7.5.12
you and I will gonna live forever.
na narrativa não linear dos sonhos tua mãe vinha te buscar e dizia que sentia muitas saudades de mim, que como raios eu tinha sumido da sua vida desse jeito enquanto você namorava outra pessoa. eu não respondia nada, e ela me abraçava porque sabia a resposta. ela não te levou de volta pra casa. te deixou comigo, disse que a gente devia ter muito o que conversar e que eu sabia cuidar bem de você. você sorria o mesmo sorriso que tinha quando eu fazia as piadas mais sem graça do mundo, e eu sorria do jeito que eu nunca mais me vi sorrir. daí a gente ia, andava na rua de mão dada e conversava sobre tudo que tinha pra conversar. era tanta coisa que eu não sabia mais de você e era tanta coisa que você não sabia mais de mim. daí já era tarde demais e a gente precisava de um taxi. um taxi pra minha casa porque a sua casa continua sendo longe demais. um taxi pra minha casa e depois você ia embora quando amanhecesse e eu fosse trabalhar, e tudo bem, minha mãe não se importaria porque ela te adora.
só que as filas do taxi eram enormes, ninguém sabe porquê. e esperávamos no fim da fila do taxi enorme enquanto você me guiava. você me perguntava se não era melhor você pegar um mototaxi pra sua casa e nos despedirmos de vez e eu te dizia que não. daí você ficava, porque no fundo você sempre fica. a gente andava pela rua e meu melhor amigo passava e eu mostrava pra ele "olha, a gente se reencontrou de novo". talvez meu jeito tolo de sentir orgulho por ser a menina que segura a sua mão, mais uma vez. e daí começava a chover na fila do taxi e você resolvia de vez que não ia mais me abandonar e tirava de dentro de qualquer lugar um guarda chuva enorme, que cabia nós dois e você me abraçava com um braço pra eu caber no guarda chuva e com o outro segurava ele. e eu te abraçava pra que você não sumisse mais de mim. e o táxi chega e você senta de novo no meu sofá e a minha mãe diz que você pode dormir ali ou onde você quiser. vocês continuam fazendo piadas sobre o meu estabanamento e a minha preguiça.
e daí de repente é outro dia e estamos tomando café já numa casa esquisita onde as pessoas não me conhecem. e depois estamos no show que tinhamos marcado de ir e você não tem como voltar pra casa. daí aparece a sua namorada e ela te puxa pelo braço dizendo "vamos amor, eu te levo". e você vai indo com ela, e eu vou ficando de novo enquanto a banda vai guardando as guitarras e os baixos, até que você volta. daí você volta e senta na mesa. a mesa que de repente é a mesa de jantar da minha ou da sua casa, e onde as nossas mães festejam nossa recente união. daí você me sorri e diz que quer ficar comigo todos os dias da sua vida. e eu acordo. a realidade é que eu sou essa moça sozinha que vai pra um churrasco em família onde você nunca mais apareceu depois daquela única aparição louvável.
e eu não sei onde estaremos daqui há dois anos. sempre te imagino casado, já que você já é meio casado até. não sei mais notícias suas. fico querendo saber mas te tirei dos meus contatos e acho que é melhor assim. eu me senti tão violentada nesses últimos tempos, você nem sabe. meu coração voltou pequeno, o sorriso agora é meio sem graça e eu acho que eu queria mesmo que você tivesse comigo nas filas enormes dos taxis que fazem naquela cidade me protegendo com o guarda chuva que você tira sei lá da onde. só que cá estou eu perdida nessa cidade de novo, me fazendo de forte mas me sentindo usada e o pior de tudo é saber que você não existe nas mesas dos bares, nem no sofá da minha casa. nem hoje, nem daqui dois anos. e então o que sobra pra mim é enfrentar as chuvas sem guarda chuva e esperar sozinha nas filas intermináveis sem ninguém pra me acompanhar até em casa. um ano inteiro sem te ver, ou mais, e a minha memória ainda guarda até os teus tiques nervosos. às vezes, desavisada, chamo isso que sobrou de amor, mas eu acho que eu te guardo como o único homem que me protegeu da vida, que me fez descansar de saber os caminhos da cidade e andava comigo na chuva. você carregava meus guarda-chuvas (sempre se molhando mais) e me dava abraços desengonçados. você me levava pelas ruas, limpava o canto da minha boca sempre sujo de molho do cachorro quente da esquina e me tirava de perto das janelas com medo que eu caísse.
antes e depois de você, eu tive que ser senhora da minha vida. e por vezes falhei, porque isso cansa e agora sou assim, um pouco apática. esse foi meu novo adjetivo: apática. você não acreditaria que eu fiquei assim depois dos traumas da vida. você que sempre me acusou de fazer tudo sozinha, o tempo todo sozinha e tirava da minha mão as cestas do mercado. não precisa tanto assim, fazer tanto assim. pode dividir também. você que me ensinou, eu não aprendi direito e na gana de querer abraçar a vida surtei, e acabei ficando apática. se eu te contar que não tomei nem decisões simples esse ano acho que você não acreditaria. mas estou bem de novo, só sinto falta, você sabe. não sei se um dia alguém vai querer me ensinar de novo a ser cuidada. daí fico sonhando com você sorrindo das minhas piadas sem graça e dizendo com as suas camisetas roxas que não combinam que queria ficar comigo pra sempre.
só que eu não acredito em pra sempre. nem em sonhos premonitórios. nem em mim, nem em você, nem na mesa com as nossas mães nem no show cover da nossa banda preferida. eu não acredito em nada. só nessa saudade louca que eu sinto de quando eu era feliz. desde que você se foi ninguém nunca mais soube enxergar além da minha histeria (que é coração machucado) e das minhas camisetas sujas de molho.
desde que você se foi nunca mais.
25.7.11
Que amava toda quadrilha.
"Te amo", é dessas expressões que nunca cogitei te dizer nem em sonho porque sempre soube que dizer "te amo" pra você deixaria de ser expressão e se tornaria um ridículo e extenso (e quem sabe nunca-antes-visto) derramar de mim mesma.
Amor é uma coisa complexa que se eu tentasse explicar me embananaria toda, salvo se estivesse munida por eu-líricos cantantes e bonitos. Gosto de ti. Porque sim.
E deveria saber que quando a gente gosta "porque sim" de uma pessoa é porque gostar já é palavra boba demais dentro do universo que envolve essa relação.
Me destruístes de tal modo que não é possível que consiga poetizar nossa quadrilha, pois coisa vira e, real que você é pra mim, só sei de você cru e nunca soube de você minha história. Sei de você cru nos meus ossos, carne e, principalmente em pensamentos que me ocorrem em tardes cinzentas.
Sempre te acharei a companhia perfeita para a casinha de sapê que nunca construiremos e de algum modo vou sempre imaginar alguma coisa ridícula.
(Ridícula do tipo, não terminar esse texto porque admitir que eu te amo quase que me embrulha de amor de tão cru que és).
and there is no modern romance.
25.1.11
Eu só queria dizer, obrigada.
Durante os anos que passamos juntos, houve calma. É claro que inevitavelmente às vezes eu perdia a paciência, e entrava em terríveis ataques de melancolia que você tentava curar me desviando do assunto. Desviar do assunto sempre culminava naquela ladainha bonita de "sua vida é tão maravilhosa, você tem tantos amigos" ou até um leve afago de evo que dizia "mas você é tão talentosa e inteligente". Eu achava meio absurdo o fato de você admirar uma pessoa tão descontrolada como eu. Talvez você admirasse justamente por eu ser o seu oposto. Você, sempre parado no mesmo exato lugar, poucos riscos, poucos amores, e eu sempre esperando da vida um "algo mais" que ela não podia dar, e me atropelando. Você costumava limpar com mertiolate meus atropelos, até que chegou um dia em que do seu lado eu finalmente encontrei a paz, o nirvana. Eu sinto muita falta de mim agora que estou sem você. É como se com você eu tivesse um ponto de equilíbrio. Mais ou menos como aquela criança que transmuta o comportamento porque não quer decepcionar os pais. Eu sempre tive muito medo de te decepcionar. Muito. Eu li tantos livros, vi tantos filmes, inventei tantas teorias, criei mil novas receitas. E estava leve, sabe? Leve. Fui sorrateiramente me livrando dessa urgência louca de querer aquilo que não existe, desistindo de aventuras de fim de semana e sonhando com uma casa, calma, futebol na tv aos domingos. Minha vida simples era boa. Você ouvia as minhas frustrações, cortava as asinhas da minha depressão ancestral e me fazia sorrir em meio a tardes comuns.
Depois que você se foi eu fui tomada por um eterno descontrole. Que existia, sempre existiu. Mas que você de certa forma curou. Hoje eu me vejo de novo esperando soluções imediatas, chorando de raiva a cada decepção. Às vezes comendo muito, às vezes tomando porres homéricos que me fazem esquecer até o meu nome. Figurinha decadente eu me tornei. Tão diferente daquela menina magra, sensata, leitora, interessada, viva. Ah, eu era tão viva na sua presença. De uma vivacidade que não precisava de nada, só existia. O sorriso fácil e solto, a calma, a espera, o futuro. Um futuro nem tão brilhante assim, simplista, amornado, mas com brigadeiro depois do almoço e café no fim da tarde. Longas conversas. Você me ouvindo reclamar e me achando extremamente critica, e me dando o antídoto de ver as coisas com mais calma, com mais amor, com mais tolerância. Você me ensinou a ser tão tolerante. Com as pessoas, com os livros, os filmes, as músicas. Até a minha família eu dei de amar de um jeito maior depois de ter te encontrado. Eu não bebia demais, não comia demais, não chorava demais. Nem rir, eu ria demais. Eu apenas era feliz. Tudo ali, na medida certa. E hoje eu sinto muita falta de mim.
Senti falta de mim ao dormir chorando, senti falta de mim ao me ver inventado amores, soluções simplistas, querendo fugir. Eu tinha me esquecido dessa pessoa que eu era antes de te encontrar e te perder. Esquecido da minha histeria, do meu descontrole, do meu choro infantil. Esquecido dos meus altos e baixos, da minha doação de mentira, dos meus porres. Esquecido da minha rebeldia sem causa, da minha procura sem encontro. Tanta procura sem encontro desde que você se foi, tanta perda. Essa perda de mim, do meu eixo. Fico esperando coisas que eu não quero ser, não foco, não me sinto capaz. Tenho entrado em malditos jogos de sedução, me machucado em carne viva, sangrando. Tenho jogado sal na minha própria ferida e desistindo de mim a cada dia achando que estou conseguindo soluções. Não estou nada bem, nada bem mesmo e o problema é muito menos não ter você do que eu imaginava. O problema é comigo, sou eu, é a minha destruição, é o meu problema, é o meu sintoma. Você foi por alguns anos a cura, o antídoto, o contrário que me fazia enxergar as coisas mais leves. E agora que você se foi, tudo pesado, negro, terrível. Decadente. Entrei em uma decadência sem fim, e eu que vivia reclamando de não te reconhecer mais talvez também não fosse reconhecida por você. Regredi. Empalhei. Tenho doído, tenho saído carregada dos lugares, tenho me olhado no espelho e me visto infeliz. Estou três anos lá atrás, antes de você, comigo que sempre fui a minha pior inimiga. Tem sido triste, minha vida tem estado uma bagunça sem fim, e por vezes me vejo insuportável. Insuportável pra mim, prós outros, o grande peso in e out. O mesmo peso que eu tinha quando te conheci e que você mesmo sem saber o que fazer com ele, disseminou, tornou leve, me transformou em criatura bonita.
Sabe, eu não espero que você volte. Não agora, não pra mim. Não te espero na minha vida, no meu sofá, nem nada. Nem amor, essa palavra, estou querendo distância de amor. Você parece mais centrado que eu, no momento e eu cansei de tentar achar que eu era a sua salvação, quando na verdade você foi a minha. Hoje eu enxergo isso, no meio dessa loucura toda que anda essa minha vida pesada, terrível, negra, sem perspectivas. Eu enxergo que não sou karma, não sou destino, não sou a irremediável bagunça que um dia me fizeram acreditar que eu era. Não sou, não preciso, não quero sair quebrando corações como se quebram copos, me machucando, abrindo feridas, tendo longos ataques de histeria, ciúme, as acusações colocadas sobre a mesa, exigindo tudo em troca de dar nada, absolutamente nada. Eu já tive cura, eu já fui tão melhor, tão mais viva, centrada, bonita, feliz, sorridente. Nas quartas feiras de noite, nos sábados à tarde, nas madrugadas em casa. Tão mais leve. E foi no meio de um desses ataques terríveis, que assustam e apavoram e sobra caco de vidro cortante pra tudo quanto é lado, pegando em tudo quanto é gente, que eu descobri que você foi como aquela pessoa que te ensina a andar de bicicleta. Primeiro ela vai te segurando, você cai, ela continua te segurando, você cai mais umas vezes. Até que ela resolve te soltar. Daí você cai, rala o joelho, ela te dá a mão e depois te solta de vez. Você cambaleia uma duas vezes, acha que vai morrer, acha que vai se machucar muito, mas consegue ir. Depois pega o jeito, não precisa de mais ninguém segurando. Vai sozinha, livre, leve. Eu te amei muito, mas hoje, acho que amo mais tudo aquilo que você deixou em mim, tudo aquilo que você me ensinou ser. Hoje acho que amo tanto-quanto aquela menina que nasceu do teu lado, que pode e consegue ser boa. Que se doa pelo outro, que se faz infeliz pra ver o outro sorrir. Me deu vontade de resgatar tudo isso. Mas você já me ensinou como faz, já me mostrou que eu posso. Agora eu sei, garoto. Eu tenho que ir sozinha. E vou.
20.6.10
Na minha coleção de pedras
Amor que nada, o que eu sinto por você ainda não tem nome.
(Transcende)
14.5.10
diálogo imaginário número do fim em reticências.
- oi.
- é legal essa música que você tá ouvindo.
- eu sei.
- eu fiz uma influência notável em você, hahaha.
- nem tão notável assim. mas a música é boa.
- para mentes evoluídas.
- é. me diz uma coisa, por que você resolveu falar comigo agora?
- eu não sei, eu acho que eu sinto sua falta.
- como?
- como assim, como?
- embora você pareça não saber, existem inúmeros jeitos de se sentir falta. e você provavelmente sente falta dessa amiga-mãe que eu costumava ser pra você.
- é só saudades.
- não é, é dependência. você podia me deixar em paz, cara.
- eu queria que a gente continuasse amigos.
- você devia ter pensado nisso antes de fazer tudo isso que você fez.
- tudo isso o que?
- tudo isso que você sempre faz. não se explicar, pedir umas desculpas sem sal, fingir que eu não existo e depois agir como se nada tivesse acontecido.
- eu só não sabia como me aproximar.
- eu sei, eu não estou te culpando.
- então você vai ser minha amiga?
- eu nunca deixei de ser sua amiga.
- por que?
- porque eu nunca fui sua amiga, apesar de ser.
- e o que isso quer dizer?
- todas as coisas que mesmo que eu explicasse em diagramas você não entenderia.
- caramba, eu não queria te magoar.
- mas magoou.
- eu te peço desculpas.
- eu já te desculpei.
- e esqueceu?
- impossível esquecer.
- como você me desculpou então?
- porque eu te conheço tanto que sei fazer um tratado justificando o porquê de você ter agido assim comigo. e o pior é que todo esse tratado faria sua ação tão tremendamente justificável que não tem como não te desculpar.
- e qual é o sentido nisso tudo?
- existe e não existe um sentido. existe todo o sentido de todo o porquê de você ter feito todas essas coisas, mas nisso tudo não existe um sentido.
- o que você acha que vai acontecer comigo?
- te dou seis meses pra você se decepcionar. três pra pensar em me pedir desculpas. e mais o resto da sua vida pra você não fazer nada a respeito.
- você realmente acha que eu errei né?
- eu tenho certeza.
- e por que?
- porque eu te conheço.
- e o que vai acontecer?
- não sei, eu só sei que um dia você vai voltar a ser triste.
- por que?
- porque toda essa felicidade é pela metade e por mais que você tente justificar que toda a felicidade nunca é perfeita, todo mundo sabe que não é assim.
- eu não sei o que te dizer quando você me diz essas coisas.
- você nunca soube. mas eu sei o que você diria. diria pra eu te esquecer, que você está em outra agora e que você está feliz e embora eu esteja apegada a uma imagem, a imagem que existe na verdade é essa e tem aquela palavra que você gosta muito que se chama "desapego" que você ia usar também e com ela justificaria suas babaquices.
- e você?
- eu ia fazer que sim com a cabeça, te dar um abraço, e dizer que eu espero que você seja feliz.
- e o que você vai fazer agora?
- a mesma coisa.
- e vai ser sincero?
- exceto a parte em que eu concordo com você.
- por que?
- porque eu sei que não é assim.
- por que?
- porque qualquer um sabe que não é assim.
- e eu?
- você precisa ouvir que está certo, ganhar um abraço e ouvir alguém dizer que espera que você seja muito feliz.
- mas eu espero ser muito feliz, e eu sei que eu estou certo.
- você acha que você está certo, e ninguém vai te provar ao contrário agora.
- você quer dizer que eu vou descobrir que você é o amor da sua vida?
- não, eu não sou o amor da sua vida. eu nunca fui, nunca senti assim.
- e quem é então?
-o dia que você encontrar você vai perceber que a felicidade quando é de verdade, geralmente é completa.
- você realmente acha que esse dia vai chegar?
- os dois. o que você descobre que está triste e o outro em que descobre a felicidade completa.
- e onde você vai estar?
- do seu lado.
- quer dizer, eu vou estar com você?
- não. é que existe uma coisa que você ainda não percebeu. Eu sempre vou estar ao seu lado, independentemente de. eu vou olhar pra você, concordar, te dar um abraço e esperar que você seja muito feliz.
- e qual é a diferença se você está fazendo isso agora?
- é que eu espero pelo dia que seja sincero. e que embora eu diga que eu espero que você seja muito feliz, no fundo eu já saiba que você vai ser.
- eu te amo.
- eu sei, eu te amo exatamente do mesmo jeito.
- e como é isso?
- é um eterno estar um do lado do outro até esperar o dia que ao desejar que o outro seja feliz, e ao fazer isso, olhar nos olhos e perceber que ele já é.
Porque todo amor de verdade só se (re)transforma em amor.
2.5.10
Sua menina.
" Você trata muito mal sua menina, um dia ela vai puxar o carro. De sua barba mal feita, seu catarro. Um dia ela vai encher o saco. Você trata muito mal sua princesa, um dia ela vai virar a mesa. Seu olhar só vê o seu umbigo. Um dia ela vai ficar comigo.
Você olha para ela com desprezo, como um déspota destrata uma empregada. Das grades do orgulho onde está preso, você maltrata a sua namorada. Seu terno engomado, seu perfume, seu tédio, seu remédio digestivo, seu eterno pesadelo de ciúme. Um dia desses ela vai te dar motivo. E ficar comigo. E ficar comigo sim. Vai ficar comigo. Vai ficar comigo só.
Você trata muito mal sua pequena, um dia ela vai sair de cena. E o remorso vai te torturar sem pena, quando a vir ao meu lado no cinema. Você trata muito mal o seu amor, não rega com carinho a sua flor. Depois de ver o que você já fez, com certeza ela vai sumir de vez. Vai sumir comigo. Vai fugir comigo. Vai sumir comigo sim.
Vai ficar comigo. Ficar só comigo. E você vai ficar só. "
(Arnaldo Antunes - Sua menina)
E se fosse simples como diz arnaldo, seria um clic. Mas não é. E o que é o amor senão uma peça em que as pessoas de despem do orgulho antes de entrar em cena e empalidecem na sacada esperando alguém que (quem sabe ) nem vai voltar, de braços abertos e mals de alzhaimer, esquecendo tudo e prontos pra começar (tudo) outra vez. Apegados apenas a (in)certeza de serem felizes, imensamente felizes. E amarem. Tanto. E só.
29.4.10
Your spot.
26.4.10
18.4.10
You'll look for me and I'll be gone.
No seu livro deve ter um ponto final bem grande e você contando, no próximo capítulo, orgulhoso, o quanto você com a sua distância soube fazer eu me desapegar de você. Exatamente com essa palavra de-sa-pe-gar. E deve ter no segundo parágrafo que a explicação para a sua atitude é essa palavra aí de-sa-pe-gar. Só que a doutoura em semântica sempre fui eu, você só ilustra seu livro. Vai fazendo desenhos, colocando imagens. Vive fatos. Um atrás do outro correndo em busca da felicidade. Como num filme sem roteiro. E filmes sem roteiros as vezes terminam em grandes fracassos sem nenhum sucesso de bilheteria e com o esquecimento total do protagonista, enquanto os coadjuvantes as vezes conseguem algum sucesso em outros filmes, até mesmo como protagonistas. Mas não é disso que eu estou falando. É da nossa grande história.
Então eu te explico, como boa continuista que sou, que a consequencia da sua atitude talvez seja o de-sa-pe-gar, mas que a razão é bem diferente. E fica ali entre covardia e falta de caráter e passa um pouquinho pela falta de consideração. Consequencia normal da não reciprocidade de sentimentos é o desapego. Acontece sem ninguém precisar forçar. E é bonito esse (des)apegar. É como ir perdendo o medo lentamente da montanha russa em voltas repetidas até você conseguir lembrar da montanha russa como uma coisa bonita. Mas sua atitude só foi, como eu posso dizer, decepcionante. E não tem nada a ver com o desapego que você queria propor. Tem a ver com a sua covardia. Com o você saber que não saberia como lidar comigo enquanto eu me desapegava de você e então resolveu fazer tudo da maneira mais fácil e rápida, que é sair pra comprar cigarros e nunca mais voltar.
Exatamente como naquele filme, em que a menina fica presa ao fogão enquanto o cara foge e some em busca de uma vida, porque ele não sabe lidar com aquela que ele tem, e nem com a garota loira que hoje trabalha num cabaré. Engraçado pensar que no teu filme você talvez um dia teria escolhido ser esse cara, e parabéns, hoje você é. Só que sem dignidade nenhuma e sem nenhuma poesia, dessas dignas de filme. Mas eu não tenho ressentimentos, é exatamente como aquele trecho em que ela fala que tentava ter longas conversas com você, até o dia que não lembrava mais da sua voz. Isso é desapego. E tem dor. Eu não sinto dor, nem desapego. Eu só desisti de você, tão racionalmente que talvez você agora se sinta orgulhoso de tudo que fez.
Mas não se sinta. Orgulho não é o que você deve sentir pot você mesmo. Tem que ser alguma coisa entre arrependimento e medo. No meu livro você sempre esteve, ali, coadjuvante e é justamente pelo respeito que se deve pelas pessoas que fazem parte da sua história é que eu não merecia ter desistido desse jeito. Você merecia. Mas nós mereciamos um desapego. Desses de aprender a não ter medo de montanhas russas. Desses de lembrar de tudo com carinho, mas você estragou tudo.
E talvez, a parte boa é ter conseguido não sentir nem peso por tudo o que você já não significa pra mim. Você deve pensar que vai ser melhor assim pra mim. Mas não vai. Eu consegueria te esquecer de uma forma bonita. Eu merecia isso. Eu só quero que você saiba que você foi embora sim, e por mais que isso tenha sido bom, você me deixou amarrada no fogão. E esse tipo de marca, esse tipo de machucado é do tipo que marca pra sempre.
Seis, sete anos depois talvez você me encontre em algum lugar e eu tenha que te contar como se deu tudo, essa separação brusca e quem vai saber se até lá eu vou ter raiva, ou se não vou sentir nada, ou se vou dizer que eu te entendo. Mas o que eu queria te dizer, é que tudo que você tem, igualzinho, do personagem que você admira é isso, ser um fugitivo. Você saiu correndo. E sinceramente, cara, isso não é admirável, ou orgulhoso e nem tampouco foi nobre para comigo. Eu não vou te agradecer. Eu não vou te entender. Tudo que eu sei é que você é igualzinho a ele. Um fugitivo, um covarde. Talvez com um pouco de nobreza.
Mas saiba que nem sempre a nobreza redime. e nem sempre o amor salva. eu odeio te conhecer tanto quanto eu conheço, e no meio de tudo isso ainda entender suas razões, a covardia e a indiferença. Eu sei exatamente. Não precisa me explicar. Mas hoje não se justifica mais. Porque eu não te amo e nosso jardim secou. Pode ser o que você queria, mas não precisava ter sido assim.
Mas eu (ainda) espero que você seja feliz. Hoje sem lirismo ou poesia, e sem mim. Mas feliz.
14.4.10
Engenheiros explica.
O sol nascendo sem saber o que iria iluminar.
Eu abri meu coração como se fosse um motor
E na hora de voltar sobravam peças pelo chão
Mesmo assim eu fui à luta... eu quis pagar pra ver
Onde estavam as armas químicas? O que diziam os poemas?
Afinal de contas o que nos trouxe até aqui?
Medo ou coragem? Talvez nenhum dos dois
Sopra o vento, um carro passa pela praça
E já foi... já foi
Por acaso eu fui à luta... eu quis pagar pra ver."
(Engenheiros do Hawaii in armas químicas e poemas)
( minha ex história de cinema, humberto gessinger explica. Abre-se o coração como um motor, que no fim se desmazela em partes que ficam pelo chão, perdidas. Coisas de quem vai a luta, de quem decide pagar pra ver e no fim, nenhuma arma química destruiu nada e nenhum poema dizia nada além do que dizem os poemas normalmente - o poeta é um fingi-dor finge a dor que deveras sente, fernando - nem medo, nem coragem. Nenhum dois dois. Enquanto o vento sopra, um carro (ou uns carros) passam pela minha sacada e tudo que eu consigo pensar - com alguma paz vinda sei lá daonde, mas graças a ela - é que já foi. E por acaso - e só por acaso - eu fui a luta, e eu quis pagar pra ver )
O que só eu escrevia e não sabia nem sentir, hoje, engenheiros explica. Sem descuido ou poesia. Cru, e que assim seja.
10.4.10
Schrödinger's cat
Tem uma adaga daquelas grandes que você cravou no meu peito. Sangra, sangra sangra e eu continuo andando e se você pedir, eu te dou a mão e finjo que não doeu.
11.3.10
a saudade é arrumar o quarto de um filho que já morreu.
28.1.10
carta que eu não vou mandar #1
Era essa parte aqui em que a gente dedicava um livro, uma piada, uma frase de efeito, mas não. eu não quero ser rude nem nada, mas essa fase entre a gente já passou. eu já te dediquei todos os meus filmes, livros, textos, todas as minhas importâncias já estão aí com você. e eu guardo as suas comigo. desde seu filme preferido até seu vício pelo desenho eu guardo em mim e eles já me fizeram uma partezinha nova do que eu sou. então eu vou pular essa parte. eu sei que você gostaria de ouvir de alguém toda a trajetória de como a pessoa foi cativada por você, raposa, mas a gente deixa isso pra depois. não que eu seja incapaz, porque na verdade eu sei exemplificar nossa trajetória com filmes, músicas e metáforas bobas mas nós não temos tempo pra isso. nós precisamos ser felizes e nós precisamos agora. nesse instante. eu sei que você vai se perder de mim no momento que eu piscar e além disso o mundo é cheio de reviravoltas e deus sabe até quando a gente vai ter essa afinidade quase infinita. você nem sabe o poder que o mundo tem em separar as pessoas umas das outras então se eu não te falar isso agora, logo depois você já vai ter ser perdido e vai ser tarde demais. aí a gente vai ter que esperar outro reencontro cósmico e a gente nunca pode ter certeza se ele de fato vai acontecer, porque pode acontecer da gente sumir pra sempre um do outro e isso cara, disso eu não ia me perdoar. então o negócio é o seguinte: nesses meus vinte anos eu já encontrei alguns caras por aí mas que nem você nunca houve. tiveram uns parecidos, uns que eu amei até me machucar demais, mas ninguém nunca riu comigo assim do jeito que você riu e nem me deu essa sensaçào desse o primeiro contato de: é você. a única pessoa que fez isso comigo foi você mesmo e eu tenho que te contar isso antes que venha um guindaste e te jogue em um lugar que nem todos os meus poderes são capazes de te alcançar. eu estou gostando, de alguém. e eu não sei se gostar é a palavra correta, mas a grande verdade é que resumindo tudo eu quero ficar com essa pessoa. " pra ver no que dá" seria uma explicação plausível, mas a grande verdade é que eu quero tentar porque eu aposto todo o meu dinheiro nesse cara e como você já deve ter desconfiado esse cara é você. então a grande coisa é que eu acho que você também não se arrependeria de tentar. eu te prometo não te deixar mesmo que a gente não dê certo, porque eu te considero pra caralho. mas assim, eu acho que a gente vai dar então eu estou te pedindo essa chance. uma chance pra você confiar no que eu digo mais uma vez. eu poderia listar os porques, mas entre muitas coisas eu sei cozinhar e até aprendi a fazer café. eu acho que isso deve valer de alguma coisa. se não valer, eu acho que eu devo dizer que antes de te conhecer eu era como o baby, o porquinho atrapalhado e totalmente desacreditava de tudo e desde que você apareceu na minha vida nasceram coisas em mim que me fizeram capaz de virar pastora de ovelhas e eu acho que isso deve significar alguma coisa bem grande. então se um dia você quiser tentar por favor me avise porque a grande verdade é que eu espero por você desde o dia em que você me cativou ( e isso faz tempo!) e vou continuar esperando o tempo que for necessário.
e se você ainda estiver se perguntando porque uma pessoa esperaria tanto por outra, em caso dessa carta não ser explicita o bastante é simplesmente porque é impossível não começar a amar alguém que transformou um porco desacreditado em pastor de ovelhas e quem ama (além de todas as outras coisas ) espera ( o tempo que for ). e é, eu te amo.
Perdida entre as coisas que eu nunca mandei, que vire literatura.
17.1.10
Punchdrunk lovesick singalong
13.1.10
Doer.
Every man has your voice.
Todo homem tem a tua voz."
(Paris, texas)
11.1.10
Da sua ausência não sei dizer.
Podia falar de ausencias e faltas. Das milhares de coisas que você deixou aqui, e das minhas coisas contigo. Das manias que eu tenho só por sua causa e as coisas ridículas que você ama e eu aprendi a amar. Sei falar de todas as coisas como se você ainda estivesse aqui, só não sei falar da sua ausência e de todo esse emaranhado que se faz quando eu penso nisso de deixar você ir e entre mandar você voltar. Eu nem lembro mais como foi exatamente o dia que eu resolvi que eu te deixaria ir. devia ser um dia qualquer e devia ser eu exausta de não te ter mais. Não me lembro o dia, a hora a roupa que estava usando e nem se fazia sol. Só sei disso, te deixei ir. E só sinto isso, ausência. Uma ausência tão enorme que eu não posso te dizer como ela se sente. Posso elencar objetos. Posso te falar dos risos que faltam. Posso te dizer das palavras que não saltam mais e dos convites que não mais aparecem. Posso te falar de um lugar no sofá de umas comidas. Te dizer até de um folheto que um dia eu quis guardar e acabou indo com o lixo, até disso eu posso te falar mas eu não sei nem o que eu sinto com isso.
Às vezes você me dói. Fundo. Objetivamente junto com as coisas que eram suas e hoje são minhas meio que do jeito que eu quis que fossem. Queria te chegar e falar tantas coisas. Não dessas que eu solto assim quando escrevo, mas coisas pra você, coisas entre eu e você que eu podia entitular como "tudo o que eu queria te dizer antes de você partir". Assim, como se você tivesse pegando um ônibus para o outro lado do país e eu precisasse te deixar com a certeza de que você sabe de tudo que eu um dia senti por você. E eu não estou falando de amor nem nada dessas babaquices. A coisa agora é sentimento. Eu tinha um monte de coisas pra te falar antes que você partisse. Coisas minhas. Mas você nunca me deixa falar nada e vai indo embora embora embora. E eu desisto de te entregar coisas pra que você leia depois no momento exato que penso em escrevê-las por mais que eu saiba que é necessário que você saiba de mim antes de partir de vez. Mas eu não sei falar sobre a sua ausência. Nem pra mim mesma, quanto mais saberia elencar todos os fatos que eu tinha que te falar antes de você partir. Justo pra você que resolve partir antes mesmo de eu querer que você vá. Justo pra você que era a única presença que realmente importava e eu resolvi deixar ir.
Eu queria saber falar de nós, mas eu só sei falar de mim. Ou de você. Assim, separadamente como sempre fomos. Eu queria te deixar ir também. Pra muito longe. Mas com a única condição que você me esquecesse de vez. E quando eu digo esquecer eu digo apagar da memória. Eu posso deixar até minhas coisas com você e você pode até esbarrar com umas partes minhas (eu sei que deixei algumas várias nesses ultimos meses) mas mesmo assim você não irá sentir falta. vai olhar pro meu pedaço em você e vai deixar de lado junto com os jornais lidos. Junto com tudo que um dia foi importante mas hoje não tem mais razão se ser. Só assim você pode ir.
Mas você não vai. E essa é a pior parte. Se pelo menos você fosse e mudasse de vez eu ia conseguir falar da sua ausência. Mas me diz, que ausência? Eu te deixei ir. Eu não apareço mais nas horas inoportunas, eu nem te ligo mais pra saber como você vai e eu nem me interesso em saber das coisas que você gosta. Mas você vem me contar. Assim, inesperadamente, você vem me dizer das coisas que você gostou e depois vai embora. Exatamente do jeito que veio. Ocupa sua cadeira por quinze minutos, até menos, e volta pro seu país. Aquele em que eu não quero entrar. Te vejo no ônibus e fico te dando tchau esperando que você vá de vez, mas você nunca vai.
Eu não tenho mais medo. Se um dia você resolver me deixar tudo seria bem mais simples. Com o tempo ia ser difíxil lembrar a sua voz, o jeito que você ri e o que te faz sorrir. Ia sobrar uma saudade, mas eu já tenho saudade de tanta coisa. Tem tanta coisa que se foi guardada aqui e ali que minha casa e meu coração tem espaço sobrando pra saudades e ausências. Você ia ser mais um na estante ali, guardado, do lado dos meus amigos que eu não vejo mais. Exatamente ali. E depois ia existir uma vida toda sem você que só ia te encontrar na rua um dia e pergunta como você vai. Nada mais será como antes. E Partimos.
E eu não sei falar da tua ausência, porque você nem se foi. Está ainda, aqui e ali e eu ainda te procuro nos rostos de todas as pessoas que vejo enquanto caminho pelo caminho que hoje parece meu lugar no mundo. Ainda espero te encontrar de novo porque toda vez que eu te encontro eu consigo ser o que eu era. Eu só preciso te dizer muitas coisas, todas as coisas antes que você parta no seu ônibus com destino a lugares que eu não gosto. Eu te digo, e você vai. Mas se vá de vez porque eu quero conseguir escrever sobre a sua ausência. Não a eminente. A que eu vou sentir, e que vai doer. Mas que enfim, vai ser real.
7.1.10
Eu decidi te deixar ir. Faz algum tempo. Deve fazer um mês desde o dia que eu pensei "é hora de te deixar ir". Não por nada. Eu não estou falando de amor. Amor é uma coisa bem mais séria que isso. É quase... É bem mais que amar suas blusas verdes florescentes ou as azuis escuras sem vida. É um pouco mais profundo que isso. E depois de algumas canções, eu resolvi te deixar ir. Não te contei, é claro. Se eu te contasse que eu estava te deixando ir era capaz de eu nem ir de fato, você sabe muito bem como você funciona. Você não ia deixar. E ia continuar marcando o seu lugar na minha vida sempre que pudesse. Depois ia sumir, como você sempre faz. E quem ia ficar aqui ia ser eu, e você com a certeza-vontade boba de saber que eu sempre estarei aqui, no alcance dos seus braços e palavras.
Mas eu te deixei ir. E você foi. Quer dizer, você já tinha ido faz algum tempo nessa sua nova vida estranha em que eu não pertenço. Só que eu ainda tentava te segurar e algumas vezes você passava por aqui pra ocupar alguma das suas duas pontas no sofá. Sabe, costume. Consideração já tinha ido embora fazia um tempo. Uma ponta, umas fotos e um copo de água depois você se foi. Assim. E pronto. E eu sabia que iria. E eu achei que ia doer o mundo, mas nem doeu. Eu, eu estou me acostumando sem você aqui, sabe? Não que eu não me lembre de você há cada dois dias, e não exatamente a cada dois dias, as vezes mais, às vezes menos, todo mundo sabe como funcionam essas coisas estranhas de lembranças. Acontecem e depois vão embora, desse jeito assim mesmo.
Daí eu desconstruí seu castelo, esqueci o teu telefone que eu sabia de cor e me prometi não te ligar ou te mandar mensagens toda vez que eu visse alguma coisa que me lembrasse você. E assim foi. Com o passar do tempo as coisas vão perdendo o quoeficiente você e eu tenho cada vez menos lembranças suas. O melhor de tudo, não dói.
Eu nunca soube como você ia reagir assim que eu te deixasse. Nos meus momentos mais otimistas eu pensava que você não saberia viver sem mim, mas depois de um tempo foi tanto tempo de você vivendo sem mim que eu tinha apenas uma certeza: Você nem ia se lembrar. É sabe, como aquelas músicas que a gente ouvia quando era adolescente e esquece. Só lembra delas no dia em que ouve. Se invade com umas vinte e uma lembranças, ouve mais duas vezes e depois esquece. Fato, a sua vida mudou. Ninguém quer passar a vida toda ouvindo as canções que gostava quando era adolescente. Eu sou sua canção adolescente, é assim, e acabou.
Daí desde então te vejo remexendo em uma parte ou outra da minha vida. Você aparece, descobre que eu ainda estou viva e some. Como sempre fez. É, eu ainda estou viva e eu ainda me preocupo contigo, mas depois acaba. E daí eu penso o que te faz voltar em mim depois que a gente foi embora um do outro, sabe? Assim, descobrir novas partes. Por favor, me esquece, eu já deixei você ir. É claro, eu também te disse que poderia voltar, mas não assim, tropeçante, por partes e esquisito como você gosta de fazer. Isso seu eu não quero mais, eu te deixei ir. Agora é a hora que você se vê livre de mim, sem obrigações de aceitar meus convites, sem ter que ouvir minhas palavras meio duplo sentido, sem ter que receber mensagens aleatórias minhas a toda vez que eu lembrar alguma coisa que me lembra você.
Eu te deixei ir e eu quero que você aceite a passagem. E você pode até voltar se quiser, mas só se perceber que aqui é o seu lugar. Caso contrário, me deixe. Você também vai se acostumar com a minha ausência.
30.11.09
Ele se foi.
Ele foi embora. E pela primeira vez desde a primeira vez ele não foi embora pra voltar daqui duas semanas, ou daqui dois meses. Ele se foi. Sem natal, ano novo ou final de semana bonito a ser. Porque a gente assim decidiu. Dizem que quando a gente escolhe as coisas as decisões são mais fáceis e eu juro que acreditei nisso, mas dessa vez não foi verdade. Porque ele se foi. E com ele indo não há parte nessa equação que seja balanceada de um jeito que valha completamente a pena.
Um dia eu achei que valesse. Já pensei em organizar futuros, filhos e tardes de domingo sem ele. Hoje quando eu o abracei não querendo deixar ele ir, eu não quero mais. não por enquanto, não por agora. Dizem que a gente só dá valor as coisas quando perde e talvez esse seja o clichê mais ridiculo e verdadeiro do mundo. Hoje eu abracei o cara não-mais-perfeito-do-mundo como quem queria deixar uma partezinha dele comigo. Ou uma partezona. Ou ele todo aqui comigo do meu lado pra gente voltar pra casa, sentar no sofá e assistir tv. Assim, simples assim. Só sentar e assitir a novela das oito, como milhares de outros casais casados há trinta anos. Mas daquele jeito que é só nosso. Do jeito dele de assistir novelas comigo. Do jeito dele de ter aprendido a ser comigo. Do meu jeito de explicar histórias pra ele. E porquês. Do nosso jeito de tomar refrigerante e comer salgadinho vendo tv.
Se esses fossem de fato, se forem, se tiverem sido nossos últimos quatro dias, não teria jeito melhor de ter terminado qualquer coisa que seja. Todos os nossos dias tiveram gosto daquelas duas horas que a gente passou hoje de manhã. Daquele jeito bonito que é só nosso, de ser infantil e de ficar ali, só por estar. Eu ficaria vinte e sete anos ali no lugar seguro que é o abraço dele. porque ali eu o amei tanto que deu vontade de gritar. e gritei. porque com ele eu posso ser eu mesma. essa, assim, essa criança grande que eu sou. essa criança grande que ele sente maior orgulho de ter do teu lado, me fazendo ter o maior orgulho do mundo de estar do do lado dele.
Mas daí ele se foi. e se foi junto com ele nossa segurança. primeiro foi ele ficando com medo, e desesperando. Depois fui eu. eu que abracei ele querendo deixar todos os pedaços dele comigo. querendo deixar aquele onibus dali e alugar um quarto e sala nosso pra gente morar pra sempre. eu, ele, e nosso jeito de assistir novela, nossos lugares em londrina e nossa vontade de assistir programas toscos. tudo dele em mim, e tudo de mim nele. mas mesmo assim ele se foi. se foi deixando um controle, tres jogos, um negocinho de arroz, uma caneca e mil e vinte nove lembranças desses dois anos que passamos juntos. ele se foi levando com ele um tênis meu,um corte de cabelo estranho que eu fiz e a lenbrança da nossa primeira e última chuva juntos. com um guarda chuva quebrado a gente ali debaixo do relógio. ele leva com ele uma mochila cheia de lembranças (assim eu espero, e eu espero trinta e sete mil mochilas de lembranças minhas) e deixa comigo outras milhares de mochilas de lembrancas. e quartos, e salas, sofás, videogames, comidas, dias, pensamentos [...]
Ele se foi. E deixou comigo um parte dele. E levou com ele uma parte de mim. Uma parte grande, quase um infinito. Quase um buraco negro. Que a gente entra e não acaba. não acaba nunca. Uma parte sem fim. Um monte de partes. Balões da casinha do sr fredericsen em numero de partes. Ele se foi, mas prometeu que volta. jurou, jurou de coração. E eu espero sentadinha pra que a gente complete nosso caderno de aventuras. Porque eu amo ele, e não vou deixar ele ir.