Páginas

8.10.11

do aleatório do ser que derrama em plena madrugada

chego em casa. penso em escrever. penso em conversar. penso em dizer quinhentas mil coisas que ficaram engasgadas em mim, mal resolvidas. as noites não tem sido assim tão interessantes, e nem adianta mais ser a menina mais-bem-vestida-da-festa. as coisas não fazem sentido. não é culpa sua, não é culpa minha, não é culpa de tudo-que-deveria-ter-sido-e-não-foi. não é culpa do passado nem do presente, nem dos trânsitos astrológicos pelos quais estou passando. é da vida. é da vida essa insatisfação sem fim, essa busca sem fim em si mesma. uma semana a gente flerta com a decadência, vomita a alma pela boca, desmaia e não lembra de nada. na outra a gente sai e volta dama da sociedade, garota alternativa e bem vestida de classe média. é tudo assim, meio cíclico, meio errado, meio cheio de voltas. é tudo assim, meio indefinido. queria  escrever o texto da minha vida, queria a catarse, o perfeito, a criação. queria tirar de mim o que quer que seja isso. o peso que ficou nos meus ombros depois de tanta perda, de tanta morte, de tanta solidão. cheguei na terrível parte da vida em que se todas as pessoas que eu conheço sumirem eu sou capaz de acostumar. vivo sozinha, um bicho meio apático, ninguém sabe muito das coisas que eu quero, das coisas que eu faço. nem eu mesma. por isso não culpo. hedonismo. a busca pelo prazer. sei lá, que seja. eu vomito na janela do carro, eu experimento tudo que há para experimentar, eu vivo nesse filme sem nexo pierrô retrocesso meio bossa nova e rock and roll e ninguém se importa muito. nem eu mesma. joãozinho bobo na mão da vida, se você me empurrar eu vou. pra qualquer lugar que seja. não esperem de mim as mais belas cartas de amor, as demonstrações mágicas, os textos bem escritos. tudo deu um tempo. sobrou em mim esse vida que vai indo do jeito que dá, do jeito que pode. um dia beija, depois não beija mais, um dia sai, depois não sai mais. passo dias inteiros indo em casas desconhecidas, refazendo amizades, conversando sobre qualquer assunto. depois outra semana inteira em casa com meus livros & filmes, minha pizza metade napolitana metade brócolis. tanto faz. tanto faz você, tanto faz eu, tanto faz a vida. tanto faz. eu já quis ser feliz, eu juro, eu quis mesmo. quis ser feliz, equilibrada, quis levar essa vida regrada que todo mundo gosta tanto. essa vida de tv no domingo, de ligar pra dar boa noite. mas não sei lidar. tudo na minha vida veio fácil demais pra que eu quisesse manter comigo, não sei, vai saber, essas coisas não fazem mesmo o mínimo sentido. eu não faço o mínimo sentido. hoje só sei viver assim. um dia não bebo nada, depois bebo demais, chego em casa, vomito no meu próprio pé, tenho pena de mim mesma, me acho velha demais pra essas coisas. sento na cama digo pra mim mesma que quero sossegar, quero viver mais calma, quero um amor-quem-sabe, alguém pra me pegar na mão, pra me fazer feliz. mas sei que esse não é o caminho, o caminho sou eu. eu sou meu próprio desequilíbrio. eu sou isso. sou um dia de videogame e coca e outro dia de porre de cerveja com tequila. sou de ímpeto, de aventura, de ser livre. sou assim de ser livre e acho que não há o que fazer. olho pra mim cansada, os cabelos mal cuidados e as roupas mal escolhidas e sorrio porque podia ser pior, podia ser muito pior. eu sei que podia. eu sei que me mantenho nesse equilíbrio frágil. um equilíbrio que toma porre, e fala demais. que diz o que não deve e que se atropela, mas o meu equilíbrio. eu sou capaz, eu sei, eu sou bastante capaz mas no momento, sabe, no momento que seja, tanto faz, tanto faz de verdade. no momento eu não sei ser de outro jeito e não tem pra quê ter pena de mim. talvez eu devesse quem sabe ser mais capaz, mais ajuizada, mais dessas pessoas que não acham que tudo acaba, tudo-sempre-acaba. quando você acha que tudo acaba você aproveita tudo muito intensamente mas esquece de fazer-durar. é assim com tudo até com a minha vida. não sei lidar com manutenção, não sei atender expectativas, eu vou sempre as minhas mensagens guardadas na pasta de rascunho, inadequadas. vou ser sempre esses textos de desabafo, o querer consolar e fazer piada, o não saber demonstrar nada muito profundamente. mas por enquanto nada incomoda, vai bem assim, obrigada. todo mundo sabe que a gente muda quando tem que mudar, quando chegar a hora eu mudo também. alguém me ensina. eu aprendo. ou ninguém ensina nada pra ninguém nem aprende nada e sai de mão dada tropeçando e atropelando a vida.

tanto faz. no fim todo mundo é feliz na medida que pode. menos feliz do que queria ser. (bem) mais infeliz do que diz ser.

29.9.11

Minha vida é um filme do linklater (ou do kaufman)


Nunca entendi o porquê de não gostar tanto-assim de todas as histórias de amor cults do universo cinematográfico. No mundo cinematográfico existem as comédias românticas feitas para o "público em geral" e as comédias românticas feitas para um clube mais seleto. No segundo grupo se encaixam: "brilho eterno de uma mente sem lembranças" "500 dias com ela" "before sunrise" e "bafore sunshine". Coicidentemente o kaufman e o linklater, os diretores desses filmes, escreveram alguns dos filmes que eu mais gosto na vida. Só que os em que eles falam de amor simplesmente não me encantam. Hoje eu finalmente assisti "before sunrise". O filme conta a história de um casal que se encontra num trem indo pra viena e acaba por passar uma tarde e uma noite apenas juntos, sabendo que eles iriam partir pela manhã. No meio disso há diálogos sobre questões da vida, arte, amor e é claro, beijos e algum romance. Os diálogos são bem trabalhados, a história é fascinante, existe magia. Mas não me encanta. Eu me enxergo na personagem, mas não me sinto tocada. Tudo isso me fez pensar e repensar mil razões e porquês. Porque se eu me acho tão parecida com clementine the tangerine, ou com a francesa da sequencia de antes de amanhecer e antes do por do sol, eu não consigo me emocionar genuinamente com elas? por quë esses filmes que de certa forma retratam partes de mim não figuram entre os meus preferidos? A resposta veio na cena do jogo de perguntas entre os personagens de "antes do amanhecer". Eu fiz um jogo de perguntas, uma vez. Igualzinho. A partir daquilo eu consegui entender que eu não gosto desses filmes, porque esse romance já existiu na minha vida. Existe. E quando uma coisa retrata apenas a realidade, ela não é interessante. É preciso o sonho, a idelização, o mais-alguma-coisa.

Eu imagino que milhares de meninas assistam esses filmes e queiram ser clementine-the-tangerine. E queiram achar um joel. Talvez elas esperem um dia em viena conversando sobre assuntos variados e tomando vinho no parque. Diálogos interessantes, jantares, dançar no meio da rua, tomar vinho no parque, falar de sexo abertamente, discutir política no meio de um jantar romântico. Coisas-que-só-acontecem-no-cinema. O que eu presto atenção quando penso na minha vida é que todos os meus relacionamentos - dos mais duradouros aos que duraram uma noite - tiveram em si essa aura de aventura. Sempre dividi com meus amores, amantes, ficantes, homens, essa espontaneidade. Eu já discuti assuntos seríssimos andando de mão dada na rua. Já beijei no meio da calçada as três da tarde. Já dancei nos lugares onde ninguém dançava. Já rolei na grama do parque numa quinta feira à tarde. Fiz piquenique. Levei vinho pra tomar no chão do quarto. Ouvi beatles na cama. Discuti cinema, literatura, política, minha vida, deitada na cama olhando pro teto. Andei na montanha russa e na roda gigante do parque. Andei na montanha russa infantil do shopping. Levei bichinho da máquina de ursinhos do playmaster. Namorei no parque da rodoviária. Me agarrei em cantos escuros. Demonstrei amor em lugares públicos. Saltitei na rua de mão dada. Sentei no chão do carrefour. Pedi dinheiro no sinal pra dividir coca cola no shopping. Discuti sobre vida, morte e deus, na sacada da minha casa as sete da noite. Comi pipoca discutindo jean baudrillard e sua relação com matrix a uma da manhã de um dia de semana. Falei de existencialismo. Dancei na sala. Passei uma noite com um cara que ia embora pela manhã, também. Sabíamos que era a última noite das nossas vidas. Vimos pulp fiction na última noite da nossas vidas. Tentamos fazer de pulp fiction uma narrativa linear. Não conseguimos. Acabamos algum tempo depois. Não nos encontramos seis meses depois em viena. Mas foi bonito, enquanto durou foi bonito. Tudo na minha vida foi muito bonito enquanto durou. 

Talvez eu tenha dificuldade em ver beleza nesses filmes porque eles fincam a beleza na coisa transitória. O amor vai acabar no momento seguinte. Personagens intensas, sempre. Todas as minhas relações nunca foram pautadas num "seremos felizes pra sempre". Eu nunca nem tinha certeza se ia continuar vendo a pessoa amanhã. Ou daqui uma semana. Na verdade, eu até hoje parto do pressuposto que todo encontro é na verdade e último e me espanto quando acontece o próximo, e no próximo eu já vou achando que vai ser o último e assim por diante. Sempre o último. Nada vai durar pra sempre. Nem pra sempre, nem até amanhã. Meu namoro mais duradouro se deu no meio da distância. 1000km de distância. Encontros mensais. Tinhamos que aproveitar todo tempo juntos como se fosse o último momento das nossas vidas. Ele me fez almoço ao som de vinícius de moraes pra dançar na sala. Ele discutiu a abertura de um restaurante chamado sgt.peppers comigo na praça de alimentação do shopping, num domingo. Ele sabia tudo que eu pensava sobre todos os assuntos do mundo. Ele sabia tudo que eu pensava sobre tudo. Precisávamos nos descobrir enquanto tinhamos tempo juntos. Nos embrenhavamos em aventuras impensáveis, roteiros turísticos improvisados, conversas que não acabavam nunca, encontros amorosos em lugares insusitados. Tinhamos urgência um do outro porque sabíamos que nos dispediriamos pela manhã. Essa manhã que às vezes demorava uma semana, mas às vezes dois ou três dias. Cada minuto com ele precisava ter em si pequenos pedaços de eternidade. Conversávamos sobre qualquer assinto, bebíamos qualquer vinho, entrávamos em qualquer restaurante. Ele me tinha como queria, eu o tinha do jeito que bem entendesse. Sempre. Corremos pra são paulo pro show das nossas vidas. Brigamos e nos amamos ao som de radiohead. Experimentamos os novos drinks, as novas músicas, vimos todos os filmes que podíamos, conhecemos todos os lugares. Nos amávamos intensamente, brigávamos intensamente, tudo intenso. Tudo como se o mundo fosse acabar pela manhã. E ia. Ela ia embora. Eu ia ficar. Nossa vida ia voltar a ser separada. Nossa relação era sazonal. 

Só sei ter amores, amores talvez não seja a palavra, mas relações assim, lindas, dignas de filme alternativo. Roteiro do linklater. Conversas, diálogos bem elaborados, garrafas de vinho, música bem escolhida, coisas compartilhadas, risadas e todos eles, todos eles sem nenhuma exceção, encontros felizes que tinham em si o karma de se acabar pela manhã. E por isso tinha de ser intenso. "Essa por ser a última vez que eu te vejo". Essa vai ser a última vez que eu te vejo. A próxima é um acidente. A próxima já é a última. Nunca soube prometer nada, nunca soube lidar com regularidade, não sei o que são amores que se comem pela rotina, não sei o que é ver dvd no domingo, sair pra jantar, não querer agarrar cada minuto com as mãos porque aquele minuto pode nunca mais acontecer. Não acho o amor bonito nos filmes porque eu já vivi tudo isso. Não em viena, não fazendo anjinho na neve, não com casas se dissolvendo e programas para apagar o amor da sua vida de sua memória, mas já tive. Já tive os diálogos incríveis, já me abri sobre a minha vida, já ouvi muito sobre a vida de todos eles, já dancei, já me acabei, já passei madrugadas acordada discutindo a vida, já perdi todos os meus pudores, já passei vergonha, já fui muito feliz. Em momentos com data de validade, mas muito feliz. Eu não preciso dos filmes. Eu tenho a minha vida. A vida que às vezes é tão arte quanto a própria arte. A vida que também está programada pra acabar no momento seguinte e precisa ser vivida com intensidade. Eles todos me deixaram num trem e nos despedimos prometendo nos ver. Talvez aconteça, talvez não. 

Vocês vêem beleza no inesperado e eu vejo beleza na rotina, no dia-a-dia, no trivial, no previsível, no calmo. Talvez porque só se enxergue a beleza naquilo que ainda não se tem. Queria experimentar um dia, a regularidade. A certeza do encontro no outro dia. A certeza do ter, talvez. Talvez eu odiasse. Talvez eu descobrisse que isso não é pra mim. Insatisfação. Love is a losing game. E eis que descubro que continuo jogando pelo prazer do jogo, e nunca - quase nunca - pra ganhar. Até que chegue o dia, quem sabe, o dia. 

25.9.11

eau de perfume

Lembro. Quero dizer alguma coisa, qualquer coisa assim que invadisse todos os sentidos, os poros, que fizesse uma sinestesia da alma. Qualquer coisa que fizesse a alma ter cor, gosto, cheiro, que desse pra pegar a alma com a ponta dos dedos. Ensaio. Ensaio mil e uma vezes o melhor jeito de dizer, sem que pareça muito, sem que pareça pouco, sem que pareça nem demais e nem raso. O suficiente. Queria dizer o suficiente dessa coisa assim, sabe, essa coisa que não tem nem nome nem jeito, nem denominação. Dessa coisa que chegou um dia, de madrugada, não avisou nada, não avisou como vinha e nem se ia embora. Teria nascido a coisa? o que nasceu afinal? nasceu assim de um jeito torto, estranho, linha cruzada da vida. Interferência, atraso, desvio, atalho. Caminho? Seria esse o caminho a seguir? Não sei. Sei que lembro. Lembro e repasso os momentos aqui e ali, num de cada vez, não sei o que pensar, despenso, não sei o que dizer, desdigo, tento escrever e não sai. Canto, canto para mim qualquer coisa assim sobre você, mas não isso porque essa não é a banda certa. Danço na sala, relembro de novo, ensaio uma declaração de qualquer coisa, te dedico todos os versos. Depois te esqueço, te enfio debaixo dos cobertores e saio, sou sozinha, sempre fui, te afasta, te afasta eu não sei o que te dizer. Não hoje, não assim desse jeito, amanhã talvez-quem-sabe, mas amanhã também não, amanhã é muito cedo, ou seria tarde demais? Quando é o tempo certo. Existe? o tempo, senhor relativo das coisas, apressado, cruel. Penso no instante certo e o instante se foi, se perdeu, eu me perdi. O que foi que aconteceu? o que é isso que tem acontecido? Não sei. Esqueço. Lembro de novo. Faz frio. Aquele caminho, sempre aquele caminho. Corro. Corro dez metros, vinte, trinta, cem metros, um quilômetro inteiro e quase explodo. Explodo e depois caminho. Caminho devagar pensando. Lembro. Queria dizer alguma coisa, qualquer coisa, gritar, correr, tentar explicar usando as palavras, um gesto, um cartaz, gifs animados. Queria soar menos brega, menos clichê, mais madura, queria uma ficção bonita, inventada pra dizer tudo isso. Tudo isso o que? Nem eu sei. Existe? Penso de novo em versos, saudades quem sabe, pipoca às três da tarde, uma metáfora qualquer. Uma história dessas, dois personagens, aventuras, o romantismo está nas pequenas coisas. Pequenínissimas. O mesmo verso cantado da música. Você me faz sorrir. Talvez seja isso. Talvez não. Lembro. Queria uma história inventada, qualquer coisa sublime, sentir orgulho, terminar de escrever e sorrir, explicar tudo isso, mas não consigo. Não sei dizer das coisas vivas. Só das que já morreram. E essa coisa sem nome se faz viva. Viva demais. E invade como esses perfumes baratos que impregnam. Invade e fica no nariz. Esse cheiro de perfume. E eu, que sofro do medo ancestral de perder tudo, prefiro me afastar. Me dissipo no ar como o perfume que não dura. E acabo por não dizer nada.

23.9.11

Saber amar é saber deixar alguém te amar.

"No dia em que ocê foi embora eu fiquei, sozinho no mundo sem ter ninguém, o último homem no dia em que o sol morreu." Lenine - O último pôr do sol.

Ouvi essa música e dei de chorar. Foi assim, terça feira no trabalho, de tarde, uma merda. Uma merda dessas que me deixou improdutiva,  sem vontade, sem jeito, sem nada. Pensei em amor, é claro, só podia ser a falta de amor, de um amor qualquer, daquele amor. Achei que era. Acordei no outro dia, num sopetão, escrevi um outro texto desses, caramba, mais um sobre o único amor que eu tive que se foi. Só sei escrever sobre isso talvez, o tempo todo assim, esse repetir das coisas que eu já nem sei se sinto. Digo que não sei porque tenho sofrido de saudades, uma saudade imensa, uma nostalgia que me faz quase-chorar a cada vez que eu repito essas histórias de nós dois, nós três, nós quatro, nós cinco. Sofri de angústia, a semana toda. Não soube lidar. Achei que o problema comigo, depois botei o problema em você, estive descontrolada, mal, falando demais, me derramando em todas as redes socias, em todos os lugares que podia. Quase pegava na mão das pessoas e pedia pra elas conversarem comigo, pra por favor me ouvirem, olha pra mim eu preciso de atenção, eu preciso contar essas histórias pra vocês, essas coisas que me afligem tanto, preciso contar essas crônicas desse amor que se foi, esse amor que eu preciso, esse amor que eu perdi. Preciso contar do dia em que ele foi embora.

Achei que precisava. Achei que o problema todo era ele. Sempre ele.
Não era. Não dessa vez.
E talvez não tenha sido nas outras também.

Existe uma coisa em psicologia que se chama "processar o luto". O luto não processado parece causar uma espécie de problema, a curto ou a longo prazo. O luto não processado deve causar câncer. Metaforicamente falando, ou talvez não, que seja. No último ano, esse ano que passou, eu acabei perdendo muita coisa. Engraçado, só de escrever isso vem lágrima no olho. Meu melhor amigo mudou pra são paulo no fim do ano passado. Eu, essa desajeitada do sentimento, não soube direito nem chorar a partida dele. Me lembro de ter dado um abraço nele, lá embaixo, depois de uma noite de jogar videogame. Subi o elevador meio atônita. Chorei um pouco sentada no sofá e dormi. Acordei no outro dia lidando com isso como uma espécie de sonho. Quando ele se foi chegou o outro amigo. Ele também tinha data pra ir embora. Março. A gente aproveitou esse dezembro-a-março como se fossem os últimos meses da nossa existência. As noites em casa, na balada, no carro. As bebedeiras, as conversas, as saídas pra comer iscas de frango. A sucessão de festas que deu pra gente as últimas três semanas mais maravilhosas antes da ida dele. Em março ele se foi. Eu não consegui chorar no aeroporto. Eu não sei chorar as partidas, eu não sei nem dizer "eu vou sentir sua falta".

Antes deles tiveram as pequenas perdas. A amiga que começou a namorar e não mais nos emprestava a casa dela. O amigo que começou a namorar e parou de nos chamar pra dançar na sala. A gente era assim. A gente tinha essas tardes de tomar rum com coca e ouvir smiths. Depois acabava a vodka, o rum, a coca e sobrava as músicas. A gente conversava e conversava e conversava. E dançava na sala. E tinham também as tardes de macarrão e brigadeiro e conversar. Tenho sido nostalgica das tardes no shopping tomando coca e conversando. Tenho sido nostalgica de tudo, de tanta coisa que se eu fosse contar encheria três páginas inteiras. Mas esse não é o ponto. O ponto é que as pessoas foram sumindo, uma a uma, e eu fui agindo como faço sempre. Como se fosse normal, o curso da vida, como se eu não me importasse, não sentisse falta. No intervalo de um ano eu perdi todos os meus melhores amigos. Todos eles. O que sumiu da minha vida depois começou a namorar. O que mudou pra são paulo. O que foi pros estados unidos. E fiquei aqui, bicho solto nesse mundo, e meu deus o mundo é imenso pra gente se cuidar sozinha. Até daquele que eu achava chato às vezes porque me fazia dançar salsa no meio da sala e dizia que eu devia beber mais eu sinto saudades.

Depois que vocês se foram eu nunca mais me derramei inteira pra alguém. Vocês foram embora levando minhas noites de conversa sem fim, meus desabafos, minha depressão entendida. Ter que lidar com o mundo sozinha, meu deus, é muito dificil. Ter que lidar com um mundo de só sair pra beber, só sair pra dançar, nunca contar como vai a minha vida. As pessoas aqui não tem mais tempo pra isso, gente. E com as que tem eu ainda não criei essa intimidade. Só vocês me conheciam assim, tanto, pra sempre, desse jeito. Eu sinto a falta de vocês três como se tivessem tirado meu braço direito. Saudades de tomar coca no shopping e sair pesado de tanto pensar. Saudades de rum com coca, radiohead, smiths, dormir no sofá. Saudades de dançar em rodinha no meio da sala. Saudades de fazer macarrão no almoço e ficarmos todos até as dez da noite, conversando e só. Saudades de vocês, caralho, saudades de vocês. Saudades do videogame, dos videos do youtube, saudades do jeito que a gente cuidava um do outro, mesmo sem perceber. Saudades de não precisar sair e ficar sempre-sempre na loucura porque a nossa presença nos bastava. Saudades de vocês.

Saudades de vocês que eu só consegui processar e enxergar agora. Eu, que não chorei a partida de nenhum de vocês. Que não consegui contar pra ele o quanto ele me fazia falta. Que não consegui chorar nas outras duas despedidas. Que falho redondamente em mandar recados dizendo que sinto saudades. Eu, que principalmente, falho em dizer pra mim mesma o quanto eu fiquei sozinha, incompleta, sentida com a partida de cada um de vocês. Eu, o ser desapegado e autossuficiente. Eu, a independente, tenho estado perdida na vida desde que vocês se foram. Faz falta. Sinto falta. Queria vocês de novo. E hoje chorei o luto.

De resto só digo que sei que tenho falhado redondamente nas minhas novas relações. Tenho sido arredia, medrosa, esquisita, fugitiva. Não sei lidar. Não sei lidar com a possibilidade de outra pessoa que eu goste muito sumir de repente da minha vida. Daí prefiro assim, essa distância segura, esse descaso, esse meu jeito de nunca me contar demais, nunca olhar nos olhos, nunca convidar pra uma nova saída. Desajeitada, tropeçando nas palavras, me despejando demais e sendo inevitavelmente cruel.  É dificil recomeçar. Dar o primeiro passo, se abrir de novo, lidar com novas pessoas, entender que elas não te entendem tanto porque nem te conhecem tanto assim. Porque você não deixa elas te conhecerem tanto assim, então nem tem o direito de exigir. Engraçado enxergar tudo assim, às seis da tarde de uma sexta feira com chuva e se derramar num blog.

Sofro do terrível medo da perda do ser amado. E o ser amado nem sempre é o homem amado. Talvez essa tenha sido a grande epifania do dia. A maior delas foi ter percebido que eu chorei porque de fato "fiquei sozinha no mundo sem ter ninguém" me sinto "a ultima mulher no dia em que o sol morreu". Mas não porque me foi tirado o ser amado. Mas sim porque me foram tirados os amigos, amados, lindos, queridos, necessários.

Eu também preciso de outros seres humanos pra viver, mesmo que eu não saiba dizer isso com palavras. Eu sinto saudades de vocês, tanto, tantas. Mas a vida é sobre enxergar os erros e tentar recomeçar. A vida é sobre não saber como lidar, e ter que lidar.

Um desabafo que ninguém vai ler,  ou o texto menos literário e mais importante do ano.
I'm going back to the start.

19.9.11

A única maneira de se enterrar um grande amor é um epitáfio


PRELÚDIO– O NASCIMENTO

         Nasci três ou quatro semanas antes do previsto, disse a minha mãe. Tempo exato para ter nascido assim aquário, e não peixes – embora eu não acredite na sorte do zodíaco. Nasci assim, de bunda virada pra lua, sem saber esperar, sem saber que existe jeito errado de nascer (e de se viver). Nasci em fevereiro odiando o carnaval, filha única de pais zelosos. Não soube perder, não sei dividir e tendo os pais me amado inteira e completa, só sei amar pela metade. Receber muito amor, quem sabe, nos ensina a não saber amar de volta. Ou não é nada disso. Não se sabe, nada se saberá com certeza dessa epígrafe de um grande amor. Se eu escrevo é pra te matar de dentro de mim. O único amor que senti. A única criatura pela qual o corpo se fez carne. O único olho no qual eu me enxerguei, me cegou. E se fez cego.


Preciso de uma opinião: se fosse o primeiro parágrafo de um livro que você lê em pé na livraria, você continuaria lendo? É isso que vocês estão pensando, mesmo.