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2.1.11

Minha cerveja, Teu cigarro.

Você me apareceu em um daqueles dias em que eu estava com preguiça de dizer "feliz ano novo". Antes da meia noite, ou depois da meia noite do dia trinta e um aquele foi o ano em que qualquer cumprimento me parecia irrelevante. E aí você me apareceu, calça jeans azul escuro, camiseta preta, camisa xadrez. Perdido, tímido, estranho, e com os tênis furados de quem já cansou de tanto andar - ou de tanto viver. Tanta gente esquisita e sem sentido no mundo, tanta gente que a gente não conhece, nunca-viu, a gente nunca sabe o que vai encontrar no minuto seguinte e, naquela dia, você era o meu minuto seguinte. Quis te desejar qualquer coisa bonita porque dentro dos teus olhos não tinha a minha vida toda estampada, nem retrospectiva, ou qualquer-coisa-assim pra querer te desejar, pra ter que te dizer "olha, você esteve comigo nos momentos mais difíceis, me ajudou e, foi tão-importante-pra-mim que eu só posso te desejar tudo de maravilhoso que existe na terra porque eu devo à você um milhão de coisas". Achei naquele ano uma carga tão chata dever coisas à alguém - a vida, principalmente. Era bom encontrar no começo do ano alguém com quem eu não dividi nenhuma carga dramática, e alguém pra quem toda a felicidade que eu desejasse não quisesse cobrir alguma tristeza, alguma dívida, gratidão que fosse. Eu podia te desejar um ano novo lindo, simplesmente porque você existe e eu acho que você deve merecer. E se não merecer também, só prova que o coração era mais aberto do que se imaginava.

Às vezes a gente cansa, cansa tanto dessas obrigações. Os recados que tem que chegar às pessoas amadas até a meia noite, as retrospectivas, as listas de coisas pra se fazer. Já fiz mil listas, planos, já pulei ondas, já tentei langeries de todas as cores possíveis e quer saber, o ano acaba que é o que tem de ser e pouco importa a cor da sua calcinha, quantas pessoas você abraçou ou se beijou uma pessoa ao tilintar da meia noite. Lembro de um ano novo com gosto de luz que culminou no ano mais desastroso de toda a minha curta existência, e nem é como se eu acreditasse em carma, mas aconteceu. Aconteceu também você, ilustre desconhecido que brilhou no meio dos outros ilustres desconhecidos naquela festa, naquele dia, e no meio da minha solidão. Qualquer coisa no seu existir tinha uma coisa-a-mais. Dizem que é nessa coisa-a-mais que nasce o amor e que é dessa coisa-a-mais que nascem os sonhos. Deve ser. A coisa-a-mais que não se explica, mas naquela noite morou ali, nos seus tênis rasgados. Tinha você, dois amigos, e você parecia mais preocupado em olhar qualquer coisa que seja, sempre pra fora. Out, out, out. O olho perdido nas estrelas, o copo de refrigerante na mão, um sonho qualquer, sei lá o que você sonhava. Eu, no meio daquela gente toda, eloqüente, brilhante, e transitante, em cima do meu salto alto, com meu batom vermelho e o sorriso fácil de quem confunde chegada de novo ano com entorpecência liberada. Meus copos de cerveja, você nem deve saber, costumam maquiar a minha timidez. Uma timidez louca, típica de quem parece querer o mundo mas espera de verdade uma pessoa, três conversas jogadas, e principalmente, o entendimento profundo sobre a alma de outro ser humano. Troca, encontro, reciprocidade.

Eu não queria nada a meia noite. Meia dúzia de abraços, um brinde, mentalizar "oxalá-que-o-ano-novo-seja-bom-oxalá". Histeria típica, uns gritos, fé, fé, fé. Toda a fé do mundo durando ali naquela contagem regressiva. Nenhum feliz ano novo especial, nem fazer planos, nem sonho nem nada. Do dia trinta e um pro dia primeiro. E fim. E te olhei. No canto, pra fora, sempre pra fora. Um cigarro apagado nas mãos, o copo de refrigerante meio vazio, os tênis furados, a solidão. Uma hora e você ainda não sabia o que procurava no céu. E eu não sabia o que procurava. Nunca soube. Mas você tinha jeito de quem tinha andado muito pra chegar até ali - teus tênis diziam. Tinha jeito de quem não acreditava em ano novo, em rito, em passagem. Mas tinha jeito de quem acreditava. Em quê eu não sei, mas acreditava. E então fui - do jeito desajeitado que sei entrar na vida das pessoas - ao seu encontro, despencando do salto, da compostura, da vida. De sorriso vermelho-borrado, de champanhe barato na taça. Fui até você na esperança de saber que fé era aquela, da onde vinha, pra quê? Eu só encostei do teu lado e fiquei olhando o céu. Você olhou pra mim, nem sorriu, nem fez nada. Só abaixou a cabeça e começou a procurar qualquer coisa que seja. E eu olhei pra você numa intenção louca de te encontrar, me encontrar, encontrar qualquer coisa e foi assim, sem pudor, sem rito, sem ensaio que eu quis te desejar feliz ano novo de coração aberto. Eu queria que você fosse feliz, não por gratidão, dívida ou pra te salvar da tristeza. Só queria te dar uma alegria qualquer. Alegria descompromissada, pura, daquelas que a gente dá e não espera nada em troca. E tropeçando nas palavras como estava bem acostumada a tropeçar, na vida, disse:

- Feliz ano novo.

Você me olhou, não entendeu, bebeu um gole do refrigerante, jogou o cigarro da sacada e ainda, olhando pra fora, respondeu.

- Feliz ano novo.
- Você acredita que desejar feliz ano novo traz mesmo um bom ano novo pra pessoa em questão?
- Na verdade não acredito, mas acho válida a tentativa.
- Você parece tão perdido, aqui, no meio dessa gente toda.
- Eu sou perdido no meio do mundo, eu acho.
- Todo mundo é, um pouco.
- Você parece razoavelmente integrada ao meio.
- É que voce não me viu tropeçando com esse meu salto alto, derrubando a champanhe e superando o pavor de abraçar desconhecidos.
- Você não tem lá muita cara de quem tem pavor.
- Tenho cara do que?
- De confiança exagerada.
- Por que?
- Porque veio aqui, se debruçou no parapeito, sem pudor nenhum e me desejou feliz ano novo. Eu sou um total desconhecido, isso só pode ser coragem.
- Mas é medo.
- Medo?
- Não tenho nenhum vínculo com você. É muito mais fácil lidar com o fracasso das relações que ainda não existem.
- Aceita um cigarro?
- Não fumo.
- Perfeitamente compreensível. Também não gosto de fumar.
- E fuma por que?
- Pra preencher as mãos.
- Do que?
- Do mundo, do nervosismo, da timidez. É como segurar na mão da confiança.
- Eu bebo pra isso.
- Não sei beber. Nunca soube.
- Perfeitamente compreensível, os refrigerantes são mais doces.
- É que de amargo já basta a vida.
- O que voce tanto olhava lá em cima?
- Nada, assim, exatamente. Tava pensando. Não gosto de ano novo, desse clima todo de festividade por um dia.
- Acho que é pra compensar o resto do ano.
- Toda a fé de trezentos e sessenta e cinco dias depositada em um dia só. Não era melhor dividir? Pequenos reveillons a cada semana.
- Fé em doses homeopáticas.
- Faz bem.

O barulho de fogos, o frio, as pessoas. Tudo tinha sumido do alcance enquanto você tinha comigo a conversa mais doce de toda a minha vida. A blusa xadrez em cima da camiseta preta, teus olhos verdes. Agora tinha como ver. Verdes, verdíssimos, cor-de-esperança. Os teus cigarros acesos um atrás do outro correndo na sua mão nervosa. Os olhos que olhavam pro céu - pra fora, out, sempre pra fora - e não pra mim. O jeito de falar baixo, quase enrolado, as frases certas na hora certa. O pensamento rápido, o refrigerante quente. Tudo aquilo junto, na noite de ano novo parecia ser as sete ondas que eu deveria pular. Te transpor em uma onda de cada vez, que é pra dar sorte.

- No que voce acredita?
- Não sei. Acho que era isso que eu estava tentando descobrir enquanto olhava pra cima. Você acredita em alguma coisa assim, específica?
- Não, nem em ano novo.
- Falta de fé, ou de esperança?
- Os dois.
- Menina, isso é cansaço.
- Você fala assim e eu me sinto uma velha.
- Não precisa ter passado por vários anos pra ser cansada. Às vezes um, na hora errada, basta.
- O meu foi o último.
- Eu também tô um pouco cansado. Mas foi de ano em ano.
- Anos ruins?
- Anos bons, anos ruins, que nem todo mundo. É que eu ainda acredito em alguma coisa. Não sei no que, mas acredito.
- Talvez ter te encontrado no ano novo seja um bom sinal.
- Acho que você taba me procurando. Tem toda a cara.
- De quem te procura?
- De quem procura qualquer coisa.
- De repente eu acerto.
- Menina, eu sou tímido.


- Meu nome é Fernanda.
- O meu é Fábio.
- O que te traz aqui, no ano novo, Fábio?
- Meus amigos. Com uma raciocínio simples "Você precisa sair de casa, Fábio. É ano novo". E me arrastaram.
- Não queria vir?
- Não me sinto bem em festas. Só faço fumar. Não socializo, não dá pra conversar direito, esse monte de gente gente e gente. E haja cigarro pra ocupar a mão.
- Você detesta tanto as pessoas?
- Não, eu gosto muito de pessoas. Meu problema é com o convívio social obrigatório.
- Eu estou te fazendo socializar por obrigação?
- Por incrível que pareça, não.
- Devo levar isso como um elogio?
- Vai ver.

- Você é sempre assim, tímido?
- Um pouco mais do que isso, na verdade.
- Mais?
- Sim, é que você fala bastante. Dá uma certa segurança.
- Achei que fossem os cigarros.
- Também.
- Você não quer ir ali pro gramado não?
- Posso ir.
- Vem cá, você nunca vai me olhar nos olhos não?
- Não agora.

Eu fui andando na frente e você ia do meu lado. Os passos curtos encarando os próprios pés. Uma mão segurando o cigarro, a outra no bolso. Você não sabia pra onde estava indo, mas ia. E eu ia te levando. Sem saber exatamente pra onde. Mas tinha flor, tinha gramado, e tinha umas estrelas. O total silêncio de duas pessoas que de uma hora pra outra resolveram trilhar o mesmo caminho. Os pés lado a lado. O destino era o mesmo, o fim não se sabe.

- Você não vai falar nada, o caminho inteiro?
- Quem conduz a conversa aqui é você.
- O que voce faz da vida?
- Estudo.
- O que?
- Ciências contábeis.
- E gosta de matemática?
- Odeio.
- E gosta do que?
- Filmes, livros, boa música e café.
- Mas disso não tem faculdade né?
- Suponho que não.
- Eu faço cinema.
- Já quis fazer cinema.
- É legal, mas não tanto. Obrigação criativa, sabe? Criação como trabalho. Não sei.
- Parece combinar com você.
- Por que?
- Não sei, voce parece que vive atrás de criar histórias.

- Pode ser aqui?

Apontei um banco embaixo de uma árvore.

- Pode.
- Quais são as chances de você superar a barreira intransponível do convívio social amigável até amanhecer?
- Com você as perspectivas são favoráveis.
- Bom saber.
- É esse teu jeito.
- Que jeito?
- De entrar na vida da gente sem pedir licença.
- Podia ter ido embora.
- Não, voce é agradável.
- Obrigada. É bonito aqui né?
- Bastante. E tem menos gente.
- Você vai mesmo continuar a três metros de distância de mim?
- Olha, menins, eu já estou mais perto de você do que eu ousei chegar de qualquer outra criatura.
- Quantas namoradas?
- Três.
- Amou quantas delas?
- Todas.
- Amor se constrói ou acontece?
- Se constrói.
- Então não amou nenhuma. Quantas demonstrações públicas de amor?
- Nenhuma.
- E a vontade incontrolável de querer guardar a pessoa dentro de uma caixinha para protegê-la de todo mal?
- Do que voce tá falando?
- De amor.
- Isso não é amor, é possessão.
- Esses teus tênis gastos não te ensinaram nada nada sobre a vida, Fabito.

Você permaneceu num silêncio ancestral que podia se ouvir de outra cidade. E eu cheguei mais perto.

- Se a proximidade estiver desconfortável, me diz.
- Como se tivesse alguma coisa que você tem vontade de fazer, e não faz.
- Você me conhece muito pouco.
- E voce quer me conhecer inteiro.
- Minha nova resolução de ano novo.
- Você é sempre assim, eloqüente?
- Só quando me interessam os encontros.
- E quantas vezes isso aconteceu?
- Várias. Mas poucas valeram o investimento.
- Quantas vezes você amou?
- Uma.
- E como foi?
- Aconteceu.
- Como?
- Amor não se explica, que coisa, acontece. E um dia você sente no peito a vontade inconsolável de não querer mais nada, além da outra pessoa.
- Você é louca.
- Amor é loucura, voce que nunca experimentou.
- Define amor.
- Amor não se define, se sente.
- E como é?
- É uma vontade louca de querer ouvir sempre a mesma música, sem enjoar. É um falar o nome da outra pessoa e sorrir, é imaginar um futuro sem medo é enxergar no fundo dos olhos da pessoa a sua vida inteira.
- Simples assim?
- O amor é. Mas sentir é sempre complicado.

Pela primeira vez você olhou nos meus olhos enquanto eu falava.

- Teus olhos são castanhos.
- são. normais, chatos, comuns.
- É que alguma coisa tem que ser assim em você.
- Você tá me dizendo que eu sou excêntrica?
- Não exatamente. Mas não é normal, nem chata, e muito menos comum.

Eu te sorri.

- voce descobriu o que procurava olhando pro céu? parou de olhar.
- Tem alguma coisa pra descobrir nos teus olhos, também.
- E o que é?
- Eu ainda não descobri, por isso não parei de olhar.
- Quando voce descobrir, você me conta.
- Qual o sentido desse encontro todo hei?
- Não tem que ter sentido, fábio, meu deus. Os encontros acontecem porque tem que acontecer. O destino da gente é se encontrar.
- E depois se perder.
- Quantas vezes você já se perdeu?
- Todas. Quantas vezes você já se encontrou?
- Nenhuma.
- Deve ser por isso que voce vive procurando.

E me sorriu.

- Se esse fosse teu filme, terminava como?
- Eu levantava, e ia embora.
- Assim? E o encontro?
- Aconteceu. O reencontro é mistério.
- E é assim que vai ser?
- Isso é vida, não filme, rapaz.
- Teu olho é castanho claro. Deve esverdear no sol.
- Esverdeia. O teu azula?
- Não. É verde. Convictamente verde.
- Combina com você. De uma cor só. Cor de esperança.
- E isso termina como, então?
- Não sei, amanhece, eu te puxo pelo braço e a gente vai rumo a uma aventura fantástica.
- Mesmo?
- Não. A gente continua conversando, até cansar. E se não cansar não para. E se der sono a gente dorme, e uma hora a gente vai pra casa. E se você quiser meu telefone eu te dou. E se você quiser me ligar quando eu acordar você liga. E se quiser me ligar numa terça feira cinzenta as três e quarenta da tarde pra me chamar pra um café você pode. Você pode ouvir uma música e lembrar de mim, e me ligar. E você pode me ligar e me chamar pro cinema. E você pode me esquecer por um mês, ou dois, ou por um ano. E depois pode ligar pra mim com a desculpa que passou por aqui, e se lembrou. Eu posso estar com o mesmo telefone, ou não. Ou posso ter encontrado um amor. Ou a gente pode sair amanhã. Ou você pode me chamar pra dormir na sua casa. E a gente pode transar, quem sabe. Ou a gente pode adormecer ouvindo música. E você pode me fazer um café, ou não. Ou a gente pode ter medo de se tocar e dormimos em camas separadas e depois acordar segurando as mãos. Ou você pode me beijar agora e me dizer que eu sou o possível amor da sua vida. Ou eu posso te beijar agora e te dizer o mesmo. Ou a gente pode sair daqui e não se encontrar nunca mais.
- A vida pra você é um filme com vários finais.
- A vida pra mim é real, e é cheia de possibilidades. Mais que o filme. Porque é real.

Nós nos sorrimos.

- Pra quem não me olhava você está me olhando demais.
- Eu não sei o que fazer. Não tem mais cigarro, não tem mais nada, eu estou bicho-solto na sua mão.
- Primeiro troca o cigarro pela minha mão. Se der certo, vai ser como segurar na mão da confiança.

E você me deu a mão.

- Se sente seguro?
- Como se eu nunca tivesse sido de outra maneira.
- Agora eu te levo.
- Pra onde?
- O destino é mistério.

E te segurei na mão, de tênis furado, tropeçando no salto, no desajeito, no sentimento. É que no meio da minha busca por nada eu te encontrei. E era ano novo, e tinha uma fé em alguma coisa. E eu seguro na sua mão e tenho fé em você, em mim, no mundo. Olho no teu olho e vejo, tem cor de esperança. Um silêncio tão lindo, tão doce. Os passos sincronizados, a estrada rumo a lugar nenhum. Você de repente começou a me contar as suas histórias, e eu te contei as minhas. E você me deu um pedaço da tua vida, que eu misturei com a minha. E a gente não sabia bem pra ponde estava indo, mas ia. E se deu o silêncio exato, o beijo certo, mágico. Debaixo de uma árvore, no amanhecer de um dia primeiro de um ano qualquer. O perfeito encontro, mais que beijo, mais que junção de corpo, saliva, língua. Era coração, pulsante, vibrante, eterno. Eu te desejei feliz ano novo e ganhei de presente uma vida. Te dei de presente um encontro. Te ensinei que o amor acontece, e troquei teu cigarro pela minha mão. Você se tornou a minha bebida. Num novo ano, nasceu um novo encontro. O reencontro é mistério.

15.7.10

Quebra cabeça de existência.

Talvez eu queria te olhar, dizer meu deus você era a minha única esperança nesse mundo, nessa vida, nessa minha existência. Era a minha única esperança agora pelo menos nesse instante era a única coisa em que eu estava me agarrando, e tudo isso, toda essa indecisão-indiferença, todo esse mistério sem sentido tem me feito mal, meu deus, tão mal que você se soubesse ia parar ia sumir ou ia dizer de um jeito estranho sem amor, sem sentimento sem nada que estava tudo bem, que ia dar tudo certo e que ainda havia esperança em algum lugar na vida, no mundo, nas pessoas, nas coisas todas. Mas você nem deve saber o que é isso. Eu descubro então que na verdade não queria te dizer coisa nenhuma dessas, porque na verdade você não é nem perto daquilo que a gente pode chamar de esperança ou sei lá o que. É só assim um nada, no meio desse monte de nadas que tem se tornado a minha vida. Desses buracos. Eu tento te pegar e dizer meu deus, vem cá, preenche esse buraco. Mas o buraco não foi você quem fez, fui eu. E não cabe a você nem a ninguém preencher. Como um quebra-cabeças desses de cem peças que perdem uma parte não adianta tentar colocar a peça que for no buraco, quebras-cabeças precisam de encaixes perfeitos. Assim também se faz com a vida, com o amor e comigo. Você não é a minha peça, a minha esperança, você só é esse nada no meio do monte de nadas que a minha vida virou desde que eu perdi uma peça. Um pedaço, uma parte, meu braço direito. E o quebra-cabeças fica lá, perdido, perdendo cada dia mais peças, abrindo cada vez mais buracos e é nessa ânsia de preenche-los que tudo que eu consigo é me perder cada dia mais. Nessa procura de peças erradas coisas erradas gentes erradas tudo que eu percebo é que só existe uma peça que eu perdi e só resta então conviver com o buraco até achar a peça de novo, ou quem sabe só aprender a conviver com o buraco, com o vazio, com o nada.

Diariamente.

29.5.10

(parece bolero-tequero-tequero)

Ah, se eu não tivesse me descoberto (com você?) essa enorme entusiasta do mistério, eu teria assim, que desistido de ti tantos e tantos dias atrás. Mas uma vez descoberta a coisa, não se pode (des)descobrir até ela se tornar inteira, até ela se fazer plena, até ela se fazer carne (podre ou pulsante) e não mais mistério.

16.12.09

Rock meu amor.

"e o divertimento está no início, falamos a mesma língua e sabemos o que queremos ser"


Faz pouco tempo desde que eu disse, ou escrevi – ou melhor mesmo seria apontar: guardei para mim – a beleza dos balões coloridos que te amar fazia nascer em mim.

E era simples assim: balões coloridos. Uma centena deles descendo de um prédio alto e colorindo a cidade toda – cinematográfico.

Tenho pensado em você, meu pensar aleatório em você que não conheces. Mas vou te contar. Tem um pensar aleatório em você que me atinge em horários inoportunos todos os dias, o dia todo.

E penso em você em camisetas verdes, pretas, azuis marinho ou beges. Penso em você em todas as cores e todas as suas cores me atingem inesperadamente. Uma paleta toda de cores e pensamentos que são só seus – exclusivamente.

E pensar em você é como aquelas propagandas bonito-bregas que aparecem vez ou outra de operadora de celular. Música calma e alegre e alguém andando e percebendo toda a beleza bonito-brega existente no mundo. E brotam palhaços, cores saturadas, balões coloridos pelo céu. Minha beleza infantil de te amar. Rock anos 80, meu estilo, sua sobriedade e meus óculos escuros imaginários te refletindo.

Sua camiseta verde-amarelo, meu amor você é tão bonito. Reflete em mim toda a beleza do universo, todo infinito e com você eu voaria por aí por quarenta e nove céus diferentes e outras e outras e o mundo todo.

Eu tenho um milhão de versos escritos “eu te amo”. Porque no fundo é simples assim, eu te amo e você faz caírem balões infinitos de cima da minha sacada. Exatamente do tanto que eu te amo – infinitamente e lindo.

"andcoolkidstheybelongtogether"

Melosidades oasionais em colsultórios médicos.

"last saturday we had chocolate. I belive in your love and I only wait"

Mesmo dentro da espera fria do consultório, da tarde que se mostra fria, quase nublada. Dentro do meu sono, meu cansaço, minha desexatidão. Ainda que eu conte com a eternidade dos dias – enormes, tristes, cansativos, todos iguais. Mesmo que haja dentro de mim uma confusa desilusão e que eu lute diariamente do exato momento em que acordo contra meu vicio de desistir e deixar tudo pra trás como copos quebrados no chão cujos cacos só cortariam a mim mesma. Ainda que eu lide com meus vazios inevitáveis, meus pedaços infinitos recobertos de um nada mais que imenso e ainda que tudo pareça inexato e confuso – quebra cabeça faltando uma peça. Existe uma beleza, uma beleza inexata que só existe nas coisas reais. A beleza das coisas pequenas. A beleza que só existe pra mim. A sua. A sua beleza vestida de camiseta preta, calça jeans e tênis. Simples. Simples como o seu sorriso, o sorriso-mais-bonito-do-mundo que torna todas as coisas pequenas e suportáveis.

27.10.09

a fabulosa arte de te ignorar.

(ou a difícil arte de.)


não vou te dar oi hoje. nem nunca mais. vou te ignorar. eu vou te ignorar pra sempre. você vai passar e eu nem vou olhar pra sua cara. não vou virar. Não vou te dar oi, não vou falar que você fica bem de vermelho. não vou fazer nada pra você nunca mais. nun-ca ma-is. você não merece, não responde as minhas mensagens e nem entende as minhas demonstrações de afeto. eu vou te ver e vou fingir que eununca te vi na minha vida. nunquinha. vou fingir que você nunca me fez sorrir, que você não é a minha companhia predileta. não vou mais te fazer café, não vou mais olhar pra sua cara e nem perceber que você tem o sorrisomaislindodomundo. nunca mais vou fazer o que for pra ver esse sorriso bonito de novo. não vou. vou te ignorar pra sempre e se me perguntarem de você eu vou fingir que não te conheço. você não vai receber pequenos mini textos meus dizendo sobre as coisas que eu vi e gostei, ou odiei, ou fui indiferente. eu nunca mais vou dizer pra você os filmes que eu acho que você deveria ver e nem os livros que você deveria ler. você pode passar por mim vinte e nove vezes repetidas com neons em luz azul que eu não vou reparar. eu prometi pra mim mesma que eu vou te esquecer e que a partir de agora você não faz mais parte da minha vida. você pode estar do outro lado da rua e do meu lado do ônibus que eu não vou me manifestar. vou ficar comigo mesma, as minhas músicas e não vou ouvir as coisas que me lembram você. nenhuma delas.vou te responder grossa e secamente e não vou mais te ligar pra perguntar se você não quer vir aqui em casa, e caso você apareça sem avisar não vou deixar você pegar nada. vou fazer questão de esquecer que um dia você já viveu em mim. Não vou te dar oi hoje. nem nunca mais. ou até amanhã. ou pelo menos até você aparecer surpreendente, com o sorriso mais -lindo-do-mundo me dizendo seu oi costumeiro seguido de uma piada sem graça que eu vou rir e daí eu já vou ter te respondido sem preceber por star muito ocupada pensando (e sentindo) "meu deus como eu amo esse cara".

(ou a impossível arte de).

26.10.09

Você me irrita de tal maneira que eu nem consigo te dizer o que eu diria facilmente pra qualquer pessoa por simples medo de te machucar. Mesmo que você esteja me machucando (mais) a cada dia.

19.10.09

Decepções.

Eu só te olhei e quis te dizer. Quis, pensei e ensaiei vinte e sete maneiras diferentes de como te ferir. Rápido, lentamente. Milhares de jeitos, assim. Milhares deles.
"Você está me decepcionando pra caralho" - era só isso que eu conseguia pensar, porque em resumo era só isso que eu queria te dizer. Medo de perder aquele-cara-que-eu-conheci, sentimento-de-posse, ciúme-sem-sentido, amizade-que-quer-ser-preservada, chame como quiser mas o fato é que eu estou tão numa corda bamba por ti e por mim que eu nem sei mais o que eu te falo, faço, faria.
Afastamento.
Seria esse o nome bem vindo pra coisa que a gente deveria fazer. Afastamento real porque quando existe um afastamento às vezes ocorre uma falta e existindo a falta as coisas talvez voltem depois, melhores, quem sabe.
De você eu já não sei mais nada.
E sei tanto. E é o tanto saber que me dói porque sei exatamente que o caminho que estás seguindo pode muito bem acabar de um jeito que a gente pegue dois caminhos completamente distintos. Coisa que eu não quero nunca quis, vem aqui eu-gosto-tanto-de-você.
Mas aguentar tantas decepções não é o que ninguém quer.
E por mais que eu saiba disso, de algum jeito, assim, torto, eu também sei que o pior de tudo é saber que mesmo que ocorram sessenta e duas decepções se um dia você voltar pedindo desculpas, ou mesmo sem pedir, se um dia voltar querendo só estar por estar vai ter sempre um pedaço de qualquer coisa pra ti e o meu colo literal, real ou simplesmente metafórico pra te acolher.
Sentimento.
Sentir qualquer coisa é sempre a pior coisa do mundo. Deixaria de sentir agora, já, em cinco minutos.
Não deixaria.
Escolher o sofrimento possível no lugar da ausência, (sua) ausência, sempre, sempre sempre.
Você está me decepcionando pra caramba, muito, bastante, pra caralho, um aburdo. Você está me machucando de jeitos que me fazem parar de respirar. Eu estou te vendo ir a corda que te ligava, ligou sempre-vai-ligar (?) a mim está sendo roída por coisas que eu já não tenho mais controle. De um descontrole total, absurdo, sem nome.
Estou.
E reclamo do que se sempre fomos assim?
Você está me decepcionando tanto que eu não consigo te dizer que está sem me machucar mais do que eu te machucaria se quisesse. E isso não vai mudar nada, nada em nada, pra sempre nada porque eu gosto tanto de você (ainda que) machuque pra caralho.

Amor.

24.9.09

sobre voce não sei dizer nada meu

"podia falar de quando te vi pela primeira vez sem jeito de repente te vi assim como se não fosse ver nunca mais e seria bom que eu não tivesse visto nunca mais porque de repente vi outra vez e outra e outra e enquanto eu te via nascia um jardim nas minhas faces"

Caio fernando que eu não gosto, gostava, agora leio e acho bom tilinta na minha cabeça versos que eu grifo para um dia te dizer junto as cartas que eu não mando e um skank velho que pergunta quantos versos sobre nós eu já guardei e te juro, não sei responder e então grifo negrito atrás de negrito a frase certa para dizer isso que eu sinto que eu não sei o que é, e nunca acho nada de bom, ou acho todas as coisas boas porque eu não sei nem o que exatamente eu queria te falar, só sei que são muitas coisas e que elas nascem de dentro como um jardim todo de flores na primavera e olha, eu só sei falar de amor agora e isso eu não sei nem se eu chamo de amor, mas eu não estou falando de nomenclaturas, você está? sei que não está e eu sei que eu tento falar tão rápido quanto eu penso, me falaram isso uma vez e eu achei bonito, é verdade, me faltam vírgulas pontos respiro pausa alguma coisa que me faça eu entender, mas eu nem sei o que eu quero te dizer que quando eu te vejo nasce um jardim dentro de mim cheio das flores mais bonitas e ainda que eu não goste tanto de jardim de flores de coisas bregasclichês dizer que eu estou com saudade ligar pra isso ou até mesmo te encher de mensagens sobre as minhas banalidades cotidianas, eu queria te dizer que eu passaria o dia inteiro me contando pra ti e te ouvindo e eu quero saber de todas as linhas de detalhes que eu (ainda) não conheço e espera eu quero te dizer que quando eu te vi nasceu um jardim dentro de mim, um jardim bonito imenso enorme que se tomou como erva daninha no meu coração e agora eu posso colher flores pra vender e fazer uma feira duas tres cinquenta e sete feiras de tantas flores que você fez nascer aqui dentro e são todas flores bonitas e tão parecidas comigo que eu tenho medo, eu tenho medo de acabar o nosso jardim com ervas daninhas estranhas olha aqui eu não sabendo o que te falar de novo mas é alguma coisa mais ou menos assim alguma coisa meio eu te amo e você fez crescer em mim o mais bonito, então muda pra dentro de mim logo de uma vez, coloca a sua casa decora do seu jeito do jeito que quiser, pode fazer o que quiser que eu deixo só promete continuar fazendo nascer flores enormes que vão tomar conta do meu coração e fazer colorido todos os meus cinzas, eu sou cheia de cinzas sabia? embora voce diga que eu nasci cheia de música eu sou é meio totatalmente completamente estranha então eu estou te dizendo, muda pra dentro de mim e fica pra sempre cuidando do meu jardim que eu cuido do seu pra sempre porque eu te amo e é isso que eu queria te dizer.

23.9.09

apenas mais uma de amor.

(pequena ode da coisa de sempre que não é embalada por lulu santos).

Então sento no meu computador munida de um chá com canela. Chá de maçã com canela, mas maçãs não dão gosto em chá, exceto nos chás artificiais com aroma artificial de maçã, mas não sou adepta de coisas tão artificiais assim, você sabe. E aí na playlist do meu programa de músicas tocam músicas que me lembram você e o gilberto gil canta quem-poderá-fazer-aquele-amor-morrer-se-o-amor-é-como-um-grão. E eu nem sei se acredito em amores que morrem e nascem trigo e vivem e nascem pão, ou o contrário, alguma coisa assim, embora quem sempre troque as letras de música seja você, de um jeito sempre engraçado.

Mas então te digo que eu queria te falar vinte cinco mil coisas, mas na verdade sei que não vou dizer nada e por isso como chocolates atrás de chocolates, todos os dias. e a grande verdade é, que mesmo se eu comesse todos os chocolates do mundo pra sempre eu ainda não saberia o que te dizer exatamente, embora eu saiba bem o que eu queria te dizer se pudesse. E faz dois anos já. Que eu queria te dizer coisas. Desde que você começou a aparecer na minha casa, com suas roupas mal cortadas e que a gente conversava, ou não conversava, mas a grande verdade é que eu sempre gostei de você. desde a primeira vez. Eu não sei muito bem, e eu ouvi em alguma peça, algum dia, que isso é o que chamam de atração inevitável, mas eu nem sei se acredito nessas coisas.

A gente pode chamar de a grande afinidade, se você quiser. A gente pode chamar de qualquer coisa, na verdade. Porque na verdade isso que a gente é nunca teve nome, mas eu um dia disse pra um amigo meu que a gente só ama quem admira e eu te admiro pra cacete, é verdade, embora nunca tenha te dito isso e nem saiba se um dia vou dizer.

Então um dia te sento na cadeira na frente da minha e tento vestir minha melhor roupa, mas meu cabelo estraga toda a conjunção de pessoa bem ajeitada que eu queria ser, e na verdade eu nem sei se você repara nessas coisas. repara? sempre te achei tão visual que eu acho que repara, então eu me policio bastante pra não sumir no meio dos meninos e ser mais uma pessoa que você chama de cara, embora eu também goste quando você me trata assim, e a gente age como crianças de colegial se dando soquinhos, porque eu pareço muito com a garota de treze anos que gostava de um menino que não gostava dela, mas os astros conspiraram para que fizessem aniversário no mesmo dia e isso criasse algum tipo de proximidade louca. Isso e o fato dela ter decorado os cento e cinquenta pokemons e lhe presentear com um pikachu, certo dia. E então lembra também que ela poderia ser a garota mais compreensiva de todo o universo quando gosta de alguém, e então se doou por inteiro um dia e todos os outros dias, até que um dia voltou pra casa feliz porque passaram o dia todo de mãos dadas enquanto ele dizia "ei, vem por aqui" e cuidava dela sem perceber. Mas aquilo não significou nada, assim, em histórias normais, porque não houve beijo, ou namoro, ou qualquer coisa que pudesse qualificar o momento como relacionamento, só que mal sabem as pessoas que bonito mesmo são esses amores que ficam pela delicadeza e não pelo ato e assim foi.

E aí eu queria te dizer, enquanto te sento ali e finjo uma articulação insuitada que sempre sempre sempre dá errado coisas e mais coisas. Mas é assim, um universo de coisas. Um universo coisas tão particulares minhas e nossas que são tão grandes, tão imensas que eu precisaria de um cigarro e um conhaque nas mãos, mesmo que não beba nem fume e saiba que você odeia odeia cheio de cigarro. Mas acho que talvez nem assim falaria nada das coisas que importam e bebericaria e fumaria, e te diria que olha, a fumaça fica até bonita em contraste com o escuro do céu, ou então faria alguma piada muito sem graça e você riria, ou falaria muito alto e acabaria por sentir vergonha de mim no momento que pisasse de novo no meu apartamento e te visse da sacada indo embora.

E dessas coisas que eu não quero te dizer, e quero, mas sei que não vou, mora aquilo de te dizer que gosto de você desde a primeira linha de conversa que tivemos, faz tempo, tanto tempo. E que eu cuidaria de você pra sempre e que eu te admiro pra cacete e que junto com isso, eu viro uma quinzeanista muito ridícula falando alto, quase gritando, histérica. Dizem que amor faz a gente meio assim, faz a coisa toda virar uma papagaiada de filme de comédia romântica muito estranha e louca com direito a tropeçar nos próprios pés, e nas palavras também, porque não? sempre sempre. Você me vê cair dia após dia. E me preocupo contigo mais do que comigo e olha, senta aqui, eu vou te falar todas as coisas. Que me mordo de ciúmes, que morro de medo que mudes demais e que não seja mais aquele menino que um dia eu conheci, desajeitado e lindo e que eu adorava ver rir e que eu queria e quero, e sei lá por quanto tempo vou continuar querendo guardar junto comigo pra privar do mundo e das outras coisas todas e dos perigos que são muito e rápidos. Tenho medo de te perder, de te perder de mim, entende? quero te dizer que eu gosto de você tanto, e é um tanto que quando a gente fala dá vontade suspirar e dói por dentro uma dor estranha e rápida. Espera, senta aqui, mas eu não vou te dizer essas coisas todas não, ainda não, você sabe que eu não consigo e estou tão doente por você que passaria todos os meus dias junto com você mesmo que não falasse mais nada e a coisa toda é tão doente que eu deixaria de te amar agora, nesse minuto e tomaria minha estrada rumo à coisas mais interessantes, mas espera, você é a coisa mais interessante que me aconteceu e mesmo que me doa de dar raiva eu sei que não vou pra lugar nenhum. Vou ficar aqui, esperando, um dia você me pega pela mão e diz "ei, vem por aqui" porque no fundo você também sabe, deve saber e se não souber que bonitos mesmo são os amores que são pela delicadeza de existirem e não pelo ato, e assim vai ser.

16.9.09

Te machucar.

O fato estranho de todas as coisas passam pelos gestos ensaiados sonelemente. sempre sempre um olhar no espelho antes de saber exatamente o que fazer. eu quero te machucar. machucar bem machucado como quem enfia agulhas pontudas e finas devagarzinho em diferentes lugares do corpo. só pra sentires mais ou menos do avesso o que é isso de te amar e não querer. te amar é mais ou menos quase bem assim como enfiar agulhas devagarinho em todos os lugares do corpo. dói de doer fino e estranho e dá vontade de tirar tudo de uma vez pra acabar logo com isso. mas te amar é dor cronica sem remédio ainda inventado e quero que sintas e proves da mesma dor. a exata, a mesma.

sentirás então a minha falta quando de subito eu resolvesse então sair da sua vida como quem sai de algum lugar que não gosta? rápida e freneticamente sem dar tchau e sem deixar vestígios. e então tento todos todos todos os dias me educar de faltas de você. e é quando percebo que as faltas de você doem tanto mais em mim do que em você. não faz muito tempo desde que de algum modo estranho eu importava na sua vida tanto quanto importavas na minha. acontceu então o dia do grande desreconhecimento, sem que ninguém percebesse e hoje o que eu olho não é você. não mais. e me decepcionas esse não ser mais. Quando foi? em que data exata aconteceu de desbalancear a nossa equação e eu ser pra você tão (menos) do que você sempre foi pra mim?

Não me responderias se eu perguntasse talvez porque nem vejas ou saibas o que acontece e continues então vivendo sua vida como sempre viveu e pensando em mil maneiras de conseguir aquilo que sempre quis e então às vezes eu olho para esse irreconhecível você e tenho vontade de sair correndo porque desse você eu não gosto, nunca gostei e manteria uma distância mínima de segurança só para quem sabe assim eu parasse de me machucar (tanto).

Mas fato é que sempre soube que te amar seria assim uma tarefa difícil, uma coisa que daria raiva por três minutos e depois acabaria. Tens total controle sobre mim. Não faz muito tempo que tens, mas tens. Começou a ter exatamente no dia que eu soube que você já não era mais meu. Me prendem as coisas que não são minhas e desde então me sinto- algo que alguma palavra que termine com "ente"- totalmente, solenemente, completamente ligada à você de jeitos que já não posso pensar em desgrudar.

Queria então que sentisses metade da ausência que sinto quando não estás e metade da preocupação que existe quando acontece qualquer coisa que seja com esse você que eu considero tanto. Considero, amo, chame do que quiser mas é sen-ti-men-to. E botamos os dois os pés pelas mãos porque de sen-ti-men-to a gente nunca entendeu nada. Tu pensas que entendes e eu escrevo sobre há pelo menos cinco anos, mas saber viver o tal sen-ti-men-to a gente não sabe; Eu estou aqui pra te acudir e eu, aah, nunca teve quem me socorresse e agora tudo que eu penso é em fazer você sentir a dor que é te amar assim, que sentisses a mesma coisa por mim nisso que a gente chama (chama?) de relação.

Te fazer sangrar com cento e vinte agulinhas de cores diferentes, devagarzinho, sorrateiramente assim. Te fazer se machucar e depois sumir de súbito. Sentirias então a minha falta como sinto a sua. Sinto-te em faltas e presenças todos os dias. Sentirias então? E então eu te digo que te machucaria só pra depois poder te curar pra mim. Te arrumar os pedaços, te colocar no colo e te dizer "vai passar, vai ficar tudo bem", porque eu sempre vou estar contigo.

Eu te amo, do avesso, do direito do contrário e da dor que é amar, eu amo.

1.5.09

para guardar em caixinhas.

eu nunca fui sua, mas você ainda é meu. Queria te guardar numa dessas caixinhas e abrir de vez em quando pra você me fazer rir com essa brincadeira de ser prepotente, pequeno gênio incompreendido. Nunca fomos. Não chegamos a. desisti, saí correndo, copos pelo chão e você nem precisou de explicações. Acordo mútuo entre bons amigos que sempre fomos, antes mesmo de querermos um dia, quem saber - ser. ser aquilo, bonito, duas pessoas solteiras, dois traumas passados, um novo-amor-quem-sabe-ele-é-tão-legal. um-novo-amor-quem-sabe-ela-é-tão-divertida. Te quero longe e muito perto. Minha dualidade necessária, garoto-problema predileto, aquele que eu adoro ignorar entre piadas em graça, coisas que são só suas e gostos que são só nossos. Criança grande, sonhador perdido, abraço alto, pra eu por um dia que seja me sentir quase pequenina. Adoro suas risadas altas, daquele jeito. adoro a sua total falta de jeito e a não cordialidade quase que ensaiada que vive flertando comigo. quase finjo ignorar sua mania de estar assim, como se sempre estivesse e tudo fosse seu. te gosto tanto tanto tanto e tantos tanto quiseres. te cuido. te guardo. me preocupo mais do que deveria e adoro. me fazes sorrir. tu talvez nunca mais seja meu. mas ainda seremos nós. amigos totais e fiéis.

25.5.08

Labios compartidos e vinho barato.

Quando eu te conheci, obviamente, você não parecia ser nada disso que eu vejo hoje. Ou isso que eu vejo hoje não é nada do que eu tinha conhecido. Eu não sei te explicar com certeza. Sei que estou acordada de madrugada, vinho barato na mão – daqueles que você adora, contrariando todas as minhas pretensões de parecer uma pessoa culta, porque no fim eu concordo com você que esse álcool melado sabor uva é quase melhor do que os vinhos caros que eu tomava antes de te conhecer – na taça, porque você tem que saber que eu também não gosto dos copos plásticos e nem dos de requeijão. É o que você chama de frescura, e o que eu chamo de não-sei-o-que-mas-eu-gosto-assim.

Pois estou eu aqui, nessa cena dramática de menina-que-mora-sozinha-e-bebe-de-madrugada, esse cigarro fedorento que você odeia numa mão, a taça de vinho de quatro reais na outra. Minha cabeça meio tonta, já se foi meia garrafa. Você vai me olhar – se você estivesse aqui, mas eu faço tudo como se de algum modo você estivesse me olhando – e dizer que eu não devia estar bebendo tanto e eu deveria parar de fumar. Eu sei de tudo isso, e na verdade, eu já parei de fumar. Por sua causa. Mas eu não te disse ainda e eu estou fumando aqui na sacada pra fazer um charme. Eu ainda gosto das formas que a fumaça toma em contraste com esse céu escuro. Você devia ver, ia gostar de tirar fotos disso. Você gosta mesmo das fotos em que eu não apareço.

Estou com o celular na mão, pronta pra te ligar outra vez, mas já é uma da manhã e você atenderia esse celular com aquela voz de sono de porque você me acordou dessa vez e hoje eu não estou com paciência pra isso. Eu só estou pensando em você, porque pensar em você é como respirar. Não era. Nunca foi. Lembro ainda do dia em que te vi pela primeira vez, aqueles seus cabelos mal cortados, seus tênis horrorosos, sua voz abafada e sua total falta de jeito para comigo. Eu não sei quando isso mudou, mas hoje sou eu que não tenho o mínimo jeito com você. Mas estou aqui, essa taça de vinho barato, minha dor de cabeça, meus pés gelados nessas meias sujando com essa poeira infernal, meus pensamentos suicidas desencorajados e você. Essa minha vontade de te esganar e essa coisa de pensar que você pode muito bem não estar dormindo e sim pensando em outra pessoa, vendo umas fotos de uma qualquer aí ou até mesmo ligando pra alguém nesse exato minuto que eu penso em lugar pra você. Você não é meu. Você só exerce um poder de auto-destruição sobre mim que os psicólogos adorariam estudar. Mas não precisa. Eu tenho noção exata do que acontece. Eu deveria te largar com essas suas calças mal cortadas, seu tênis sujo, sua mania de vinho ruim em copo de plástico, suas convicções estúpidas, esse seu jeito de se achar quase melhor do que todo mundo quando na verdade você é tão medíocre quanto. Devia te deixar aí, num canto com seu sorriso e com esse seu otimismo débil. Você devia ir embora levando as suas conversas e sua mania de não se preocupar comigo.

Esse frio que congela meu rosto. Se você estivesse aqui não ia fazer diferença nenhuma salvo eu ter meia garrafa de vinho a menos e não poder fumar. Você não é do tipo que empresta sua blusa. Além disso, eu não ia nem poder estar ouvindo essa musica em espanhol decadente e melosa que você deva odiar mais que tudo e que eu acabaria desligando pra colocar um dos seus róquiandiróusmodernetes e discordar de você quanto a melhor música do álbum, escolhendo justamente a que você mais odiou. Se você estivesse aqui, não ia me deixar ver televisão e ia implicar com essa mania de eu resolver fazer outras coisas que não ler no meu tempo livre.

Mas o que eu estava pensando mesmo, é que, não que um dia eu tenha achado que eu ia casar com você nem nada. Mas é que eu imaginava você e seus blockbusters, sabe? Esses seus heróis de brinquedo, suas brincadeiras infantis de um homem quase formado. Achei que eu sempre ia te achar a mesma conversa insuportável de sempre. Achei que eu nunca te ajudaria se um dia você chegasse vomitando na porta da minha casa, porque afinal de contas, eu odeio ajudar pessoas e principalmente as pessoas vomitadas. Mas eu me preocupo tanto... E eu não sou do tipo que se preocupa, você até deve saber disso. Mas você dorme no sofá, suja meu banheiro e eu te dou meu cobertor. Eu agüento o cheiro de azedo e ainda te digo que não me incomodou – mesmo tendo vomitado junto com você por causa do seu vômito – e que você pode contar comigo quando quiser. Você sorri, se desculpa com sua educação primorosa e me agradece com alguma piada que eu nunca riria se não tivesse sido você que tivesse me contado, simplesmente porque é estúpida. Assim como você.

Aí você me empresta um dos filmes que se eu tivesse visto sozinha eu acharia que era o tipo-de-filme-que-voce-meteria-a-boca-por-ser-tremendamente-sentimental. E aí não é. Eu choro, mas mesmo assim detesto as cenas que você amou e choro justamente na parte que você não prestou atenção. A parte que você não prestou atenção era a essência do que era eu, mas eu nem me surpreende porque você não presta mesmo atenção em mim e mesmo assim me conhece mais do que eu imagino saber.

Eu estou bêbada, essa sacada minúscula. Essa fumaça inundando todo o cubículo em que não cabe ninguém, eu aperto quando é você e eu, mas hoje eu me basto. Eu, as minhas taças de vinho barato, a fumaça do cigarro fazendo uns desenhos interessantes no céu escuro enquanto eu dou minhas baforadas e pareço uma dessas alternativóides que gostam de meninas e meninos e que usam franja, essa dor de cabeça e você dentro dela. Eu te desejo todas as coisas boas, você até deve saber disso e se eu soubesse melhor o que eu estou pensando eu te contaria amanhã logo que eu acordasse e resolvesse te ligar, como já é costume. Mas não, eu nem vou saber o que eu fiz essa noite e vou acabar dizendo mesmo que eu conheci uma música nova de uma banda que eu odiei, mas eu vou dizer que é legal só porque eu tenho certeza que você ia gostar.

Alguém me olhando de longe, um maço de cigarros acabado, uma garrafa de vinho também, agora só uma taça vazia e quente, meias sujas, frio sem blusa e pensamentos percorrendo você chamaria isso de amor. Eu chamo de qualquer-sentimento-e-ou-relação-se-é-que-se-chama-relação-dependente, ou eu nem sei que nome eu dou. Sei que a minha cabeça dói, meu hálito tem gosto de cigarro com menta – quem inventou essas babaquices? – e minha ressaca começou agora por causa desse vinho que você me ensinou a tomar. Mas dói mais ainda pelas coisas que você me ensinou a ser e mais ainda por saber que uma eu-sem-você ia ser completamente mais vazia do que essa que se embebeda e fuma enquanto ouve esse maná-música-de-novela-ja-no-puedo-compartir-tus-labios sem saber muito bem o que é compartir, mas sabendo que tem alguma coisa essa coisa de no compartir a ver com o que eu chamaria de nós se soubesse e se pudesse ser, mas que vai ser sempre você e eu.

13.5.08

whatever

Era a sacada, o filme, o livro ou as coisas todas, mas o fato é que eu queria ter você pra mim. E nem era só quando nossos olhos se encontravam ou quando eu ficava com muita raiva pelas coisas que você me dizia brincando. Era sempre. Era principalmente quando você não estava nem ali. Era principalmente quando você não estava ao alcance dos olhos. Mas era quando estava também. Era uma coisa arrebatadora e ridícula que eu desligaria com um simples apertar de botão se eu pudesse.



trecho de alguma coisa, escrita em parte alguma, achado nas folhas perdidas de meu caderno do ursinho puff entre uma poesia ruim e outra. coisas que não fazem muito sentido me arrebatam bem de madrugada. e isso é só um trecho de uma coisa que eu poderia passar sem postar, mas nao vou.