"...Mas eu precisava romper com algo. São quase vinte anos sendo polida, alegre, simpática. São quase vinte anos fazendo o social e me matando por dentro. Estou tentando ser verdadeira em cada linhazinha de mim mesma. em cada vírgula tem um pouco de tudo o que eu tenho vontade. Esse vazio... sabe, essa coisa de acordar todos os dias as sete da manhã, meio atrasada, corre pra pegar o onibus, ouve mp3, vê as mesmas pessoas e nunca fala do que realmente importa me enjoou. Você tá maluca, menina? Maluca, estressada, chateada, emo, chamem com o nome que quiser. Eu estou dizendo que eu estou sendo verdadeira..."
E não. eu não quero uma verdade inventada. inverto a frase da clarice que eu sempre usei. agora, eu só quero viver do que é passível de fazer sentido. pelo menos pra mim.
22.5.08
21.5.08
Adeus.
Mãe,
Eu só to escrevendo pra você porque você é a unica pessoa que vai verdadeiramente sentir a minha falta depois disso. Eu só to escrevendo pra você porque você é a unica que me olha nos olhos enquanto eu falo e que realmente se preocupa com meu bem estar. A você, eu devo satisfações. Aos outros, eu creio que não seja necessário. A única coisa que eu quero que eles saibam é que se eu tomei essa decisão é porque eu não os aguentava mais.
é uma merda de mundo, sabe mãe? quando a gente nasce acha que vai ser diferente e tudo mais. mas sinceramente, eu perdi minhas esperanças. não tem mais jeito dessa coisa melhorar. eu sei que voce vive me dizendo que eu tenho que acreditar e tudo mais, mas hoje eu não aguento mais. mesmo. onde estão as pessoas legais? elas estão escondidas e não aparecem. ninguem que eu conheça me entende, e sinceramente, eu estou cansada de viver sozinha.
eu sei muito bem que eu pareço uma menina forte e decidida, mas você sabe, mãe, que eu não sou nada disso. eu sou tão fragil quanto todo mundo e eu acabo sempre chorando no seu colo no fim das contas. acontece que eu cansei de chorar. eu cansei de não ter colo. eu cansei de segurar as minhas lágrimas atrás desse pouco de pedra bem resolvido. eu cansei de ser sensata, de ser bonita, de ser simpática. eu cansei. e como vocês nunca mais vão me ver, eu me reservo ao direito de dizer tudo que eu tenho pra te dizer. porque eu não vou ficar segurando coisas pra pessoas que não vão poder mais nem reclamar comigopor medo de magoá-las. elas já me magoaram até a boca. eu acho que eu tenho direito de vomitar nelas tudo o que elas fizeram comigo.
O primeiro de tudo, vocês não fazem o mínimo esforço pra tentar me entender. Vocês estão sempre vivendo a merda das vidas de vocês enquanto eu estou tendo ' crises.' afinal, eu tenho essa mania de ser dramática. muito bem, vou apresentar meu drama pra vocês e ele se chama tristeza. sabe? vocês sabem muito bem o dia em que eu precisava conversar. vocês não fazem esforço nenhum pra entender os meus problemas e sinceramente vocês realmente esperam que eu pare de reclamar. eu vou parar. vocês nem sabem, mas eu já parei.
Eu sou uma loser. Pelo amor de Deus, alguem acredita realmente nessa coisa de eu ser essa menina-modelo? hein? alguem realmente acha que eu feliz simplesmente por ser inteligente e ter uma familia legal? vocês realmente acham. Vocês acham que eu reclamo de boca cheia e faço drama demais. Vocês acham que eu fico querendo chamar a atenção o tempo todo. Vocês acham que eu sou forte o suficiente pra lidar com tudo sozinha. Surpreesaa! eu não sou. e se vocês fizessem o mínimo de esforço pra me conhecer saberiam bem disso.
As pessoas que me conhecem - e por favor, não é pra voces que eu estou escrevendo isso - sabem que em cada resposta ríspida há simplesmente uma menina muito machucada que depois de tantos e tantos baldes de água fria resolveu se fechar. a garota que vocês enxergam é a garota que vocês querem ver. A garota pro baixo das risadas altas e das roupas pretas não consegue mais nem olhar no espelho. A garota que vocês não enxergam está a ponto de bater em vocês, um por um. A garota que vocês não veem está surtando baixo pra não fazer barulho.
Eu não sou forte, não sou má, não sou grossa e muito menos seca. eu não sou nada disso. olhem um pouquinho mais e vocês percebem. eu sou uma idiota clamando por atenção o tempo todo. e vocês, vocês são as pessoas passando reto. Acontece que eu cansei. eu cansei disso. e eu estou falando tudo isso antes que seja pior. Eu não odeio vocês, muito pelo contrário. eu gosto muito. mas são incompreensões diárias que fazem com que um dia você resolva simplesmente botar tudo pra fora; essa carne que vocês vêem passendo por aí tem uma coisa que se chama sentimento. eu pareço uma pedra, mas eu sou gente. e eu me preocupo muito mais do que vocês possam imaginar.
Isso é uma carta de desabafo. é uma carta de despedida, mãe. eu sei que você me ama, mas pra mim chega. pra mim chega de manhãs perdidas. de noites mal dormidas. de dias como esses em que todos os meus sentimentos feios transparecem. chega de conversas idiotas. chega de gente com clichê de auto-ajuda, chega de conversas superficiais. eu estou dizendo CHEGA sim, em letras maísculas e eu bem que gritaria se não fosse tão covarde.
Eu estou dizendo que eu cansei. cansei das pessoas a minha volta. cansei de tudo, salvo raras exceções e acima de tudo cansei de ser uma loser escondida numa capa de menina forte. agora eu quero ser uma loser-loser, uma loser clichê que faz merda atrás de merda e perde amigos, mas que pelo menos nao se corta por dentro. isso é um grito. o grito que eu nunca dou porque minha voz é abafada. isso quer dizer que eu enjoei. enjoei das pessoas, enjoei de tudo.
eu estou enjoada e estou vomitando tudo em vocês.
Obrigada, eu me sinto mais leve.
Mãe, eu te escrevi pra dizer que estou indo embora.
Indo embora das minhas convicções, da minha vida medíocre e da mania de esconder o que eu sinto. indo embora das pessoas que não me entendem. indo embora da minha sensatez, das minhas palavras bem medidas, da minha polidez. estou rompendo com tudo que me faz mal. estou fazendo isso pra que eu me sinta bem, porque eu passei vinte anos pensando nos outros. Mãe, estou te escrevendo pra dizer que aquela letícia que você conhceu morre aqui. e que talvez eu mude meu apelido de lê, pra leti que parece ser uma coisa menos estúpida.
Eu cansei de ser estúpida, cansei de sangrar por dentro, e cansei deles, mãe.
Hoje é o dia em que eu grito chego e em que a leticia morre.
Isso é uma carta de suícidio sim, mãe. como você suspeitava. Eu acabo de me matar.
Pra que renasça outra e que essa outra viva e não se esconda, fale e não se cale, seja e não pareça. eu acabo de me matar pra viver.
Isso é uma carta de Adeus. A velha letícia não existe mais.
é dia 22 de maio e eu estou renascendo.
Acharam mesmo que eu ia me matar?
eu NUNCA me mataria por vocês.
Uma coisa a letícia morta e a nova tem em comum. elas tem a certeza absoluta de que vocês não valem a pena.
_________________________________________________________
ps. A letícia não sou eu.
(y)
Eu só to escrevendo pra você porque você é a unica pessoa que vai verdadeiramente sentir a minha falta depois disso. Eu só to escrevendo pra você porque você é a unica que me olha nos olhos enquanto eu falo e que realmente se preocupa com meu bem estar. A você, eu devo satisfações. Aos outros, eu creio que não seja necessário. A única coisa que eu quero que eles saibam é que se eu tomei essa decisão é porque eu não os aguentava mais.
é uma merda de mundo, sabe mãe? quando a gente nasce acha que vai ser diferente e tudo mais. mas sinceramente, eu perdi minhas esperanças. não tem mais jeito dessa coisa melhorar. eu sei que voce vive me dizendo que eu tenho que acreditar e tudo mais, mas hoje eu não aguento mais. mesmo. onde estão as pessoas legais? elas estão escondidas e não aparecem. ninguem que eu conheça me entende, e sinceramente, eu estou cansada de viver sozinha.
eu sei muito bem que eu pareço uma menina forte e decidida, mas você sabe, mãe, que eu não sou nada disso. eu sou tão fragil quanto todo mundo e eu acabo sempre chorando no seu colo no fim das contas. acontece que eu cansei de chorar. eu cansei de não ter colo. eu cansei de segurar as minhas lágrimas atrás desse pouco de pedra bem resolvido. eu cansei de ser sensata, de ser bonita, de ser simpática. eu cansei. e como vocês nunca mais vão me ver, eu me reservo ao direito de dizer tudo que eu tenho pra te dizer. porque eu não vou ficar segurando coisas pra pessoas que não vão poder mais nem reclamar comigopor medo de magoá-las. elas já me magoaram até a boca. eu acho que eu tenho direito de vomitar nelas tudo o que elas fizeram comigo.
O primeiro de tudo, vocês não fazem o mínimo esforço pra tentar me entender. Vocês estão sempre vivendo a merda das vidas de vocês enquanto eu estou tendo ' crises.' afinal, eu tenho essa mania de ser dramática. muito bem, vou apresentar meu drama pra vocês e ele se chama tristeza. sabe? vocês sabem muito bem o dia em que eu precisava conversar. vocês não fazem esforço nenhum pra entender os meus problemas e sinceramente vocês realmente esperam que eu pare de reclamar. eu vou parar. vocês nem sabem, mas eu já parei.
Eu sou uma loser. Pelo amor de Deus, alguem acredita realmente nessa coisa de eu ser essa menina-modelo? hein? alguem realmente acha que eu feliz simplesmente por ser inteligente e ter uma familia legal? vocês realmente acham. Vocês acham que eu reclamo de boca cheia e faço drama demais. Vocês acham que eu fico querendo chamar a atenção o tempo todo. Vocês acham que eu sou forte o suficiente pra lidar com tudo sozinha. Surpreesaa! eu não sou. e se vocês fizessem o mínimo de esforço pra me conhecer saberiam bem disso.
As pessoas que me conhecem - e por favor, não é pra voces que eu estou escrevendo isso - sabem que em cada resposta ríspida há simplesmente uma menina muito machucada que depois de tantos e tantos baldes de água fria resolveu se fechar. a garota que vocês enxergam é a garota que vocês querem ver. A garota pro baixo das risadas altas e das roupas pretas não consegue mais nem olhar no espelho. A garota que vocês não enxergam está a ponto de bater em vocês, um por um. A garota que vocês não veem está surtando baixo pra não fazer barulho.
Eu não sou forte, não sou má, não sou grossa e muito menos seca. eu não sou nada disso. olhem um pouquinho mais e vocês percebem. eu sou uma idiota clamando por atenção o tempo todo. e vocês, vocês são as pessoas passando reto. Acontece que eu cansei. eu cansei disso. e eu estou falando tudo isso antes que seja pior. Eu não odeio vocês, muito pelo contrário. eu gosto muito. mas são incompreensões diárias que fazem com que um dia você resolva simplesmente botar tudo pra fora; essa carne que vocês vêem passendo por aí tem uma coisa que se chama sentimento. eu pareço uma pedra, mas eu sou gente. e eu me preocupo muito mais do que vocês possam imaginar.
Isso é uma carta de desabafo. é uma carta de despedida, mãe. eu sei que você me ama, mas pra mim chega. pra mim chega de manhãs perdidas. de noites mal dormidas. de dias como esses em que todos os meus sentimentos feios transparecem. chega de conversas idiotas. chega de gente com clichê de auto-ajuda, chega de conversas superficiais. eu estou dizendo CHEGA sim, em letras maísculas e eu bem que gritaria se não fosse tão covarde.
Eu estou dizendo que eu cansei. cansei das pessoas a minha volta. cansei de tudo, salvo raras exceções e acima de tudo cansei de ser uma loser escondida numa capa de menina forte. agora eu quero ser uma loser-loser, uma loser clichê que faz merda atrás de merda e perde amigos, mas que pelo menos nao se corta por dentro. isso é um grito. o grito que eu nunca dou porque minha voz é abafada. isso quer dizer que eu enjoei. enjoei das pessoas, enjoei de tudo.
eu estou enjoada e estou vomitando tudo em vocês.
Obrigada, eu me sinto mais leve.
Mãe, eu te escrevi pra dizer que estou indo embora.
Indo embora das minhas convicções, da minha vida medíocre e da mania de esconder o que eu sinto. indo embora das pessoas que não me entendem. indo embora da minha sensatez, das minhas palavras bem medidas, da minha polidez. estou rompendo com tudo que me faz mal. estou fazendo isso pra que eu me sinta bem, porque eu passei vinte anos pensando nos outros. Mãe, estou te escrevendo pra dizer que aquela letícia que você conhceu morre aqui. e que talvez eu mude meu apelido de lê, pra leti que parece ser uma coisa menos estúpida.
Eu cansei de ser estúpida, cansei de sangrar por dentro, e cansei deles, mãe.
Hoje é o dia em que eu grito chego e em que a leticia morre.
Isso é uma carta de suícidio sim, mãe. como você suspeitava. Eu acabo de me matar.
Pra que renasça outra e que essa outra viva e não se esconda, fale e não se cale, seja e não pareça. eu acabo de me matar pra viver.
Isso é uma carta de Adeus. A velha letícia não existe mais.
é dia 22 de maio e eu estou renascendo.
Acharam mesmo que eu ia me matar?
eu NUNCA me mataria por vocês.
Uma coisa a letícia morta e a nova tem em comum. elas tem a certeza absoluta de que vocês não valem a pena.
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ps. A letícia não sou eu.
(y)
18.5.08
Visões de cima.
( essa postagem merecia a foto ilustrativa. Londrina da sacada de casa, por mim )É porque às vezes você se enjoa dos clichês. E hoje sou só eu e eu mesma no meu espaço de quatro metros quadrados ou menos numa quarta feira fria e chuvosa.
Não é sobre estar aqui, e nem são somente as luzes da cidade a me entorpecer e a calmaria de ver tudo de cima. Desde os carros parecendo de brinquedo aos prédios e casas não sendo mais que pequenas luzes ao longe cortando o horizonte. As pessoas daqui onde estou, quando visíveis, não passam de formiguinhas. Insignificantes ante a imensidão do céu, a vastidão do horizonte, dentro de seu mundo particular que não posso mais do que imaginar qual é, já que daqui de cima – e algum crédito dado a minha miopia- não se pode dizer com certeza nem qual é a cor de seus cabelos. Imagina-se por algum trejeito ao andar e as cores das suas roupas, se são homens ou mulheres, se estão com pressa ou se não se preocupam com a hora de chegar.
É noite, as luzes do mercado já se apagaram – sinal de que já se passa das dez – e o movimento da cidade é bem menor do que o de horas atrás. É quase possível sentir um certo silêncio, um passarinho cantando e o ruído quase irritante de uma cigarra. A cidade de noite é cheia de esquinas escuras e medos escondidos entre ruas e passos rápidos. A cidade de noite é silêncio e mistério e o barulho de carros à caminho de casa, de diversão ou de coisa alguma. Talvez seja possível que uma dessas pessoas dentro desses carros esteja andando sem rumo pela cidade. Desbravando ruas escuras a procura de despistar as tortuosas esquinas do pensamento, com ou sem sucesso. Não é impossível que um desses carros encontre a morte num poste depois de uma desatenção e dois segundos de erro na virada do volante. É impossível saber. As coisas de cima são mais calmas e amplas. A cidade de cima é só suposição e um olho que tudo vê e quase nada enxerga. A cidade de cima são pontos luminosos ao longe, carros passando rumo a lugares que não sei dizer e pessoas que mal posso enxergar. A cidade de cima é a tela em branco para tudo o que eu quiser enxergar, é minha imensidão porque tudo parece demasiado pequenino e prédios são menores que a palma da minha mão.
A cidade daqui são ruas vazias e um emaranhado de pontos luminosos onde jazem vidas. Vidas de pessoas que nunca vi e talvez nunca veja. Vidas de pessoas que desconheço. Universos particulares como o meu, nunca inteiramente explorados por ninguém, nem por elas mesmas. A cidade de cima é um mistério. É a complexidade que meus olhos andando de um lado pro outro não consegue capturar. É a constatação que o mundo lá embaixo é vasto, rápido, misterioso e absurdamente complexo. Daqui de cima quase tudo enxergo e nada sei. Nada sei sobre a pessoa que está no carro branco a minha frente e nada sei sobre aquela outra que atravessava a rua a alguns instantes e agora mal posso ver. Não sei o que passa nas suas mentes, pra onde vão, quantos anos tem e nem mesmo o que aconteceu com elas depois que se perderam do meu campo de visão.
A cidade de cima passa muito rápido. Desvio os olhos para escrever no papel e já é uma nova cena. Assim com tudo. não sou a mesma da última frase. E a cidade não é a mesma de milésimos de segundos atrás. É tudo demasiado imenso, demasiado rápido, demasiado complexo para que não se transforme. Nada posso capturar, apenas observar o quadro mutável da cidade que aparece embaixo dos meus olhos – pequenina, porém imensa. Observo um filme sem personagens fixos, sem história, sem roteiro definido. Tudo que tenho é o que imagino, longe do chão, há metros de altura da cidade ali embaixo, mas ainda assim, dentro dela.
Pareço enorme aqui de cima, cubro a cidade que enxergo com a minha mão. Mas lá embaixo sou mais uma daquelas pessoas pequeninas que não consigo nem distinguir a cor do cabelo.
Sou um olho a observar a cidade, uma mão a lhe escrever uma história. Sou pequena ante o céu sobre mim, imenso, azul, guardando a cidade a girar.
A cidade que observo e escrevo. Mas que continuará a seguir seu caminho depois que eu for embora, ou que pare com a caneta. Podem mudar seus personagens, suas cores, seus motivos. Mas ela continuará. Imensa, complexa, rápida e viva.
Infinitamente.
Não é sobre estar aqui, e nem são somente as luzes da cidade a me entorpecer e a calmaria de ver tudo de cima. Desde os carros parecendo de brinquedo aos prédios e casas não sendo mais que pequenas luzes ao longe cortando o horizonte. As pessoas daqui onde estou, quando visíveis, não passam de formiguinhas. Insignificantes ante a imensidão do céu, a vastidão do horizonte, dentro de seu mundo particular que não posso mais do que imaginar qual é, já que daqui de cima – e algum crédito dado a minha miopia- não se pode dizer com certeza nem qual é a cor de seus cabelos. Imagina-se por algum trejeito ao andar e as cores das suas roupas, se são homens ou mulheres, se estão com pressa ou se não se preocupam com a hora de chegar.
É noite, as luzes do mercado já se apagaram – sinal de que já se passa das dez – e o movimento da cidade é bem menor do que o de horas atrás. É quase possível sentir um certo silêncio, um passarinho cantando e o ruído quase irritante de uma cigarra. A cidade de noite é cheia de esquinas escuras e medos escondidos entre ruas e passos rápidos. A cidade de noite é silêncio e mistério e o barulho de carros à caminho de casa, de diversão ou de coisa alguma. Talvez seja possível que uma dessas pessoas dentro desses carros esteja andando sem rumo pela cidade. Desbravando ruas escuras a procura de despistar as tortuosas esquinas do pensamento, com ou sem sucesso. Não é impossível que um desses carros encontre a morte num poste depois de uma desatenção e dois segundos de erro na virada do volante. É impossível saber. As coisas de cima são mais calmas e amplas. A cidade de cima é só suposição e um olho que tudo vê e quase nada enxerga. A cidade de cima são pontos luminosos ao longe, carros passando rumo a lugares que não sei dizer e pessoas que mal posso enxergar. A cidade de cima é a tela em branco para tudo o que eu quiser enxergar, é minha imensidão porque tudo parece demasiado pequenino e prédios são menores que a palma da minha mão.
A cidade daqui são ruas vazias e um emaranhado de pontos luminosos onde jazem vidas. Vidas de pessoas que nunca vi e talvez nunca veja. Vidas de pessoas que desconheço. Universos particulares como o meu, nunca inteiramente explorados por ninguém, nem por elas mesmas. A cidade de cima é um mistério. É a complexidade que meus olhos andando de um lado pro outro não consegue capturar. É a constatação que o mundo lá embaixo é vasto, rápido, misterioso e absurdamente complexo. Daqui de cima quase tudo enxergo e nada sei. Nada sei sobre a pessoa que está no carro branco a minha frente e nada sei sobre aquela outra que atravessava a rua a alguns instantes e agora mal posso ver. Não sei o que passa nas suas mentes, pra onde vão, quantos anos tem e nem mesmo o que aconteceu com elas depois que se perderam do meu campo de visão.
A cidade de cima passa muito rápido. Desvio os olhos para escrever no papel e já é uma nova cena. Assim com tudo. não sou a mesma da última frase. E a cidade não é a mesma de milésimos de segundos atrás. É tudo demasiado imenso, demasiado rápido, demasiado complexo para que não se transforme. Nada posso capturar, apenas observar o quadro mutável da cidade que aparece embaixo dos meus olhos – pequenina, porém imensa. Observo um filme sem personagens fixos, sem história, sem roteiro definido. Tudo que tenho é o que imagino, longe do chão, há metros de altura da cidade ali embaixo, mas ainda assim, dentro dela.
Pareço enorme aqui de cima, cubro a cidade que enxergo com a minha mão. Mas lá embaixo sou mais uma daquelas pessoas pequeninas que não consigo nem distinguir a cor do cabelo.
Sou um olho a observar a cidade, uma mão a lhe escrever uma história. Sou pequena ante o céu sobre mim, imenso, azul, guardando a cidade a girar.
A cidade que observo e escrevo. Mas que continuará a seguir seu caminho depois que eu for embora, ou que pare com a caneta. Podem mudar seus personagens, suas cores, seus motivos. Mas ela continuará. Imensa, complexa, rápida e viva.
Infinitamente.
16.5.08
Lies.
"Everytime I try to talk to youI get tongue-tied.
Turns out that everything I say to you, comes out wrong and never comes out right..."
É uma noite de nostalgias e presentes. passado e momentos. certezas e dúvidas. é uma noite cheia de paradoxos em que a uma da manhã eu resolvo escutar o oasis sem saber e entrar em catárse. em catárse de todas as coisas que podiam ser e não foram. de todas as coisas que deveriam ter sido e assim aconteceram.
encontro com meu passado, encontro comigo mesma. encontro com o mais expôntaneo de mim. minha parte que chora e ri sem pudor nenhum. a parte de mim que morria de amores e fazia besteiras. a parte de mim que não tinha crescido nem endurecido como isso que a gente vê agora. a parte de mim não intelectualizada que ri demais e alto. a parte de mim que não se importava muito com o que os outros pensavam ou deixavam de pensar. a parte de mim que era, e não existia.
hoje eu vivo embaixo de um monte de camadas. você olha pra mim e provavelmente vê um monte de coisas que eu sou. a imagem de uma menina decidida. a imagem de uma menina absurdamente inteligente. a imagem de uma menina independente. isso são só imagens, farsas, pequenas mentiras. a pessoa que eu deveria ser está muito perdida em algum lugar que mesmo que meus braços fossem enormes eu não consegueria puxar de volta. eu não sei nem quando, nem como mas eu virei uma mentira.
uma mentira. um pedaço de carne, um pedaço de pedra. eu vou empurrando as coisas com a barriga e tenho muito medo de falar o que realmente importa. tenho medo de tocar em assuntos que podem sucitar feridas, tenho medo de decisões sérias. tenho medo do que sinto e tenho medo do que não sinto também. escondo o que posso vir a sentir. me mostro atrás de uma carapaça dura e impenetrável. eu pareço distante. eu pareço só observar mas eu sinto.
sinto pungentemente como se sentem as coisas mais duras e simples. eu caio como todo mundo cai e me machuco tão facilmente quanto. eu espero alguem com os braços abertos pra me pegar depois da queda e um ombro pra encostar no cansaço. eu espero por alguem que me pergunte se eu não quero um café. eu espero abraços em dias frios, mãos grudadas, conversas que valham a tarde e besteiras como todo mundo.
eu não sou nem tão forte, nem tão fria e nem tão decidida quanto pareço ser.
eu só sou uma pessoa que se perdeu em aparências idiotas e não admissões das coisas importantes.
eu aprendi a só falar do que não importa.
Mas é reversível.
Você ainda pode tentar me conhecer. E eu ainda posso tentar não demonstrar um falso desprezo a esconder os meus melhores sentimentos de apreço e preocupação. tentando não usar meus insultos enquanto, na verdade tento desesperadamente mostrar o quanto eu te considero na minha vida.
Turns out that everything I say to you, comes out wrong and never comes out right..."
É uma noite de nostalgias e presentes. passado e momentos. certezas e dúvidas. é uma noite cheia de paradoxos em que a uma da manhã eu resolvo escutar o oasis sem saber e entrar em catárse. em catárse de todas as coisas que podiam ser e não foram. de todas as coisas que deveriam ter sido e assim aconteceram.
encontro com meu passado, encontro comigo mesma. encontro com o mais expôntaneo de mim. minha parte que chora e ri sem pudor nenhum. a parte de mim que morria de amores e fazia besteiras. a parte de mim que não tinha crescido nem endurecido como isso que a gente vê agora. a parte de mim não intelectualizada que ri demais e alto. a parte de mim que não se importava muito com o que os outros pensavam ou deixavam de pensar. a parte de mim que era, e não existia.
hoje eu vivo embaixo de um monte de camadas. você olha pra mim e provavelmente vê um monte de coisas que eu sou. a imagem de uma menina decidida. a imagem de uma menina absurdamente inteligente. a imagem de uma menina independente. isso são só imagens, farsas, pequenas mentiras. a pessoa que eu deveria ser está muito perdida em algum lugar que mesmo que meus braços fossem enormes eu não consegueria puxar de volta. eu não sei nem quando, nem como mas eu virei uma mentira.
uma mentira. um pedaço de carne, um pedaço de pedra. eu vou empurrando as coisas com a barriga e tenho muito medo de falar o que realmente importa. tenho medo de tocar em assuntos que podem sucitar feridas, tenho medo de decisões sérias. tenho medo do que sinto e tenho medo do que não sinto também. escondo o que posso vir a sentir. me mostro atrás de uma carapaça dura e impenetrável. eu pareço distante. eu pareço só observar mas eu sinto.
sinto pungentemente como se sentem as coisas mais duras e simples. eu caio como todo mundo cai e me machuco tão facilmente quanto. eu espero alguem com os braços abertos pra me pegar depois da queda e um ombro pra encostar no cansaço. eu espero por alguem que me pergunte se eu não quero um café. eu espero abraços em dias frios, mãos grudadas, conversas que valham a tarde e besteiras como todo mundo.
eu não sou nem tão forte, nem tão fria e nem tão decidida quanto pareço ser.
eu só sou uma pessoa que se perdeu em aparências idiotas e não admissões das coisas importantes.
eu aprendi a só falar do que não importa.
Mas é reversível.
Você ainda pode tentar me conhecer. E eu ainda posso tentar não demonstrar um falso desprezo a esconder os meus melhores sentimentos de apreço e preocupação. tentando não usar meus insultos enquanto, na verdade tento desesperadamente mostrar o quanto eu te considero na minha vida.
13.5.08
whatever
Era a sacada, o filme, o livro ou as coisas todas, mas o fato é que eu queria ter você pra mim. E nem era só quando nossos olhos se encontravam ou quando eu ficava com muita raiva pelas coisas que você me dizia brincando. Era sempre. Era principalmente quando você não estava nem ali. Era principalmente quando você não estava ao alcance dos olhos. Mas era quando estava também. Era uma coisa arrebatadora e ridícula que eu desligaria com um simples apertar de botão se eu pudesse.
trecho de alguma coisa, escrita em parte alguma, achado nas folhas perdidas de meu caderno do ursinho puff entre uma poesia ruim e outra. coisas que não fazem muito sentido me arrebatam bem de madrugada. e isso é só um trecho de uma coisa que eu poderia passar sem postar, mas nao vou.
trecho de alguma coisa, escrita em parte alguma, achado nas folhas perdidas de meu caderno do ursinho puff entre uma poesia ruim e outra. coisas que não fazem muito sentido me arrebatam bem de madrugada. e isso é só um trecho de uma coisa que eu poderia passar sem postar, mas nao vou.
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