(ou uma carta depois de um filme para um amor perdido).
Hoje vi um filme que me lembrou você. Tinha essa cara que sabia muito sobre vinhos. Como você. Eu, pessoalmente, nunca entendi coisa alguma sobre vinhos ou uvas ou pinots ou cabernets. Comprava o que parecia melhor. Não sei sentir cheiros, aromas frutados, coisa alguma. Sei do básico: ou gosto, ou não gosto. Quem se perdia nas prateleiras enquanto eu rodopiava pelo mercado era você. Você sempre confundia com impaciência. Na verdade, com você eu estava sempre com pressa. Acho que te encontrei poucas (pra não dizer nenhuma) vezes em que eu não tinha hora pra voltar pra casa. A equação é simples: os amores não podem ser construídos com hora pra voltar pra casa. Nossos encontros sempre tinham um fim em si mesmo. O amor precisa de eternidades. Não fosse assim, não teríamos nos encantado da primeira vez. Foi por poder conversar até o dia amanhecer que eu te conheci. Se fosse uma conversa marcada de duas horas não ia ter nada. Nosso caso tinha hora pra acabar, hora pra voltar pra casa, pressa de ir pro trabalho, de não perder a aula, de encontrar meus amigos. Nosso caso tinha hora pra acabar. Nosso caso tinha sempre uma hora pra ir embora de volta pra casa. E a minha casa sempre foi longe demais da sua.
Das poucas vezes que nos achávamos eternos, perdíamos o ônibus. Eu acabei lembrando daquela vez na padaria, em que a gente tomou duas mini garrafas de vinho e que você me contou umas histórias sobre um tal cachorro seu que a sua mãe tinha dado, daí chorou. Nunca antes eu tinha te visto chorar. Nem uma lagriminha boba, dessas que caem de canto de olho eu tinha visto. Você escrevia poemas e eu te contava sobre o sempre estar inacabado do escritor. Nunca seríamos, enfim, bons demais para sermos publicados. Naquele dia eu te contei sobre as minhas angústias enquanto devorava um brownie em que o sorvete derretia. Naquele dia você me chamava de escritora e eu acreditava em você. Naquele dia eu te disse olhando bem no fundo dos teus olhos, que não são de um castanho tão escuro assim, que você era o meu número. E, enquanto eu parecia eterna nos seus braços, o ônibus passou. Era sempre isso. Quando eu sentia que eu podia ficar com você pra sempre eu lembrava que tinha que voltar pra casa. Nenhum amor pode resistir se não tiver eternidade. O nosso se perdeu entre passagens de ônibus e meus tropeços no metrô. Não podíamos ser porque não tinhamos tempo. É preciso de tempo para amar. É preciso de tempo e o tempo é esse conceito relativo em que tudo pode acabar em um instante. Eu desisti de me desesperar. Era preciso que o tempo curasse as minhas feridas. Era preciso que a gente percebesse que um amor não se constrói correndo em visitas de quinze minutos. Em noites corridas. Em tempo marcado. Era preciso que a gente esperasse. Não ia ser dessa vez. Não no meio da minha loucura iminente porque eu não dei tempo pra curar minhas feridas. Não no meio do seu trabalho louco, dos seus afazeres, da sua mudança, das suas faxinas e das provas pras quais eu não te deixava estudar. A gente já tinha se esperado sem saber antes disso. Talvez a gente esteja em stand by pra se encontrar depois. Eu não sei. Não guardo mágoa, e não foi culpa de ninguém.
No resto dos dias eu fico aqui. Vez ou outra vejo alguma coisa que me lembra você e aí acabo ficando com vontade de escrever uma carta ou mandar um bilhete. Nunca faço. Esses dias meus fones ameaçaram quebrar e quase comprei um igual aos que eu tinha te dado. Desisti. Acho que as lembranças devem ficar na memória. Hoje foi esse filme. Tinha esse cara que queria ser escritor mas ninguém entendia seus livros. Tudo dando errado na vida dele, um sofrimento sem fim. Você nunca leu meus livros inacabados. Lembro de um vez que a gente brigou (nossa primeira briga quase-séria) e você ficou bravo porque não prestei a devida atenção no seu conto escrito na sua cafeteria preferida. Na hora achei bobagem, depois percebi que você é igual a mim. Não sabemos não ser a estrela do espetáculo. Um escritor é muito apegado à sua obra. Eu sou muito apegada às minhas histórias para que alguém não preste a devida atenção. O cara do filme tinha uns problemas de relacionamento, era ainda apegado à mulher de quem já tinha se divorciado fazia dois anos. Acho que a gente também era um pouco apegado às nossas velhas histórias. Não boto nisso a culpa do fracasso. O fracasso só acontece. Ele estava ficando careca, como você vai ficar um dia. Eu espero que você consiga publicar seus livros e que, ao contrário dele, esteja bem sucedido aos quarenta anos. Eu também espero estar. Não sei se estaremos. Pelo menos, se um de nós dois der certo, a gente pode saber um da vida do outro a distância.
Não sei muito de você. Torço pra que esteja bem. Eu ainda não estou. Larguei minha monografia de lado, pego uns trabalhos aqui e ali e me acho uma bagunça. Sou muito diferente daquilo que você conheceu nos meses em que já não estávamos muito bem. Atingi o tão querido equilíbrio. Vez ou outra ainda sei que estou apática. É assim mesmo. Às vezes a vida não tem porquê. Corro religiosamente todos os dias e ganhei um fôlego que eu não tinha. Agora corro sem pressa. Me exercito na academia ao ar-livre e tenho as pernas duras. Fiquei ruiva como você me sugeriu da última vez que nos falamos. Sempre quis ser ruiva, mas nunca dei o braço a torcer. Acho que combino assim e, vez ou outra, penso em fazer uma tatuagem. Quando falo isso lembro de você me rodopiando na cozinha dizendo "quem é que disse que nunca ia fazer uma tatuagem?". Não gosto de eternidades. Era essa a minha justificativa pra nunca selar nada no corpo. Agora queria que algumas coisas fossem eternas. É eterna a saudade dos meus avós. E um dia vai ser eterna a saudade dos meus pais. Fiquei com vontade tatuar qualquer coisa que seja que me lembre eles pra ficar eterno no corpo. Alguma coisa escrita em mim que seja deles e que vai se decompor comigo. Tenho medo do meu pai morrer jovem, antes de ter me visto ser alguma coisa na vida. A única coisa boa de não termos sido eternos pelo tempo que durasse foi que pude ficar aqui sem culpa. Cuidei dele. Estive. Restaurei a nossa relação. Tive medo do que teria sido se eu não estivesse aqui. Percebi que no mundo existem muito poucas eternidades. Eu passei o aniversário dele com você. Não me arrependo, mas depois fiquei pensando que a gente sempre acha que haverão muitos aniversários ainda por vir. Eu não sei quantos serão. Quando ele quase ficou cego tive muito medo de ter perdido o último aniversário onde ele ainda poderia me ver. Ele ainda me vê. E me chama pra tomar cafés. Como você, percebe a diferença entre os pós e os expressos e prefere sua água com gás. Vocês dois roncam alto igual. Enquanto te escrevo ouço os roncos dele e percebo que não me incomodam mais porque eles sinalizam que ele está vivo. Nada é eterno. Mas eu sou tudo o que eu tenho. Estarei comigo pela eternidade. Tudo que estiver em mim também estará. Achei que uma marca física que me lembre eles talvez faria sentido. Pensei num violão, as flores preferidas dos meus avós e a preferida da minha mãe. Nas costas. Uma versão ruiva e tatuada de mim mesma eu não sei se você imaginaria. Acho bom que estejamos em constante mudança. Você não acha?
Às vezes ouço samba sozinha e lembro que nos prometemos um samba que nunca houve. Meu avô gostava muito de tudo aquilo que a gente já ouviu junto. Acho que você ia gostar do meu avô. Ele também ia gostar de você, se te conhecesse. Eu nem sabia que você existia no planeta terra quando ele morreu. Teriam se gostado. Ele gostava muito de contar histórias, e você gosta de ouvi-las. Hoje tudo que eu tenho dele são as histórias que conto sobre ele. Lembro da vez que o seu avô ficou doente e eu estava longe. A gente brigou por nada. Era o começo do fim. Sempre achei bonito que você gostasse tanto assim dos seus avós. Continue cuidando deles e estando perto. Eles não são eternos. Mas, veja, o amor, pre existir, precisa dessa sensação de eternidade. Quando você ama alguém você sente que ela nunca vai acabar. Ela nunca vai ter que ir embora. Um dia elas tem que, mas é melhor que a gente não se lembre disso. A gente sempre lembrava que tinha que se despedir. Eu sentia que a gente ia acabar. Sua avó, se ficou sabendo de nossa horrível história, deve me achar um horror. Espero que a colcha dela permaneça intacta. Não era a minha intenção. Ela parece ser um ser adorável. Todas as avós são e nenhuma delas merece ter a colcha manchada. Ser uma bagunça nunca foi a minha intenção. Pelo menos não desse tipo de bagunça que sai destruindo tudo o que vê pela frente. Às vezes gostar não é o suficiente, sabe? É preciso um pouco mais. Eu acho que eu queria que você me salvasse. E, o paulo coelho, apesar de cafona, está certíssimo em dizer que a cura está dentro da gente. Ele deve ter dito isso em algum desses livros dele. Você gosta do paulo coelho? Eu não gosto. Nunca conversamos sobre isso. Nunca conversamos sobre várias coisas. Certas coisas só podem ser ditas quando as conversas não tem hora marcada pra acabar. As nossas tinham. Era necessário falar do que importava. E, para que o amor se construa, é necessário, vez ou outra, discutir paulo coelho.
De vez em quando penso em você quando ouço Chico ou quando percebo que não gosto mais dos textos do Caio F. Você gostava mesmo? Foi um pouco assim que a gente se conheceu. Éramos tão jovens. Quinta feira vai ter um show de um grupo independente com a ópera do malandro. Vi e pensei que você pudesse gostar. Da peça que eu vi com texto do Caio F. também. Fiquei sabendo por cima que você fez ou gosta de teatro. Acho que eu seria atriz. Acho que eu podia ser qualquer coisa. Talvez por isso tenha optado por escrever. Escrevendo a gente pode ser qualquer coisa. Escrevendo eu posso te escrever essa carta que você não vai ler. Torço para que você esteja bem. Espero que ainda te escrevam outras cartas de amor melhores que as minhas a próprio punho e que te façam a festa com brigadeiro, bolo de chocolate e chapeuzinho de festa que eu queria ter feito ano passado mas não consegui. Espero que alguém um dia também saiba que você tem um sonho secreto de ter uma festa de criança. Espero que nós dois consigamos interlocutores interessados em nossas narrativas fantásticas. Alguém ainda há de ser sua leitora mais dedicada. Alguém que muito provavelmente não vai ser eu. Espero ver seu nome em livros nas estantes da livraria onde tivemos nosso primeiro encontro. Espero que um dia tenha o meu, também. Casaram lá esses tempos, você ficou sabendo? Todo mundo achando brega e eu rindo um pouquinho porque sei que no auge de nosso encantamento nos mandaríamos links dizendo que podíamos casar nós dois lá também. A nova temporada de mulheres ricas parece que vai ser ruim. Logo-logo vem o natal e o ano novo, e chegam as semanas em que me lembro de trocar intermináveis mensagens com você. Na virada do ano nos prometemos nos conhecer. Aconteceu. Deu certo e depois deu errado, igual a tudo na vida (não é esse o nome do seu filme do woody allen preferido?).
Não sei o que o futuro nos reserva. Espero que surpresas melhores. Talvez, algum dia, eu te encontre por aí. Talvez não. Em todo caso saiba que se me ver daqui alguns anos e eu estiver de cabelos ruivos e tatuagens, não estranhe. O mundo é essa coisa em constante mutação. Espero que esteja feliz. Espero que você seja mesmo muito feliz. Hoje, como diz aquela música que ouvimos na sua casa pouco antes do desastre: me sinto mais forte, mais feliz quem-sabe, e só levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou nada sei. Acho que o Almir Sater tem lá sua razão quando afirma que é preciso chuva para florir. Às vezes lembro de você em dias como hoje e penso nisso. Penso nessas coisas todas que já se foram. Hoje penso em tudo bem mais leve. A vida é feita também de tragédias. A outra face do sentimento é a tragédia, inevitavelmente. Não quero ser um daqueles escritores geniais que no fim se matam, sabe? A vida não faz nenhum sentido mas pode ser pior sem ela. É também um pouco pior sem amor. Espero que você ame de novo e eu também. Espero sempre o melhor pra nós dois. Te-quero-sempre-bem. E digo assim, com esses hífens que você sempre disse que eu não-sei-parar-de-usar e que a língua portuguesa em sua nova ortografia vem rejeitando. Te desejo o melhor. Os melhores vinhos, o melhor sexo e a melhor literatura. Se possível, os três juntos. Se possível ainda, ser feliz. Se ainda couber um pouco mais, um apartamento bem decorado e um cachorro de pelos curtos. Por você eu lembro de querer ter um cachorro e eu nunca gostei tanto-assim de cachorros. Obrigada por tudo aquilo que você um dia fez nascer em mim. De bom e de ruim. O bom me fez feliz e o ruim me fez crescer. Obrigada por ter sido comigo enquanto deu. O destino de toda história talvez seja o mesmo dos impérios romanos: a conquista, o apogeu e um declínio com tragédia. Mas sempre sobra alguma coisa de belo, como um coliseu. Espero que de mim também tenha sobrado alguma coisa bela em você. Quem sabe a gente ainda se esbarra por aí, entre umas e outras, enquanto eu tropeço nos astros (e na rua) desastrada; como um dia cantou o Caetano - e você.
10.12.12
2.12.12
o que será que será?
Odeio tudo que eu escrevo. Quero jogar no lixo tudo isso que eu penso e repenso e que não sai texto nem coisa nenhuma que fique perto do aceitável. Sinto sono e não durmo de jeito algum. Descobri que o mundo se divide, primordialmente, em dois grupos de pessoas: as que estão e as que não estão. As pessoas que estão são as que mesmo em meio a loucura da vida arrumam um tempo pra se fazer presentes; as que não estão inventam estranhas desculpas, fazem morrer os cachorros e sempre tem alguma coisa terrível da faculdade pra terminar. Descobri que pra amar é necessário passar sono e se gastar o dinheiro que não tem. Estar só quando dá pra estar é fácil demais. Tenho estado irremediavelmente sozinha. Já nem sei como desabafa. Nunca mais falei de mim e nunca mais escrevi nada que prestasse. Lembro de uma carta de amor (ou quase-amor) que escrevi no começo do ano e fico pensando que essa pessoa morreu. Eu morri. Não sei articular uma frase ou demonstrar emoções. Observo todo mundo com a frieza de quem narra uma história sem se envolver. Sou narrador-observador e não mais um narrador-personagem. A essas alturas acho que a vida pode fazer o que bem entender de mim. Eu me distanciei tanto de tudo e me machuquei tanto por dentro que eu já nem sei o que eu esperava. Não tem porquê acordar de manhã ou comprar roupa cara. A felicidade não é muito mais que conseguir tomar caldo de cana quando se tem vontade de caldo de cana. Nunca mais falei de mim, nunca mais saí sem me sentir bicho do mato. O estrago que tudo isso causou em mim (seja lá o que for "tudo isso"), parece muito mais difícil de curar do que se imaginava. Me sinto sem par no mundo e fico com vontade postar fernando pessoa com seu poema em linha reta. Fico com vontade tatuar fernando pessoa na testa. Tenho vontade de gritar e não grito. Sei que não posso fazer nada a não ser viver o que tenho que fazer agora. Nada dura pra sempre. Nem a felicidade, nem a tristeza. No mais acho que a minha cabeça esvaziou. Não sai nem texto nem trabalho. Nada sai da minha cabeça a não ser essa louca vontade de qua a vida faça um sentido qualquer. Não faz. Não consigo escrever um livro, uma monografia ou chamar alguém pra sair. Nunca mais falei de mim.
Acho que me tornei uma estranha que não sabe mais escrever, ou existir.
Acho que me tornei uma estranha que não sabe mais escrever, ou existir.
25.11.12
uma dedicatória qualquer
hoje acabei lendo todo mundo compartilhando uma tal dedicatória de um tal amor que durou pra sempre e resolvi eternizar minha melhor de dedicatória, de um dos melhores livros, por um dos meus melhores amores.
(em o "Cheiro do Ralo" em qualquer lugar perdido em dois mil e dez e em um amor que foi muito bonito e aí passou).
"A fim de melhor escrever essa dedicatória, dei uma rápida passeada pelo livro e encontrei isso: 'Estive no inferno e lembrei de você'. De certa forma, estive no inferno nesses últimos meses e lembrar de você era quase obrigatório. Esse livro e toda a viagem tenta timidamente representar a alegria que me dá estar contigo, embora eu saiba que nem de longe ela começa a ser desenhada. Tenho uma péssima caligrafia fora de linhas e estou tentando por palavras, então essa com certeza não será a melhor dedicatória do mundo, mas será para a melhor mulher e o maior amor. Espero que seja bom, e qualquer coisa me empresta
Te amo, feliz 21!"
Todas as cartas de amor são ridículas, mas não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.
20.11.12
já de saída minha estrada entortou; mas vou até o fim
Eu sempre soube, desde muito criança, que o otimismo não me caia bem. Preferia a melancolia. Nenhuma razão específica a não ser um fatal: tem que ser assim. A vida nunca foi lá muito simpática comigo. Me fez alta demais em comparativo com as minhas coleguinhas, e tivemos alguns acidentes de percurso. Nasci introvertida. Não gostava das outras crianças, dos clubes, das recreações; não tinha amigos de brincar no prédio. Eu só lia. Minha mãe me deu de presente uma assinatura de gibis da turma da mônica e aquele era o melhor presente que eu podia ganhar. Ler pra mim era prêmio. Eu sempre terminava os exercícios antes de todo mundo e aí podia ir na biblioteca escolher o livro que eu bem entendesse. Acabei com a coleção da bruxa onilda e do monteiro lobato. Depois veio a coleção vagalume e os livros do pedro bandeira. Todo um imaginário que era melhor que a vida em si. Toda e qualquer literatura, ainda que trágica, é melhor que a vida em si. A vida açoita sem poesia nem pausa. A vida não tem métrica e esquece de rimar. Soube, desde muito cedo, que o único caminho era a melancolia. Acreditar era confuso demais. Eu me desiludia com facilidade. Minhas amigas me deixaram sozinha na quinta série e eu passei alguns vários recreios chorando na biblioteca. Confiar sempre foi uma coisa rara em mim. Às vezes eu mesma achava que eu tinha algum desvio sério de caráter. Não era normal que eu fosse assim, tão sem querer alguém que soubesse cada linha de mim. Não entendo dos meus traumas de infância e evitei a psicanálise tanto quanto pude. Ainda evito. Não tenho dinheiro nem saco. Nunca fui otimista. Nem no amor nem em nada. Sempre soube que a vida está aí, traiçoeira, pronta pra te dar o bote em qualquer oportunidade.
Dois mil e doze foi meu maior bote da vida. Pareço disco riscado e vitrola velha quando digo isso. Às vezes eu fico pensando como sobrevivi à tudo aquilo. Eu, com tanto medo de viver me enfiando em vans que corriam mais do que deviam em plena dutra sem saber muito bem pra onde eu estava indo e nem onde eu queria chegar. Eu, bicho afugentado sem saber que o nome daquele olhar perdido no horizonte e da minha vontade de chorar era: depressão. Eu quis que alguma coisa fosse minha salvação. Por isso tudo assim, tão louco e rápido. Algo tinha que me salvar daquilo, da minha falta de vontade de sair, da minha vontade de me enfiar debaixo das cobertas e ficar pra sempre. Eu queria que fosse um emprego, ou ele. E é claro que colocar as expectativas da sua vida em qualquer lugar que não seja você tende a um risco enorme, ainda mais quando o problema é você mesma. Depois de estragar tudo a gente acha o problema, cuida do problema e sara de mansinho. Vontade de viver eu ainda não achei tanto assim. Não tenho plano nem meta, nem vontade louca de ser alguma coisa. Não tenho nada. Um bom conselheiro um dia me disse que uma das grandes vantagens de não saber pra onde se vai é que o mundo se torna então cheio de possibilidades. Sorri no meio do caos. Ele tinha um pouco de razão embora eu ainda estivesse bem perdida. Ainda não sei qual dessas possibilidades eu quero (se é que eu quero alguma), mas é, ok, a vida ainda tem possibilidades.
Hoje foi um dia ruim. Tem dia que é. Passei metade dele tentando criar coragem pra mandar um e-mail que já estava escrito e abrir um e-mail que já tinha recebido. Depois disso várias pequenas decepções. Fui correr. Viciei em endorfina porque sim, e só correr salva. Cazuza gritava no meu ouvido que "eu te avisei, vai à luta; marca teu ponto na justa e o resto deixa pra lá". Sorri. Talvez fosse isso. Fazer o que eu tinha que fazer e deixar o resto pra lá. Todo esse resto estranho, essa gente que não me entende, minhas terças feiras frustradas e a falta de fé. Tem que ir de mansinho, o resto vem. Vem mesmo? Deve vir. Cheguei em casa menos mal, e fucei por vício a página dele. Ele parece estar com uma outra que, é claro, não sou eu e nem tem tanto assim a ver comigo exceto pelo fato que ela também corre e ela também curtiu "morangos silvestres" do bergman. Quis chorar. Aquela era a constatação óbvia de que a vida continua, não importa o quanto eu tenha ficado jogada largada no chão enquanto tentava me recuperar. Chorei. Chorei por mim, por ele, pela menina nova dele e por todos nós que queremos tanto ser felizes e não somos. Chorei por todas as conversas que não consigo ter, pela distância, por todos os convites recusados e por todas as cervejas que eu não pude dividir no bar, com outras pessoas. Chorei pelo meu grande amor perdido, que nunca mais atenderá as minhas ligações e pra quem eu nunca mais poderei pedir socorro quando a vida doer que nem doeu hoje, nessa terça feira à noite com gosto de fracasso. Meu grande amor perdido hoje casado, segura pela cintura sua mulher e divide com ela as aquarelas dos desenhos que eu nunca soube fazer. Ficou na caixa nossa ideia revolucionária de escrever quadrinhos juntos. Meu texto e o desenho dele que hoje nem tem mais traço único. Meu grande amor perdido, e exorcizado ao som de death cab for cutie. Meu grande amor perdido que não mais me seguirá dentro da escuridão, caso eu precise. Meu último amor perdido segurando pela cintura uma menina de cabelos curtos e olhos verdes. Parecia feliz, nunca sei dizer quando ele está mesmo feliz. Meu último amor perdido exorcizado ao som de coisa alguma porque vejam, não tinhamos assim uma música-tema. Chorar com shakermaker não tem graça alguma, então resolvi chorar ao som de caetano porque essa vida já tá qualquer-coisa. Meu último amor perdido sem barba e com as roupas bem escolhidas de sempre, já nem deve lembrar de mim de um jeito diferente de: "aquela louca que vomitou minha casa toda". Não é assim com tudo? Viramos umas pessoas de adjetivos simples e piadas prontas. Viramos mais uma foto no hall de relacionamentos. Acho que nunca mais verei nenhum deles, a não ser que a vida se encarregue dessas loucuras. Não espero nada.
Quanto a vida, sabemos que ela é de idas e vindas, mas certas coisas permanecem. Permaneceu meu encontro único de entendimento mágico com o único homem que agora ouso chamar de "melhor amigo". Ele, que segurou as minhas barras e que me diz na cara o que eu devo ou não devo fazer se quiser continuar tendo alguma decência na vida. Minha carência era de palavra. Palavra entendida. Eu queria que alguém me fizesse um acalanto na alma, e ele sabe fazer. Nos entendemos. Sempre nos entendemos. Desde a primeira vez em que ele estava de coroinha que piscava na fila do trote da faculdade. Continuamos nos entendendo, quase seis anos depois. Eu tenho medo da vida, ele tem medo da vida, temos medo de ficar sozinhos. Ele tinha medo que eu fosse infeliz. Eu tinha medo que ele não conseguisse dar conta. Ele esteve comigo nos piores dias da minha vida, e nos melhores também. Foi quem conheceu e deu pitaco em todos esses amores que já perdi. É quem chegou antes e vai embora depois. Uma das únicas pessoas no mundo com quem eu posso falar de tudo. Nós dois sabemos do nosso desencaixe, da nossa desesperança. Nós dois sabemos um sobre o outro coisas que não falamos. Eu sei quando ele mente e ele sabe quando eu falo meia verdade. Eu sei que é por ele, e só com ele que é possível seguir em frente nas terças feiras ruins. A vida não tem jeito. Não vai chegar ninguém virando ela de cabeça pra baixo e fazendo dela um grande acontecimento. Nada de extraordinário acontecerá na maioria dos dias. Tem o que tem. É isso. Todos os dias um nada sem sentido pra de vez em quando haver alguma coisa qualquer que faça sentido.
Quanto ao presente, entendo que depois de ter perdido tudo, só dá pra começar da onde há alguma coisa. Eu faço tudo que eu posso, tento tudo o que tenho. Não dá pra querer o que eu não posso ter, não dá pra desejar o que eu não tenho mais. Meu grande amor perdido casou, meu outro amor perdido arrumou uma menina qualquer pra passar os dias e, quem sabe, namorar e cantar caetano; namorar e discutir Nabokov; namorar e dizer "eu te amo" em russo enquanto ela responde em alemão. Meu grande amor perdido hoje desenha coisas estranhas e não vai mais à orquestras. Não somos as mesmas pessoas. O que ficou pra mim é o que eu imaginava que ficaria. O outro cara que eu gostei desde o primeiro encontro desajeitado. O cara pra quem comprei uma revista que eu nunca tive coragem de dar e nunca dediquei um texto. O cara que me deixa falar sobre teorias estranhas e ouve resignado, mesmo que depois esqueça tudo. O que sobrou pra mim é isso que eu posso ter e que, talvez, seja o mais certo a se ter. E se não for ele será outro, ou não será ninguém. O que sobrou pra mim é uma pilha interminável de questionamentos sobre identidade, pós modernidade, globalização e tudo mais que o cerca. O que sobrou pra mim é uma cabeça confusa e chata, um jeitinho estridente de reclamar, uma amizade completamente perdida no processo e alguma esperança. O que sobrou pra mim é o que eu posso fazer. Não se pode antever a vida. Não sei o que será do meu próximo ano porque não sei nem como vai ser amanhã. Pode bem ser que o mundo acabe dia vinte e um destruindo todos os nossos sonhos. Deixando nossas monografias incompletas, os vestibulares sem resultado, os noivados sem casamento. Pode ser que tudo continue e o fim de tudo é isso: continuar. Porque o fim de tudo é sempre continuar. Continua quando você perde um grande amor; continua quando você perde seu último amor; continua depois de uma depressão; continua depois da doença dos seu pai; continua depois que todos os seus amigos foram morar longe de você e não existe conforto. Continua mesmo depois que você conhece o mutarelli ou o Zeca Baleiro, ou a Paula toller. Continua depois de síndromes do pânico, depois de um show visto de trás de pilastra e de inúmeras decepções. Continua mesmo nas terças feiras quando você chora encolhidinha no banheiro porque seu último amor já seguiu a vida e você ficou caída e atropelada.
Continua, porque tem que. E no meio disso tudo, não tendo outro jeito, resolvi eu continuar também. Meu último amor durou alguns poucos meses, terminou em desastre e foi exorcizado ao som de Caetano. Meu grande amor perdido durou alguns anos e foi exorcizado ao som de mick jagger. Minha decisão de continuar tem mais ou menos uma hora, veio depois de uma conversa e foi animada ao som de deborah blando. Eu soube desde criança que a vida é muito mais melancolia que otimismo, e isso daqui não é uma carta de otimismo. É uma carta de constatação: se tenho que continuar, que seja ao menos pretendendo não ser miserável. Que seja com mais café que preguiça e com mais alegria que choro encolhida no banheiro. Continuo porque, inevitavelmente, descobri que não há outro modo. E vou até o fim.
Dois mil e doze foi meu maior bote da vida. Pareço disco riscado e vitrola velha quando digo isso. Às vezes eu fico pensando como sobrevivi à tudo aquilo. Eu, com tanto medo de viver me enfiando em vans que corriam mais do que deviam em plena dutra sem saber muito bem pra onde eu estava indo e nem onde eu queria chegar. Eu, bicho afugentado sem saber que o nome daquele olhar perdido no horizonte e da minha vontade de chorar era: depressão. Eu quis que alguma coisa fosse minha salvação. Por isso tudo assim, tão louco e rápido. Algo tinha que me salvar daquilo, da minha falta de vontade de sair, da minha vontade de me enfiar debaixo das cobertas e ficar pra sempre. Eu queria que fosse um emprego, ou ele. E é claro que colocar as expectativas da sua vida em qualquer lugar que não seja você tende a um risco enorme, ainda mais quando o problema é você mesma. Depois de estragar tudo a gente acha o problema, cuida do problema e sara de mansinho. Vontade de viver eu ainda não achei tanto assim. Não tenho plano nem meta, nem vontade louca de ser alguma coisa. Não tenho nada. Um bom conselheiro um dia me disse que uma das grandes vantagens de não saber pra onde se vai é que o mundo se torna então cheio de possibilidades. Sorri no meio do caos. Ele tinha um pouco de razão embora eu ainda estivesse bem perdida. Ainda não sei qual dessas possibilidades eu quero (se é que eu quero alguma), mas é, ok, a vida ainda tem possibilidades.
Hoje foi um dia ruim. Tem dia que é. Passei metade dele tentando criar coragem pra mandar um e-mail que já estava escrito e abrir um e-mail que já tinha recebido. Depois disso várias pequenas decepções. Fui correr. Viciei em endorfina porque sim, e só correr salva. Cazuza gritava no meu ouvido que "eu te avisei, vai à luta; marca teu ponto na justa e o resto deixa pra lá". Sorri. Talvez fosse isso. Fazer o que eu tinha que fazer e deixar o resto pra lá. Todo esse resto estranho, essa gente que não me entende, minhas terças feiras frustradas e a falta de fé. Tem que ir de mansinho, o resto vem. Vem mesmo? Deve vir. Cheguei em casa menos mal, e fucei por vício a página dele. Ele parece estar com uma outra que, é claro, não sou eu e nem tem tanto assim a ver comigo exceto pelo fato que ela também corre e ela também curtiu "morangos silvestres" do bergman. Quis chorar. Aquela era a constatação óbvia de que a vida continua, não importa o quanto eu tenha ficado jogada largada no chão enquanto tentava me recuperar. Chorei. Chorei por mim, por ele, pela menina nova dele e por todos nós que queremos tanto ser felizes e não somos. Chorei por todas as conversas que não consigo ter, pela distância, por todos os convites recusados e por todas as cervejas que eu não pude dividir no bar, com outras pessoas. Chorei pelo meu grande amor perdido, que nunca mais atenderá as minhas ligações e pra quem eu nunca mais poderei pedir socorro quando a vida doer que nem doeu hoje, nessa terça feira à noite com gosto de fracasso. Meu grande amor perdido hoje casado, segura pela cintura sua mulher e divide com ela as aquarelas dos desenhos que eu nunca soube fazer. Ficou na caixa nossa ideia revolucionária de escrever quadrinhos juntos. Meu texto e o desenho dele que hoje nem tem mais traço único. Meu grande amor perdido, e exorcizado ao som de death cab for cutie. Meu grande amor perdido que não mais me seguirá dentro da escuridão, caso eu precise. Meu último amor perdido segurando pela cintura uma menina de cabelos curtos e olhos verdes. Parecia feliz, nunca sei dizer quando ele está mesmo feliz. Meu último amor perdido exorcizado ao som de coisa alguma porque vejam, não tinhamos assim uma música-tema. Chorar com shakermaker não tem graça alguma, então resolvi chorar ao som de caetano porque essa vida já tá qualquer-coisa. Meu último amor perdido sem barba e com as roupas bem escolhidas de sempre, já nem deve lembrar de mim de um jeito diferente de: "aquela louca que vomitou minha casa toda". Não é assim com tudo? Viramos umas pessoas de adjetivos simples e piadas prontas. Viramos mais uma foto no hall de relacionamentos. Acho que nunca mais verei nenhum deles, a não ser que a vida se encarregue dessas loucuras. Não espero nada.
Quanto a vida, sabemos que ela é de idas e vindas, mas certas coisas permanecem. Permaneceu meu encontro único de entendimento mágico com o único homem que agora ouso chamar de "melhor amigo". Ele, que segurou as minhas barras e que me diz na cara o que eu devo ou não devo fazer se quiser continuar tendo alguma decência na vida. Minha carência era de palavra. Palavra entendida. Eu queria que alguém me fizesse um acalanto na alma, e ele sabe fazer. Nos entendemos. Sempre nos entendemos. Desde a primeira vez em que ele estava de coroinha que piscava na fila do trote da faculdade. Continuamos nos entendendo, quase seis anos depois. Eu tenho medo da vida, ele tem medo da vida, temos medo de ficar sozinhos. Ele tinha medo que eu fosse infeliz. Eu tinha medo que ele não conseguisse dar conta. Ele esteve comigo nos piores dias da minha vida, e nos melhores também. Foi quem conheceu e deu pitaco em todos esses amores que já perdi. É quem chegou antes e vai embora depois. Uma das únicas pessoas no mundo com quem eu posso falar de tudo. Nós dois sabemos do nosso desencaixe, da nossa desesperança. Nós dois sabemos um sobre o outro coisas que não falamos. Eu sei quando ele mente e ele sabe quando eu falo meia verdade. Eu sei que é por ele, e só com ele que é possível seguir em frente nas terças feiras ruins. A vida não tem jeito. Não vai chegar ninguém virando ela de cabeça pra baixo e fazendo dela um grande acontecimento. Nada de extraordinário acontecerá na maioria dos dias. Tem o que tem. É isso. Todos os dias um nada sem sentido pra de vez em quando haver alguma coisa qualquer que faça sentido.
Quanto ao presente, entendo que depois de ter perdido tudo, só dá pra começar da onde há alguma coisa. Eu faço tudo que eu posso, tento tudo o que tenho. Não dá pra querer o que eu não posso ter, não dá pra desejar o que eu não tenho mais. Meu grande amor perdido casou, meu outro amor perdido arrumou uma menina qualquer pra passar os dias e, quem sabe, namorar e cantar caetano; namorar e discutir Nabokov; namorar e dizer "eu te amo" em russo enquanto ela responde em alemão. Meu grande amor perdido hoje desenha coisas estranhas e não vai mais à orquestras. Não somos as mesmas pessoas. O que ficou pra mim é o que eu imaginava que ficaria. O outro cara que eu gostei desde o primeiro encontro desajeitado. O cara pra quem comprei uma revista que eu nunca tive coragem de dar e nunca dediquei um texto. O cara que me deixa falar sobre teorias estranhas e ouve resignado, mesmo que depois esqueça tudo. O que sobrou pra mim é isso que eu posso ter e que, talvez, seja o mais certo a se ter. E se não for ele será outro, ou não será ninguém. O que sobrou pra mim é uma pilha interminável de questionamentos sobre identidade, pós modernidade, globalização e tudo mais que o cerca. O que sobrou pra mim é uma cabeça confusa e chata, um jeitinho estridente de reclamar, uma amizade completamente perdida no processo e alguma esperança. O que sobrou pra mim é o que eu posso fazer. Não se pode antever a vida. Não sei o que será do meu próximo ano porque não sei nem como vai ser amanhã. Pode bem ser que o mundo acabe dia vinte e um destruindo todos os nossos sonhos. Deixando nossas monografias incompletas, os vestibulares sem resultado, os noivados sem casamento. Pode ser que tudo continue e o fim de tudo é isso: continuar. Porque o fim de tudo é sempre continuar. Continua quando você perde um grande amor; continua quando você perde seu último amor; continua depois de uma depressão; continua depois da doença dos seu pai; continua depois que todos os seus amigos foram morar longe de você e não existe conforto. Continua mesmo depois que você conhece o mutarelli ou o Zeca Baleiro, ou a Paula toller. Continua depois de síndromes do pânico, depois de um show visto de trás de pilastra e de inúmeras decepções. Continua mesmo nas terças feiras quando você chora encolhidinha no banheiro porque seu último amor já seguiu a vida e você ficou caída e atropelada.
Continua, porque tem que. E no meio disso tudo, não tendo outro jeito, resolvi eu continuar também. Meu último amor durou alguns poucos meses, terminou em desastre e foi exorcizado ao som de Caetano. Meu grande amor perdido durou alguns anos e foi exorcizado ao som de mick jagger. Minha decisão de continuar tem mais ou menos uma hora, veio depois de uma conversa e foi animada ao som de deborah blando. Eu soube desde criança que a vida é muito mais melancolia que otimismo, e isso daqui não é uma carta de otimismo. É uma carta de constatação: se tenho que continuar, que seja ao menos pretendendo não ser miserável. Que seja com mais café que preguiça e com mais alegria que choro encolhida no banheiro. Continuo porque, inevitavelmente, descobri que não há outro modo. E vou até o fim.
17.11.12
sempre vai haver uma canção contando tudo de mim
O Rodrigo nunca soube que eu ouvia "Ele quer me conquistar" enquanto sonhava platonicamente que ele era perdidamente apaixonado por mim e não só queria conferir comigo as respostas de matemática no colégio. O andré nunca imaginou que eu entendi aos doze anos - depois de descobrir que ele não era apaixonado por mim, e sim pela menina que eu mais odiava no colégio - o sentido da frase "agora você vai embora, e eu não sei o que fazer; ninguém me explicou na escola, ninguém vai me responder". O Fábio não sabia que eu pensava nele ao ouvir "amanhã é 23; são oito dias para o fim do mês. Faz tanto tempo que eu não te vejo, eu queria o teu beijo outra vez" porque ele fazia aniversário no dia 22 de janeiro (que vem a ser um mês de trinta e um dias, como na música). O fernando não imaginava que, enquanto ele me perseguia pelo colégio, eu ficava cantarolando "porque é que eu não desisto de você?" tentando entender como é que podia alguém que nunca tinha falado comigo me querer tanto assim.
Perdi as contas das crises de ciúmes que eram entendidas ao som de "Seu Espião", das noites que chorei encolhidinha na cama me perguntando "se existe alguém ou algum motivo importante que justifique a vida ou pelo menos esse instante", de quantos amores eu pensei que, se não tivessem exagerado a dose, podiam ter sido grandes amores. Meu grande amor não soube que eu só entendi exatamente cada palavra de "os outros" quando o perdi. Não soube também minha mais recente decepção amorosa que, depois de anos ouvindo "alice (não me escreva aquela carta de amor)", eu finalmente fui entender que tantos sonhos morrem em poucas palavras; um bilhete curto e já não há nada. Estavam certos em pedir a Alice pra não escrever aquela carta de amor - eu não devia ter escrito também, concluí chorando. Não sei quantas vezes citei sem ninguém entender que "eu tenho pressa e tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim" e mal pude explicar a mim mesma o quanto "nada sei" é uma música libertadora porque trouxe em si toda a sensação do não-saber dos meus treze ou catorze anos. Entendi exatamente o que paula me ensinou aos onze, quando eu andava pra lá e pra cá com meu diskman rodando kid abelha, quando dizia que "garotos perdem tempo pensando em brinquedos e proteção; romances de estação, desejos sem paixão: qualquer truque contra emoção" assim que tive minha primeira decepção amorosa. Paula sempre esteve mais certa que o Leoni. Leoni retratava o igenuidade de um garoto perto de uma mulher, mas a Paula sabia que os garotos gostam mesmo é de iludir, sorrisos, planos, promessas demais. Poucos deles não queriam que eu fosse outra, entre outras iguais.
Além da minha mãe, das novelas da tv, dos livros que eu devorava quase que maníaca; a outra responsável pela minha formação com certeza foi Paula Toller. Não só ela, como todos os meninos do Kid Abelha. Só que ela era mais, porque ela também era uma menina. Fosse um homem cantando aquilo, não faria tanto sentido. É como o Legião Urbana: eu até gostava do renato, mas sabia que certas coisas ele nunca seria capaz de entender. Ele não escreveria "Garotos" porque era um garoto também. Era um pouco isso que eu pensava, de camiseta larga e calça esquisita, ouvindo meu diskman enquanto o mundo passava em volta. Tive todos os cds do Kid Abelha que existiam. Me apaixonei pelo acústico quase que perdidamente e, encontrei em "eu tive um sonho" minha música preferida por meses e meses. "Não deixe de cruzar o seu olhar com o meu; eu vou jogar meu corpo em cima do teu" era a maior declaração de amor que um ser humano podia fazer ao outro. Sonhava em encontrar um amor que não deixasse de cruzar o olhar dele com o meu, e que desejasse nunca deixar de jogar o corpo dele em cima do meu. Não encontrei naquele ano. Pensava num único garoto que nunca me deu bola. "Dizem que sou louca por eu ter um gosto assim, gostar de quem não gosta de mim". Em todo caso aprendi também que o pior de tudo era não amar, e jogava as minhas mãos para o céu porque tinha alguém que eu gostaria que.
Minha adolescência foi toda embalada pelos inúmeros CDs do Kid Abelha que eu comprei. Fiz as meninas do meu grupo na educação física dançarem "Fixação"ao invés de backstreet boys com doze anos de idade. Eu nem lembro quantas vezes eu ouvi esse tal CD duplo. Tivesse uma last.fm naquela época, Kid Abelha facilmente estaria no topo de execuções. Eu tinha a pose exata pra me fotografar, e aprendi num filme pra um dia usar. Mantinha um ar cruel de quem sabe o que quer. Sabia todas as letras de cor. Eu tinha pressa, tanta coisa me interessava - mas nada tanto assim. Eu, minha franja que não se acertava direito, minhas roupas feias e meu nariz grande demais tinhámos em Paula Toller e seus abóboras selvagens um refúgio contra o horror que é crescer sem saber direito o que era crescer. Era anacrônico ouvir Kid Abelha nos anos 90. Aquele CD era anacrônico, mas as músicas eram minhas. A Paula Toller me entendia. Quando ela entrou no palco eu não soube fazer outra coisa a não ser chorar. Eles diziam que iam fazer uma viagem pelos 30 anos de carreira. Essa viagem era também a viagem pelos meus vinte e três anos de idade. Lembrei de amores, ex-amores, dos meus pais, de amigos que não são mais meus amigos, de boas noites e de noites terríveis. Eu ouvia os barulhos do começo de "Seu espião" e podia me ver de novo encolhida no banco de trás do carro sabendo que eu ia ouvir pela décima vez meu CD preferido. Não tem palavras que digam direito o que é ver de perto a banda que embalou toda a sua formação como pessoa adulta. Eu sabia todas as letras de cor. Todas aquelas frases já tinham sido escritas nas minhas agendas em algum lugar do passado. Todos os meus amores platônicos pelos meninos da sala ao lado tinham como trilha sonora uma música qualquer com a voz doce da Paula Toller. A voz doce da Paula Toller que dias atrás me fez chorar com "uniformes" que eu ouvi encolhidinha debaixo dos lençóis, igualzinho eu fazia quando eu tinha treze anos e não queria que a minha mãe me visse chorar.
Tanta coisa que não muda. Eu ainda vou errando enquanto o tempo me deixar; eu escolho filmes que eu não vejo no elevador pelas estrelas que eu encontro na crítica o leitor; eu ainda não sei o que fazer quando alguém vai embora porque ninguém me ensinou na escola e ninguém vai me responder; eu ainda não aprendi com a Alice a não escrever aquela carta de amor (por que você precisa ser tão sincera?). Eu queria dizer de algum jeito pra Paula Toller que ela tinha sido minha amiga. Que ela, sem nem saber, me compreendeu durante essa jornada estranha rumo a ficar adulta (ou quase). Eu não ia saber o que dizer a não ser "obrigada". Eu não soube muito bem o que fazer a não ser dançar no meu mundinho particular no meu primeiro show sozinha. Ninguém seria capaz de entender minha íntima relação com aquela banda que é da geração passada. A relação era entre eu e eles, igualzinho era quando eu ouvia mil vezes o mesmo CD deles durante as minhas viagens. Ninguém, além de mim, entenderia o porquê dos meus olhos marejados ao perceber que aquela voz que me entendia nos meus fones de ouvido que sempre quebravam, existe e faz piada. Eles existem fora do meu universo e no universo de várias outras pessoas. Eles embaralam não só a minha vida como também alguma parte da história do casal na minha frente e do menino do meu lado. Eles foram a trilha sonora da vida da minha mãe e da minha. Eles foram a trilha sonora de romances que não existiram, inseguranças que eu não contei pra ninguém e, talvez, de partes da minha vida que ainda nem aconteceram. Eu redescubro identificações que não sabia aos dez anos quando roubei o CD duplo da minha mãe. Eu entendo coisas que não entendia na época. Certas coisas eu ainda sinto exatamente do mesmo jeito, e volto a ter doze, treze, catorze, quinze anos. Certas coisas sempre vão ser iguais. Perder um grande amor vai trazer sempre consigo a ideia de que "depois de você, os outros são os outros e só"; novos sonhos ainda vão morrer em poucas palavras e, eu ainda quero alguém não deixe de cruzar o seu olhar com o meu pra eu poder jogar meu corpo em cima do seu.
O que eu entendi é que certas coisas continuam inalteradas. Eu cresci e continuo sentindo certas coisas exatamente iguais. A Paula envelheceu e continua tendo a mesma voz que tinha quando tocava no meu diskman da philips que funcionava com pilha. Amor dói e faz feliz; às vezes nada nisso tudo faz sentido; eu ainda vou errar muitas vezes e pouco vou saber dessa vida. O que fica é isso. O que fica é isso que tem dentro. O que fica é saber que sempre existe algo que você gostaria que estivesse sempre com você na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. E esse algo pode ser qualquer coisa, desde que faça sentido; até mesmo um CD velho de uma banda dos anos 80. Afinal, sempre vai haver uma canção contando tudo de mim; sempre vai haver uma voz contando tudo de nós.
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