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28.11.11

Tem coisa que tem que mudar

Minha monografia na pós de especialização web vai ser sobre conteudo colaborativo na internet. Como acabo pensando e lendo muito sobre isso o tempo todo, achei por bem separar os espaços. Esse sempre foi um blog muito pessoal (e por vezes muito íntimo), e os textos sobre tecnologia e sociedade não parecem coexistir muito bem com o resto dos outros textos daqui. Fica esse blog pra quando eu quiser fazer essa literatura marginal, e fica um novo blog pra textos como o da usp. Caso você, leitor, tenha gostado daquela reflexão sobre a usp, fique a vontade pra lê-la de novo - e saber outras coisas, nesse endereço aqui:


as vagabundagens pós modernas agradecem.

8.11.11

O retrato da minha geração.

vagabundagens pós modernas.

Minha geração ainda não tem livros, retratos, não tem um filme-voz, não tem nada disso. Minha geração é a geração que hoje luta, que hoje faz, que é o presente. Minha geração é a geração que hoje está ocupando a usp. Eu não queria falar sobre usp, sobre revolução, sobre maconha, sobre luta, sobre nada disso. Eu não queria porque acho irrelevante, porque acho chato, porque não julgava necessário emitir opiniões sobre isso. Eu nem tenho uma opinião formada, porque eu não estudo na usp. Eu não nasci em são paulo, eu não sei se o rodas é ou não é um ditador. Eu não entendo da militarização de são paulo. Tudo que eu sei, a tv me conta. Compartilham no meu facebook. Escrevem no meu twitter. Tudo que eu sei é a informação rasa, dos memes com o menino de gap e ray ban, a enxurrada de gente dizendo que, com o dinheiro dos pais, qualquer um é capaz de fazer a revolução.

Eu resolvi falar porque essa geração é a minha geração. Aqueles estudantes que ocupam a usp tem a minha idade. Eu poderia estar ocupando o prédio da reitoria da usp. Poderia, ou poderia achar tudo isso uma bobagem imensa. Eu não tenho o que achar porque eu não estudo na usp. Eu não sei quem está certo, quem não está, se a maconha é um problema, se a militarização é um problema, se os revolucionários de lá usam ou não usam gap, se são ou não sustentados pelos pais. Se a PM fazia o seu trabalho, se dentro do prédio da usp as pessoas foram ou não torturadas. Eu não sei. Eu sei que a minha geração é uma geração sem causa. Não estou falando dos revolucionários da usp, não estou falando dos ex-revolucionários da minha universidade, eu estou falando do que eu vejo. A gente não sabe porquê - ou pra quê - lutar. A nossa geração nunca teve ideais e os persegue de qualquer modo, porque todo mundo precisa de alguma coisa pra acreditar. Nós somos a geração de um deus que não há.

Estejam lutando por o que quer que seja os revolucionários da usp, seja por motivos contundentes como evitar a militarização da usp como projeto de governo, errado, dos governadores de são paulo junto com o senhor reitor da usp; ou seja pela simples vontade de fumar maconha dentro do campus, livre, debaixo das árvores, eles estão lutando por alguma coisa. Eu não quero defender aqui se isso é válido ou deixa de ser válido, mas o que eu enxergo na gente - e eu digo a gente, porque faço parte dessa geração de fim dos anos 80, começo dos anos 90 - é que a gente precisa de ideais, mas não os tem. Estejam lutando pelos motivos certos, ou errados, lutando certo ou errado, os meninos da usp não são ruins. Eles só estáo perdidos. Perdidos no mundo como eu estou. Perdidos porque somos uma geração que nasceu sem conflitos. No meio da liberdade, do liberalismo, do capitalismo já consolidado. Somos a geração que viu desenho animado na tv, que estudou em bons colégios, que passou no vestibular, que quer acreditar em alguma coisa, mas não sabe no que. Nossa geração não tem voz, não tem exemplo, não tem retrato, não tem james dean, não tem chico buarque gritando cale-se. Não tem nada.

Nossa geração dança nas boates ao som de lady gaga - talvez o maior expoente de contravenção dos meninos e meninas dos anos 90 -, e se compartilha no facebook. Nossa geração faz piada com tudo pra ser ouvida, amada, estrelada e retwittada. Nossa geração destituiu clarice lispector de sentido em um meme e ressuscitou caio fernando abreu em trechos perdidos no twitter. Nós citamos o escritor não lido da década de 80 porque não temos quem fale por nós. Não temos um momento histórico contundente, não precisamos ser contrários a nada. Tudo já aconteceu, as mulheres hoje trabalham, a corrupção já se entranhou, os políticos serão sempre assim, nós temos a nossa liberdade, nós temos opinião pra tudo, o tempo todo. Nós criamos ruído e não temos heróis. Não temos ícones. Somos vagabundos pós modernos, nos repetindo e querendo nos encontrar.

Toda a minha angústia com a história da usp se deu depois de ver as fotos das pichações na reitoria e da reação dos estudantes contra a PM. Citavam maquiavel nas paredes. Mquiavel e Chico science. Meninos vestidos de Gap e rayban se misturavam com o menino sem camisa que tentava declamar poesia pro PM, com uma flor na cabeça. Outros deles mostravam karl marx pro policial. Milhares de livros e ícones que não são nossos. As frases do marx já não valem nada contra o que quer que seja, o maquiavel não pode ser usado como reação em pleno século XXI e os hippies já fizeram essa revolução com flor e poesia, há pelo menos 40 anos atrás. Nossos pais fizeram a revolução com esses ídolos, e esses ídolos não são nossos. O marx não fala por nós, ele nem faz mais sentido. Nem ele, nem o maquiavel, e talvez nem mesmo o Chico Science, dentro desse contexto signifique alguma coisa. Mas nós repetimos padrões porque não sabemos falar. Se os estudantes da usp picham o A de anarquia dentro da reitoria é porque não há outra ideologia, não há mais ícones, modelos, não há mais deuses e então seguimos pegando emprestado tudo aquilo que já vimos acontecer. O marx, o maquiavel, a esquerda, a luta com flor e poesia, as frases escritas pelos estudantes que lutaram contra a ditadura. Nada é nosso. Nem o pensamento é nosso.

Nada é nosso porque seguimos compartilhando as coisas já escritas sem pensar sobre, seguimos declamando frases fora de contexto, refazendo sentidos otários, lutando por guerras que não existem. Deve existir no meio dos meninos tão criticados da usp, gente que realmente acredite naquilo que está fazendo. Também, é claro, deve ter gente que só está ali porque está, sem saber muito bem o que está acontecendo. Fiquei triste ao ver coquetéis molotov e frases de marx pichadas nos muros. Foices. Ideologias comunistas empoeiradas que não fazem mais sentido e a gente ainda repete porque não sabe o que pensar e nem fazer por conta própria. Somos uma geração perdida. Uma geração que protesta de gap e rayban, que declama poemas, que se veste de flores. Nós repetimos os modelos que vimos porque não sabemos criar nossos próprios. Não tem pecado nisso. Não tem pecado em termos sido jogados na pós modernidade e não sabermos como lidar com ela. Eu não sei, meus amigos não sabem e esses meninos da usp - desculpem - também não. É tudo meio jogado, meio esquisito, meio rapido demais pra que a gente realmente tenha uma postura critica e global sobre o que acontece com a gente. A gente não tem. A gente faz o que dá, meio de rompante. Nossa vida acontece na velocidade das notificações do facebook, nosso pensamento não ultrapassa os 140 caracteres do twitter. Somos mero compartilhamento de informação, readequação de ídolos e de sentido fora de contexto.

Nós não sabemos como lutar. Mas queremos - e fica nisso. A geração dos anos 70 nos criticará por não ter vivido a ditadura. Por sermos sustentados pelos nossos pais. Ninguém sabe lidar com a liberdade que nos deram. Nem eles, nem a gente mesmo. E nos perdemos. Jogando nossos coquetéis molotovs na rua como na revolução de 60, colocando flores nos cabelos e recitando poesia como nos anos 70, pintando a cara e citando marx como quem lutava contra a ditadura. Apenas repetimos modelos. Mas nós não somos ruins. Apenas estamos a procura de nossa própria voz, de nosso próprio retrato, de algo nosso. E enquanto não acharmos - reinventaremos. Desse jeito torto, esquisito, e meio ridículo, que é o que sabemos fazer - de garrafa na mão, fazendo a revolta no facebook. Nem a gente sabe no que acredita.

A revolta será transmitida na twitcam - e posteriormente, compartilhada no facebook. A pós modernidade é o retrato da minha geração. E castiga.

Os revolucionários da usp são o retrato da nossa geração. E contentem-se.

4.11.11

o slilêncio que precede o esporro.

estou cansada.

a vida faz um ruído que, por vezes, fica difícil suportar. rotina. me lembro de uma época em que metade dos meus textos reclamavam da rotina. os ônibus diários, as catracas, as pessoas com cara de vazio. mudaram os ônibus, os horários, mudaram também as pessoas - nem todas elas tem cara de vazio -, mas a rotina continua ali. o despertador sempre programado para a mesma hora, o mesmo caminho, as músicas, as lembranças. meio ridículo isso, esse parágrafo, esse texto, esse assunto, tudo isso - minha vida. o emprego vai bem, a vida vai bem - tirando o que não vai - e não tem lá muito motivo pro mundo parecer errado, p'ras tardes parecerem cinzas, não tem muito pra quê esse clichê todo, essa derramação.

acontece que o mundo faz um ruído que me impede de me ouvir. todo dia alguém está falando alguma coisa, te pedindo alguma coisa. os e-mails não param de chegar, existem layouts para fazer, existem e-mails pra responder, recados, mensagens, o celular apitando. a urgência. a urgência porque não se pode perder tempo nunca, porque temos que aproveitar a vida, porque cada noite de sono traz em si o peso de não estarmos produzindo. o peso do equilíbrio. os remédios, os psicólogos, as aulas de yoga. a cidade correndo, o tempo todo correndo, os computadores ligados, os carros que gritam as três horas da manhã em plena sexta feira. interação. somos interativos, tudo apita, tudo diz, tudo quer-dizer, tudo quer comunicar. a revolta da usp sem razão de ser, as fotos compartilhadas que gritam e calam numa mesma interface. as campanhas sem sentido, esse monte de gente vil, esse monte de gente que deseja a morte dos outros, esse monte de gente que não se ouve. não se ouve no twitter, no facebook e não se ouve na vida.

todo mundo se divertindo o tempo todo, bebendo muito, tirando muitas fotos, compartilhando, os sábados à noite que nunca podem ser vazios (por quê?), as sextas à noite que devem ser preenchidas, churrascos cheios de bebida, gente caindo desacordada na grama, vomitando no próprio cabelo. temos que beijar na boca ao menos uma vez por semana, temos que fazer sexo, temos que nos mexer, nos divertir nos divertir "o que tem pra hoje?" "o que tem pra amanhã?" "o que você acha disso?" a corrente da contra-corrente. a opinião da anti opinião. réplica, tréplica, quintúpla, décipla, o mesmo círculo vicioso, nenhuma conclusão. ninguém.é.feliz. o mundo faz um ruído imenso que me impede do simples, das noites na minha casa dormindo, dos livros, do meu celular sem receber mensagens. o mundo faz um ruído em que eu não me ouço mais.

quero ficar quietinha.

um monte de festa chata, de gente chata, de bebedeira chata, de assunto chato, de polêmica chata, de gente que eu não queria conviver mais convivo, de noite que eu não queria ir - mas vou. tudo pra escapar do ruído, das ligações, do celular que apita, eu nunca mais sentei pra conversar com ninguém no silêncio. silêncio sem twitter, sem rede social, sem facebook, silêncio sem música alta. filme em casa com o telefone desligado. discussão com lasanha e macarrão e só. tv desligada, violão. amigos, abraço, qualquer coisa dessas que comunique de verdade - sem ruído. sempre tem alguém no facebook enquanto a gente conversa, sempre tem alguém com o 3g, sempre tem alguém cheio de barulho no meio da gente que quer silêncio. eu quero silêncio porque eu não consigo me ouvir. não consigo. não consigo. paz. um momentinho só. um domingo fora, out, um domingo de filme, um domingo de conversa. um dia de paz. o ruído do mundo quieto por um instante que seja.

eu entrei em uma histeria louca, histeria de escrever o tempo todo. histeria. eu quero ficar quieta. um pouquinho quieta. pra pensar na vida que eu deixei passar, pra pensar nas coisas que eu disse, pra calar as coisas que eu digo demais - o tempo todo. pra sentir saudades, pra formular minha saudades, pra parar de ser hostil, horrorosa, fora de compasso. pra deixar de ser só mais uma, no meio do ruído terrível que tem sido existir. eu quero o silêncio, mesmo que seja o silêncio que precede o apocalipse, mesmo que o silêncio seja insuportável, mesmo que a solidão dê vontade de morrer. me desobriguem, me aquietem, me deixem num canto um momento que seja pra eu entender como é que funciona mesmo isso de existir, de lidar com os outros fora da tela do computador. como é que funciona mesmo isso de viver? eu acho que eu esqueci. amar eu nunca soube mesmo, mas existir tem doído. me deem o silêncio, uma vez que seja, o silêncio.

o vazio. o último suspiro antes da grande explosão. onde tudo começa de novo.
onde tudo ao menos começa.


3.11.11

é drummond, um dia a gente enxerga.

(a literatura estragou suas melhores horas de amor).