era 2007, eu tinha acabado de entrar na faculdade e tinha desistido de escrever numa plataforma chamada livejournal pelo simples fato de ninguém ler ou entrar naquela merda. postava em blog desde sempre. desde quando ainda escrevia miguxês e o cara pra quem mandei uma carta dizendo que estava apaixonada e depois descobri ser só mais uma das minhas loucuras descobriu meu endereço no wordpress onde eu tinha um template da "emily, the strange"e começou a me mandar comentário anônimo me xingando de ridícula.
houve esse tempo em que a gente só podia escrever depois da meia noite em dias de semana ou nos fins de semana porque o pulso da internet discada era mais barato. nesse tempo a gente expunha a vida de forma ridícula em fotologs e blogs e eu, como sempre tive essa necessidade maluca de me mostrar pra estranhos através de textos, tive blogs, fotologs e tudo mais que a internet discada da época podia proporcionar.
era 2007 e blogger era já uma efervescência meio velha. ninguém escrevia cartas de amor por aí na internet. já tinha surgido o orkut e a gente podia mandar testimonial. mas eu gostava de ter meus textos publicados em algum lugar. principalmente porque escolhi fazer design onde descobri muito cedo que ninguém gostava nem de ler, o que dirá de escrever. esse blogger foi a única coisa que perdurou desde então. desisti de um blog sobre futebol (era terrível) e um outro sobre moda em que eu escrevia mal e tirava fotos piores ainda. mas esse sobrou.
nunca fiz sucesso com ele. não sei se por vergonha de divulgar ou se porque eu escrevo mal mesmo. teve uma vez que eu escrevi um texto sobre a usp que virou um hit de um dia, mas não me rendeu muita coisa além de cinco solicitações de amizade no facebook e três marxistas me xingando de maneira pouco gentil. hoje acho que eu nunca fui muito lida porque meus textos eram confusos e, por vezes, ruins. quando eu escrevia eu não achava, mas hoje acho que esfregar a própria vida desse tanto na cara de qualquer pessoa (ou mesmo no papel) é um pouco nocivo e três tantos infantil.
mas esse universo num pedaço de papel foi o único jeito que eu encontrei de lidar com as trezentas crises amorosas que tive durante a faculdade e depois dela. só me meti em roubada. tente achar um texto sobre amor feliz nesse espaço e fracassarás. eu era uma roubada também. tem tag aí com "amor verdadeiro e eterno" que na verdade são só textos sobre um amor platônico que tive pelo meu melhor amigo e encasquetei que ele era o amor da minha vida e nunca teria alguém como ele. hoje sei que se tivéssemos namorado hoje já estaríamos separados e ele vive feliz e bem com alguém que é o total avesso de mim. prova concreta que eu romantizo demais as coisas. culpo o caio fernando abreu que lia na época.
prova cabal também do meu descontrole. qualquer terapia bem feita ou ida ao psiquiatra mais cedo teria dado cabo à esse monte de aventura amorosa errada que me enfiei. renderam bons textos, talvez. alguns nem tanto. essa coisa de aumentar o que não existia é o que fez tudo isso que existiu aqui. nada disso existiu nessa intensidade que vocês leram um dia. na minha cabeça, sim. na realidade, nunca. mas é claro que tem muito de mim em tudo isso e sem esse espaço eu já estaria pelas ruas surtando há muito tempo atrás.
escrevo muito sobre mim. o tempo todo. uso aquele verso do carlos drummond pra quase tudo. "me exponho cruelmente nas livrarias. preciso de todos". sei que isso me define desde os 14 anos, quando li "mundo grande" pela primeira vez e a única coisa que a gente tinha pra postar na internet era o fotolog. naquela época não tinha "era da informação" "selfie" e essa palhaçada toda. naquela época eu tinha que esperar a uol conectar ao telefone pra postar meus textos, que por muitas vezes ficavam só guardados no computador mesmo.
escrever sobre si é sempre um exercício menor. quando a gente ouve sobre os bons escritores eles quase sempre tem que inventar uma ficção maravilhosa sem usar como matéria prima a própria vida. dão ao nome de quem escreve sobre si "autoficção". eu também achava uma literatura menor, até que fiz um curso sobre autoficção e percebi que tá ok escrever sobre a própria vida. grandes nomes o fazem. gente respeitada. livros bons pra caralho. escrever sobre si não é crime. pode ser narcisismo, mas crime não é.
fiz esse curso três meses depois de terminar um relacionamento em que ouvi centenas de vezes que eu me expunha demais. minha vida deveria ser uma conchinha sagrada e eu devia ficar com aquela montoeira de coisas só pra mim. "ninguém quer saber das suas histórias, ainda se fosse uma boa ficção". essa mesma pessoa via muitos filmes. fico pensando que alguns desses filmes são baseados na vida dos autores. imaginem se eles tivessem resolvido que ninguém quer saber das histórias deles, quantos filmes a menos teríamos?
mas isso não vem ao caso. não estou me comparando ao woody allen de maneira alguma. é só que por muito tempo pensei em deletar isso. deletei por um tempo. pensei em migrar de endereço. pensei em setenta e oito coisas pra fazer com isso. me culpei pelas coisas que escrevi aqui e olha que eu sempre ficciono tudo. nada do que aconteceu aqui era somente o que aconteceu. não teria como. a partir do momento em que eu começo a contar uma história ela já não é o que aconteceu. fiquei num hiato de meses. acho que de anos. temia que esse cara de quem eu queria amor me visse aqui expondo as coisas e nunca mais quisesse saber de mim.
a gente teme muita coisa trouxa nesse mundo e essa foi mais uma delas.
eu fui trouxa mesmo. por anos. nesses últimos anos mais. eu parei de escrever porque alguém me disse que ninguém queria ouvir as minhas histórias. e olha que eu nunca quis que ninguém ouvisse. eu só preciso escrever. de vez em quando vem um e-mail dizendo que eu disse o que a pessoa não conseguiu dizer e pra mim tá bom.
aí eu me tratei, vivi a minha vida, passei (e ainda passo) por grandes barras e sofrimentos pesados como todo o ser humano. não tenho mais tantas histórias de amor tristes pra contar porque entendi que amor não tem que ser essa loucura, não tem que ter vinte textos de tragédia. amor tem que ser leve e eu vivo um desses agora.
dia desses esse amor me deu uma caneca com da definição do que é escritor. ele disse que aquele era o meu trabalho. eu disse que não. ele disse que sim. que eu vivo escrevendo. e se eu vivo escrevendo eu sou escritora. e aí eu percebi que tudo isso teve importância. cada história. cada momento desses fez o que eu sou. eu vivi escrevendo. eu escrevi o que eu vivi.
e se eu pudesse dar só um conselho (embora eu deteste conselhos) ele é: nada do que voce faz ou fez é desimportante. nada. é a sua vida e a sua vida vale a pena. sempre vale. e quem não acredita nisso junto com você não merece fazer parte das suas histórias.
voltei.
19.1.15
12.4.14
pequena nota sobre a vida
às vezes não se pode conseguir amor e nem equilíbrio (ou pelo menos não se vislumbra nada disso num raio de, pelo menos, três meses), mas ao menos se pode ser mestre em Coetzee.
17.2.14
o amor não se acaba no espaço de tempo em que se grita gol
(escrever pra ele nesse blog é, no mínimo, irônico. mas é que sem ele tudo que me sobra é o vazio das redes - e as folhas em branco. cada um se vira com o que tem. eu continuo me virando nesse imenso espaço vazio)
O som da tevê longe, narrando o jogo do corinthians parece ser o mundo avisando em voz alta que você me deixou.
A gente passa a reparar mais nas coisas depois que as conhece, e foi depois que você se foi que tenho a impressão que todos os domingos mostram os jogos do corinthians, que todos os noticiários noticiam que eles compraram o Jadson, que todas as vezes que eu ligar o jornal alguém vai dizer alguma coisa que me lembra você. Desde que você se foi eu tenho a impressão que o mundo inteiro anda de bicicleta. Os pedreiros das obras que ficam perto do meu trabalho andam. O meu vizinho do terceiro andar, também. O rapaz com quem nunca conversei no trabalho carrega uma mochila com uma camiseta a mais pra trocar assim que chega, e guarda a bicicleta dele no posto em frente. Um dos meus amigos comprou uma bicicleta quase igual a sua, só que azul. Enquanto eu espero sentada no ponto de ônibus, nos dias de muito calor, um rapaz passa às dez pras oito subindo de bicicleta a avenida higienópolis. Todas as vezes que eu desço o ônibus que pego às seis e quinze, um moço de capacete passa de bicicleta virando a esquina, e me acena com a cabeça. Quando perco o ônibus da frente do trabalho e tenho que subir na avenida pra pegar o outro, encontro ciclistas com roupa de ciclista andando em fila.
Quando volto de bicicleta do trabalho, pego a ciclovia e lembro do dia em que tentei voltar a andar de bicicleta pela primeira vez, e você teve que andar comigo na grama.
Também passo em frente ao banco onde nos reconciliamos umas duas vezes, e pedaladas depois passo em frente ao banco onde você me disse, cruel, que talvez nunca tivesse gostado de mim. Que não pensava em mim no percurso antes de me encontrar. Que não me imaginava como mãe dos seus filhos. Que imaginava a outra. Sempre a outra, maldita em sua presença que me enlouqueceu. Às vezes acho que você já está com ela de novo. Dói. Prefiro ser atropelada de bicicleta do que descobrir que isso aconteceu. Quando fico muito cansada, sento em um desses bancos e ouço de novo alguma coisa que você me disse em alguma dessas vezes. Refaço na minha cabeça os diálogos que deveria ter tido com você. Você não me ouve, e eu sento sozinha no banco tendo do lado a única coisa sua que sobrou comigo: a bicicleta que você passou dias reformulando pra que eu pudesse, um dia, te acompanhar nos seus rolês de bike. Cuido dela como cuido do amor que já não tenho. Cuido dela como, quem sabe, deveria ter cuidado de nós.
Quando estaciono ela na rua, retorno ao lugar onde a deixei de maneira quase obsessiva, como um portador de toc que continua conferindo se a porta está mesmo trancada. Desço duas vezes por dia ao poste em frente ao trabalho onde a estaciono e suspiro aliviada quando percebo que ela - ao contrário do nosso amor - continua exatamente do jeito e no lugar onde a deixei. Perdi o medo de morrer ao andar com ela na rua. Talvez eu tenha perdido o medo de morrer em qualquer ocasião, por mais mórbido e terrível que isso soe. Tenho mais medo de perdê-la do que tenho de uma queda enquanto atravesso a rotatória onde ninguém tem paciência com ciclistas. Machucado por machucado, os na pele a gente cuida com remédio. As feridas da alma não saem nem com muito choro. Eu suportaria uma fratura exposta qualquer, mas não suportaria outra perda. Cuido bem para manter a bicicleta que você me deu.
Meu fôlego continua ruim por mais que eu treine e, enquanto desço com o vento nos meus cabelos cada dia mais curtos pela descida da cascata onde várias vezes te vi, concluo que me levaria muito mais de dois ou três meses pra te acompanhar nos muitos quilômetros que você anda com naturalidade.
Continuo detestando as subidas todas, minhas pernas não aguentam, meu corpo não aguenta e pelo menos agora eu não choro sentada em um dos bancos de madeira pensando que eu ia demorar muito pra ser mais uma menina do seu role de segunda.
Enquanto escrevo o rádio narra a rodada de domingo, e eu me lembro dos vários domingos em que você ocupava comigo o sofá ao lado. Eu, sempre desajeitada, nunca soube muito bem te escolher os filmes certos, preparar um bom lanche ou deixar a TV desligada. Também te disse muito poucas vezes - ou quase nunca - que o simples estar do seu lado assistindo um jogo que não era do meu time me fazia uma pessoa muito próxima do completo.
Às vezes me parece que o mundo inteiro me faz lembrar você. A ausência no sofá da casa, nas quartas-feiras de futebol, nas cervejas do posto onde passo diariamente voltando do trabalho, no vale onde te vi pela última vez, nos eventos pra onde sou convidada e vejo presença confirmada dos seus amigos, no parque que evito aos sábados, porque fatalmente lembraria que foi ali que fazíamos piqueniques aos sábados, e os casais felizes me irritariam.
Aos domingos sempre acordo me perguntando onde você pode estar, já que agora eu não te ligo mais quando acaba o meu almoço pra saber da sua programação. Nesses mesmos domingos eu não vou mais ao cinema, nem chego tonta de cerveja depois da meia noite, caindo na cama e adormecendo rápido. Faço outras coisas - e evito sempre que posso deixar a tv ligada na rodada do paulista -, mas sempre vai chegar a hora em que lembro de você. Nessas horas, tento lembrar de outra coisa, mas as outras coisas também lembram você. Você roubou meu seriado, porque todas as vezes que assisto girls me lembro de você dizendo que sou a hannah. O fórum onde baixo filmes também me lembra você, e de vez em quando espio seu perfil querendo ter alguma migalha de notícia sua, mesmo sabendo que nada sai dali.
Nada sai de lugar nenhum, e eu sei que talvez logo eu comece a esquecer o som da sua voz, o jeito como você sorria, e até exatamente as feições do seu rosto, se eu parar de olhar as suas fotos.
No meu quarto, presentes que te dei e você deixou pra pegar outra hora, e que acabaram ficando comigo, como uma espécie de assombração que me lembra de vez em quando que eu te perdi tão rápido que não deu nem tempo de te dar essas coisas numa sacola pra que fosse você a lembrar de mim de vez em quando. Quando arrumo as gavetas encontro algumas cartas que escrevi pra te dar e não dei, por causa dessa mania que eu tenho de ter medo de dizer o que sinto. Tinha tanto medo de te amar, que amei com pé atrás e te perdi no meio dessa cidade que nem é tão grande assim.
Aos domingos enquanto o corinthians empata eu já não sei onde você está, onde você e sua bicicleta da cor da minha foram, se outra menina já está descobrindo que quando você ri formam rugas do lado do seu olho, que você ronca-e-sorri quando está feliz por estar com alguém. Não sei se outra pessoa já esteve com você em um piquenique noturno e já te viu adormecer roncando depois de beber um pouco demais. Talvez essa nova pessoa não reclame e durma bem enquanto você ronca. Talvez ela não fique roxa com as suas mordidas de amor no braço esquerdo. Talvez seja ela a te acompanhar nas trilhas que descobri com você que gosto de fazer, apesar de ser bastante desajeitada para a função.
Enquanto o corinthians empata e o neto me irrita com o falatório, eu fico pensando se já chegou a menina que anda de bicicleta e que não come carne. Se já chegou a menina que sabe te amar direito, contrastando comigo que sempre tropeço e desastro e que torço pro São Paulo. Quanto tempo demora até que você enlace outra cintura quando seu time fica perto de fazer gol? Quanto tempo demora para que você esqueça o som da minha voz e meu jeito complicado de tentar ser com você?
Sei que faço muitas perguntas que não podemos responder. Parece que esse é meu vício maior. Não consigo me viciar em nenhuma outra coisa que não seja isso: o estrago. Sua banda preferida que eu detesto cantaria essa frase "eu gosto é do estrago". Me lembro de você dizendo que eu complico e simplifico demais a vida pra querer viver qualquer coisa que seja. Complico o que é simples e quero simplificar demais o que é complicado: estar junto não é tão fácil assim.
Foi você também que me disse que eu acho que as coisas na vida acontecem num estalo de dedos. De uma hora pra outra eu ando vinte quilômetros de bicicleta, de uma hora pra outra a gente volta, e que a vida não acontece assim, no tempo do meu destempero. Te esquecer também não tem sido tão rápido quanto gostaria.
Essa noite passada sonhei que estávamos numa cachoeira. Acordei sem ter a mínima idéia de onde você estava, mas certamente não estava na cachoeira do meu sonho. Talvez acordando com alguém, enquanto eu acordo sozinha. Desde que você se foi, minha vida tem sido um eterno acordar sozinha - você bem que tinha me alertado.
Às vezes penso: será que a gente volta? A gente é tão diferente, mas será que a gente volta? Você me responde do outro lado da linha que nem existe mais que, quem sabe, em dois mil e dezesseis. A gente é tão diferente, você não vai mais me ver por aí. A gente é tão diferente, eu preciso de outra companheira. A gente é tão diferente, a gente vai acabar se esquecendo. A gente vai? Ou melhor: Eu vou? Eu queria ter certeza.
É que o jogo do corinthians acaba, eu suspiro aliviada por um lado e por outro choro: o amor não acaba em dois tempos de quarenta e cinco. É preciso muito mais de noventa minutos pra esquecer um amor.
1.9.13
trecho de um livro que nunca será
Eu não conheci o Matheus. Eu o reconheci. O primeiro grande clichê da minha vida que nunca conheceu essa palavra. Sempre detestei os clichês, os encontros, os filmes de amor. Amor, essa palavra. Amor essa palavra que a gente não sabe muito bem o que é, entende o que é no filme e busca reconhecer na vida. Nunca soube reconhecer amor na vida. Gostei de algumas pessoas, beijei algumas bocas. Disse "eu te amo", sem saber muito bem o que era, como criança que repete as sílabas do hino nacional. Dizia "eu te amo" pros garotos que beijava porque tinham me ensinado assim. Te beijei, você segurou na minha mão, me ensinou um caminho, me mostrou teu livro preferido. Devo te amar. Te amo então. E assim se faziam essas relações sem emoção nem sentimento nas quais eu me meti desde a adolescência.
Mas quem não sabe o que é amor, não reconhece amor. Tentar reconhecer o amor sem nunca ter amado é tentar reconhecer uma mesa como mesa sem nunca ter visto uma mesa. É preciso ter um primeiro contato com o objeto para poder reconhecê-lo como tal. E eu, até conhecer o matheus, nunca tinha sido apresentada ao amor. Não assim, apresentada ao amor no ato de sentir. Só conhecia amor como palavra, como história de livro, como pedaço de filme. Mas o amor nunca tinha entrado em mim para que eu pudesse reconhecê-lo. Sendo assim, tudo que lembro do meu primeiro encontro com o Matheus, é que ele me despertou os sentidos. Todos os sentidos. Me acordou pra vida de tal forma que as cores se faziam mais vivas, as palavras saltavam com mais facilidade, as sílabas tinham cheiro. Sinestesia. Ele me mostrou que a vida pode ter gosto.
Foi assim, inesperado. Ele foi o último a me aparecer naquela lista de gente que estudaria comigo na faculdade. Lista de espera da faculdade de publicidade e propaganda. Não soube dizer o que tinha nele, mas tinha. Não soube dizer o que tinha em mim, também, que tive urgência em lhe dar as boas vindas tardias do único jeito que sabia: lhe escrevendo as palavras. Mas fui assim, como quem não espera nada. Um desses recados simples, até meio bobos. Qualquer coisa como "seja bem vindo à essa selva de gente louca que queria ser artista e se contentou em ser publicitário". Ele me sorriu com os dedos respondendo qualquer coisa como "não me contentarei nunca em ser apenas publicitário. É meu projeto paralelo enquanto não me reconhecem como artista. Mas reconhecerão, reconhecerão". E sorri. Sorri com as palavras do primeiro homem que foi capaz de me fazer sorrir logo no primeiro encontro.
Antes dele, é claro, houveram vários. Os mais diversos tipos. Os gordos, os magros, os meio engraçados, os inteligentíssimos e os meio burros. Todos eles com seus encantos atrozes, com seus jeitos de me pegar pela mão. Houveram aventuras, grandes aventuras imensas dançando em seus corpos, em suas bocas, em trechos de livros lidos em voz alta as três da manhã. Houve a poesia dos filmes alternativos clichês que tratam de amor. Houve, houveram. Tudo isso que podia ser reconhecido como amor, mas ainda não o era.
(Escrito em 2011, nos intervalos do trabalho esse algo qualquer que almejava ser um livro. anos depois acho meio completamente ruim e já não acho que a única maneira de se enterrar um grande amor seja um epitáfio-livro. os amores morrem sozinhos, no tempo em que devem morrer. difícil também elencar as razões de porque não mais escrevo nesse blog. talvez porque seja a confusão que me faça ter de escrever qualquer coisa. talvez por outras razões distintas que eu nem sei. em todo caso, obrigada pelos comentários dizendo que sentem falta dos meus escritos. acho que também sinto, talvez mais que vocês).
2.6.13
essa não é uma carta de amor
para um nhô
Pensei em te dizer inúmeras coisas antes de partir - porque eu sabia que ia partir, e sabia exatamente o dia e hora em que o faria - mas desisti momentos antes. a conclusão era certeira: você não entenderia. acho que tentei, meio descompassada, te explicar que eu estava indo. que eu ia, sabe? que eu ia e você nunca mais ia falar comigo. nem mostrar um poema, uma crônica, nada. eu queria te deixar ciente das minhas razões, elencando em tópico pra que você entendesse. você não entendeu. eu tentei um pouquinho. lembro que você me disse - meio bravo, até - que então era isso, que eu não queria mais conversar com você caso a gente não pudesse mais ter um envolvimento amoroso (na verdade você usou outros termos, mas há de se manter a qualidade literária da carta). acho que você pensou que eu te tratava, naquele momento, como uma coisa descartável. como essas garrafinhas biodegradáveis de água que a gente amassa e joga no lixo no momento em que termina a água. uma garrafinha tão vagabunda que não serve nem pra guardar água na geladeira depois, ou pra levar suco de pozinho pro trabalho. tentei te explicar que não era, que era outra coisa, que era uma coisa aqui dentro que me machucava e que era melhor pra mim que a gente se afastasse. você continuava sem entender e eu ia ficando pequena. já não tinha mais coragem de falar nada. não falei nada. não tive coragem. disse que era melhor que ficasse assim, então. que fosse indo. um dia a gente descobria o que ia ser da gente. você concordou, mas eu sabia que estava indo embora.
no começo foi difícil. era difícil não querer saber de você. daí eu ficava me distraindo com outra coisa pra não falar com você. se ainda estivéssemos nos tempos do telefone eu teria apagado seu número. não estando, desapareci. desapareci muito mais por mim do que por você. eu gosto muito de conversar com você e era dificílimo lidar com as minhas urgências de te contar as coisas que aconteciam na minha vida - embora não fossem muitas, porque nunca são. as razões de porque eu fui embora eram muito particulares. não porque você era descartável, e muito menos porque eu queria te exterminar da minha vida como coisa que não serve mais. eu só fui embora porque estar com você mexia comigo de um jeito que eu não sabia o que era. e machucava. machucava porque eu não tinha certezas. machucava porque eu lidava mal com todas as outras mulheres que eu sei que fazem parte da sua vida. elas aparecem em fotos, por vezes. em outras é num poema. li com o coração doendo um ou dois poemas que eram dedicados a pessoas que não eram eu. um deles eu li na rodoviária, pouco depois de chegar na cidade que é muito mais sua do que minha. tinha uma foto, uns livros, umas coisas-todas de uma história que me machucava mas eu não queria mexer. era isso: eu não queria mais ser a inquisidora da sua vida. e eu sabia que estando perto, fatalmente eu iria. longe eu podia pelo menos começar a entender o que tudo aquilo queria dizer.
eu nunca disse que te amava. e se me perguntarem, eu vou dizer que nunca nem cheguei perto de te amar. não sei mais o que o amor faz, e então diria isso muito mais por inexperiência adquirida do que por certeza. pode ser sim, que eu tenha te amado um pouquinho em algum lugar pelo percurso em que você disse alguma coisa bonita ou em que eu deitei no seu ombro acreditando que estava salva de todos os males do mundo. eu sempre te ouvia dizer de um jeito meio debochado que só justificaria eu agir louca daquele jeito se eu estivesse muito apaixonada por você. você tinha uma flexão na frase, como quem diz uma redundância. eu dizia que o louco era você. às vezes eu ficava pensando em responder "e se eu estiver?" só pra que você me respondesse alguma coisa. mas você sempre tinha pressa, me levava pelos corredores da sua universidade apressado, me mandava embora de casa, se irritava com os meus jeitinhos. achei que não compensava. inclusive, da última vez que nos vimos achei que estávamos caminhando pra nos tornar aquele casal que já não deu certo e virou amigo. você não me beijou direito nenhuma vez. mas aquelas alturas eu já não queria questionar nada, e fiquei pensando que são paulo tem um dos por do sol mais feios que já vi na vida. eu prefiro o da sacada lá de casa, mas o da sacada de casa não tem você.
é difícil te explicar porque eu quis ir embora. faz quase um mês e eu ainda não entendi. tem uns fins de noite que eu acabo cedendo e perguntando como vai você. no último você respondeu bem, hoje você foi seco. você foi seco e eu fiquei pensando que deve ser bem chato ter que lidar com alguém que some e volta assim, sem explicar porquê. quem sabe você ficou se sentindo uma dessas garrafinhas biodegradáveis que a gente joga fora assim que acaba a água, embora você pareça feliz sem mim. qualquer carta de amor soaria muito mais bonita se eu dissesse: fui embora porque te amo. por mais que você não me amasse de volta ia ter um quê de sofrimento que justificaria qualquer um dos meus atos - por mais impensados que eles sejam. não posso te dizer isso, mesmo pra fins literários soaria exagerado. fui embora porque não sei. fui embora por todas as coisas que não sei. fui embora pra nunca mais ter que te perguntar quem é a menina da foto ou quem é a garota que recebe poemas no meu lugar. fui embora porque estive cansada do meu descompasso e porque minha vida com você é um dançar na batida errada sempre sempre. e você sabe, eu fiquei cansada de dançar sozinha e fora do tom. seria bem mais fácil se eu passasse por cima dessas dores todas e continuasse a engolir todas as vezes que eu percebo que além de mim há outras várias e que talvez eu nunca venha ocupar um lugar de destaque - embora nos conheçamos há muito tempo, e meses atrás você parecesse gostar muito de mim.
eu não sei o que aconteceu com a gente e foi por isso que eu fui embora. pra não te desgastar com perguntas bobas e sem resposta. pra não te exigir estando longe. pra não me doer num contato que vai me mastigando por dentro. eu te deixei pelas coisas que não sei. pelas coisas que eu não sei te explicar. eu resolvi te deixar depois da nossa última briga. ver você com outra me machucou. e outra que eu sei, por conhecimento de causa da sua vida passada, que já existe há muito tempo. bem antes da gente retomar isso que a gente tem - seja lá o que for isso. outra que eu trombei no corredor da sua universidade e você agiu como se eu fosse invisível. o fantasma da outra me deu um embrulho no coração. não soube agir naturalmente, nem te dizer as coisas com clareza. te disse coisas que não sei. e são essas coisas que não sei que você faz nascer em mim que eu não quero mais. doeu tanto. tudo doeu tanto. doeu tanto você me dizendo que você tinha o direito de colocar aquela foto em qualquer lugar. doeu tanto você me dizendo mil e uma coisas. doeu quando lembrei que eu também tenho com você uma foto quase igual. tudo doeu tanto que eu chorei na sacada sem saber porquê. chorei tanto. chorar tanto assim pelo que eu não sabia me fez pensar que só tinha um jeito: ir embora. ao menos de longe, se doesse de novo, eu não ia agir com você de um jeito que não sei. ia ser melhor pra nós dois.
não está sendo fácil. hoje mesmo quis perguntar como você está, e fui. tem um monte de coisas que às vezes eu quero te contar e não conto. viver sem você sempre foi complicado, tanto que quando estivemos separados eu te escrevia umas cartas que eu achava que você nunca leria (mas leu). eu fui embora porque eu não sei o que sinto por você. e enquanto eu não descubro, ser uma coisa indefinida me dói. a cada vez que eu estou perto eu sei de coisas em você que eu gosto e aí por vezes eu relembro porque é que eu nunca te deixo. eu tento te falar aqui das coisas que eu não sei. com a distância você vai sumindo. tem dias que eu esqueço de pensar em você. depois você aparece me mostrando pedaços da vida da qual não faço parte e eu fico triste. às vezes eu destilo tudo isso em forma de rancor. no fundo eu queria que você fosse mesmo um dessas garrafas que a gente joga no lixo. você ia me odiar um pouco, mas logo ia passar, e eu ia viver bem. eu ia viver longe dessa infinidade de coisas que eu não sei, pelo menos. eu não consigo ser só sua amiga porque me machuca a idéia de você gostar de outra pessoa e essa pessoa não ser eu. também fico pensando e não sei se seria sua namorada. daria certo? todos os seus amigos me odeiam, a gente brigaria infinito pelo meu jeitinho e você ronca. eu sempre consegui ser mais uma no meio de várias, sendo também uma que tem vários. por que com você não? por que você me aperta o coração de um jeito estranho e porque o vislumbre besta de "te perder" me faz chorar na sacada? quanto sentimento mesquinho, eu nunca fui assim. coisas que não sei.
em resumo, eu gostaria que você soubesse que eu gosto muito de você. e muito me encantaria continuar na sua vida, e quem sabe até ser esse arquétipo louco da grande amiga com quem a gente sai pra conversar e dividir impressões sobre livros, e de vez em quando transa,e de vez em quando dorme junto e eu queria muito ser o que eu sempre fui com o resto do mundo com você e ouvir com distanciamento as histórias das suas outras garotas, e aí eu te contaria sobre os meus encontros casuais enquanto dividimos um café. mas com você eu não sei. não te deixei porque você não me serve. eu fui embora porque você desperta em mim coisas que eu não sei. coisas que vão além. essa carta mesmo, não faz o mínimo sentido. quase consigo pensar em você me dizendo qualquer coisa como: isso só se justificaria se você estivesse mesmo muito apaixonada por mim. você diz isso sempre com um ar de deboche meio convencido e eu rio dizendo que até parece. e se for? imagina o estrago? estrago já teve. mas acho que ficaremos melhores sem isso. nós dois. prometo que volto às vezes, quando sentir que posso conviver com você sem enlouquecer dizendo dessas tantas coisas que não sei explicar. espero que você continue escrevendo, que a sua casa nova seja aconchegante, que a faculdade não te mate e que tudo isso que sempre foi continue sendo. tudo isso que você é e eu não sei lidar. por aqui continuo descompassada, meio ansiosa, sempre sofrendo de gripes e sem ter a mínima idéia do que eu faço com a minha vida. desculpe pelas vezes que te ignorei. era preciso. pra que minha vida siga adiante, diriam os los hermanos.
eu nem gosto de los hermanos, aliás, mas dia desses ouvi essa música aí que eu acho que chama "adeus, você" e acho que posso terminar te dizendo pra que você acalme e te sustente, e não pense que eu fui por não te amar. também não pense que eu fui por te amar. eu fui porque eu tive que entender todas as coisas que você faz nascer em mim e eu não entendo. sigo os seus conselhos, por vezes. em outras percebo que gosto bastante de algumas partes de mim que você detesta. um dia você me disse, convencido, que era difícil achar alguém melhor que você. eu ri achando uma bobagem. não espere que eu diga agora: você tinha razão. não é nada disso. é que eu percebi que quando a gente gosta de alguém, seja lá do jeito que for, ela acaba por ficar única do jeito dela. e então eu te digo que achar alguém como você deve ser mesmo um pouco difícil. razão pela qual eu percebo, depois de quase um mês longe, que eu não quero de novo ser louca, romper contatos abruptamente e esperar que alguém te faça sofrer. espero que você seja feliz e que eu ainda leia alguns dos seus textos e alguns dos seus trabalhos, embora eu saiba que eu conto com várias assistentes pro posto. talvez um dia você ame alguém e me esqueça de vez. talvez aconteça antes comigo e a gente se encontre de vez em quando pra contar as novidades. não sei da vida. pensei em te dizer muitas coisas antes de partir, mas acho que podia ter deixado só um bilhete: "se eu for embora saiba que não foi por não gostar de você, e sim pelo avesso disso". mas eu nunca penso em soluções inteligentes quando o assunto é você. continua sendo feliz, não me odeia, eu sou desajeitada, mas tenho o coração bom.
esperando que você leia isso e mantendo a tradição da comunicação indireta, me despeço como quem deixa uma carta em cima da mesa e parte com as malas. te mandar diretamente exigiria respostas e esse é tipo de coisa que, acredito eu, nem carece de resposta (a não ser que você queira). sinto uma coisa bonita por você, um negócio que me faz querer que todas as suas potencialidades sejam postas em prática logo, uma urgência de te ver bem, feliz e fazendo o que gosta. acho que é recíproco e imagino que esse seja o porquê das suas incontáveis broncas. quando penso na gente se dando bem (o que exclui os meus surtos e suas grossuras) me dá vontade de sorrir. é isso que vale.
eu volto logo,
lembra de não me esquecer.
te gosto muito, sempre, ainda que preferisse não às vezes. não por nada, é que acho chato. só isso, acho chato.
um beijo,
eu
(que sempre assino as cartas egocentricamente).
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