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17.2.14

o amor não se acaba no espaço de tempo em que se grita gol

(escrever pra ele nesse blog é, no mínimo, irônico. mas é que sem ele tudo que me sobra é o vazio das redes - e as folhas em branco. cada um se vira com o que tem. eu continuo me virando nesse imenso espaço vazio)

O som da tevê longe, narrando o jogo do corinthians parece ser o mundo avisando em voz alta que você me deixou.

A gente passa a reparar mais nas coisas depois que as conhece, e foi depois que você se foi que tenho a impressão que todos os domingos mostram os jogos do corinthians, que todos os noticiários noticiam que eles compraram o Jadson, que todas as vezes que eu ligar o jornal alguém vai dizer alguma coisa que me lembra você. Desde que você se foi eu tenho a impressão que o mundo inteiro anda de bicicleta. Os pedreiros das obras que ficam perto do meu trabalho andam. O meu vizinho do terceiro andar, também. O rapaz com quem nunca conversei no trabalho carrega uma mochila com uma camiseta a mais pra trocar assim que chega, e guarda a bicicleta dele no posto em frente. Um dos meus amigos comprou uma bicicleta quase igual a sua, só que azul. Enquanto eu espero sentada no ponto de ônibus, nos dias de muito calor, um rapaz passa às dez pras oito subindo de bicicleta a avenida higienópolis. Todas as vezes que eu desço o ônibus que pego às seis e quinze, um moço de capacete passa de bicicleta virando a esquina, e me acena com a cabeça. Quando perco o ônibus da frente do trabalho e tenho que subir na avenida pra pegar o outro, encontro ciclistas com roupa de ciclista andando em fila. 

Quando volto de bicicleta do trabalho, pego a ciclovia e lembro do dia em que tentei voltar a andar de bicicleta pela primeira vez, e você teve que andar comigo na grama.

Também passo em frente ao banco onde nos reconciliamos umas duas vezes, e pedaladas depois passo em frente ao banco onde você me disse, cruel, que talvez nunca tivesse gostado de mim. Que não pensava em mim no percurso antes de me encontrar. Que não me imaginava como mãe dos seus filhos. Que imaginava a outra. Sempre a outra, maldita em sua presença que me enlouqueceu. Às vezes acho que você já está com ela de novo. Dói. Prefiro ser atropelada de bicicleta do que descobrir que isso aconteceu. Quando fico muito cansada, sento em um desses bancos e ouço de novo alguma coisa que você me disse em alguma dessas vezes. Refaço na minha cabeça os diálogos que deveria ter tido com você. Você não me ouve, e eu sento sozinha no banco tendo do lado a única coisa sua que sobrou comigo: a bicicleta que você passou dias reformulando pra que eu pudesse, um dia, te acompanhar nos seus rolês de bike. Cuido dela como cuido do amor que já não tenho. Cuido dela como, quem sabe, deveria ter cuidado de nós. 

Quando estaciono ela na rua, retorno ao lugar onde a deixei de maneira quase obsessiva, como um portador de toc que continua conferindo se a porta está mesmo trancada. Desço duas vezes por dia ao poste em frente ao trabalho onde a estaciono e suspiro aliviada quando percebo que ela - ao contrário do nosso amor - continua exatamente do jeito e no lugar onde a deixei. Perdi o medo de morrer ao andar com ela na rua. Talvez eu tenha perdido o medo de morrer em qualquer ocasião, por mais mórbido e terrível que isso soe. Tenho mais medo de perdê-la do que tenho de uma queda enquanto atravesso a rotatória onde ninguém tem paciência com ciclistas. Machucado por machucado, os na pele a gente cuida com remédio. As feridas da alma não saem nem com muito choro. Eu suportaria uma fratura exposta qualquer, mas não suportaria outra perda. Cuido bem para manter a bicicleta que você me deu. 

Meu fôlego continua ruim por mais que eu treine e, enquanto desço com o vento nos meus cabelos cada dia mais curtos pela descida da cascata onde várias vezes te vi, concluo que me levaria muito mais de dois ou três meses pra te acompanhar nos muitos quilômetros que você anda com naturalidade. 

Continuo detestando as subidas todas, minhas pernas não aguentam, meu corpo não aguenta e pelo menos agora eu não choro sentada em um dos bancos de madeira pensando que eu ia demorar muito pra ser mais uma menina do seu role de segunda. 

Enquanto escrevo o rádio narra a rodada de domingo, e eu me lembro dos vários domingos em que você ocupava comigo o sofá ao lado. Eu, sempre desajeitada, nunca soube muito bem te escolher os filmes certos, preparar um bom lanche ou deixar a TV desligada. Também te disse muito poucas vezes - ou quase nunca - que o simples estar do seu lado assistindo um jogo que não era do meu time me fazia uma pessoa muito próxima do completo.

Às vezes me parece que o mundo inteiro me faz lembrar você. A ausência no sofá da casa, nas quartas-feiras de futebol, nas cervejas do posto onde passo diariamente voltando do trabalho, no vale onde te vi pela última vez, nos eventos pra onde sou convidada e vejo presença confirmada dos seus amigos, no parque que evito aos sábados, porque fatalmente lembraria que foi ali que fazíamos piqueniques aos sábados, e os casais felizes me irritariam. 

Aos domingos sempre acordo me perguntando onde você pode estar, já que agora eu não te ligo mais quando acaba o meu almoço pra saber da sua programação. Nesses mesmos domingos eu não vou mais ao cinema, nem chego tonta de cerveja depois da meia noite, caindo na cama e adormecendo rápido. Faço outras coisas - e evito sempre que posso deixar a tv ligada na rodada do paulista -, mas sempre vai chegar a hora em que lembro de você. Nessas horas, tento lembrar de outra coisa, mas as outras coisas também lembram você. Você roubou meu seriado, porque todas as vezes que assisto girls me lembro de você dizendo que sou a hannah. O fórum onde baixo filmes também me lembra você, e de vez em quando espio seu perfil querendo ter alguma migalha de notícia sua, mesmo sabendo que nada sai dali. 
Nada sai de lugar nenhum, e eu sei que talvez logo eu comece a esquecer o som da sua voz, o jeito como você sorria, e até exatamente as feições do seu rosto, se eu parar de olhar as suas fotos.

No meu quarto, presentes que te dei e você deixou pra pegar outra hora, e que acabaram ficando comigo, como uma espécie de assombração que me lembra de vez em quando que eu te perdi tão rápido que não deu nem tempo de te dar essas coisas numa sacola pra que fosse você a lembrar de mim de vez em quando. Quando arrumo as gavetas encontro algumas cartas que escrevi pra te dar e não dei, por causa dessa mania que eu tenho de ter medo de dizer o que sinto. Tinha tanto medo de te amar, que amei com pé atrás e te perdi no meio dessa cidade que nem é tão grande assim.

Aos domingos enquanto o corinthians empata eu já não sei onde você está, onde você e sua bicicleta da cor da minha foram, se outra menina já está descobrindo que quando você ri formam rugas do lado do seu olho, que você ronca-e-sorri quando está feliz por estar com alguém. Não sei se outra pessoa já esteve com você em um piquenique noturno e já te viu adormecer roncando depois de beber um pouco demais. Talvez essa nova pessoa não reclame e durma bem enquanto você ronca. Talvez ela não fique roxa com as suas mordidas de amor no braço esquerdo. Talvez seja ela a te acompanhar nas trilhas que descobri com você que gosto de fazer, apesar de ser bastante desajeitada para a função.

Enquanto o corinthians empata e o neto me irrita com o falatório, eu fico pensando se já chegou a menina que anda de bicicleta e que não come carne. Se já chegou a menina que sabe te amar direito, contrastando comigo que sempre tropeço e desastro e que torço pro São Paulo. Quanto tempo demora até que você enlace outra cintura quando seu time fica perto de fazer gol? Quanto tempo demora para que você esqueça o som da minha voz e meu jeito complicado de tentar ser com você?

Sei que faço muitas perguntas que não podemos responder. Parece que esse é meu vício maior. Não consigo me viciar em nenhuma outra coisa que não seja isso: o estrago. Sua banda preferida que eu detesto cantaria essa frase "eu gosto é do estrago". Me lembro de você dizendo que eu complico e simplifico demais a vida pra querer viver qualquer coisa que seja. Complico o que é simples e quero simplificar demais o que é complicado: estar junto não é tão fácil assim.

Foi você também que me disse que eu acho que as coisas na vida acontecem num estalo de dedos. De uma hora pra outra eu ando vinte quilômetros de bicicleta, de uma hora pra outra a gente volta, e que a vida não acontece assim, no tempo do meu destempero. Te esquecer também não tem sido tão rápido quanto gostaria.

Essa noite passada sonhei que estávamos numa cachoeira. Acordei sem ter a mínima idéia de onde você estava, mas certamente não estava na cachoeira do meu sonho. Talvez acordando com alguém, enquanto eu acordo sozinha. Desde que você se foi, minha vida tem sido um eterno acordar sozinha - você bem que tinha me alertado.

Às vezes penso: será que a gente volta? A gente é tão diferente, mas será que a gente volta? Você me responde do outro lado da linha que nem existe mais que, quem sabe, em dois mil e dezesseis. A gente é tão diferente, você não vai mais me ver por aí. A gente é tão diferente, eu preciso de outra companheira. A gente é tão diferente, a gente vai acabar se esquecendo. A gente vai? Ou melhor: Eu vou? Eu queria ter certeza. 


É que o jogo do corinthians acaba, eu suspiro aliviada por um lado e por outro choro: o amor não acaba em dois tempos de quarenta e cinco. É preciso muito mais de noventa minutos pra esquecer um amor. 

1.9.13

trecho de um livro que nunca será

Eu não conheci o Matheus. Eu o reconheci. O primeiro grande clichê da minha vida que nunca conheceu essa palavra. Sempre detestei os clichês, os encontros, os filmes de amor. Amor, essa palavra. Amor essa palavra que a gente não sabe muito bem o que é, entende o que é no filme e busca reconhecer na vida. Nunca soube reconhecer amor na vida. Gostei de algumas pessoas, beijei algumas bocas. Disse "eu te amo", sem saber muito bem o que era, como criança que repete as sílabas do hino nacional. Dizia "eu te amo" pros garotos que beijava porque tinham me ensinado assim. Te beijei, você segurou na minha mão, me ensinou um caminho, me mostrou teu livro preferido. Devo te amar. Te amo então. E assim se faziam essas relações sem emoção nem sentimento nas quais eu me meti desde a adolescência. 

Mas quem não sabe o que é amor, não reconhece amor. Tentar reconhecer o amor sem nunca ter amado é tentar reconhecer uma mesa como mesa sem nunca ter visto uma mesa. É preciso ter um primeiro contato com o objeto para poder reconhecê-lo como tal. E eu, até conhecer o matheus, nunca tinha sido apresentada ao amor. Não assim, apresentada ao amor no ato de sentir. Só conhecia amor como palavra, como história de livro, como pedaço de filme. Mas o amor nunca tinha entrado em mim para que eu pudesse reconhecê-lo. Sendo assim, tudo que lembro do meu primeiro encontro com o Matheus, é que ele me despertou os sentidos. Todos os sentidos. Me acordou pra vida de tal forma que as cores se faziam mais vivas, as palavras saltavam com mais facilidade, as sílabas tinham cheiro. Sinestesia. Ele me mostrou que a vida pode ter gosto. 

Foi assim, inesperado. Ele foi o último a me aparecer naquela lista de gente que estudaria comigo na faculdade. Lista de espera da faculdade de publicidade e propaganda. Não soube dizer o que tinha nele, mas tinha. Não soube dizer o que tinha em mim, também, que tive urgência em lhe dar as boas vindas tardias do único jeito que sabia: lhe escrevendo as palavras. Mas fui assim, como quem não espera nada. Um desses recados simples, até meio bobos. Qualquer coisa como "seja bem vindo à essa selva de gente louca que queria ser artista e se contentou em ser publicitário". Ele me sorriu com os dedos respondendo qualquer coisa como "não me contentarei nunca em ser apenas publicitário. É meu projeto paralelo enquanto não me reconhecem como artista. Mas reconhecerão, reconhecerão". E sorri. Sorri com as palavras do primeiro homem que foi capaz de me fazer sorrir logo no primeiro encontro.


Antes dele, é claro, houveram vários. Os mais diversos tipos. Os gordos, os magros, os meio engraçados, os inteligentíssimos e os meio burros. Todos eles com seus encantos atrozes, com seus jeitos de me pegar pela mão. Houveram aventuras, grandes aventuras imensas dançando em seus corpos, em suas bocas, em trechos de livros lidos em voz alta as três da manhã. Houve a poesia dos filmes alternativos clichês que tratam de amor. Houve, houveram. Tudo isso que podia ser reconhecido como amor, mas ainda não o era. 


(Escrito em 2011, nos intervalos do trabalho esse algo qualquer que almejava ser um livro. anos depois acho meio completamente ruim e já não acho que a única maneira de se enterrar um grande amor seja um epitáfio-livro. os amores morrem sozinhos, no tempo em que devem morrer. difícil também elencar as razões de porque não mais escrevo nesse blog. talvez porque seja a confusão que me faça ter de escrever qualquer coisa. talvez por outras razões distintas que eu nem sei. em todo caso, obrigada pelos comentários dizendo que sentem falta dos meus escritos. acho que também sinto, talvez mais que vocês). 

2.6.13

essa não é uma carta de amor

para um nhô

Pensei em te dizer inúmeras coisas antes de partir - porque eu sabia que ia partir, e sabia exatamente o dia e hora em que o faria - mas desisti momentos antes. a conclusão era certeira: você não entenderia. acho que tentei, meio descompassada, te explicar que eu estava indo. que eu ia, sabe? que eu ia e você nunca mais ia falar comigo. nem mostrar um poema, uma crônica, nada. eu queria te deixar ciente das minhas razões, elencando em tópico pra que você entendesse. você não entendeu. eu tentei um pouquinho. lembro que você me disse - meio bravo, até - que então era isso, que eu não queria mais conversar com você caso a gente não pudesse mais ter um envolvimento amoroso (na verdade você usou outros termos, mas há de se manter a qualidade literária da carta). acho que você pensou que eu te tratava, naquele momento, como uma coisa descartável. como essas garrafinhas biodegradáveis de água que a gente amassa e joga no lixo no momento em que termina a água. uma garrafinha tão vagabunda que não serve nem pra guardar água na geladeira depois, ou pra levar suco de pozinho pro trabalho. tentei te explicar que não era, que era outra coisa, que era uma coisa aqui dentro que me machucava e que era melhor pra mim que a gente se afastasse. você continuava sem entender e eu ia ficando pequena. já não tinha mais coragem de falar nada. não falei nada. não tive coragem. disse que era melhor que ficasse assim, então. que fosse indo. um dia a gente descobria o que ia ser da gente. você concordou, mas eu sabia que estava indo embora.

no começo foi difícil. era difícil não querer saber de você. daí eu ficava me distraindo com outra coisa pra não falar com você. se ainda estivéssemos nos tempos do telefone eu teria apagado seu número. não estando, desapareci. desapareci muito mais por mim do que por você. eu gosto muito de conversar com você e era dificílimo lidar com as minhas urgências de te contar as coisas que aconteciam na minha vida - embora não fossem muitas, porque nunca são. as razões de porque eu fui embora eram muito particulares. não porque você era descartável, e muito menos porque eu queria te exterminar da minha vida como coisa que não serve mais. eu só fui embora porque estar com você mexia comigo de um jeito que eu não sabia o que era. e machucava. machucava porque eu não tinha certezas. machucava porque eu lidava mal com todas as outras mulheres que eu sei que fazem parte da sua vida. elas aparecem em fotos, por vezes. em outras é num poema. li com o coração doendo um ou dois poemas que eram dedicados a pessoas que não eram eu. um deles eu li na rodoviária, pouco depois de chegar na cidade que é muito mais sua do que minha. tinha uma foto, uns livros, umas coisas-todas de uma história que me machucava mas eu não queria mexer. era isso: eu não queria mais ser a inquisidora da sua vida. e eu sabia que estando perto, fatalmente eu iria. longe eu podia pelo menos começar a entender o que tudo aquilo queria dizer. 

eu nunca disse que te amava. e se me perguntarem, eu vou dizer que nunca nem cheguei perto de te amar. não sei mais o que o amor faz, e então diria isso muito mais por inexperiência adquirida do que por certeza. pode ser sim, que eu tenha te amado um pouquinho em algum lugar pelo percurso em que você disse alguma coisa bonita ou em que eu deitei no seu ombro acreditando que estava salva de todos os males do mundo. eu sempre te ouvia dizer de um jeito meio debochado que só justificaria eu agir louca daquele jeito se eu estivesse muito apaixonada por você. você tinha uma flexão na frase, como quem diz uma redundância. eu dizia que o louco era você. às vezes eu ficava pensando em responder "e se eu estiver?" só pra que você me respondesse alguma coisa. mas você sempre tinha pressa, me levava pelos corredores da sua universidade apressado, me mandava embora de casa, se irritava com os meus jeitinhos. achei que não compensava. inclusive, da última vez que nos vimos achei que estávamos caminhando pra nos tornar aquele casal que já não deu certo e virou amigo. você não me beijou direito nenhuma vez. mas aquelas alturas eu já não queria questionar nada, e fiquei pensando que são paulo tem um dos por do sol mais feios que já vi na vida. eu prefiro o da sacada lá de casa, mas o da sacada de casa não tem você. 

é difícil te explicar porque eu quis ir embora. faz quase um mês e eu ainda não entendi. tem uns fins de noite que eu acabo cedendo e perguntando como vai você. no último você respondeu bem, hoje você foi seco. você foi seco e eu fiquei pensando que deve ser bem chato ter que lidar com alguém que some e volta assim, sem explicar porquê. quem sabe você ficou se sentindo uma dessas garrafinhas biodegradáveis que a gente joga fora assim que acaba a água, embora você pareça feliz sem mim. qualquer carta de amor soaria muito mais bonita se eu dissesse: fui embora porque te amo. por mais que você não me amasse de volta ia ter um quê de sofrimento que justificaria qualquer um dos meus atos - por mais impensados que eles sejam. não posso te dizer isso, mesmo pra fins literários soaria exagerado. fui embora porque não sei. fui embora por todas as coisas que não sei. fui embora pra nunca mais ter que te perguntar quem é a menina da foto ou quem é a garota que recebe poemas no meu lugar. fui embora porque estive cansada do meu descompasso e porque minha vida com você é um dançar na batida errada sempre sempre. e você sabe, eu fiquei cansada de dançar sozinha e fora do tom. seria bem mais fácil se eu passasse por cima dessas dores todas e continuasse a engolir todas as vezes que eu percebo que além de mim há outras várias e que talvez eu nunca venha ocupar um lugar de destaque - embora nos conheçamos há muito tempo, e meses atrás você parecesse gostar muito de mim. 

eu não sei o que aconteceu com a gente e foi por isso que eu fui embora. pra não te desgastar com perguntas bobas e sem resposta. pra não te exigir estando longe. pra não me doer num contato que vai me mastigando por dentro. eu te deixei pelas coisas que não sei. pelas coisas que eu não sei te explicar. eu resolvi te deixar depois da nossa última briga. ver você com outra me machucou. e outra que eu sei, por conhecimento de causa da sua vida passada, que já existe há muito tempo. bem antes da gente retomar isso que a gente tem - seja lá o que for isso. outra que eu trombei no corredor da sua universidade e você agiu como se eu fosse invisível. o fantasma da outra me deu um embrulho no coração. não soube agir naturalmente, nem te dizer as coisas com clareza. te disse coisas que não sei. e são essas coisas que não sei que você faz nascer em mim que eu não quero mais. doeu tanto. tudo doeu tanto. doeu tanto você me dizendo que você tinha o direito de colocar aquela foto em qualquer lugar. doeu tanto você me dizendo mil e uma coisas. doeu quando lembrei que eu também tenho com você uma foto quase igual. tudo doeu tanto que eu chorei na sacada sem saber porquê. chorei tanto. chorar tanto assim pelo que eu não sabia me fez pensar que só tinha um jeito: ir embora. ao menos de longe, se doesse de novo, eu não ia agir com você de um jeito que não sei. ia ser melhor pra nós dois. 

não está sendo fácil. hoje mesmo quis perguntar como você está, e fui. tem um monte de coisas que às vezes eu quero te contar e não conto. viver sem você sempre foi complicado, tanto que quando estivemos separados eu te escrevia umas cartas que eu achava que você nunca leria (mas leu). eu fui embora porque eu não sei o que sinto por você. e enquanto eu não descubro, ser uma coisa indefinida me dói. a cada vez que eu estou perto eu sei de coisas em você que eu gosto e aí por vezes eu relembro porque é que eu nunca te deixo. eu tento te falar aqui das coisas que eu não sei. com a distância você vai sumindo. tem dias que eu esqueço de pensar em você. depois você aparece me mostrando pedaços da vida da qual não faço parte e eu fico triste. às vezes eu destilo tudo isso em forma de rancor. no fundo eu queria que você fosse mesmo um dessas garrafas que a gente joga no lixo. você ia me odiar um pouco, mas logo ia passar, e eu ia viver bem. eu ia viver longe dessa infinidade de coisas que eu não sei, pelo menos. eu não consigo ser só sua amiga porque me machuca a idéia de você gostar de outra pessoa e essa pessoa não ser eu. também fico pensando e não sei se seria sua namorada. daria certo? todos os seus amigos me odeiam, a gente brigaria infinito pelo meu jeitinho e você ronca. eu sempre consegui ser mais uma no meio de várias, sendo também uma que tem vários. por que com você não? por que você me aperta o coração de um jeito estranho e porque o vislumbre besta de "te perder" me faz chorar na sacada? quanto sentimento mesquinho, eu nunca fui assim. coisas que não sei.

em resumo, eu gostaria que você soubesse que eu gosto muito de você. e muito me encantaria continuar na sua vida, e quem sabe até ser esse arquétipo louco da grande amiga com quem a gente sai pra conversar e dividir impressões sobre livros, e de vez em quando transa,e de vez em quando dorme junto e eu queria muito ser o que eu sempre fui com o resto do mundo com você e ouvir com distanciamento as histórias das suas outras garotas, e aí eu te contaria sobre os meus encontros casuais enquanto dividimos um café. mas com você eu não sei. não te deixei porque você não me serve. eu fui embora porque você desperta em mim coisas que eu não sei. coisas que vão além. essa carta mesmo, não faz o mínimo sentido. quase consigo pensar em você me dizendo qualquer coisa como: isso só se justificaria se você estivesse mesmo muito apaixonada por mim. você diz isso sempre com um ar de deboche meio convencido e eu rio dizendo que até parece. e se for? imagina o estrago? estrago já teve. mas acho que ficaremos melhores sem isso. nós dois. prometo que volto às vezes, quando sentir que posso conviver com você sem enlouquecer dizendo dessas tantas coisas que não sei explicar. espero que você continue escrevendo, que a sua casa nova seja aconchegante, que a faculdade não te mate e que tudo isso que sempre foi continue sendo. tudo isso que você é e eu não sei lidar. por aqui continuo descompassada, meio ansiosa, sempre sofrendo de gripes e sem ter a mínima idéia do que eu faço com a minha vida. desculpe pelas vezes que te ignorei. era preciso. pra que minha vida siga adiante, diriam os los hermanos. 

eu nem gosto de los hermanos, aliás, mas dia desses ouvi essa música aí que eu acho que chama "adeus, você" e acho que posso terminar te dizendo pra que você acalme e te sustente, e não pense que eu fui por não te amar. também não pense que eu fui por te amar. eu fui porque eu tive que entender todas as coisas que você faz nascer em mim e eu não entendo. sigo os seus conselhos, por vezes. em outras percebo que gosto bastante de algumas partes de mim que você detesta. um dia você me disse, convencido, que era difícil achar alguém melhor que você. eu ri achando uma bobagem. não espere que eu diga agora: você tinha razão. não é nada disso. é que eu percebi que quando a gente gosta de alguém, seja lá do jeito que for, ela acaba por ficar única do jeito dela. e então eu te digo que achar alguém como você deve ser mesmo um pouco difícil. razão pela qual eu percebo, depois de quase um mês longe, que eu não quero de novo ser louca, romper contatos abruptamente e esperar que alguém te faça sofrer. espero que você seja feliz e que eu ainda leia alguns dos seus textos e alguns dos seus trabalhos, embora eu saiba que eu conto com várias assistentes pro posto. talvez um dia você ame alguém e me esqueça de vez. talvez aconteça antes comigo e a gente se encontre de vez em quando pra contar as novidades. não sei da vida. pensei em te dizer muitas coisas antes de partir, mas acho que podia ter deixado só um bilhete: "se eu for embora saiba que não foi por não gostar de você, e sim pelo avesso disso". mas eu nunca penso em soluções inteligentes quando o assunto é você. continua sendo feliz, não me odeia, eu sou desajeitada, mas tenho o coração bom.

esperando que você leia isso e mantendo a tradição da comunicação indireta, me despeço como quem deixa uma carta em cima da mesa e parte com as malas. te mandar diretamente exigiria respostas e esse é tipo de coisa que, acredito eu, nem carece de resposta (a não ser que você queira). sinto uma coisa bonita por você, um negócio que me faz querer que todas as suas potencialidades sejam postas em prática logo, uma urgência de te ver bem, feliz e fazendo o que gosta. acho que é recíproco e imagino que esse seja o porquê das suas incontáveis broncas. quando penso na gente se dando bem (o que exclui os meus surtos e suas grossuras) me dá vontade de sorrir. é isso que vale. 
eu volto logo, 
lembra de não me esquecer. 
te gosto muito, sempre, ainda que preferisse não às vezes. não por nada, é que acho chato. só isso, acho chato.  
um beijo, 

eu 
(que sempre assino as cartas egocentricamente). 

27.5.13

eu também sei dançar se não for com você

Foi ele que me fez dançar de novo. Coisa besta dessas, pensei enquanto descia do carro, numas das mil e uma vezes em que ele me deixou em casa. Às vezes as pessoas ficam na vida da gente e a gente não percebe. Custei a perceber que foi ele que me ajudou a encarar aqueles dias horríveis de cinza e medo, enquanto me levava pra passear nos lugares conhecidos da minha cidade velha. Nem sei se ele dançava, antes de mim. Imagino que não, acho que lembro de uma vez em que ele me disse que fazia anos que estava aqui, mas nunca tinha ido em lugar de dançar. Fomos em lugar de dançar, e você dançava esquisito e daí eu podia dançar esquisito também. Não lembro, antes dele, quando é que tinha dançado. Talvez com um outro, um pouco antes dele, é verdade, que me fez dançar na sala. A gente só se beijava quando dançava, coisa esquisita. Mas depois desse veio um outro, que não me fez dançar e não me fez feliz, e aí eu parei de dançar. Parei de gostar de mim, também. E aí ele apareceu e aos poucos foi me fazendo dançar de novo. Foi ele que me fez dançar de novo. 

A vida é cruel. Sentada no meu quarto, depois de uma longa viagem, percebo o mundaréu de coisas que a gente deixa pra trás. Nas gavetas da escrivaninha, o manual da câmera que meu tio me deu logo que eu comecei a tirar fotos. A câmera empoeirada, num canto, com o filme da minha última viagem pra Curitiba. Nunca mais fotografei nada, eu disse assim, baixinho pra mim, como quem conta um segredo triste. Perto das câmeras, meus trinta e poucos livros não lidos. Não lembro quando, exatamente, eu parei de tirar fotos ou de ler livros. Só sei que aconteceu. Aconteceu eu, ali, perdida na vida e de frente pro meu computador querendo achar um sentido qualquer pra existência e falhando miseravelmente. Quietinha embaixo das cobertas, no frio, um ano atrás, eu não tinha vontade de viver. Só sabia escrever. E sei que escrevia porque esse era o meu único jeito de dizer que eu ainda existia. Existência besta, eu sei; mas ainda existência. Depois que tudo aquilo aconteceu eu me perdi de mim. Eu não sabia dançar, eu não sabia ler, e eu nunca mais tirei nenhuma foto. Numa pasta velha no meu computador, encontro fotografias de shows que eu fui. O mundo visto através das lentes ruins da minha câmera ruim. A voz do meu tio me perguntando a quantas anda a fotografia e eu respondendo baixinho, como quem sentencia uma morte: nunca mais fotografei. Nunca mais. 

Foi esse ano que voltei a dançar e que, timidamente, voltei a ler alguns livros. Concentração me falta, e vez ou outra eu prefiro mesmo ficar na internet perdendo tempo com a vida das pessoas que não são eu. A vida dos outros não é melhor que a minha, mas tem como grande qualidade: não ser a minha. Estive bem. Estive tão bem que parei de falar de mim. Não precisava, não tinha o quê e o mundo parecia ter, agora, algumas nuanças. Eu tinha voltado a dançar com ele. Eu, ainda que devagar, ia riscando a lista de livros a ler. Ia vivendo. Não era ainda o melhor jeito de viver, mas era um jeito. Um jeito meu. No meio disso tudo até peguei a câmera de novo e tentei tirar umas fotos, acho que uma orquestra, não lembro bem. O filme deve estar velho e é bem capaz que ao revelar amarele ou queime tudo. Não importa. É um pequeno registro de quando eu voltei a ver. Voltar a ver é importante. Voltar a ser, parece imprescindível.

Uns dois meses atrás - talvez menos, não me lembro bem -  entretanto, as coisas voltaram feito filme de terror. A mesma história. De novo, aquilo, a mesma conversa. Que saco sou eu que não sei viver a vida que nem gente, sempre nos meus tempos estranhos, na minha falta de planejamento e urgência, nos meus livros não terminados. Que saco sou eu, sempre andando em círculos, sendo pouco atraente, com o cabelo estranho, seco, toda fora de compasso e sempre conferindo o sentido certo do metrô. Merda de cidade enorme em que a gente chora no meio da rua e ninguém percebe. De novo eu chorando na rua e me perguntando porque é que eu me maltratava assim? Desci dois pontos antes do que devia de medo de não chegar no lugar certo. Minha ansiedade ainda ia me matar. Um dia ainda mata, essa merda que não sei controlar ainda. Mata também essa urgência besta de querer ser feliz e se atrapalhar, sempre atravancada pela vontade dos outros. Tudo de novo. O quarto escuro, o sono que não passava, uns tremeliques que vinham do nada. Eu, encolhida entre cobertores paraíba, numa cidade que nem frio fazia, chorando de vontade não viver nunca mais. E lá na escrivaninha se formavam de novo pilhas de livros que não lia mais e uma câmera que empoeirava. Eu já não queria que ninguém me tirasse pra dançar. Tudo chato, não adianta, eu sou um desastre. Queria dizer pra todo mundo ir embora de uma vez. Eu não ia dar certo. Não tinha como. Não tinha como alguém descompassada como eu dar certo. Era necessário que todos soubessem logo disso. Eu ia gritar pro mundo: eu sou um fracasso. Era isso, fracasso. Nunca terminarei de ler um livro, que dirá escrever meu próprio, e sou um fracasso.

Os dias iam passando feito assombração. Era tudo lento, tudo triste, tudo cinza. Cinza feito as olheiras imensas que iam se formando embaixo dos meus olhos que agora já tinham voltado a ser tristes. Tudo vai indo porque tem que ir. Eu não queria dançar. Não queria fotografar. Não queria saber o fim dos livros que comecei. Não queria nunca mais aprender alemão. Nem francês. Nem nada. As pontinhas dos meus dedos formigavam e no coração tinha uma espécie de peso que é difícil de explicar. Eu queria que tudo isso desse um conto bonito, mas eu não conseguia escrever. A duras penas ia completando as minhas atividades, até que as coisas foram ficando mais leves. No começo da semana ele tinha me levado pra dançar. Meus coturnos pesados atrapalhavam tudo, mas ele tinha esse jeito torto de me fazer sorrir no meio da tragédia. De vez em quando a gente tinha que perder a hora dos compromissos do outro dia. Fiz tudo que devia. Ia renascendo no meu tempo, mas ia. Sou meio desorientada, mas ia dar conta. Estava dando. Tudo parecia leve. Eu ia suportar. Até que vem tudo de novo. O mesmo inferno. As mesmas brigas. Você é louca você é louca você é louca sendo repetido como um mantra. Eu quase acreditei. Eu era louca mesmo, não era? Por que é que eu me maltratava assim? Não sabia responder. Olhava pra sacada tentando entender tudo aquilo que ele tinha me dito e o mundo rodava esquisito. O mundo não girava. Era isso. O mundo tinha empacado de novo e eu tinha ficado. Besta. Sou cheia de bestagens. Eu era um fracasso. Era isso, eu ia fracassar de novo. Perdida em pensamentos e naquelas mesmas desilusões no dia de começar de vez um projeto. Adeus, mestrado. Adeus. Eu te deixei por conta de uma desilusão. Chorava feio, daqueles choros de criança sentida. Até soluçava. Não era possível. Mais uma vez. A gente cansa de se reerguer. Eu já tinha decidido: nunca terminarei nada e sou um fracasso. 

Ia ser mais uma nas coisas que eu deixei pra trás. Sonhos ali empilhados na estante junto com uma máquina com filme pela metade e uma porção de livros que pouco me interessa o final. Tudo inacabado, feito eu. A única coisa que eu conseguia sentir era dor. Punhal enferrujado no coração devia doer uma dor feito aquela. Desilusão. Mais uma pra botar na estante. De novo. O inferno. Tudo que lembro daquele dia foi ter me enfiado numa cama qualquer com um desses caras de sempre e quase ter chorado baixinho no começo de tudo. Mas depois gozei. Acho, nem lembro. Só lembro dele me dizendo que ia ficar tudo bem enquanto me dava suco pronto de maracujá. Desses de pozinho. Era tudo que eu precisava, no fim das contas. Aí decidi que não dava pra negligenciar a vida por mais um ano. Fui lá e fiz. Chorando, mas terminei tudo que tinha que fazer. De novo estava eu naquela cidade chata carregando documentos e subindo ladeiras. Conferindo no mapa o sentido do metrô. Dóia um pouco ainda. Lá dói um pouco mais. Inferno de cidade empacada. Mas eu ia sobreviver. Ia colocar a desilusão do lado das coisas que eu não uso mais, ali na estante. Estante das desilusões. Era problema de quem esperava demais da vida. Certamente. Depois tudo foi indo. Às vezes doía, mas doer acaba que dói sempre. Não era a primeira vez. Era isso: não era a primeira vez. 

Deve fazer um mês, mais ou menos - talvez menos, não me lembro bem. Sei que faz uma semana que voltei de viagem e percebi o mundaréu de coisas que a gente deixa pra trás. Meus livros, minha paixão pela fotografia, minha mania de dançar, meu gosto pelo futebol e minha vida. Lá estava eu deixando minha vida pra trás mais uma vez. Que perigo. Aí resolvi que não dava. Voltei com os livros, prometi deixar tudo em ordem, acordar cedo. Não dá pra ficar fazendo doer pra sempre. Por que é que eu me maltratava assim? Seja o que for, se um dia valeu, hoje não vale mais a pena. Daí dei de andar na chuva, dar trela pra desconhecido, sair pra dançar sempre que der e ler antes de dormir. Quando tiver tempo volto a fotografar também. Fiquei sabendo de gente que comenta futebol. Voltei a ver futebol. Ouvi que é muito legal que eu saiba sobre diversos assuntos. Começo a achar engraçado o espanto que, de quando em vez, meu cabelo causa. Sei que sou perdida e louca. Aceitei. Gosto de mim assim, mesmo que esse "ser assim" me cause formigamentos nas pontas dos dedos. Dia desses andei na chuva, descabelada, ouvindo música. Sozinha. Sou, primordialmente, uma pessoa sozinha. Sorri baixinho, como quem descobre um grande segredo. Quase chorei de levinho quando me li comentando futebol de novo. Senti leve orgulho de conseguir ler meio livro em dois dias. Volto a ser eu. Dia atrás ele me fez dançar de novo. Sou feliz quando danço com ele, coisa besta dessas pensei descendo do carro e aí quase pensei que talvez, quem sabe, ele fosse a escolha certa a se fazer e que a escolha às vezes está mais perto do que imaginamos, o grande clichê. Mas ele não é a única pessoa que dança no mundo, e talvez essa seja a grande chave de tudo. Tem muita gente pra dançar comigo no mundo. E pensando assim, sei que volto a ser livre, como sempre fui. Percebi o mundaréu de coisas que a gente deixa pra trás. No meio delas, estava eu. E aí eu me fiz dançar de novo. 

19.5.13

janelas da alma


tinha show do raça negra e eu não fui. vontade senti, mas o cansaço foi maior. cansaço físico não digo, sempre acho que cansaço físico acaba curando uma hora ou outra - nada que cinco ou seis horas de sono não resolvam, mas sim o cansaço da alma. estive de alma cansada; triste, melancólica, com medo de ter crise de ansiedade no meio do metrô. portuguesa-tietê não é coisa pra gente com nervos fracos, são paulo menos ainda, são paulo com virada cultural menos ainda. imagina só aquela gente toda indo de um lado pro outro, meio louca, meio histérica. eu tendo que tomar cuidado com a bolsa porque podem vir mendigos, ladrões, gente, gente, gente, gente de todo lado e de todo jeito. eu nem gosto de gente. não gosto de gente tanto assim, não desse tanto. também não queria pegar um ônibus, não queria conversar, não queria nada. absolutamente nada. tudo pesava demais, meu coração tem sessenta quilos desde que a história se repetiu. as histórias se repetem, assim, e eu volto a escrever em primeira pessoa. meus textos em primeira pessoa não são bons. minhas histórias não são interessantes o suficientes. o sentimento me retarda, o sentimento retarda a todos inclusive a mim. queria ficar o mais longe possível de mim e da história. queria ficar mais longe de são paulo. queria ficar longe. longe. 

longe fiquei. angústia é um sentimento estranho de explicar. dá arrepio de choque. um dia pesquisei na internet se ansiedade dava choque. dá sim. dá choque, dá ânsia, dá tremedeira a formigamento nas extremidades. tristeza também é coisa física, concluo. viver é coisa complicada demais, concordamos eu e o guimarães rosa. amar então, deus que nos livre e guarde. e deve guardar mesmo, porque o amor é o diabo. se o diabo fosse um sentimento, seria a paixão. longe estando, resolvi que devo ficar perto das coisas perenes. paixão é o diabo encarnado, amor não. amor é simples. amor de pai e de mãe, dizem, é a única coisa que não perece. deve ser a única coisa que dura muito no mundo, além dessas árvores que vivem milhares e milhares de anos. mas as árvores morrem, acho que o amor fraternal deve permanecer no espaço, quem sabe. no cinema perto do hotel onde estava, meu pai disse, ia passar um filme de dança. sabe-se lá que filme de dança era esse, mas minha mãe não quis ir ver e resolvi ir com ele. ir com ele porque não me lembrava qual a última vez que tínhamos saído juntos pra ver alguma coisa. há tempos meu pai não vê. não enxerga. há tempos o mundo do meu pai é feito de vultos. o mundo do meu pai era feito de memória e sensação. os olhos dos meu pai eram os olhos dos outros, e eu acho que deve ser triste ver com os olhos dos outros. os olhos dos outros não vêem o que a gente quer ver. coisa estranha é o olhar dos outros.

o prédio devia ter uns duzentos anos. engraçado falar que uma coisa tem duzentos anos, porque é tanto tempo que parece que ela existiu desde sempre. casarão de gente rica que hoje é museu. o museu da imagem e do som da cidade de campinas é num antigo casarão. casarão onde devem ter sido açoitados escravos propriedade de velhos senhores de café. senhores de café do oeste paulista. desgraça acontece em lugar bonito. a arte toma conta desses casarões. a arte ou os bancos. mais comumente os bancos, mas nesse, em especial, ia ter filme de dança. o filme de dança era "pina". wim wenders é um dos meus cineastas favoritos, mas ele só fez uns três ou quatro filmes bons, segundo a crítica. dizem que wim wenders começou com grandes sucessos e depois perdeu a mão. ou isso, ou não entenderam ele. não sei dizer, também só vi os filmes aclamados. os outros devem ser tão ruins p'ros outros que a gente nem acha por aí. talvez eu entendesse os filmes ruins do wim wenders porque eu entendo de fracasso, e entendo também de não ser entendida. entendo muito sobre não ser vista direito pelo olhar dos outros. coisa estranhíssima é o olhar dos outros. 

o tal filme de dança conta a história de pina, uma coreógrafa de dança contemporânea que morreu enquanto faziam o filme. ao que consta, ninguém entendeu muito bem a pina. não sabiam se o que ela fazia era dança ou teatro, e ela foi muitas vezes criticada por mostrar coisas muito agressivas. eu não conhecia a pina antes do filme. meu pai também não. fiquei apreensiva ao perceber que o filme tinha falas e que, talvez, meu pai pouco entendesse sobre a pina ou sobre a dança. felizmente, o wim wenders fez um filme com poucas falas e poucas legendas. pra entender pina, era necessário entender a dança. a dança meu pai enxergava, e isso me deixava feliz. feliz porque eu conseguia ver através dos olhos do meu pai que ele conseguia ver de novo. enxergar. há tempos meu pai não enxergava nada do que a gente via. via pelos olhos da gente, via com olhos que não eram os olhos normais. via som. via vulto. via vento. via barulho e via calor e frio. via cheiro. mas ver, ver mesmo, há tempos que não via. daí ele viu a pina, e a dança meio louca da pina. e tudo que o wim wenders queria mostrar sobre a pina. 

o filme tem poucas falas, quase nada de falas. quando tem fala, são os dançarinos da pina tentando explicar a pina. mas a pina não é gente que se explica. o wim wenders, que não emplaca um sucesso a pelo menos vinte anos, sabia que não precisava explicar a pina. precisava mostrar a dança da pina. ninguém entendia direito o que a pina queria dizer com as danças dela. era alguma coisa de angústia, e alguma coisa de felicidade e alguma coisa de medo. a pina dizia p'ros dançarinos, que pra dançar alguma coisa é necessário sentir. todo mundo da companhia de dança da pina achava ela genial. é sempre genial, a gente sabe, alguém que nos faz sentir e transentir alguma coisa. é por transver a dança que o filme da pina não precisa de fala. vendo a dança a gente entende muito sobre ela, e entendendo muito sobre ela entende muito sobre a dança e sobre sentimentos, e entendendo muito sobre sentimentos entende o mundo. e pra entender o mundo não precisa mesmo de legenda. meu pai enxergava o filme. não lembro qual foi a última vez que vimos um filme que ele enxergava com os próprios olhos juntos. da última vez, assistimos santiago. santiago é um documentário que o joão moreira salles fez sobre o seu mordomo, santiago. santiago se expressava através de histórias. era falando que se sabia de santiago. meu pai viu o filme com os ouvidos. não viu uma ruga sequer de santiago, ou as vezes que ele olhava tímido pra câmera. mas entendeu santiago. pra entender o mundo não precisa enxergar com esses olhos físicos. é preciso ver com a alma. 

é com a alma, primordialmente, que se vê pina. ver a dança pela dança não diz nada. se formos ver pina com olhares técnicos, pouco entenderemos. também pouco entenderemos sobre o porquê do wim wenders ter feito o filme daquele jeito, cheio de gente dançando no meio da rua. a dança de pina nada diz se for vista com os olhos de todos. pra enxergar pina, é necessário transver as coisas. pra enxergar pina é preciso de mais. meu pai enxergou pina. com certeza não viu a dança com os mesmos olhos que eu ou que as outras pessoas da sala viram. o wim wenders mesmo uma vez participou de um documentário chamado "janelas da alma" em que a grande coisa era entender como as diferentes pessoas com diferentes problemas de visão enxergam. a conclusão é simples: ninguém vê igual. é impossível prever como o outro vê, mas não é igual ao jeito que eu vejo. meu pai não viu pina com meus olhos, mas enxergou. para enxergar, percebo, não é necessário uma visão perfeita. o jeito que meu pai viu o filme era o mais bonito de todos pra mim, porque ele estava vendo de novo com os olhos dele. e seja lá o que ele tenha visto com os olhos dele, é mais bonito do que qualquer um vendo. porque são os olhos dele vendo de novo. são os olhos dele vendo por si. eu não preciso mais ver por ele. 

pina é um lindo filme porque ninguém entendia muito bem a pina, mas o wim wenders entendeu. ninguém entendeu muito bem o wim wenders por vinte anos, mas pina é um de seus grandes sucessos. talvez porque ele se encontrou com alguém que, como ele, via coisas a mais. via com a alma. e quando se vê com a alma se enxerga o outro. enxerguei a pina com meus olhos e não sei dizer se entendi pina, mas sei que me entendi, e entendi sobre os sentimentos. e vi. alguma coisa eu vi. vi meu pai vendo de novo, o maior presente do meu ano. maior que qualquer show do raça negra. me vi angustiada e triste. me vi. percebi que eu, assim como a pina ou o wim wenders às vezes enxergo tudo tão com os meus olhos que não sou entendida. coisa terrível é o olhar dos outros. o olhar dele não me entendia. era por isso que eu queria estar longe de tudo. longe daqueles metrôs de gente gente gente gente longe dele o mais longe possível. e longe dele estive perto de mim. o mais perto de mim possível. pina dizia que é preciso dançar. dançar, creio eu, é um jeito de enxergar o mundo. parafraseio pina e digo: é preciso enxergar. é estritamente necessário enxergar. me enxerguei, enxerguei a pina, o wim wenders e o meu pai. concluo: pra enxergar não são necessários os olhos, é necessário sentir. pra sentir é necessário querer. pra enxergar é, então, necessário querer sentir. só enxerga quem quer sentir. só sente quem quer enxergar. 

talvez seja também esse texto uma dança não compreendida de pina. um filme sem bilheteria de wim wenders. tipo de coisa muito minha pra ser vista com os olhos dos outros. todos nós às vezes somos nós demais pra ser vistos com os olhos dos outros. eu, meu pai, a pina, e o wim wenders. mas alguém sempre entende. alguém sempre enxerga. bilheteria de um homem só. alguém na platéia sempre sai chorando. olhares que se encontram.