ali tinha como primordial objetivo terminar na cama. Não era esse o objetivo de todos, no fim das contas? Um jantar, uma bela conversa, taças de vinho, restaurantes caros, comidas rebuscadas, a banda preferida no rádio do carro. Tudo pretendia terminar no encontro de corpos, numa cama qualquer, às três horas da manhã, com o objetivo de testar se ela fodia bem. Estava cansada dos jogos, do que pode e do que não pode, dos homens que se mostravam agressivos depois da presa conquistada. "Você é uma fresca", por vezes ouvia. E não se abalava, porque não tinha comprometimento nenhum em agradar aqueles homens que no fim das contas, não queriam muito mais do que o seu corpo. Ficava ali, inerte, imóvel, fazia o que tinha vontade e às vezes se segurava pra não cuspir na cara desses novos parceiros. Não queria ser nada, não queria nada disso, não exigia de ninguém grandes performances, orgasmos inexplicáveis, dez fodidas numa noite só. Dane-se. Quantidades, desempenho, comprometimento, saber todas as zonas erógenas do corpo de uma mulher. Isso qualquer babaca sabe, tem que saber mesmo como lidar, como tratar, o jeito certo de colocar no colo depois de um dia difícil.

Sentia saudades dos desajeitados, daqueles que de nervoso não conseguiam desabotoar direito seu sutiã, beijavam meio fora de compasso - mas a olhavam nos olhos. Se encantavam. Não eram máquinas da performance sexual sem erros. Da noite perfeita, da busca pelos orgasmos múltiplos, da espera pela mulher-puta e surpreendente na cama. Máquinas. Máquinas de prazer, vibradores com sangue que pulsa. Preguiça anterior de tudo isso. Procurava assim, humanidade. Clichê. Tinha se tornado um clichê ambulante desde que começou a se sentir vazia no meio das noites e dos novos encontros. Era pra isso? Era pra isso os elogios, os flertes, os chocolates, as saudades? Tudo isso deveria, inevitavelmente, terminar em sexo? Não deveria. De repente sentia-se cansada e queria uma vez que fosse passar uma noite inteira conversando, olhando pro teto, de mãos dadas, dividindo a vida. Queria um homem qualquer que não quisesse saber da sua performance sexual. porque isso viria, um dia. Sempre vem. E se torna fato comum, natural, o balé do envolvimento entre duas pessoas. Uma vez na vida um homem que levasse as coisas com calma, que quisesse apreendê-la na alma antes de possuir-lhe o corpo. Uma vez na vida o cortejo, o amor, o desajeito, a timidez, os quatro encontros antes da primeira noite. Ir no cinema. Qualquer coisa assim, brega assim, aceitaria que a chamassem de "princesa", de qualquer adjetivo cafona que fosse, se pelo menos um dos homens que encontrasse pela rua não tivesse como objetivo primordial saber se ela cospe, engole ou sabe chupar direitinho. Vivia sôfrega de tanto encontro errado, tanta bebedeira, tanta pegação no banheiro da balada, no banco de trás do carro, na cama de gente que nem tinha antes conhecido a casa, descoberto o nome do filme preferido. Não aguentava mais ser assim, essa alma errante e sozinha e tentar se achar, em meio de corpos, de noites sem poesia, dessa merda de performance sexual. Foda-se a performance sexual, fodam-se vocês todos.
Todo mundo precisa de amor, uma hora ou outra.
Precisa ser olhado nos olhos.
Precisa.
Precisa parar de ser máquina, precisa esquecer os manuais.
500 maneiras de enlouquecer um homem na cama. Foda-se.
"Foda-se se você encontrou meu ponto G, eu queria que você encontrasse a minha alma, a merda da minha alma. Que eu ainda tenho. Eu ainda devo ter" - ela pensava e derramava uma lágrima, enquanto seu parceiro sorria de satisfação. Performance perfeita, movimentos ensaiados. Mais um pra lista. Grande coisa.
E deitada nua, coberta pelo lençol, na cama de seu mais ilustre desconhecido pensava: "estou cansada de quererem me tocar sempre primeiro no corpo, queria ao menos uma vez ser tocada primeiro no coração".


25.7.11

Que amava toda quadrilha.

(do Chico Buarque e do Drummond que me fazem, falo como personagem)

"Te amo", é dessas expressões que nunca cogitei te dizer nem em sonho porque sempre soube que dizer "te amo" pra você deixaria de ser expressão e se tornaria um ridículo e extenso (e quem sabe nunca-antes-visto) derramar de mim mesma.
Amor é uma coisa complexa que se eu tentasse explicar me embananaria toda, salvo se estivesse munida por eu-líricos cantantes e bonitos. Gosto de ti. Porque sim.
E deveria saber que quando a gente gosta "porque sim" de uma pessoa é porque gostar já é palavra boba demais dentro do universo que envolve essa relação.
Me destruístes de tal modo que não é possível que consiga poetizar nossa quadrilha, pois coisa vira e, real que você é pra mim, só sei de você cru e nunca soube de você minha história. Sei de você cru nos meus ossos, carne e, principalmente em pensamentos que me ocorrem em tardes cinzentas.
Sempre te acharei a companhia perfeita para a casinha de sapê que nunca construiremos e de algum modo vou sempre imaginar alguma coisa ridícula.

(Ridícula do tipo, não terminar esse texto porque admitir que eu te amo quase que me embrulha de amor de tão cru que és).



Texto encontrado - e não revisado - num caderno de faculdade que data de 2008.

13.4.11

Heart shaped-box

"Quando o amor acaba todas as coisas as quais foram atribuídas significados viram coisas". Tinha lido essa frase em algum lugar, não sabe mais onde. Talvez em algum livro famoso, talvez numa dessas revistas de mulher - tem lido muitas dessas ultimamente, daquelas que ensinam truques de beleza e dicas para chegar ao orgasmo. Mas pensou na tal frase no momento em que olhou o guarda-roupas aberto e conseguiu lembrar, por um momento breve, a roupa que tinha escolhido pra usar no primeiro encontro com aquele que viria a ser o seu (grande?) amor. É engraçado como em cada época da vida de uma pessoa (do sexo feminino, em sua maioria) existe uma roupa que possui dentro de si a falsa capacidade de conquistar a pessoa amada. A daquela época era uma calça jeans skinny, muito apertada no corpo - mas que tinha ficado larga, emagrecera demais naqueles tempos difíceis -, uma blusa rosa por baixo de um casaco roxo, com botões de plástico, com cara de retro. Ainda tinha no guarda roupa todas aquelas peças. As lembranças já tinham se tornado um tanto rarefeitas. Mas olhando com atenção tinha uma bolsa, um doce, um livro. Algumas várias coisas que podiam fazer uma espécie de inventário daquele amor que um dia tinha sido, e não é mais.

Não sabia se de fato enxergava naqueles presentes apenas "coisas". Conseguia se lembrar do momento exato em que eles tinham sido dados. Tinha uma afeição especial por um sapo de pelúcia que tinha sido comprado de surpresa. Tinha afeições menores, mas não menos importantes, por todos os outros objetos. Os pegava na mão e conseguia lembrar que, naquele momento, tinha sido muito feliz. Às vezes a felicidade também vira coisa. Lembrança longe e que a gente tenta pegar com a mão, e não consegue. Milhares de sorrisos eternizados em um objeto que hoje é enfeite no quarto do lado de outros mil objetos diferentes. Os sorrisos embalsamados. Guardados dentro da bolsa, dentro da lata, embaixo dos cachecóis. Hoje, já não sorria tanto. Não com amores, pelo menos. Tinha uma certa felicidade em estar só. Não era comodismo, era outra coisa. A solidão é mais imensa que o amor, porque o amor se divide. A solidão é só sua. E é tão imensa que às vezes aprisiona. Ela se sentia aprisionada dentro da própria solidão. Os passos mudos, os pensamentos rápidos, as músicas. Tudo muito dela, solitário, íntimo, indivisível. Uma paz. A paz de não depender de ninguém. Não esperar ligações, mensagens, e-mails, congratulações. Não ter que esperar jantares, rosas, beijos inesperados as cinco da tarde. Não ter que preparar a comida preferida, desejar 'boa sorte', 'bom trabalho' nem dizer "te cuida, garoto, o mundo é mal". Fora do amor era menos ciumenta, menos posse, menos cuidado com o outro. Bem mais com ela. Pequenos objetos novos fazendo um inventário novo, o inventário da solidão. Roupas compradas em liquidações na rua, livros, filmes, tickets de passeios solitários no cinema, cartões das cafeterias onde ia dividir cappucinos com creme com ela mesma, e fazer um balanço geral do dia. A solidão não cabe dentro da gente.

Sentiu então uma certa inveja daquela pessoa que um dia mereceu presentes, surpresas, declarações, cartas. Um certo rancor de si mesma de ter transformado tanta coisa repleta de significado em pequenos bibelôs espelhados pela casa. Bibelôs empoeirados, esquecidos, etiquetados com datas mentais e que sempre diziam "você já pôde ser feliz". E tinha sido. Mas sempre procurou uma espécie de felicidade completa e nada, nada a preenchia. Nem o emprego (razoavelmente bem sucedido), nem os amigos (vários, sempre presentes), muito menos as novas conquistas (costumava ser apaixonante). Tinha uma preguiça imensa de dividir sua vida com outra pessoa, ensaiar novos ritos, dar significado à novas coisas. Ficava ali, então. Ela, sua solidão amiga, os livros, os discos, as falsas demonstrações de afeto que costumavam vir de tempos em tempos, conforme a necessidade de um novo amor que raramente saia do campo platônico. É que as pessoas costumam ser extremamente desinteressantes quando chegam à luz da realidade. Quase feias. Esse amor ideal não existe, amor acontece no dia-a-dia. Acontece nos passeios de mãos dadas no mercado, quando resolvem trocar o almoço por nuggets. Amor acontece nos domingos à tarde deitados na cama olhando o teto e conversando sobre a vida. Amor acontece quando a gente não está prestando muita atenção, não está fazendo nada de muito grandioso. Nenhuma declaração muito ensaiada, nenhum presente muito caro. Amor é um troço cotidiano, nem tão bonito assim, porque é meio frágil. É mais ou menos como um arco íris, ou uma borboleta. Um dia acaba, ou se tocar muito fundo pode desintegrar. A última coisa que lembra, sobre um desses amores aconteceu na cama do quarto, quando os dois deitados não esboçavam mais emoção, só cansaço. As pernas entrelaçadas, os rostos colados e um eterno cansaço. O cansaço do fim do amor. De quem andou demais, esfolou os pés e de repente não sente mais forças pra continuar.

Mas as despedidas são bonitas. Os ritos, sempre os ritos. Um último beijo, a misericórdia, um gosto doce. Nenhum desses presentes sabia que um dia torna-se-ia bibelô. Enfeite de mesinha de centro, de cabeceira, empoeirado pelo tempo e pesado de tanta lembrança. Pegou um deles na mão, lembrou do momento. Talvez os significados ainda estivessem ali. O sentimento não. Mesmo que ainda existisse, existiria transmutado. E, além do mais, depois de tanta solidão ancestral nem tinha como tirar a poeira que o tempo deixou nos presentes - e no coração. Sentiu uma espécie de gratidão. Ao mundo, ao amor, ao sentimento, à ele. Queria deixar eternizado em algum lugar que já tinha sido feliz. Colou uma etiqueta embaixo de uma boneca, escreveu a data que se lembrava "por volta de setembro" e completou "alguém me fez feliz com isso". Botou de volta no lugar, limpou a poeira e sorriu. Tinha criado uma espécie de mausoléu para a felicidade. Que hoje jazia enterrada a sete palmos e tomava cada vez mais distância do amor.

31.3.11

31/03/2011

Achei um bom dia pra desapegar-me. De você. Das lembranças. De nós dois. Achei que por bem devia te deixar junto com os livros que empoeiram na estante. É dificil dizer que de repente eu quero que você não mais volte. Mas prefiro assim. Fica. Você parece ter toda uma vida que já não depende de mim. E eu construindo castelos que dependem das pedras que você ficou de trazer. Não adianta. Não adiantam mais os livros na estante e as memórias que já tem cara e gosto de velhas. Não me lembro nem mais direito como você é. Eu tenho as fotos que você me deixou, um porta-retrato ou outro na estante, um momento ou outro dentro do coração, mas não vai adiantar. Não é como se juntando tudo que eu tenho de você eu fosse te trazer de volta. Eu sei, eu sei. Você foi minha esperança e por muito tempo eu esperei que você fosse minha salvação. Esperei mesmo, sentada, resignada como uma princesa que espera que seu principe venha em um cavalo branco e traga consigo todo o amor que o mundo não permitiu lhe dar. Justo eu, que nunca tive vocação pra contos de fada, cuspia na cara das princesas e queria ser a madrasta da branca de neve, com maçã e tudo. Eu, esperando que o amor de alguém me desse a redenção. Foi bonito, eu sei. Eu choro lembrando de você, vez ou outra. Bob Dylan ainda sente saudades suas quando sussurra que os tempos estão mudando e o meu sofá é grande demais pra mim. Minha casa cheia de ausências, água demais na geladeira. Tudo isso são coisas que você deixou, o tempo coloca poeira em cima, mas às vezes eu limpo e relembro. Eu sinto a sua falta nos dias de chuva, nos dias de sol quando eu tenho preguiça de ir caminhar sozinha. Eu lembro de você no meio de lembranças que eu nem sabia que tinha mais. Mas tudo isso é lindo aqui, na literatura. A vida real é doída. Na vida real eu lacrimejo no meio dessas lembranças todas e não existe beleza nenhuma em deixar um amor encroado. A verdade é uma só: você não vai vir me buscar. Eu posso sapatear, posso colocar uma faixa enorme na frente da sua casa dizendo o quanto eu te amo (eu te amo?) que não vai te trazer de volta. Posso fazer mandinga, oração, simpatia ou te entregar um livro inteirinho cheio de histórias como essa que tudo vai ser igualzinho está. Pode ser que alguma coisa em você ainda balance quando você pensa em mim. Pode até ser que um dia você acorde arrependido e pense que a gente podia ter dado certo no meio daqueles setembros e abris conturbados e quase bonitos. Mas a verdade é que você ama outra. E eu não nasci pra ficar me flagelando. Eu estourei minha cota, meu poder, tudo eu perdi e foi por sua causa. Eu te amo muito, mas agora eu quero amar outra coisa. Eu sei, eu já te disse isso tantas vezes, quantas vezes eu disse? Mas hoje eu quero me desapegar de você de vez. Vai embora. Pode ir. De vez. Da minha casa, do meu coração, da minha vida. Vai amar, vai te descobrir, vai viajar, vai te enxergar nos olhos de outra, de outras, de mil que sejam as suas próximas. Que eu quero mil próximos, quero amar outras criaturas, quero chorar no banheiro, quero sorrir na sacada, quero rolar na cama nas quartas feiras depois da novela. Quero descobrir outros olhos, quero sofrer de doer na carne de novo por qualquer pessoa, qualquer errante, qualquer maltrapilho que esteja disposto a roubar meu coração e depois atirar longe. Porque eu, que nunca pude ser só sua, cansei de sofrer só por você. E eu, que aprendi a sofrer pelos outros com você, quero voltar a sofrer só por mim. Que na verdade, amor, é o que eu sei fazer. É só o que eu aprendi a fazer.

9.1.11

O amor não existe.

Era domingo, era tedioso, modorrento - e doía. Não porque todos os domingos costumam doer de alguma maneira - todo fim de ciclo dói, pontudo - mas porque sentia uma dor que era mais que dor, e virou angústia. Virou angústia, numa terça, talvez numa quarta e ela nem sentiu porque já tinha se acostumado com tudo isso que as pessoas costumam não suportar: a angústia, o vazio, a solidão. Era entusiasta da solidão. Vez ou outra pegava a bolsa vermelha e entrava no carro e ia dirigindo pra lugar nenhum. Só ela, e a música. Nunca ansiava chegar a um lugar específico, porque sua vida era um eterno andar sem saber pra onde, nem porquê. Às vezes encontrava um campo com trigos no meio do caminho e achava por bem ficar ali pensando na vida. Às vezes parava o carro e ia andar na chuva sem guarda chuva e às vezes sentia uma vontade infantil de parar pra tomar sorvete, e parava. Deu-se essa mania estranha de fazer aquilo que bem entendesse, desde a mais tenra infância. Coisa que era ao mesmo tempo liberdade e solidão. Porque ser livre é ser um tanto sozinho, também.

Mas naquele domingo, em específico, ser sozinha deu angústia. Sentou-se no parapeito da sacada então, observando os carros e as poucas pessoas que iam e voltavam e avistava coisas como famílias aparentemente felizes e casais andando de mãos dadas passeando com um cachorro. A normalidade da vida cotidiana que cansa e encanta ao mesmo tempo. No rádio o pink floyd gritava "wish you were here" e ela não conseguia pensar em nenhum ser humano vivo que ela quisesse que dividisse a sacada com ela. Não naquele momento. Depois veio o Bob dylan gritando rouco e tresloucado que "ain't me your looking for" e não houveram dedos suficientes pra contar nas mãos quantas vezes tinha falado - ou pelo menos pensado em falar - aquilo para outra pessoa. Nunca era ela. Mesmo quando era, nunca era ela. Porque é muita fantasia pra uma pessoa só. É muita mania, muita histeria, muita necessidade de mudança. Não dá pra agüentar. "É que um dia eu estou sentada num café dizendo 'você-é-o-amor-da-minha-vida' e no outro eu digo 'não-existe-ninguém-mais-errado-pra-casar-que-esse-cara'", pensou. E é assim, não tinha jeito. Amor era coisa de gente crescida demais, convicta demais, que se doava demais. Não coisa pra uma menina que não sabe decidir nem que tênis vai colocar com a roupa que escolheu. "De repente ninguém sabe mesmo de amor", refletiu. E podia bem ser que seja. Mesmo aqueles que sabem, não sabem.

Mas olhava prós casais felizes de mãos dadas passeando no domingo e tinha angústia. Porque sabia que tinha passado, naqueles vinte e poucos anos de vida, muito mais domingos sozinha do que domingos segurando mãos. Também segurou poucas mãos na vida, e mesmo as que segurava tentava soltar rápido demais. Existia nela um terrível paradoxo entre sonho e personalidade destrutiva. Sonhava com uma casa, um jardim enorme com árvores que dão frutas, porque de repente acha importante que as crianças trepem em cima das árvores como macacos, mesmo que isso consista em cair e quebrar os joelhos. Ela nunca conseguiu subir nem no primeiro nível da árvore. Medo demais de cair do céu e despencar no chão. Realismo demais, pragmatismo demais. Desde os sete anos de idade nunca se permitiu sair do chão. Sonhar sim, mas nunca o risco demasiado. Ou amor, se preferir. Sonhava com essa casa com espaço, ar livre, o verde. Mas de repente pensava de novo e achava que os filhos iam acabar sendo mesmo crianças-de-apartamento, como ela. Dessas que passam o dia todo no computador, ou nos jogos de tabuleiro. Quem sabe um video-game. Nada lúdico, nada educacional e é por isso que sonhava também com um marido extremamente criativo que aceitasse ter uma chácara pra passar as férias com a crianças, e aceitasse de bom grado fazer as malas numa sexta feira depois do serviço, pegar o carro e sair com as crianças num tipo de passeio sem-rumo cantando músicas de viagem, ou beatles. Simples fantasias. Um marido zeloso, apaixonado, dois filhos - um menino e uma menina - uma casa confortável, um emprego flexível, ser-feliz.

Encontraria seu marido em um lugar inespecífico, puxaria assunto, teria um gosto parecido com ele para culturas em geral, e talvez eles gostassem do mesmo tipo de bizarrice, tipo perder uma noite inteirinha de sono pra comer pizza de marguerita em cima da cama conversando e bebendo coca no gargalo. As pessoas não sabem, mas elas são muito influenciáveis pelo fato de alguém no mundo compartilhar - ou ao menos entender - os gostos estranhos delas. No caso dela seus gostos estranhos incluíam música brega dos anos oitenta, desejos por comidas gordurosas em plena madrugada e dormir de meias, mesmo no calor. E tudo isso parecia um sonho impossível pra quem não conseguia gostar nem de um refrigerante por mais de três semanas seguidas. Pensava nesse tipo de coisa, no meio da angústia. Quando será que existiria alguém capaz de escrever na vida real uma história que tivesse ares de filme romântico alternativo? E respondia pra si mesma: nunca.

Alguns números no celular, algumas pessoas pra quem poderia ligar quem-sabe dividir uma cerveja no bar. Afinal é domingo, seis da tarde e talvez seja isso que se espere das pessoas que não tem um namorado, uma família ou mesmo um cachorro pra levar junto na padaria pra comprar seis pães e um litro de leite gelado. Uma ligação, um encontro, uma conversa que vale a vida, o começo de um grande amor quem sabe. Mas não. Já conhecia aquelas pessoas, sabia que irritava nelas qualquer coisa que seja. O dente canino pontudo demais, a mania de sair pra fumar no meio da conversa, o gosto por filmes de ficção científica, a mania de escolher o toque mais irritante pro celular, não querer ter filhos, dirigir devagar demais, não gostar de bandas de brit-pop, ser sério, ou simplesmente ser um doce mas não suscitar nela qualquer tipo de sentimento que chegasse próximo do amor verdadeiro (e ele tinha beatle preferido, que terrível). Então debruçou no parapeito da janela, quase acendeu um cigarro, quase foi pegar uma cerveja na geladeira, quase calculou quanto tempo um corpo jogado do décimo quinto andar demoraria pra chegar ao chão, quase ligou pra três pessoas, quase mandou ume mensagem bonita, quase inventou um novo amor, mas no fim só mudou de música porque o amor parecia bonito demais enquanto um dos irmãos do oásis cantava "and-all-I-know-is-that-I'm-in-love-with-someone-who-loves-me-too" e então gritou "o amor não existe!" bem alto, no meio da melancolia, da angústia, e achando que algum casal separaria as mãos depois de ter bradado o que pra ela seria a grande verdade universal ainda não revelada pela humanidade. O amor não existe. Só existe na literatura, e no cinema e o dia dos namorados foi inventado para as pessoas se sentirem um lixo por causa de uma coisa que todos sabem que não existe. O amor não existe. Não existe nas segundas feiras a tarde, nem nas quintas feiras frias com vinho e macarrão, nem nos sábados felizes e muito menos nos domingos modorrentos.

"Pra que doer por causa de uma coisa que nem existe?" se perguntou. E tentou dançar, e tentou cantarolar "happiness-is-a-warm-gun" e quase concordou "é sim, john, é claro que é". E se sentiu feliz por um instante. E tentou fumar um cigarro, e tentou beber a cerveja de geladeira, e tentou ligar para duas pessoas, e tentou mandar uma mensagem bonita, e tentou inventar um amor. E falhou. E de repente olhou de novo pra fora, tão out, e viu que um homem sorria segurando uma mulher pela mão como quem mostra pro mundo "é minha". e ela sorria de ser dele. E duas crianças mais pra frente, pulavam, e se sentiam amadas. Daí pensou que o amor existe sim. Estranho, errado, manco, bonito, sublime, do jeito que for. E pensou que quem sabe, o amor acontece, num desses domingos modorrentos, de angústia que dói, de solidão encroada de anos e meses, e dias. No meio da rua, aparece alguém que tem o mesmo gosto estranho por pizza as três da manhã, um canino que não incomoda e uma tremenda capacidade de fazer nascer amor.

Dividiriam então uma trajetória juntos, quereriam uma árvore por acharem os dois ser indispensável para uma criança trepar nas árvores até ganhar tantos hematomas quanto puder. Passariam a lua de mel de mochila nas costas, desbravando a américa do sul ou a europa e casariam de tênis - por ser mais confortável. Antes disso teriam dividido várias pizzas as três da manhã onde conversavam até secar a saliva e descobririam numa dessas conversas que odeiam o filme preferido um do outro, e não ligariam. Assistiram novos filmes, identificariam um ao outro em personagens de literatura, escreveriam bilhetes com citações que lembrarem o outro, gravariam DVDs com filmes que não gostaram tanto, mas sabiam que o outro amaria. Dividiriam pedaços de vida, de história e do último pedaço de doce que sobrou na geladeira. Doariam um pro outro às vezes, o último copo de leite. Ele lembraria de comprar pra ela seu bombom preferido quando fosse à padaria comprar pão. Enxergariam traços um do outro em seus filhos. A cor dos olhos, a ondulação do cabelo ou o jeito despretensioso como ela olha às vezes, igualzinho à mãe. Brigariam, refletiriam sobre o fato do amor ainda existir. E ela ia querer fugir mil vezes tentando gritar que "o amor não existe". Pois se sabe criança imatura, que não sabe brincar de amor, mas que espera um dia dizer que não sabe amar, e ouvir de volta "está tudo bem, eu te ensino". E quem sabe seria feliz. Com os pés fora do chão. Casando de tênis, as quatro da tarde, no meio do mato dizendo sim para o homem no qual enxergou no fundo dos olhos um futuro lindo e descobriu que o amor existe sim, e dá pra pegar na mão, num dia de chuva cantarolando que "you-and-I-will-gonna-live-forever" e sorrindo. Num domingo cinzento, às cinco da tarde, enquanto alguém na sacada observa e já não tem coragem de gritar que o amor não existe.

26.12.10

vou tirar as passas do arroz, e venha o que vier.



Lembranças e saudades. É assim que eu categorizo o ano que ainda-não-se-foi. O ano do não-presente, da espera pro futuro e da saudade do passado. Não me lembro de ter tido anos piores. Meus vinteeum anos me pesam como dois grandes sacos de 10kg em cima das costas. Uma dor nos joelhos, um enjôo de existir e o tédio. As pessoas continuam vivendo a vida delas em seus círculos paralelos enquanto eu fiquei meio presa nesse ano que nem existiu de verdade. Um ano que passou com uma terrível vontade de que se acabasse e com uma eterna saudade daquilo que foi e que não é mais. Vejo na parede fotos de pessoas que já se foram, e que a gente sabe, não voltam. Guardo no meu computador retratos-e-canções de tudo aquilo que um dia prometeu ser. Estou cansada, e por vezes choro. Tem dias que eu enjôo da vida, tem dias que ai. Acabaram-se os ciclos, acabaram-se os ritos, acabaram-se as promessas. Acabaram-se os amores. Acabou-se.

O que recomeça então, a gente se pergunta, e eu não sei. Tenho na colher o gosto de um brigadeiro que já se foi, e tenho em mim o sabor das conquistas que podiam ter sido, mas não foram. O fracasso, o medo, a insegurança. O amor, ah, o amor. Um ano inteiro de tanto amor e pouco espaço, de pouco amor e muita confusão. Um ano inteiro de tanta fantasia, tanta saudade, tanto apego, tanto dispêndio de energia, pra no fim continuar trilhando estradas por si mesma. Eu sei, e todo mundo sabe. A gente nasceu sozinho e morre assim também, no fim. E têm mudado tanto as pessoas que resolvem que dividirão comigo então a tal trajetória na vida. O que se leva, afinal, o que é pra sempre, quem é insubstituível, o que vai doer, o que vai ficar, quem vai me fazer feliz até o dia da minha morte? Tantas perguntas, nenhuma resposta, e as terríveis reflexões de fim de ano. Depois de quantas cervejas é possível saber de verdade o que a gente quer da vida? Depois de quantos abraços, de quantos brindes, de quantos desejos de um ano novo lindo, sabor de doce é possível saber que a gente vai ser feliz de fato? E quanto tempo demora até se concretizar a felicidade? E felicidade plena, existe? Existe no fim de tudo, a certeza da dúvida. E uma angústia. Uma angústia eterna de 365 dias se tornarem tudo aquilo que a gente sempre quis.

Um ano inteiro de saudades, e esforços. Eu ri, sim. É porque também se ri no sofrimento, ali no meio. Quando o sofrimento dói na carne, ou a gente se entrega, ou sorri. Arrisco a dizer que dei meus sorrisos mais sinceros durante esse ano. Lindos, abertos, perfeitos. Saí de cabeça erguida de todas as dificuldades e sorri também porque se sorri na hora da morte. Antes de fechar os olhos. Conservo em mim um orgulho infantil, uma capacidade de superação e uma eterna preguiça de viver. Conservo em mim o enjôo de anos de fracasso sem glória nem sorriso. O enjôo das despedidas sem ritos. Do não poder chorar na cara, do não poder dizer "vai, mas não vai sem saber que um pedaço de mim vai junto". Só a separação. A separação das pessoas, dos amores, dos sentimentos. A separação daquilo que se era e que se sabe, nunca mais será o mesmo. Será que é o peso dos anos que faz com que tudo perca um pouco a música, que com isso se vá embora a poesia, que se coma brigadeiros com gosto de saudade? Será que a cada fim de ano se perde a esperança do "que seja o melhor ano da minha vida" e se troca para "que seja melhor que o próximo".

É que às vezes a gente promete pra gente mesmo um ano novo cor de esperança, de nova-vida, de felicidade. Diz que vai fazer o melhor ano novo do mundo, se veste de branco promete e pede a paz. Escreve uma lista e sonha. Renova, reescreve, reinventa, abraça meio-mundo pulando num pé só, pulando ondas, sendo aquilo que dá pra ser, esperando sonhar um sonho, dois sonhos, e querendo que todos os sonhos do mundo caibam num ano só. Só que vida pressupões frustração e sonho nem sempre se concretiza. É certo que hão de vir anos terríveis e anos melhores-um-pouco. É certo que um dia a gente acorda no dia 29 de setembro e de repente começa ali um ano novo cor de felicidade. É que a vida é feita de encontro-e-desencontro. De gente que vai pra sempre prometendo voltar amanhã e não volta nunca-mais e de gente que vai pra nunca-mais e a gente encontra numa esquina qualquer da vida. É que tem vez que é a gente que vai pra nunca-mais. Tem vez que é a gente que se despede sem rito, tem vez que a gente que é surpreendido, mas tem vez que é a gente que surpreende. É que às vezes acontece de você ter o ano novo mais iluminado do mundo, e os piores 365 dias da história da sua vida. Aconteceu comigo. Pode ser que seja do barco ir firme e sem tribulação, e pode ser do barco virar. Pode ser do amor vir, e pode ser do amor acabar. Pode ser de acabar o amor que era pra sempre, pode ser de ser pra sempre o amor que já tinha terminado. É que no meio desse turbilhão terrível de ano, ainda tem o pouco-que-sobrou. Ainda tem um sorrisinho de canto-de-boca pra distribuir. Ainda tem uma roupa guardada e uma taça querendo-brindar que oxalá, o próximo ano há de ser iluminado, há de ser de paz, de conquista de doçura e só. É que no fim das contas, o brigadeiro ainda é doce, se tem saudade valeu a pena e cai um pacotinho novo de esperança piegas a cada dia trinta e um que faz gritar: "vai embora, ano velho, e traz pra mim um ano lindo".

26.11.10

C'est la vie.

Eu sai por aí pensando você e balbuciei tantas vezes "tudo poderia ter sido tão diferente, garoto, tudo poderia ter sido tão doce." Hoje eu poderia estar andando de mãos dadas com você rumo à lugar nenhum, ou podia quem sabe te improvisar um almoço antes do trabalho, nada demais, um bife, macarrão dois copos de suco e sorrisos. Mas a vida é assim "c'est la vie" eu te diria, mon ami, e você não entenderia nada da minha mania de falar francês sem-saber, como também não me entende na minha língua natal, e como desentende completamente meu coração. E eu responderia "é a vida, meu amigo. Só que em francês pra dar um tom dramático à coisa toda". E mais uma vez você me acharia doce demais, inteligente demais, e tudo demais demais pra que eu pudesse dividir um caminho do seu lado. Eu indo sempre na frente, mas que frente é essa também. Eu sou tão loser, garoto. Toda perdida, hoje quero ficar de pernas pro ar e amanhã vou querer o mundo, depois vou desistir do mundo e querer só uma partezinha.

Eu desisti da sua vida, da minha vida, da nossa-vida principalmente eu desisti. Transformei tudo em literatura, tudinho. É que eu não sei viver, não sei mesmo. Tentei algumas vezes sem sucesso e viver pra mim pareceu uma aventura errante, como essas crianças que tentam dar o primeiro passo, se estabacam no chão e resolvem que vão engatinhar mesmo, não há outro jeito. Só que as crianças ainda levantam e vão, e eu, por vício estou aqui de muletas. Só sei andar com elas, e as minhas muletas são as palavras. Eu sei, você tem uma vida, e toda vez que eu me dou conta disso eu volto a engatinhar, porque eu não sei como existe essa coisa de vida e tudo-o-mais, essa coisa de você existir físico em gestos, pele, cabelo, roupas, cheiro. Enquanto eu penso todas essas coisas eu me pergunto porquê não houve um diazinho que fosse que eu te dissesse em as palavras de verdade "eu gosto muito de você" ou "você é muito importante pra mim". Ou mesmo que não tivesse dito nada, tivesse demonstrado em forma de qualquer-coisa-mais do que meus olhares sempre baixos, desviantes, tímidos e principalmente, disfarçados. Você tentava falar de amor e eu fingia que amor era jogo de outra pessoa, de você-com-outra-pessoa. No fim era mesmo, e pra mim, ah, pra mim, amor é jogo meu com as palavras. Eu desisti de viver e hoje só invento histórias. Essa minha vontade de te dizer que "tudo poderia ter sido tão diferente, garoto, tudo poderia ter sido tão doce" não passa de fantasia, porque eu tenho todo um mundo de coisas minhas, de coisas suas que não aconteceram. E aqui, mon'ami, tudo é terrivelmente possível. Seria absolutamente possível que eu te ligasse e de dissesse "eu ainda te amo" e então você me responderia "que apesar de tudo eu ainda também te amo" e então nos amaríamos em belas tardes com sucos, almoços simples, almoços requentados, tardes de domingo no sofá, qualquer coisa dessas assim, rotina, corriqueira, bonita-nos-pequenos-gestos.

Mas não é assim, hoje eu penso em você que talvez nem exista no corpo físico do jeito que eu te imagino ser, só existe aqui na minha literatura. Porque enquanto eu penso que "tudo-poderia-ser-diferente" "tudo-poderia-ser-tão-doce" você cuida da sua vida, real, em qualquer lugar onde eu não pertenço nem em pensamento, toma um guaraná, e pensa no teu trabalho, na sua vida, na sua namorada, em qualquer-coisa-que-seja. E pra mim tudo bem, é que eu matei a minha vida. Transformei em literatura. Escrevo sua vida pra você, do jeito que eu-queria-que-fosse e você não me entende e C'est la vie, mon'ami.

28.9.10

Quero ser Fernanda Takai.

Hoje quis ser Fernanda Takai. Não me entendam mal, eu não queria assim, ser a Fernanda e habitar a vida dela no tempo e no espaço. Nem ser casada com o John, e nem ter dois filhos. Pelo menos não aqueles dois filhos e nem aquele marido. É porque eu quero ter os meus. Mas quis ser minha própria Fernanda Takai enquanto ouvia o música de Brinquedo. Música de Brinquedo é um projeto do Pato Fu em que eles fazem som com brinquedos. E apesar de ser interessantíssimo, não era essa parte de Fernanda Takai que eu queria ter. Os filhos dela cantam com ela essas músicas. E os filhos dela são filhos dela com o guitarrista da banda dela. Entendem? Não, eu não queria ser vocalista de uma banda ou nem mesmo namorar e casar com o guitarrista da minha banda. E nem ao menos ter meus filhos cantando comigo algumas músicas. Eu não queria isso exatamente, mas queria isso também. E o meu ser fernanda é meio confuso de explicar. Mas eu preciso dizer que de algum jeito eu quero ser assim, Fernanda Takai. É que pensei em ter filhos e depois disso pensei em ter uma família e quis por um momento que meus filhos fossem repletos de arte. Não que eu quisesse que eles cantassem ou qualquer coisa assim. A grande verdade é que eu descobri que só se pode amar aquilo que se admira. E daí descobri que quero enxergar nos meus filhos qualidades diferentes das minhas. Amor deve ser isso. No meio de tudo, uma estranha vontade inconsciente de reproduzir no mundo um pedaço de tudo aquilo que você ama e admira. É nisso que eu pensei, qualidades diferentes das minhas. É claro que eu quero que os meus filhos me admirem. Mas quero que admirem também o outro lado, o pai. Junto comigo. Que aprendam a ver tudo aquilo que eu um dia enxerguei de lindo na pessoa com quem resolvi dividir a vida. E enxergar nas novas vidas tudo aquilo que eu um dia enxerguei de bonito.

Eu sempre escrevi. Assim, a vida toda. Às vezes acho que nasci escrevendo. Ou lendo. A palavra sempre me foi essencial. Se eu me comunico, é porque existe a palavra. A escrita. Não a falada ou a imagem. Porque só sei ser de verdade enquanto escrevo. Só sei me expressar assim. Então é natural que admire com todas as forças todas aquelas pessoas que se entendem bem com as palavras. Tenho vontade de roubar todo o talento do mundo da escrita pra mim, e só pra mim. Admiro quem escreve de um jeito que se pudesse, comeria-os e jogaria de volta no mundo sem talento algum. Quero pra mim a facilidade da expressão. Quero que seja meu. Foi assim que eu descobri que tenho dificuldade de me relacionar com quem, assim como eu, se expressa pela palavra escrita. Pois se achar demasiadamente bom terei vontade de comê-lo e jogar de volta no mundo sem talento algum. Vira assim, competição. E mais do que admiração, tenho com essas pessoas uma estranha sensação de inferioridade. Porque posso, mas posso menos que elas. E por isso as admiro. As admito invejosamente. E por isso elas devem ficar guardadas na estante. Por outro lado, também tenho uma dificuldade imensa de amar em alguém o outro extremo. Alguém em quem eu não enxergue nada em que a pessoa não seja melhor do que eu. Não por prepotência. É que falta admiração. E os puristas que me desculpem, mas sem ter o que admirar, morre o amor. Então cheguei a conclusão que preciso amar aquilo que admiro, mas que nunca vou poder ter. Poderia facilmente amar alguém que desenha muito bem, pois sei que não tenho nenhum talento pra fazer uma linha reta que seja. Não sei dar vida a imagens. Poderia amar também alguém que pintasse. Ou que fizesse filmes. Poderia amar alguém que tivesse um enorme talento para a composição de músicas, coisa que eu nunca soube fazer. Por um simples fato: preciso admirar o que existe no outro, sem querer ter para mim. Admirar como quem diz: sou incapaz, embeleze você o mundo. Pois então digo, egoistamente, seria incapaz de amar alguém que fosse mais capaz do que eu do que escrever um livro inteiro. Quero pra mim alguém que não tenha a facilidade da escrita, porque a grande verdade é que preciso ser admirada por isso. Querem saber? Quero um complemento, não uma adição. Entendem a diferença?

E então vocês me perguntam, e os filhos? E eu respondo. É que descobri que quero filhos que cresçam no meio de uma família cheia de admiração. Quero admirar aquilo que me fez escolher meu marido, e quero ser admirada. Não exatamente e somente pelos talentos básicos. Mas quero olhar para pessoa que escolhi e querer morrer, de tanta admiração. E querer que ele cresça, e viva e seja cada vez melhor. E que tudo aquilo se multiplique. E que seja assim também comigo. E que seja assim também com os meus filhos. Que um dia eu olhe pra eles e consiga ao mesmo tempo que enxergo tudo aquilo que gosto e que não gosto em mim, enxergar tudo aquilo que admiro na pessoa com quem escolhi tê-los e educá-los. Quero que enquanto eu os ensine a ler, o pai ensine os filmes e as músicas. Enquanto eu mostro a palavra, a outra pessoa mostre as imagens, ou o som, ou a outra forma de escrita. E não é egoísmo, não. É que eu só sei admirar nos outros aquilo que não tenho. Porque quando admiro o que tenho, é como se tivesse admirando a mim mesma. É que quero, um dia poder dizer no meio de uma dúvida "eu não entendo nada disso, pergunta pro seu pai" e também quero ouvir "eu não entendo nada disso, pergunta pra sua mãe". É que quero viver assim, nesse ambiente de amor e admiração mútua que criam filhos que cantam e escrevem, que desenham e cantam ou que não fazem nenhum dos dois e frustram os pais por dois minutos. É que quero enxergar na nova vida tudo aquilo que amo e admiro. E não só as artes. Quero ver naquela nove criatura o tamanho do sorriso que eu amava, ou o jeito de mudar a sobrancelha que me irrita, ou a mania de beber água logo depois de acordar. Qualquer coisa assim que me remeta ao amor. Aquilo que amo. Aquilo que admiro. Porque sei que é obrigação de todo ser que vive continuar perpetuando no mundo tudo que há de bom. E é por isso que eu um dia quero escrever livros. E é por isso que eu um dia eu quero ter filhos. E é por isso que hoje quis ser fernanda takai. Porque imaginei meus filhos com alguém que ainda não sei cantando comigo e com ele, e imaginei enxergar neles tudo aquilo que eu amo, e fui feliz por três passos.

20.9.10

Cigarros, abraços e um pouco de sonho.

Na hora em que você me viu, depois de meses, talvez um ano inteiro, eu estava acendendo um cigarro. Marlboro vermelho, ou um lucky strike azul. Podia ser qualquer um desses. Nenhum daqueles que você aprendeu a fumar. Não aquelas merdas. Aquelas merdas encaixotadas vindas do paraguai cheias de nicotina b. Quando eu resolvi que ia fumar eu tinha que ter alguma dignidade. Aquela que você me roubou. Tinha que enfiar pra dentro dos meus pulmões alguma coisa melhor do que isso que você tem colocado na boca. Eu estou falando de tudo. Das coisas que eu sei e do que eu não sei. De uns tempos pra cá, por mais que eu te amasse, você exalava merda. Por todos os lados. Aquele cheiro de sujeira com burrice, porque burrice fede. E o cheiro vinha de você, não vinha de nenhum lugar. Não vinha do cigarro barato, das suas roupas ou das pessoas com quem você andava. Vinha de você. Você cheirava merda. Foi quando você me viu.

Eu, no meio daquela gente toda que não cheirava nada acendi um cigarro azul ou vermelho. Não lembro se tinha filtro. Não lembro que cor. Mas acendi. Fumaça entrando e saindo por todos os lugares. Pela garganta, pelo nariz. Por onde desse. Eu sempre fumei pra colocar ar dentro de mim. E não importa se era ar carbonizado, com mais de mil substâncias tóxicas. Que se foda isso. Faltava ar dentro de mim, muito ar, todo ar do mundo. Desde que você partiu. E quando você voltou lá estava eu colocando ar dentro de mim de algum jeito. Mas quando eu te vi acho que nem fumar mais eu sabia. E você ficou tão paralisado, tão me mostrando que aquilo não combinava comigo. E eu pensava que aquela merda também não combinava com você, porra. Claro que não. Principalmente aquela nicotina sem nome que cheirava a merda. E apaguei o cigarro, mesmo precisando de todo ar quente do mundo.

Você, a mesma calça jeans, a mesma camiseta e o mesmo tênis. Me olhando. Como se eu fosse um ET. Eu fumo também agora, caramba. E eu uso essas roupas cheias de "informação de moda". Eu também não sei porque. Eu também não sei porque você me idealizou tanto assim. Eu nunca soube porque você achava que eu era tanto assim pra você. Eu nunca fui. Eu sempre fui uma bosta de uma menina manipuladora, chata e até arrogante. Eu sempre fui menos inteligente que você. Agora eu nem quero saber o quão menos inteligente que você eu sou. Também não sei o quanto você embrurreceu. Vai ver agora a gente está do mesmo jeito. Burros e estúpidos. E fumando cigarros. Os meus caros, os seus baratos, mas com o mesmo câncer. Vai ver é isso, estamos adoecendo. Vai ver já estávamos doentes a muito tempo e não tínhamos nos dado conta. Faltam os livros, os filmes, os discos e as noites regadas a vinho e filme francês. Ou italiano. Longas discussões sobre filosofias que eu não entendia. Eu nem me lembro mais quando foi que isso se perdeu. Mas se perdeu. Que nem fumaça de cigarro. Só fica o cheiro.

O fato é que você me viu e ficou me olhando, como se pensasse que eu enfiava aquela fumaça tóxica dentro de mim por sua causa. E era mesmo. E eu quis te dizer: se eu tiver câncer, é culpa sua. Se eu morrer, sabe. E se você morrer, é culpa sua. Que não me ouviu. Culpa sua. Toda essa merda, culpa sua. Mas não disse nada, apaguei o cigarro, fiz cara de blasé e esperei que você me ignorasse. E você não ignorou. Eu sentei do seu lado, você me perguntou se eu fumava agora eu eu pensei "fumo sim, quero morrer de câncer, por sua causa". Mas não. Só sorri e disse que fumava as vezes, mas que tava tentando parar, que essa merda dá câncer na gente. Você concordou, disse que dava mesmo e que tinha parado também, que na verdade nunca gostou disso de fumar. O gosto, a fumaça, sei lá. Ai eu pensei em te dizer que todo mundo sabe porque você fumava, que era porque você tinha ficado burro que agora fedia merda. Mas também não disse, disse que ainda bem que você tinha se tocado, que isso não combinava nada com você e tudo mais. Essas coisas que eu digo pra você porque não tenho coragem nenhuma e quando eu vi eu já estava conversando com você do jeito que sempre fiz, cheio de risos e soquinhos, e você me respondia como se a gente se falasse todo dia, sei lá, e você nem fedia merda mais. Eu não sabia o que estava acontecendo e queria desesperadamente perguntar cadê, onde está a sua namorada, aquela merda toda de antes da gente se sumir assim, mas não tinha coragem porque ela bem que podia existir ainda, quer dizer, nada impede da gente se tratar cordialmente e termos namorados. Eu ficava pensando que dez minutos depois viria o momento em que você se daria por si e ia perceber que você estava me tratando bem demais só que você tinha alguém te esperando em casa, e daí não podia. Você já tinha feito isso algumas vezes e depois ficava eu e meus cigarros vermelhos, meus cigarros azuis, meus cigarros com gosto de menta botando pra dentro todo ar que você tinha mais ume vez levado com você. E ficava o cheiro de merda brotando.

Mas dessa vez eu não queria mais, nenhuma noite mais cheia de cigarros variados, aquela fumaça toda, cerveja, não sei. Não queria mais perder o ar. Eu já tinha acostumado a viver com o tanto de ar que me foi dado. Aí esperei você sentar, sorrir, me olhar do jeito que eu já conhecia e perguntei logo de uma vez. Cadê sua namorada? E quase que não coube dentro da minha camisa xadrez, achei que ia sumir ali dentro enquanto você abaixava e sorria de novo, dessa vez desajeitado, e aí eu já sabia que ela ainda existia e ok, mais um erro, mais uma noite mais cigarros, quem sabe um maço deles e aí sim, pelo amor de qualquer coisa eu ia te largar pra sempre porque não é possível viver assim, colocando ar pra dentro o tempo todo. E com a falta dele mais ainda. E já estava quase me levantando, tentando esquecer o frio dentro da minha camisa xadrez e foi quando você disse:

- Eu não sei.

Ai eu pensei meu deus, você só pode estar brincando porque como assim não sabe, claro que você sabe. Aí eu queria logo de uma vez dizer pra você parar com isso porque eu não agüentava mais essa sua indecisão, ia ser pra sempre assim? fala logo então, diz que existe alguma coisa, ou para de falar comigo pra sempre e cospe na minha cara, qualquer coisa, qualquer coisa, mas não tira mais meu ar. Eu queria te dizer qualquer coisa assim mas só respondi de qualquer jeito
- Como assim não sabe?
- Não sei. Além do mais, namorada mesmo eu nunca tive. Não essa que você está se referindo.

Eu só te olhava.

- Tem ou não tem?
- Não tenho. Acho que não tenho. Não quero ter mais.
- Não?
- Cansei. Tava cansado. Vim pra cá, no meio dessa gente toda pra ver se descobria alguma coisa, se colocava alguma coisa dentro da minha cabeça. Tem me faltado tanto ar, você sabe como é isso? Daí te vi, e eu nem ia conversar com você, porque não agüento mais te magoar. Eu só faço isso. Eu sei que eu faço isso. Aí eu te vi fumando e eu sabia que era por minha causa. Aí fiquei pensando, minha nossa, o que eu fiz com essa menina? Você parecia tão diferente e daí eu precisava saber se era verdade mesmo. Essa sua diferença toda. Você ali, no meio daquela gente. Você não é assim, e aí eu quis te tirar dali, mas eu não tenho coragem de fazer mais nada com você, daí só puxei o assunto e apesar das roupas, do cigarro, desse seu cabelo e tal, você continua igualzinha. Sério, igualzinha. E eu acho que eu descobri, eu não quero aquilo mais.

Você ficou ali daquele jeito envergonhado, triste e sorrindo de nervoso. Com aquele sorriso mais lindo do mundo. Aquele que eu conhecia e aí eu não soube nem te falar qualquer coisa que fosse e nem fazer qualquer coisa que fosse e só te abracei, e só isso já foi um passo enorme, mas daí você pegou na minha mão e disse obrigada, obrigada por tudo isso que você fez por mim, e eu te juro que eu quase chorei. Aï você me perguntou se eu queria dar uma volta, sair dali e eu disse que claro, e quase ensaiei dizer que com você eu ia pra qualquer lugar que fosse, mas fiquei quieta, e só aceitei o convite e fomos então andar na rua, sei lá se era rua aquilo, ou um parque, eu sei que tinha um banco há uns metros dali e dava pra ver e aí você me disse se eu queria ir até lá e fomos, e fazia frio, e você de repente parou e me olhou e me abraçou. E era tão forte o abraço que eu pensei que meu deus, eu não queria sair de lá nunca mais, e eu sei lá por quanto tempo a gente se abraçou, eu sei que foi muito tempo. Ou nem foi. Mas parecia, era assim a eternidade. As camisetas xadrez se encontravam e formavam uma pessoa só, mas é claro que eu não pensei isso, é que vendo tudo isso agora eu penso que aquele foi o dia em que as camisetas xadrez iam formar uma pessoa só, naquela hora eu só pensei: "esse abraço é o meu abraço" e poderia ficar ali pra todo o sempre, mas a gente andou, se abraçou mais uma vez e chegou no banco, que foi quando eu descobri que seu peito era o meu peito e começamos a falar bobagens porque não cabia mais nada além de bobagens naquele sentimento tão grande.

- Me diz, desde quando você usa essas roupas?
- Desde sem-pre
- A blusa xadrez tá uma graça mesmo, mas essa calça não combina nada com você.
- Também acho, muito agarrada.
- Não por isso, você é magrinha. Mas não combina.
- Eu acho, muito agarrada. Tô usando essa blusa de menino pra cobrir a bunda.
- Hahahahaa, não disse? Igualzinha.- Pelo menos a minha calça é de vinil, ó, super chic. Não é couro barato, daqueles que ficam sobrando atrás da batata da perna, sabe como? paguei caro nessa merda.
- Tá bonita. Não combina com você, mas de muito bom gosto.
- Obrigada. Espero que agora você saiba o que é isso, boooom gooostooo!

E voce riu, e me abraçou como se fosse a última pessoa do mundo. Depois riu mais uma vez das minhas calças de vinil, falando que aquelas calças tinham bocas muito estreitas, olha aqui, olha isso, como você entra nessas coisas hein menina? daí eu disse que simples, porque sou magríssima, e assim, meio modelo. Aí você comentou que eu estava me achando demais e eu disse que não, que eu só estava feliz e no meio daquela felicidade não sabia falar de quase nada, daí tinha que falar das minhas calças, e além do mais faz um frio nesse lugar que a gente tem que ficar conversando. Aí você disse que não, que então a gente podia ir embora, além do mais estava tarde, vai que roubam a sua calça de vinil e aí você disse que eu podia entrar dentro da sua jaqueta e eu perguntei como fazia isso, e você disse que era simples, era assim ó, e abriu a sua jaqueta e me abraçou por trás e disse pra mim que agora a gente ia demorar três vezes mais pra chegar em casa (na minha ou na sua?) mas pelo menos não ia sentir frio. E eu disse que aquele momento merecia uma foto, a gente andando assim, tão desajeitado e disse que até tinha uma câmera na bolsa, será que sai a foto, e você disse que mesmo que mais ou menos ia sair e a gente ia saber que aquele foi o dia em que a gente de camisas xadrez e calças horrorosas passou uma das melhores noites da nossa vida e eu disse que poxa, vão ter mais e você disse que claro que ia ter mais muitos mais, mas aquele era o primeiro. Pelo menos assim, de nós dois. E nisso passa uma menina na rua e a gente pergunta se ela quer tirar a foto, mesmo sabendo que ela podia sumir por aí com a minha câmera, pra sempre e ela diz que tira sim e quase me derrubando com o seu desajeito e com o sorriso maior do mundo, seu e meu você disse.

- Tira essa foto agora que a minha menina tá linda aqui dentro de mim.

E eu soube, aquele homem era o meu homem. E eu, a menina dele. E tinha tanto ar e tanto amor dentro de mim que eu não respirava. De tanto. Mas pela primeira vez, era bom.




Aquele abraço, era o meu abraço.

3.9.10

Você só tem tralha nesse seu coração.

Fazia muitos dias desde o dia em que ele se foi e ela só conseguia pensar "meu deus vocês são todos burros, tão indiscriminadamente burros, e desinteressantes, meu deus como são desinteressantes vocês…" e era isso que pensava na janela do quinto andar que dava para uma rua qualquer em São Paulo, Capital, cidade de ares vazios desde. Hoje, sexta feira, não havia bar ou companhia que a tirasse do pensamento isso "vocês são burros e desinteressantes, meu deus como são burros vocês…" e então lhe fazia companhia uma garrafa de cerveja alemã e nenhuma dignidade. Cerveja gelada, no bico, a janela e as meias sujas por vício vestindo os pés mas sem esquentar o coração - esse frio e desinteressantíssimo. E pensava então entre carros e luzes e aquele ar pesado de poluição que ele havia partido "ontem-mesmo" e depois repensava e relembrava que o ontem-mesmo já estava quase completando três anos inteiros e quem tinha ido embora na verdade tinha sido ela. Ela que havia deixado a cidade um dia com uma mala mais ou menos grande, cheia de roupas e sapatos e quase nenhum sonho. Deixou-o ali com o pensamento que percorreu cada pedacinho de linha amarela que formava o caminho até São paulo: "que seja feliz, por deus, que seja muito feliz você". Só pensava, pois foi embora sem se despedir, sem deixar endereço e fez questão de mudar todas as formas de comunicação possíveis, deixando apenas o velho e-mail e o telefone intactos, "pra quem sabe um dia". Pensava que um dia ele poderia lembrar dela no meio daquele monte de coisas que ela decidiu por bem nunca pegar de volta, e quem sabe comunicar-se e achou também muita pobreza de espírito sumir assim de vez e obrigá-lo a fazer uma imensa saga rumo a achar onde estava ela perdida, justo ela, que nunca quis se perder dele - pelo menos não assim, completamente.

E sabe-se lá porque, mas três semanas depois de terminar o último namoro deu de achar todo mundo burro e desinteressantíssimo, foi logo num dia que chegou cansada de viver e ligou pra um desses amigos ocasionais e tentou contar-lhe os problemas, mas ele ouvia a ela como quem ouvia a qualquer pessoa, e fez muito esforço em tentar ajudar - mas de jeito errado. Não que ela estivesse julgando o fato dele ter tentado ajudar, mas foi o "jeito-errado" que naquele dia lhe pesou como duas bigornas nos ombros. Se tivesse ligado pra "ele", "ele" provavelmente não faria nada de diferente, e pior ainda, nem ia fazer esforço em ajudar, mas ela ia sentir pelas linhas de fibras óticas de cabos de telefone que ele sentia um pouco da dor dela, e se compadecia. Então tentaria pegar-lhe na mão com medo de quebrar e ia ficar observando como quem observa um objeto estranho e raríssimo, e sem saber o que fazer não faria nada, mas ela se sentiria confortada pelo resto do tempo que sobrasse. Não sabia também ela porque deu de pensar nele depois de tanto tempo, de quere-lo depois de tanto tempo e de achar todo mundo desinteressante assim depois de tanto tempo. São Paulo tem tanta gente mais legal, mais interessante e até mais bonita que ele. Mais descolada, mais cheia de atitude e com tênis menos bregas. Gosto musicais menos fúteis, com uma noção melhor de valores e principalmente, menos influenciável.

Pensava nele e imaginava como deveria estar e até pensou "deve estar burro e desinteressantíssimo, como todos os outros que eu conheço". "Deve estar pensando em casar, juntar dinheiro pra comprar um carro popular, ou uma moto, nossa, ele tem tanta cara de quem compraria uma moto e carregando outra menina burra e desinteressantíssima pelo braço com o orgulho maior do mundo. É isso que ele deve estar fazendo agora. E planos, e mais planos e depois mais planos e tudo isso sendo nada bem sucedido, naquela cidadezinha onde todo mundo morre sem dinheiro a não ser que tenha nascido com ele. Se é que ele ainda mora naquela cidadezinha, mas deve morar." "Ah, deve morar" Foi isso que ela pensou e quase pensou de novo em ligar o computador e escarafunchar a vida dele, tentando descobrir cada pedacinho de vida que ele tinha agora, mas desistiu. Preferiu terminar a cerveja no copo de plástico sem nenhuma dignidade, ler alguma coisa e sonhar com ele procurando meio mundo atrás dela, tentando achar na agenda o telefone novo do celular dela que ele deve ter anotado em algum lugar e perdido. "Do jeito que ele perde as coisas, já deve até ter me perdido lá dentro dele. Acho que nem me acha mais", foi o que ela pensou, meio bêbada meio sóbria e achando a constatação completamente triste. "Ninguém se perde assim tão fácil dentro de alguém, e ele, poxa, ele não é tão imenso assim. Ele era até bem pequenino. Acho que eu era a maior coisa que ele guardava dentro dele. Só que ele não sabia, vai que ele nunca descobre o meu tamanho e não me acha mais, no meio das tralhas. Daquelas tralhas no coração dele." Foi nessa hora que ela pegou um pedacinho de papel e como quem escreve um bilhete endereçado a ele escreveu com letras enormes "CARA, VOCÊ GUARDA MUITA TRALHA NESSE SEU CORAÇÃO". E ficou olhando um tempo, pensando como ia ser engraçado se um dia ele lesse aquilo. "Muita-tralha-nesse-seu-coração, genial". "Mas guarda mesmo, só tralha tem naquele coração, eu devia chegar lá e dizer pra ele. TRALHA. é isso que você juntou nesses anos, UM MONTE DE TRALHA" . E ria toda vez que pensava nele ouvindo isso, nela falando de tralha. Pensava nele ficando um pouco mal, lembrando das tralhas e sentindo um pouco de vergonha de toda tralha que ele guardou ao longo dos anos, não agüentando nem olhar pra cara dela de tanta vergonha da tralha, daí ela diria "Não importa, sempre dá pra limpar, ou reciclar a tralha, você quer cerveja?" e aí ele aceitaria e bebericariam e ele ia demorar mais três anos inteiros pra dizer que ele desocupou o coração dele das tralhas e que ela podia morar lá agora, que tava limpinho. Depois riu e pensou "Ah, mas ele nunca falaria uma coisa bonita dessas, no máximo ia dizer alguma coisa parecida". E achando tudo muito engraçado e lembrando das pessoas desinteressantíssimas e burras, foi dormir logo depois de gritar "NEM TRALHA VOCÊS TEM NESSES CORAÇÕES DE VOCÊS, VOCÊS SÃO VAZIOS DEMAIS, É ISSO, VAZIOS DEMAIS". E foi, e se sentindo leve dormiu com a roupa do corpo pensando em um coração cheio de tralhas pra desentulhar.

Então no outro dia acordou, sem lembrar muito bem das tralhas que tinha pensado na noite anterior, e como de costume foi checar os e-mails. Três convites pra redes sociais, porcariada do trabalho, piadas "puta merda quem ainda manda piada no e-mail" e de repente um com um assunto inusitado "espero que esse ainda seja o seu e-mail". Nem olhou destinatário nem nada, só abriu e leu. Era uma coisinha pequena, umas quatro ou cinco linhas, que leu meio sem acreditar mas dizia assim:

Oi Fernanda,

Não sei se esse é seu e-mail ainda, eu espero que seja, o MSN eu sei que mudou. Mas é que eu precisava de um favor. Eu consegui um trabalho aí em são paulo, mas eu preciso ver se dá certo antes, e eu só sei de você que mudou pra aí. Pelo menos foi o que me disseram, que você mudou pra São Paulo, virou jornalista, eu li suas colunas esses dias, mas não tinha e-mail lá. Aï mandei pra esse, será que você podia me hospedar uns dias, quer dizer, se não for incomodar nem nada, ou pelo menos me indicar um lugar barato pra eu ficar aí em São Paulo? Eu vou logo na quinta, se você ler esse e-mail me liga é esse telefone aqui, senão eu me viro, morro esfaqueado qualquer coisa assim, mas me viro.

Beijos, Leonardo.

Não se conteve dentro dela mesma e só conseguia pensar "Deve ter desentulhado muita tralha pra ter lembrado de mim" e depois sorriu "ou eu que nunca deixei de ser grande". E respondeu a ele cordialmente, sem mencionar tralhas, ou blilhetes, e sem ao menos perguntar se ele estava burro demais, ou quem sabe, desinteressantíssimo. Só sabia assim, como quem tem certeza que ele tinha desentulhado as tralhas e que não vinha encontra-la portanto nenhuma menina burra e mega desinteressante pelo braço, senão não tinha mandado e-mail nenhum, tinha é alugado um muquifo com suas últimas economias e ficado por lá, depois dia dizer "ih, não sabia que você tava morando em são paulo, senão tinha te ligado", bem típico, por medo de perder a tralha que guardava no coração. Pois passaram-se três dias e ele chegou, de taxi, bem independente como lhe era de costume, mesmo com ela tendo falado mil vezes que buscava ele na rodoviária. "Vai ver ele achou que ia ficar desconfortabilíssimo a gente no mesmo carro, ele sem saber o que falar", daí mal ela assustou e ele chegou na porta dela, com aquela mesmo mochila de dez anos atrás nas costas e uma mala pequena, quase que dizendo "vou-embora-em-cinco-dias", e ela achou foi engraçado aquele jeito de cidadezinha que ele ainda tinha porque logo que chegou ele disse "nossa, como é grande aqui, não lembrava que era tão grande" e ela só sorriu e disse "ah, mas você se acostuma, logo fica pequenininha essa cidade, e chaaaata…" e então pegou as malas dele, botou no quarto, perguntou se ele queria café, ele aceitou, nunca recusou um café na vida. E então conversaram e conversaram e depois conversaram um pouco mais e ele então resolveu perguntar "mas você jura que eu não vou atrapalhar de ficar aqui, não sei, de repente você tem um namorado" e ela então sorrindo completou "Não, há três semanas atrás ia ter problema sim, mas agora eu já desentulhei tudo, não tem mais tralha dele aqui em casa, e nem no coração" depois, lembrando da última sexta feira disse ainda "além do mais, as pessoas aqui são chatas e desinteressantíssimas, vai ser bom, sabe, ter companhia". E passaram se dias, e depois de dividirem a mesma casa, sem perceberem estavam dividindo a mesma vida, as rotinas, os cafés e as pontas do sofá. Acostumaram-se. Um dia ele foi limpar os papéis na mesa dela, e enquanto pensava "meu deus, como é desorganizada essa menina, não sei como se acha aqui no meio dessa bagunça" e nisso encontrou um papel rosa, escrito em caneta preta bem rabiscado e em letras enormes "Cara, você guarda muita tralha nesse seu coração" e riu que não se agüentava, como era de costume, e então foi correndo perguntar pra ele que maluquice era aquela de tralha e coração, e ela no meio da cumplicidade que nem percebeu que tinha se (re)instalado disse "isso daí é pra você. Escrevi uns dias antes de sequer saber que você ainda lembrava que eu existia, achei que você tinha me perdido no meio das tralhas. Era genial, eu ia dizer bem gritando assim, olha aqui, tem muita tralha nesse seu coração, garoto!"

E então ele olhou pra ela, e ela percebeu que o olhar ficou sério, e na hora que ela ia rir e dizer que "não-tem-problema-tem-sempre-como-reciclar-a-tralha-quer-uma-cerveja?" ele abaixou a cabeça e disse "é, tinha mesmo" e ficou ali, estático, sem saber o que fazer, olhando aquela coisa enorme que morava dentro dele, mas que hoje estava fora, rindo e falando de tralhas. Ela pegou uma cadeira, sentou do lado dele, encostou no ombro e disse "tudo bem vai, não eram tralhas" e ele só respondeu "ah, eram sim, eu juntei um monte de tralha nesses anos… a única coisa que…" e abaixou a cabeça e então ela não podia deixar de pensar nele falando que agora tinha desocupado tudo e que tava limpinho, e que ela podia morar lá. Mas não disse nada e só completou "a única coisa que…?" e olhando pro chão ele disse "a única coisa que não era tralha ali no meio era você, e bagunceira do jeito que você é, você sempre aparece no meio de qualquer tralha que seja, não tinha como não te ver, garota.. Espaçosa…". E riu. Riu um riso tímido de quem não sabe falar de amor, mas sabe arrumar a bagunça e deixar a mesa com bilhetes engraçadinhos. Depois disso ela abraçou ele com gosto, e num soquinho disse "agora vê se não vai lotar de tralha tudo de novo, por favor, depois você não me acha mais" e totalmente confortável no abraço imenso dela, ele só completou "não, pode deixar, eu já descobri que meu destino é desocupar as tralhas pra você não se perder mais, dentro de casa… e no meu coração". E bebendo cerveja, sete sextas feiras depois daquelas, continua achando todas as pessoas burras, e desinteressantíssimas e resmunga, "vocês são muio burros, e desinteressantes, meu deus do céu como são desinteressantes" E de repente olha pra baixo e enxerga são paulo como um depósito, cheio de tralha. E olha pra sua mesa arrumada, ele dormindo no sofá e grita "vocês não tem nem tralha nesses corações de vocês, são vazios. EU TENHO O MUNDO" e deitada do lado dele, sente a paz, a eternidade enfim. Fodam-se as tralhas.