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25.9.11
eau de perfume
Lembro. Quero dizer alguma coisa, qualquer coisa assim que invadisse todos os sentidos, os poros, que fizesse uma sinestesia da alma. Qualquer coisa que fizesse a alma ter cor, gosto, cheiro, que desse pra pegar a alma com a ponta dos dedos. Ensaio. Ensaio mil e uma vezes o melhor jeito de dizer, sem que pareça muito, sem que pareça pouco, sem que pareça nem demais e nem raso. O suficiente. Queria dizer o suficiente dessa coisa assim, sabe, essa coisa que não tem nem nome nem jeito, nem denominação. Dessa coisa que chegou um dia, de madrugada, não avisou nada, não avisou como vinha e nem se ia embora. Teria nascido a coisa? o que nasceu afinal? nasceu assim de um jeito torto, estranho, linha cruzada da vida. Interferência, atraso, desvio, atalho. Caminho? Seria esse o caminho a seguir? Não sei. Sei que lembro. Lembro e repasso os momentos aqui e ali, num de cada vez, não sei o que pensar, despenso, não sei o que dizer, desdigo, tento escrever e não sai. Canto, canto para mim qualquer coisa assim sobre você, mas não isso porque essa não é a banda certa. Danço na sala, relembro de novo, ensaio uma declaração de qualquer coisa, te dedico todos os versos. Depois te esqueço, te enfio debaixo dos cobertores e saio, sou sozinha, sempre fui, te afasta, te afasta eu não sei o que te dizer. Não hoje, não assim desse jeito, amanhã talvez-quem-sabe, mas amanhã também não, amanhã é muito cedo, ou seria tarde demais? Quando é o tempo certo. Existe? o tempo, senhor relativo das coisas, apressado, cruel. Penso no instante certo e o instante se foi, se perdeu, eu me perdi. O que foi que aconteceu? o que é isso que tem acontecido? Não sei. Esqueço. Lembro de novo. Faz frio. Aquele caminho, sempre aquele caminho. Corro. Corro dez metros, vinte, trinta, cem metros, um quilômetro inteiro e quase explodo. Explodo e depois caminho. Caminho devagar pensando. Lembro. Queria dizer alguma coisa, qualquer coisa, gritar, correr, tentar explicar usando as palavras, um gesto, um cartaz, gifs animados. Queria soar menos brega, menos clichê, mais madura, queria uma ficção bonita, inventada pra dizer tudo isso. Tudo isso o que? Nem eu sei. Existe? Penso de novo em versos, saudades quem sabe, pipoca às três da tarde, uma metáfora qualquer. Uma história dessas, dois personagens, aventuras, o romantismo está nas pequenas coisas. Pequenínissimas. O mesmo verso cantado da música. Você me faz sorrir. Talvez seja isso. Talvez não. Lembro. Queria uma história inventada, qualquer coisa sublime, sentir orgulho, terminar de escrever e sorrir, explicar tudo isso, mas não consigo. Não sei dizer das coisas vivas. Só das que já morreram. E essa coisa sem nome se faz viva. Viva demais. E invade como esses perfumes baratos que impregnam. Invade e fica no nariz. Esse cheiro de perfume. E eu, que sofro do medo ancestral de perder tudo, prefiro me afastar. Me dissipo no ar como o perfume que não dura. E acabo por não dizer nada.
25.7.11
and there is no modern romance.
Liguei o rádio e soube: dali pra frente nada mais se concretizaria na memória a não ser as lembranças. Tem sido assim. Assim, um eterno lembrar-e-esquecer como um círculo vicioso, um carrossel, uma roda gigante que não para nunca e aonde, por mais que entrem novas pessoas, ela continua sentada no exato mesmo lugar. Dando voltas e voltas, e mais voltas. Teve esse e aquele outro e um belo momento e outro belo momento mas, de alguma forma, no amor a existência tem precedido a essência e a falta de sentido é uma constante. Como em equações matemáticas a vida é dada como: amor-vezes-a-constante-(falta-de-de-sentido)-é-igual-a-zero. Zero.
Pensava nisso enquanto tentava pensar em outra coisa. Sempre assim. A gente pensa que esqueceu, depois ouve uma música qualquer e tudo volta feito ferida que não cicatrizou, e lateja o lugar que a gente tinha esquecido que tem (o coração, talvez?). Foi assim naquela noite fria enquanto tomava meu whisky e fumava meus cigarros de filtro laranja. Tudo que ainda sabia dele é que, continuava com o mesmo senso de humor e, tinha começado a fumar também. "Não fumávamos quando éramos jovens", pensei. Engraçado a inconsequencia ter começado no exato momento em que deixamos de ser. Será que éramos sem saber nosso ponto de equilíbrio, nossa religião? Seria o amor o nosso deus? talvez. Você era a única coisa em que eu acreditava. Personificação do amor. A partir do momento que você se foi o amor deixou de existir e, se você voltar pode ser que ele renasça. Pode ser. Já fazem três anos e tudo que você deixou se transformou em descrença.
Eu olhei o telefone algumas vezes, encarei, sexta feira as onze da noite não deve ser um momento propício pra ligar pra alguém que não nos ama mais e destilar alguma coisa como mágoa ou veneno, e todos esses sentimentos meio amargos que nascem pra disfarçar o amor. Mas pensei. Te mandar um torpedo te dizer "olha, eu sempre te amei, eu sempre vou te amar", mas você não iria entender e ia sentir pena do meu amor, pena de mim, pena de tudo isso que você fez nascer e eu estou cansadíssima das suas penas. Estou cansada do mundo também. Você sabe que tenho me enfiado em bares, bebido muito, caído, fumado cigarros e experimentado novos corpos. Guardo no meu apartamento uma garrafa de whisky pela metade e enquanto me embriago penso em você e em tudo-que-poderíamos-ter-sido, depois busco um número qualquer na minha lista de contatos e discutimos cinema, e literatura e depois transamos sem nenhum amor e nos beijamos sem nenhuma paixão e talvez, eu disse talvez, exista ternura nessas coisas e nesses novos homens e nesses quase-amores mas é tudo tão diferente.
Já ensaiei dizer "te amo" pra novas pessoas, mas eu não sei falar de amor. As vezes até tento, daí engasgo, daí digo "eu-gosto-muito-de-você-e-nunca-quero-te-perder" como um desses cachorrinhos carentes que se enfiam no colo de qualquer um, mas eu sei que no exato momento que ele sair por aquela porta todo significado acabará como a cinza desses cigarros que eu fumo e se espalhará pela mesa da cozinha, pelo chão da sala e depois vai sumir. E eu vou ficar, vou continuar, vou beber whisky sem gelo e vodka com suco de laranja. Vou tentar inventar amor, vou frustrar expectativas de romance, vou responder eu-te-amo-também pensando em você e em você porque é só em você que eu penso quando olho dentro daqueles olhos sem brilho nos beijos sem gosto que tenho dado. Tanto faz quem sejam as novas pessoas agora. São só bocas e cabelos e olhos e elas podem me ter quando quiserem e me deixar quando bem entenderem, eu não sinto ciúmes, nem ternura, nem nada. É só um nada, um vazio, uma necessidade de preencher todo esse buraco que você deixou quando se foi, e eu invento momentos sublimes e interessantes, minha vida tem parecido um desses filmes alternativos de romance que a gente nunca gostou e quem olha de longe quase sente inveja da minha fe-li-ci-da-de.
Não sou feliz, baforo fumaça pra fora pra ver se toda essa cinza espalhada pela casa te exorciza. Se eu cremo o meu amor por você, se de repente um dia eu acordo e faço uma espécie de funeral pra todos os momentos que tivemos juntos nessa casa, nessa imensidão de cidade, e dentro de mim. Pra ver se tudo isso que me destrói aos poucos destrói junto tudo o que sobrou de você em mim. Eu me reinventei, me recriei, me refiz. Refiz uma vida toda pra esquecer e me livrar da vida que eu tinha, daquela que eu era, pra esquecer que eu era sua - e amava. Penso em te abraçar, te ligar, chorar, ajoelhar na porta da sua casa te dizer que depois-que-você-se-foi-a-vida-se-tornou-uma-aventura-errante e penso, todos os dias, em dizer que (ainda) te amo.
Mas tomo um gole de whisky, acendo um cigarro e mando uma mensagem dizendo que "estou com saudades porque lembrei de você nessa noite fria" para um número que não é o seu.
23.1.11
Estala, coração de vidro quebrado.
Quando você me conheceu, ow baby, tão perdida no meio da cidade cinza, eu não achei que você seria um caminho. Tanta gente vestindo suas camisetas coloridas sem estampas, tanta gente assim moreno-claro, arisco, com medo do mundo. Tanta gente com essa mesma tristeza no cantinho dos olhos, os tênis gastos pela vida, pelo tempo, pela cidade febril. Tanta gente no mundo, andando, indo, voltando. Sempre com pressa. Tanta gente interessante a gente deve passar pela rua todo dia, ensaiar um olhar, desistir de um contato três segundos depois. Quanta gente eu já deixei passar nessa vida, podia ter deixado passar você também. Tão integrado. Calça jeans, camiseta branca, tênis preto, mochila nas costas, cara de quem está atrasado para um trabalho que não gosta, ouvindo música que antes te deixava em catarse e hoje parece música ambiente. O automático temível, baby. O automático temível podia ter-nos sabotado o encontro. Meu olhar perdido, sempre, desavisado. Os passos tontos e tortos, sempre batendo os dedos nas esquinas (da rua e da vida). Podia não ter te visto, ou ter te visto e te esquecido. Não ter notado o botton do meu cantor preferido atrás da sua mochila velha e não ter cantarolado aquele verso com gosto de esperança, encontro e acaso que fez você sorrir. Hoje eu queria, baby. Queria ter deixado o desespero pra lá, essa minha vontade maluca de procurar identificação em tudo. Nos livros, nas placas de trânsito, nos carros parados na rua, nas atrizes decadentes de novela das seis. Queria não ter tido a esperança de me identificar em você assim, tão espelho-inverso. Mas eu, bicho desesperado a procura de amor (sempre ele, o amor), não pude evitar o encantamento, não pude evitar a palavra ensaiada, não pude evitar o sorriso de lado e quando vi já tinha te cantarolado os versos. Tão batidos os versos. Tão meu, o sentimento de despertencimento do mundo que é ao mesmo tempo universal. E tudo tão certo, o tempo exato. A mulher deixou o lugar vago, você me olhou e disse "senta, pode sentar" e eu retruquei ensaiadamente com um "obrigada, to mesmo cansada e pensar que 'once-upon-a-time-you-felt-so-fine', é doído" e foi ali que todo o descompasso começou. Você me sorriu, natural, solto, alegre. Me perguntou "Bob Dylan né?" e eu respondi "sim, Bob Dylan é deus, a humanidade só encena as histórias que ele criou." E tudo deu margem ao bonito e longo diálogo. Você sentou do meu lado, pediu um cigarro. Eu te disse:
- Não se pode fumar dentro dos veículos automotores mais. Nunca se pôde. Nem dentro dos bares, das casas de show. O mundo tá free tabaco.
- Era pra mais tarde. Gosto de, você sabe, andar ouvindo música e derramando fumaça pra fora. Você fuma?
- Não, tomo café. Eu gosto de, você sabe, tomar café ouvindo música e enfiando cafeína pra dentro.
- Vícios.
- Vícios, concordei.
O ônibus deu quatro ou cinco chacoalhadas, ficou um silêncio enorme que pairava. Eu olhando as minhas unhas, os esmaltes descascados, uma mistura entre um vermelho barato e um azul clarinho que não tinha saído direito da ultima esmaltação de unhas. "ando num descaso enorme da vida", pensei. Os esmaltes craquelados, a vida quebrando. As unhas se roendo. Tudo errado, meu deus. Tudo errado. Me perdi olhando o caminho. As àrvores e tal, as nuvens e tal. O cinza, sempre o cinza de são paulo as seis da tarde e quando alguma coisa na minha cabeça ultrapassava a poluição e chegava no azul, você me perguntou.
- Você desce aonde?
- Há mil léguas daqui, naquela padaria bonitinha de parede laranja, sabe? E você?
- Três mil léguas daqui, e três pontos depois.
- Não é muito perto.
- Não é muito longe.
- Tudo depende do referencial adotado.
- Você parece, assim, pessimista.
- Eu sou assim, tristonha.
- Você parece bem conservada pra uma alma velha e cansada.
- A maquiagem nasceu pra disfarçar os rostos vermelhos e inchados de lágrima e hematoma, rapaz.
- A música também. Pra disfarçar as almas vermelhas e inchadas de lágrima e hematoma.
- A arte, talvez.
- A arte sim, pra disfarçar a vida inchada de lágrima e hematoma.
Te achei bonito, poético, triste. Bonito e sincero demais pra usar aquela camiseta branca com calça jeans e tênis. Perfeito demais pra ser deixado pra trás como um doce daqueles que a gente vê e acha bonito, quer levar, mas parecem extremamente caros. Eu vejo muitos desses na padaria bonitinha laranjinha do ponto em que desço. Lindas tortas de chocolate, bombons de morango. Lindos, poéticos, doces. Mas caros demais para serem levados pra casa em troca de um pouco de prazer. Devia ter te achado caro demais. Devia sim, mas continuei. Porque sou bicho passional, sangüíneo, e dobro frente a qualquer animal oposto que pareça ser caça. Caça suculenta e saciadora do apetite voraz. O apetite voraz da alma, o amor. E retruquei.
- É um bom jeito de pensar, você faz arte?
- Não, ciência da computação.
- Muito número?
- Muita impessoalidade. Pouquíssimo hematoma doído. Distância da vida, a tela fria dos computadores. E você, faz arte?
- Agência de publicidade.
- Mercadológico?
- Pseudo arte vendida barata demais pra ser catartica, entende?
- Mas passa na televisão.
- Tentativa frustrada de vender felicidade vendendo buraco que não encaixa o tempo todo, sabe? Quebra-cabeça faltando peça, é isso que a propaganda vende.
- E continua nisso por quê?
- Arte abre um buraco tão enorme na alma da gente que inflama. A publicidade é meu contato com a realidade. Cruel, mas realidade.
- É comò se voce vendesse caixinhas de sonhos que nunca vão virar sonhos de verdade?
- É como se eu vendesse caixinhas vazias com rótulos a preencher. As pessoas vêem um carro e fazem dele uma caixinha escrito "felicidade", "sucesso", "amor". A caixa é vazia na verdade, mas elas colocam essas etiquetinhas e acreditam nisso até abrirem a caixa e verem que lá dentro não tem nada.
- Você tem um jeito estranho de falar sobre as coisas. Metáfora, poesia. Escreve?
- O tempo todo, mesmo quando não estou escrevendo.
- Redatora?
- Escrevo os textos bonitos das propagandas de banco e não acredito em felicidade.
- Cruel, perigosa. Batom vermelho, cabelo liso. Não quero me meter com você.
- Mas vai. Já está metido e não sabe.
Você me sorriu. Com gosto. Todos os dentes. E na minha experiência de caça eu sabia: a presa estava volúvel. Dois passos, o ataque cruel, o bote certeiro, a morte. A morte do orgulho e da resistência para que se chegue a carne. A carne vermelha, que pulsa, que vibra. Coração. Paixão. Amor vem depois, ou não vem nunca mais. Você me olhou, sorriu, respondeu.
- Vai ver estou.
- Desculpa, às vezes eu solto essas respostas prontas e tudo mais, oferecidíssima, estranho. Te assustei?
- Desde o primeiro momento. Ou você não sabe que você é daquelas que assustam mesmo quando caladas?
- Não tenho essa exata noção não - menti. De sorriso solto, menti verdadeiramente.
- Olha, voce desce no próximo né?
- Desço. Encaro a padaria, não compro os doces que quero, volto pra casa, trabalho e me identifico com um personagem de novela aqui e ali.
- As perigosas.
- As mais inofensivas.
- As que parecem mais inofensivas.
O ônibus deu mais duas chacoalhadas, eu já gostava de você, do seu papo, do seu jeito estranho. Gostava mais ainda da sua vulnerabilidade frente à situação. Me respondia galante, flertava de volta, tinha medo daquilo e admitia. Teu olho não tremia, encarava dentro enquanto você fingia uma timidez com seus pés inquietos. Um menino bonito na palma da minha mão, Uma menina frágil em fantasia de forte na palma da sua e você sem saber o que fazer. É por não saberem como me pegar na mão que resolvo pegar primeiro. Qualquer movimento mais brusco pode - e vai - quebrar meu coração feito de cristal fino de taça de chapangne francesa. Coração fraco de casquinha de ovo é o que eu tenho. Não encosta não, que quebra, moço. Deixa que eu encosto no seu, pego devagarinho, guardo numa caixinha e depois jogo fora. Jogo fora antes que sua mão saia de dentro do seu peito rumo a tocar o meu coração de casquinha de ovo com as pontinhas dos dedos que seja. Sou fraca, sensível, toda doída e quebro. Só encosto. Não deixo encostarem em mim, e nunca-em-hipótese-alguma tocarem por dentro.
- Eu desço aqui, eu acho que isso significa adeus, certo?
- Eu desço com você, continuo à pé depois. Não é muito perto, mas.
- Não é muito longe.
- Talvez voce devessse comprar um desses doces bonitos na padaria, mudança de rotina, sabe?
- Talvez eu devesse me ater aquilo que eu conheço.
- Eu te pago um.
- Acho que é prudente aceitar a gentileza, mas você escolhe.
- Bomba de chocolate. Chocolate amargo por cima, doce por dentro. Lindíssima.
- Faz parte do seu repertório galantear as moçoilas supondo personalidades através de doces?
- Não fazia, até agora. Acertei?
- Isso é o tipo de coisa que se descobre, não se fala. Senão vem o desencanto.
- Você costuma ser ensaiada demais, menina.
Você me deu o doce, que eu fui comendo na rua, tal criança lombriguenta, me melando com creme no nariz que você limpava a cada instante, como pai que cuida de filha espoleta. Mas esquece o édipo, freud, era só, sabe, encantamento. Tal coisa bonita que encanta e você de tão querendo que seja, toca como se fosse sua. Te lambuzei de creme uma vez, na ponta no nariz. Típica e previsível como devia de ser, e chegamos na porta do meu prédio, onde eu não tinha idéia que começaria uma história bonita, de príncipes e princesas, de guerras e cruzadas, de amor e desencanto, na porta que tinha gosto apenas de desalento. Te faço a pergunta crucial, charmosa e espero pela resposta afirmativa como quem espera o nome sendo chamado na lista do vestibular. Conquista. Armadilha da caça. A rede posta. Só te falta cair
- Você quer subir, conversar, tomar um café?
- Não sei se devo.
- Eu não sei se devo ter te convidado também, mas convidei.
- Você só faz o que você quer, menina.
- Sou atiradinha?
- Não, é autêntica. De um jeito, ai, de um jeito terrível.
- Então sobe?
- Subo sim.
Subimos nos olhando fixo no cubículo do elevador. Entrei na minha casa, os sofás cor de vinho, as paredes bege. Tudo tão sem graça, tudo sem ter a minha cara. Te ofereci uma cerveja, você disse que preferia refrigerante. Eu te perguntei se era medo e você só me disse que a embriaguez toda vinha de mim. Te dei o copo, sentei do teu lado. Você me contou coisas sobre a sua vida, seus números, sua falta de perspectiva. Eu te mostrei histórias e rabiscos dos sonhos que inventei para que comprassem. Você me olhava fundo, encantado, e eu tinha medo dos seus olhos sinceros. Eu te contava tanta coisa, tanta coisa, tanta coisa. Tanta conversa, tanto despejo de história de energia que quando eu dei por mim estávamos feito bichos no chão da sala, em habitat natural e eu chorava encostada no teu peito, tomando refrigerante no gargalo, te abrindo todas as portas do meu coração. Te dizendo "ow, baby, se você soubesse o quanto a vida me dói" e você dizia que a sua vida doía também, tanto, que às vezes não dava conta de dar o último respiro e acendia um cigarrro. Depois pensava baixinho "a falta de fôlego vem do pulmão, e não da alma" e baforava fumaça pra fora se livrando de toda a impureza do mundo, da vida, do caos. Você empestiava a minha sala de fumaça, eu molhava sua camiseta branca de lágrimas e soluços e você me olhou baixinho e disse:
- Você é tão linda, menina. E tão menina, menina.
E meu coração de casca de ovo estava prestes a abrir uma rachadura, e foi quando eu te agarrei por impulso e te beijei no ato, no chão da minha sala, com as lágrimas caindo, com gosto de sal. E tinha tanta vida naquele beijo, tanta carga de emoção que eu não ligava pro meu coração de tacinha de cristal prestes a quebrar, e alguma coisa dentro de mim esqueceu que você tinha aparecido na minha vida naquele dia, tanto fazem as datas, você já sabia mais de mim naquelas sete horas do que todas as pessoas que conviviam comigo há sete anos, então eu era mais sua do que de qualquer outra pessoa no mundo. E nos beijamos mais inúmeras vezes, e no meio dos beijos soltávamos mais segredos e no intervalos disso tudo você me olhava lá no fundo dos olhos como se estivesse enxergando por dentro, e não houve nada mais do que beijos, só os beijos e os segredos, tantos segredos perdidos naquela sala de quitinete no meio do centro. É que não precisava de encontro de corpo, corpo-dentro-de-corpo, porque tinha um encontro de alma tão mais profundo que dormimos entrelaçados como bichos, você de calça jeans e camiseta branca, eu com meu vestido listrado. Sem sexo. Mas com um toque profundo de alma que transcende o encontro do corpo.
Você acordou, me preparou um café. Me beijou na testa, me deu uma flor roubada do hall do prédio. Me abraçou por trás, me beijou o rosto, e sussurou no meu ouvido baixinho "você é uma bomba recheada de mel, de tão-tão doce por dentro". Ali eu senti você tocar meu coração de casquinha de ovo com a ponta dos dedos. Foi quando você sentou na minha frente, sério e disse:
- Olha menina, lá fora dessas paredes beges tem uma vida, e sabe, a vida é louca e no meio dessa loucura toda eu te encontrei, e você é assim, doce e eu fiquei assim, volúvel, bichinho frágil na tua mão, menina. Tudo tão lindo, tão filme, e eu queria tanto não ter que te dizer "it-ain't-me-baby-it-ain't-me-you're-looking-for" que eu resolvi esquecer de tudo, mas lá embaixo, três pontos depois tem uma outra mulher esperando por mim. Nem tão doce, nem tão incrível, que não costuma aceitar rosas roubadas, que nunca choraria molhando a minha camiseta branca. Que nunca me confessou segredos desses seus, que eu nem sei se a vida dela dói. Mas ela existe. E talvez esteja me esperando pro café. E na mão direita dela, tem uma aliança marcada pra passar pra mão esquerda daqui há exatos dois meses. E eu podia te prometer, e eu devia te prometer que eu vou ficar aqui com você pra sempre. Mas eu sou fraco, menina. Sou fraco. Eu não quero te machucar, eu só espero que você não sofra tanto quanto eu caso eu resolva não voltar nunca-mais.
E foi chorando molhando a sua camiseta branca que eu retruquei.
- Eu soube desde o ínicio que procurar felicidade não era o seu forte.
- Soube?
- Soube. Teus números, tua falta de hematomas, tua praticidade. Tua poesia perdida, sua tristeza. Você me doeu tanto no meio dessa sua infelicidade que eu quase me achei feliz. Porque eu ao menos estou procurando, sabe? mesmo que não exista eu ralo o joelho todo dia a procura de ser feliz. Tem estoques de corretivos e batons vermelhos naquele armário ali pra maquiar a minha cara de dor a cada vez que uma topada como você aparece na minha vida. Tem salto alto, tem vestido curto, tem frase ensaiada. Mas no fundo, no fundo eu só espero que alguém toque meu coração frágil com a ponta dos dedos, e foi a ponta dos seus dedos que eu senti chegar. Depois de tanto tempo, tanta luta, tanto hematoma. Não tem maquiagem pra você, nem corretivo não. Você que salte na minha dor, porque você precisa mergulhar. Você que viva, saindo daquela porta deixando um coração de cristal de taça barata quebrado pra nunca mais voltar. Você que volte pra sua aliança, pra sua praticidade, pro seu compromisso mas volte sabendo que felicidade, meu amor, felicidade a gente não encontra sempre não. A gente vive maquiado o tempo todo, mas de cara limpa tem um ou dois caras que saem todo dia. Felizes mesmo. Felizes como eu e você quando dormimos no chão dessa sala bege, se ferrando pra vida lá fora. Agora se você prefere não enxergar, eu não ligo. Vai doer, mas eu vou sarar, vou curar o hematoma da cara, da alma e do coração. Mas fica sabendo que uma vez que a gente quebra uma taça com vinho dentro, e por vinho entenda, amor, porque isso que você sentiu aqui hoje é a-mor, pode até se salvar um pedaço da taça. Mas esse vinho que derramou, esse vinho com caco de vidro não dá pra beber nunca mais.
Foi quando você começou a molhar meu vestido listado. E eu vi nos seus olhos vermelhos o menino frágil com quem eu tinha me metido. E eu te disse "vai, vai que meu coração de vidro quebrado ainda tem jeito" e você me sorriu dizendo "mas o meu só bate embaixo de paredes beges". E saiu pela minha porta, depois do beijo mais cheio de amor já estudado pela humanidade, me dizendo "menina, você é doce, menina, você é amor, eu volto pra você. Eu juro que volto". E eu acreditando em você, mas morrendo de medo da vida fora das paredes beges, do tapete empoeirado, do sofá vinho. Morrendo de medo da sua vida longe do meu vestido listrado. Porque a vida lá fora, meu amor, é pra gente grande e você era tão menino na minha mão que sabe-se lá se você tem dessas forças que precisam os homens. Te mandei um beijo da janela, te gritei alto "vai, mas volta pra mim, volta" e senti pela primeira vez meu coração de vidro quebrado partir de tal maneira que soube que só a ponta desses teus dedos leves que o tocou seria capaz de consertar.
- Não se pode fumar dentro dos veículos automotores mais. Nunca se pôde. Nem dentro dos bares, das casas de show. O mundo tá free tabaco.
- Era pra mais tarde. Gosto de, você sabe, andar ouvindo música e derramando fumaça pra fora. Você fuma?
- Não, tomo café. Eu gosto de, você sabe, tomar café ouvindo música e enfiando cafeína pra dentro.
- Vícios.
- Vícios, concordei.
O ônibus deu quatro ou cinco chacoalhadas, ficou um silêncio enorme que pairava. Eu olhando as minhas unhas, os esmaltes descascados, uma mistura entre um vermelho barato e um azul clarinho que não tinha saído direito da ultima esmaltação de unhas. "ando num descaso enorme da vida", pensei. Os esmaltes craquelados, a vida quebrando. As unhas se roendo. Tudo errado, meu deus. Tudo errado. Me perdi olhando o caminho. As àrvores e tal, as nuvens e tal. O cinza, sempre o cinza de são paulo as seis da tarde e quando alguma coisa na minha cabeça ultrapassava a poluição e chegava no azul, você me perguntou.
- Você desce aonde?
- Há mil léguas daqui, naquela padaria bonitinha de parede laranja, sabe? E você?
- Três mil léguas daqui, e três pontos depois.
- Não é muito perto.
- Não é muito longe.
- Tudo depende do referencial adotado.
- Você parece, assim, pessimista.
- Eu sou assim, tristonha.
- Você parece bem conservada pra uma alma velha e cansada.
- A maquiagem nasceu pra disfarçar os rostos vermelhos e inchados de lágrima e hematoma, rapaz.
- A música também. Pra disfarçar as almas vermelhas e inchadas de lágrima e hematoma.
- A arte, talvez.
- A arte sim, pra disfarçar a vida inchada de lágrima e hematoma.
Te achei bonito, poético, triste. Bonito e sincero demais pra usar aquela camiseta branca com calça jeans e tênis. Perfeito demais pra ser deixado pra trás como um doce daqueles que a gente vê e acha bonito, quer levar, mas parecem extremamente caros. Eu vejo muitos desses na padaria bonitinha laranjinha do ponto em que desço. Lindas tortas de chocolate, bombons de morango. Lindos, poéticos, doces. Mas caros demais para serem levados pra casa em troca de um pouco de prazer. Devia ter te achado caro demais. Devia sim, mas continuei. Porque sou bicho passional, sangüíneo, e dobro frente a qualquer animal oposto que pareça ser caça. Caça suculenta e saciadora do apetite voraz. O apetite voraz da alma, o amor. E retruquei.
- É um bom jeito de pensar, você faz arte?
- Não, ciência da computação.
- Muito número?
- Muita impessoalidade. Pouquíssimo hematoma doído. Distância da vida, a tela fria dos computadores. E você, faz arte?
- Agência de publicidade.
- Mercadológico?
- Pseudo arte vendida barata demais pra ser catartica, entende?
- Mas passa na televisão.
- Tentativa frustrada de vender felicidade vendendo buraco que não encaixa o tempo todo, sabe? Quebra-cabeça faltando peça, é isso que a propaganda vende.
- E continua nisso por quê?
- Arte abre um buraco tão enorme na alma da gente que inflama. A publicidade é meu contato com a realidade. Cruel, mas realidade.
- É comò se voce vendesse caixinhas de sonhos que nunca vão virar sonhos de verdade?
- É como se eu vendesse caixinhas vazias com rótulos a preencher. As pessoas vêem um carro e fazem dele uma caixinha escrito "felicidade", "sucesso", "amor". A caixa é vazia na verdade, mas elas colocam essas etiquetinhas e acreditam nisso até abrirem a caixa e verem que lá dentro não tem nada.
- Você tem um jeito estranho de falar sobre as coisas. Metáfora, poesia. Escreve?
- O tempo todo, mesmo quando não estou escrevendo.
- Redatora?
- Escrevo os textos bonitos das propagandas de banco e não acredito em felicidade.
- Cruel, perigosa. Batom vermelho, cabelo liso. Não quero me meter com você.
- Mas vai. Já está metido e não sabe.
Você me sorriu. Com gosto. Todos os dentes. E na minha experiência de caça eu sabia: a presa estava volúvel. Dois passos, o ataque cruel, o bote certeiro, a morte. A morte do orgulho e da resistência para que se chegue a carne. A carne vermelha, que pulsa, que vibra. Coração. Paixão. Amor vem depois, ou não vem nunca mais. Você me olhou, sorriu, respondeu.
- Vai ver estou.
- Desculpa, às vezes eu solto essas respostas prontas e tudo mais, oferecidíssima, estranho. Te assustei?
- Desde o primeiro momento. Ou você não sabe que você é daquelas que assustam mesmo quando caladas?
- Não tenho essa exata noção não - menti. De sorriso solto, menti verdadeiramente.
- Olha, voce desce no próximo né?
- Desço. Encaro a padaria, não compro os doces que quero, volto pra casa, trabalho e me identifico com um personagem de novela aqui e ali.
- As perigosas.
- As mais inofensivas.
- As que parecem mais inofensivas.
O ônibus deu mais duas chacoalhadas, eu já gostava de você, do seu papo, do seu jeito estranho. Gostava mais ainda da sua vulnerabilidade frente à situação. Me respondia galante, flertava de volta, tinha medo daquilo e admitia. Teu olho não tremia, encarava dentro enquanto você fingia uma timidez com seus pés inquietos. Um menino bonito na palma da minha mão, Uma menina frágil em fantasia de forte na palma da sua e você sem saber o que fazer. É por não saberem como me pegar na mão que resolvo pegar primeiro. Qualquer movimento mais brusco pode - e vai - quebrar meu coração feito de cristal fino de taça de chapangne francesa. Coração fraco de casquinha de ovo é o que eu tenho. Não encosta não, que quebra, moço. Deixa que eu encosto no seu, pego devagarinho, guardo numa caixinha e depois jogo fora. Jogo fora antes que sua mão saia de dentro do seu peito rumo a tocar o meu coração de casquinha de ovo com as pontinhas dos dedos que seja. Sou fraca, sensível, toda doída e quebro. Só encosto. Não deixo encostarem em mim, e nunca-em-hipótese-alguma tocarem por dentro.
- Eu desço aqui, eu acho que isso significa adeus, certo?
- Eu desço com você, continuo à pé depois. Não é muito perto, mas.
- Não é muito longe.
- Talvez voce devessse comprar um desses doces bonitos na padaria, mudança de rotina, sabe?
- Talvez eu devesse me ater aquilo que eu conheço.
- Eu te pago um.
- Acho que é prudente aceitar a gentileza, mas você escolhe.
- Bomba de chocolate. Chocolate amargo por cima, doce por dentro. Lindíssima.
- Faz parte do seu repertório galantear as moçoilas supondo personalidades através de doces?
- Não fazia, até agora. Acertei?
- Isso é o tipo de coisa que se descobre, não se fala. Senão vem o desencanto.
- Você costuma ser ensaiada demais, menina.
Você me deu o doce, que eu fui comendo na rua, tal criança lombriguenta, me melando com creme no nariz que você limpava a cada instante, como pai que cuida de filha espoleta. Mas esquece o édipo, freud, era só, sabe, encantamento. Tal coisa bonita que encanta e você de tão querendo que seja, toca como se fosse sua. Te lambuzei de creme uma vez, na ponta no nariz. Típica e previsível como devia de ser, e chegamos na porta do meu prédio, onde eu não tinha idéia que começaria uma história bonita, de príncipes e princesas, de guerras e cruzadas, de amor e desencanto, na porta que tinha gosto apenas de desalento. Te faço a pergunta crucial, charmosa e espero pela resposta afirmativa como quem espera o nome sendo chamado na lista do vestibular. Conquista. Armadilha da caça. A rede posta. Só te falta cair
- Você quer subir, conversar, tomar um café?
- Não sei se devo.
- Eu não sei se devo ter te convidado também, mas convidei.
- Você só faz o que você quer, menina.
- Sou atiradinha?
- Não, é autêntica. De um jeito, ai, de um jeito terrível.
- Então sobe?
- Subo sim.
Subimos nos olhando fixo no cubículo do elevador. Entrei na minha casa, os sofás cor de vinho, as paredes bege. Tudo tão sem graça, tudo sem ter a minha cara. Te ofereci uma cerveja, você disse que preferia refrigerante. Eu te perguntei se era medo e você só me disse que a embriaguez toda vinha de mim. Te dei o copo, sentei do teu lado. Você me contou coisas sobre a sua vida, seus números, sua falta de perspectiva. Eu te mostrei histórias e rabiscos dos sonhos que inventei para que comprassem. Você me olhava fundo, encantado, e eu tinha medo dos seus olhos sinceros. Eu te contava tanta coisa, tanta coisa, tanta coisa. Tanta conversa, tanto despejo de história de energia que quando eu dei por mim estávamos feito bichos no chão da sala, em habitat natural e eu chorava encostada no teu peito, tomando refrigerante no gargalo, te abrindo todas as portas do meu coração. Te dizendo "ow, baby, se você soubesse o quanto a vida me dói" e você dizia que a sua vida doía também, tanto, que às vezes não dava conta de dar o último respiro e acendia um cigarrro. Depois pensava baixinho "a falta de fôlego vem do pulmão, e não da alma" e baforava fumaça pra fora se livrando de toda a impureza do mundo, da vida, do caos. Você empestiava a minha sala de fumaça, eu molhava sua camiseta branca de lágrimas e soluços e você me olhou baixinho e disse:
- Você é tão linda, menina. E tão menina, menina.
E meu coração de casca de ovo estava prestes a abrir uma rachadura, e foi quando eu te agarrei por impulso e te beijei no ato, no chão da minha sala, com as lágrimas caindo, com gosto de sal. E tinha tanta vida naquele beijo, tanta carga de emoção que eu não ligava pro meu coração de tacinha de cristal prestes a quebrar, e alguma coisa dentro de mim esqueceu que você tinha aparecido na minha vida naquele dia, tanto fazem as datas, você já sabia mais de mim naquelas sete horas do que todas as pessoas que conviviam comigo há sete anos, então eu era mais sua do que de qualquer outra pessoa no mundo. E nos beijamos mais inúmeras vezes, e no meio dos beijos soltávamos mais segredos e no intervalos disso tudo você me olhava lá no fundo dos olhos como se estivesse enxergando por dentro, e não houve nada mais do que beijos, só os beijos e os segredos, tantos segredos perdidos naquela sala de quitinete no meio do centro. É que não precisava de encontro de corpo, corpo-dentro-de-corpo, porque tinha um encontro de alma tão mais profundo que dormimos entrelaçados como bichos, você de calça jeans e camiseta branca, eu com meu vestido listrado. Sem sexo. Mas com um toque profundo de alma que transcende o encontro do corpo.
Você acordou, me preparou um café. Me beijou na testa, me deu uma flor roubada do hall do prédio. Me abraçou por trás, me beijou o rosto, e sussurou no meu ouvido baixinho "você é uma bomba recheada de mel, de tão-tão doce por dentro". Ali eu senti você tocar meu coração de casquinha de ovo com a ponta dos dedos. Foi quando você sentou na minha frente, sério e disse:
- Olha menina, lá fora dessas paredes beges tem uma vida, e sabe, a vida é louca e no meio dessa loucura toda eu te encontrei, e você é assim, doce e eu fiquei assim, volúvel, bichinho frágil na tua mão, menina. Tudo tão lindo, tão filme, e eu queria tanto não ter que te dizer "it-ain't-me-baby-it-ain't-me-you're-looking-for" que eu resolvi esquecer de tudo, mas lá embaixo, três pontos depois tem uma outra mulher esperando por mim. Nem tão doce, nem tão incrível, que não costuma aceitar rosas roubadas, que nunca choraria molhando a minha camiseta branca. Que nunca me confessou segredos desses seus, que eu nem sei se a vida dela dói. Mas ela existe. E talvez esteja me esperando pro café. E na mão direita dela, tem uma aliança marcada pra passar pra mão esquerda daqui há exatos dois meses. E eu podia te prometer, e eu devia te prometer que eu vou ficar aqui com você pra sempre. Mas eu sou fraco, menina. Sou fraco. Eu não quero te machucar, eu só espero que você não sofra tanto quanto eu caso eu resolva não voltar nunca-mais.
E foi chorando molhando a sua camiseta branca que eu retruquei.
- Eu soube desde o ínicio que procurar felicidade não era o seu forte.
- Soube?
- Soube. Teus números, tua falta de hematomas, tua praticidade. Tua poesia perdida, sua tristeza. Você me doeu tanto no meio dessa sua infelicidade que eu quase me achei feliz. Porque eu ao menos estou procurando, sabe? mesmo que não exista eu ralo o joelho todo dia a procura de ser feliz. Tem estoques de corretivos e batons vermelhos naquele armário ali pra maquiar a minha cara de dor a cada vez que uma topada como você aparece na minha vida. Tem salto alto, tem vestido curto, tem frase ensaiada. Mas no fundo, no fundo eu só espero que alguém toque meu coração frágil com a ponta dos dedos, e foi a ponta dos seus dedos que eu senti chegar. Depois de tanto tempo, tanta luta, tanto hematoma. Não tem maquiagem pra você, nem corretivo não. Você que salte na minha dor, porque você precisa mergulhar. Você que viva, saindo daquela porta deixando um coração de cristal de taça barata quebrado pra nunca mais voltar. Você que volte pra sua aliança, pra sua praticidade, pro seu compromisso mas volte sabendo que felicidade, meu amor, felicidade a gente não encontra sempre não. A gente vive maquiado o tempo todo, mas de cara limpa tem um ou dois caras que saem todo dia. Felizes mesmo. Felizes como eu e você quando dormimos no chão dessa sala bege, se ferrando pra vida lá fora. Agora se você prefere não enxergar, eu não ligo. Vai doer, mas eu vou sarar, vou curar o hematoma da cara, da alma e do coração. Mas fica sabendo que uma vez que a gente quebra uma taça com vinho dentro, e por vinho entenda, amor, porque isso que você sentiu aqui hoje é a-mor, pode até se salvar um pedaço da taça. Mas esse vinho que derramou, esse vinho com caco de vidro não dá pra beber nunca mais.
Foi quando você começou a molhar meu vestido listado. E eu vi nos seus olhos vermelhos o menino frágil com quem eu tinha me metido. E eu te disse "vai, vai que meu coração de vidro quebrado ainda tem jeito" e você me sorriu dizendo "mas o meu só bate embaixo de paredes beges". E saiu pela minha porta, depois do beijo mais cheio de amor já estudado pela humanidade, me dizendo "menina, você é doce, menina, você é amor, eu volto pra você. Eu juro que volto". E eu acreditando em você, mas morrendo de medo da vida fora das paredes beges, do tapete empoeirado, do sofá vinho. Morrendo de medo da sua vida longe do meu vestido listrado. Porque a vida lá fora, meu amor, é pra gente grande e você era tão menino na minha mão que sabe-se lá se você tem dessas forças que precisam os homens. Te mandei um beijo da janela, te gritei alto "vai, mas volta pra mim, volta" e senti pela primeira vez meu coração de vidro quebrado partir de tal maneira que soube que só a ponta desses teus dedos leves que o tocou seria capaz de consertar.
26.11.10
C'est la vie.
Eu sai por aí pensando você e balbuciei tantas vezes "tudo poderia ter sido tão diferente, garoto, tudo poderia ter sido tão doce." Hoje eu poderia estar andando de mãos dadas com você rumo à lugar nenhum, ou podia quem sabe te improvisar um almoço antes do trabalho, nada demais, um bife, macarrão dois copos de suco e sorrisos. Mas a vida é assim "c'est la vie" eu te diria, mon ami, e você não entenderia nada da minha mania de falar francês sem-saber, como também não me entende na minha língua natal, e como desentende completamente meu coração. E eu responderia "é a vida, meu amigo. Só que em francês pra dar um tom dramático à coisa toda". E mais uma vez você me acharia doce demais, inteligente demais, e tudo demais demais pra que eu pudesse dividir um caminho do seu lado. Eu indo sempre na frente, mas que frente é essa também. Eu sou tão loser, garoto. Toda perdida, hoje quero ficar de pernas pro ar e amanhã vou querer o mundo, depois vou desistir do mundo e querer só uma partezinha.
Eu desisti da sua vida, da minha vida, da nossa-vida principalmente eu desisti. Transformei tudo em literatura, tudinho. É que eu não sei viver, não sei mesmo. Tentei algumas vezes sem sucesso e viver pra mim pareceu uma aventura errante, como essas crianças que tentam dar o primeiro passo, se estabacam no chão e resolvem que vão engatinhar mesmo, não há outro jeito. Só que as crianças ainda levantam e vão, e eu, por vício estou aqui de muletas. Só sei andar com elas, e as minhas muletas são as palavras. Eu sei, você tem uma vida, e toda vez que eu me dou conta disso eu volto a engatinhar, porque eu não sei como existe essa coisa de vida e tudo-o-mais, essa coisa de você existir físico em gestos, pele, cabelo, roupas, cheiro. Enquanto eu penso todas essas coisas eu me pergunto porquê não houve um diazinho que fosse que eu te dissesse em as palavras de verdade "eu gosto muito de você" ou "você é muito importante pra mim". Ou mesmo que não tivesse dito nada, tivesse demonstrado em forma de qualquer-coisa-mais do que meus olhares sempre baixos, desviantes, tímidos e principalmente, disfarçados. Você tentava falar de amor e eu fingia que amor era jogo de outra pessoa, de você-com-outra-pessoa. No fim era mesmo, e pra mim, ah, pra mim, amor é jogo meu com as palavras. Eu desisti de viver e hoje só invento histórias. Essa minha vontade de te dizer que "tudo poderia ter sido tão diferente, garoto, tudo poderia ter sido tão doce" não passa de fantasia, porque eu tenho todo um mundo de coisas minhas, de coisas suas que não aconteceram. E aqui, mon'ami, tudo é terrivelmente possível. Seria absolutamente possível que eu te ligasse e de dissesse "eu ainda te amo" e então você me responderia "que apesar de tudo eu ainda também te amo" e então nos amaríamos em belas tardes com sucos, almoços simples, almoços requentados, tardes de domingo no sofá, qualquer coisa dessas assim, rotina, corriqueira, bonita-nos-pequenos-gestos.
Mas não é assim, hoje eu penso em você que talvez nem exista no corpo físico do jeito que eu te imagino ser, só existe aqui na minha literatura. Porque enquanto eu penso que "tudo-poderia-ser-diferente" "tudo-poderia-ser-tão-doce" você cuida da sua vida, real, em qualquer lugar onde eu não pertenço nem em pensamento, toma um guaraná, e pensa no teu trabalho, na sua vida, na sua namorada, em qualquer-coisa-que-seja. E pra mim tudo bem, é que eu matei a minha vida. Transformei em literatura. Escrevo sua vida pra você, do jeito que eu-queria-que-fosse e você não me entende e C'est la vie, mon'ami.
Eu desisti da sua vida, da minha vida, da nossa-vida principalmente eu desisti. Transformei tudo em literatura, tudinho. É que eu não sei viver, não sei mesmo. Tentei algumas vezes sem sucesso e viver pra mim pareceu uma aventura errante, como essas crianças que tentam dar o primeiro passo, se estabacam no chão e resolvem que vão engatinhar mesmo, não há outro jeito. Só que as crianças ainda levantam e vão, e eu, por vício estou aqui de muletas. Só sei andar com elas, e as minhas muletas são as palavras. Eu sei, você tem uma vida, e toda vez que eu me dou conta disso eu volto a engatinhar, porque eu não sei como existe essa coisa de vida e tudo-o-mais, essa coisa de você existir físico em gestos, pele, cabelo, roupas, cheiro. Enquanto eu penso todas essas coisas eu me pergunto porquê não houve um diazinho que fosse que eu te dissesse em as palavras de verdade "eu gosto muito de você" ou "você é muito importante pra mim". Ou mesmo que não tivesse dito nada, tivesse demonstrado em forma de qualquer-coisa-mais do que meus olhares sempre baixos, desviantes, tímidos e principalmente, disfarçados. Você tentava falar de amor e eu fingia que amor era jogo de outra pessoa, de você-com-outra-pessoa. No fim era mesmo, e pra mim, ah, pra mim, amor é jogo meu com as palavras. Eu desisti de viver e hoje só invento histórias. Essa minha vontade de te dizer que "tudo poderia ter sido tão diferente, garoto, tudo poderia ter sido tão doce" não passa de fantasia, porque eu tenho todo um mundo de coisas minhas, de coisas suas que não aconteceram. E aqui, mon'ami, tudo é terrivelmente possível. Seria absolutamente possível que eu te ligasse e de dissesse "eu ainda te amo" e então você me responderia "que apesar de tudo eu ainda também te amo" e então nos amaríamos em belas tardes com sucos, almoços simples, almoços requentados, tardes de domingo no sofá, qualquer coisa dessas assim, rotina, corriqueira, bonita-nos-pequenos-gestos.
Mas não é assim, hoje eu penso em você que talvez nem exista no corpo físico do jeito que eu te imagino ser, só existe aqui na minha literatura. Porque enquanto eu penso que "tudo-poderia-ser-diferente" "tudo-poderia-ser-tão-doce" você cuida da sua vida, real, em qualquer lugar onde eu não pertenço nem em pensamento, toma um guaraná, e pensa no teu trabalho, na sua vida, na sua namorada, em qualquer-coisa-que-seja. E pra mim tudo bem, é que eu matei a minha vida. Transformei em literatura. Escrevo sua vida pra você, do jeito que eu-queria-que-fosse e você não me entende e C'est la vie, mon'ami.
20.9.10
Cigarros, abraços e um pouco de sonho.
Na hora em que você me viu, depois de meses, talvez um ano inteiro, eu estava acendendo um cigarro. Marlboro vermelho, ou um lucky strike azul. Podia ser qualquer um desses. Nenhum daqueles que você aprendeu a fumar. Não aquelas merdas. Aquelas merdas encaixotadas vindas do paraguai cheias de nicotina b. Quando eu resolvi que ia fumar eu tinha que ter alguma dignidade. Aquela que você me roubou. Tinha que enfiar pra dentro dos meus pulmões alguma coisa melhor do que isso que você tem colocado na boca. Eu estou falando de tudo. Das coisas que eu sei e do que eu não sei. De uns tempos pra cá, por mais que eu te amasse, você exalava merda. Por todos os lados. Aquele cheiro de sujeira com burrice, porque burrice fede. E o cheiro vinha de você, não vinha de nenhum lugar. Não vinha do cigarro barato, das suas roupas ou das pessoas com quem você andava. Vinha de você. Você cheirava merda. Foi quando você me viu.
Eu, no meio daquela gente toda que não cheirava nada acendi um cigarro azul ou vermelho. Não lembro se tinha filtro. Não lembro que cor. Mas acendi. Fumaça entrando e saindo por todos os lugares. Pela garganta, pelo nariz. Por onde desse. Eu sempre fumei pra colocar ar dentro de mim. E não importa se era ar carbonizado, com mais de mil substâncias tóxicas. Que se foda isso. Faltava ar dentro de mim, muito ar, todo ar do mundo. Desde que você partiu. E quando você voltou lá estava eu colocando ar dentro de mim de algum jeito. Mas quando eu te vi acho que nem fumar mais eu sabia. E você ficou tão paralisado, tão me mostrando que aquilo não combinava comigo. E eu pensava que aquela merda também não combinava com você, porra. Claro que não. Principalmente aquela nicotina sem nome que cheirava a merda. E apaguei o cigarro, mesmo precisando de todo ar quente do mundo.
Você, a mesma calça jeans, a mesma camiseta e o mesmo tênis. Me olhando. Como se eu fosse um ET. Eu fumo também agora, caramba. E eu uso essas roupas cheias de "informação de moda". Eu também não sei porque. Eu também não sei porque você me idealizou tanto assim. Eu nunca soube porque você achava que eu era tanto assim pra você. Eu nunca fui. Eu sempre fui uma bosta de uma menina manipuladora, chata e até arrogante. Eu sempre fui menos inteligente que você. Agora eu nem quero saber o quão menos inteligente que você eu sou. Também não sei o quanto você embrurreceu. Vai ver agora a gente está do mesmo jeito. Burros e estúpidos. E fumando cigarros. Os meus caros, os seus baratos, mas com o mesmo câncer. Vai ver é isso, estamos adoecendo. Vai ver já estávamos doentes a muito tempo e não tínhamos nos dado conta. Faltam os livros, os filmes, os discos e as noites regadas a vinho e filme francês. Ou italiano. Longas discussões sobre filosofias que eu não entendia. Eu nem me lembro mais quando foi que isso se perdeu. Mas se perdeu. Que nem fumaça de cigarro. Só fica o cheiro.
O fato é que você me viu e ficou me olhando, como se pensasse que eu enfiava aquela fumaça tóxica dentro de mim por sua causa. E era mesmo. E eu quis te dizer: se eu tiver câncer, é culpa sua. Se eu morrer, sabe. E se você morrer, é culpa sua. Que não me ouviu. Culpa sua. Toda essa merda, culpa sua. Mas não disse nada, apaguei o cigarro, fiz cara de blasé e esperei que você me ignorasse. E você não ignorou. Eu sentei do seu lado, você me perguntou se eu fumava agora eu eu pensei "fumo sim, quero morrer de câncer, por sua causa". Mas não. Só sorri e disse que fumava as vezes, mas que tava tentando parar, que essa merda dá câncer na gente. Você concordou, disse que dava mesmo e que tinha parado também, que na verdade nunca gostou disso de fumar. O gosto, a fumaça, sei lá. Ai eu pensei em te dizer que todo mundo sabe porque você fumava, que era porque você tinha ficado burro que agora fedia merda. Mas também não disse, disse que ainda bem que você tinha se tocado, que isso não combinava nada com você e tudo mais. Essas coisas que eu digo pra você porque não tenho coragem nenhuma e quando eu vi eu já estava conversando com você do jeito que sempre fiz, cheio de risos e soquinhos, e você me respondia como se a gente se falasse todo dia, sei lá, e você nem fedia merda mais. Eu não sabia o que estava acontecendo e queria desesperadamente perguntar cadê, onde está a sua namorada, aquela merda toda de antes da gente se sumir assim, mas não tinha coragem porque ela bem que podia existir ainda, quer dizer, nada impede da gente se tratar cordialmente e termos namorados. Eu ficava pensando que dez minutos depois viria o momento em que você se daria por si e ia perceber que você estava me tratando bem demais só que você tinha alguém te esperando em casa, e daí não podia. Você já tinha feito isso algumas vezes e depois ficava eu e meus cigarros vermelhos, meus cigarros azuis, meus cigarros com gosto de menta botando pra dentro todo ar que você tinha mais ume vez levado com você. E ficava o cheiro de merda brotando.
Mas dessa vez eu não queria mais, nenhuma noite mais cheia de cigarros variados, aquela fumaça toda, cerveja, não sei. Não queria mais perder o ar. Eu já tinha acostumado a viver com o tanto de ar que me foi dado. Aí esperei você sentar, sorrir, me olhar do jeito que eu já conhecia e perguntei logo de uma vez. Cadê sua namorada? E quase que não coube dentro da minha camisa xadrez, achei que ia sumir ali dentro enquanto você abaixava e sorria de novo, dessa vez desajeitado, e aí eu já sabia que ela ainda existia e ok, mais um erro, mais uma noite mais cigarros, quem sabe um maço deles e aí sim, pelo amor de qualquer coisa eu ia te largar pra sempre porque não é possível viver assim, colocando ar pra dentro o tempo todo. E com a falta dele mais ainda. E já estava quase me levantando, tentando esquecer o frio dentro da minha camisa xadrez e foi quando você disse:
- Eu não sei.
Ai eu pensei meu deus, você só pode estar brincando porque como assim não sabe, claro que você sabe. Aí eu queria logo de uma vez dizer pra você parar com isso porque eu não agüentava mais essa sua indecisão, ia ser pra sempre assim? fala logo então, diz que existe alguma coisa, ou para de falar comigo pra sempre e cospe na minha cara, qualquer coisa, qualquer coisa, mas não tira mais meu ar. Eu queria te dizer qualquer coisa assim mas só respondi de qualquer jeito
- Como assim não sabe?
- Não sei. Além do mais, namorada mesmo eu nunca tive. Não essa que você está se referindo.
Eu só te olhava.
- Tem ou não tem?
- Não tenho. Acho que não tenho. Não quero ter mais.
- Não?
- Cansei. Tava cansado. Vim pra cá, no meio dessa gente toda pra ver se descobria alguma coisa, se colocava alguma coisa dentro da minha cabeça. Tem me faltado tanto ar, você sabe como é isso? Daí te vi, e eu nem ia conversar com você, porque não agüento mais te magoar. Eu só faço isso. Eu sei que eu faço isso. Aí eu te vi fumando e eu sabia que era por minha causa. Aí fiquei pensando, minha nossa, o que eu fiz com essa menina? Você parecia tão diferente e daí eu precisava saber se era verdade mesmo. Essa sua diferença toda. Você ali, no meio daquela gente. Você não é assim, e aí eu quis te tirar dali, mas eu não tenho coragem de fazer mais nada com você, daí só puxei o assunto e apesar das roupas, do cigarro, desse seu cabelo e tal, você continua igualzinha. Sério, igualzinha. E eu acho que eu descobri, eu não quero aquilo mais.
Você ficou ali daquele jeito envergonhado, triste e sorrindo de nervoso. Com aquele sorriso mais lindo do mundo. Aquele que eu conhecia e aí eu não soube nem te falar qualquer coisa que fosse e nem fazer qualquer coisa que fosse e só te abracei, e só isso já foi um passo enorme, mas daí você pegou na minha mão e disse obrigada, obrigada por tudo isso que você fez por mim, e eu te juro que eu quase chorei. Aï você me perguntou se eu queria dar uma volta, sair dali e eu disse que claro, e quase ensaiei dizer que com você eu ia pra qualquer lugar que fosse, mas fiquei quieta, e só aceitei o convite e fomos então andar na rua, sei lá se era rua aquilo, ou um parque, eu sei que tinha um banco há uns metros dali e dava pra ver e aí você me disse se eu queria ir até lá e fomos, e fazia frio, e você de repente parou e me olhou e me abraçou. E era tão forte o abraço que eu pensei que meu deus, eu não queria sair de lá nunca mais, e eu sei lá por quanto tempo a gente se abraçou, eu sei que foi muito tempo. Ou nem foi. Mas parecia, era assim a eternidade. As camisetas xadrez se encontravam e formavam uma pessoa só, mas é claro que eu não pensei isso, é que vendo tudo isso agora eu penso que aquele foi o dia em que as camisetas xadrez iam formar uma pessoa só, naquela hora eu só pensei: "esse abraço é o meu abraço" e poderia ficar ali pra todo o sempre, mas a gente andou, se abraçou mais uma vez e chegou no banco, que foi quando eu descobri que seu peito era o meu peito e começamos a falar bobagens porque não cabia mais nada além de bobagens naquele sentimento tão grande.
- Me diz, desde quando você usa essas roupas?
- Desde sem-pre
- A blusa xadrez tá uma graça mesmo, mas essa calça não combina nada com você.
- Também acho, muito agarrada.
- Não por isso, você é magrinha. Mas não combina.
- Eu acho, muito agarrada. Tô usando essa blusa de menino pra cobrir a bunda.
- Hahahahaa, não disse? Igualzinha.- Pelo menos a minha calça é de vinil, ó, super chic. Não é couro barato, daqueles que ficam sobrando atrás da batata da perna, sabe como? paguei caro nessa merda.
- Tá bonita. Não combina com você, mas de muito bom gosto.
- Obrigada. Espero que agora você saiba o que é isso, boooom gooostooo!
E voce riu, e me abraçou como se fosse a última pessoa do mundo. Depois riu mais uma vez das minhas calças de vinil, falando que aquelas calças tinham bocas muito estreitas, olha aqui, olha isso, como você entra nessas coisas hein menina? daí eu disse que simples, porque sou magríssima, e assim, meio modelo. Aí você comentou que eu estava me achando demais e eu disse que não, que eu só estava feliz e no meio daquela felicidade não sabia falar de quase nada, daí tinha que falar das minhas calças, e além do mais faz um frio nesse lugar que a gente tem que ficar conversando. Aí você disse que não, que então a gente podia ir embora, além do mais estava tarde, vai que roubam a sua calça de vinil e aí você disse que eu podia entrar dentro da sua jaqueta e eu perguntei como fazia isso, e você disse que era simples, era assim ó, e abriu a sua jaqueta e me abraçou por trás e disse pra mim que agora a gente ia demorar três vezes mais pra chegar em casa (na minha ou na sua?) mas pelo menos não ia sentir frio. E eu disse que aquele momento merecia uma foto, a gente andando assim, tão desajeitado e disse que até tinha uma câmera na bolsa, será que sai a foto, e você disse que mesmo que mais ou menos ia sair e a gente ia saber que aquele foi o dia em que a gente de camisas xadrez e calças horrorosas passou uma das melhores noites da nossa vida e eu disse que poxa, vão ter mais e você disse que claro que ia ter mais muitos mais, mas aquele era o primeiro. Pelo menos assim, de nós dois. E nisso passa uma menina na rua e a gente pergunta se ela quer tirar a foto, mesmo sabendo que ela podia sumir por aí com a minha câmera, pra sempre e ela diz que tira sim e quase me derrubando com o seu desajeito e com o sorriso maior do mundo, seu e meu você disse.
- Tira essa foto agora que a minha menina tá linda aqui dentro de mim.
E eu soube, aquele homem era o meu homem. E eu, a menina dele. E tinha tanto ar e tanto amor dentro de mim que eu não respirava. De tanto. Mas pela primeira vez, era bom.

Eu, no meio daquela gente toda que não cheirava nada acendi um cigarro azul ou vermelho. Não lembro se tinha filtro. Não lembro que cor. Mas acendi. Fumaça entrando e saindo por todos os lugares. Pela garganta, pelo nariz. Por onde desse. Eu sempre fumei pra colocar ar dentro de mim. E não importa se era ar carbonizado, com mais de mil substâncias tóxicas. Que se foda isso. Faltava ar dentro de mim, muito ar, todo ar do mundo. Desde que você partiu. E quando você voltou lá estava eu colocando ar dentro de mim de algum jeito. Mas quando eu te vi acho que nem fumar mais eu sabia. E você ficou tão paralisado, tão me mostrando que aquilo não combinava comigo. E eu pensava que aquela merda também não combinava com você, porra. Claro que não. Principalmente aquela nicotina sem nome que cheirava a merda. E apaguei o cigarro, mesmo precisando de todo ar quente do mundo.
Você, a mesma calça jeans, a mesma camiseta e o mesmo tênis. Me olhando. Como se eu fosse um ET. Eu fumo também agora, caramba. E eu uso essas roupas cheias de "informação de moda". Eu também não sei porque. Eu também não sei porque você me idealizou tanto assim. Eu nunca soube porque você achava que eu era tanto assim pra você. Eu nunca fui. Eu sempre fui uma bosta de uma menina manipuladora, chata e até arrogante. Eu sempre fui menos inteligente que você. Agora eu nem quero saber o quão menos inteligente que você eu sou. Também não sei o quanto você embrurreceu. Vai ver agora a gente está do mesmo jeito. Burros e estúpidos. E fumando cigarros. Os meus caros, os seus baratos, mas com o mesmo câncer. Vai ver é isso, estamos adoecendo. Vai ver já estávamos doentes a muito tempo e não tínhamos nos dado conta. Faltam os livros, os filmes, os discos e as noites regadas a vinho e filme francês. Ou italiano. Longas discussões sobre filosofias que eu não entendia. Eu nem me lembro mais quando foi que isso se perdeu. Mas se perdeu. Que nem fumaça de cigarro. Só fica o cheiro.
O fato é que você me viu e ficou me olhando, como se pensasse que eu enfiava aquela fumaça tóxica dentro de mim por sua causa. E era mesmo. E eu quis te dizer: se eu tiver câncer, é culpa sua. Se eu morrer, sabe. E se você morrer, é culpa sua. Que não me ouviu. Culpa sua. Toda essa merda, culpa sua. Mas não disse nada, apaguei o cigarro, fiz cara de blasé e esperei que você me ignorasse. E você não ignorou. Eu sentei do seu lado, você me perguntou se eu fumava agora eu eu pensei "fumo sim, quero morrer de câncer, por sua causa". Mas não. Só sorri e disse que fumava as vezes, mas que tava tentando parar, que essa merda dá câncer na gente. Você concordou, disse que dava mesmo e que tinha parado também, que na verdade nunca gostou disso de fumar. O gosto, a fumaça, sei lá. Ai eu pensei em te dizer que todo mundo sabe porque você fumava, que era porque você tinha ficado burro que agora fedia merda. Mas também não disse, disse que ainda bem que você tinha se tocado, que isso não combinava nada com você e tudo mais. Essas coisas que eu digo pra você porque não tenho coragem nenhuma e quando eu vi eu já estava conversando com você do jeito que sempre fiz, cheio de risos e soquinhos, e você me respondia como se a gente se falasse todo dia, sei lá, e você nem fedia merda mais. Eu não sabia o que estava acontecendo e queria desesperadamente perguntar cadê, onde está a sua namorada, aquela merda toda de antes da gente se sumir assim, mas não tinha coragem porque ela bem que podia existir ainda, quer dizer, nada impede da gente se tratar cordialmente e termos namorados. Eu ficava pensando que dez minutos depois viria o momento em que você se daria por si e ia perceber que você estava me tratando bem demais só que você tinha alguém te esperando em casa, e daí não podia. Você já tinha feito isso algumas vezes e depois ficava eu e meus cigarros vermelhos, meus cigarros azuis, meus cigarros com gosto de menta botando pra dentro todo ar que você tinha mais ume vez levado com você. E ficava o cheiro de merda brotando.
Mas dessa vez eu não queria mais, nenhuma noite mais cheia de cigarros variados, aquela fumaça toda, cerveja, não sei. Não queria mais perder o ar. Eu já tinha acostumado a viver com o tanto de ar que me foi dado. Aí esperei você sentar, sorrir, me olhar do jeito que eu já conhecia e perguntei logo de uma vez. Cadê sua namorada? E quase que não coube dentro da minha camisa xadrez, achei que ia sumir ali dentro enquanto você abaixava e sorria de novo, dessa vez desajeitado, e aí eu já sabia que ela ainda existia e ok, mais um erro, mais uma noite mais cigarros, quem sabe um maço deles e aí sim, pelo amor de qualquer coisa eu ia te largar pra sempre porque não é possível viver assim, colocando ar pra dentro o tempo todo. E com a falta dele mais ainda. E já estava quase me levantando, tentando esquecer o frio dentro da minha camisa xadrez e foi quando você disse:
- Eu não sei.
Ai eu pensei meu deus, você só pode estar brincando porque como assim não sabe, claro que você sabe. Aí eu queria logo de uma vez dizer pra você parar com isso porque eu não agüentava mais essa sua indecisão, ia ser pra sempre assim? fala logo então, diz que existe alguma coisa, ou para de falar comigo pra sempre e cospe na minha cara, qualquer coisa, qualquer coisa, mas não tira mais meu ar. Eu queria te dizer qualquer coisa assim mas só respondi de qualquer jeito
- Como assim não sabe?
- Não sei. Além do mais, namorada mesmo eu nunca tive. Não essa que você está se referindo.
Eu só te olhava.
- Tem ou não tem?
- Não tenho. Acho que não tenho. Não quero ter mais.
- Não?
- Cansei. Tava cansado. Vim pra cá, no meio dessa gente toda pra ver se descobria alguma coisa, se colocava alguma coisa dentro da minha cabeça. Tem me faltado tanto ar, você sabe como é isso? Daí te vi, e eu nem ia conversar com você, porque não agüento mais te magoar. Eu só faço isso. Eu sei que eu faço isso. Aí eu te vi fumando e eu sabia que era por minha causa. Aí fiquei pensando, minha nossa, o que eu fiz com essa menina? Você parecia tão diferente e daí eu precisava saber se era verdade mesmo. Essa sua diferença toda. Você ali, no meio daquela gente. Você não é assim, e aí eu quis te tirar dali, mas eu não tenho coragem de fazer mais nada com você, daí só puxei o assunto e apesar das roupas, do cigarro, desse seu cabelo e tal, você continua igualzinha. Sério, igualzinha. E eu acho que eu descobri, eu não quero aquilo mais.
Você ficou ali daquele jeito envergonhado, triste e sorrindo de nervoso. Com aquele sorriso mais lindo do mundo. Aquele que eu conhecia e aí eu não soube nem te falar qualquer coisa que fosse e nem fazer qualquer coisa que fosse e só te abracei, e só isso já foi um passo enorme, mas daí você pegou na minha mão e disse obrigada, obrigada por tudo isso que você fez por mim, e eu te juro que eu quase chorei. Aï você me perguntou se eu queria dar uma volta, sair dali e eu disse que claro, e quase ensaiei dizer que com você eu ia pra qualquer lugar que fosse, mas fiquei quieta, e só aceitei o convite e fomos então andar na rua, sei lá se era rua aquilo, ou um parque, eu sei que tinha um banco há uns metros dali e dava pra ver e aí você me disse se eu queria ir até lá e fomos, e fazia frio, e você de repente parou e me olhou e me abraçou. E era tão forte o abraço que eu pensei que meu deus, eu não queria sair de lá nunca mais, e eu sei lá por quanto tempo a gente se abraçou, eu sei que foi muito tempo. Ou nem foi. Mas parecia, era assim a eternidade. As camisetas xadrez se encontravam e formavam uma pessoa só, mas é claro que eu não pensei isso, é que vendo tudo isso agora eu penso que aquele foi o dia em que as camisetas xadrez iam formar uma pessoa só, naquela hora eu só pensei: "esse abraço é o meu abraço" e poderia ficar ali pra todo o sempre, mas a gente andou, se abraçou mais uma vez e chegou no banco, que foi quando eu descobri que seu peito era o meu peito e começamos a falar bobagens porque não cabia mais nada além de bobagens naquele sentimento tão grande.
- Me diz, desde quando você usa essas roupas?
- Desde sem-pre
- A blusa xadrez tá uma graça mesmo, mas essa calça não combina nada com você.
- Também acho, muito agarrada.
- Não por isso, você é magrinha. Mas não combina.
- Eu acho, muito agarrada. Tô usando essa blusa de menino pra cobrir a bunda.
- Hahahahaa, não disse? Igualzinha.- Pelo menos a minha calça é de vinil, ó, super chic. Não é couro barato, daqueles que ficam sobrando atrás da batata da perna, sabe como? paguei caro nessa merda.
- Tá bonita. Não combina com você, mas de muito bom gosto.
- Obrigada. Espero que agora você saiba o que é isso, boooom gooostooo!
E voce riu, e me abraçou como se fosse a última pessoa do mundo. Depois riu mais uma vez das minhas calças de vinil, falando que aquelas calças tinham bocas muito estreitas, olha aqui, olha isso, como você entra nessas coisas hein menina? daí eu disse que simples, porque sou magríssima, e assim, meio modelo. Aí você comentou que eu estava me achando demais e eu disse que não, que eu só estava feliz e no meio daquela felicidade não sabia falar de quase nada, daí tinha que falar das minhas calças, e além do mais faz um frio nesse lugar que a gente tem que ficar conversando. Aí você disse que não, que então a gente podia ir embora, além do mais estava tarde, vai que roubam a sua calça de vinil e aí você disse que eu podia entrar dentro da sua jaqueta e eu perguntei como fazia isso, e você disse que era simples, era assim ó, e abriu a sua jaqueta e me abraçou por trás e disse pra mim que agora a gente ia demorar três vezes mais pra chegar em casa (na minha ou na sua?) mas pelo menos não ia sentir frio. E eu disse que aquele momento merecia uma foto, a gente andando assim, tão desajeitado e disse que até tinha uma câmera na bolsa, será que sai a foto, e você disse que mesmo que mais ou menos ia sair e a gente ia saber que aquele foi o dia em que a gente de camisas xadrez e calças horrorosas passou uma das melhores noites da nossa vida e eu disse que poxa, vão ter mais e você disse que claro que ia ter mais muitos mais, mas aquele era o primeiro. Pelo menos assim, de nós dois. E nisso passa uma menina na rua e a gente pergunta se ela quer tirar a foto, mesmo sabendo que ela podia sumir por aí com a minha câmera, pra sempre e ela diz que tira sim e quase me derrubando com o seu desajeito e com o sorriso maior do mundo, seu e meu você disse.
- Tira essa foto agora que a minha menina tá linda aqui dentro de mim.
E eu soube, aquele homem era o meu homem. E eu, a menina dele. E tinha tanto ar e tanto amor dentro de mim que eu não respirava. De tanto. Mas pela primeira vez, era bom.

Aquele abraço, era o meu abraço.
3.9.10
Você só tem tralha nesse seu coração.
Fazia muitos dias desde o dia em que ele se foi e ela só conseguia pensar "meu deus vocês são todos burros, tão indiscriminadamente burros, e desinteressantes, meu deus como são desinteressantes vocês…" e era isso que pensava na janela do quinto andar que dava para uma rua qualquer em São Paulo, Capital, cidade de ares vazios desde. Hoje, sexta feira, não havia bar ou companhia que a tirasse do pensamento isso "vocês são burros e desinteressantes, meu deus como são burros vocês…" e então lhe fazia companhia uma garrafa de cerveja alemã e nenhuma dignidade. Cerveja gelada, no bico, a janela e as meias sujas por vício vestindo os pés mas sem esquentar o coração - esse frio e desinteressantíssimo. E pensava então entre carros e luzes e aquele ar pesado de poluição que ele havia partido "ontem-mesmo" e depois repensava e relembrava que o ontem-mesmo já estava quase completando três anos inteiros e quem tinha ido embora na verdade tinha sido ela. Ela que havia deixado a cidade um dia com uma mala mais ou menos grande, cheia de roupas e sapatos e quase nenhum sonho. Deixou-o ali com o pensamento que percorreu cada pedacinho de linha amarela que formava o caminho até São paulo: "que seja feliz, por deus, que seja muito feliz você". Só pensava, pois foi embora sem se despedir, sem deixar endereço e fez questão de mudar todas as formas de comunicação possíveis, deixando apenas o velho e-mail e o telefone intactos, "pra quem sabe um dia". Pensava que um dia ele poderia lembrar dela no meio daquele monte de coisas que ela decidiu por bem nunca pegar de volta, e quem sabe comunicar-se e achou também muita pobreza de espírito sumir assim de vez e obrigá-lo a fazer uma imensa saga rumo a achar onde estava ela perdida, justo ela, que nunca quis se perder dele - pelo menos não assim, completamente.
E sabe-se lá porque, mas três semanas depois de terminar o último namoro deu de achar todo mundo burro e desinteressantíssimo, foi logo num dia que chegou cansada de viver e ligou pra um desses amigos ocasionais e tentou contar-lhe os problemas, mas ele ouvia a ela como quem ouvia a qualquer pessoa, e fez muito esforço em tentar ajudar - mas de jeito errado. Não que ela estivesse julgando o fato dele ter tentado ajudar, mas foi o "jeito-errado" que naquele dia lhe pesou como duas bigornas nos ombros. Se tivesse ligado pra "ele", "ele" provavelmente não faria nada de diferente, e pior ainda, nem ia fazer esforço em ajudar, mas ela ia sentir pelas linhas de fibras óticas de cabos de telefone que ele sentia um pouco da dor dela, e se compadecia. Então tentaria pegar-lhe na mão com medo de quebrar e ia ficar observando como quem observa um objeto estranho e raríssimo, e sem saber o que fazer não faria nada, mas ela se sentiria confortada pelo resto do tempo que sobrasse. Não sabia também ela porque deu de pensar nele depois de tanto tempo, de quere-lo depois de tanto tempo e de achar todo mundo desinteressante assim depois de tanto tempo. São Paulo tem tanta gente mais legal, mais interessante e até mais bonita que ele. Mais descolada, mais cheia de atitude e com tênis menos bregas. Gosto musicais menos fúteis, com uma noção melhor de valores e principalmente, menos influenciável.
Pensava nele e imaginava como deveria estar e até pensou "deve estar burro e desinteressantíssimo, como todos os outros que eu conheço". "Deve estar pensando em casar, juntar dinheiro pra comprar um carro popular, ou uma moto, nossa, ele tem tanta cara de quem compraria uma moto e carregando outra menina burra e desinteressantíssima pelo braço com o orgulho maior do mundo. É isso que ele deve estar fazendo agora. E planos, e mais planos e depois mais planos e tudo isso sendo nada bem sucedido, naquela cidadezinha onde todo mundo morre sem dinheiro a não ser que tenha nascido com ele. Se é que ele ainda mora naquela cidadezinha, mas deve morar." "Ah, deve morar" Foi isso que ela pensou e quase pensou de novo em ligar o computador e escarafunchar a vida dele, tentando descobrir cada pedacinho de vida que ele tinha agora, mas desistiu. Preferiu terminar a cerveja no copo de plástico sem nenhuma dignidade, ler alguma coisa e sonhar com ele procurando meio mundo atrás dela, tentando achar na agenda o telefone novo do celular dela que ele deve ter anotado em algum lugar e perdido. "Do jeito que ele perde as coisas, já deve até ter me perdido lá dentro dele. Acho que nem me acha mais", foi o que ela pensou, meio bêbada meio sóbria e achando a constatação completamente triste. "Ninguém se perde assim tão fácil dentro de alguém, e ele, poxa, ele não é tão imenso assim. Ele era até bem pequenino. Acho que eu era a maior coisa que ele guardava dentro dele. Só que ele não sabia, vai que ele nunca descobre o meu tamanho e não me acha mais, no meio das tralhas. Daquelas tralhas no coração dele." Foi nessa hora que ela pegou um pedacinho de papel e como quem escreve um bilhete endereçado a ele escreveu com letras enormes "CARA, VOCÊ GUARDA MUITA TRALHA NESSE SEU CORAÇÃO". E ficou olhando um tempo, pensando como ia ser engraçado se um dia ele lesse aquilo. "Muita-tralha-nesse-seu-coração, genial". "Mas guarda mesmo, só tralha tem naquele coração, eu devia chegar lá e dizer pra ele. TRALHA. é isso que você juntou nesses anos, UM MONTE DE TRALHA" . E ria toda vez que pensava nele ouvindo isso, nela falando de tralha. Pensava nele ficando um pouco mal, lembrando das tralhas e sentindo um pouco de vergonha de toda tralha que ele guardou ao longo dos anos, não agüentando nem olhar pra cara dela de tanta vergonha da tralha, daí ela diria "Não importa, sempre dá pra limpar, ou reciclar a tralha, você quer cerveja?" e aí ele aceitaria e bebericariam e ele ia demorar mais três anos inteiros pra dizer que ele desocupou o coração dele das tralhas e que ela podia morar lá agora, que tava limpinho. Depois riu e pensou "Ah, mas ele nunca falaria uma coisa bonita dessas, no máximo ia dizer alguma coisa parecida". E achando tudo muito engraçado e lembrando das pessoas desinteressantíssimas e burras, foi dormir logo depois de gritar "NEM TRALHA VOCÊS TEM NESSES CORAÇÕES DE VOCÊS, VOCÊS SÃO VAZIOS DEMAIS, É ISSO, VAZIOS DEMAIS". E foi, e se sentindo leve dormiu com a roupa do corpo pensando em um coração cheio de tralhas pra desentulhar.
Então no outro dia acordou, sem lembrar muito bem das tralhas que tinha pensado na noite anterior, e como de costume foi checar os e-mails. Três convites pra redes sociais, porcariada do trabalho, piadas "puta merda quem ainda manda piada no e-mail" e de repente um com um assunto inusitado "espero que esse ainda seja o seu e-mail". Nem olhou destinatário nem nada, só abriu e leu. Era uma coisinha pequena, umas quatro ou cinco linhas, que leu meio sem acreditar mas dizia assim:
Oi Fernanda,
Não sei se esse é seu e-mail ainda, eu espero que seja, o MSN eu sei que mudou. Mas é que eu precisava de um favor. Eu consegui um trabalho aí em são paulo, mas eu preciso ver se dá certo antes, e eu só sei de você que mudou pra aí. Pelo menos foi o que me disseram, que você mudou pra São Paulo, virou jornalista, eu li suas colunas esses dias, mas não tinha e-mail lá. Aï mandei pra esse, será que você podia me hospedar uns dias, quer dizer, se não for incomodar nem nada, ou pelo menos me indicar um lugar barato pra eu ficar aí em São Paulo? Eu vou logo na quinta, se você ler esse e-mail me liga é esse telefone aqui, senão eu me viro, morro esfaqueado qualquer coisa assim, mas me viro.
Beijos, Leonardo.
Não se conteve dentro dela mesma e só conseguia pensar "Deve ter desentulhado muita tralha pra ter lembrado de mim" e depois sorriu "ou eu que nunca deixei de ser grande". E respondeu a ele cordialmente, sem mencionar tralhas, ou blilhetes, e sem ao menos perguntar se ele estava burro demais, ou quem sabe, desinteressantíssimo. Só sabia assim, como quem tem certeza que ele tinha desentulhado as tralhas e que não vinha encontra-la portanto nenhuma menina burra e mega desinteressante pelo braço, senão não tinha mandado e-mail nenhum, tinha é alugado um muquifo com suas últimas economias e ficado por lá, depois dia dizer "ih, não sabia que você tava morando em são paulo, senão tinha te ligado", bem típico, por medo de perder a tralha que guardava no coração. Pois passaram-se três dias e ele chegou, de taxi, bem independente como lhe era de costume, mesmo com ela tendo falado mil vezes que buscava ele na rodoviária. "Vai ver ele achou que ia ficar desconfortabilíssimo a gente no mesmo carro, ele sem saber o que falar", daí mal ela assustou e ele chegou na porta dela, com aquela mesmo mochila de dez anos atrás nas costas e uma mala pequena, quase que dizendo "vou-embora-em-cinco-dias", e ela achou foi engraçado aquele jeito de cidadezinha que ele ainda tinha porque logo que chegou ele disse "nossa, como é grande aqui, não lembrava que era tão grande" e ela só sorriu e disse "ah, mas você se acostuma, logo fica pequenininha essa cidade, e chaaaata…" e então pegou as malas dele, botou no quarto, perguntou se ele queria café, ele aceitou, nunca recusou um café na vida. E então conversaram e conversaram e depois conversaram um pouco mais e ele então resolveu perguntar "mas você jura que eu não vou atrapalhar de ficar aqui, não sei, de repente você tem um namorado" e ela então sorrindo completou "Não, há três semanas atrás ia ter problema sim, mas agora eu já desentulhei tudo, não tem mais tralha dele aqui em casa, e nem no coração" depois, lembrando da última sexta feira disse ainda "além do mais, as pessoas aqui são chatas e desinteressantíssimas, vai ser bom, sabe, ter companhia". E passaram se dias, e depois de dividirem a mesma casa, sem perceberem estavam dividindo a mesma vida, as rotinas, os cafés e as pontas do sofá. Acostumaram-se. Um dia ele foi limpar os papéis na mesa dela, e enquanto pensava "meu deus, como é desorganizada essa menina, não sei como se acha aqui no meio dessa bagunça" e nisso encontrou um papel rosa, escrito em caneta preta bem rabiscado e em letras enormes "Cara, você guarda muita tralha nesse seu coração" e riu que não se agüentava, como era de costume, e então foi correndo perguntar pra ele que maluquice era aquela de tralha e coração, e ela no meio da cumplicidade que nem percebeu que tinha se (re)instalado disse "isso daí é pra você. Escrevi uns dias antes de sequer saber que você ainda lembrava que eu existia, achei que você tinha me perdido no meio das tralhas. Era genial, eu ia dizer bem gritando assim, olha aqui, tem muita tralha nesse seu coração, garoto!"
E então ele olhou pra ela, e ela percebeu que o olhar ficou sério, e na hora que ela ia rir e dizer que "não-tem-problema-tem-sempre-como-reciclar-a-tralha-quer-uma-cerveja?" ele abaixou a cabeça e disse "é, tinha mesmo" e ficou ali, estático, sem saber o que fazer, olhando aquela coisa enorme que morava dentro dele, mas que hoje estava fora, rindo e falando de tralhas. Ela pegou uma cadeira, sentou do lado dele, encostou no ombro e disse "tudo bem vai, não eram tralhas" e ele só respondeu "ah, eram sim, eu juntei um monte de tralha nesses anos… a única coisa que…" e abaixou a cabeça e então ela não podia deixar de pensar nele falando que agora tinha desocupado tudo e que tava limpinho, e que ela podia morar lá. Mas não disse nada e só completou "a única coisa que…?" e olhando pro chão ele disse "a única coisa que não era tralha ali no meio era você, e bagunceira do jeito que você é, você sempre aparece no meio de qualquer tralha que seja, não tinha como não te ver, garota.. Espaçosa…". E riu. Riu um riso tímido de quem não sabe falar de amor, mas sabe arrumar a bagunça e deixar a mesa com bilhetes engraçadinhos. Depois disso ela abraçou ele com gosto, e num soquinho disse "agora vê se não vai lotar de tralha tudo de novo, por favor, depois você não me acha mais" e totalmente confortável no abraço imenso dela, ele só completou "não, pode deixar, eu já descobri que meu destino é desocupar as tralhas pra você não se perder mais, dentro de casa… e no meu coração". E bebendo cerveja, sete sextas feiras depois daquelas, continua achando todas as pessoas burras, e desinteressantíssimas e resmunga, "vocês são muio burros, e desinteressantes, meu deus do céu como são desinteressantes" E de repente olha pra baixo e enxerga são paulo como um depósito, cheio de tralha. E olha pra sua mesa arrumada, ele dormindo no sofá e grita "vocês não tem nem tralha nesses corações de vocês, são vazios. EU TENHO O MUNDO" e deitada do lado dele, sente a paz, a eternidade enfim. Fodam-se as tralhas.
E sabe-se lá porque, mas três semanas depois de terminar o último namoro deu de achar todo mundo burro e desinteressantíssimo, foi logo num dia que chegou cansada de viver e ligou pra um desses amigos ocasionais e tentou contar-lhe os problemas, mas ele ouvia a ela como quem ouvia a qualquer pessoa, e fez muito esforço em tentar ajudar - mas de jeito errado. Não que ela estivesse julgando o fato dele ter tentado ajudar, mas foi o "jeito-errado" que naquele dia lhe pesou como duas bigornas nos ombros. Se tivesse ligado pra "ele", "ele" provavelmente não faria nada de diferente, e pior ainda, nem ia fazer esforço em ajudar, mas ela ia sentir pelas linhas de fibras óticas de cabos de telefone que ele sentia um pouco da dor dela, e se compadecia. Então tentaria pegar-lhe na mão com medo de quebrar e ia ficar observando como quem observa um objeto estranho e raríssimo, e sem saber o que fazer não faria nada, mas ela se sentiria confortada pelo resto do tempo que sobrasse. Não sabia também ela porque deu de pensar nele depois de tanto tempo, de quere-lo depois de tanto tempo e de achar todo mundo desinteressante assim depois de tanto tempo. São Paulo tem tanta gente mais legal, mais interessante e até mais bonita que ele. Mais descolada, mais cheia de atitude e com tênis menos bregas. Gosto musicais menos fúteis, com uma noção melhor de valores e principalmente, menos influenciável.
Pensava nele e imaginava como deveria estar e até pensou "deve estar burro e desinteressantíssimo, como todos os outros que eu conheço". "Deve estar pensando em casar, juntar dinheiro pra comprar um carro popular, ou uma moto, nossa, ele tem tanta cara de quem compraria uma moto e carregando outra menina burra e desinteressantíssima pelo braço com o orgulho maior do mundo. É isso que ele deve estar fazendo agora. E planos, e mais planos e depois mais planos e tudo isso sendo nada bem sucedido, naquela cidadezinha onde todo mundo morre sem dinheiro a não ser que tenha nascido com ele. Se é que ele ainda mora naquela cidadezinha, mas deve morar." "Ah, deve morar" Foi isso que ela pensou e quase pensou de novo em ligar o computador e escarafunchar a vida dele, tentando descobrir cada pedacinho de vida que ele tinha agora, mas desistiu. Preferiu terminar a cerveja no copo de plástico sem nenhuma dignidade, ler alguma coisa e sonhar com ele procurando meio mundo atrás dela, tentando achar na agenda o telefone novo do celular dela que ele deve ter anotado em algum lugar e perdido. "Do jeito que ele perde as coisas, já deve até ter me perdido lá dentro dele. Acho que nem me acha mais", foi o que ela pensou, meio bêbada meio sóbria e achando a constatação completamente triste. "Ninguém se perde assim tão fácil dentro de alguém, e ele, poxa, ele não é tão imenso assim. Ele era até bem pequenino. Acho que eu era a maior coisa que ele guardava dentro dele. Só que ele não sabia, vai que ele nunca descobre o meu tamanho e não me acha mais, no meio das tralhas. Daquelas tralhas no coração dele." Foi nessa hora que ela pegou um pedacinho de papel e como quem escreve um bilhete endereçado a ele escreveu com letras enormes "CARA, VOCÊ GUARDA MUITA TRALHA NESSE SEU CORAÇÃO". E ficou olhando um tempo, pensando como ia ser engraçado se um dia ele lesse aquilo. "Muita-tralha-nesse-seu-coração, genial". "Mas guarda mesmo, só tralha tem naquele coração, eu devia chegar lá e dizer pra ele. TRALHA. é isso que você juntou nesses anos, UM MONTE DE TRALHA" . E ria toda vez que pensava nele ouvindo isso, nela falando de tralha. Pensava nele ficando um pouco mal, lembrando das tralhas e sentindo um pouco de vergonha de toda tralha que ele guardou ao longo dos anos, não agüentando nem olhar pra cara dela de tanta vergonha da tralha, daí ela diria "Não importa, sempre dá pra limpar, ou reciclar a tralha, você quer cerveja?" e aí ele aceitaria e bebericariam e ele ia demorar mais três anos inteiros pra dizer que ele desocupou o coração dele das tralhas e que ela podia morar lá agora, que tava limpinho. Depois riu e pensou "Ah, mas ele nunca falaria uma coisa bonita dessas, no máximo ia dizer alguma coisa parecida". E achando tudo muito engraçado e lembrando das pessoas desinteressantíssimas e burras, foi dormir logo depois de gritar "NEM TRALHA VOCÊS TEM NESSES CORAÇÕES DE VOCÊS, VOCÊS SÃO VAZIOS DEMAIS, É ISSO, VAZIOS DEMAIS". E foi, e se sentindo leve dormiu com a roupa do corpo pensando em um coração cheio de tralhas pra desentulhar.
Então no outro dia acordou, sem lembrar muito bem das tralhas que tinha pensado na noite anterior, e como de costume foi checar os e-mails. Três convites pra redes sociais, porcariada do trabalho, piadas "puta merda quem ainda manda piada no e-mail" e de repente um com um assunto inusitado "espero que esse ainda seja o seu e-mail". Nem olhou destinatário nem nada, só abriu e leu. Era uma coisinha pequena, umas quatro ou cinco linhas, que leu meio sem acreditar mas dizia assim:
Oi Fernanda,
Não sei se esse é seu e-mail ainda, eu espero que seja, o MSN eu sei que mudou. Mas é que eu precisava de um favor. Eu consegui um trabalho aí em são paulo, mas eu preciso ver se dá certo antes, e eu só sei de você que mudou pra aí. Pelo menos foi o que me disseram, que você mudou pra São Paulo, virou jornalista, eu li suas colunas esses dias, mas não tinha e-mail lá. Aï mandei pra esse, será que você podia me hospedar uns dias, quer dizer, se não for incomodar nem nada, ou pelo menos me indicar um lugar barato pra eu ficar aí em São Paulo? Eu vou logo na quinta, se você ler esse e-mail me liga é esse telefone aqui, senão eu me viro, morro esfaqueado qualquer coisa assim, mas me viro.
Beijos, Leonardo.
Não se conteve dentro dela mesma e só conseguia pensar "Deve ter desentulhado muita tralha pra ter lembrado de mim" e depois sorriu "ou eu que nunca deixei de ser grande". E respondeu a ele cordialmente, sem mencionar tralhas, ou blilhetes, e sem ao menos perguntar se ele estava burro demais, ou quem sabe, desinteressantíssimo. Só sabia assim, como quem tem certeza que ele tinha desentulhado as tralhas e que não vinha encontra-la portanto nenhuma menina burra e mega desinteressante pelo braço, senão não tinha mandado e-mail nenhum, tinha é alugado um muquifo com suas últimas economias e ficado por lá, depois dia dizer "ih, não sabia que você tava morando em são paulo, senão tinha te ligado", bem típico, por medo de perder a tralha que guardava no coração. Pois passaram-se três dias e ele chegou, de taxi, bem independente como lhe era de costume, mesmo com ela tendo falado mil vezes que buscava ele na rodoviária. "Vai ver ele achou que ia ficar desconfortabilíssimo a gente no mesmo carro, ele sem saber o que falar", daí mal ela assustou e ele chegou na porta dela, com aquela mesmo mochila de dez anos atrás nas costas e uma mala pequena, quase que dizendo "vou-embora-em-cinco-dias", e ela achou foi engraçado aquele jeito de cidadezinha que ele ainda tinha porque logo que chegou ele disse "nossa, como é grande aqui, não lembrava que era tão grande" e ela só sorriu e disse "ah, mas você se acostuma, logo fica pequenininha essa cidade, e chaaaata…" e então pegou as malas dele, botou no quarto, perguntou se ele queria café, ele aceitou, nunca recusou um café na vida. E então conversaram e conversaram e depois conversaram um pouco mais e ele então resolveu perguntar "mas você jura que eu não vou atrapalhar de ficar aqui, não sei, de repente você tem um namorado" e ela então sorrindo completou "Não, há três semanas atrás ia ter problema sim, mas agora eu já desentulhei tudo, não tem mais tralha dele aqui em casa, e nem no coração" depois, lembrando da última sexta feira disse ainda "além do mais, as pessoas aqui são chatas e desinteressantíssimas, vai ser bom, sabe, ter companhia". E passaram se dias, e depois de dividirem a mesma casa, sem perceberem estavam dividindo a mesma vida, as rotinas, os cafés e as pontas do sofá. Acostumaram-se. Um dia ele foi limpar os papéis na mesa dela, e enquanto pensava "meu deus, como é desorganizada essa menina, não sei como se acha aqui no meio dessa bagunça" e nisso encontrou um papel rosa, escrito em caneta preta bem rabiscado e em letras enormes "Cara, você guarda muita tralha nesse seu coração" e riu que não se agüentava, como era de costume, e então foi correndo perguntar pra ele que maluquice era aquela de tralha e coração, e ela no meio da cumplicidade que nem percebeu que tinha se (re)instalado disse "isso daí é pra você. Escrevi uns dias antes de sequer saber que você ainda lembrava que eu existia, achei que você tinha me perdido no meio das tralhas. Era genial, eu ia dizer bem gritando assim, olha aqui, tem muita tralha nesse seu coração, garoto!"
E então ele olhou pra ela, e ela percebeu que o olhar ficou sério, e na hora que ela ia rir e dizer que "não-tem-problema-tem-sempre-como-reciclar-a-tralha-quer-uma-cerveja?" ele abaixou a cabeça e disse "é, tinha mesmo" e ficou ali, estático, sem saber o que fazer, olhando aquela coisa enorme que morava dentro dele, mas que hoje estava fora, rindo e falando de tralhas. Ela pegou uma cadeira, sentou do lado dele, encostou no ombro e disse "tudo bem vai, não eram tralhas" e ele só respondeu "ah, eram sim, eu juntei um monte de tralha nesses anos… a única coisa que…" e abaixou a cabeça e então ela não podia deixar de pensar nele falando que agora tinha desocupado tudo e que tava limpinho, e que ela podia morar lá. Mas não disse nada e só completou "a única coisa que…?" e olhando pro chão ele disse "a única coisa que não era tralha ali no meio era você, e bagunceira do jeito que você é, você sempre aparece no meio de qualquer tralha que seja, não tinha como não te ver, garota.. Espaçosa…". E riu. Riu um riso tímido de quem não sabe falar de amor, mas sabe arrumar a bagunça e deixar a mesa com bilhetes engraçadinhos. Depois disso ela abraçou ele com gosto, e num soquinho disse "agora vê se não vai lotar de tralha tudo de novo, por favor, depois você não me acha mais" e totalmente confortável no abraço imenso dela, ele só completou "não, pode deixar, eu já descobri que meu destino é desocupar as tralhas pra você não se perder mais, dentro de casa… e no meu coração". E bebendo cerveja, sete sextas feiras depois daquelas, continua achando todas as pessoas burras, e desinteressantíssimas e resmunga, "vocês são muio burros, e desinteressantes, meu deus do céu como são desinteressantes" E de repente olha pra baixo e enxerga são paulo como um depósito, cheio de tralha. E olha pra sua mesa arrumada, ele dormindo no sofá e grita "vocês não tem nem tralha nesses corações de vocês, são vazios. EU TENHO O MUNDO" e deitada do lado dele, sente a paz, a eternidade enfim. Fodam-se as tralhas.
8.6.10
Amor, Bolero e Bob Dylan
As noites são solitárias e os boleros são sinceros, e eu danço, imaginariamente. Fumando espero al el hombre que yo quero enquanto ouço bob dylan e despejo fumaça pra dentro e pra fora, pra dentro e pra fora enquanto penso em você, tão banal. As noites são frias nesses junho-julho desde que você me deixou, e seriam doídas mesmo no meio de um verão desses de dezembro, você não sabe como me dói. Você nem ao menos sabe que você é você, destinatário dessa carta que nunca vai chegar a você, ou a ninguém específico. A voz rouca de Dylan dizendo que It ain't me you're looking for, baby. E olha, eu acho que não era mesmo, você não estava esperando por alguém como eu embora eu sempre estivesse esperando por alguém com você e até nos encontramos e você até achou um dia que eu fosse ser o amor da sua vida mas despedaçamos tudo como margaridas, ou como cinzas de cigarros. Tinha que ser assim. Eu pensei em te ligar, em te dizer todas essas coisas que eu deveria. Poderia tomar uma garrafa toda de conhaque pra ver se tomava coragem pra dizer que eu ainda te amo, que eu vou sempre te amar, que eu vou tentar encontrar apenas pessoas esparsas desde que você se foi, e que eu sei - e vou saber sempre - que é você que eu vou amar, que é você que era o meu número que é a você que eu espero emprestar meus olhos, meus ouvidos, meu corpo todo e é pra você que eu já doei a minha vida e não tem mais jeito não, eu só estou tentando ser feliz para passar o tempo porque ser triste faz com que o tempo passe ainda mais devagar. Mas você não ia entender nada disso, ia me olhar com aquela cara de pena, depois ia ficar nessa indecisão de me tratar como alguma coisa que você ainda tem carinho porque sente dó, ou pensar em me largar pra sempre e daí não ia largar nem ter pena, ia mesmo me esquecer num canto depois voltar, esquecer, voltar esquecer. Como esses fumantes que vivem voltando e largando para o vício, cigarros eventuais para acompanhar os cafés e os conhaques, é assim que eu vivo pra você e também não me incomodo.
Podia. Podia virar pra você, pedir pra você ter um pouco de decencia, de vergonha nessa cara, de ser um cara certo, corretíssimo, educado. Pedir pra me tratar com consideração, pra cuspir em mim logo duma vez já que você não quer nada além de saber que eu continuo ali quando você quiser me fumar, mas também tanto faz eu até gosto disso. Ia mesmo te ligar depois de muitos álcools na cabeça e de ter ouvido todas as nossas músicas se caso você resolvesse me deixar de vez, isso eu não suportaria. Daí me dizem que eu devo me dar ao respeito, parar de pensar em você, nas noites quentes, nas noites frias, nos julhos, nos dezembros, enquanto eu fumo, enquanto eu bebo, enquanto eu passeio, enquanto eu brinco com as crianças e eu digo pra eles irem se danar. Essas pessoas não entendem nada sobre amor e daí vem pra gente com toda essa parafernalha de orgulho, de se-dar-ao-respeito, de saber seu valor, de dignidade e o caralho todo e olha, eu vou explicar pra elas que tudo isso aí não combina nada com esses amores fleumáticos que eu sinto. Isso é muito controlado, se-dar-ao-respeito e orgulho é coisa de gente que não ama assim, sanguineamente. E olha, eu amo assim então ao inferno com isso de me colocar no meu lugar. Não vou, você sabe que eu não vou e eu vou ficar insistindo nisso de te amar. E olha, desinsistir ia dar tanto mais trabalho que eu prefiro continuar desse jeito.
É, eu estou vivendo a minha vida. Eu só penso em você todos os dias. Eu não tenho culpa também, a gente tem muitas lembranças, foram muitos anos e além do mais eu estou sozinha. E é normal que enquanto eu resolva fumar olhando a sacada e ouvindo Bob Dylan eu lembre de você. Oras, claro. Porque eu nem ocupar o seu lugar no sofá consigo, então às vezes eu até olho pro lado e penso em comentar alguma coisa com você, dizer como o céu está bonito ou só encostar no teu peito e ficar lá enquanto você me olha com aquela cara esquisita pensando que tipo de garota problemática e linda você resolveu escolher pra dividir a vida e o amor pelo Bob Dylan. E o Bob Dylan nem tem culpa, todo mundo gosta dele. Eu, você, milhares de outros casais, mas a gente gostava junto, e da mesma música, então isso me lembra você. O Bob Dylan, o cigarro, as coisas de casa que você gostava, sabe, tantas coisas guardam um casal que é impossível que as pessoas realmente acreditem nessa baboseira que dizer que te esquecer é mesmo algum tipo de nobreza, veja só, elas queriam que eu te odiasse. Odiar o homem que foi minha poesia e a minha canção por anos, isso é maltratar demais o amor. Eu quero lembrar de toda essa doçura que foi te amar e que não merece ficar pedra, dura, feia e cheia de coisas pra jogar na sua cara dizendo que olha, eu te amei tanto e olha só o que você fez com o nosso amor, você jogou fora e agora eu estou aqui fumando e chorando e eu quero mais que você se exploda junto com seu novo amor. Não dá. O Bob Dylan não escreveria uma coisa dessas, e nem o Chico no seu eu-lírico feminino mais recalcado se prestaria a uma bobagem dessas. E eu, toda literária que sou ia lá transformar nosso amor numa novela? No máximo num bolero, bolero são fleumáticos, mas sinceros e também não ficam aí orgulhosos dizendo não amar tudo aquilo que um dia amaram.
E eu te amei. Quer dizer, eu ainda te amo. Eu guardo todo o seu amor aqui dentro de um jeito que não é alegre nem triste, eu só guardei. Eu resolvi não entristecer demais porque não devo, e porque nosso amor nunca foi triste, mesmo depois de acabar então qual seria o sentido também de eu ficar murmurando o acabado com vinhos, cigarros e boleros? Não que eu não faça isso, até faço, mas o tempo todo não faz o mínimo sentido. E sabe, eu até estou feliz. Não assim, exalando felicidade o tempo todo, saltitando e vendo flores nascer, mas eu estou indo como eu posso. Eu encontro novos amores aqui e ali e me jogo, pulo, me aventuro mas sei que amor mesmo é isso que eu sentia e sinto por você. O resto são paixões e eu sou assim, cheia de paixões e eu só te guardo tanto porque você é a única coisa que eu amei, que eu pensei deixar ali do ladinho e guardar no meio dessas minhas loucuras, insanidades, dessas minhas latinices todas e essa minha alma fleumática. Desde o dia que eu soube que eu te amava, amor mesmo, esse sentimento puro, eu resolvi que eu não ia te deixar e até agora estou cumprindo a minha promessa. Você não sabe o quanto é bonito, e grande, e indivizível isso que eu sinto aqui, enquanto penso em você te sentindo e caso um dia saiba eu sei que vai continuar me deixando sentir e vai ficar até um pouquinho feliz de ter conseguido fazer nascer isso em alguém, você duvida tanto do seu potencial. Não vou te ligar, nem te procurar e nem aparecer na sua porta e nem ter excessos. Você sabe, amor é uma coisa tão leve, grande, tão sincera que nem cabe tudo isso, todas essas minhas idiossincrasias e essas minhas loucuras que você amava-e-odiava.
Amor é coisa de matar e morrer, mas tem gosto de sorriso, aquela senhora Hilst disse, alguma coisa assim eu sei que ela disse e por você eu mato, e morro até se um dia for preciso mas hoje você tem gosto de sorriso, ainda que longe. Eu e o Bob Dylan sentimos sua falta, ele me canta que the answer,my friend, is blowing in the wind e a gente sorri, porque sua falta é doce e meu amor é grande e guarda pra você um lugar no sofá e no coração que era pra eu querer morrer, mas não. Você pode voltar, não voltar, pode desaparecer no vento ou sei lá, mas eu te guardei em mim e só de você ter me feito amar eu já te devo meio mundo e é por isso que eu não espero nada de você, além de saber que você existiu, eu te amei, eu fiquei com o Bob Dylan e lembranças suas e que será doce. Porque as noites são solitárias, mas os boleros são sinceros e eu (ainda) tenho muito amor dentro de mim, com ou sem você.
Podia. Podia virar pra você, pedir pra você ter um pouco de decencia, de vergonha nessa cara, de ser um cara certo, corretíssimo, educado. Pedir pra me tratar com consideração, pra cuspir em mim logo duma vez já que você não quer nada além de saber que eu continuo ali quando você quiser me fumar, mas também tanto faz eu até gosto disso. Ia mesmo te ligar depois de muitos álcools na cabeça e de ter ouvido todas as nossas músicas se caso você resolvesse me deixar de vez, isso eu não suportaria. Daí me dizem que eu devo me dar ao respeito, parar de pensar em você, nas noites quentes, nas noites frias, nos julhos, nos dezembros, enquanto eu fumo, enquanto eu bebo, enquanto eu passeio, enquanto eu brinco com as crianças e eu digo pra eles irem se danar. Essas pessoas não entendem nada sobre amor e daí vem pra gente com toda essa parafernalha de orgulho, de se-dar-ao-respeito, de saber seu valor, de dignidade e o caralho todo e olha, eu vou explicar pra elas que tudo isso aí não combina nada com esses amores fleumáticos que eu sinto. Isso é muito controlado, se-dar-ao-respeito e orgulho é coisa de gente que não ama assim, sanguineamente. E olha, eu amo assim então ao inferno com isso de me colocar no meu lugar. Não vou, você sabe que eu não vou e eu vou ficar insistindo nisso de te amar. E olha, desinsistir ia dar tanto mais trabalho que eu prefiro continuar desse jeito.
É, eu estou vivendo a minha vida. Eu só penso em você todos os dias. Eu não tenho culpa também, a gente tem muitas lembranças, foram muitos anos e além do mais eu estou sozinha. E é normal que enquanto eu resolva fumar olhando a sacada e ouvindo Bob Dylan eu lembre de você. Oras, claro. Porque eu nem ocupar o seu lugar no sofá consigo, então às vezes eu até olho pro lado e penso em comentar alguma coisa com você, dizer como o céu está bonito ou só encostar no teu peito e ficar lá enquanto você me olha com aquela cara esquisita pensando que tipo de garota problemática e linda você resolveu escolher pra dividir a vida e o amor pelo Bob Dylan. E o Bob Dylan nem tem culpa, todo mundo gosta dele. Eu, você, milhares de outros casais, mas a gente gostava junto, e da mesma música, então isso me lembra você. O Bob Dylan, o cigarro, as coisas de casa que você gostava, sabe, tantas coisas guardam um casal que é impossível que as pessoas realmente acreditem nessa baboseira que dizer que te esquecer é mesmo algum tipo de nobreza, veja só, elas queriam que eu te odiasse. Odiar o homem que foi minha poesia e a minha canção por anos, isso é maltratar demais o amor. Eu quero lembrar de toda essa doçura que foi te amar e que não merece ficar pedra, dura, feia e cheia de coisas pra jogar na sua cara dizendo que olha, eu te amei tanto e olha só o que você fez com o nosso amor, você jogou fora e agora eu estou aqui fumando e chorando e eu quero mais que você se exploda junto com seu novo amor. Não dá. O Bob Dylan não escreveria uma coisa dessas, e nem o Chico no seu eu-lírico feminino mais recalcado se prestaria a uma bobagem dessas. E eu, toda literária que sou ia lá transformar nosso amor numa novela? No máximo num bolero, bolero são fleumáticos, mas sinceros e também não ficam aí orgulhosos dizendo não amar tudo aquilo que um dia amaram.
E eu te amei. Quer dizer, eu ainda te amo. Eu guardo todo o seu amor aqui dentro de um jeito que não é alegre nem triste, eu só guardei. Eu resolvi não entristecer demais porque não devo, e porque nosso amor nunca foi triste, mesmo depois de acabar então qual seria o sentido também de eu ficar murmurando o acabado com vinhos, cigarros e boleros? Não que eu não faça isso, até faço, mas o tempo todo não faz o mínimo sentido. E sabe, eu até estou feliz. Não assim, exalando felicidade o tempo todo, saltitando e vendo flores nascer, mas eu estou indo como eu posso. Eu encontro novos amores aqui e ali e me jogo, pulo, me aventuro mas sei que amor mesmo é isso que eu sentia e sinto por você. O resto são paixões e eu sou assim, cheia de paixões e eu só te guardo tanto porque você é a única coisa que eu amei, que eu pensei deixar ali do ladinho e guardar no meio dessas minhas loucuras, insanidades, dessas minhas latinices todas e essa minha alma fleumática. Desde o dia que eu soube que eu te amava, amor mesmo, esse sentimento puro, eu resolvi que eu não ia te deixar e até agora estou cumprindo a minha promessa. Você não sabe o quanto é bonito, e grande, e indivizível isso que eu sinto aqui, enquanto penso em você te sentindo e caso um dia saiba eu sei que vai continuar me deixando sentir e vai ficar até um pouquinho feliz de ter conseguido fazer nascer isso em alguém, você duvida tanto do seu potencial. Não vou te ligar, nem te procurar e nem aparecer na sua porta e nem ter excessos. Você sabe, amor é uma coisa tão leve, grande, tão sincera que nem cabe tudo isso, todas essas minhas idiossincrasias e essas minhas loucuras que você amava-e-odiava.
Amor é coisa de matar e morrer, mas tem gosto de sorriso, aquela senhora Hilst disse, alguma coisa assim eu sei que ela disse e por você eu mato, e morro até se um dia for preciso mas hoje você tem gosto de sorriso, ainda que longe. Eu e o Bob Dylan sentimos sua falta, ele me canta que the answer,my friend, is blowing in the wind e a gente sorri, porque sua falta é doce e meu amor é grande e guarda pra você um lugar no sofá e no coração que era pra eu querer morrer, mas não. Você pode voltar, não voltar, pode desaparecer no vento ou sei lá, mas eu te guardei em mim e só de você ter me feito amar eu já te devo meio mundo e é por isso que eu não espero nada de você, além de saber que você existiu, eu te amei, eu fiquei com o Bob Dylan e lembranças suas e que será doce. Porque as noites são solitárias, mas os boleros são sinceros e eu (ainda) tenho muito amor dentro de mim, com ou sem você.
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