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4.7.11

do fundo do poço.

E ela estava encolhida no cantinho do quarto, chorando baixinho, se cortando baixinho com as navalhas imaginárias que a vida deu. Essas navalhas que não são de metal nem de aço, essas navalhas que não fazem sangrar a pele - essas navalhas que perfuram o coração de uma vez só. Esse coraçãozinho machucado, menina. Esse coração estraçalhado de dor & desamor, com todo o desamor do mundo morando lá dentro. Desamor, cansaço, falta de vida. É tanta coisa que de repente vai morar no coração da gente. Desapercebidos, assim. Os longos suspiros de um surto que era ciclico. Vez ou outra ao chegar do trabalho, ao ouvir um comentário meio maldoso vinha um choro com barulho, um choro sem fim nem começo - mas que doia. De repente o mundo não era mais mundo e ela flutuava. Flutuava porque não fazia parte e não era um flutuar leve. As coisas iam de um lado pro outro, rápidas, como quem queria engoli-la. E ela corria. Corria e chorava e as lágrimas caiam sem controle nenhum. Só caiam. Uma cachoeira inteira de dor invadindo aquele rosto novo e cansado de junhos e julhos tristes e pesados. Tontura, vertigem, o mundo embaçando, o barulho fica alto. "Deus, o que você quer dizer com isso?" ela grita. Porque ficou abandonada, no meio do nada, no meio do cinza. Os carros passam, e passam as pessoas, e as luzes também passam e tudo aquilo quer engoli-la e ela num esforço terrível e meio ridículo de tentar sobreviver, de tentar respirar no meio do ar rarefeito do mundo - o ar que o mundo a impediu de respirar.

O mundo às vezes impede a gente de respirar, às vezes a gente de depara com esses lapsos de não-normalidade, pequenas alterações na linha-reta-e-constante que se faz a vida. Pequenos surtos baixinhos, no canto da sala e no meio da rua. Ela tinha surtado ali, no meio da rua, seis e meia da tarde, horário de rush. Saiu do ônibus, se deparou desrealizando, despersonificando e foi. As lágrimas caiam, a vida parecia sem sentido, o respirar era dolorido. E depois teve essa outra vez, meia noite, no quarto, no cantinho da parede se cortando de levinho com as navalhas imaginárias do coração. E tudo isso é decadência, o fundo do poço, tudo isso é falta de vida, falta, falta, falta - ausência. Todos os cafés do mundo serão tomados afim de produzir úlcera. Todas as drogas existentes serão experimentadas na esperança do alívio. Todos os cigarros serão fumados pra que saia ar (mesmo que sujo) de onde já não se respira. Morrer é um acidente do acaso, é uma curva na vida, é o fim inevitável. Toda bebida do mundo será ingerida para causar embriaguez. Zen budismo, religião, existencialismo, cabala - qualquer coisa. Uma estrada que redime e destrói ao mesmo tempo, é nisso que ela queria entrar. A cada nova desilusão um gole, a cada nova frustração um trago, a cada nova perda um calmante com wisky. A cada novo alívio, a destruição.

Todo clichê é perdoável.

Experimentar todos os corpos, todas as oportunidades, todas as pequenas ofertas da vida. Beijos sem compromisso, sexo casual e navalha no coração. As músicas que tocam ao fundo não tocam mais o coração. As pessoas ao lado são irreconhecíveis. Tudo é um misto de interesse & hedonismo. Tudo é cansaço e preguiça. E dor. Microagulhas entranhadas embaixo da pele, uma a uma, preparadas para fazer sangrar aos poucos a dor que é estar viva - e ter se perdido. Não existe estrada para a felicidade, não existe amor, não existe esperança e o fim é inevitável. Numa vida das oito às seis, ela se esconde embaixo dos seus casacos pretos e seu batom vermelho. Ela está cansada, os balões não colorem o céu e a vida não é um filme, afinal. Nem uma minisérie em apenas um capítulo. A vida - a vida dela - é uma poesia suja, marginal, sem métrica e nem rima. Poesia decadente de páginas grudadas, perdida na estante de um sebo que ninguém nunca vai entrar.

No fundo do poço só se vê o chão.

É que depois de tanta esperança falsa, de tanto amor em vão de tanta energia gasta, de tanta perda, de tanta estrada que não era - e nunca foi - caminho, o olho se cega pra luz, a saída não existe mais e a gente chafurda a cara na lama. Se a gente ficar morre, mas se for lá fora é a vida - e a vida também mata. Mas mata de cansaço, de desilusão, de desamor, de frustração, de preguiça e de descaso. E se é pra morrer, que seja em paz.

Um comentário:

Daniel disse...

e a gente chafurda a cara na lama