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8.11.11

O retrato da minha geração.

vagabundagens pós modernas.

Minha geração ainda não tem livros, retratos, não tem um filme-voz, não tem nada disso. Minha geração é a geração que hoje luta, que hoje faz, que é o presente. Minha geração é a geração que hoje está ocupando a usp. Eu não queria falar sobre usp, sobre revolução, sobre maconha, sobre luta, sobre nada disso. Eu não queria porque acho irrelevante, porque acho chato, porque não julgava necessário emitir opiniões sobre isso. Eu nem tenho uma opinião formada, porque eu não estudo na usp. Eu não nasci em são paulo, eu não sei se o rodas é ou não é um ditador. Eu não entendo da militarização de são paulo. Tudo que eu sei, a tv me conta. Compartilham no meu facebook. Escrevem no meu twitter. Tudo que eu sei é a informação rasa, dos memes com o menino de gap e ray ban, a enxurrada de gente dizendo que, com o dinheiro dos pais, qualquer um é capaz de fazer a revolução.

Eu resolvi falar porque essa geração é a minha geração. Aqueles estudantes que ocupam a usp tem a minha idade. Eu poderia estar ocupando o prédio da reitoria da usp. Poderia, ou poderia achar tudo isso uma bobagem imensa. Eu não tenho o que achar porque eu não estudo na usp. Eu não sei quem está certo, quem não está, se a maconha é um problema, se a militarização é um problema, se os revolucionários de lá usam ou não usam gap, se são ou não sustentados pelos pais. Se a PM fazia o seu trabalho, se dentro do prédio da usp as pessoas foram ou não torturadas. Eu não sei. Eu sei que a minha geração é uma geração sem causa. Não estou falando dos revolucionários da usp, não estou falando dos ex-revolucionários da minha universidade, eu estou falando do que eu vejo. A gente não sabe porquê - ou pra quê - lutar. A nossa geração nunca teve ideais e os persegue de qualquer modo, porque todo mundo precisa de alguma coisa pra acreditar. Nós somos a geração de um deus que não há.

Estejam lutando por o que quer que seja os revolucionários da usp, seja por motivos contundentes como evitar a militarização da usp como projeto de governo, errado, dos governadores de são paulo junto com o senhor reitor da usp; ou seja pela simples vontade de fumar maconha dentro do campus, livre, debaixo das árvores, eles estão lutando por alguma coisa. Eu não quero defender aqui se isso é válido ou deixa de ser válido, mas o que eu enxergo na gente - e eu digo a gente, porque faço parte dessa geração de fim dos anos 80, começo dos anos 90 - é que a gente precisa de ideais, mas não os tem. Estejam lutando pelos motivos certos, ou errados, lutando certo ou errado, os meninos da usp não são ruins. Eles só estáo perdidos. Perdidos no mundo como eu estou. Perdidos porque somos uma geração que nasceu sem conflitos. No meio da liberdade, do liberalismo, do capitalismo já consolidado. Somos a geração que viu desenho animado na tv, que estudou em bons colégios, que passou no vestibular, que quer acreditar em alguma coisa, mas não sabe no que. Nossa geração não tem voz, não tem exemplo, não tem retrato, não tem james dean, não tem chico buarque gritando cale-se. Não tem nada.

Nossa geração dança nas boates ao som de lady gaga - talvez o maior expoente de contravenção dos meninos e meninas dos anos 90 -, e se compartilha no facebook. Nossa geração faz piada com tudo pra ser ouvida, amada, estrelada e retwittada. Nossa geração destituiu clarice lispector de sentido em um meme e ressuscitou caio fernando abreu em trechos perdidos no twitter. Nós citamos o escritor não lido da década de 80 porque não temos quem fale por nós. Não temos um momento histórico contundente, não precisamos ser contrários a nada. Tudo já aconteceu, as mulheres hoje trabalham, a corrupção já se entranhou, os políticos serão sempre assim, nós temos a nossa liberdade, nós temos opinião pra tudo, o tempo todo. Nós criamos ruído e não temos heróis. Não temos ícones. Somos vagabundos pós modernos, nos repetindo e querendo nos encontrar.

Toda a minha angústia com a história da usp se deu depois de ver as fotos das pichações na reitoria e da reação dos estudantes contra a PM. Citavam maquiavel nas paredes. Mquiavel e Chico science. Meninos vestidos de Gap e rayban se misturavam com o menino sem camisa que tentava declamar poesia pro PM, com uma flor na cabeça. Outros deles mostravam karl marx pro policial. Milhares de livros e ícones que não são nossos. As frases do marx já não valem nada contra o que quer que seja, o maquiavel não pode ser usado como reação em pleno século XXI e os hippies já fizeram essa revolução com flor e poesia, há pelo menos 40 anos atrás. Nossos pais fizeram a revolução com esses ídolos, e esses ídolos não são nossos. O marx não fala por nós, ele nem faz mais sentido. Nem ele, nem o maquiavel, e talvez nem mesmo o Chico Science, dentro desse contexto signifique alguma coisa. Mas nós repetimos padrões porque não sabemos falar. Se os estudantes da usp picham o A de anarquia dentro da reitoria é porque não há outra ideologia, não há mais ícones, modelos, não há mais deuses e então seguimos pegando emprestado tudo aquilo que já vimos acontecer. O marx, o maquiavel, a esquerda, a luta com flor e poesia, as frases escritas pelos estudantes que lutaram contra a ditadura. Nada é nosso. Nem o pensamento é nosso.

Nada é nosso porque seguimos compartilhando as coisas já escritas sem pensar sobre, seguimos declamando frases fora de contexto, refazendo sentidos otários, lutando por guerras que não existem. Deve existir no meio dos meninos tão criticados da usp, gente que realmente acredite naquilo que está fazendo. Também, é claro, deve ter gente que só está ali porque está, sem saber muito bem o que está acontecendo. Fiquei triste ao ver coquetéis molotov e frases de marx pichadas nos muros. Foices. Ideologias comunistas empoeiradas que não fazem mais sentido e a gente ainda repete porque não sabe o que pensar e nem fazer por conta própria. Somos uma geração perdida. Uma geração que protesta de gap e rayban, que declama poemas, que se veste de flores. Nós repetimos os modelos que vimos porque não sabemos criar nossos próprios. Não tem pecado nisso. Não tem pecado em termos sido jogados na pós modernidade e não sabermos como lidar com ela. Eu não sei, meus amigos não sabem e esses meninos da usp - desculpem - também não. É tudo meio jogado, meio esquisito, meio rapido demais pra que a gente realmente tenha uma postura critica e global sobre o que acontece com a gente. A gente não tem. A gente faz o que dá, meio de rompante. Nossa vida acontece na velocidade das notificações do facebook, nosso pensamento não ultrapassa os 140 caracteres do twitter. Somos mero compartilhamento de informação, readequação de ídolos e de sentido fora de contexto.

Nós não sabemos como lutar. Mas queremos - e fica nisso. A geração dos anos 70 nos criticará por não ter vivido a ditadura. Por sermos sustentados pelos nossos pais. Ninguém sabe lidar com a liberdade que nos deram. Nem eles, nem a gente mesmo. E nos perdemos. Jogando nossos coquetéis molotovs na rua como na revolução de 60, colocando flores nos cabelos e recitando poesia como nos anos 70, pintando a cara e citando marx como quem lutava contra a ditadura. Apenas repetimos modelos. Mas nós não somos ruins. Apenas estamos a procura de nossa própria voz, de nosso próprio retrato, de algo nosso. E enquanto não acharmos - reinventaremos. Desse jeito torto, esquisito, e meio ridículo, que é o que sabemos fazer - de garrafa na mão, fazendo a revolta no facebook. Nem a gente sabe no que acredita.

A revolta será transmitida na twitcam - e posteriormente, compartilhada no facebook. A pós modernidade é o retrato da minha geração. E castiga.

Os revolucionários da usp são o retrato da nossa geração. E contentem-se.

17 comentários:

Anônimo disse...

Perfeito. Sou dessa geração também e não vejo escapatória. Não temos em quem nos apoiar...

@natacha_o disse...

Também sou dessa geração e não tenho nem mais o que falar, você já disse tudo. E muito bem.

Juliana disse...

Confesso que tenho muita preguiça de replicar seu texto, mas discordo de quase dele todo. Pegando gancho em algo que você mesma disse, isso é pós-modernidade, é misturar tudo é colococar fascimo junto com comunismo. Não é que não tenhamos em que nos apoiar, é que temos muita coisa para nos apoiar. E não tem essa de não temos mais ídolos, não temos poetas, não temos revolucicionários, pobres órfãos de ideologia. E falar que os ideais de Marx, Maquiavel, etc estão empoeirados e ultrapassados, é ridículo. Alguém vai falar que Newton, Planck, ou mesmo Pitágoras são ultrapassados e empoeirados...

É isso =X

Kleberson Marcondes disse...

Admito, nesse mundo pós moderno, encontrar alguém que assuma as suas duvidas, que fale do que pensa e outras coisas mais é bem difícil. Eis aqui o legado de nossa geração. Poderia eu dizer que se trata de fato, do evangelho nosso de cada dia. Tudo está se repetindo e de maneira claro, tu toca as feridas que não são nossas, mas que gostamos de estampar. Deve ser penoso tentar criar, pois essa também é minha geração: final de 80, inicio de 90. Minha gente não passa de fotocopias da gente da minha mãe que viu a ditadura, da minha avó que mesmo distante, ouviu falar de uma grande guerra do outro lado do planeta. A minha geração, é essa que concordo em gênero, número e grau.

Chaves disse...

Muita coragem sua mexer com Marx. A grande maioria dos socialistas moderninhos e politizados são como cristões que seguem convenientemente as palavras de Deus ao mesmo tempo espalham os dizeres do senhor como indiscutível.

Mexer com Marx é tirar o chão e abalar o rumo de muita gente por ai.

Lucio Uberdan disse...

Olá Larissa.
Ótimo artigo, parabéns. Não concordo 100% com ele, mas divulguei e acho que apresentas questões relevantes sobre os limitações políticas da juventude atual. As implicações pós-modernas, as fraquezas ideológicas e a rapidez da juventude hiper-conectada são bons exemplos. Registro: Acho que Marx não está empoeirado, assim como outros pensadores clássicos, a situação econômica atual e a volta aos estudos de Marx na economia é um exemplo disso no mundo, mas concordo concordo com você no fato dele (e outros) serem ainda "nossos ídolos", fruto em muito de um vácuo de sentido político na atualidade.
Parabéns, até+

Larissa. disse...

Só pra esclarecer, eu não acho que o marx como um pensador esteja empoeirado. Na economia e nas ciências políticas acho de suma importância que ele seja estudado, pensado, reproduzido. Nenhum pensador clássico empoeira de fato. É necessário que se estude, é necessário que se entenda o pensamento. Tudo é válido. O que eu quis dizer é que no contexto inserido, citar marx e maquiavel é talvez, ingenuidade. Não implantaremos o comunismo, a revolução, a luta de classes. Há mais o que se pensar. Existe revolução além do marx. Tudo pode ser reproduzido, desde que haja pensamento crítico em cima. O que eu quis dizer com não termos mais ídolos ou ideologias é o fato de simplesmente reproduzirmos conceitos sem pensar se isso, hoje, é de fato aplicável. Há duvidas de que o comunismo funcionaria se implantado na época em que foi pensado, imaginem isso hoje. Falta criticidade na gente, nos marxistas, falta criticidade nas ideologias. Um mundo ideológico também não é bom. Um mundo crítico é. Só quis reproduzir o meu sentimento de estar perdida. Da avalanche de informação que nos bota em contato com tudo ao mesmo tempo sem pensarmos sobre. Espero que tenham entendido, mas cada um tem o direito de discordar da maneira que bem entender.

Obrigado pelos comentários, sempre válidos. Seguimos.

polooeste disse...

Acho que faltou dizer que as gerações são criativas não pelo que elas "criam", "inventam", pelas imagens que são feitas dela. O principal trabalho criativo de uma geração não está em estabelecer aquilo que lhe é próprio, mas justamente nas leituras e releituras que ela faz do mundo que chegou até ela, do trabalho das outras gerações. É essa a principal maneira que uma geração cria os eu lugar no mundo, e é a partir daí que ela tem condições de inventar algo.

Mas daí, no final das contas, não teria sido dito nada nesse post.

Letícia disse...

Uma outra face da sua geração. Veja a pesquisa em: http://osonhobrasileiro.com.br/
Há quem está perdido buscando refeerência no passado. Mas, há quem se apoie no ideal de um agora melhor, de pequenas mudanças e de colaboração que faz diferença.

Jader Moraes disse...

Muito sensível seu texto. Parabéns!
Discordo aqui e ali - e nem sei se concordo com o argumento principal. Mas concordo com relação aos nós provocados pela pós-modernidade (seja lá o que ela signifique). Também sou da sua geração. Não sei se encaro isso da mesma forma que você. Mas de alguma forma me identifiquei com seu texto.
Obrigado por ele!

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto. Precisamos da juventude conectada, mas nao alienada. Refletir cansa, tem que usar massa encefálica (própria, não a dos componentes eletrônicos). Falta que entendam isso. É melhor conviver com a falta de ídolos do que conviver com ídolos de má índole, mau caráter. No entanto, há "pensadores" que são ignorados ou menos valorizados. Neste mundo louco, na corrida por dinheiro e sucesso aparecem Dalai Lama e Tich Nhat Hahn que falam de coisas muito simples e ao mesmo tempo muito complexas... Mas acho que envolve algo que a juventude não curte: a religiosidade. Parabéns e muito sucesso. Por ser uma menina do bem, você merece um futuro maravilhoso. Gassho.

Jackal disse...

Artigo espetacular. Falta foco e falta pensamento próprio nessa geração ao invés de ficarem reciclando ídolos de uma maneira que banaliza tudo já feito por eles.

E compartilho da sua opinião sobre esse caso da USP, diferentemente dessa maioria que nem tento mais entender, eu não acho que seja uma ideia ter uma opinião sobre tudo, eu nem sei o que pensar direito dessa história.

Essa nossa geração é algo que me preocupa muito.

Luiz Eduardo disse...

Realmente somos dessa geração.... E por termos tido uma infância tranquila, estudado em bons colégios e sermos sustentados pelos nossos pais, esquecemos pelo o que realmente vale apena lutar (não que os estudantes da USP não tenham suas razões). Mais no mundo ainda existe gente passando fome, ainda existe guerra, preconceitos, pessoas morrendo em filas de hospitais, mendigos e viciados em crack, e a violência e a corrupção são cada vez maiores. Acho que precisamos ter o olhar certo para saber o que realmente importa, e lutarmos por algo que realmente valha à pena. Não sei se a nossa geração conseguirá fazer isso mais quem sabe gerações futuras consigam!

Alexandre Girardi disse...

Bá, guria, só gostaria de te dizer que você não tem noção sobre o que faz ou não sentido, hoje. Falar que Marx ou Machiavelli não faz mais sentido é dizer que não existe tradição (que é o transportar de geração a geração) e que o homem nasceu no século XX. Seu texto é muito bem articulado, você parece ser minimamente inteligente. Apenas penso que te falta leitura e estudos mais radicais do que a navegação em wikipedia. A bem do exemplo da absurdidade que falas, George Soros, capitalista do agora, disse ter como livro de cabeceira "O Capital" que é o livro mais atual para entender o que se passa na economia mundial.
Este meu comentário é só um apelo a sua pessoa, porque eu imagino que você tem capacidade de se formar intelectualmente; e em nada concerne às questões que se passam na USP.
Um abraço,
Alexandre Girardi.

Alexandre Girardi disse...

Desculpe-me, fui apressado. Acabei de ler seu próprio comentário com sua retificação. Minha pressa foi causa do susto de ler o não-sentido de Marx ou Machiavelli, hoje. Mas, entendi o que disseste, agora. Dizes a partir daquele contexto uspiano, tão-somente.
Bueno, o perigoso, quanto ao que falaste, é que mui bem pode não ser Verdade e Realidade o que fora argumentado por Marx e Machiavelli. Mas o sentido, este é imprescindível; principalmente, quando se lida com o humano, onde afirmar uma verdade absoluta é besteira. O que se pode é fazer leituras da realidade.
Bueno, mais uma vez, pela pressa, desculpas.
Abraço.
Alexandre Girardi

Matheus disse...

Percebi que reduzes Marx ao comunismo. Não faça isso... Antes de tudo, como a geração da segunda metade do séc. XIX (Schopenhauer e Kierkegaard, principalmente) Marx é um crítico de Hegel em vários sentidos, que vai desde a apologia do Estado até a própria lógica da História...

Anônimo disse...

Quer algo para se apoiar ? Participe de qualquer coisa ligada a reparação de danos feitos ao planeta nessas últimas décadas, ninguém percebia, ou pelo menos fingia, que estávamos sugando e destruindo a mãe de todos, o planeta terra, tá ae uma bela causa para se envolver.