o dr me olhou sem me dizer nada, há quinze anos que ele age da mesma maneira. me cumprimenta, me senta na cadeira, ouve meus reclames e já minimiza a parte da hipocondria, me coloca na maca, me examina, faz aquela tal de iridologia (é esse o nome?) que eu sei lá se acredito, mas é mais ou menos como astrologia, eu desacredito - só que tá sempre certo. me pergunta das coisas, e dessa vez foi aquilo: eu ando muito sem foco, não sei o que quero da minha vida, fico apática, não tomo decisões, e meu estômago tem estado horroroso. "do estômago a gente sempre soube, larissa", ele responde meio sério. então é isso "tem passado por stress?" e eu respondo que sim, acho que um monte deles. conto toda a trajetória. perdi o emprego, daí fiquei nessas de tentar achar alguma coisa da vida, as portas foram fechando e agora eu vim aqui. tudo isso ele ouve enquanto digita umas coisas no computador, eu sei lá o que ele tanto digita, mas fato é que tem a minha vida ali. a época do vestibular em que ele me receitou vitaminas, a época em que a minha vó ficou de cama e eu não conseguia mais comer, o tcc, a morte do meu vô, a depressão do meu pai. tudo isso tem ali, junto com os fitoterápicos que ele receita dizendo que eu tenho que ficar mais calma, senão você sabe, o estômago ataca, o fígado ataca. você é assim. dessa vez ele falou um pouco mais que o habitual. me disse que era normal, assim, essas crises nessa minha idade. a gente perde um pouco as perspectivas, mas que eu aparentava estar cansada demais. "sente vontade de fazer as coisas?" "não muito", daí eu disse que tenho pouca motivação, tinha inventado de correr, depois uns rompantes, nada deu muito certo, e que ando muito fragilizada. qualquer coisa eu choro, qualquer coisa eu tenho vontade de gritar que não aguento mais. tenho achado a vida pesada, quase não saio de casa, procurar emprego também me deixa meio desmotivada. ele me olha sem dizer nada, como se eu conversasse com o meu pai.
geralmente ele só imprime as receitas, diz que se eu precisar de alguma coisa é só ligar de novo, ele arruma um jeito de me atender. daí me dá a mão e me manda embora, estimando melhoras. dessa vez ele disse que não queria me assustar não, e que provavelmente não era nada de grave, mas que isso tudo era o começo de um quadro depressivo, e que de repente era melhor ver. um psicologo, um psiquiatra, alguém que te dê uma luz. você não é louca nem nada, é só que isso acontece, você vê, a gente tem que escapar por algum lado e esse foi seu escape. você se deprimiu, depois atacou seu estômago. a gente não sabe muito bem o que mais pode acontecer, mas não é hora de você ficar tomando decisões, nem fazendo planos e nem brigando com ninguém, porque tudo vai te frustrar. e tudo isso que você me disse de repente nem era você mesmo, principalmente essa vontade de chorar no canto, fazer as coisas sem saber muito bem o que tava fazendo, não é desconexão com a realidade, é só uma espécie de fuga. você tem andado angustiada, eu imagino. em todo caso, é melhor averiguar, ele dizia. você tem quadros desse tipo na família, te indico uns nomes, se preferir você pode procurar outros, mas é bom que procure. me deu uns nomes no papel, imprimiu as receitas, disse pra eu continuar caminhando que isso vai dar uma melhorada no meu quadro. e disse pra procurar alguém porque a gente nunca sabe, pode ser que piore. não é uma coisa assim que a gente se livra de uma hora pra outra, e pelo que a gente percebeu, o quadro vem de alguns meses já. se despediu, desejou melhoras, disse que eu podia ligar se precisasse.
voltei pra casa, coloquei as roupas de caminhar, os óculos escuros. achei que se de repente eu chorasse enquanto ia ninguém ia perceber. é tão esquisita a sensação de não estar agindo como se deveria agir por algum tipo de distúrbio químico. eu não sabia mais muito bem o que eu era, e o que era por causa do distúrbio, desequilíbrio, sei lá o nome disso. nem conseguia correr direito, a cabeça rodava, o peso na consciência por ter estragado tudo, feito aquele monte de merda. desde o começo do ano fazendo merda, deixando as coisas pra depois, atrasando os boletos da pós, não indo assinar a demissão no trabalho. era isso então? era isso aqueles choros sem motivo no meio da noite, as vontades esquisitas de correr até faltar o fôlego, as semanas inteiras sem tirar o pijama e ver a luz do sol. fluoxetina, prozac, eu ia ser mais uma dessas? procurar um psicólogo, pagar um quarto do meu salário pra ele me ouvir falando dos meus traumas, do meu passado, das coisas mal resolvidas. era o mal da geração, é claro que eu também ia sucumbir um dia. contar pra minha mãe, procurar médicos especialistas, ser tratada como um problema. justo eu, que sempre fui tão forte né. não. justo eu que sempre guardei tudo pra mim esperando ser capaz de resolver todos os problemas do mundo. não sou. falhei. eu também precisava de ajuda. e se eu não quis me dar, o corpo gritou.
voltei, fingi prestar atenção na novela, nos programas sobre looks, esperei dar o horário, fiz a ligação que precisava, acho que falei tudo meio pela metade, não sei falar no telefone, não sei lidar com esse tipo de problema, e ultimamente tenho tido problemas pra sair da minha cama. minha mãe finge que não ouve as conversas enquanto joga o jogo das bolhas no computador, mas a verdade é que ela sabe de tudo, ou pelo menos desconfiava, e esquece, sabe. tem hora que não dá mais, tem que contar logo de uma vez a verdade. e então é isso, mãe. da primeira vez foi assim, depois da segunda foi isso e da terceira era pra ser bonito e foi um desastre. difícil era explicar que o desastre era eu. pelo amor de deus, não foi isso que eu te ensinei, você não ficou morrendo de vergonha, olha o tamanho da sua cara de pau, meu deus você não pode ter uma cara de pau desse tamanho. pra começar você não devia nem ter passado mal, você entende? e agora, com que cara, com que cara? mas é isso mãe, eu ando muito apática e teve isso e o médico e tal e o choro. ela me pegava nos braços e não conseguia entender porque é que ela não me deixou crescer. eu não devia ter limpado tanto assim sua bagunça, porque aí, olha, a gente te joga no mundo e dá nisso. é claro que ninguém tem o direito de ser desrespeitoso com você, e isso acontecer, você sabe, tem mais é que ir embora mesmo. mas é que é isso, né filha, você viveu com gente que você teve que cuidar o tempo todo, depois foi cuidada e ninguém nunca te ensinou a ir pra frente, a dar a cara pra bater. é isso, não dá pra ficar no sofá arrotando papos idealistas de dez anos atrás. um dia a gente tem que trabalhar, viver, se portar, lidar com coisas desse tipo e limpar a própria bagunça. mesmo que não tenha sido nossa culpa. você tem que se mexer, alguém uma hora tem que te botar pra frente. eu sei que agora não é a hora também, você tem que se cuidar. mas depois que se cuidar tem que viver, ai filha, olha a vergonha, você jura que não ficou morrendo de vergonha? fiquei. mas não sabia o que fazer. daí não fiz nada. ai filha, que vontade de te bater, né? mas não é a hora. agora vê se cresce, a gente tem que crescer. dói, mas a gente tem que crescer. que papelão, minha filha, meu deus você nunca mais vai beber. eu chorava, ela me abraçava meio rindo e depois dizia que tudo bem, mas agora pede desculpas, você já pediu desculpas? agora a gente cuida de você pra ver se você toma um pouco de tenência. seus amigos não são ruins, eles só não tem nenhuma ideia muito fixa. e infelizmente, vocês não tem mais tempo pra isso.
lembrei do dia da gelatina. quis morrer dez vezes. aquela mulher não merecia isso. a gente ficou de pesquisar alguém bom pra cuidar de mim, e eu fiquei de crescer. ela me deu colo, chá e bolachas de coco. devia era te dar uns tapas, disse depois. estou preocupada com você, filha. eu também, mãe. mas vai dar tudo certo. logo tudo fica bem de novo. tudo passa. e o que tiver que ser, sempre é. eu me senti leve, ela continuou jogando o jogo das bolhas. tudo deve ter jeito, ainda. o tempo cura tudo, como já diria a minha vó. minha mãe e o dr. agnello também sabem disso.
11.4.12
10.4.12
so you don't know where you're going and you wanna talk.
não sabia que teria que de novo encarar o rosto velho e careca do dr. agnello que cuida de mim desde os 8 anos de idade e as primeiras crises do estômago. fazia tempo desde a última vez. na última vez dessas loucas crises eu tinha perdido isso que chamam de "amor da minha vida". o amor da minha vida, hoje, é só uma bonita lembrança de um homem que um dia me tratou muito bem. o amor da minha vida usava reticências espaçadas o tempo todo. inclusive aquelas de dois pontos, e dava espaço entre os parentesis. hoje eu não saberia lidar com ele, que nem assiste mais os jogos do milan (assim como eu não assisto mais os do barcelona). ele está feliz. eu já disse isso um milhão de vezes, mas ele está bem feliz. e eu fico feliz por ele. ele era o homem mais incrível que eu já conheci. e provavelmente, não era o amor da minha vida.
Dr agnello na ocasião me disse em suas poucas palavras que, eu estava somatizando muito stress. eu botei a culpa no tcc, e ele me receitou os remédios de sempre pra parar de vomitar a vida. desde então, eu e dr agnello não mais nos vimos. ele se ateu a cuidar da minha mãe, que ultimamente somatiza os stresses de todos nós, e sofre um bocado. os anos depois do ocorrido não foram felizes, nem ao menos agradáveis. foram vivíveis. 2010 teve gosto de morte e 2011 passou do jeito que podia, comigo vomitando no carro dos outros e na patente do meu banheiro, porque dei de abusar da bebida - e da vida. teve até aquela vez horrorosa que eu vomitei não só o carro como também toda a lataria de fora do carro do menino do trabalho, e depois também a minha roupa e a caneca onde eu tinha bebido e deus sabe como eu consegui subir as escadas, e chegar na minha cama. eu me desculpei no outro dia, e ele disse que tudo bem, esse tipo de coisa acontece, meio que rindo do meu desajeito. no mesmo ano teve o vinho que me desacordou durante a noite, a tal da gelatina louca. a gente fica assim, meio querendo esquecer a vida quando perde o grande amor. já não precisava mais tanto dos remédios do Dr. agnello porque dava conta de maquiar minha infelicidade no meio de todas as festas de república do mundo, muita cerveja e muita gente desconhecida. no fim do ano tudo teve uma certa calma, até que eu perdi meu emprego e a vida voltou a ser a mesma aventura incerta que era no começo disso tudo. sem amor, sem carreira, sem os amigos que tinham mudado de cidade. senti a falta dele de novo, quis morrer trinta vezes, mas continuei.
conheci outra pessoa, achei que quem sabe podia ter ali uma salvação, continuei vivendo, conheci outra cidade, outras pessoas, outros jeitos de ver a vida. tive uma esperancinha de que as coisas finalmente iam pro rumo certo, mas vez ou outra a coisa degringolava e eu percebia que talvez aquele não fosse o caminho mais certo do mundo. mas a gente precisa de esperança, sempre ela a esperança, e tem que continuar porque alguma coisa sempre-tem que continuar, então mesmo em meio às frustrações e a minha loucura eu continuava. eu apostava meio tímida as minhas fichinhas, mas apostava. enquanto isso tentava esquecer que não tinha nada da vida, nem um emprego, nem uma carreira e nem uma casa pra morar e nem mesmo eu cresci depois que ele me deixou e não estava mais ali pra me impedir de pular as janelas. e tudo vai indo, eu fui focando em emagrecer, fui tentando fechar os olhos pras coisas que eu sabia que aconteciam, mas que eu não queria encanar naquele momento, fui tentando calar a paranoia e correndo 8km diários. daí nessas últimas semanas eu dei de sentir os mesmos mal estares que sentia quando tive que encarar o dr. agnello, lá estava eu vomitando a vida de novo, mas nem dei confiança. tudo bem, é assim mesmo, eu só ando comendo comida leve, toda vez que comer uma comida mais pesada vou passar mal. e achava que tudo ok eu não conseguir comer mais que um pedaço de pizza, deixar metade do lanche no burguer king, comer duas colheres de arroz e uma concha de feijão e começar a sentir enjoo. tá tudo bem, é que eu não consigo mais comer muito, é a dieta.
aí que teve esse dia em que eu excedi demais a cota e passei mal mais uma vez. desacordei, estraguei uma casa, não conseguia ver comida na frente, passei uma manhã inteira tonta e descontrolada, querendo chorar nos cantos e achei que ok, tudo bem, eu-tomei-vinho-demais. no outro dia eu comi salada, mas passei mal porque o-suco-de-laranja-tava-quente-demais. no outro dia no café da manhã eu-dormi-muito-pouco-foi-por-isso. até que hoje, depois de uma coxinha e uma torta de morango de volta em casa, eu percebo que não teve dieta nenhuma, não foi vinho-demais nenhum, nem é que eu não consigo mais comer macarrão depois das onze da noite. não eram fatos isolados. era um fato só: eu tenho somatizado a vida que não sei lidar. e nesse último mês, dr. agnello me olharia e diria "larissa, o que acontece é que você tem somatizado muito stress". a gente vive uma vida toda pra precisar de um estopim horroroso pra se tocar que, olha, essa vida que você tava vivendo não era exatamente feliz, e toda essa sua frustração ia acabar aparecendo em algum lugar. e apareceu. olha eu vomitando a vida de novo. fico olhando pras paredes descascadas do meu quarto e descubro o inevitável: tenho sido muito infeliz. e infeliz de um jeito profundo mesmo, que não adianta, não tem noite agradável que conserte. eu sou aquela menina infeliz no canto da festa que uma hora ou outra vai sentar na cadeira e ficar olhando apática pro próprio pé.
minha apatia é muito anterior à tudo isso. é apatia de quem não quer pensar na própria vida e fica assim, vomitando pelos cantos porque precisa soltar a dor de algum jeito. ele me perguntava se eu estava feliz e eu dizia que sim, só que a verdade é que eu não lembro a última vez que fui feliz. talvez naquele primeiro fim de semana em fevereiro quando tudo ainda era um pouco novidade, mas não sei se. eu era feliz ali, mas tem tanta coisa que não era feliz que a verdade é que eu nunca me entreguei plenamente pra nada desde que me entreguei da última vez, e fui fazendo da vida essa bola de neve. acontece que sou forte demais pra chorar no ombro de quem quer que seja, e vou dizer que "não foi nada" toda vez que me perguntarem se aconteceu alguma coisa comigo. tenho um orgulho que é muito maior que a minha dor, e uma mania esquisita de nunca me permitir sofrer. tudo isso parece aquele papo clichê, mas é que sempre foi assim. seria mais fácil ser essa pessoa que sofre e chora, que fala na cara, que tem ataques de ciúmes e que não vive de indiretas e remoendo as coisas que não falou, mas meu orgulho impede. não quero ser aquela louca que sofre de ciúmes e que morre de amores, eu sou bem-resolvida demais pra isso. acontece que eu não sou. e não sendo vomito a força que eu finjo ter, mas não tenho. e desde os oito anos encaro o dr. agnello me dizendo que isso tudo é a minha infelicidade somatizada.
sou uma eterna infelicidade somatizada. e me sei apática. se me derem um soco, ficarei olhando. se cuspirem na minha cara, limparei e continuarei deitada. as pessoas me destroem e eu não tenho força o suficiente pra brigar. só fico ali, esperando um abraço. eu sei de um monte de coisas que preferi não contar. eu fui machucada em partes que ninguém nem imagina. só que continuo sorrindo. faço uma gracinha, peço desculpas, digo que a culpa é minha, finjo que não ouvi os desrespeitos todos e continuo vivendo. eu queria chorar no meio da augusta, sentada no meio fio, perguntando pra eles porque é que estavam fazendo tudo aquilo comigo. eu queria pedir colo na volta do show, mas me contentei em ouvir eles dizendo que eu sou uma menina muito sensata, e que ia saber o que fazer. eles nem sabem que meu coração ainda quebra em pedacinhos. eles não sabem que o meu discurso bem resolvido é ressentimento. eles não cuidam tanto-assim de mim porque eu digo que sei me cuidar sozinha, e que vou sobreviver. só que eu não sobrevivi. nesse ano eu acho que eu nem nasci ainda. estou ali morta em algum lugar. o que vive é o casco machucado que apesar de toda a bordoada do mundo, continua de pé. vai, bate mais um pouco, diz que eu sou um desastre, eu vou aguentar. diz que queria me bater, diz que eu não sou o tipo de mulher que você esperava que eu vou vestir o meu coturno e continuar em pé. me dá o tapa na cara que você queria me dar e segurou. eu não vou fazer nada. eu vou passar o meu batom vermelho e não conseguir aproveitar o show da minha vida porque sinto o peso do mundo nos ombros. mas vou fingir bem. depois chego em casa e vomito o mundo na privada. assim como tinha vomitado no último mês sem me dar conta. dou descarga em tudo que não grito, é o jeito que eu dei de me livrar de mim mesma.
dr. agnello já está acostumado, ele me receita remédios e eu paro de sujar paredes por aí. mal sabe ele que eu só queria um pouco de paz. pra um dia ser feliz, quem sabe.
Dr agnello na ocasião me disse em suas poucas palavras que, eu estava somatizando muito stress. eu botei a culpa no tcc, e ele me receitou os remédios de sempre pra parar de vomitar a vida. desde então, eu e dr agnello não mais nos vimos. ele se ateu a cuidar da minha mãe, que ultimamente somatiza os stresses de todos nós, e sofre um bocado. os anos depois do ocorrido não foram felizes, nem ao menos agradáveis. foram vivíveis. 2010 teve gosto de morte e 2011 passou do jeito que podia, comigo vomitando no carro dos outros e na patente do meu banheiro, porque dei de abusar da bebida - e da vida. teve até aquela vez horrorosa que eu vomitei não só o carro como também toda a lataria de fora do carro do menino do trabalho, e depois também a minha roupa e a caneca onde eu tinha bebido e deus sabe como eu consegui subir as escadas, e chegar na minha cama. eu me desculpei no outro dia, e ele disse que tudo bem, esse tipo de coisa acontece, meio que rindo do meu desajeito. no mesmo ano teve o vinho que me desacordou durante a noite, a tal da gelatina louca. a gente fica assim, meio querendo esquecer a vida quando perde o grande amor. já não precisava mais tanto dos remédios do Dr. agnello porque dava conta de maquiar minha infelicidade no meio de todas as festas de república do mundo, muita cerveja e muita gente desconhecida. no fim do ano tudo teve uma certa calma, até que eu perdi meu emprego e a vida voltou a ser a mesma aventura incerta que era no começo disso tudo. sem amor, sem carreira, sem os amigos que tinham mudado de cidade. senti a falta dele de novo, quis morrer trinta vezes, mas continuei.
conheci outra pessoa, achei que quem sabe podia ter ali uma salvação, continuei vivendo, conheci outra cidade, outras pessoas, outros jeitos de ver a vida. tive uma esperancinha de que as coisas finalmente iam pro rumo certo, mas vez ou outra a coisa degringolava e eu percebia que talvez aquele não fosse o caminho mais certo do mundo. mas a gente precisa de esperança, sempre ela a esperança, e tem que continuar porque alguma coisa sempre-tem que continuar, então mesmo em meio às frustrações e a minha loucura eu continuava. eu apostava meio tímida as minhas fichinhas, mas apostava. enquanto isso tentava esquecer que não tinha nada da vida, nem um emprego, nem uma carreira e nem uma casa pra morar e nem mesmo eu cresci depois que ele me deixou e não estava mais ali pra me impedir de pular as janelas. e tudo vai indo, eu fui focando em emagrecer, fui tentando fechar os olhos pras coisas que eu sabia que aconteciam, mas que eu não queria encanar naquele momento, fui tentando calar a paranoia e correndo 8km diários. daí nessas últimas semanas eu dei de sentir os mesmos mal estares que sentia quando tive que encarar o dr. agnello, lá estava eu vomitando a vida de novo, mas nem dei confiança. tudo bem, é assim mesmo, eu só ando comendo comida leve, toda vez que comer uma comida mais pesada vou passar mal. e achava que tudo ok eu não conseguir comer mais que um pedaço de pizza, deixar metade do lanche no burguer king, comer duas colheres de arroz e uma concha de feijão e começar a sentir enjoo. tá tudo bem, é que eu não consigo mais comer muito, é a dieta.
aí que teve esse dia em que eu excedi demais a cota e passei mal mais uma vez. desacordei, estraguei uma casa, não conseguia ver comida na frente, passei uma manhã inteira tonta e descontrolada, querendo chorar nos cantos e achei que ok, tudo bem, eu-tomei-vinho-demais. no outro dia eu comi salada, mas passei mal porque o-suco-de-laranja-tava-quente-demais. no outro dia no café da manhã eu-dormi-muito-pouco-foi-por-isso. até que hoje, depois de uma coxinha e uma torta de morango de volta em casa, eu percebo que não teve dieta nenhuma, não foi vinho-demais nenhum, nem é que eu não consigo mais comer macarrão depois das onze da noite. não eram fatos isolados. era um fato só: eu tenho somatizado a vida que não sei lidar. e nesse último mês, dr. agnello me olharia e diria "larissa, o que acontece é que você tem somatizado muito stress". a gente vive uma vida toda pra precisar de um estopim horroroso pra se tocar que, olha, essa vida que você tava vivendo não era exatamente feliz, e toda essa sua frustração ia acabar aparecendo em algum lugar. e apareceu. olha eu vomitando a vida de novo. fico olhando pras paredes descascadas do meu quarto e descubro o inevitável: tenho sido muito infeliz. e infeliz de um jeito profundo mesmo, que não adianta, não tem noite agradável que conserte. eu sou aquela menina infeliz no canto da festa que uma hora ou outra vai sentar na cadeira e ficar olhando apática pro próprio pé.
minha apatia é muito anterior à tudo isso. é apatia de quem não quer pensar na própria vida e fica assim, vomitando pelos cantos porque precisa soltar a dor de algum jeito. ele me perguntava se eu estava feliz e eu dizia que sim, só que a verdade é que eu não lembro a última vez que fui feliz. talvez naquele primeiro fim de semana em fevereiro quando tudo ainda era um pouco novidade, mas não sei se. eu era feliz ali, mas tem tanta coisa que não era feliz que a verdade é que eu nunca me entreguei plenamente pra nada desde que me entreguei da última vez, e fui fazendo da vida essa bola de neve. acontece que sou forte demais pra chorar no ombro de quem quer que seja, e vou dizer que "não foi nada" toda vez que me perguntarem se aconteceu alguma coisa comigo. tenho um orgulho que é muito maior que a minha dor, e uma mania esquisita de nunca me permitir sofrer. tudo isso parece aquele papo clichê, mas é que sempre foi assim. seria mais fácil ser essa pessoa que sofre e chora, que fala na cara, que tem ataques de ciúmes e que não vive de indiretas e remoendo as coisas que não falou, mas meu orgulho impede. não quero ser aquela louca que sofre de ciúmes e que morre de amores, eu sou bem-resolvida demais pra isso. acontece que eu não sou. e não sendo vomito a força que eu finjo ter, mas não tenho. e desde os oito anos encaro o dr. agnello me dizendo que isso tudo é a minha infelicidade somatizada.
sou uma eterna infelicidade somatizada. e me sei apática. se me derem um soco, ficarei olhando. se cuspirem na minha cara, limparei e continuarei deitada. as pessoas me destroem e eu não tenho força o suficiente pra brigar. só fico ali, esperando um abraço. eu sei de um monte de coisas que preferi não contar. eu fui machucada em partes que ninguém nem imagina. só que continuo sorrindo. faço uma gracinha, peço desculpas, digo que a culpa é minha, finjo que não ouvi os desrespeitos todos e continuo vivendo. eu queria chorar no meio da augusta, sentada no meio fio, perguntando pra eles porque é que estavam fazendo tudo aquilo comigo. eu queria pedir colo na volta do show, mas me contentei em ouvir eles dizendo que eu sou uma menina muito sensata, e que ia saber o que fazer. eles nem sabem que meu coração ainda quebra em pedacinhos. eles não sabem que o meu discurso bem resolvido é ressentimento. eles não cuidam tanto-assim de mim porque eu digo que sei me cuidar sozinha, e que vou sobreviver. só que eu não sobrevivi. nesse ano eu acho que eu nem nasci ainda. estou ali morta em algum lugar. o que vive é o casco machucado que apesar de toda a bordoada do mundo, continua de pé. vai, bate mais um pouco, diz que eu sou um desastre, eu vou aguentar. diz que queria me bater, diz que eu não sou o tipo de mulher que você esperava que eu vou vestir o meu coturno e continuar em pé. me dá o tapa na cara que você queria me dar e segurou. eu não vou fazer nada. eu vou passar o meu batom vermelho e não conseguir aproveitar o show da minha vida porque sinto o peso do mundo nos ombros. mas vou fingir bem. depois chego em casa e vomito o mundo na privada. assim como tinha vomitado no último mês sem me dar conta. dou descarga em tudo que não grito, é o jeito que eu dei de me livrar de mim mesma.
dr. agnello já está acostumado, ele me receita remédios e eu paro de sujar paredes por aí. mal sabe ele que eu só queria um pouco de paz. pra um dia ser feliz, quem sabe.
4.4.12
protect me from what I want.
Lembro que um dia quis tatuar essa frase. a do título do texto. ainda tatuaria, se acreditasse em tatuagens. se acreditasse em qualquer coisa que possa durar em mim antes que eu enjoe. falei dessa necessidade de ser-sozinha e hoje me descobri uma pessoa sem trato. chegam perto de mim e eu me encolho, como um desses gatos desconfiados que já levaram muita bordoada na rua e tem medo de serem açoitados de novo. os cachorros costumam ir sem pensar muito. dizem que os cachorros são os seres que amam verdadeiramente. ou eles não tem muita memória dos maus tratos. gente que ama de verdade é meio assim mesmo. esquece o que foi ruim, foca no bom, continua amando. gente que ama-demais. nunca fui dessa gente. sempre fui gato açoitado na rua que levou bordoada e ficou debaixo de chuva ensanguentado de pancada. talvez porque eu também tenha dado lá minhas bordoadas nos outros. hoje tenho preguiça das relações sociais, das relações amorosas, de qualquer relação enfim. podem me deixar em casa, com a minha tv. eu vou me deprimir um pouco, mas é melhor do que ser tratada como um nada depois de anos de devoção. acredito muito em amizades, muito mais do que acredito em amor (dizem que vem de eu ser aquariana, e embora eu negue, eu acredito mesmo um pouco nisso de zodíaco). mas até as amizades acabam. era bonito, foi bonito, a gente se amava e hoje eles recusam meus convites pra sair. e tudo bem também, ninguém tem uma dívida eterna de nada comigo, eu abdiquei de coisas por eles porque quis. porque amava. hoje amo, mas amo mais ou menos. amo sabendo que posso ser abandonada no minuto seguinte, e esses amores são menos verdadeiros. todo mundo foi embora. acho que todo mundo vai embora um dia. só ficou ele, ele que me faz ter essas conversas loucas no meio das tardes quentes de londrina e me lembrar que eu não sou mais aquela pessoa que eu era aos vinte um anos. ok, ninguém é aquela pessoa que era há dois meses atrás, imagine há dois anos, mas eu já acreditei em alguma coisa. hoje a gente anda pela rua e se pergunta se quer mesmo ter filhos, casar, se quer mesmo fazer outros amigos. nos tornamos intolerantes. temos medo. medo como aqueles gatos que levaram muita pancada. e se for assim? e se a gente colocar um monte de energia numa relação e ela não valer de nada. as feridas doem mais numa pele que já foi machucada. as feridas doem mais na gente que não sabe mais confiar. eu não sei. a cada vez que pareço de novo estar me entregando a qualquer coisa nova, vou tentando dar um basta. as pessoas te frustram. as pessoas vão te frustrar. a gente não pode cruzar aquela linha tenue que separa as relações casuais dos amores de verdade. qualquer amor. amor-amor ou amor de amigo. não é seguro do lado de lá. é seguro aqui. as feridas cicatrizadas, o esconderijo escuro. os segredos bem guardadinhos. vou fugir se tentarem me pegar no colo. sei que vou continuar fugindo. ou tinha que ter alguma dessas pessoas que são mais cachorros que gatos pra amolecerem meu coração. uma dessas pessoas que salvam animais, que tentam uma vez após a outra resgatar o bicho ferido. que vão com parcimônia, que querem-mesmo que querem de verdade. nem sei se essa gente existe. tudo que eu tenho encontrado é uma gente igual a mim. dá dois passos pra frente e depois três pra trás. ou dá passos pra trás quando eu dou pra frente. e quando dá pra frente sou eu que vou pra trás. é todo mundo gato machucado de rua com ferida sangrante. todo mundo tem medo. a gente se olha nos olhos e vê um espelho. e ao invés de se abraçar sai correndo. gato escaldado tem medo de água fria. nós vamos nos afastar tentando salvar a própria pele. e machucaremos-nos. eterno ciclo. medo de amar número dois.
ou tudo que eu já tinha escrito aqui e continuo sendo.
ou tudo que eu já tinha escrito aqui e continuo sendo.
3.4.12
Leve, como leve pluma muito leve pousa.
"Leve, como leve pluma
Muito leve, leve pousa.
Muito leve, leve pousa.
Na simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma
Suave coisa nenhuma.
Sombra, silêncio ou espuma.
Nuvem azul
Que arrefece.
Simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma.
Que em mim amadurece" (Amor - Secos&Molhados).
Muito leve, leve pousa.
Muito leve, leve pousa.
Na simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma
Suave coisa nenhuma.
Sombra, silêncio ou espuma.
Nuvem azul
Que arrefece.
Simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma.
Que em mim amadurece" (Amor - Secos&Molhados).
Queria escrever alguma coisa. Qualquer coisa no dia que me faltam as palavras. Sinto um turbilhão de coisas e não sei como transformá-las em prosa ou poesia. A vida nos toma muito tempo. O tempo todo muito tempo. Mesmo quando a vida em si nem existe. Preencho meus dias com corridas ao ar livre e pequenas frases jogadas ao acaso no mundo narcisista das redes sociais. Quero a atenção que sempre tive. A atenção de ser o melhor texto da sala, a piada mais engraçada do bar, a menina mais inteligente do grupo de amigos. Quero ser amada, como todo mundo quer. Sou sozinha. Sempre fui sozinha. Guardo comigo a condição de sempre ter sido solitária. Filha única, passava meu tempo entre gibis, livros e os programas de tv cultura. Nunca gostei muito de gente. Me irritavam as crianças que corriam. Nunca gostei de pique-esconde. Tinha pavor de ser a última a ser encontrada. Ou a primeira. Nunca me encantou o mistério do gato mia. Nunca pintaram na infância minha cara com rolha por conta do dorminhoco. Eu preferia os adultos, os amigos mais velhos, minhas bonecas e os livros do monteiro lobato. Ainda não sou muito dada a gente. Tenho um desses universos grandes em que hesito em deixar alguém entrar. Faço força pra conseguir descobrir alguém que saiba todos os meus segredos. Ninguém sabe. Tem sempre alguma coisa a esconder. Ou a calar. Todos aqueles que um dia quiseram entrar nesse universo que não faço questão de contar eu afastei. Preciso dos segredos porque senão não existe literatura. A literatura se faz do mistério, do escondido, das caixinhas que não se conta nem pro terapeuta (embora ultimamente eu não acredite em terapeutas).
Ser sozinha é uma condição-karma. Ninguém gosta tanto assim de gente sozinha. Ninguém sabe lidar muito bem com a solidão. As pessoas querem estar juntas, preferem a presença e olham com um certo desprezo ou descaso aqueles que sentam sozinhos nas mesas dos cafés e compram um só ingresso pro cinema. Eu preciso estar sozinha. Preciso ter comigo a certeza de que sou eu que estou tomando as rédeas da minha vida. Por isso hesito ao pedir conselhos. Por isso por vezes falho nas relações amorosas. Tem gente que exige fazer parte da sua vida demais, fazer parte das suas particularidades demais. Quer deitar na cama e dividir o momento solitário com você. Não respeita o secreto. Não tem como viver com gente que não respeita o secreto. Preciso do silêncio. Preciso caminhar oito, dez quilômetros e não ouvir a voz de ninguém a não ser a minha própria música. Preciso do meu espaço de seis ou sete metros quadrados em que durmo e escrevo. Preciso tomar café na padaria e não encontrar ninguém conhecido. Preciso estar em contato porque sempre precisei. Desde pequena. Desde quando o barulho das crianças que brincavam de pique-esconde me irritava. Sempre soube muito mais ser sozinha do que ser junto. É difícil a condição. É difícil porque é preciso compartilhar pra viver. É preciso estar-junto. É preciso que se tenha alguém pra contar e outra pessoa embaixo do seu cobertor, mesmo que esporadicamente. Sei que me livrar da solidão é um exercício. Um exercício diário e saber enxergar e dar lugar pro outro. Um pedacinho da cama. Um pedacinho da vida. Uma história que nunca se contou pra ninguém. Um segredo.
Sei também que ser sozinha é um dom. O dom de saber que se é um ser completo. Não no sentido de não precisar de mais ninguém, mas no sentido de ser pleno. Existe plenitude na solidão. Felicidade em ir no shopping fazer compras sem ninguém ao lado, em ouvir sua própria seleção de músicas, escolher o canal da tv, ir ao cinema às 7 da noite ver um filme que ninguém gosta muito. A plenitude do ser. Estar sozinho e saber que se sente confortável em sua própria pele. No silêncio e no barulho que estar dentro de si faz. Ser sozinho não é ser solitário. É gostar de, de vez em quando, estar sem ninguém. É precisar do próprio espaço, é gostar das próprias idéias. É principalmente estar com outra pessoa porque se quer estar, e não porque sente necessidade de. Querer o outro é muito mais bonito do que precisar do outro. Porque querer é vontade plena, e precisar é necessidade, prisão, coisa pesada. Querer é saber que podia-se viver sozinho se precisasse, se o outro te deixasse, se de repente tudo terminasse. É ter consciência de que, caso não exista o outro, ainda se vive, se sobrevive, se pode ser feliz. É saber que podia-se estar completamente sozinha e quem sabe até bastante feliz, mas não se quer estar. Por escolha, porque faz bem. Porque sim. É que todas as vezes que me senti precisar de alguém pra viver era a coisa errada, o barco furado, o descontrole que levava ao caos. Só fui feliz mesmo nas vezes em que ao invés de precisar, quis perto. Por escolha. Podia não estar com, mas quis.
E de repente existe alguma leveza nessa liberdade meio solitária que carrego desde a infância. Reencontrei-me. O descontrole nunca me pertenceu. As coisas que são verdadeiramente suas não são as coisas que você aprisionou. São as que deixaram-se ficar.
(qualquer texto escrito de madrugada vai parecer auto ajuda).
(qualquer texto escrito de madrugada vai parecer auto ajuda).
Marcadores:
Clichê com C maíusculo,
Coisas da madrugada,
Solidão,
Vida
1.4.12
saudades do avô número em reticências
“O tempo só anda de ida
A gente nasce, cresce, envelhece e morre.
Pra não morrer
É só amarrar o tempo no Poste.
Eis a ciência da Poesia:
Amarrar o tempo no Poste!” (Manoel de Barros).
Pra não morrer
É só amarrar o tempo no Poste.
Eis a ciência da Poesia:
Amarrar o tempo no Poste!” (Manoel de Barros).
Uma vez nós estávamos sentados no banco de madeira velho (que eu acho que nem existe mais, a tia é cheia de jogar as memórias no antiquário e a casa agora é dela) e a minha vó ficou bastante irritada com uma das brincadeiras que ele fez. Ela disse que estava com muita raiva. Ele, sorrindo um sorriso engasgado, muito dele, disse que não era pra ela ter raiva não. A raiva dá na gente dois trabalhos: o de ficar com raiva, e o de "desficar". Pegou um papelzinho, e como quem ensina uma coisa muito séria disse: "olha, maria, eu vou te explicar uma coisa. A raiva, quando entra na gente, entra muito rápido, tipo um furacãozinho", e desenhou rapidamente um furacãozinho com a caneta que sempre carregava no bolso da camisa. "Mas pra sair, maria, ela tem que dar toda essa volta aqui ó", disse ele fazendo com a caneta toda a volta que deu no furacãozinho, "e aí, maria, demora muito. Esse troço de raiva dá muito trabalho". Minha vó repreendeu-o dizendo "eta, estevo, deixa de bobice". E ele continuava rindo, porque nunca soube deixar de bobice.
A vó era a parte prática da casa. Criou cinco filhos como lavadeira e foi quem botou um pouco de juízo na cabeça daquela gente que, se dependesse dele, ia viver de sonho. O vô nunca foi muito dado as racionalidades. Inventava nomes pras coisas. Nomes que não existiam. Viva de fazer piada com a vida dos outros, e mesmo sem ter tido "muito estudo" como ele mesmo dizia, vivia num mundo de livros. Uma vez a mãe tirou o livro do john locke de perto dele porque disse que "esse negócio de ficar se questionando com esse tanto vai acabar fazendo mal pra um homem dessa idade". Com ele eu aprendi o lúdico. Ele cuidava das minhas bonecas com bastante propriedade e ouvia as minhas histórias todas. Virei uma grande contadora de histórias pra ele, e me sentia muita satisfeita como detentora do conhecimento e caixinha de gargalhadas particular do meu avô. Mal sabia eu que ele sabia muito mais histórias do que eu tinha pra contar, mas ele costumava ser bastante generoso. Acho que ele é um desses homens que nunca cresceram, ou que souberam cativar bem a infância.
Diz minha mãe, que quando as minhas primas eram pequenas, ele intermediava receitas de remédio entre elas. A fernanda era a enfermeira das bonecas da Gisele, então a Gisele informava a ele os sintomas da boneca, ele repassava pra Fernanda que passava uma receita de remédios que ele entregava pra Gisele de volta. Ele gostava muito de inventar histórias também. Vez ou outra vinha com "mentiras"pras minhas amigas, o que me deixava bastante irritada. Agora eu percebo que tinha é sorte de conviver com esse homem que tinha assim tantas histórias pra contar e inventar. Esse mineiro que quando diziam que ele tinha cara de nordestino ele dizia que era sim, de "feira" e que não tinha sotaque porque foi pra minas muito novo trabalhar. O que quando eu era pequena eu chamava de mentiras, hoje eu percebo que era todo um universo fantasioso em que valia a pena entrar. O universo em que ele contava histórias que na realidade não aconteceram pros amigos, e que fingia acreditar em coisas que na verdade não acreditavam. O universo do lúdico, da brincadeira, das travessuras, do jogar água nos gatos e escrever pequenos contos em pedaços de papel. Ele sempre tinha uma caneta no bolso. Eu herdei o costume.
Sei muito pouco do que ele escrevia nos pequenos papéis logo depois de ler o jornal, ou as revistas, mas sei que ele inventava historietas. Escrevia numa caligrafia perfeita pra quem estudou tão pouco e tinha o humor refinado de quem aprendeu a rir em meio a desgraça. No meio dos sacos de café e no trabalho pesado de quem veio tentar a sorte, nasceu a poesia. A poesia que não era escrita em livros, nem estudada nos cursos de letras, mas essa poesia que nasce da vida. Desse homem que criou filhos que adquiriram gosto pela arte, que guardavam o pouco dinheiro que tinham pra comprar vinis. O homem que me ensinou que a beleza vem da vida. Vem da água com açucar que a gente coloca pros beija-flores pousarem, no arroz que a gente joga pra ver os passarinhos comerem, vem da música que a gente coloca nos toca-discos no domingo, vem de plantar na horta, de ver os antúrios crescerem, vem de fazer bambolê com pedaço de mangueira de jogar água no jardim. Riqueza mesmo é ter tempo de sentar embaixo do pé de limão e observar a rua, é contar histórias que não existiam, é ter o espírito puro de quem responde "boa noite" pro âncora do jornal, é fazer tampinha na laranja pro suco sair melhor.
Ele foi o primeiro poeta que eu conheci, meu primeiro contato com o lúdico, com a história, com a palavra-inventada. Foi vendo que a literatura podia fazer aquele "homem grandão" rir que eu tive vontade de escrever as minhas próprias histórias. Foi com ele que eu aprendi que a palavra tem poder. Foi com ele que eu aprendi a desconstruir, a chamar o que todo mundo chama de "carne de porco" de "porcaria". Ele foi o meu primeiro contato com a imaginação, com o desconexo, com as quatro balas na boca, com o políticamente incorreto de se rir dos tombos dos jogadores nos jogos de domingo que assistíamos juntos. Existe graça no erro, na falta, no chute pra fora. A beleza vem do acaso. A sabedoria vem de desenhar a raiva como um diagrama. Meu vô, assim como manoel de barros deve ter tido três infâncias. Na última (essa que eu conheci) costumava subir em telhados como um moleque, e inventar narrativas fantásticas sobre as coisas que queria ter vivido e não viveu. Se encantava com a beleza de um mundo que não era o nosso pela tela da tv, e aprendeu a esquentar café no microondas. Com ele eu aprendi que as coisas que a gente fala e não existem, nem sempre são mentiras, às vezes são só histórias. Invenção. E o mundo é muito chato se não for feito de invenção.
O mundo é muito chato se a gente não rir do que não pode rir e não fizer piada com a raiva alheia. Talvez seja isso. Talvez exista muita melhor no mundo do que esperar que o furacãozinho da raiva passe. Com ele eu aprendi a ser leve. A deitar na grama em cima da toalha. E a não comer antes do almoço porque "estraga o apetite". Juntos explorávamos a loja de bala e pedíamos pastel com uma coquinha de garrafa. Com ele o mundo era imenso e inusitado. Ele era meu homem inusitado que comia as cabeças dos peixes e os pescoços dos frangos, muito selvagem. O homem selvagem que sabia o nome dos passarinhos, e como cuidar das plantas. O homem que sem nunca ter publicado uma linha me ensinou a poesia e deu a primeira voz a minha literatura. É preciso transver o mundo, Vô. É preciso enxergar um universo paralelo na casinha onde se guardava as tralhas e a minha bicicleta. É preciso ter medo dos monstros onde não existe nada. É preciso enxergar além. É preciso tratar as bonecas como filhas. É preciso sorrir, o tempo todo sorrir com o seu sorriso.
E agora, vinte três anos depois de termos nos conhecido, eu entendo que por vezes essa literatura malfeita que faço é meu jeito de não te deixar morrer nunca. Eu amarrei nosso tempo num poste, vô.
(desde que você se foi, você é sempre o poema que eu quero ler e não tenho mais à mão).
Assinar:
Postagens (Atom)
