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15.11.10

batom vermelho na pontinha do nariz.

Eu te olhei e quis te dizer: Você não deve confiar nessas meninas de batom vermelho que vomitam Godard e Caio F. Assim, Caio-éfe e um ponto logo depois. Porque essas meninas se diferem do resto da legião de outras pessoas que gostam do Caio Fernando por não dizer seu nome completo. 'Caio-Fernando-Abreu'. O puto morreu de AIDS, todo fodido, nos anos 80 era um cara triste, porra. Um cara meio sem dinheiro, não vivia esse glamour de twitter e redes sociais, sabe lá da onde surgiu tudo isso. Fabricaram um Caio F. Essas meninas, são todas fabricadas também". Mas não disse. Fiquei pacientemente te ouvindo falar o quanto era "fascinante" (puta palavra de viado) essa intelectualidade da Fernanda. Era mesmo. Ia ser mais fascinante ainda quando ela resolvesse imitar uma daquelas meninas problemáticas dos filmes que ela tanto gosta e resolvesse te dar um pé na bunda enquanto fuma um cigarro e fala dos astros, botando a culpa na conjectura de escorpião em vênus e te chamando de "baby". Você parece não saber que na ficção sempre há um jeito bonito de ser triste, mas na vida real tudo é apenas triste.

Eu te ouvia balbuciar aquelas suas coisas sobre amor, como você ia ser feliz um dia e tudo o mais, e sentia vontade de te abraçar. Não sei porquê, era só a eminência de um fracasso tão grande que eu queria te abraçar antes que a dor viesse e tomasse conta de você. Você, de novo encantado com meia duzia de intelectualidades, querendo tomar café no Champs Elysees. Sei lá o que você imagina, talvez que a Carla Bruni cante a cada vez que alguém coloque os pezinhos em Paris, eu não sei. Mas acho que você imagina andar de bicicleta e fazer piquenique, tirar foto de turista no arco do triunfo e achar tudo aquilo "fascinante". Quantas mil coisas você acha "fascinantes" que não são eu, eu fico pensando. Devem ser muitas. Deve dar pra trilhar um caminho daqui até os Champs Elysées com elas.

Eu lembro que eu até te disse um dia. Que ia ser assim, você ia me conhecer e me achar belíssima, mas depois ia correr pra alguém bem menos complicada. Dito e feito, só que você foi se encantar pela biscatinha do Caio F. Você realmente acha que essas pessoas que vomitam citações são repletas de poesia? Elas são meras vomitadoras de poesia, eu não sei o que você pensa da vida. Você fica aí me contando o quanto ela é legal, e decidida e que ela fez com que você a achasse encantadora, que vocês ficam horas discutindo essas bandas que você nem gostava e esses filmes que você nem via, mas é tudo tão cheio de arte de arte e arte. E ela é tão linda te mostrando isso que é saber o que quer, de batom vermelho e encarando o mundo com a pontinha do nariz.

Vou te contar o que é estar repleta de arte. É um saco. Pra começar a gente fica cheia de problemas, desses problemas que você prefere não ouvir. Não sabe se relacionar com as pessoas, fica num misto entre o ser doce e o ser amarga. Fica numa eterna coisa cheia de melancolia, que olha, nem mil citações do Caio Fernando iam dar jeito. Foi isso que ele fez, sabe, inventou a própria literatura. É isso que eu fiz também, poetizei minha própria dor. Quem sabe daqui trinta anos alguém de batom vermelho vá me achar linda e saia me citando enquanto encara o mundo com a pontinha do nariz. Tomando café, discutindo música inglesa. Dizendo "eu me sinto tão assim". Se sente "tão assim" coisa nenhuma. Tem tanta dor dentro dessas almas aí cheias de "arte" que não é nem bom pensar. Eu preferia mil vezes estar te encantando de batom vermelho e te contando dos mil fimes que eu vi, do que ser assim, essa bagunça.

Sabe, essa dor é tão profunda que não cabe isso de me dizer assim, que nem vômito. Eu tenho certeza que essa tua nova menina fala de amor com a maior naturalidade do mundo, depois fala de sexo também. Depois te escreve um texto poético te dizendo o quanto ela está apaixonada por você num misto de romantismo e foda. Isso mesmo fo-da. Com essas palavras. Porque ela se livrou das amarras, dos vícios, das tristezas. Só cita. E diz. E sente, e coloca coração e diz que pulsa pulsa pulsa. Eu também poderia te amar num misto de romantismo e foda. E meu coração também pulsa. E eu também transbordo de sentimento, o tempo todo, desfaleço de tanto sentimento. Sentimento, amor, carinho, tesão, qualquer coisa assim. Só que sabe. Eu sou o outro lado. Eu sou aquilo que as pessoas citam. Eu sou a arte dentro delas. Tudo aquilo que não cabia e se transformou em.

Eu não uso batom vermelho, não sei citar meus filmes sem parecer uma bagunça e no segundo seguinte parecer toda viceral. Sabe como eu conto dos meus filmes? Com sentimento. Porque alguém me indicou, porque eu me identifiquei ou porque eu vi a beleza do mundo dentro de uma única cena. Exatamente assim. E você me olha embasbacado me achando estranha por quase chorar ao citar a última cena de beleza americana. Sabe como eu guardo meus livros? Por identificação de almas. Alma de escritora que sente, que sabe que vai morrer no segundo seguinte e que vai perder o fôlego na próxima vírgula. Catárse. É que eu não sei ser menos bagunçada, menos sentimental, menos problemática. Eu não sei encarar o mundo com a pontinha do nariz. Não de batom vermelho, pulando no seu colo, te dizendo as coisas que você quer ouvir. Não desse jeito louco, ensaiado, personagem de livro. Não sei te mandar um recado com uma frase bonita que não tenha sido eu que escrevi sem morrer de vergonha é que eu não sei ser nada que não seja eu mesma, assim, te olhando baixo e fundo enquanto você me conta dessa nova garota, que vai te foder em todos os sentidos - do literal ao literário - e eu fico pensando que eu só queria que você não sofresse, baby. Eu só queria te dizer que eu te amo de coração-pulsante, com toda a beleza que há em mim. Que você me transmuta numa pessoa melhor, que eu te daria metade do meu mundo. Eu te diria qualquer coisa assim, eu queria te dizer. Mas eu só sei ser desinteressantíssima e fora de compasso e te largar com um abraço forte te dizendo "eu espero que você seja feliz, baby, muito feliz". Sem batom vermelho. Sentindo o mundo cair na pontinha do nariz.

3 comentários:

Layse Moraes disse...

você é ótima, sabia?
comecei a ler e fiquei meio que viciada nesse texto.
muito bom. mesmo-mesmo.
a propósito, menininhas que citam caio f. e que nunca pegaram um livro dele em mãos também me deixam louca.
um beijo.

Luciano Costa disse...

na ficção sempre há um jeito bonito de ser triste, mas na vida real tudo é apenas triste

na ficção sempre há um jeito bonito de ser triste, mas na vida real tudo é apenas triste

na ficção sempre há um jeito bonito de ser triste, mas na vida real tudo é apenas triste

po, essa foi foda.

Luis disse...

bah, concordo com o Luciano. essa frase aí foi uma punhalada (e totalmente verdadeira). mas bem, todo o resto é igualmente brutal.

texto bonito, e essa banalização do Caio é complicada, mas também tem seu lado bom: divulga boa literatura.
pelas mãos erradas, mas divulga.