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7.5.12

you and I will gonna live forever.

sonhei com você. eu, que não vejo seu resto faz pelo menos um ano sonhei com você. acho que tenho sentido saudades. não sei qual é o motivo do inconsciente projetar sonhos meus com você. queria que fosse karma, ilusão, vidência. queria que fosse vidência porque no sonho eu te reencontrava mais velha num desses bares perdidos por aqui. você continuava o mesmo e eu continuava a mesma. a gente tinha tanto assunto. tanto tanto assunto. mais ou menos igual daquela primeira vez que eu conversei com você e você levou bronca porque devia ter ido dormir já que tinha que trabalhar no dia seguinte. menino crescido tomando bronca. no sonho já não tinha mais bronca, e já não tinha mais culpa. eu era livre, apesar dos meus traumas e dos meus açoites eu era feliz, e você parecia também. eu te contava toda a minha vida, você contava a sua e a gente terminava comentando um folheto de show do cover daquela banda que a gente gosta tanto. eu te dizia que o cover era bom, e que podíamos ir qualquer dia e você dizia que sim, que podíamos ir.

na narrativa não linear dos sonhos tua mãe vinha te buscar e dizia que sentia muitas saudades de mim, que como raios eu tinha sumido da sua vida desse jeito enquanto você namorava outra pessoa. eu não respondia nada, e ela me abraçava porque sabia a resposta. ela não te levou de volta pra casa. te deixou comigo, disse que a gente devia ter muito o que conversar e que eu sabia cuidar bem de você. você sorria o mesmo sorriso que tinha quando eu fazia as piadas mais sem graça do mundo, e eu sorria do jeito que eu nunca mais me vi sorrir. daí a gente ia, andava na rua de mão dada e conversava sobre tudo que tinha pra conversar. era tanta coisa que eu não sabia mais de você e era tanta coisa que você não sabia mais de mim. daí já era tarde demais e a gente precisava de um taxi. um taxi pra minha casa porque a sua casa continua sendo longe demais. um taxi pra minha casa e depois você ia embora quando amanhecesse e eu fosse trabalhar, e tudo bem, minha mãe não se importaria porque ela te adora.

só que as filas do taxi eram enormes, ninguém sabe porquê. e esperávamos no fim da fila do taxi enorme enquanto você me guiava. você me perguntava se não era melhor você pegar um mototaxi pra sua casa e nos despedirmos de vez e eu te dizia que não. daí você ficava, porque no fundo você sempre fica. a gente andava pela rua e meu melhor amigo passava e eu mostrava pra ele "olha, a gente se reencontrou de novo".  talvez meu jeito tolo de sentir orgulho por ser a menina que segura a sua mão, mais uma vez. e daí começava a chover na fila do taxi e você resolvia de vez que não ia mais me abandonar e tirava de dentro de qualquer lugar um guarda chuva enorme, que cabia nós dois e você me abraçava com um braço pra eu caber no guarda chuva e com o outro segurava ele. e eu te abraçava pra que você não sumisse mais de mim. e o táxi chega e você senta de novo no meu sofá e a minha mãe diz que você pode dormir ali ou onde você quiser. vocês continuam fazendo piadas sobre o meu estabanamento e a minha preguiça.

e daí de repente é outro dia e estamos tomando café já numa casa esquisita onde as pessoas não me conhecem. e depois estamos no show que tinhamos marcado de ir e você não tem como voltar pra casa. daí aparece a sua namorada e ela te puxa pelo braço dizendo "vamos amor, eu te levo". e você vai indo com ela, e eu vou ficando de novo enquanto a banda vai guardando as guitarras e os baixos, até que você volta. daí você volta e senta na mesa. a mesa que de repente é a mesa de jantar da minha ou da sua casa, e onde as nossas mães festejam nossa recente união. daí você me sorri e diz que quer ficar comigo todos os dias da sua vida. e eu acordo. a realidade é que eu sou essa moça sozinha que vai pra um churrasco em família onde você nunca mais apareceu depois daquela única aparição louvável.

e eu não sei onde estaremos daqui há dois anos. sempre te imagino casado, já que você já é meio casado até. não sei mais notícias suas. fico querendo saber mas te tirei dos meus contatos e acho que é melhor assim. eu me senti tão violentada nesses últimos tempos, você nem sabe. meu coração voltou pequeno, o sorriso agora é meio sem graça e eu acho que eu queria mesmo que você tivesse comigo nas filas enormes dos taxis que fazem naquela cidade me protegendo com o guarda chuva que você tira sei lá da onde. só que cá estou eu perdida nessa cidade de novo, me fazendo de forte mas me sentindo usada e o pior de tudo é saber que você não existe nas mesas dos bares, nem no sofá da minha casa. nem hoje, nem daqui dois anos. e então o que sobra pra mim é enfrentar as chuvas sem guarda chuva e esperar sozinha nas filas intermináveis sem ninguém pra me acompanhar até em casa. um ano inteiro sem te ver, ou mais, e a minha memória ainda guarda até os teus tiques nervosos. às vezes, desavisada, chamo isso que sobrou de amor, mas eu acho que eu te guardo como o único homem que me protegeu da vida, que me fez descansar de saber os caminhos da cidade e andava comigo na chuva. você carregava meus guarda-chuvas (sempre se molhando mais) e me dava abraços desengonçados. você me levava pelas ruas, limpava o canto da minha boca sempre sujo de molho do cachorro quente da esquina e me tirava de perto das janelas com medo que eu caísse.

antes e depois de você, eu tive que ser senhora da minha vida. e por vezes falhei, porque isso cansa e agora sou assim, um pouco apática. esse foi meu novo adjetivo: apática. você não acreditaria que eu fiquei assim depois dos traumas da vida. você que sempre me acusou de fazer tudo sozinha, o tempo todo sozinha e tirava da minha mão as cestas do mercado. não precisa tanto assim, fazer tanto assim. pode dividir também. você que me ensinou, eu não aprendi direito e na gana de querer abraçar a vida surtei, e acabei ficando apática. se eu te contar que não tomei nem decisões simples esse ano acho que você não acreditaria. mas estou bem de novo, só sinto falta, você sabe. não sei se um dia alguém vai querer me ensinar de novo a ser cuidada. daí fico sonhando com você sorrindo das minhas piadas sem graça e dizendo com as suas camisetas roxas que não combinam que queria ficar comigo pra sempre.

só que eu não acredito em pra sempre. nem em sonhos premonitórios. nem em mim, nem em você, nem na mesa com as nossas mães nem no show cover da nossa banda preferida. eu não acredito em nada. só nessa saudade louca que eu sinto de quando eu era feliz. desde que você se foi ninguém nunca mais soube enxergar além da minha histeria (que é coração machucado) e das minhas camisetas sujas de molho.

desde que você se foi nunca mais.

25.7.11

Que amava toda quadrilha.

(do Chico Buarque e do Drummond que me fazem, falo como personagem)

"Te amo", é dessas expressões que nunca cogitei te dizer nem em sonho porque sempre soube que dizer "te amo" pra você deixaria de ser expressão e se tornaria um ridículo e extenso (e quem sabe nunca-antes-visto) derramar de mim mesma.
Amor é uma coisa complexa que se eu tentasse explicar me embananaria toda, salvo se estivesse munida por eu-líricos cantantes e bonitos. Gosto de ti. Porque sim.
E deveria saber que quando a gente gosta "porque sim" de uma pessoa é porque gostar já é palavra boba demais dentro do universo que envolve essa relação.
Me destruístes de tal modo que não é possível que consiga poetizar nossa quadrilha, pois coisa vira e, real que você é pra mim, só sei de você cru e nunca soube de você minha história. Sei de você cru nos meus ossos, carne e, principalmente em pensamentos que me ocorrem em tardes cinzentas.
Sempre te acharei a companhia perfeita para a casinha de sapê que nunca construiremos e de algum modo vou sempre imaginar alguma coisa ridícula.

(Ridícula do tipo, não terminar esse texto porque admitir que eu te amo quase que me embrulha de amor de tão cru que és).



Texto encontrado - e não revisado - num caderno de faculdade que data de 2008.

and there is no modern romance.

Liguei o rádio e soube: dali pra frente nada mais se concretizaria na memória a não ser as lembranças. Tem sido assim. Assim, um eterno lembrar-e-esquecer como um círculo vicioso, um carrossel, uma roda gigante que não para nunca e aonde, por mais que entrem novas pessoas, ela continua sentada no exato mesmo lugar. Dando voltas e voltas, e mais voltas. Teve esse e aquele outro e um belo momento e outro belo momento mas, de alguma forma, no amor a existência tem precedido a essência e a falta de sentido é uma constante. Como em equações matemáticas a vida é dada como: amor-vezes-a-constante-(falta-de-de-sentido)-é-igual-a-zero. Zero.

Pensava nisso enquanto tentava pensar em outra coisa. Sempre assim. A gente pensa que esqueceu, depois ouve uma música qualquer e tudo volta feito ferida que não cicatrizou, e lateja o lugar que a gente tinha esquecido que tem (o coração, talvez?). Foi assim naquela noite fria enquanto tomava meu whisky e fumava meus cigarros de filtro laranja. Tudo que ainda sabia dele é que, continuava com o mesmo senso de humor e, tinha começado a fumar também. "Não fumávamos quando éramos jovens", pensei. Engraçado a inconsequencia ter começado no exato momento em que deixamos de ser. Será que éramos sem saber nosso ponto de equilíbrio, nossa religião? Seria o amor o nosso deus? talvez. Você era a única coisa em que eu acreditava. Personificação do amor. A partir do momento que você se foi o amor deixou de existir e, se você voltar pode ser que ele renasça. Pode ser. Já fazem três anos e tudo que você deixou se transformou em descrença.

Eu olhei o telefone algumas vezes, encarei, sexta feira as onze da noite não deve ser um momento propício pra ligar pra alguém que não nos ama mais e destilar alguma coisa como mágoa ou veneno, e todos esses sentimentos meio amargos que nascem pra disfarçar o amor. Mas pensei. Te mandar um torpedo te dizer "olha, eu sempre te amei, eu sempre vou te amar", mas você não iria entender e ia sentir pena do meu amor, pena de mim, pena de tudo isso que você fez nascer e eu estou cansadíssima das suas penas. Estou cansada do mundo também. Você sabe que tenho me enfiado em bares, bebido muito, caído, fumado cigarros e experimentado novos corpos. Guardo no meu apartamento uma garrafa de whisky pela metade e enquanto me embriago penso em você e em tudo-que-poderíamos-ter-sido, depois busco um número qualquer na minha lista de contatos e discutimos cinema, e literatura e depois transamos sem nenhum amor e nos beijamos sem nenhuma paixão e talvez, eu disse talvez, exista ternura nessas coisas e nesses novos homens e nesses quase-amores mas é tudo tão diferente.

Já ensaiei dizer "te amo" pra novas pessoas, mas eu não sei falar de amor. As vezes até tento, daí engasgo, daí digo "eu-gosto-muito-de-você-e-nunca-quero-te-perder" como um desses cachorrinhos carentes que se enfiam no colo de qualquer um, mas eu sei que no exato momento que ele sair por aquela porta todo significado acabará como a cinza desses cigarros que eu fumo e se espalhará pela mesa da cozinha, pelo chão da sala e depois vai sumir. E eu vou ficar, vou continuar, vou beber whisky sem gelo e vodka com suco de laranja. Vou tentar inventar amor, vou frustrar expectativas de romance, vou responder eu-te-amo-também pensando em você e em você porque é só em você que eu penso quando olho dentro daqueles olhos sem brilho nos beijos sem gosto que tenho dado. Tanto faz quem sejam as novas pessoas agora. São só bocas e cabelos e olhos e elas podem me ter quando quiserem e me deixar quando bem entenderem, eu não sinto ciúmes, nem ternura, nem nada. É só um nada, um vazio, uma necessidade de preencher todo esse buraco que você deixou quando se foi, e eu invento momentos sublimes e interessantes, minha vida tem parecido um desses filmes alternativos de romance que a gente nunca gostou e quem olha de longe quase sente inveja da minha fe-li-ci-da-de.

Não sou feliz, baforo fumaça pra fora pra ver se toda essa cinza espalhada pela casa te exorciza. Se eu cremo o meu amor por você, se de repente um dia eu acordo e faço uma espécie de funeral pra todos os momentos que tivemos juntos nessa casa, nessa imensidão de cidade, e dentro de mim. Pra ver se tudo isso que me destrói aos poucos destrói junto tudo o que sobrou de você em mim. Eu me reinventei, me recriei, me refiz. Refiz uma vida toda pra esquecer e me livrar da vida que eu tinha, daquela que eu era, pra esquecer que eu era sua - e amava. Penso em te abraçar, te ligar, chorar, ajoelhar na porta da sua casa te dizer que depois-que-você-se-foi-a-vida-se-tornou-uma-aventura-errante e penso, todos os dias, em dizer que (ainda) te amo.

Mas tomo um gole de whisky, acendo um cigarro e mando uma mensagem dizendo que "estou com saudades porque lembrei de você nessa noite fria" para um número que não é o seu.

25.1.11

Eu só queria dizer, obrigada.

Espio a sacada, a vida lá fora. O dia amanheceu com um gosto eterno de melancolia. Tinha sido um pouco assim ao dormir, mas existe sempre aquela esperança de que, ao acordar, tudo tenha ficado dentro de um mundo estranho feito de sonho. Mas eis que acordei de ressaca - de sentimento e de você - e não sinto vontade de comer porque estou enjoada - da vida. Um mundo tão imenso lá fora, e eu aqui, presa nesse quarto que é cheio de lembranças de você. Remexi as nossas cartas, e acho que cheguei a uma conclusão meio inevitável: eu sinto mais falta de mim do que de você. Não que eu não sinta falta de você, também. Seu perfume barato e enjoado, as roupas quase nunca combinando, a segurança em que eu sentia de andar do seu lado. Sinto falta disso sim, ultimamente tenho andando muito sozinha, tendo que tomar muita conta de mim. Você tinha sempre essa impressão de que um dia eu ia me jogar da janela, então exercia sobre mim um certo cuidado, que me fazia bem. É que você me conheceu destruindo, e destrutiva. Ciumenta, histérica, terrível. E sentiu que era a sua obrigação me livrar do meu maior mal: eu mesma.

Durante os anos que passamos juntos, houve calma. É claro que inevitavelmente às vezes eu perdia a paciência, e entrava em terríveis ataques de melancolia que você tentava curar me desviando do assunto. Desviar do assunto sempre culminava naquela ladainha bonita de "sua vida é tão maravilhosa, você tem tantos amigos" ou até um leve afago de evo que dizia "mas você é tão talentosa e inteligente". Eu achava meio absurdo o fato de você admirar uma pessoa tão descontrolada como eu. Talvez você admirasse justamente por eu ser o seu oposto. Você, sempre parado no mesmo exato lugar, poucos riscos, poucos amores, e eu sempre esperando da vida um "algo mais" que ela não podia dar, e me atropelando. Você costumava limpar com mertiolate meus atropelos, até que chegou um dia em que do seu lado eu finalmente encontrei a paz, o nirvana. Eu sinto muita falta de mim agora que estou sem você. É como se com você eu tivesse um ponto de equilíbrio. Mais ou menos como aquela criança que transmuta o comportamento porque não quer decepcionar os pais. Eu sempre tive muito medo de te decepcionar. Muito. Eu li tantos livros, vi tantos filmes, inventei tantas teorias, criei mil novas receitas. E estava leve, sabe? Leve. Fui sorrateiramente me livrando dessa urgência louca de querer aquilo que não existe, desistindo de aventuras de fim de semana e sonhando com uma casa, calma, futebol na tv aos domingos. Minha vida simples era boa. Você ouvia as minhas frustrações, cortava as asinhas da minha depressão ancestral e me fazia sorrir em meio a tardes comuns.

Depois que você se foi eu fui tomada por um eterno descontrole. Que existia, sempre existiu. Mas que você de certa forma curou. Hoje eu me vejo de novo esperando soluções imediatas, chorando de raiva a cada decepção. Às vezes comendo muito, às vezes tomando porres homéricos que me fazem esquecer até o meu nome. Figurinha decadente eu me tornei. Tão diferente daquela menina magra, sensata, leitora, interessada, viva. Ah, eu era tão viva na sua presença. De uma vivacidade que não precisava de nada, só existia. O sorriso fácil e solto, a calma, a espera, o futuro. Um futuro nem tão brilhante assim, simplista, amornado, mas com brigadeiro depois do almoço e café no fim da tarde. Longas conversas. Você me ouvindo reclamar e me achando extremamente critica, e me dando o antídoto de ver as coisas com mais calma, com mais amor, com mais tolerância. Você me ensinou a ser tão tolerante. Com as pessoas, com os livros, os filmes, as músicas. Até a minha família eu dei de amar de um jeito maior depois de ter te encontrado. Eu não bebia demais, não comia demais, não chorava demais. Nem rir, eu ria demais. Eu apenas era feliz. Tudo ali, na medida certa. E hoje eu sinto muita falta de mim.

Senti falta de mim ao dormir chorando, senti falta de mim ao me ver inventado amores, soluções simplistas, querendo fugir. Eu tinha me esquecido dessa pessoa que eu era antes de te encontrar e te perder. Esquecido da minha histeria, do meu descontrole, do meu choro infantil. Esquecido dos meus altos e baixos, da minha doação de mentira, dos meus porres. Esquecido da minha rebeldia sem causa, da minha procura sem encontro. Tanta procura sem encontro desde que você se foi, tanta perda. Essa perda de mim, do meu eixo. Fico esperando coisas que eu não quero ser, não foco, não me sinto capaz. Tenho entrado em malditos jogos de sedução, me machucado em carne viva, sangrando. Tenho jogado sal na minha própria ferida e desistindo de mim a cada dia achando que estou conseguindo soluções. Não estou nada bem, nada bem mesmo e o problema é muito menos não ter você do que eu imaginava. O problema é comigo, sou eu, é a minha destruição, é o meu problema, é o meu sintoma. Você foi por alguns anos a cura, o antídoto, o contrário que me fazia enxergar as coisas mais leves. E agora que você se foi, tudo pesado, negro, terrível. Decadente. Entrei em uma decadência sem fim, e eu que vivia reclamando de não te reconhecer mais talvez também não fosse reconhecida por você. Regredi. Empalhei. Tenho doído, tenho saído carregada dos lugares, tenho me olhado no espelho e me visto infeliz. Estou três anos lá atrás, antes de você, comigo que sempre fui a minha pior inimiga. Tem sido triste, minha vida tem estado uma bagunça sem fim, e por vezes me vejo insuportável. Insuportável pra mim, prós outros, o grande peso in e out. O mesmo peso que eu tinha quando te conheci e que você mesmo sem saber o que fazer com ele, disseminou, tornou leve, me transformou em criatura bonita.

Sabe, eu não espero que você volte. Não agora, não pra mim. Não te espero na minha vida, no meu sofá, nem nada. Nem amor, essa palavra, estou querendo distância de amor. Você parece mais centrado que eu, no momento e eu cansei de tentar achar que eu era a sua salvação, quando na verdade você foi a minha. Hoje eu enxergo isso, no meio dessa loucura toda que anda essa minha vida pesada, terrível, negra, sem perspectivas. Eu enxergo que não sou karma, não sou destino, não sou a irremediável bagunça que um dia me fizeram acreditar que eu era. Não sou, não preciso, não quero sair quebrando corações como se quebram copos, me machucando, abrindo feridas, tendo longos ataques de histeria, ciúme, as acusações colocadas sobre a mesa, exigindo tudo em troca de dar nada, absolutamente nada. Eu já tive cura, eu já fui tão melhor, tão mais viva, centrada, bonita, feliz, sorridente. Nas quartas feiras de noite, nos sábados à tarde, nas madrugadas em casa. Tão mais leve. E foi no meio de um desses ataques terríveis, que assustam e apavoram e sobra caco de vidro cortante pra tudo quanto é lado, pegando em tudo quanto é gente, que eu descobri que você foi como aquela pessoa que te ensina a andar de bicicleta. Primeiro ela vai te segurando, você cai, ela continua te segurando, você cai mais umas vezes. Até que ela resolve te soltar. Daí você cai, rala o joelho, ela te dá a mão e depois te solta de vez. Você cambaleia uma duas vezes, acha que vai morrer, acha que vai se machucar muito, mas consegue ir. Depois pega o jeito, não precisa de mais ninguém segurando. Vai sozinha, livre, leve. Eu te amei muito, mas hoje, acho que amo mais tudo aquilo que você deixou em mim, tudo aquilo que você me ensinou ser. Hoje acho que amo tanto-quanto aquela menina que nasceu do teu lado, que pode e consegue ser boa. Que se doa pelo outro, que se faz infeliz pra ver o outro sorrir. Me deu vontade de resgatar tudo isso. Mas você já me ensinou como faz, já me mostrou que eu posso. Agora eu sei, garoto. Eu tenho que ir sozinha. E vou.

20.6.10

Na minha coleção de pedras

Foi quando eu descobri estar completamente confusa pra te dizer qualquer coisa que seja, que resolvi calar. Te calei ali, na frente da geladeira, na porta da frente, nas faixas da rua e no seu chocolate preferido, tudo isso que me faz te lembrar e não querer te sentir nunca mais embora eu não queira na realidade te perder de mim, dessas coisas, sabe? Desse pensar em você pela manhã e imaginar que talvez-quem-sabe num futuro distante eu esteja acordando nos seus braços e pensando que podemos ter filhos daqui dois anos quando eu terminar minhas coisas e você estiver um homem quase estabilizado. Eu fico pensando em tudo isso que me faz falta, esse seu abraço estranho e essa segurança que eu tinha que se o todo mais falhar eu te tinha, ainda que eu te ligasse e você nem me ouvisse direito, só concordasse comigo e risse, daquele jeito escandaloso que você sempre riu de mim e comigo mesmo no meio das minhas piadas sem graça e da minha depressão. Eu te lembro sorrindo e te lembro no dia que eu percebi o tamanho da nossa cumplicidade, eu já te entendia pelo olho de um jeito que não pode nenhum ser humano entender a outro a não ser que se enxerguem mutuamente muito mais do que por fora, por dentro e por almas e tudo isso. Eu sinto saudades do dia em que te descobri e de todos os outros dias em que eu te descobri mais um pouco e quase quero amaldiçoar o dia em que eu te olhei sabendo que eu te conhecia, mesmo que você ainda esperneie dizendo que eu tenho a visão errada sobre você. E eu sei mais de você do que você mesmo, isso que me deixa louca, sabe? porque daí eu não posso nem te odiar sem te dar pelo menos trinta justificativas de porque você está agindo assim. Eu te olho e só tenho vontade de te dizer "eu te entendo, eu te entendo mesmo." e te abraçar forte, pra ver se de algum jeito sai essa parte toda sua em mim que é tanta, meu deus, como existem partes suas em mim, é quase uma simbiose de existir. Eu sei até enxergar as coisas com o seu olhar, você nem sabe, mas eu ainda faço listas imaginárias de coisas que você possivelmente ia gostar, que nem eu fazia logo que eu te conheci, em que só importava que a gente se impressionasse mutuamente de um jeito que um achasse o outro o ser humano mais interessante dentre bilhões de pessoas, e dissesse: "são todos piores que esse aqui" e então quisesse ter ao outro como uma espécie de presente, de prêmio: "eu possuo a espécie mais rara de ser humano que pode existir". E é como fazer uma coleção de pedras, em que um dia você escolhe uma pedra preferida, porque as pedras não tem valor nenhum pra outras pessoas, mas é a sua pedra preferida então ela brilha e se transforma e parece uma espécie de tesouro e você era essa pedra aí, a pedra mais brilhante da minha coleção, meio malfeita, mas que eu poli e amei tanto que não existe como agora dizer que eu não tenha por ela um apego mais do que sentimental, é tão rara a pedra. E as outras pessoas olham e só pensam que é uma pedra. Você sabe, as pessoas te olham e te acham esse cara aí capaz de parecer com qualquer outro cara, e te tratam tão normalmente, e até mal, porque você pra ela é uma pedra como todas as outras, dessa que a gente acha perdida no meio da rua e passa meio reto, depois pega porque num relance teve um desejo. Eu nem queria falar de pedras, eu queria é falar de você, te ligar como a sei lá quanto tempo atrás e te chamar porque eu estou me sentindo sozinha, porque todas as outras pessoas sentadas na minha sala são erradíssimas sem você, porque com você eu ia poder sorrir e ia poder ser plena, meu deus, eu nunca mais fui aquilo que eu era desde que você se foi. Eu olho pras pessoas e sinto falta falta falta meu deus é tanta falta pra uma pessoa do meu tamanho. Porque antes era uma falta dessas assim, pequena, quase que boa porque era como se você fosse chegar a qualquer momento, abrir a minha porta e me fazer rir de novo, como nunca, mas agora? agora você nunca mais vai entrar por porta alguma, e fica ai essa ausência que eu já preenchi com tanta coisa, com novos amigos, com bebidas, comidas chocolates e todo meu problema eu sei, é falta de você. Certeza de saber que eu não posso mais ligar, ou te chamar e nem trocar cinco palavras com você eu posso, eu nem posso te dizer "caramba, eu sinto saudades de você, seu idiota" como eu fazia antes disso tudo acontecer, porque agora ficou tudo tão estranho, sem propósito, eu nem sei o que eu faço eu senti tanto a sua falta esses dias, tanto. Eu quero explodir o resto do mundo só porque eu sinto falta de você, eu sinto raiva das outras pessoas a minha volta não serem você, porque elas nunca vão ser mesmo que elas tentem. Você era assim, você. A pedra mais preciosa da minha coleção, o tipo de ser humano que eu que vem com uma etiqueta "a espécie mais rara de ser humano que pode existir". E lá estão as outras pessoas com essa espécie rara de ser humano sem nem se darem conta, fala pra elas, explica que é algum tipo de pedra preciosa que você é, fala pra elas cuidarem bem de você já que eu não posso. Faz tudo isso enquanto eu tento viver com esse monte de gente, sabendo que eu já possuí a espécie mais rara de ser humano que podia existir, e que ela se foi e que enquanto eu não encontrar ela de novo, tudo que eu vou saber fazer é me perder e me perder nesse caminho sem saída que eu entrei e que parece não ter mais volta e que só você (sem saber) tinha o mapa.

Amor que nada, o que eu sinto por você ainda não tem nome.
(Transcende)

14.5.10

diálogo imaginário número do fim em reticências.

- oi.
- oi.
- é legal essa música que você tá ouvindo.
- eu sei.
- eu fiz uma influência notável em você, hahaha.
- nem tão notável assim. mas a música é boa.
- para mentes evoluídas.
- é. me diz uma coisa, por que você resolveu falar comigo agora?
- eu não sei, eu acho que eu sinto sua falta.
- como?
- como assim, como?
- embora você pareça não saber, existem inúmeros jeitos de se sentir falta. e você provavelmente sente falta dessa amiga-mãe que eu costumava ser pra você.
- é só saudades.
- não é, é dependência. você podia me deixar em paz, cara.
- eu queria que a gente continuasse amigos.
- você devia ter pensado nisso antes de fazer tudo isso que você fez.
- tudo isso o que?
- tudo isso que você sempre faz. não se explicar, pedir umas desculpas sem sal, fingir que eu não existo e depois agir como se nada tivesse acontecido.
- eu só não sabia como me aproximar.
- eu sei, eu não estou te culpando.
- então você vai ser minha amiga?
- eu nunca deixei de ser sua amiga.
- por que?
- porque eu nunca fui sua amiga, apesar de ser.
- e o que isso quer dizer?
- todas as coisas que mesmo que eu explicasse em diagramas você não entenderia.
- caramba, eu não queria te magoar.
- mas magoou.
- eu te peço desculpas.
- eu já te desculpei.
- e esqueceu?
- impossível esquecer.
- como você me desculpou então?
- porque eu te conheço tanto que sei fazer um tratado justificando o porquê de você ter agido assim comigo. e o pior é que todo esse tratado faria sua ação tão tremendamente justificável que não tem como não te desculpar.
- e qual é o sentido nisso tudo?
- existe e não existe um sentido. existe todo o sentido de todo o porquê de você ter feito todas essas coisas, mas nisso tudo não existe um sentido.
- o que você acha que vai acontecer comigo?
- te dou seis meses pra você se decepcionar. três pra pensar em me pedir desculpas. e mais o resto da sua vida pra você não fazer nada a respeito.
- você realmente acha que eu errei né?
- eu tenho certeza.
- e por que?
- porque eu te conheço.
- e o que vai acontecer?
- não sei, eu só sei que um dia você vai voltar a ser triste.
- por que?
- porque toda essa felicidade é pela metade e por mais que você tente justificar que toda a felicidade nunca é perfeita, todo mundo sabe que não é assim.
- eu não sei o que te dizer quando você me diz essas coisas.
- você nunca soube. mas eu sei o que você diria. diria pra eu te esquecer, que você está em outra agora e que você está feliz e embora eu esteja apegada a uma imagem, a imagem que existe na verdade é essa e tem aquela palavra que você gosta muito que se chama "desapego" que você ia usar também e com ela justificaria suas babaquices.
- e você?
- eu ia fazer que sim com a cabeça, te dar um abraço, e dizer que eu espero que você seja feliz.
- e o que você vai fazer agora?
- a mesma coisa.
- e vai ser sincero?
- exceto a parte em que eu concordo com você.
- por que?
- porque eu sei que não é assim.
- por que?
- porque qualquer um sabe que não é assim.
- e eu?
- você precisa ouvir que está certo, ganhar um abraço e ouvir alguém dizer que espera que você seja muito feliz.
- mas eu espero ser muito feliz, e eu sei que eu estou certo.
- você acha que você está certo, e ninguém vai te provar ao contrário agora.
- você quer dizer que eu vou descobrir que você é o amor da sua vida?
- não, eu não sou o amor da sua vida. eu nunca fui, nunca senti assim.
- e quem é então?
-o dia que você encontrar você vai perceber que a felicidade quando é de verdade, geralmente é completa.
- você realmente acha que esse dia vai chegar?
- os dois. o que você descobre que está triste e o outro em que descobre a felicidade completa.
- e onde você vai estar?
- do seu lado.
- quer dizer, eu vou estar com você?
- não. é que existe uma coisa que você ainda não percebeu. Eu sempre vou estar ao seu lado, independentemente de. eu vou olhar pra você, concordar, te dar um abraço e esperar que você seja muito feliz.
- e qual é a diferença se você está fazendo isso agora?
- é que eu espero pelo dia que seja sincero. e que embora eu diga que eu espero que você seja muito feliz, no fundo eu já saiba que você vai ser.

- eu te amo.
- eu sei, eu te amo exatamente do mesmo jeito.
- e como é isso?
- é um eterno estar um do lado do outro até esperar o dia que ao desejar que o outro seja feliz, e ao fazer isso, olhar nos olhos e perceber que ele já é.

Porque todo amor de verdade só se (re)transforma em amor.

2.5.10

Sua menina.

" Você trata muito mal sua menina, um dia ela vai puxar o carro. De sua barba mal feita, seu catarro. Um dia ela vai encher o saco. Você trata muito mal sua princesa, um dia ela vai virar a mesa. Seu olhar só vê o seu umbigo. Um dia ela vai ficar comigo.

Você olha para ela com desprezo, como um déspota destrata uma empregada. Das grades do orgulho onde está preso, você maltrata a sua namorada. Seu terno engomado, seu perfume, seu tédio, seu remédio digestivo, seu eterno pesadelo de ciúme. Um dia desses ela vai te dar motivo. E ficar comigo. E ficar comigo sim. Vai ficar comigo. Vai ficar comigo só.

Você trata muito mal sua pequena, um dia ela vai sair de cena. E o remorso vai te torturar sem pena, quando a vir ao meu lado no cinema. Você trata muito mal o seu amor, não rega com carinho a sua flor. Depois de ver o que você já fez, com certeza ela vai sumir de vez. Vai sumir comigo. Vai fugir comigo. Vai sumir comigo sim.

Vai ficar comigo. Ficar só comigo. E você vai ficar só. "

(Arnaldo Antunes - Sua menina)

E se fosse simples como diz arnaldo, seria um clic. Mas não é. E o que é o amor senão uma peça em que as pessoas de despem do orgulho antes de entrar em cena e empalidecem na sacada esperando alguém que (quem sabe ) nem vai voltar, de braços abertos e mals de alzhaimer, esquecendo tudo e prontos pra começar (tudo) outra vez. Apegados apenas a (in)certeza de serem felizes, imensamente felizes. E amarem. Tanto. E só.

29.4.10

Your spot.

Se pelo menos eu soubesse sentar em algum outro lugar do sofá que não esse eu saberia maquiar a vontade de te ter ao meu lado em peito pra encostar, em olhos perdidos no horizonte e em saudade. Saudades que me vêm, me voltam assim como qualquer coisa dessas, banal, no meio de músicas que nunca tiveram a ver com a gente, no meio de coisas que nunca foram nossas e no meio de sentimentos que eu achei já ter esquecido. Se pelo menos eu soubesse sentar em outro lugar no sofá que não esse eu esqueceria que eu vivo guardando um lugar na sala - e no coração - pra quando você resolver voltar.

26.4.10

Solução ácido-base

E em que te amar é como um ácido. E corrói.
De lembranças: - química.

18.4.10

You'll look for me and I'll be gone.

Tudo que eu um dia senti por você formou um livro que hoje dorme na minha gaveta por falta de contingente. Metaforicamente ou não. Costumava ser um belo livro e por um dia eu achei que seria um best seller mas as coisas não são exatamente como a gente imagina. Mas eu nem imaginava tanto assim. O prefácio mesmo dizia que eu nunca esperei nada em troca de tudo. O que é absolutamente normal, se você entendesse um pouco sobre grandes sentimentos, doação, essa coisa toda que só quem amou de verdade entende e já soube fazer doer. É engraçado isso. Isso da nossa história de repente formar um livro cronológico com uma grande declaração sem fim. Pequenos príncipes envolvidos e tudo, exatamente do jeito que deveria ser o que nem chegou a ser uma história tão grande assim. Eu lembro de tentar te explicar quase no fim que aquilo não era literatura, era de-mim-pra-você e agora eu me pego pensando o quê? o que exatamente era de mim pra você e eu te juro que eu não consigo lembrar do sentimento exato, mas os escritos dizem que era um grande amor, desses de mover montanhas e brilhar olhos.

No seu livro deve ter um ponto final bem grande e você contando, no próximo capítulo, orgulhoso, o quanto você com a sua distância soube fazer eu me desapegar de você. Exatamente com essa palavra de-sa-pe-gar. E deve ter no segundo parágrafo que a explicação para a sua atitude é essa palavra aí de-sa-pe-gar. Só que a doutoura em semântica sempre fui eu, você só ilustra seu livro. Vai fazendo desenhos, colocando imagens. Vive fatos. Um atrás do outro correndo em busca da felicidade. Como num filme sem roteiro. E filmes sem roteiros as vezes terminam em grandes fracassos sem nenhum sucesso de bilheteria e com o esquecimento total do protagonista, enquanto os coadjuvantes as vezes conseguem algum sucesso em outros filmes, até mesmo como protagonistas. Mas não é disso que eu estou falando. É da nossa grande história.

Então eu te explico, como boa continuista que sou, que a consequencia da sua atitude talvez seja o de-sa-pe-gar, mas que a razão é bem diferente. E fica ali entre covardia e falta de caráter e passa um pouquinho pela falta de consideração. Consequencia normal da não reciprocidade de sentimentos é o desapego. Acontece sem ninguém precisar forçar. E é bonito esse (des)apegar. É como ir perdendo o medo lentamente da montanha russa em voltas repetidas até você conseguir lembrar da montanha russa como uma coisa bonita. Mas sua atitude só foi, como eu posso dizer, decepcionante. E não tem nada a ver com o desapego que você queria propor. Tem a ver com a sua covardia. Com o você saber que não saberia como lidar comigo enquanto eu me desapegava de você e então resolveu fazer tudo da maneira mais fácil e rápida, que é sair pra comprar cigarros e nunca mais voltar.

Exatamente como naquele filme, em que a menina fica presa ao fogão enquanto o cara foge e some em busca de uma vida, porque ele não sabe lidar com aquela que ele tem, e nem com a garota loira que hoje trabalha num cabaré. Engraçado pensar que no teu filme você talvez um dia teria escolhido ser esse cara, e parabéns, hoje você é. Só que sem dignidade nenhuma e sem nenhuma poesia, dessas dignas de filme. Mas eu não tenho ressentimentos, é exatamente como aquele trecho em que ela fala que tentava ter longas conversas com você, até o dia que não lembrava mais da sua voz. Isso é desapego. E tem dor. Eu não sinto dor, nem desapego. Eu só desisti de você, tão racionalmente que talvez você agora se sinta orgulhoso de tudo que fez.

Mas não se sinta. Orgulho não é o que você deve sentir pot você mesmo. Tem que ser alguma coisa entre arrependimento e medo. No meu livro você sempre esteve, ali, coadjuvante e é justamente pelo respeito que se deve pelas pessoas que fazem parte da sua história é que eu não merecia ter desistido desse jeito. Você merecia. Mas nós mereciamos um desapego. Desses de aprender a não ter medo de montanhas russas. Desses de lembrar de tudo com carinho, mas você estragou tudo.

E talvez, a parte boa é ter conseguido não sentir nem peso por tudo o que você já não significa pra mim. Você deve pensar que vai ser melhor assim pra mim. Mas não vai. Eu consegueria te esquecer de uma forma bonita. Eu merecia isso. Eu só quero que você saiba que você foi embora sim, e por mais que isso tenha sido bom, você me deixou amarrada no fogão. E esse tipo de marca, esse tipo de machucado é do tipo que marca pra sempre.

Seis, sete anos depois talvez você me encontre em algum lugar e eu tenha que te contar como se deu tudo, essa separação brusca e quem vai saber se até lá eu vou ter raiva, ou se não vou sentir nada, ou se vou dizer que eu te entendo. Mas o que eu queria te dizer, é que tudo que você tem, igualzinho, do personagem que você admira é isso, ser um fugitivo. Você saiu correndo. E sinceramente, cara, isso não é admirável, ou orgulhoso e nem tampouco foi nobre para comigo. Eu não vou te agradecer. Eu não vou te entender. Tudo que eu sei é que você é igualzinho a ele. Um fugitivo, um covarde. Talvez com um pouco de nobreza.

Mas saiba que nem sempre a nobreza redime. e nem sempre o amor salva. eu odeio te conhecer tanto quanto eu conheço, e no meio de tudo isso ainda entender suas razões, a covardia e a indiferença. Eu sei exatamente. Não precisa me explicar. Mas hoje não se justifica mais. Porque eu não te amo e nosso jardim secou. Pode ser o que você queria, mas não precisava ter sido assim.

Mas eu (ainda) espero que você seja feliz. Hoje sem lirismo ou poesia, e sem mim. Mas feliz.

14.4.10

Engenheiros explica.

"Eu me lembro muito bem, como se fosse amanhã,
O sol nascendo sem saber o que iria iluminar.
Eu abri meu coração como se fosse um motor
E na hora de voltar sobravam peças pelo chão

Mesmo assim eu fui à luta... eu quis pagar pra ver

Onde estavam as armas químicas? O que diziam os poemas?

Afinal de contas o que nos trouxe até aqui?
Medo ou coragem? Talvez nenhum dos dois
Sopra o vento, um carro passa pela praça
E já foi... já foi

Por acaso eu fui à luta... eu quis pagar pra ver."
(Engenheiros do Hawaii in armas químicas e poemas)

( minha ex história de cinema, humberto gessinger explica. Abre-se o coração como um motor, que no fim se desmazela em partes que ficam pelo chão, perdidas. Coisas de quem vai a luta, de quem decide pagar pra ver e no fim, nenhuma arma química destruiu nada e nenhum poema dizia nada além do que dizem os poemas normalmente - o poeta é um fingi-dor finge a dor que deveras sente, fernando - nem medo, nem coragem. Nenhum dois dois. Enquanto o vento sopra, um carro (ou uns carros) passam pela minha sacada e tudo que eu consigo pensar - com alguma paz vinda sei lá daonde, mas graças a ela - é que já foi. E por acaso - e só por acaso - eu fui a luta, e eu quis pagar pra ver )

O que só eu escrevia e não sabia nem sentir, hoje, engenheiros explica. Sem descuido ou poesia. Cru, e que assim seja.

10.4.10

Schrödinger's cat

Tem uma adaga daquelas grandes cravadas no meu peito, sangra, sangra e eu continuo andando. Soldado ferido em batalha, em céu aberto, fratura exposta no corpo e no coração. O osso aparente, as veias, tudo se foi e sobra aquilo, a casca. Uma casca oca e imensa, extremamente acostumada aos disfarces da guerra. Uma casca feliz, que sorri frente ao tiro, a batalha perdida (mais uma!) e a fratura exposta no corpo e no coração. Uma csaca linda, sorridente, perfeita. Que bebe, sorri e não é intempestiva em momento algum. Uma casca sóbria, feliz, perfeita e compreensiva.

Tem uma adaga daquelas grandes que você cravou no meu peito. Sangra, sangra sangra e eu continuo andando e se você pedir, eu te dou a mão e finjo que não doeu.

11.3.10

a saudade é arrumar o quarto de um filho que já morreu.

É difícil te dizer essas coisas.
Mais difícil ainda porque tenho tentado repetidamente há alguns meses sem sucesso algum. Não que eu não saiba as palavras certas. Você tem que concordar comigo que de palavras eu sempre entendi. De amor nem tanto, mas sobre palavras, como colocá-las da maneira certa pra te atingir aqui ou ali eu sempre soube. Talvez saiba até hoje, mas já não tenho tanta certeza.

Existe algo, aqui dentro, que vem quebrado repetidamente. Todos os dias quebra mais um pouquinho. Não sei se você entende sobre coisas que quebram. Eu sempre fui a quebrada das coisas. Você sabe, bem por detrás do meu sorriso bonito sempre teve alguma coisa quebrada. Dor, ou qualquer coisa assim. Aquela coisa que você olhava ou ouvia e depois me dizia que não sabia como agir quando eu lhe dizia essas coisas. Eu sempre achei bonito. Bonito esse seu não-saber-mas-querer. Eram momentos assim que me faziam querer te guardar em caixinhas. Daquelas pequeninas, ali na estante. Sentimento. Dos bons.

Eu tenho repetido rotas. Rotas que repito todos os dias, repetidamente. Comigo, com outras dez pessoas, com uma só, só que outra. Partes do meu cotidiano assim, imagens daquelas tão corriqueiras que se nos pedirem os detalhes a gente nem lembra. Faz um tempo que em todas as minhas rotas lembro de você. E não importa quantas vezes eu tenha passado lá com outras pessoas e nem quantas vezes ou quanto tempo faz desde que o trajeto não é feito com os seus pés de tênis sujos do lado do meu, mas tudo grita: vo-cê. Em detalhes.

A esquina em que um dia deixei você ir e fiquei te esperando, sentada, vendo o sorriso bonito. O caminho que devo ter feito dez, vinte, sessenta e sete vezes desde a única vez que o fiz com você, mas lembro é de ti, em detalhes. Me lembro do dia que te esperei e te vi. Me lembro do único dia que me esperastes, nervoso. Me lembro dos teus pés do lado dos meus, silenciosos quase e eu gritando nervos, falando demais, como sempre-sempre. Me lembro de primeiras vezes, de únicas, de rotinas esquecidas aqui e ali. Me lembro de você. Do cheiro e do sorriso. Do jeito de rir, dos dentes errados, do desajeitamento, da altura exata e até das vezes que eu deveria ter prestado mais atenção eu me lembro.

Tenho me lembrado, que nem doença, de você.
Me lembrado como se lembra das pessoas que morreram. O não as ter nos faz lembrar delas em trajetos e rotas e rotinas. Faz lembrar do que um dia se teve e não se vai ter mais. Por fatalidade. Um dia você acorda e te contam que aquela pessoa nunca mais fará parte da sua vida. Nunca mais os telefonemas, as visitas, as tardes e as rotinas.
Nunca mais.
E é quando você começa a viver com lembranças. Me lembro do dia que. Daquele outro dia que. Da camiseta verde. Da camiseta azul marinho. Da bolsa. Da carteira. Lembranças. Lembranças que qualquer dia somem e só sobra a essência. O cheiro de morte, tudo que deveria ainda ser e não é mais.

O que eu quero dizer, sem eufemismos ou tragédia demais, é que você morreu pra mim. Não por dentro. Ninguém morre por dentro de ninguém. As pessoas que morrem continuam tão vivas ou mais vivas que as pessoas que respiram e andam perto da gente. Mas em algum lugar, você morreu. Um dia eu acordei e te vi, morto, sem nenhuma respiração ou aspiração na minha vida. Tenho contado os dias, e os meses. Tenho vestido meu luto. Tem doído. Eu tinha resolvido não aceitar. Eu tinha vestido meu luto na frente da porta e esperado você voltar. Todos os dias eu esperava você voltar. Todos os dias a saudade aumentava um pouco. Todos os dias a dor aumentava demais. Cada pedaço de terra, de rua, de comida ou de livro me lembrava você. Eu tenho um quarto todo mobiliado com coisas suas desde que você morreu. Eu tenho esperado como a mulher que perde o marido na guerra ou a mãe que espera o filho desaparecido. Eu tenho sentido as saudades mais doídas. Todos os dias.

Mas hoje eu olhei a ausência e pensei na falta de sentido que faz conservar os mortos. O falar em cada conversa, o esperar em cada jantar, o guardar os presentes e as lembranças. E é isso que eu queria te dizer, que eu espero que você morra dentro de mim, como já morreu fora. Delicadamente, causando pouco estrago, aos poucos. Eu não espero acordar amanhã e ver você morto dentro de mim. Eu sei que eu ainda vou me recolher no meu luto algumas vezes, sei que ainda vou chorar sua partida, e mais que tudo vou desejar que você estivesse comigo, vivo e falante, com todos os trejeitos que eu conheço tão bem.

Mas por hoje, eu decidi que eu quero que você morra, e é isso que eu queria te dizer. Faz tanto tempo que você se foi e eu aqui, cultivando essa saudade, esse vazio essa vontade de. Eu não posso mais, o te ter viva em mim é que me faz morrer.




28.1.10

carta que eu não vou mandar #1

Oi.

Era essa parte aqui em que a gente dedicava um livro, uma piada, uma frase de efeito, mas não. eu não quero ser rude nem nada, mas essa fase entre a gente já passou. eu já te dediquei todos os meus filmes, livros, textos, todas as minhas importâncias já estão aí com você. e eu guardo as suas comigo. desde seu filme preferido até seu vício pelo desenho eu guardo em mim e eles já me fizeram uma partezinha nova do que eu sou. então eu vou pular essa parte. eu sei que você gostaria de ouvir de alguém toda a trajetória de como a pessoa foi cativada por você, raposa, mas a gente deixa isso pra depois. não que eu seja incapaz, porque na verdade eu sei exemplificar nossa trajetória com filmes, músicas e metáforas bobas mas nós não temos tempo pra isso. nós precisamos ser felizes e nós precisamos agora. nesse instante. eu sei que você vai se perder de mim no momento que eu piscar e além disso o mundo é cheio de reviravoltas e deus sabe até quando a gente vai ter essa afinidade quase infinita. você nem sabe o poder que o mundo tem em separar as pessoas umas das outras então se eu não te falar isso agora, logo depois você já vai ter ser perdido e vai ser tarde demais. aí a gente vai ter que esperar outro reencontro cósmico e a gente nunca pode ter certeza se ele de fato vai acontecer, porque pode acontecer da gente sumir pra sempre um do outro e isso cara, disso eu não ia me perdoar. então o negócio é o seguinte: nesses meus vinte anos eu já encontrei alguns caras por aí mas que nem você nunca houve. tiveram uns parecidos, uns que eu amei até me machucar demais, mas ninguém nunca riu comigo assim do jeito que você riu e nem me deu essa sensaçào desse o primeiro contato de: é você. a única pessoa que fez isso comigo foi você mesmo e eu tenho que te contar isso antes que venha um guindaste e te jogue em um lugar que nem todos os meus poderes são capazes de te alcançar. eu estou gostando, de alguém. e eu não sei se gostar é a palavra correta, mas a grande verdade é que resumindo tudo eu quero ficar com essa pessoa. " pra ver no que dá" seria uma explicação plausível, mas a grande verdade é que eu quero tentar porque eu aposto todo o meu dinheiro nesse cara e como você já deve ter desconfiado esse cara é você. então a grande coisa é que eu acho que você também não se arrependeria de tentar. eu te prometo não te deixar mesmo que a gente não dê certo, porque eu te considero pra caralho. mas assim, eu acho que a gente vai dar então eu estou te pedindo essa chance. uma chance pra você confiar no que eu digo mais uma vez. eu poderia listar os porques, mas entre muitas coisas eu sei cozinhar e até aprendi a fazer café. eu acho que isso deve valer de alguma coisa. se não valer, eu acho que eu devo dizer que antes de te conhecer eu era como o baby, o porquinho atrapalhado e totalmente desacreditava de tudo e desde que você apareceu na minha vida nasceram coisas em mim que me fizeram capaz de virar pastora de ovelhas e eu acho que isso deve significar alguma coisa bem grande. então se um dia você quiser tentar por favor me avise porque a grande verdade é que eu espero por você desde o dia em que você me cativou ( e isso faz tempo!) e vou continuar esperando o tempo que for necessário.

e se você ainda estiver se perguntando porque uma pessoa esperaria tanto por outra, em caso dessa carta não ser explicita o bastante é simplesmente porque é impossível não começar a amar alguém que transformou um porco desacreditado em pastor de ovelhas e quem ama (além de todas as outras coisas ) espera ( o tempo que for ). e é, eu te amo.


Perdida entre as coisas que eu nunca mandei, que vire literatura.

17.1.10

Punchdrunk lovesick singalong

E então ela chega em casa e ele não está mais lá. Rápido. Exatamente do mesmo jeito que ele entrou na sua vida ele se foi. Deu tempo dele se instalar e esquecer de levar alguns livros, uns filmes e umas três camisetas. Deu tempo dele deixar inúmeras e incontáveis memórias. Umas atrás da outra. Café, ônibus, celular, almoço, beijo, tristeza, livro, risada, altura, desajeito, brigadeiro, panela, sacada, água, banqueta, bolacha, chocolate, computador, filme, filme, filme, ligação, corrida, cinema, panqueca, lasanha, seriado, mania, mania, mania, consideração, timidez, amor. Não necessariamente nessa ordem mas é assim que os pensamentos se dão. O armário, o sofá, a almofada, os jogos, a cozinha, a garrafa d'agua, as colheres, os passos, a chave, o interfone, a internet. Tudo lembrava ele de uma maneira ou de outra, assim, desavisadamente como se dá qualquer memória de qualquer amor que chegou ao fim. Ele se foi pra ficar com alguém que nunca nem tinha entrado na história e depois do lento afastamento ela olhou pro lado e só tinha aquilo: ausência. No primeiro dia de todas as ausências, quando as pessoas percebem que o rompimento era um fato consumado, ela, que nunca bebia, tomou cinco copos seguidos de toda bebida que conseguiu imaginar. Pra esquecê-lo. Depois da euforia anterior tudo lembrava de novo ele e ele e ele ele ele ele ele. O copo, o lugar, o colchão, a cama, o vinho, a risada, a piada, a falta, a falta, a falta, a falta. Bebeu até querer vomitar, até subir fogo pelo estômago. Queria vomitar ele, queria tirá-lo de dentro dela assim, como se vomita alguma coisa que faz mal. Assim, como o organismo se encarrega de eliminar qualquer coisa que esteja em excesso. Tinha excesso dele, queria vomitá-lo, vê-lo descendo descarga abaixo, morando no esgoto, pra nunca, nunca, nunca, nunca mais voltar. Simples e sorrateiro assim. Exatamente como no dia em que ele bebeu-a e ela nunca nunca nunca mais conseguiu se livrar dele. Pois nem vomitou bebida e nem vomitou ele. Sentia apenas um peso, uma ausência, uma falta de. Uma azia, uma ânsia. Uma ânsia de viver, de estar e de tentar sobreviver no meio daquela ausência enorme. Ela tão pequena, a ausência tão grande grande grande que não cabia nem dentro dela e nem dentro de trinta copos seguidos de coisa alguma. Clichê. Mal estar. Azia. Ânsia de estar vivo e amar aquilo que já não é, já se foi, nunca voltará a ser. Mais uma história de amor. Todos os seus planos, casar, tarde, filhos, cafés, chás, chocolates, corridas, felicidade felicidade felicidade, sorrisos , ansiedade, águas, recados, cartas, livros, filmes filmes filmes, sentimento, amor. Tudo resumido a uma canção de amor clichê pra se cantar bêbado.

13.1.10

Doer.

Eu tentaria qualquer coisa. Fumar um cigarro, um copo de vodka barata, apertar os lábios até sangrar. Qualquer coisa, só pra você não me doer mais. Nunca mais.

Every man has your voice.

"Eu... Eu costumava fazer longos discursos depois que você foi embora. Eu costumava falar com você o tempo todo, mesmo quando eu estava sozinha. Eu andei por aí por meses falando com você. Agora eu não sei o que dizer. Era mais fácil quando eu só te imaginava. Eu até te imaginava me respondendo. Nós tínhamos longas conversas, nós dois. Era quase como se você estivesse lá. Eu podia te ouvir, eu podia te ver, eu podia sentir o teu cheiro. Eu podia ouvir a tua voz. Às vezes a sua voz me acordava. Me acordava no meio da noite, assim como quando você estava no quarto comigo. Então... isso de repente desapareceu. Eu não conseguia mais te imaginar. Eu tentei falar em voz alta com você, como eu costumava, mas não tinha nada lá. Eu não podia te ouvir. Daí... Eu só desisti. Tudo parou. Você só... desapareceu. E agora eu estou trabalhando aqui. Eu ouço a tua voz o tempo todo

Todo homem tem a tua voz."
(Paris, texas)

11.1.10

Da sua ausência não sei dizer.

Sempre soube falar sobre ti. Assim, sei te contar em mil e vinte sete maneiras diferentes. A minha melhor parte, o pedaço mais bonito de mim. Sei contar a nossa história com todos os detalhes que uma história bonita deve ter, sem ter que inventar nada além do que ela realmente é. Você sempre foi a parte mais bonita de mim, assim, em primeira pessoa do singular. Eu só existi completa quando na sua presença. Me ensinaste sobre amores e tristezas e dores e sobre consideração. Me mostrou algumas vezes que uma pessoa pode ser bonita pelo simples fato de existir. Fostes meu verbo, minha canção e meu céu azul por um tempo muito maior que o tempo que se contam nos relógios. Foste também meu tempo, meu lindo tempo de infinito que existia quando você em mim. Saberia contar de todas as nossas aventuras em detalhes, como quem narra um romance adolesecnte, como quem escreve um roteiro de filme de comédia. Te literaturei das maneiras mais bonitas que pude, fostes meu personagem mais completo. Aquele que eu adoraria ler se um dia fosse o caso. Sei falar das suas manias mais irritantes como quem defende aquilo que mais ama. Sei defender o jeito com que tomas tudo como se fosse seu e sei também, claro, dizer que entendo todas as decisões que você tomou e elencar porquês mesmo quando você mesmo acha que tomou a decisão errada. Sempre te defendi com a bravura de quem ama demais a outra pessoa. E lutei por você. Até o dia em que deixei você partir.

Podia falar de ausencias e faltas. Das milhares de coisas que você deixou aqui, e das minhas coisas contigo. Das manias que eu tenho só por sua causa e as coisas ridículas que você ama e eu aprendi a amar. Sei falar de todas as coisas como se você ainda estivesse aqui, só não sei falar da sua ausência e de todo esse emaranhado que se faz quando eu penso nisso de deixar você ir e entre mandar você voltar. Eu nem lembro mais como foi exatamente o dia que eu resolvi que eu te deixaria ir. devia ser um dia qualquer e devia ser eu exausta de não te ter mais. Não me lembro o dia, a hora a roupa que estava usando e nem se fazia sol. Só sei disso, te deixei ir. E só sinto isso, ausência. Uma ausência tão enorme que eu não posso te dizer como ela se sente. Posso elencar objetos. Posso te falar dos risos que faltam. Posso te dizer das palavras que não saltam mais e dos convites que não mais aparecem. Posso te falar de um lugar no sofá de umas comidas. Te dizer até de um folheto que um dia eu quis guardar e acabou indo com o lixo, até disso eu posso te falar mas eu não sei nem o que eu sinto com isso.

Às vezes você me dói. Fundo. Objetivamente junto com as coisas que eram suas e hoje são minhas meio que do jeito que eu quis que fossem. Queria te chegar e falar tantas coisas. Não dessas que eu solto assim quando escrevo, mas coisas pra você, coisas entre eu e você que eu podia entitular como "tudo o que eu queria te dizer antes de você partir". Assim, como se você tivesse pegando um ônibus para o outro lado do país e eu precisasse te deixar com a certeza de que você sabe de tudo que eu um dia senti por você. E eu não estou falando de amor nem nada dessas babaquices. A coisa agora é sentimento. Eu tinha um monte de coisas pra te falar antes que você partisse. Coisas minhas. Mas você nunca me deixa falar nada e vai indo embora embora embora. E eu desisto de te entregar coisas pra que você leia depois no momento exato que penso em escrevê-las por mais que eu saiba que é necessário que você saiba de mim antes de partir de vez. Mas eu não sei falar sobre a sua ausência. Nem pra mim mesma, quanto mais saberia elencar todos os fatos que eu tinha que te falar antes de você partir. Justo pra você que resolve partir antes mesmo de eu querer que você vá. Justo pra você que era a única presença que realmente importava e eu resolvi deixar ir.

Eu queria saber falar de nós, mas eu só sei falar de mim. Ou de você. Assim, separadamente como sempre fomos. Eu queria te deixar ir também. Pra muito longe. Mas com a única condição que você me esquecesse de vez. E quando eu digo esquecer eu digo apagar da memória. Eu posso deixar até minhas coisas com você e você pode até esbarrar com umas partes minhas (eu sei que deixei algumas várias nesses ultimos meses) mas mesmo assim você não irá sentir falta. vai olhar pro meu pedaço em você e vai deixar de lado junto com os jornais lidos. Junto com tudo que um dia foi importante mas hoje não tem mais razão se ser. Só assim você pode ir.

Mas você não vai. E essa é a pior parte. Se pelo menos você fosse e mudasse de vez eu ia conseguir falar da sua ausência. Mas me diz, que ausência? Eu te deixei ir. Eu não apareço mais nas horas inoportunas, eu nem te ligo mais pra saber como você vai e eu nem me interesso em saber das coisas que você gosta. Mas você vem me contar. Assim, inesperadamente, você vem me dizer das coisas que você gostou e depois vai embora. Exatamente do jeito que veio. Ocupa sua cadeira por quinze minutos, até menos, e volta pro seu país. Aquele em que eu não quero entrar. Te vejo no ônibus e fico te dando tchau esperando que você vá de vez, mas você nunca vai.

Eu não tenho mais medo. Se um dia você resolver me deixar tudo seria bem mais simples. Com o tempo ia ser difíxil lembrar a sua voz, o jeito que você ri e o que te faz sorrir. Ia sobrar uma saudade, mas eu já tenho saudade de tanta coisa. Tem tanta coisa que se foi guardada aqui e ali que minha casa e meu coração tem espaço sobrando pra saudades e ausências. Você ia ser mais um na estante ali, guardado, do lado dos meus amigos que eu não vejo mais. Exatamente ali. E depois ia existir uma vida toda sem você que só ia te encontrar na rua um dia e pergunta como você vai. Nada mais será como antes. E Partimos.

E eu não sei falar da tua ausência, porque você nem se foi. Está ainda, aqui e ali e eu ainda te procuro nos rostos de todas as pessoas que vejo enquanto caminho pelo caminho que hoje parece meu lugar no mundo. Ainda espero te encontrar de novo porque toda vez que eu te encontro eu consigo ser o que eu era. Eu só preciso te dizer muitas coisas, todas as coisas antes que você parta no seu ônibus com destino a lugares que eu não gosto. Eu te digo, e você vai. Mas se vá de vez porque eu quero conseguir escrever sobre a sua ausência. Não a eminente. A que eu vou sentir, e que vai doer. Mas que enfim, vai ser real.

7.1.10

Eu não podia me deixar dormir sem te dizer isso. Hoje. É, depois disso tudo.
Eu decidi te deixar ir. Faz algum tempo. Deve fazer um mês desde o dia que eu pensei "é hora de te deixar ir". Não por nada. Eu não estou falando de amor. Amor é uma coisa bem mais séria que isso. É quase... É bem mais que amar suas blusas verdes florescentes ou as azuis escuras sem vida. É um pouco mais profundo que isso. E depois de algumas canções, eu resolvi te deixar ir. Não te contei, é claro. Se eu te contasse que eu estava te deixando ir era capaz de eu nem ir de fato, você sabe muito bem como você funciona. Você não ia deixar. E ia continuar marcando o seu lugar na minha vida sempre que pudesse. Depois ia sumir, como você sempre faz. E quem ia ficar aqui ia ser eu, e você com a certeza-vontade boba de saber que eu sempre estarei aqui, no alcance dos seus braços e palavras.

Mas eu te deixei ir. E você foi. Quer dizer, você já tinha ido faz algum tempo nessa sua nova vida estranha em que eu não pertenço. Só que eu ainda tentava te segurar e algumas vezes você passava por aqui pra ocupar alguma das suas duas pontas no sofá. Sabe, costume. Consideração já tinha ido embora fazia um tempo. Uma ponta, umas fotos e um copo de água depois você se foi. Assim. E pronto. E eu sabia que iria. E eu achei que ia doer o mundo, mas nem doeu. Eu, eu estou me acostumando sem você aqui, sabe? Não que eu não me lembre de você há cada dois dias, e não exatamente a cada dois dias, as vezes mais, às vezes menos, todo mundo sabe como funcionam essas coisas estranhas de lembranças. Acontecem e depois vão embora, desse jeito assim mesmo.

Daí eu desconstruí seu castelo, esqueci o teu telefone que eu sabia de cor e me prometi não te ligar ou te mandar mensagens toda vez que eu visse alguma coisa que me lembrasse você. E assim foi. Com o passar do tempo as coisas vão perdendo o quoeficiente você e eu tenho cada vez menos lembranças suas. O melhor de tudo, não dói.

Eu nunca soube como você ia reagir assim que eu te deixasse. Nos meus momentos mais otimistas eu pensava que você não saberia viver sem mim, mas depois de um tempo foi tanto tempo de você vivendo sem mim que eu tinha apenas uma certeza: Você nem ia se lembrar. É sabe, como aquelas músicas que a gente ouvia quando era adolescente e esquece. Só lembra delas no dia em que ouve. Se invade com umas vinte e uma lembranças, ouve mais duas vezes e depois esquece. Fato, a sua vida mudou. Ninguém quer passar a vida toda ouvindo as canções que gostava quando era adolescente. Eu sou sua canção adolescente, é assim, e acabou.

Daí desde então te vejo remexendo em uma parte ou outra da minha vida. Você aparece, descobre que eu ainda estou viva e some. Como sempre fez. É, eu ainda estou viva e eu ainda me preocupo contigo, mas depois acaba. E daí eu penso o que te faz voltar em mim depois que a gente foi embora um do outro, sabe? Assim, descobrir novas partes. Por favor, me esquece, eu já deixei você ir. É claro, eu também te disse que poderia voltar, mas não assim, tropeçante, por partes e esquisito como você gosta de fazer. Isso seu eu não quero mais, eu te deixei ir. Agora é a hora que você se vê livre de mim, sem obrigações de aceitar meus convites, sem ter que ouvir minhas palavras meio duplo sentido, sem ter que receber mensagens aleatórias minhas a toda vez que eu lembrar alguma coisa que me lembra você.

Eu te deixei ir e eu quero que você aceite a passagem. E você pode até voltar se quiser, mas só se perceber que aqui é o seu lugar. Caso contrário, me deixe. Você também vai se acostumar com a minha ausência.

30.11.09

Ele se foi.

(mas ele volta)

Ele foi embora. E pela primeira vez desde a primeira vez ele não foi embora pra voltar daqui duas semanas, ou daqui dois meses. Ele se foi. Sem natal, ano novo ou final de semana bonito a ser. Porque a gente assim decidiu. Dizem que quando a gente escolhe as coisas as decisões são mais fáceis e eu juro que acreditei nisso, mas dessa vez não foi verdade. Porque ele se foi. E com ele indo não há parte nessa equação que seja balanceada de um jeito que valha completamente a pena.

Um dia eu achei que valesse. Já pensei em organizar futuros, filhos e tardes de domingo sem ele. Hoje quando eu o abracei não querendo deixar ele ir, eu não quero mais. não por enquanto, não por agora. Dizem que a gente só dá valor as coisas quando perde e talvez esse seja o clichê mais ridiculo e verdadeiro do mundo. Hoje eu abracei o cara não-mais-perfeito-do-mundo como quem queria deixar uma partezinha dele comigo. Ou uma partezona. Ou ele todo aqui comigo do meu lado pra gente voltar pra casa, sentar no sofá e assistir tv. Assim, simples assim. Só sentar e assitir a novela das oito, como milhares de outros casais casados há trinta anos. Mas daquele jeito que é só nosso. Do jeito dele de assistir novelas comigo. Do jeito dele de ter aprendido a ser comigo. Do meu jeito de explicar histórias pra ele. E porquês. Do nosso jeito de tomar refrigerante e comer salgadinho vendo tv.

Se esses fossem de fato, se forem, se tiverem sido nossos últimos quatro dias, não teria jeito melhor de ter terminado qualquer coisa que seja. Todos os nossos dias tiveram gosto daquelas duas horas que a gente passou hoje de manhã. Daquele jeito bonito que é só nosso, de ser infantil e de ficar ali, só por estar. Eu ficaria vinte e sete anos ali no lugar seguro que é o abraço dele. porque ali eu o amei tanto que deu vontade de gritar. e gritei. porque com ele eu posso ser eu mesma. essa, assim, essa criança grande que eu sou. essa criança grande que ele sente maior orgulho de ter do teu lado, me fazendo ter o maior orgulho do mundo de estar do do lado dele.

Mas daí ele se foi. e se foi junto com ele nossa segurança. primeiro foi ele ficando com medo, e desesperando. Depois fui eu. eu que abracei ele querendo deixar todos os pedaços dele comigo. querendo deixar aquele onibus dali e alugar um quarto e sala nosso pra gente morar pra sempre. eu, ele, e nosso jeito de assistir novela, nossos lugares em londrina e nossa vontade de assistir programas toscos. tudo dele em mim, e tudo de mim nele. mas mesmo assim ele se foi. se foi deixando um controle, tres jogos, um negocinho de arroz, uma caneca e mil e vinte nove lembranças desses dois anos que passamos juntos. ele se foi levando com ele um tênis meu,um corte de cabelo estranho que eu fiz e a lenbrança da nossa primeira e última chuva juntos. com um guarda chuva quebrado a gente ali debaixo do relógio. ele leva com ele uma mochila cheia de lembranças (assim eu espero, e eu espero trinta e sete mil mochilas de lembranças minhas) e deixa comigo outras milhares de mochilas de lembrancas. e quartos, e salas, sofás, videogames, comidas, dias, pensamentos [...]

Ele se foi. E deixou comigo um parte dele. E levou com ele uma parte de mim. Uma parte grande, quase um infinito. Quase um buraco negro. Que a gente entra e não acaba. não acaba nunca. Uma parte sem fim. Um monte de partes. Balões da casinha do sr fredericsen em numero de partes. Ele se foi, mas prometeu que volta. jurou, jurou de coração. E eu espero sentadinha pra que a gente complete nosso caderno de aventuras. Porque eu amo ele, e não vou deixar ele ir.