Páginas

29.3.09

Desapaixonadamente

Para que conste nos autos, não escrevo desde a última vez que posso me lembrar e só posso me lembrar que não me lembro qual foi essa última vez. reviro textos no apanhado do meu computador, releio coisas que desacredito terem sido escritas por mim, tenho me reinventado muito pouco, e de certa forma, continuo eu mesma.

Sinto sede e desacalento. felicidades repentinas. uma tosse infernal e acabei de voltar do show mais enigmático do mundo. o show mais enigmático do mundo assim o é porque quase uma semana depois não posso exclamar com certeza o que veio a ser, assim, aquilo. transcendental de alguma forma, antes de análises frias que não aconteceram só longe e distante do lugar do ocorrido, como aconteceram no lugar do ocorrrido.

Eu, facilmente perdida na multidão, de calça jeans e blusa branca, all-stars roxos que não aparecem em meio a multidão, cabelo preso estranhamente desgrenhado, estática ao observar há dez metros de mim o show da banda que eu não amo. uma estrangeira passageira de algum trem que não passa de ilusão - se gessinger assim me obervasse - assim era eu no show dos cabeça-de-rádio. duas letras sabia de cor por te-las cantado no violão. o resto minha boca mexia por alguma melodia entranhada no cérebro, depois de mr.thom yorke tocar em todas as festinhas que eu habitei nesse último um ano. fingi bem ser um deles, mas nunca o fui.

Ao olhar antentamente, em alguma daquelas músicas que eu simplesmente não reconhecia os acordes, via ao meu redor bocas que se mexiam emocionadamente e olhos vidrads nas mudanças de cores incríveis do palco. olho para os lados e por um momento, não pertenço. solto as mãos, vejo mãos no alto, olhos marejados, pessoas dançando desavergonhadamente e tudo me irrita, tudo me deprime, tudo é alheio a mim. "preciso achar alguma coisa pra gostar, assim como essas pessoas.", eu penso. Não gosto de nada assim, apaixonadamente. De nada que está ali presente. nada. não achei minha orquídea fantasma, e se deixo de amar, vou embora. também, nunca amei nada assim tão apaixonadamente a ponto de nem cogitar ir embora. nunca fiz esforços. pela minha cabeça passava um tímido "preciso ir ao show do oasis." que poderia ser facilmente traduzido por um "preciso amar à alguma coisa como essas pessoas amam isso." eu precisava pertencer, e por mais que uma música ou outra fizesse meu coração pular um pouco, eu só me sentia despertencida.

Quando é que você não se sentiu despertencida, alguém perguntaria. eu não saberia responder, simplesmente não saberia. vivo pertencendo aos pouquinhos, aqui e ali, e me sentindo bem aos pouqinhos, aqui e ali. vivo roubando a vida das outras pessoas pra mim, pra fazer parte delas bem soberana. vampirizo, fico ali, e enjoo. gostei de radiohead por um mês, enjoei, estava com um igresso comprado. pertenci a um show que não era meu, e fiz bem meu papel. não consigo, por mais que tente, não consigo pensar em alguma coisa que eu queira muito, que dure muito. renato russo já não é mais pra mim o que era, minha admiração vai se esvaindo, logo em vou mais tomar coca cola, assim como já tenho timidamente pedido latinhas de citrus e parei de tomar mate. sou tão ridiculamente feita de ímpetos e paixões que me enjoo de mim mesma, assim como enjoo facilmente de tudo, sempre, o tempo todo. gosto da palavra "eterno"pela aura de impossível que ela me impõe. toda vez que digo que algo é "pra sempre" sinto estar fazendo algum tipo de travessura, algum tipo de promessa que sei que não poderei cumprir, mas encaro como um jogo contra mim mesma. um dia tenho que conseguir a eternidade ao invés da efemeridade. é justamente o impossível de nunca conseguí-lo que faz da minha vida uma busca incessante pelo eterno. por algo que eu ame ao invés de gostar apaixonadamente.

Hoje estou especialmente despertencida. e tilinta na minha cabeça como será que é gostar de alguma coisa apaixonadamente. mas apaixonadamente daquelas paixões que viram amor e duram duram duram e duram. alguma coisa pra ser pra mim o que o radiohead era para aquelas pessoas. alguma coisa que me marque a ponto de eu querer lembrar pra sempre. alguma coisa pra não tratar com uma indiferença estranha depois de um tempo, tentando fingir de alguma forma que aquilo é sim amor, e não só mais um capricho que eu sei que vou enjoar depois de um tempo determinado." I want to know what it feels like to care about something passionately." Fazem vinte anos que eu não sei. Deve ser bom, keep on trying.
Por enquanto fico assim, despertencida, parada, vazia, interte, desapaixonada. Eu.

Um comentário:

Manuellí. disse...

Eu nem preciso dizer: você sabe. Esse texto podia ter sido escrito por mim, mas não foi. Não existe nada que pra mimvocênós seja eterno. Só sei o que quero que seja eterno: você e eu, nossos domingos em família, a vida que ainda não vivemos juntas mas adoraríamos... sim, eu adoraria. Não, infelizmente não e nunca apaixonadamente. Mas nós: despertencidas pertencendo ao nosso momento.