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18.4.11

Cócega e buraco negro.

Às vezes penso em criar histórias bonitas, imensas metáforas que expliquem qualquer coisa que não sinto, qualquer coisa dessas que não vivi, mas não. Chego a uma conclusão lógica: não tendo ninguém em minha vida só sei falar sobre mim. De mim em relação à mim mesma. Como foi desde o princípio, agora e sempre. Assim, meio profético, meio religião, meio cristão e meio culpado. Eu parafraseei por tempos a minha emoção, tentei me contar de variadas formas, inclusive inventando outros personagem. Quis, como qualquer outro ser humano quer, me entender, me observar de longe como se eu fosse na realidade outra. A outra que ama um outro que também não existe e vendo tudo isso de uma certa distância quem sabe entender o que se passou. Mas passou, hoje não quero mais. Também espero muito pouco me entender. Já sei de mim. Sei dos meus vícios, das minhas crises, da minha mania preguiçosa de postergar ações pra àquele amanhã que é muito mais metafórico do que real, aquele amanhã que tem gosto de nunca, de eternidade que não se cumprirá. Sei que sou assim enquanto a vida exige foco e sei que subjetivo tudo aquilo que as pessoas buscam matematizar.

Hoje subjetivo. Também já somei muito. Já fiz de amor contas matemáticas incríveis, onde a compatibilidade somada com a afinidade e a altura certa caminhariam para a perfeição assim, de imediato. Hoje sei que sentimento é muito mais uma indefinição do existir do que um querer consciente. Sentir é um jeito de tapar os buracos que a existência enfia na gente, de forma até meio cruel. Cheia de buracos então, a pessoa busca tapá-los com um outro ser, também cheio de buracos e tudo que se espera é que se tampem os vazios mutuamente e que formem então, os dois juntos, algum tipo de ser completo capaz de suportar o enorme buraco negro que vamos alimentando - e aumentando - a partir do momento em que nascemos. A grande verdade é que por mais que você formule o ser ideal, você nunca sabe quando e como serão realizados os preenchimentos de alma, e às vezes eles acontecem muito desavisados, descompassados e tão fora de hora que você nem se dá conta que só se sente algo perto de um ser pleno porque do seu lado (real ou metaforicamente) existe outro ser, também buraquento, mas que espera ser pleno e que é por causa dele que existe alguma plenitude na sua vida. A grande coisa é que isso acontece várias e repetidas vezes, os buracos são tapados de maneiras diferentes a cada vez e não existe um padrão, nem regras nem um manual de instruções de como agir com tudo. É muito normal nos seres humanos que eles tropecem, descuidem e estraguem as relações das quais participam. É também notável a incrível capacidade desses mesmos seres em forçar a plenitude, projetando a felicidade em alguém que não pode supri-la. Tentativas desenfreadas de tapar buracos por pessoas que não podem tampá-los, coisa que só faz alimentar o tal buraco negro da alma.

É que talvez a regra da alma seja ser esse imenso buraco negro. A regra é o vazio, o imenso, o infinito. A exceção é o preenchimento das vontades. A sensação de eternidade palpável, que não incomoda nem dói. Talvez seja isso o amor. Uma certa aceitação da estranheza que traz a eternidade. Um aquietamento. Um sorriso em meio a dor. A aceitação do estado de dor e vulnerabilidade como coisa palpável, e bonita. A plenitude em existir. Talvez seja isso. Talvez o amor seja na verdade o que eu pensei esses dias. O amor é fazer cosquinhas. O amor é como se alguém estivesse fazendo cosquinhas em você. As cócegas te fazem rir, mas ao mesmo tempo te deixam sem ar. Te dão uma sensação de que aquilo nunca vai acabar. É bom e ao mesmo tempo sufoca. Você gosta do que recebe mas ao mesmo tempo não quer mais. Você sorri em meio a uma sensação de aflição. A pessoa que faz as cócegas sente prazer com o seu riso ao mesmo tempo que sente prazer com a sua aflição. Ela possui a outra pessoa nas mãos. Sabe que é a responsável pelo riso e pela aflição. É só ela que pode parar o riso e a aflição. E a pessoa que recebe as cócegas quer que aquilo pare, mas ao mesmo tempo não quer. Pois gosta de rir, e gosta também da aflição. Gosta de ser possuida por outra pessoa. Gosta da vulnerabilidade, do riso e do sufoco. Durante a relação muda quem faz as cócegas e quem recebe. Às vezes é um, às vezes é outro. Mas a plenitude do amor acontece mesmo quando os dois sorriem, o fazedor de cócegas aquieta, beija a outra pessoa e os dois riem e se deitam abraçados.

Achei que isso definia, um dia enquanto andava na rua.

A grande verdade é que eu não sei de amor, nem de cócegas faz algum tempo. Não tanto, mas faz. Hoje encontro pequenos "tapa-buracos-existenciais" em cada canto. Um amigo, um affair, um possível-amor, um amor-impossível. A plenitude da vida tem se feito sozinha. Nos livros, nos filmes, nas novas pessoas aqui e ali. Nos momentos como esse. A minha alma continua um imenso buraco negro, e às vezes suga. Desacredito nos meus buracos tapados já faz um tempo. Às vezes me convenço que vou ser um vazio de alma pra sempre. Às vezes acho que terei os buracos tapados e uma aquietação em meio ao sentimento de eternidade. Eu, que não se lidar com sempres, ou com pra-sempres e que enjoo de tudo num mínimo espaço de tempo. É que só sei ser plena enquanto escrevo e escritores parecem se auto-boicotar para conseguir histórias bonitas, narrativas fantásticas e metáforas interessantes. Eu pareço inventar constantemente isso que chamam de sentimento, por vezes me ferindo só pra ver se ainda sei sangrar. E sei. Mas sangro groselha com água, ralinha ralinha e já não tenho talento pro melodrama. Sou esburacada porque gosto de ser assim e no fundo no fundo só quero alguém que alimente esse meu buraco negro com um pouco de poesia e três tantos de verdade. A vida é esse lençol em branco onde eu dei de inventar histórias. Sorrio enquanto sei que eu estou comigo e só. Um dia o amor acontece. Um dia a gente recebe as cócegas certas, deita na cama e aquieta. Daí o buraco negro se desmazela em poeira estrelar. Eu ainda alimento o meu buraco negro com mil frustrações, e sozinha. Nunca pareceu tão confortável, o caos. Não há nenhum equilíbrio como o caos.

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