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30.1.12

e se ele existir, que me deixe em casa.

Querido Deus,

Em primeiro lugar, não quero entrar no mérito da questão do fato de você existir ou não. Acho isso tremendamente chato, e até um pouco desnecessário. Chamo aqui de Deus, essa criatura qualquer que existe (ou não), num plano superior e nesse minuto é capaz de me ouvir. O senhor sabe (e eu imagino que saiba, porque muito falam sobre a sua onipresença), que eu sempre fui uma criatura muito perdida. Desde assim, desde sempre. E ultimamente, eu ando um pouco mais perdida do que de costume. Antes as coisas iam. Eu sempre detestei o presente em que eu era inserida (o senhor deve lembrar das minhas inúmeras reclamações), e sempre desejei estar dois passos à frente. Uma vez que chegava nesse passo à frente descobria odiar isso também, e entrava nessa insatisfação sem fim. Eu não sei se o senhor tem uma explicação pra isso, e mesmo que tenha, eu não sei no que nisso pode ajudar. Mas o que eu quero dizer é que, eu detestava o ensino fundamental, daí fui pro ensino médio e detestei, e fui pra faculdade e detestei e  comecei a trabalhar e também detestei um pouco, mas até então eu não tinha parado. Esse mês eu parei, e sabe, olha Deus, eu ando mesmo muito perdida. Nos últimos anos eu fui me enfiando em tudo que podia. Porque, sei lá com que massa o senhor me fez, mas eu acabo mesmo conseguindo tudo aquilo que me proponho a conseguir (e até o que não me proponho tanto assim).

Sendo assim, passei no meu primeiro vestibular, fiquei com todos os caras que queria, namorei quem eu queria namorar, passei na primeira pós graduação que tentei, arrumei os empregos que me propus arrumar. E até aí tudo bem. Eu me frustrei aqui e ali, perdi um grande amor justamente porque sempre quis ter demais e acabei me atropelando, mas ok, é a vida, talvez você aí do céu tenha um propósito maior pra isso tudo. Fato é, que hoje eu estou aqui, sentadinha na minha cama, com milhares de dúvidas e eu só posso dizer que ó: eu me atropelei. Isso de conseguir tudo o que ser "quer" é muito legal quando você tem certeza do que você quer, mas no meu caso eu fui conseguindo tudo o que me apareceu. E agora é isso. Eu tenho uma vida que um monte de gente inveja, mas eu não sei se eu queria ela. Eu não sei se eu queria ser essa designer que eu sou, se eu queria com 22 anos já ter feito um ano de pós graduação, se eu queria ter namorado todos esses caras, e ter conquistado todos os caras que me propus a conquistar (mesmo quando eu não queria eles). Isso de não quebrar a cara nunca te bota muito pouco em cheque com a vida e te faz pensar que não tem mesmo o que pensar. Eu nunca tive uma frustração muito grande que me fizesse parar e pensar "olha, talvez esse não seja o caminho certo". Até que eu perdi o emprego. Esse emprego que, bem sabe o senhor, eu achava que não ia perder nunca. Aliás, toda essa trajetória até aqui me fez uma pessoa que acha que não vai perder nunca. Porque eu nunca perdi. Exceto aquela vez, aquele grande amor, que você sabe melhor do que eu, porque sendo deus, já deve ter me espiado chorando no quarto milhares e milhares de vezes.

E daí é isso. Me vejo aqui, pouco estimulada à qualquer coisa, meus amigos todos também, pouco estimulados. E fico esperando que o senhor (ou qualquer coisa que seja) me dê um sinal. Porque de uma hora pra outra, depois de tanta desilusão eu acho que eu dei pra acreditar em sinais. Me oferecem um emprego eu acho que é um sinal, uma nova pessoa aparece eu acho que é um sinal, a havaiana cai de um jeito diferente e eu acho que é um sinal. Porque o senhor bem deve se lembrar, ano passado eu entrei numa estrada que ia rumo à decadência, bebi bastante, minha mãe teve que me aguentar desmaiada na cama algumas várias vezes, eu aceitei todos os convites pra todas as festas, eu fiquei acordada até tarde, eu saí em dias de semana. Tudo isso pra ver se eu achava algum sentido, e o sentido não existe. Também não existe essa pessoa que você vai conhecer e vai ser capaz de mudar toda a sua vida, porque ela até pode mudar um pouquinho, mas todo mundo te decepciona, vez ou outra, o o filtro pra decepções vai ficando cada vez menor. E como o senhor já deve ter percebido, eu não ando com nenhuma tolerância ao fracasso. E também tem isso de arrumar um emprego e eu não sei nem com que raios eu quero trabalhar. Não sei de nada, e escrevo essa carta com um intuito meio infantil de que quem sabe alguma luz venha, ou a minha havaiana caia de um jeito diferente e isso seja um sinal. Só que o senhor bem sabe, que eu não gosto de havaianas.

Eu tenho sido muito forte. Eu, se fosse o senhor, me orgulharia de me ver daí do céu. Eu tenho sido muito forte porque faz dois anos que eu tive que lidar com o trauma mais relevante da minha vida e eu continuei vivendo. O senhor também deve saber que é desde esse dia que viver se tornou mais difícil, mais complicado e cheio de latas de cervejas e coisas que eu não-queria-tanto-assim. É que eu perdi a única coisa que eu desejei com certeza na vida, e depois disso, tudo ficou muito difícil de conseguir continuar. Eu nunca quis nada tanto assim, mas você sabe que ele eu quis. É difícil admitir que uma pessoa só foi responsável por boa parte de tudo que você fez de bonito na vida. Ele era meu equilíbrio, meu norte, minha espécie de deus particular (embora fosse bastante humano), e é estranho pensar que, caso ele ainda estivesse aqui, eu nem estaria endereçando essa carta pra você. Talvez a vida me doesse, mas eu estaria te sorrindo. Você deve se lembrar que eu costumava sorrir bastante, mesmo em meio às minhas depressões, quando ele estava aqui. Teve até um dia que nós dois paramos na sacada pra discutir sobre a existência desse tal de "Deus". Chegamos à conclusão que se o senhor existisse de fato, teria coisas mais legais pra se preocupar do que com essas nossas mesquinharias. E achamos a conclusão bem acertada, embora pouco soubéssemos (ou queríamos saber) sobre esses mistérios de vida & morte. Tinha isso de ver o jogo do barcelona, de fazer lasanha, das pequenas alegrias corriqueiras da vida. O senhor deve saber melhor do que ninguém que meu coração está cansado. Muito cansado. E com o coração cansado fica muito mais difícil conseguir o que se quer da vida. Principalmente pra mim, que nunca soube direito o que queria. Mas a vida é isso. Você viu que meus passos me tornaram designer e que sabe-se lá porque a vida tirou a única coisa que eu tinha certeza que queria de mim. E deu p'raquela outra garota que deve estar cuidando bem dele. Eu espero que esteja, pelo menos. E sabe, de repente ficou mais fácil de acreditar que tudo isso que aconteceu, aconteceu porque tinha que acontecer. Me conforta mais pensar que minha certeza não era a certeza certa, e que agora eu tenho que depositar minha esperança num outro lugar qualquer.

E sabe, se você estiver mesmo me olhando daí do céu, eu estou esperando por um sinal. É porque faz dois anos que eu não sei mais no que depositar a minha fé. Sabe, e eu nem falo de fé religiosa não. Falo de fé na vida, sabe? Fé no meu trabalho, num emprego, numa amizade, em planos, em um novo amor. Qualquer coisa assim. Eu tenho medo de me atropelar, mais uma vez, porque eu sempre me atropelo. E eu tenho medo de, em mais um desses meus atropelos, acabar perdendo a única coisa que eu tinha certeza de querer. Porque eu acho que eu vou encontrar outra coisa e ter certeza que eu quero ela. E essa coisa pode nem ser pessoa. Você entende o que eu estou falando? Eu acho que entende. Eu nem sei o que eu estou te pedindo. Você sabe que eu não sou de pedir muito, sou de me deixar levar. Não sei exigir muita coisa. Não da vida. Fico esperando por esses sinais, fico esperando que as coisas se encaminhem, se mostrem claras, que haja fé em qualquer coisa que seja. Não sei se o senhor está me ouvindo. E caso esteja, eu nem sei se o senhor gosta mesmo que a gente te transforme em literatura. Mas é tarde demais, eu já transformei. Fui eu mesma a escrever em outro texto que "nós somos a geração de um deus que não há". Eu não sei no que acreditar, eu não sei o que pedir, eu não sei o que esperar. Eu não sei nem ao menos o que devo fazer amanhã. Eu nunca soube. Você - ou a vida - me tiraram a única certeza que eu tinha, e pra isso eu tive que realinhar todos os meus planos de novo. E eu (espero) que exista uma razão bastante lógica pra isso. Que eu estou esperando o senhor me contar. Traga qualquer coisa até mim, uma pessoa qualquer, um sinal, um emprego, a oportunidade da minha vida, o dia mais feliz dos meus vinte três anos de existência. Vire meu all star do lado errado na rua, me faça tropeçar na frente do amor da minha vida, inviabilize o que eu quero, ou faça tudo se alinhar do jeito que deve, assim, fácil. Faz dois anos que eu vivo anestesiada, sem esperar nada da vida, sem fazer planos, sem querer nada de verdade porque a única coisa que eu quis a vida levou numa onda gigante e eu nem tive tempo de me reanimar. Só que agora eu cansei. Cansei disso, de me lamentar, de chorar molhando meu teclado frente às fotos dos dias que não voltam. Eu preciso acreditar em alguma coisa. E mesmo que você não exista, hoje eu preciso de você.

27.1.12

carta aberta à uma histérica.

(de outra histérica)

Você me disse hoje, (e eu imagino) quase desesperando que não aguentava mais ser assim. Lembro de você dizendo isso pelo menos umas quatro vezes, desde aquele ano em que nos conhecemos e não nos demos tanta bola. Sei que já te disse a mesma coisa, em vários outros momentos ao longo desses anos que povoam a nossa amizade distante de lugar, mas pertinho de alma. Você passou muito presente por todos os meus relacionamentos, aguentou firme meu trauma, me acompanhou em todos os meus flertes sérios ou  sem nenhuma importância. Eu te acompanhei em todos eles também, segurando a sua mão e brigando com você quando necessário. Soubemos xingar o pretendente da outra de "babaca" quando preciso, e soubemos aceitar, resignadas, o veredito da outra. Sempre nos soubemos certas. Eu soube que era verdade quando você me disse que eu idealizava demais, e você soube que era verdade quando eu te disse que você só queria ser amada. Soubemos, de comum acordo, quando estávamos nos envolvendo com homens que não iriam nunca nos encantar. E soubemos entender, compreensivas, porquê tinhamos o vício de insistir naquilo que não ia dar em nada. Torcemos pelos nossos êxitos todos, e seguramos nossas barras em pé. Te ouviria em todas as suas confissões sobre as suas neuroses, e choraria com você em todas as coisas que você estragasse por causa delas. Sei que você faria o mesmo por mim. Você, que apoia as minhas mancadas, que desabafa comigo às custas da tim, que sabe ser meu cazuza enquanto eu sou assim,  seu caio fernando, marilene a incendiária, botando fogo em tudo que vejo pela frente. Rimos juntas e abraçadas de nossas imensas pataquadas mundo afora, sabemos dos nossos vícios de seduzir, sabemos do nosso sintoma, da nossa fofura ensaiada, dos nossos textos bem escritos, da nossa paranoia sem fim. E sabemos também, que é difícil segurar essa barra de não saber amar sem fazer doer. Saimos por aí, fazendo drama antes de saber a razão, apontando dedos que não deveríamos apontar, fazendo pequenas vinganças diárias por coisas que na verdade não nos fizeram. Temos medo de ser machucadas, porque já somos demais, porque já nos destruímos diariamente, então atacamos. Atacamos os outros, jogando pedra em todos os vidros que vemos pela frente, mas acabamos (sempre) cortadas pelos nossos próprios estilhaços. Você me diz, tristonha, que não quer mais ser assim, e eu te ouço como se a voz fosse minha: porque eu também não quero. Não queremos. Mas somos. Vivemos com a dor e a delícia de ser exatamente aquilo que se é. O desequilíbrio que por vezes encanta, o jeito estabanado que por vezes conquista, a força que esconde por trás uma fragilidade imensa, quase infantil. Somos imaturas mulheres em cima de seus saltos altos e seus batons vermelhos. Somos crianças querendo colo, esperneando por atenção, fazendo manha, birra, chantagem, desconfiando da sombra, machucando para não ser machucada, afastando para não se aproximar demais, deixando pra não ser deixada, escarafunchando defeitos para não se apaixonar demais pelas qualidades. Nunca perdemos um jogo, não aceitamos, sempre conseguimos tudo aquilo que queríamos, só não conseguimos viver confortável nessa pele em que habitamos. Somos demais almodovár, latinas, dramalhonas e cheias de tragédias. Somos demais tango, somos demais escândalo, somos drama e paranoia, somos mulheres a beira de um ataque de nervos no próximo segundo. Você me deseja todo amor que houver nessa vida e eu te desejo, clichê, que seja doce. O que sabemos da gente é que quem vê a nossa maquiagem bem feita não imagina que ela derreta de noite, nos nossos choros que tem como única causa o fato de ser assim. E a gente se pergunta em uníssono "pra quê ser assim?". E fica retórico, porque não tem porquê, só se é. Sabemos que somos, e sendo duas, nos entendemos. Eu não te desejaria a pele em que habito se pudesse e eu sei que você não daria a sua, se tivesse tido escolha. Acontece que foi assim, e sendo assim, cabe a gente se apoiar. Não sei se temos jeito, cura, se temos equilíbrio. Sei que me equilibro em você quando acho que vou cair, e sei que você faz o mesmo. Às vezes caímos as duas, estabacadas, nariz e coração sangrantes. O que fica é que a gente sempre levanta. Sempre. Mesmo com o joelho ralado, as lágrimas escorrendo, mesmo com a vergonha do fracasso. Você será sempre a minha histérica, perua-jéssica-lange, e eu sempre a sua histérica pra quem você diz que "uma pessoa, não é como um doce que se enjoa e se diz: não quero mais". Sei de você. Você sabe de mim. Sabemos de nós. Sinto a sua dor, quero também o equilíbrio, a calma, a paz, um lugar pra ser nosso. Quero te encontrar de noite e festejar dizendo que olha, não demos show. Mas quero também que você saiba (como eu sei que sabe e eu sei), que nessa estrada curva que tenta nos levar a sermos pessoas mais sensatas, eu serei sempre o seu caio fernando, e você vai ser pra sempre o meu cazuza. E o clube das mulheres neuróticas vai vencendo assim, um dia de cada vez, porque queremos que todo amor que houver nessa vida seja doce.

(dizer que eu te amo seria egocentrismo. e eu não fiz parágrafos, porque não somos de pausas).

I get by with a little help from my friends

A vida é isso. É essa coisa que passa rápido demais, e quando você se dá conta, está numa sala (a mesma sala que povoou o início da sua juventude) discutindo o que serão dos anos vindouros. Somos meninos formados, deveríamos estar crescidos, pensando em nossos empregos (quase) fantásticos, nossa carreira acadêmica brilhante, nossa cidade dos sonhos pra mudar. Discutimos por horas a fio sobre porque tudo é tão errado, as pessoas querendo ser prodígios com seus vinte e poucos anos, nossa falta de independência, nossas ainda-não carteiras de motorista, nossos amigos que não se deram tão bem assim. Todos nós, em nossos períodos sabáticos, sentados no mesmo sofá verde de outrora, pensando em enviar currículos ou não, em entrar em mestrados ou não, em querer uma vida confortável ou querer fazer alguma diferença. Nós, jovens, quase vinte e três anos. Nós, perdidos, a geração onde não existe deus ou esperança, sem saber se casaremos, se constituiremos família, ou se estaremos vivos no minuto seguinte. Seria dois mil e doze mesmo o ano do apocalipse? O ano da mulher de duas vaginas, de luíza que voltou do canadá, das aberrações genéticas, dos experimentos revolucionários. Queremos conhecer o mundo, ou queremos ficar perto um do outro, em nosso velho sofá verde, tomando chá mate com limão? Queremos colocar em prática a última orgia antes do fim do milênio? Ainda lembramos que tinhamos essa brincadeira, quando éramos mais jovens, tinhamos menos responsabilidades e tomávamos cuba libre ao som de músicas que (ainda) não sabíamos que sentiríamos saudades? Acho que não sabemos de mais nada.

A vida se mostra incerta, nessas noites frias em que se pensa não sair de casa. Tudo uma imensa neblina, como aquela que tomou Londrina inteira, anteontem. Tudo muito incerto. Carreira, lugar pra morar, o salário ideal, como começar a minha monografia, família, namorado, relacionamento. Tudo prestes a se consolidar ou a ruir no instante seguinte. Queria uma vez na vida ter um pouco de certeza daquilo que quero, estar confiante, pensar em um caminho só, traçar uma meta, mas me falta ritalina na alma. Não tenho foco, nasci desprendida demais, nunca consegui terminar um jogo de videogame, nunca consegui enxergar o meu futuro todo segurando na mão de alguém. Nunca me enxerguei sendo designer, justo eu, a menina que aos dez anos de idade já dizia querer ser escritora. Me enxergo muito pouco, ainda. E isso, mas também me enxergo muito pouco profissional, me enxergo muito pouco ser humano, me enxergo muito pouco "a namorada dele" e ainda menos a "mulher dele" ou a "mãe dela". Aceitei ser, por vezes, o complemento de alguém. Duas vezes. Duas únicas vezes pra depois desistir disso pra sempre e ficar em imensas novelas sem fim de descontrole e desconcerto. Hoje, às quatro da manhã, não sei nem a cidade em que quero morar. Nem o que quero fazer amanhã. Sinto algumas várias saudades, de muita gente, de gente que está aqui, de gente que se foi, de gente que se mudou assim, existencialmente falando.

Vejo mudanças em todos nós. Cada dia menos gente frequenta os sofás verdes desgastados, embora ganhemos algumas novas aparições every now and then. Apesar de tudo isso, sei que não mudamos tanto-assim. Ainda sinto em vocês o mesmo olhar cúmplice que sentia três, ou quatro anos atrás. Falo pra vocês que não sei o que vai ser do meu futuro e sou compreendida. Entendo que todos nós estejamos perdidos, jogados no mundo, sem muitas previsões de nada. Sei que tenho um lugar no mundo, um lugar qualquer que seja, quando alguém me deseja de coração que eu esteja "forever young" e eu desejo de volta, com todo meu coração. Sei que a vida ainda vale um pouco a pena quando nos refastelamos no sofá verde conversando sobre tudo que vem à cabeça. Quando planejamos ganhar na mega sena. Quando planejamos mudar de cidade. Eu acho que não sei ter outros amigos assim, melhores que esses. Nenhum outro vai fazer experimentos no quarto de casa, nenhuma outra vai ter um abraço tão reconfortante, nenhuma outra vai me levar no show do Bob Dylan, nenhum outro vai me abrigar em casa sempre que eu precisar, nenhum outro vai planejar um ano todo comigo e o ano que vier também.

Concluo que já pensei algumas vezes em abandoná-los, já fui frustrada algumas vezes, já me senti sozinha na aventura errante que apelidamos de "vida". Confesso que já pensei em sumir, procurar consolo em outros ombros, já tive raiva, muita raiva de todos vocês. E sei que você já devem ter tido de mim. Sei que nossas relações desgastam, como qualquer outra relação, e sei que, por vezes ficaremos afastados. São quatro da manhã, eu cheguei em casa e não tenho ideia do que quero fazer da minha vida. A mais vaga ideia. Não sei se quero londrina, se quero são paulo, se quero curitiba. Não sei se quero design, webdesign, se quero a folha de são paulo, se quero redigir textos pro resto da minha vida. Não sei o que quero fazer sábado que vem, quando quem sabe estiver em são paulo. Me sinto mais do que nunca perdida, jogadas às traças, bicho solto no mundo. Me sinto mais do que nunca, a mais solitária dos seres, a página mais em branco que pode existir. Não tenho emprego, perspectiva, não tenho amores, não tenho planos, não tenho nada. Mas tenho vocês. E sei, que deitada no sofá verde desgastado, me sentirei em casa.

25.1.12

Da lama à pista.

(ou a minha carta de retratação pública)

Estive por alguns dias em uma espécie de retiro. Não esses espirituais, em que as pessoas vão pra cima de uma montanha e esperam a iluminação divina. Pra esses não tenho paciência. Não converso com ninguém fora da internet desde domingo. Estive intratável, perdi um pouco a noção dos dias. Soube que hoje é quarta, porque teve feira na rua de casa. E sei que amanhã é quinta porque, mesmo com um pouco de preguiça, vou à um especial do Bob Dylan. Acho que nem o Bob Dylan me anima mais, e além do mais, o Bob Dylan me lembra de uma época quando nós eramos felizes. Esqueçam os amores, eu quero dizer que na minha vida, todos éramos felizes. Eu ouvia ballad of a thin man indo pra uel, achava minha vida miserável, mas eu era feliz. Tinha amigos que estavam sempre comigo, almoçava com eles pelo menos duas vezes por semana, e nunca tinha muitas dúvidas do que fazer nos sábados, porque eles me encontrariam. Eu tinha um namorado que me amava, e ouvíamos Bob Dylan. Eu tinha um amigo que sinto muita falta e baixamos a discografia do Bob Dylan. Eu era feliz, e ouvia Bob Dylan.

Metade dos meus amigos mudou, eu descobri que meu namorado não era o amor da minha vida, o cara que eu achava que era o amor da minha vida está quase casado, e meus sábados à noite são sempre uma incógnita. Perdi meu emprego, e estou nisso que chamam de "período sabático" em que você tenta desesperadamente encontrar alguma coisa que faça sentido na sua vida. As pessoas mais loucas, ou mais desprendidas, costumam se embrenhar em longas viagens sem rumo pra se distanciarem de tudo e ver se conseguem enxergar alguma coisa. Eu, covarde de tudo, sem paciência nem pra assinar os papéis que faltam no meu velho emprego, fico em casa. Fico em casa, ignoro convites, remoo alguns rancores, e divido meu tempo entre a internet, as mensagens de celular e ver tv com a minha mãe. Achava que o convívio com as pessoas ia me fazer muita falta, mas eu só sinto falta mesmo de um pouco de ar puro. Ar puro, corridas, e tomar café no shopping. Não sinto falta de ter "alguém comigo" porque todas as pessoas que eu convidaria pra um "café sabático" não estão na minha cidade.

É difícil conseguir dizer, ou mesmo entender o que me faz ficar assim, tão apática. Algumas pessoas (e eu não estou dizendo isso como uma agressão), me mandariam pro psicólogo, mas eu não acredito em psicólogos. Desculpem, não agora. Leio demais, comi da fruta da árvore do bem e do mal, que nos enfia na merda do conhecimento, e é isso. Sei que vou discutir com psicanalista, negar freud, perguntar dos arquétipos e dizer que o meu problema não é investimento de libido em lugar nenhum. Mesmo que eu não faça isso, tem me incomodado a ideia de pagar pra alguém conversar comigo. E algum psicólogo ao ler esse texto dirá que eu estou numa fase de negação. E posso estar. E devo estar. E é por isso que sei que, em não estando de coração aberto para a análise, a boicotaria como faço com (quase) tudo na minha vida. Resolvi então ficar sozinha, no conforto do meu lar, me deprimir o quanto eu posso e daí pensar no que raios está acontecendo comigo.

E é difícil, sabem? Porque é muita coisa e você tem que pegar todos os seus pensamentos e dividí-los em caixinhas, até que você consegue achar a verdadeira chave do problema. E até essa chave que você acha é meio duvidosa, então às vezes ela acaba levando à outra conclusão e tudo fica assim, uma bagunça enorme. Eu sei que eu tenho problemas com meus pais. Amo os dois, verdadeiramente, mas sinto falta de ser independente. Sei que tenho problemas com o meu emprego. Gosto de design, mas gosto até a página dois e por isso me frustro com muita facilidade. Sei que tenho problemas com relacionamentos amorosos: desconfio de tudo e de todos, prevejo alguma sabotagem, entro em paranoias terríveis, me descontrolo, desacredito do amor da pessoa por mim e por vezes estrago tudo antes mesmo da coisa engrenar. Sei também que, uma vez tendo frustrado tudo colocarei a culpa no destino e lembrarei desse meu "grande amor" aí que está quase casado (e que eu tenho plena consciência que nem deve ser assim mais tanto meu grande amor, mas me apeguei à idealização). Sei que tenho problemas com algumas amizades, porque não sei estabelecer limites muito claros, e deixo a pessoa me vampirizar, e tudo isso vai me corroendo de tal forma que, chega uma hora em que a única opção é explodir. Mas como eu não sei explodir, eu me afasto. Sei que tenho problemas com foco, com concentração, que sou de rompantes, que sou a little bit histérica, e por vezes um ser humano bastante difícil de lidar. Como vocês podem ver, entendo muito bem os meus dilemas, só finjo que eles não existem.

Finjo que eles não existem assim como finjo que esqueci de pagar a pós (pra não ter que lidar com a minha irresponsabilidade), e finjo que esqueci de ir ao meu ex trabalho (pra não ter que lidar com a rejeição e o fracasso). Finjo que não li os e-mails do meu professor (pra não ter que dizer que eu não fiz nada da minha monografia), finjo que não sei de vagas de emprego (porque não sei se as quero verdadeiramente). Sei que não termino um livro porque tenho medo da opinião dos outros e medo de descobrir que na verdade não escrevo bem, frustrando assim a única coisa que julgo amar fazer. Sei que tenho pouca iniciativa, que devia ser mais pró-ativa, mais independente, que deveria cortar o cordão umbilical da minha mãe de uma vez, mas tudo isso depende de um monte de ações que às vezes eu simplesmente tenho preguiça de fazer. Sei que devia parar de levar todas as minhas relações com esse descaso, que eu devia tomar alguma iniciativa de vez em quando, e não continuar esperando que as pessoas saibam que eu gosto delas só porque aceito os convites pra sair. Sei de tudo isso. Sei que meu desapego é uma defesa pra que não me abandonem, porque parto do pressuposto que tudo que eu amo irá me deixar. Porque nada dura pra sempre. Sei que tenho medo do novo, medo de tentar, medo de pegar as rédeas da minha própria vida, me jogar no mundo, ter peito pra dizer que não quero mais trabalhar com isso ou com aquilo, e que me recuso terminantemente à ter essa vida das oito as seis, ganhando pouco e sem dinheiro pra viajar ou ter uma casa confortável.

Sei que nasci cidadã do mundo, que quero viagens, todas as viagens, conhecer gente, sair sem rumo: mas não consigo sair de Londrina. Tudo isso tem me atormentado. É difícil saber de tudo que acontece e não conseguir levantar do sofá, fazer uma lista de prioridades, e disfarçar o nó na garganta que crescer  dá na gente. É difícil estar presa numa vida que não é sua, numa pessoa que não é você. É dificil ser incapaz de dizer "estou com saudades, vamos tomar uma cerveja" e ir até às ultimas consequências, pagar pra ver, parar de bancar sempre, o tempo todo, àquela que não quer se apegar. É claro que eu não sou a mulherzinha que uma ou outra amiga espera de mim, e minha natureza me torna incapaz de querer namorar o tempo todo, querer sempre estar junto com alguém. Vivo bem sozinha, sou confortável na solidão e não é mentira. Mas por vezes levar a relação até o fim só pra ver no que vai dar, não fosse de todo mal. Sabem? Dar de presente o livro preferido da pessoa no aniversário? Coisas simples. Permitir-se se apaixonar por alguém e ser quem sabe, a namorada, a garota dele.

É preciso também admitir que, na maioria das vezes, quem mais exige da gente é quem menos dá em troca, e colocar o pau na mesa, estabelecer limites, dizer que nem sempre será feita a sua vontade, porque eu tenho as minhas também, e é de ações recíprocas que vive uma amizade verdadeira. Mas eu não consigo nem sair do sofá. Isso posto, digo à vocês que não se preocupem, eu tenho uma visão muito clara de tudo que está acontecendo. E é por isso que eu choro baixinho quando acordo, fico de pijamas, evito o contato social com tudo aquilo que me pressiona, e faço poucos convites. Tenho aprendido a ver prioridades, amar tudo aquilo que me ama de volta, e ser menos exigente comigo mesma. Tenho que tomar providências, muitas delas, todas essas, mas sei que eu tenho meu tempo. Se não acho prudente ter um emprego ou aprender a dirigir agora, não o farei. Se não acho prudente ir à algum lugar, não irei. Aprendi na ausência do mundo que vivo cercada de uma gente muito maravilhosa, e de uma vida que é um pouco enrolada, mas não chega a ser ruim. Tenho muita coisa pra resolver dentro de mim, tenho muita corrida pra fazer sozinha, muito brownie pra comer lendo livro na cafeteria, até ter coragem o suficiente pra dar o primeiro passo. Tenho uma viagem quase marcada pra São Paulo, que pode vir-a-ser meu caminho pra santiago de compostela. Ou pode não ser nada. Tenho um amigo que volta dos estados unidos logo depois do meu aniversário, também com uma vida pra recomeçar. Tenho 23 anos, decidi que começo a viver agora ou não vivo mais. Mas assim, um passo de cada vez. E pode ser que amanhã eu passe o dia de pijamas, não tome nenhuma providência, e só saia pra ver o Bob Dylan, da época em que eu era feliz e não sabia. E tudo bem também.

Sei de mim. Está tudo confuso, mas tudo tem jeito. É no caos que se cria. É da grande explosão que nasce o novo universo. Resolvi me isolar porque tem um mundo explodindo em mim, mas tudo está se reorganizando. Se sentirem a minha falta, me chamem pra sair. Eu sinto saudades também. E, embora não me sinta feliz, me sinto viva. A vida é besta. Mas pode ser boa.

Desculpem qualquer coisa. Apenas começamos.

24.1.12

nevermind I'll find someone like you.

Sabe, garoto, hoje eu vi de novo a cena final de vanilla sky. E não teve porquê. Postaram na timeline do meu facebook e eu vi de novo a cena. Porque as lembranças e as coisas acontecem assim. Vêm. Aconteceu de hoje ser a cena final de vanilla sky, o filme que nunca vimos juntos. Nunca veríamos. Nunca veremos. Tentei encontrar com você, no meio dos dvds meio caros da livraria, o dvd original de vanilla sky, da primeira vez que saímos. Encontramos, mas você preferiu um cd do coltrane. Encontrei o mesmo dvd na pratileira de uma americanas em promoção e pensei em levar pra te dar. Achei inadequado, nunca comprei. Não lembro de filme direito, lembro porém de todos os outros que você me mostrou, e de todos aqueles que você me ensinou a amar. Senti saudades. Fiquei imaginando como seria se um dia você fosse o meu tom cruise e eu a sua penélope cruz. Talvez tivesse sido bonito, talvez tivéssemos nos amado até o fim dos tempos. Mesmo que eu estivesse morta, e você congelado. Não sei o que aconteceria. Teus livros ainda estão na minha estante, e eu sei que tem muita coisa que eu não seria se não fosse por você. Minha literatura (a que eu odeio e amo), renasceu com você, meu gosto por piadas malfeitas, as bandas indies. Tudo isso que hoje eu recriei é um pouco seu, e vem um pouco de você. Antes doía. Antes eu ouvia adele e doia, ouvia coldplay e doía, ouvia qualquer banda que fosse e doía. Me lamentei muito ao som de baladas bregas, quis você em todos os meus relacionamentos frustrados (e não foram poucos). Chorei de novo nas cenas dos nossos filmes preferidos, comprei um deles e nunca nem consegui tirar do plastiquinho. Guardei na gaveta. Com os livros que você me emprestou e eu nunca devolvi, com a filosofia pós moderna que eu desisti de ler desde que você se foi. Você levou meu jean baudrillard e eu fiquei com um maffesoli mudo. Não tem mais pra quem contar sobre o livro que inspirou matrix. Por algum tempo ficou sem fazer sentido ir na orquestra, ver filme novo do tarantino, contar minhas impressões sobre o oscar. Desisti até de parecer inteligente. Hoje está tudo bem. I heard that you settle down, that you found a girl and you're married now. Eu, por minha vez, não casei, não arranjei outro namorado, me aventurei bastante e enjoei bastante da vida. Às vezes teimava que você nunca mais ia ser feliz do jeito que fomos, com os sorrisos que mostramos em nossas fotos empoeiradas e nos momentos que ficaram guardados, meio que pra sempre. Hoje eu sei que você deve ser feliz, do jeito que você pode. E eu sou também. Eu tento. A saudade não me corrói mais, eu não acho que você seja o último homem do mundo pra mim, embora por vezes eu tenha chorado nos jogos do campeonato espanhol porque não vejo mais sentido nenhum num barcelona sem real madrid. Não suporto mais o messi, e às vezes fico pensando se eu amava mesmo tudo aquilo, ou se eu amava porque você amava também. Também te vejo tão diferente do que você era, e fico pensando se de repente isso que a gente é agora não é o que a gente é verdadeiramente, e o que éramos juntos era uma espécie de ilusão. Acho que nunca saberemos, garoto. Você não me dói mais. Eu sinto saudades, porque desde que você se foi, eu tenho que arrumar vários outros melhores amigos pra botar no seu lugar, e às vezes eu canso. Canso da vida, e ninguém nunca mais disse que "seus amigos não gostam de te ver depressiva, então pare". Também não vejo nas pessoas a impaciência por não saber o que me dizer, querendo achar as palavras certas nos meus surtos (que a gente sabe que não são poucos), elas só me deixam pra lá, e dificilmente sorriem me dizem que "a sua vida é muito boa, não tem porquê isso". Eu brigava com você na época, mas você já enxergava o que eu só consegui ver agora. Minha vida era muito boa. Yesterday was the time of our lives. Mas eu sobrevivo. Sobrevivo porque tudo deve ter acabado quando tinha que acabar, and guess she gave you things, I didn't gave to you. Não quero achar ninguém como você, porque eu sei que não tem. Quero achar outra pessoa, me divertir com outra pessoa, amá-la tanto quanto eu te amei. Ou mais. Quero amá-la mais, se você não se importar. Porque sabe, garoto, talvez o nosso amor não fosse mesmo pra essa vida. Porque cada minuto que passa é uma chance de mudar tudo pra sempre. E eu te encontro em outra vida, quando nós dois formos gatos.