Me olho no espelho repetidas vezes. Esse rosto com esse cabelo não é meu. Identidade é um conceito flutuante, não é? Nunca soube quem eu sou. Nem loira, nem morena, nem ruiva. Hoje só estou cansada. De existir. Ouvi uma música hoje, depois de dois anos dela dedicada pra mim e só agora fui entender o que ela significava. Hoje, quando a gente não se ama mais. Se é que eu te amei um dia. "Guess how much I love you? Much more than that". De fato, ele me amava mais. Bem mais do que eu imaginava. Mas eu quis duvidar. Eu o amei bem pouco. Uns quatro ou cinco meses. Apaixonadamente. Depois virou amor. Depois amorzinho. Depois descobri o amor da minha vida ali do lado, e hoje nem amor da vida eu tenho mais. Não fazemos mais sentido. Tanto não fazemos sentido que ontem vi o amor da vida numa foto com a garota dele e quis desejar felicidades. Ele era um cara legal, ela faz ele feliz, ele merece. Só que ele ia me achar louca. Desejei baixinho: que sejam felizes. Não tem mais rancor. É a vida. "Não era pra ser". Queria meus livros de volta. Os meus malditos livros com as anotações, porque sou egocêntrica. E o pequeno príncipe da minha mãe com as minhas anotações infantis, mas foda-se. Sei lá onde ele enfiou essas coisas. Vai ver escondeu. Penso em comprar esses livros de novo. Pela primeira vez deixo de acreditar na estante compartilhada dos livros que o destino iria juntar. Procurar novos exemplares dos livros que ficaram com ele é a maior prova de que ele não existe mais em mim. Nem ele, e nem o sonho de uma estante compartilhada. Nada existe.
Nada existe e é mais difícil viver assim. Estou completamente sozinha. O fantasma do amor da vida não me assombra mais. Não comparo com os referenciais de outrora. Se alguém me deixar, o destino não vai me juntar de novo com o "amor da minha vida", porque já não existe ninguém ocupando esse posto mais. O amor da minha vida não era o amor da minha vida. É o amor da vida dela. Dá pra ver. Eles saem bem nas fotos e tem gostos parecidos. Nem tão parecidos assim. Mas não é disso que são feitos os amores. Os amores são feitos de atrações inevitáveis, e eu devia ter desconfiado que o amor tinha acontecido de verdade pra ele desde o dia que ele me deixou chorando na cadeira e foi embora com ela. Se ele me amasse, teria me buscado na cadeira. O amor da vida volta e busca a gente na cadeira chorando. Mas ele pegou ela pela mão e foi viver a vida dele. Hoje estão felizes. Difícil é ver que eu demorei quase dois anos processando o luto. Tudo bem que ele está mais magro, e mais feio, mas isso também pode ser porque eu não enxergo mais ele com os olhos do encantamento. Acabou-se. O amor da minha vida não era esse, esse é o amor da vida dela. E o amor da minha vida, quem será?
Me faço essa pergunta e acho uma bobagem. Às vezes queria voltar a ter 21 anos e estar naquela cadeira chorando por ter perdido meu grande amor. Tudo parecia mais puro quando eu tinha algo em que acreditar. Isso soa clichê. E babaca. Mas é pra ser assim mesmo. Hoje perdi a vontade. Sei que perdi a vontade quando repito baixinho pra mim mesma "o amor da vida não existe". Às vezes até caio na máxima aquariana de dizer que "todo mundo que passa pela nossa vida é um pouco o amor da vida da gente", mas fiquei velha pra isso. Velha pra isso e pra aquele ideal louco de liberdade que me encantava há alguns anos (ou meses) atrás. Preciso um pouco de coisas concretas. Coisas palpáveis. Coisas ditas de verdade. Canso de tentar entender o que me dizem no meio das entrelinhas. Não tem mais beleza nisso. Disse pro tal amor da vida uma vez, que ele não sabia brincar de amor e que eu estava muito velha pra ensinar, e que portanto deveriamos botar as coisas às claras logo de uma vez. Ou nos perderíamos. Não botamos as coisas às claras, mas acho que nos perderíamos de qualquer jeito. Hoje me sinto mais velha ainda. E mais cansada. Acho que qualquer pessoa vai se perder de mim de qualquer jeito. Até o amor da minha vida, se ele existir. Ele vai me ver sentada na cadeira chorando e eu vou sair correndo. Não acredito mais em nada. Nem em mim eu acredito. Sinto uma coisa e depois não sei exatamente o que foi isso, daí desacredito. Lido com tudo como se fosse acabar no momento seguinte, porque eu acho que vai. Não acredito que ninguém seja capaz de me amar e acho que tudo está fadado a estar perdido desde o princípio. Tenho medo. Desde aquele dia, naquela cadeira, tenho muito medo da vida. Fui abandonada chorando da única vez que resolvi admitir que amava de verdade. Não sei se aguentaria se acontecesse de novo. Sempre acho que o passo posterior a admitir que eu amo alguém verdadeiramente é ser abandonada numa cadeira. Chorando. Enquanto o ser em questão sai de mãos dadas com o verdadeiro amor da vida dele. Não tenho mais coragem.
Quando eu achava que ele vinha me buscar na cadeira era mais fácil. Desilusões atrás de desilusões porque eu tinha que continuar naquela cadeira esperando o dia em que o amor da minha vida viesse me buscar. E agora que eu sei que não é ele, como se procede? Não tem cadeira nenhuma pra continuar esperando. Não existe ninguém. Ninguém. Eu estou sozinha no mundo sem ter ao menos o fantasma da idealização pra me apegar. Tenho muito medo. Fico esperando certezas e sei que elas não virão. E mesmo que vierem, será que um dia eu vou conseguir dizer tudo isso de novo? Dizer tudo isso sem o medo de no momento seguinte a pessoa digna do amor sair por aí de mãos dadas com aquele que era o par dela? Estou velha demais pra acreditar em destino, designios, "se tiver que ser será". Até me forço, mas canso. Estou cansada, tenho medo. De repente você se ferrou tanto, sofreu tanto, passou tantas noites em claro que fica repensando se vale o sofrimento. Acho que não sei me jogar de cabeça. Também não sei ponderar, entrar em jogos de ego, ir passo a passo. Me desgasto. Me desgastei. Quero ficar naquela cadeira pra sempre chorando até que alguém venha me buscar. Alguém que prometa não machucar esse coração esquisito, cheio de feridas. Não sou a pessoa leve que eu era. A vida me botou muito peso nos ombros. Não tenho mais tolerância à frustrações. Não sei botar a cara pra bater. Não quero amar mais ninguém que não me ame de volta. Não quero mais aquela cadeira em que eu fui abandonada, chorando de moletom roxo. Mesmo que eu não use mais moletom. Mesmo que hoje eu saiba maquiar as feridas com corretivo e batom vermelho. Mesmo que meus all stars furados tenham sido trocados por sapatos de mulher. O coração cresceu dois anos e explodiu. Se aquece com moletons, usa all-stars furados e borra o lápis preto enquanto chora. Bate desajeitado, medroso, se encolhe na cadeira e não se atreve. Eu não me atrevo. Volto a ter vinte um anos, os mesmos cabelos descoloridos, o mesmo medo, fico encolhidinha no cantinho e choro baixinho pra ninguém perceber. Enxugo as lágrimas na manga do meu moletom manchado de comida. Não sei me portar perante a sociedade, erro as vírgulas e não quero mais sofrer por amor. Não tenho mais estrutura. Quebrei o espelho, torci o joelho, não vou mais jogar.
I'm pretty fucked up.
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20.3.12
20.2.12
Londrama
Rascunhei nos cadernos mil coisas pra te dizer e queria te explicar, solenemente, em forma de literatura bem produzida todos os motivos que me levaram a ser como sou, ou ser o que sou, ou ter me tornado enfim isso, assim, malfeito, mas preferi calar. Meus cabelos mal arrumados já não aguentam o peso de tantas escolhas e eu enfim descubro não precisar tanto assim ser aquilo que nunca desejava ser. Há outros caminhos, outras medidas, o ano se põe leve para que eu coma mais do que deseje ser magra e queira mais ser amada do que esquecida no canto da festa então eu só quero te dizer que: já parti.
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Me Myself and I
30.1.12
e se ele existir, que me deixe em casa.
Querido Deus,
Em primeiro lugar, não quero entrar no mérito da questão do fato de você existir ou não. Acho isso tremendamente chato, e até um pouco desnecessário. Chamo aqui de Deus, essa criatura qualquer que existe (ou não), num plano superior e nesse minuto é capaz de me ouvir. O senhor sabe (e eu imagino que saiba, porque muito falam sobre a sua onipresença), que eu sempre fui uma criatura muito perdida. Desde assim, desde sempre. E ultimamente, eu ando um pouco mais perdida do que de costume. Antes as coisas iam. Eu sempre detestei o presente em que eu era inserida (o senhor deve lembrar das minhas inúmeras reclamações), e sempre desejei estar dois passos à frente. Uma vez que chegava nesse passo à frente descobria odiar isso também, e entrava nessa insatisfação sem fim. Eu não sei se o senhor tem uma explicação pra isso, e mesmo que tenha, eu não sei no que nisso pode ajudar. Mas o que eu quero dizer é que, eu detestava o ensino fundamental, daí fui pro ensino médio e detestei, e fui pra faculdade e detestei e comecei a trabalhar e também detestei um pouco, mas até então eu não tinha parado. Esse mês eu parei, e sabe, olha Deus, eu ando mesmo muito perdida. Nos últimos anos eu fui me enfiando em tudo que podia. Porque, sei lá com que massa o senhor me fez, mas eu acabo mesmo conseguindo tudo aquilo que me proponho a conseguir (e até o que não me proponho tanto assim).
Sendo assim, passei no meu primeiro vestibular, fiquei com todos os caras que queria, namorei quem eu queria namorar, passei na primeira pós graduação que tentei, arrumei os empregos que me propus arrumar. E até aí tudo bem. Eu me frustrei aqui e ali, perdi um grande amor justamente porque sempre quis ter demais e acabei me atropelando, mas ok, é a vida, talvez você aí do céu tenha um propósito maior pra isso tudo. Fato é, que hoje eu estou aqui, sentadinha na minha cama, com milhares de dúvidas e eu só posso dizer que ó: eu me atropelei. Isso de conseguir tudo o que ser "quer" é muito legal quando você tem certeza do que você quer, mas no meu caso eu fui conseguindo tudo o que me apareceu. E agora é isso. Eu tenho uma vida que um monte de gente inveja, mas eu não sei se eu queria ela. Eu não sei se eu queria ser essa designer que eu sou, se eu queria com 22 anos já ter feito um ano de pós graduação, se eu queria ter namorado todos esses caras, e ter conquistado todos os caras que me propus a conquistar (mesmo quando eu não queria eles). Isso de não quebrar a cara nunca te bota muito pouco em cheque com a vida e te faz pensar que não tem mesmo o que pensar. Eu nunca tive uma frustração muito grande que me fizesse parar e pensar "olha, talvez esse não seja o caminho certo". Até que eu perdi o emprego. Esse emprego que, bem sabe o senhor, eu achava que não ia perder nunca. Aliás, toda essa trajetória até aqui me fez uma pessoa que acha que não vai perder nunca. Porque eu nunca perdi. Exceto aquela vez, aquele grande amor, que você sabe melhor do que eu, porque sendo deus, já deve ter me espiado chorando no quarto milhares e milhares de vezes.
E daí é isso. Me vejo aqui, pouco estimulada à qualquer coisa, meus amigos todos também, pouco estimulados. E fico esperando que o senhor (ou qualquer coisa que seja) me dê um sinal. Porque de uma hora pra outra, depois de tanta desilusão eu acho que eu dei pra acreditar em sinais. Me oferecem um emprego eu acho que é um sinal, uma nova pessoa aparece eu acho que é um sinal, a havaiana cai de um jeito diferente e eu acho que é um sinal. Porque o senhor bem deve se lembrar, ano passado eu entrei numa estrada que ia rumo à decadência, bebi bastante, minha mãe teve que me aguentar desmaiada na cama algumas várias vezes, eu aceitei todos os convites pra todas as festas, eu fiquei acordada até tarde, eu saí em dias de semana. Tudo isso pra ver se eu achava algum sentido, e o sentido não existe. Também não existe essa pessoa que você vai conhecer e vai ser capaz de mudar toda a sua vida, porque ela até pode mudar um pouquinho, mas todo mundo te decepciona, vez ou outra, o o filtro pra decepções vai ficando cada vez menor. E como o senhor já deve ter percebido, eu não ando com nenhuma tolerância ao fracasso. E também tem isso de arrumar um emprego e eu não sei nem com que raios eu quero trabalhar. Não sei de nada, e escrevo essa carta com um intuito meio infantil de que quem sabe alguma luz venha, ou a minha havaiana caia de um jeito diferente e isso seja um sinal. Só que o senhor bem sabe, que eu não gosto de havaianas.
Eu tenho sido muito forte. Eu, se fosse o senhor, me orgulharia de me ver daí do céu. Eu tenho sido muito forte porque faz dois anos que eu tive que lidar com o trauma mais relevante da minha vida e eu continuei vivendo. O senhor também deve saber que é desde esse dia que viver se tornou mais difícil, mais complicado e cheio de latas de cervejas e coisas que eu não-queria-tanto-assim. É que eu perdi a única coisa que eu desejei com certeza na vida, e depois disso, tudo ficou muito difícil de conseguir continuar. Eu nunca quis nada tanto assim, mas você sabe que ele eu quis. É difícil admitir que uma pessoa só foi responsável por boa parte de tudo que você fez de bonito na vida. Ele era meu equilíbrio, meu norte, minha espécie de deus particular (embora fosse bastante humano), e é estranho pensar que, caso ele ainda estivesse aqui, eu nem estaria endereçando essa carta pra você. Talvez a vida me doesse, mas eu estaria te sorrindo. Você deve se lembrar que eu costumava sorrir bastante, mesmo em meio às minhas depressões, quando ele estava aqui. Teve até um dia que nós dois paramos na sacada pra discutir sobre a existência desse tal de "Deus". Chegamos à conclusão que se o senhor existisse de fato, teria coisas mais legais pra se preocupar do que com essas nossas mesquinharias. E achamos a conclusão bem acertada, embora pouco soubéssemos (ou queríamos saber) sobre esses mistérios de vida & morte. Tinha isso de ver o jogo do barcelona, de fazer lasanha, das pequenas alegrias corriqueiras da vida. O senhor deve saber melhor do que ninguém que meu coração está cansado. Muito cansado. E com o coração cansado fica muito mais difícil conseguir o que se quer da vida. Principalmente pra mim, que nunca soube direito o que queria. Mas a vida é isso. Você viu que meus passos me tornaram designer e que sabe-se lá porque a vida tirou a única coisa que eu tinha certeza que queria de mim. E deu p'raquela outra garota que deve estar cuidando bem dele. Eu espero que esteja, pelo menos. E sabe, de repente ficou mais fácil de acreditar que tudo isso que aconteceu, aconteceu porque tinha que acontecer. Me conforta mais pensar que minha certeza não era a certeza certa, e que agora eu tenho que depositar minha esperança num outro lugar qualquer.
E sabe, se você estiver mesmo me olhando daí do céu, eu estou esperando por um sinal. É porque faz dois anos que eu não sei mais no que depositar a minha fé. Sabe, e eu nem falo de fé religiosa não. Falo de fé na vida, sabe? Fé no meu trabalho, num emprego, numa amizade, em planos, em um novo amor. Qualquer coisa assim. Eu tenho medo de me atropelar, mais uma vez, porque eu sempre me atropelo. E eu tenho medo de, em mais um desses meus atropelos, acabar perdendo a única coisa que eu tinha certeza de querer. Porque eu acho que eu vou encontrar outra coisa e ter certeza que eu quero ela. E essa coisa pode nem ser pessoa. Você entende o que eu estou falando? Eu acho que entende. Eu nem sei o que eu estou te pedindo. Você sabe que eu não sou de pedir muito, sou de me deixar levar. Não sei exigir muita coisa. Não da vida. Fico esperando por esses sinais, fico esperando que as coisas se encaminhem, se mostrem claras, que haja fé em qualquer coisa que seja. Não sei se o senhor está me ouvindo. E caso esteja, eu nem sei se o senhor gosta mesmo que a gente te transforme em literatura. Mas é tarde demais, eu já transformei. Fui eu mesma a escrever em outro texto que "nós somos a geração de um deus que não há". Eu não sei no que acreditar, eu não sei o que pedir, eu não sei o que esperar. Eu não sei nem ao menos o que devo fazer amanhã. Eu nunca soube. Você - ou a vida - me tiraram a única certeza que eu tinha, e pra isso eu tive que realinhar todos os meus planos de novo. E eu (espero) que exista uma razão bastante lógica pra isso. Que eu estou esperando o senhor me contar. Traga qualquer coisa até mim, uma pessoa qualquer, um sinal, um emprego, a oportunidade da minha vida, o dia mais feliz dos meus vinte três anos de existência. Vire meu all star do lado errado na rua, me faça tropeçar na frente do amor da minha vida, inviabilize o que eu quero, ou faça tudo se alinhar do jeito que deve, assim, fácil. Faz dois anos que eu vivo anestesiada, sem esperar nada da vida, sem fazer planos, sem querer nada de verdade porque a única coisa que eu quis a vida levou numa onda gigante e eu nem tive tempo de me reanimar. Só que agora eu cansei. Cansei disso, de me lamentar, de chorar molhando meu teclado frente às fotos dos dias que não voltam. Eu preciso acreditar em alguma coisa. E mesmo que você não exista, hoje eu preciso de você.
Em primeiro lugar, não quero entrar no mérito da questão do fato de você existir ou não. Acho isso tremendamente chato, e até um pouco desnecessário. Chamo aqui de Deus, essa criatura qualquer que existe (ou não), num plano superior e nesse minuto é capaz de me ouvir. O senhor sabe (e eu imagino que saiba, porque muito falam sobre a sua onipresença), que eu sempre fui uma criatura muito perdida. Desde assim, desde sempre. E ultimamente, eu ando um pouco mais perdida do que de costume. Antes as coisas iam. Eu sempre detestei o presente em que eu era inserida (o senhor deve lembrar das minhas inúmeras reclamações), e sempre desejei estar dois passos à frente. Uma vez que chegava nesse passo à frente descobria odiar isso também, e entrava nessa insatisfação sem fim. Eu não sei se o senhor tem uma explicação pra isso, e mesmo que tenha, eu não sei no que nisso pode ajudar. Mas o que eu quero dizer é que, eu detestava o ensino fundamental, daí fui pro ensino médio e detestei, e fui pra faculdade e detestei e comecei a trabalhar e também detestei um pouco, mas até então eu não tinha parado. Esse mês eu parei, e sabe, olha Deus, eu ando mesmo muito perdida. Nos últimos anos eu fui me enfiando em tudo que podia. Porque, sei lá com que massa o senhor me fez, mas eu acabo mesmo conseguindo tudo aquilo que me proponho a conseguir (e até o que não me proponho tanto assim).
Sendo assim, passei no meu primeiro vestibular, fiquei com todos os caras que queria, namorei quem eu queria namorar, passei na primeira pós graduação que tentei, arrumei os empregos que me propus arrumar. E até aí tudo bem. Eu me frustrei aqui e ali, perdi um grande amor justamente porque sempre quis ter demais e acabei me atropelando, mas ok, é a vida, talvez você aí do céu tenha um propósito maior pra isso tudo. Fato é, que hoje eu estou aqui, sentadinha na minha cama, com milhares de dúvidas e eu só posso dizer que ó: eu me atropelei. Isso de conseguir tudo o que ser "quer" é muito legal quando você tem certeza do que você quer, mas no meu caso eu fui conseguindo tudo o que me apareceu. E agora é isso. Eu tenho uma vida que um monte de gente inveja, mas eu não sei se eu queria ela. Eu não sei se eu queria ser essa designer que eu sou, se eu queria com 22 anos já ter feito um ano de pós graduação, se eu queria ter namorado todos esses caras, e ter conquistado todos os caras que me propus a conquistar (mesmo quando eu não queria eles). Isso de não quebrar a cara nunca te bota muito pouco em cheque com a vida e te faz pensar que não tem mesmo o que pensar. Eu nunca tive uma frustração muito grande que me fizesse parar e pensar "olha, talvez esse não seja o caminho certo". Até que eu perdi o emprego. Esse emprego que, bem sabe o senhor, eu achava que não ia perder nunca. Aliás, toda essa trajetória até aqui me fez uma pessoa que acha que não vai perder nunca. Porque eu nunca perdi. Exceto aquela vez, aquele grande amor, que você sabe melhor do que eu, porque sendo deus, já deve ter me espiado chorando no quarto milhares e milhares de vezes.
E daí é isso. Me vejo aqui, pouco estimulada à qualquer coisa, meus amigos todos também, pouco estimulados. E fico esperando que o senhor (ou qualquer coisa que seja) me dê um sinal. Porque de uma hora pra outra, depois de tanta desilusão eu acho que eu dei pra acreditar em sinais. Me oferecem um emprego eu acho que é um sinal, uma nova pessoa aparece eu acho que é um sinal, a havaiana cai de um jeito diferente e eu acho que é um sinal. Porque o senhor bem deve se lembrar, ano passado eu entrei numa estrada que ia rumo à decadência, bebi bastante, minha mãe teve que me aguentar desmaiada na cama algumas várias vezes, eu aceitei todos os convites pra todas as festas, eu fiquei acordada até tarde, eu saí em dias de semana. Tudo isso pra ver se eu achava algum sentido, e o sentido não existe. Também não existe essa pessoa que você vai conhecer e vai ser capaz de mudar toda a sua vida, porque ela até pode mudar um pouquinho, mas todo mundo te decepciona, vez ou outra, o o filtro pra decepções vai ficando cada vez menor. E como o senhor já deve ter percebido, eu não ando com nenhuma tolerância ao fracasso. E também tem isso de arrumar um emprego e eu não sei nem com que raios eu quero trabalhar. Não sei de nada, e escrevo essa carta com um intuito meio infantil de que quem sabe alguma luz venha, ou a minha havaiana caia de um jeito diferente e isso seja um sinal. Só que o senhor bem sabe, que eu não gosto de havaianas.
Eu tenho sido muito forte. Eu, se fosse o senhor, me orgulharia de me ver daí do céu. Eu tenho sido muito forte porque faz dois anos que eu tive que lidar com o trauma mais relevante da minha vida e eu continuei vivendo. O senhor também deve saber que é desde esse dia que viver se tornou mais difícil, mais complicado e cheio de latas de cervejas e coisas que eu não-queria-tanto-assim. É que eu perdi a única coisa que eu desejei com certeza na vida, e depois disso, tudo ficou muito difícil de conseguir continuar. Eu nunca quis nada tanto assim, mas você sabe que ele eu quis. É difícil admitir que uma pessoa só foi responsável por boa parte de tudo que você fez de bonito na vida. Ele era meu equilíbrio, meu norte, minha espécie de deus particular (embora fosse bastante humano), e é estranho pensar que, caso ele ainda estivesse aqui, eu nem estaria endereçando essa carta pra você. Talvez a vida me doesse, mas eu estaria te sorrindo. Você deve se lembrar que eu costumava sorrir bastante, mesmo em meio às minhas depressões, quando ele estava aqui. Teve até um dia que nós dois paramos na sacada pra discutir sobre a existência desse tal de "Deus". Chegamos à conclusão que se o senhor existisse de fato, teria coisas mais legais pra se preocupar do que com essas nossas mesquinharias. E achamos a conclusão bem acertada, embora pouco soubéssemos (ou queríamos saber) sobre esses mistérios de vida & morte. Tinha isso de ver o jogo do barcelona, de fazer lasanha, das pequenas alegrias corriqueiras da vida. O senhor deve saber melhor do que ninguém que meu coração está cansado. Muito cansado. E com o coração cansado fica muito mais difícil conseguir o que se quer da vida. Principalmente pra mim, que nunca soube direito o que queria. Mas a vida é isso. Você viu que meus passos me tornaram designer e que sabe-se lá porque a vida tirou a única coisa que eu tinha certeza que queria de mim. E deu p'raquela outra garota que deve estar cuidando bem dele. Eu espero que esteja, pelo menos. E sabe, de repente ficou mais fácil de acreditar que tudo isso que aconteceu, aconteceu porque tinha que acontecer. Me conforta mais pensar que minha certeza não era a certeza certa, e que agora eu tenho que depositar minha esperança num outro lugar qualquer.
E sabe, se você estiver mesmo me olhando daí do céu, eu estou esperando por um sinal. É porque faz dois anos que eu não sei mais no que depositar a minha fé. Sabe, e eu nem falo de fé religiosa não. Falo de fé na vida, sabe? Fé no meu trabalho, num emprego, numa amizade, em planos, em um novo amor. Qualquer coisa assim. Eu tenho medo de me atropelar, mais uma vez, porque eu sempre me atropelo. E eu tenho medo de, em mais um desses meus atropelos, acabar perdendo a única coisa que eu tinha certeza de querer. Porque eu acho que eu vou encontrar outra coisa e ter certeza que eu quero ela. E essa coisa pode nem ser pessoa. Você entende o que eu estou falando? Eu acho que entende. Eu nem sei o que eu estou te pedindo. Você sabe que eu não sou de pedir muito, sou de me deixar levar. Não sei exigir muita coisa. Não da vida. Fico esperando por esses sinais, fico esperando que as coisas se encaminhem, se mostrem claras, que haja fé em qualquer coisa que seja. Não sei se o senhor está me ouvindo. E caso esteja, eu nem sei se o senhor gosta mesmo que a gente te transforme em literatura. Mas é tarde demais, eu já transformei. Fui eu mesma a escrever em outro texto que "nós somos a geração de um deus que não há". Eu não sei no que acreditar, eu não sei o que pedir, eu não sei o que esperar. Eu não sei nem ao menos o que devo fazer amanhã. Eu nunca soube. Você - ou a vida - me tiraram a única certeza que eu tinha, e pra isso eu tive que realinhar todos os meus planos de novo. E eu (espero) que exista uma razão bastante lógica pra isso. Que eu estou esperando o senhor me contar. Traga qualquer coisa até mim, uma pessoa qualquer, um sinal, um emprego, a oportunidade da minha vida, o dia mais feliz dos meus vinte três anos de existência. Vire meu all star do lado errado na rua, me faça tropeçar na frente do amor da minha vida, inviabilize o que eu quero, ou faça tudo se alinhar do jeito que deve, assim, fácil. Faz dois anos que eu vivo anestesiada, sem esperar nada da vida, sem fazer planos, sem querer nada de verdade porque a única coisa que eu quis a vida levou numa onda gigante e eu nem tive tempo de me reanimar. Só que agora eu cansei. Cansei disso, de me lamentar, de chorar molhando meu teclado frente às fotos dos dias que não voltam. Eu preciso acreditar em alguma coisa. E mesmo que você não exista, hoje eu preciso de você.
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14.10.11
Entre o ser e o nada
Jean paul satre ou um outro filosofo qualquer disse que o ser humano esta fadado a uma terrivel angustia a partir do momento em que se dá conta da própria existência. Essr mesmo sartre escreveu um livro chamado a naúsea. Naúsea é o que eu estou sentindo agora. Nausea do existir. Quero vomitar minha vida pela boca. Quero nascer de novo. Quero ao menos conseguir revidar o tapa, sair da inércia, gritar a dor: voltar a sentir enfim. Porque hoje sou o ser - e o nada. Sinto meu coração na ponta da faca, sangra, mas eu não sei mais gritar. Estou cansada de existir - a naúsea.
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