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9.1.12

Carta para um avô ausente.



Tem sido isso, vô. Vai fazer três anos que você se foi. A vida, aqui, não ficou nem mais doce nem mais amarga - apenas continuou - com o gosto da sua ausência. Choro poucas vezes lembrando de você, porque de certa forma acho que cumprimos tudo o que tinhamos pra cumprir no tempo que nos deram, embora talvez ache que devesse ter conversado um pouco mais com você. Você não me viu dirigir, e nem veria, porque não tirei a carteira até agora. Teria ficado orgulhoso, eu sei, de me ver formada e logo depois trabalhando, mesmo que eu me queixasse de ganhar pouco. Você deve saber também que não fiz ainda nenhum curso no exterior e nem ao menos conheci outros países. Eu sei, vô, que você julgava importantíssima a educação lá fora, se vangloriava contando os feitos dos filhos dos seus conhecidos que tinham ido estudar "no exterior". Pretendo ir, eu juro. Uma pena não poder te mostrar as fotos dos lugares que vou conhecer, e nem te dizer se era muito frio ou muito quente. Você não conheceu muitas cidades, eu sei. Acho que nunca saiu do brasil. Sua relação com o mundo vinha dos livros, da tv, do discovery channel que você sempre gostou de assistir.

Sabe, vô, a vida não é fácil. Me lembro de você dizendo, já ao longo dos seus 93 ou 94 anos que chega uma hora em que viver é meio insuportável. Já deu tudo o que tinha que dar e a gente faz uma espécie de hora extra no mundo. Eu tenho vinte e dois anos e hora ou outra já tenho sentido isso. Tenho comido menos queijo (acho que nunca mais comi queijo provolone), e aprendi - o senhor veja só - a comer porcaria (carne de porco, na nossa linguagem). Como menos torresmo também. O bacon continua o de sempre. Tem coisa que a mãe não faz mais porque lembra muito de você, e daí dói. Torresmo mesmo. Fez uma vez quando os tios todos vieram aqui (temos nos reunido menos com a sua ausência), e nunca mais fez tutu de feijão. Ah, eu aprendi a comer tutu de feijão também, antes eu não gostava. Imagino que tenha começado mesmo pela sua lembrança, mesmo que inconsciente.

Todo mundo continua bem, e eu acho que não seria conveniente lhe contar dos desentendimentos familiares que já te aborreceram tanto em vida. Eles se ajeitam, do jeito que dá, a mãe continua a mais preocupada da família, você não ganhou nenhum bisneto novo e tem estado todo mundo saudável, tirando um tropeço ou outro (é que têm envelhecido, todos). Meu "velho", continua bastante teimoso, e agora velho de fato. Ainda joga futebol todo santo sábado à tarde e torce, fielmente pro são paulo. Enxerga menos, tem os passos mais curtos. Coisas da vida. Eu não estou trabalhando agora, não sei o que eu quero fazer da minha vida exatamente, e às vezes sinto uma agonia que nem as balas butter toffes que costumávamos comer juntos dão conta de acalmar. E você nem me viu crescer, né vô? Me conheceu voltando da faculdade, tendo uma ou outra aula à tarde, sem nenhum compromisso assim, inadiável. A vida adulta é muito pior, bem pior. O remédio é viver mais ou menos como o senhor vivia. Fazer piada do que dá, ser criança sempre que pode, se render a uma pinguinha de vez em quando na hora do desespero. Ou uma coca cola com pastel, se o fígado não mais aguentar por ordens médicas.

O mercado shangri-lá continua tendo ótimos produtos. No natal fizemos bacalhau, lembramos muito de você. Eu lembro de você em tudo, vô. Não assim, esse lembrar de ausência que machuca, mas é que tem tanta coisa minha que eu sei que foi sua. Meu gosto infantil por queijo e salame, meu jeito de descascar a laranja, meu gosto musical (o samba, sempre o samba). Até o meu vício por ler sempre, me informar sempre, meu tino com politica, minha tolerância. Você que lia diariamente os jornais, que assistia os noticiários de tarde e à noite, que criou filhos evangélicos, filhos católicos e filhos que se casaram com testemunhas de jeová porque sabia que a tolerância e o conhecimento eram a chave de tudo. Você, que me incentivava a estudar, que me ensinou a comer coisas boas, que me levava pra comprar caramelos nas lojas brasileiras. Você que lia a biblia diariamente e acreditava no seu Deus, do jeito que achava correto, sem nunca ter sido membro assiduo de igreja alguma. Você, homem humano, também cheio de erros, mas que teve muitos, tantos acertos e que me formou essa menina que sou agora. Você e seu humor ácido, suas piadas com coisas descabidas, o jeito debochado de se referir aos outros e o jeito leve de falar de morte. "Foi se encontrar com jisuis, ele né? não é assim que falam os crentes?" e se ria todo.

Não leio tantos livros quanto lia na infância, continuo com a mesma familiaridade com os equipamentos eletrônicos. Ouço um pouco menos de samba, porque esqueço. Por vezes lavo a louça e lembro de você cantarolando "para pedro pedro para esse pedro é uma parada". Não subo mais em árvores, não frequento mais casas com grama como a sua, não apresentei nenhum outro namorado pros meus pais desde aquele que você conheceu (e muito pouco). Acho que vou saber quando for a pessoa certa quando eu pensar que "esse garoto eu apresentaria pro meu vô", sem ter medo de você achar ele estranho, ou inadequado. Por enquanto, estamos esperando por ele. Ainda pretendo casar, embora negue isso eventualmente. Quero ter filhos, claro que quero, pra contar a eles que eles tiveram o biso mais incrível de todo mundo, pra repassar pra eles a história da raiva, e todas as suas outras histórias. Não sei se eles terão um vô tão maravilhoso como eu tive, mas eu acho que o "velho" vai fazer o que pode. A mãe também vai. Vivi vinte anos inteiros com você que me ensinou a ser gente, que foi meu referencial masculino enquanto meu pai viajava pra me sustentar. Aprendi, sorri, te li histórias, te coloquei sambas aos domingos, te levei arroz pra colocar pros passarinhos. Você cuidou de mim e mais tarde eu cuidei de você. Porque é o ciclo da vida e eu acho que o nosso, vô, foi bem fechado. Eu não poderia ter vivido vinte anos com nenhum outro avô. Queria que você fosse eterno, é claro que eu queria. Te apresentar meus namorados, te levar pra minha formatura, te ter na minha festa de casamento, te levar pra brincar com meus filhos, mas não teria como. Você se foi quando tinha que ir e o que cabe a mim é saber que você continua vivo (e muito vivo), dentro dessa pessoa que eu me tornei.

Não sei onde você está hoje, e espero que esteja no céu como o senhor acreditava que estaria. Saiba que aqui a gente sente muito a sua falta. Pelo menos eu senti hoje, enquanto ouvia essas músicas que me lembravam nossos almoços de domingo, você lembra? com gengiskan? Em que eu colocava a música do gato dos demônios da garoa e você ria todo? Ria porque você tinha o riso mais gostoso do mundo, e o terrível hábito de afugentar meus gatos todos (coitados) lhes jogando água. Era um velho com coração de criança, com um espírito de menino que não morreu nunca. E permanece. Permanece dentro de mim em tudo que você ensinou pra nós todos. Permanece vivo, em lembrança e história, e no meu jeito de me portar. Permanece vivo porque todo mundo que a gente ama, nunca morre. Eu só espero que tenha te feito feliz tanto quanto você me fez, vô. Eu te juro que fiz o meu melhor. Cuida de mim, onde quer que você esteja (se estiver), que eu continuo daqui, sentindo a sua falta nessas madrugadas de segunda feira e nas tardes de domingo, e te deixando vivo contando pra todo mundo, em forma de poesia, prosa ou narrativa que eu tive o melhor avô do mundo inteiro, ele se chamava estevo, e dentro de mim não morrerá jamais.

4.7.11

do fundo do poço.

E ela estava encolhida no cantinho do quarto, chorando baixinho, se cortando baixinho com as navalhas imaginárias que a vida deu. Essas navalhas que não são de metal nem de aço, essas navalhas que não fazem sangrar a pele - essas navalhas que perfuram o coração de uma vez só. Esse coraçãozinho machucado, menina. Esse coração estraçalhado de dor & desamor, com todo o desamor do mundo morando lá dentro. Desamor, cansaço, falta de vida. É tanta coisa que de repente vai morar no coração da gente. Desapercebidos, assim. Os longos suspiros de um surto que era ciclico. Vez ou outra ao chegar do trabalho, ao ouvir um comentário meio maldoso vinha um choro com barulho, um choro sem fim nem começo - mas que doia. De repente o mundo não era mais mundo e ela flutuava. Flutuava porque não fazia parte e não era um flutuar leve. As coisas iam de um lado pro outro, rápidas, como quem queria engoli-la. E ela corria. Corria e chorava e as lágrimas caiam sem controle nenhum. Só caiam. Uma cachoeira inteira de dor invadindo aquele rosto novo e cansado de junhos e julhos tristes e pesados. Tontura, vertigem, o mundo embaçando, o barulho fica alto. "Deus, o que você quer dizer com isso?" ela grita. Porque ficou abandonada, no meio do nada, no meio do cinza. Os carros passam, e passam as pessoas, e as luzes também passam e tudo aquilo quer engoli-la e ela num esforço terrível e meio ridículo de tentar sobreviver, de tentar respirar no meio do ar rarefeito do mundo - o ar que o mundo a impediu de respirar.

O mundo às vezes impede a gente de respirar, às vezes a gente de depara com esses lapsos de não-normalidade, pequenas alterações na linha-reta-e-constante que se faz a vida. Pequenos surtos baixinhos, no canto da sala e no meio da rua. Ela tinha surtado ali, no meio da rua, seis e meia da tarde, horário de rush. Saiu do ônibus, se deparou desrealizando, despersonificando e foi. As lágrimas caiam, a vida parecia sem sentido, o respirar era dolorido. E depois teve essa outra vez, meia noite, no quarto, no cantinho da parede se cortando de levinho com as navalhas imaginárias do coração. E tudo isso é decadência, o fundo do poço, tudo isso é falta de vida, falta, falta, falta - ausência. Todos os cafés do mundo serão tomados afim de produzir úlcera. Todas as drogas existentes serão experimentadas na esperança do alívio. Todos os cigarros serão fumados pra que saia ar (mesmo que sujo) de onde já não se respira. Morrer é um acidente do acaso, é uma curva na vida, é o fim inevitável. Toda bebida do mundo será ingerida para causar embriaguez. Zen budismo, religião, existencialismo, cabala - qualquer coisa. Uma estrada que redime e destrói ao mesmo tempo, é nisso que ela queria entrar. A cada nova desilusão um gole, a cada nova frustração um trago, a cada nova perda um calmante com wisky. A cada novo alívio, a destruição.

Todo clichê é perdoável.

Experimentar todos os corpos, todas as oportunidades, todas as pequenas ofertas da vida. Beijos sem compromisso, sexo casual e navalha no coração. As músicas que tocam ao fundo não tocam mais o coração. As pessoas ao lado são irreconhecíveis. Tudo é um misto de interesse & hedonismo. Tudo é cansaço e preguiça. E dor. Microagulhas entranhadas embaixo da pele, uma a uma, preparadas para fazer sangrar aos poucos a dor que é estar viva - e ter se perdido. Não existe estrada para a felicidade, não existe amor, não existe esperança e o fim é inevitável. Numa vida das oito às seis, ela se esconde embaixo dos seus casacos pretos e seu batom vermelho. Ela está cansada, os balões não colorem o céu e a vida não é um filme, afinal. Nem uma minisérie em apenas um capítulo. A vida - a vida dela - é uma poesia suja, marginal, sem métrica e nem rima. Poesia decadente de páginas grudadas, perdida na estante de um sebo que ninguém nunca vai entrar.

No fundo do poço só se vê o chão.

É que depois de tanta esperança falsa, de tanto amor em vão de tanta energia gasta, de tanta perda, de tanta estrada que não era - e nunca foi - caminho, o olho se cega pra luz, a saída não existe mais e a gente chafurda a cara na lama. Se a gente ficar morre, mas se for lá fora é a vida - e a vida também mata. Mas mata de cansaço, de desilusão, de desamor, de frustração, de preguiça e de descaso. E se é pra morrer, que seja em paz.

6.2.11

"O inventário do irremediável"

"Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good."

(Quatro casamentos e um funeral - Funeral Blues)

Acho injusto ter que lidar com morte. Não gosto. Não que eu ache que alguém no mundo goste. Meu texto vai ser fraco. Eu estou falando de coisas reais aqui. Eu, primeira pessoa do singular, acho injusto ter que lidar com morte. Lidei com isso poucas vezes na vida, é verdade. A morte do meu vô, aos nove anos, não me abalou muito. Minha mãe me contou sobre a morte dele - que tinha entrado em coma no dia da minha apresentação de dança e a madonna cantava frozen, terrível - e alguma coisa em mim dizia que eu tinha que chorar. Então deitei no colo dela, e não derramei uma lágrima sequer. A gente só sente a morte daquelas pessoas que vivem dentro da gente. Porque alguma parte da gente morre junto. E meu vô morava em algum bar da esquina onde ele jogava snooker. Mas não dentro de mim.

Alguns anos depois, foi a minha vó. Isso doeu. Vó Maria vivia dentro de mim desde os meus primeiros anos de idade. E entrou em depressão quando eu fiz sete, ou oito. Ela também não sabia lidar com morte e desistiu de viver assim que o neto dela morreu. Achou injusto que Deus levasse primeiro um homem alto de trinta e poucos anos, e deixasse ela - setenta e tantos, e deprimidissima, e doente. E resolveu que não queria mais viver, e não viveu. Mas antes disso ela teve tempo de me ensinar a fazer bifes com muito alho, e a comer paçocas. E me viciou em café. Eu conto essas histórias repetidas vezes. Conto que minha vó tinha um quadro azul com uma pomba branca desenhada, e uma caixinha de música com uma foto dela dentro. Conto que eu costumava checar quais as tele-senas que podiam ser trocadas para que meu vô levasse na lotérica. Conto que ela me pedia pra rezar o pai nosso, e que costumava cantar tonico e tinoco quando podia ("moreninha linda do meu bem querer é triste a saudade longe de você"). Eu gostava de arrumar os cabelos dela com creme e colocar "ramonas". "Ramonas" eram grampos, mas pra mim sempre foi o "apelido-que-a-minha-vó-deu-pros-grampos". Meu cabelo oleoso, ondulado e com o redemoinho na testa, é dela. Minha pele brilhante, também. Alguns traços de personalidade. Vó Maria viveu aqui pra sempre, mas um dia quando eu tinha 16 anos eu fui dar tchau pra ela antes de ir pro inglês, e as mãos dela estavam frias. Quando eu voltei, a cama dela estava vazia. Eu não me lembro de ter chorado tanto quanto eu chorei aquele dia. Eu ainda choro nos pontos finais das frases desses parágrafos. Saudades. Ela ainda não morreu dentro de mim.

Anos depois, meu vô preferido também de foi. Muitos anos. Eu ia fazer vinte e estava na faculdade. Meu vô viveu 95 anos, tanto tempo (e tão pouco). As lembranças são tantas que vez-ou-outra quando esbarro numa foto ainda acho que ele está vivo. Em algum lugar, debaixo do pé de limão onde a gente esticava uma toalha e deitava, ele está. Na mesma cadeira, me esperando voltar da escola, depois da faculdade, pra irmos almoçar. Eu não posso medir quantos pedaços de mim foram embora o dia que meu vô se foi. Mas foram muitos. Eu chorei o choro mais sincero da minha vida quando vi que meu vô não era mais vivo, assim, entre nós. Parecia mentira. Parece, ainda. Um homem tão vivo que não podia morrer. Um homem tão vivo que não morreu. Tanta lembrança, tanto ensinamento, tanta piada. Vinte anos inteiros tendo o melhor vô do mundo. O resto da vida vivendo com o melhor vô do mundo dentro do coração.

As pessoas morrem, mas não se vão. Partes entranhadas delas ficam em todo lugar. A gente não quer que elas se vão então a gente vai deixando elas em pedaços. No coração, nas fotos, nos objetos, nas histórias. Hoje me veio de novo o fantasma da morte. Não comigo. Minha amiga me deixou um recado dizendo que a tia dela não tem mais cura. Vai morrer. Hoje é viva, mas amanhã pode não estar mais. Os dias de fazendo devagar, a iminência daquilo que hoje é, e amanhã pode não ser mais nada. Não soube o que dizer. Acho injusto ter que lidar com morte. Não há o que se fazer. Quem nunca lidou com isso poderia dizer que ela devia abstrair, tomar um porre, sair, distrair quem sabe. Mas o peso da eternidade com certeza mora hoje dentro dela. A eternidade e o imediato. Você não compreende o paradoxo enquanto não lida com ele. A morte ali, imediata, a espera eterna e ao mesmo tempo rápida. A ausência eterna. Porque é isso que a morte é. Uma ausência eterna. Uma saudade eterna. Não cura. Quando a pessoa que se vai era um pedaço da gente, não cura. Lateja nos dias de sol, nos dias de chuva. Fisga com uma música, com uma pessoa parecida com ela que anda na rua. Fisga em textos como esse, a cada vírgula de lembrança. A tia da minha amiga vai morrer. Não se sabe a hora exata, e nem se vai fazer sol ou chuva. Mas ela sabe que vai. Um pedaço da minha amiga vai morrer junto com ela, e eu queria poder fazer alguma coisa. Eu sei que eu não posso. Ela também não pode fazer nada para que a tia dela continue aqui. A morte é uma impotência eterna.

Não há nada a se fazer a não ser continuar. Eu sei que o máximo que eu posso fazer por ela é um olhar condescendente, um abraço. Eu vou ser piegas, vou dizer que a tia dela não vai morrer dentro dela (e não vai mesmo), que vai existir sempre uma lembrança, um pedaço. E existe mesmo. Uma espécie de ferida aberta, terrível, que sangra de quanto-em-vez. O pedaço da pessoa que morava a gente e arrancam. Mas que continua vivo. Buraco pulsante dentro do coração. Saudade. Ausência. Falta. Com peso de eternidade. Às vezes as lembranças fazem sorrir. Às vezes fazem chorar baixinho debaixo do cobertor. Às vezes aparece uma saudade imensa em que você quer contar pra pessoa tudo que está acontecendo na sua vida - ela não está vendo. "Vô, eu me formei". "Vô, eu ainda não sei dirigir, acredita?", "Vô, eles vendem cada vez menos daquelas balas de caramelo que você gostava tanto no mercado", "Vô, eu não sei se eu vou casar, mas eu queria tanto te dar bisnetos". Mas as pessoas não vivem pra sempre. Elas nascem, crescem, deixam pedaços delas em outras pessoas, e morrem. Meu avós morreram. A tia da minha amiga vai. Ela vai perder um pedaço dela e eu não tenho como juntar os cacos, nem estancar a ferida. Não existem palavras capazes de formar frases dentro da língua portuguesa - ou de qualquer outra língua - que tirem a dor que ela está sentido,e ainda vai sentir. A morte nos deixa impotentes. A morte é eterna e imediata. A dor, a ausência e a saudade que vem com ela, também. Acho injusto ter que lidar com a morte. Acho mais injusto ainda as pessoas que eu amo terem que lidar, e eu não poder fazer nada a respeito. Porque ninguém pode fazer nada a respeito da morte. É a maneira que a vida encontrou de ser cruel: inventou o inevitável.

11.3.10

a saudade é arrumar o quarto de um filho que já morreu.

É difícil te dizer essas coisas.
Mais difícil ainda porque tenho tentado repetidamente há alguns meses sem sucesso algum. Não que eu não saiba as palavras certas. Você tem que concordar comigo que de palavras eu sempre entendi. De amor nem tanto, mas sobre palavras, como colocá-las da maneira certa pra te atingir aqui ou ali eu sempre soube. Talvez saiba até hoje, mas já não tenho tanta certeza.

Existe algo, aqui dentro, que vem quebrado repetidamente. Todos os dias quebra mais um pouquinho. Não sei se você entende sobre coisas que quebram. Eu sempre fui a quebrada das coisas. Você sabe, bem por detrás do meu sorriso bonito sempre teve alguma coisa quebrada. Dor, ou qualquer coisa assim. Aquela coisa que você olhava ou ouvia e depois me dizia que não sabia como agir quando eu lhe dizia essas coisas. Eu sempre achei bonito. Bonito esse seu não-saber-mas-querer. Eram momentos assim que me faziam querer te guardar em caixinhas. Daquelas pequeninas, ali na estante. Sentimento. Dos bons.

Eu tenho repetido rotas. Rotas que repito todos os dias, repetidamente. Comigo, com outras dez pessoas, com uma só, só que outra. Partes do meu cotidiano assim, imagens daquelas tão corriqueiras que se nos pedirem os detalhes a gente nem lembra. Faz um tempo que em todas as minhas rotas lembro de você. E não importa quantas vezes eu tenha passado lá com outras pessoas e nem quantas vezes ou quanto tempo faz desde que o trajeto não é feito com os seus pés de tênis sujos do lado do meu, mas tudo grita: vo-cê. Em detalhes.

A esquina em que um dia deixei você ir e fiquei te esperando, sentada, vendo o sorriso bonito. O caminho que devo ter feito dez, vinte, sessenta e sete vezes desde a única vez que o fiz com você, mas lembro é de ti, em detalhes. Me lembro do dia que te esperei e te vi. Me lembro do único dia que me esperastes, nervoso. Me lembro dos teus pés do lado dos meus, silenciosos quase e eu gritando nervos, falando demais, como sempre-sempre. Me lembro de primeiras vezes, de únicas, de rotinas esquecidas aqui e ali. Me lembro de você. Do cheiro e do sorriso. Do jeito de rir, dos dentes errados, do desajeitamento, da altura exata e até das vezes que eu deveria ter prestado mais atenção eu me lembro.

Tenho me lembrado, que nem doença, de você.
Me lembrado como se lembra das pessoas que morreram. O não as ter nos faz lembrar delas em trajetos e rotas e rotinas. Faz lembrar do que um dia se teve e não se vai ter mais. Por fatalidade. Um dia você acorda e te contam que aquela pessoa nunca mais fará parte da sua vida. Nunca mais os telefonemas, as visitas, as tardes e as rotinas.
Nunca mais.
E é quando você começa a viver com lembranças. Me lembro do dia que. Daquele outro dia que. Da camiseta verde. Da camiseta azul marinho. Da bolsa. Da carteira. Lembranças. Lembranças que qualquer dia somem e só sobra a essência. O cheiro de morte, tudo que deveria ainda ser e não é mais.

O que eu quero dizer, sem eufemismos ou tragédia demais, é que você morreu pra mim. Não por dentro. Ninguém morre por dentro de ninguém. As pessoas que morrem continuam tão vivas ou mais vivas que as pessoas que respiram e andam perto da gente. Mas em algum lugar, você morreu. Um dia eu acordei e te vi, morto, sem nenhuma respiração ou aspiração na minha vida. Tenho contado os dias, e os meses. Tenho vestido meu luto. Tem doído. Eu tinha resolvido não aceitar. Eu tinha vestido meu luto na frente da porta e esperado você voltar. Todos os dias eu esperava você voltar. Todos os dias a saudade aumentava um pouco. Todos os dias a dor aumentava demais. Cada pedaço de terra, de rua, de comida ou de livro me lembrava você. Eu tenho um quarto todo mobiliado com coisas suas desde que você morreu. Eu tenho esperado como a mulher que perde o marido na guerra ou a mãe que espera o filho desaparecido. Eu tenho sentido as saudades mais doídas. Todos os dias.

Mas hoje eu olhei a ausência e pensei na falta de sentido que faz conservar os mortos. O falar em cada conversa, o esperar em cada jantar, o guardar os presentes e as lembranças. E é isso que eu queria te dizer, que eu espero que você morra dentro de mim, como já morreu fora. Delicadamente, causando pouco estrago, aos poucos. Eu não espero acordar amanhã e ver você morto dentro de mim. Eu sei que eu ainda vou me recolher no meu luto algumas vezes, sei que ainda vou chorar sua partida, e mais que tudo vou desejar que você estivesse comigo, vivo e falante, com todos os trejeitos que eu conheço tão bem.

Mas por hoje, eu decidi que eu quero que você morra, e é isso que eu queria te dizer. Faz tanto tempo que você se foi e eu aqui, cultivando essa saudade, esse vazio essa vontade de. Eu não posso mais, o te ter viva em mim é que me faz morrer.




30.7.09

Minha sorte tinha nome e se chama estevo.

E sempre me perguntei porque nunca escrevi sobre a sua morte, e só posso pensar que é porque eu não me sentia totalmente confortável com a sua ausência, e admitindo mais ainda te digo que até hoje não sei te dizer como é que eu existo sem você existir. Depois penso um pouco e te digo que existe tanto de ti em mim que é como se ainda vivesses aqui. E então não há como falar sobre mortes de pessoas que nunca morrem, porque eu sei que você na verdade nunca morreu. Não dentro de mim.

Foram vinte anos de convivência bruta e quase diária. Posso me lembrar ano a ano tudo que esteves e fizesses por mim. Tudo. Lembro de ti desde que eu era muito meninota me deixando fazer festa nas lojas brasileiras - que há muito deixaram de existir - voltando feliz com um saquinho cheio de caramelos de todos os tipos. Lembro também de te contar não posso nem te dizer quantas vezes as histórias do macaco que botou a mão na cumbuca, e do pulo do gato. Lembro até hoje, vivo em mim, seu sorriso debochado ao ver a tragédia do gato. E por isso me repetia tantas vezes, gostava de te fazer rir. Sempre riu com vontade. Sempre foi tão feliz.

Me lembro também de te fazer cuidar de minhas bonecas. Me lembro de sentar no meio fio contigo e ficar ali, enquanto você me contava histórias. Eu sempre te achei a pessoa mais adimirável do universo todo não só por todas as coisas que era, mas por todas as coisas que me ensinastes. E não foram poucas. Me mimastes tanto. Tanto. E desde pequena nutri um gosto não muito comum em crianças da minha idade por salame, provolone e bacon frito. E não existe nada mais justo, porque eu tenho que concordar contigo que não existe coisa melhor nesse mundo.

Cressestes comigo. E eu digo que cresceu, porque você não envelheceu nunca. Sempre foi tão criança quanto eu. E assim comiámos balas enquanto assistiamos ao jogo do são paulo, e eu te via colocar duas balas na boca e não entendia nada, porque não havia porque ser tao esformeado assim. Mas achava graça. Sempre achei muito bonito seu jeito de ser. Lembro de você me irritando todo sábado ao chamar meu pai de velho, e na minha cumplicidade de criança com meu amado pai, o defendia dizendo que ele não era velho. Morrias de rir. Depois me acostumei e dizia quieta que ele tinha ido ao futebol, e sentava no braço da poltrona na frente do lugar do sofá que ocupavas e ali ficava um pouco vendo tv contigo.

Me lembro de domingos ao som de chorinho, e me lembro de você me pedindo para que colocasse música. De certo achava bonito, tão nova criança saber mexer em tão complicado aparelho tocador de cds, mas tenho que te dizer que na minha época a gente meio que nasce sabendo. Mas gostava e ia toda orgulhosa ali colocar o cd do demônios da garoa, cheio das nossas músicas engraçadas. E eu te digo nossas, porque sabia que gostavas muito da música do gato e a colocava várias e repetidas vezes só para te ver rindo com vontade. Seu riso é coisa que sempre vou guardar em mim, não importa quanto tempo passe. E se falo de gatos me lembro de ti espantando todos os meus gatos com pequenos potes de água, e depois ria-se todo, enquanto eu não entendia porque maldade tal com tais bichinhos. Mas depois te imitava. Sempre te imitei, porque sempre fostes meu exemplo.

E me lembro de depois de um tempo, fazer por ti o mesmo que fizestes por mim. E então eu te cuidava, e te dava remédios e prestava atenção para que não fizesses estripulias. E já não era mais você quem compravas para mim as coisas que eu gostava de comer, e sim eu que te levava as balas e salames e foi contigo que aprendi a cortar salame fininho, de faca amolada e a cortar laranjas e fazer uma 'tampinha' que depois de tanto fazeres pra mim, aprendi a fazer sozinha. E creio que foi assim, que tudo que aprendi com você hoje sei fazer sozinha. Sei ter seu bom humor nas piores situações e sei contar a sua história da raiva pra todo mundo, para que saibam que eu te tive e te guardo com carinho.

E sinceramente, eu não sei mesmo falar da sua ausência, ainda que ela se sinta toda crua e fria, porque para mim sempre existirás aqui dentro, e assim, nunca nunca morrerás, meu eterno, querido, amado e melhor avô.

28.7.09

Para os domingos que não vão mais ter cheiro de perfume velho.

Aconteceu assim, como se não tivesse acontecido e partistes, rápida como sua fala desesperada que nos acompanhava em cada reunião que insistias que fizessemos. Nunca te fui próxima, nem quando criança, de proximidade forçada. Eu existia ali e gostava, porque de certa forma meus domingos com cheiro de perfume velho com pó-de-arroz tinham lembranças muito vívidas de quartos fechados com armários cheios de bolas para que pudéssemos chutar, ou inventar qualquer nova brincadeira que fosse. Sempre gostei mesmo das companhias e da aura de estar em família que aquilo sempre proporcionou. Nunca me senti pertencida, tenho que dizer. Foram sempre pessoas muito mais extrovertidas do que eu, e eu sempre calada tímida e muito apegada à minha mãe sempre senti que de certa forma aquele não era o meu lugar.

Não me passastes vícios. Nunca me ensinou a fazer coisa alguma que hoje posso dizer que não teria aprendido, não fosse a sua mão. Guardo de domingos alguns cheiros, padarias, leites com nescau e primos que comigo conviviam como irmãos. Guardo quartos, conversas, churrascos. Sei que algumas lembranças minhas de infância não teriam existido não fossem as reuniões na sua casa. Mas não são lembranças suas. São lembranças minhas, com outras pessoas, na sua casa. Creio que não tenha acontecido porque querias. Simplesmente aconteceu. E até te digo que várias vezes imaginei outras pessoas tão melhores em seu lugar. Imaginei sim.

Imaginei porque venho de um ambiente sem cobranças e cheio de presentes. Sempre gostei da liberdade, da nao obrigação, e das lições de vida e não morais que me ensinavam em outra casa com quem tinhamos o mesmo parentesco. E então nunca me cobraram um ser meu que não era ser eu, mesmo que não concordassem. E criaram assim uma viciada em cafeína, amante dos frios e latícineos, com um bom humor inabalável e leitora assídua dos jornais matinais.

Mas tenho que dizer que de ti tenho geneticamente certos traços. Falo demais, alto demais, expansiva demais. Mas preciso criar confiança para. Sou teimosa, julgo. Tenho defeitos que sempre odiei em ti. Tenho que te dizer que várias vezes me irritastes como não se pode irritar alguem que ama. Já quis te dizer que não vives a vida dos outros e que eu nao nasci católica e nem pretendo o ser, tampouco quero comer muito ou mesmo ser batizada ou até encontrar um namorado que se pareça mais comigo. Nunca te dei o direito de me dizer o que fazer porque nunca me conhecestes. Então pouco podias saber sobre o namorado que eu precisava, ou quando eu deveria casar, ou mesmo a religião que eu deveria escolher. Nunca soube nada de mim em vinte anos mas tinhamos uma relação de parentesco.

Vou dizer que vou sim sentir falta dos meus domingos com cheiro de perfune velho, daqueles que vem em vidros trabalhadinhos. Vai existir a ausência do "deus te abençoe" dito para mim como quem tem certeza de que eu não acredito. Vou sentir falta da proximidade que achavas que tinha construído quando não construiu, e vou achar incrivelmente vazio os dias em que não me dará dores de cabeça de tanto falar rápido e muito e de coisas passadas que nada tinham a ver com o assunto. Vou sentir falta da perocupação em eu ter comido ou não e se estavam ou não sujando o meu papel, porque eu sempre estava escrevendo, quando perto de ti. Vou sentir falta até da cordialidade com o meu namorado que depois de desvairava em criticas e preocupações sobre o casamento. Sei que era só teu jeito estranho de gostar, e não te culpo.

Meus domingos não terão mais teu cheiro e tua implicância e ganharei duas horas vazias que já não mais serão preenchidas com você, vó. Que partiu com a mesma pressa que tinha para se contar, mas que deixará um silêncio imenso dentro de nós, que no fundo, mesmo que reclamássemos de seu barulho, preferíamos não estar ouvindo.

18.8.08

O retorno de saturno

- dizem que ele morreu com dois tiros na cabeça, no dia do retorno de saturno. E ele odiava astrologia.
- Eu nunca penso nisso...
- Em tiros?
- Não, em saturno.
- Eu sempre fico pensando nisso.
- Em saturno?
- Não, em tiros.
- Por quê?
- Porque eu penso em tiros?
- Não, porque você nunca pensa em saturno.
- Eu penso, às vezes. Por causa dos anéis. Acho bonito. Sabe, aquele planeta amarelo-alaranjado e os anéis... Acho muito bonito. E você?
- O que eu acho dos anéis?
- Não. Por que você nunca pensa em saturno.
- Eu penso. Quando me perguntam qual é meu planeta predileto eu respondo saturno. Talvez porque eu nunca lembre de nenhum outro planeta pra falar. Gostava de Plutão, por causa do nome: plu-tão. Me parecia qualquer coisa engraçada que fazia rir. E eu sempre preciso de coisas que façam rir. Agora Plutão foi rebaixado, não pode mais responder isso. Mas pra pensar em saturno precisa de um estímulo. Não é espontâneo como pensar em tiros. Gosto de Vênus, mas Vênus sempre me parece mais uma estrela.
- Por quê?
- Porque Vênus me parece mais uma estrela?
- Não. Por que você pensa mais facilmente em tiros.
- Porque tiros me lembram morte e quando se está vivo fatalmente se lembra de morte. Todo começo pressupõe um fim.
- Como assim?
- Como todo começo pressupõe um fim?
- Não, como você interliga tiros e morte. Você acha interessante?
- Acho.
- A morte, ou os tiros?
- Os tiros que antecedem a morte.
- Só os tiros que antecedem a morte?
- Só. Se você vive depois de um tiro é algum tipo de milagre, de descontinuação. Me interesso mais pelas coisas que seguem uma certa lógica.
- Por que isso?
- Porque eu prefiro coisas que seguem uma certa lógica?
- Não. Por que você só se interessa por tiros que antecedem a morte.
- Porque é rápido e simples. Um projétil estranho adentra o seu corpo e estoura suas veias, explode seu frágil corpo e jorra sangue por todos os lados, sem parar. Não importa se você era uma pessoa forte ou qualquer coisa. A bala perfura seus órgãos e em alguns segundos é só sangue e uma dor insuportável, um grito e o alívio. É como dormir, só que pra sempre.
- As crianças costumam dormir depois de chorarem. Talvez elas queiram sentir o alívio.
- Os depressivos dormem para esquecer a dor de estar vivo.
- Dizem que a morte é o alívio para dor de viver.
- Você acredita nisso?
- Que a morte é o alívio pra dor de viver?
- Não, que viver dói.
- às vezes. É mais ou menos como pensar em saturno. Só penso nisso quando me perguntam. Não é como pensar em morte, ou em tiros.
- por que?
- Porque eu nunca penso se viver dói?
- Não. Por que você pensa em morte e tiros.
- Não é pelo mesmo motivo que você. Eu só penso em morte e tiros porque tenho medo. Medo que aconteça comigo. Medo que um dia eu esteja andando na rua e um projétil estranho adentre as minhas víceras e depois de uma perfuração rápida e muito sangue, uma dor insuportável, um grito e o alívio.
- Todo mundo que vive tem medo de morrer.
- Você também?
- Também. Mas tenho bastante medo de estar viva.
- Tenho mais medo de levar um tiro e morrer. Por mais que seja rápido e simples. Mas e você?
- Se eu tenho medo de levar um tiro?
- Não. Se você acha que a vida dói.
- Continuamente.
- E você pensa nisso?
- Não.
- E como você sente que dói?
- Eu não sinto. Eu sei. É como uma dor crônica. Depois que dói todos os dias você esquece da dor. Mas você sabe que está doendo. É como dores crônicas nas costas, ou um casamento falido. Você se acostuma a viver com isso. Mas sabe que dói.
- E você nunca sente?
- Quase ninguém sente. Porque você acha que as pessoas estão sempre correndo o tempo todo?
- Por causa da dor?
- Pra não sentir.
- Sempre?
- Sempre. Você sente a dor quando está só você e você mesmo. Sabe, aquela hora que você acorda no meio da noite, ou o breve caminho do ponto de ônibus até em casa, quando seus pensamentos roubam seus monstros mais escondidos e colocam pra fora. É aí que dói. Não tem como evitar.
- Você faz isso?
- Se ocupar?
- Não, ficar só você e você mesma.
- Só quando eu não posso evitar.
- E se acontecer?
- Eu penso no alívio.
- Os tiros?
- Não. Dormir.

[ To be continued...
Isso ainda vira uma história total, um livro, um filme, ou o que eu inventar e me permitirem. Só a prévia. ]