E ela foi chorar no banheiro sem saber porquê.
quando percebeu suas lágrimas caiam uma a uma, naquele pequeno espaço branco com luzes em spot queimadas.
A dor era alguma coisa inexplicavel e inteligível, mas era pungente e completamente real.
Talvez fosse o mundo, ou todas as coisas que esperavam dela e ela simplesmente não podia dar.
Ela não tinha mais o futuro brilhante que todo mundo esperava. Ela era simplesmente um ponto na linha reta da humanidade. Diferença ela devia fazer pra alguém, em algum lugar, mas naquele momento não importava.
Era simplesmente uma pequena menina surtando e chorando copiosamente sem nem saber porque. Podia cortar seus braços com gilete, ou tomar milhões de comprimidos brancos de uma vez. Podia gritar, se jogar do décimo quinto andar. Podia roubar a arma do pai e se matar com um simples tiro. Podia acabar com a vida naquele momento. A gente se suicida quando não aguenta a dor de viver, alguém tinha dito um dia. Mas ela era covarde, nem isso podia fazer, nem queria. ia pensar em todas as ridicularidades que implicariam se matar ali, naquela hora com vinte anos e há dois anos de terminar a merda da faculdade. pensando na merda da faculdade antes de morrer, que bosta era aquela? era ela. maria fernanda, uma idiota sem sentido que estava chorando no banheiro sem saber porque.
Mas sem saber porque era o normal da sua vidinha medíocre. Ela namorava um cara sem saber porque. Na verdade sabia, era muito mais medo de ficar sozinha do que vontade de ficar junto. Tinha três na sua lista além dele, e a dúvida nem a deixava dormir mas na verdade não amava ninguém. Entre ficar sozinha, escolheu ficar com a opção mais sólida, o bom menino, aquele que casaria com ela, e pagaria suas contas. Ou simplesmente a amava um tanto mais que suficiente. E ele devia ser bipolar também, e ela nem gostava tanto assim dele. Sofria de carência afetiva e tinha escolhido não tomara anti-depressivos porque tem horror a depêndencia. Namora por simples medo de ficar sozinha. e nem ama nenhum dos três que habitam a sua vida. Nem o namorado, nem o ex-namorado fantasma, e nem o amigo com quem ficaria se pedisse. Por ela viveria uma vida de aventuras, pegaria todos os caras possíveis e imagináveis, e estaria voando de boca em boca, corpo em corpo, mesa de bar em mesa de bar. Nos bares sujos, nos lugares que não são frequentados por meninas de bem. Ela nem seria mesmo uma menina de bem. Estaria perdida na vida, e aí se ela morresse nem ia importar pra ninguém. Morrer de overdose num beco qualquer, babando, com a roupa rasgada depois de ter pegado um bêbado que nem sabia o nome.
Mas se chamava Maria fernanda, menina de família, covarde e só vai mesmo chorar no banheiro sem saber porque.
Namorar o namorado que não ama, esquecer o ex que se pudesse voltava na hora, e não beijar o amigo num ímpeto estranho só por simples questão de pele. Não vai largar a faculdade, vai continuar tentando ser jornalista mesmo odiando escrever e nao entendendo nada de política, só porque o pai tem um jornal. Vai ter um emprego dígno, dois filhos, uma família de comercial de margarina e vai agradar a todos, exceto a ela mesma.
Não vai se matar agora porque isso ia fazer uma sujeirada danada, e Maria fernanda não quer sujar o chão. Ou atrapalhar a passagem na rua.
Ela só vai chorar no banheiro sem saber porque. só sabendo que está se tornando o que nunca quis ser.
7.4.08
8.3.08
Bianca.
Eu não gostava dela, não.
Mesmo. Eu não esotu nem ligando se ela resolveu ir embora e me largou aqui. Foi até bom, tem mais espaço no nosso apartamento. e não tem aquela mania estúpida que ela tinha de ficar deixando a calcinha no registro do chuveiro. Agora o chuveiro é só meu. Posso até mijar lá e ficar tudo fedendo a xixi que ninguém vai reclamar.
Ninguém. Principalmente a Bianca e aquela voz irritante dela. Aquela mania de levantar a sombancelha toda vez que eu fazia alguma coisa errado.
Agora eu posso fazer tudo. Posso até ver futebol de quarta feira sem ela ficar com aquela coisa de querer sair, e ainda por cima em bar que não tinha telão. Depois que a Bianca foi embora eu posso ir em bar com telão e gritar a torto e a direito. Posso encher o rabo de cerveja sem ela falar que não gostava de me beijar com gostinho de cerveja e que beijo aromatizado não tinha graça. A Bianca não gostava de cerveja, aquela fresca. Alías, a Bianca chama Bianca. Nome de mulher fresca e chiliquenta, não sei porque eu inventei de morar com ela. Amor. Deus me livre que atpe um homem como eu caiu nessas.
Mas agora não, estou livre na praça, aqui sentado nessa sala enorme com essa tevê enorme só pra mim. Posso até esticar as pernas. A bianca as vezes não deixava. ela falava que as minhas pernas pesavam demais e ela era frágil. ela era mesmo. eu tinha que meio ficar cuidando dela.
Agora eu não tenho mais que cuidar dela. Agora, minha vida é minha e só minha.
E além da vida, a cama. Agora eu tenho a cama inteira só pra mim. A bianca tinha uma mania chata de ficar com a maior parte da cama, além de puxar minha coberta. Eu tinha que levantar toda noite e ir pegar outro cobertor pra mim. Dava dó acordar a Bianca. Ela dormia de um jeito sereno, sempre parecia sonhar com algo bom. Eu levantava e pegava cobretor pra mim. Que merda. Ela bem que podia não roubar as minhas cobertas, ou não domir tão bem.
Posso também fazer xixi e deixar a tampa levantada. A Bianca reclamava que eu nunca lembrava. Agora eu nunca mais vou ter que abaixar a tampa da privada. Posso até arrancar a tampa da privada se eu quiser. Posso mijar fora da patente. Nunca mais vou ver a Bianca com franzindo os lábios de lado, levantando a sombrancelha direita, depois a esquerda, batendo o pê, dando uma respirada e me dizendo que eu parecia uma criança, que não aprendia a deixar a tal da tampa da patente abaixada. E eu rindo dela, dizendo que ela estava fazendo um ótimo trabalho em tentar ser minha mãe, mas que eu preferia mesmo ela como mulher. Nunca mais vou ter que ver a cara de desprezo dela quanto a essa frase.
Bianca nunca mais vai falar que eu não sei combinar roupas. Eu posso sair por aí parecendo uma árvore de natal que eu não vou ter que ouvir que eu so um fashion week que não deu certo. Ninguém nunca mais vai falar que eu sou um fashion week que não deu certo.
Eu vou poder pegar a rebouças pra ir no shopping. A brianca falava que pegar a rebouças era o pior caminho. Eu nunca achei, mas a Bianca achava. E ela fazia uma cara um tanto convincente. Isso e falava que eu era um motorista frustrado de fórmula truck quando corria demais. Pois agora eu posso fazer rachas na pista que ninguém vai me incomodar.
Posso deixar a louça estragando por meses, sem que ela diga pra eu limpar a pia, posso ligar as músicas que ela odiava no último volume sem ter que ouvir ela sarcáticamente falando que ama minha generosidade em compartilhar com ela meu gosto musical duvidoso, posso acordar as 10 e não as 9 pra tomar café da manhã com ela, posso nunca mais ir em restaurante japonês, posso não ter que tocar vinte vezes a nossa música no violão só porque ela ficava com os olhos brilhantes e me dava os beijos mais apaixonados do mundo.
Nunca mais. Agora eu só faço o que eu quero. Agora não tem bianca cabelos ruivos, sorrisos e laços, brincadeiras. Agora, eu posso fazer tantas coisas...
...só que eu não quero fazer nada.
E eu gostava dela, sim.
E muito.
Mesmo. Eu não esotu nem ligando se ela resolveu ir embora e me largou aqui. Foi até bom, tem mais espaço no nosso apartamento. e não tem aquela mania estúpida que ela tinha de ficar deixando a calcinha no registro do chuveiro. Agora o chuveiro é só meu. Posso até mijar lá e ficar tudo fedendo a xixi que ninguém vai reclamar.
Ninguém. Principalmente a Bianca e aquela voz irritante dela. Aquela mania de levantar a sombancelha toda vez que eu fazia alguma coisa errado.
Agora eu posso fazer tudo. Posso até ver futebol de quarta feira sem ela ficar com aquela coisa de querer sair, e ainda por cima em bar que não tinha telão. Depois que a Bianca foi embora eu posso ir em bar com telão e gritar a torto e a direito. Posso encher o rabo de cerveja sem ela falar que não gostava de me beijar com gostinho de cerveja e que beijo aromatizado não tinha graça. A Bianca não gostava de cerveja, aquela fresca. Alías, a Bianca chama Bianca. Nome de mulher fresca e chiliquenta, não sei porque eu inventei de morar com ela. Amor. Deus me livre que atpe um homem como eu caiu nessas.
Mas agora não, estou livre na praça, aqui sentado nessa sala enorme com essa tevê enorme só pra mim. Posso até esticar as pernas. A bianca as vezes não deixava. ela falava que as minhas pernas pesavam demais e ela era frágil. ela era mesmo. eu tinha que meio ficar cuidando dela.
Agora eu não tenho mais que cuidar dela. Agora, minha vida é minha e só minha.
E além da vida, a cama. Agora eu tenho a cama inteira só pra mim. A bianca tinha uma mania chata de ficar com a maior parte da cama, além de puxar minha coberta. Eu tinha que levantar toda noite e ir pegar outro cobertor pra mim. Dava dó acordar a Bianca. Ela dormia de um jeito sereno, sempre parecia sonhar com algo bom. Eu levantava e pegava cobretor pra mim. Que merda. Ela bem que podia não roubar as minhas cobertas, ou não domir tão bem.
Posso também fazer xixi e deixar a tampa levantada. A Bianca reclamava que eu nunca lembrava. Agora eu nunca mais vou ter que abaixar a tampa da privada. Posso até arrancar a tampa da privada se eu quiser. Posso mijar fora da patente. Nunca mais vou ver a Bianca com franzindo os lábios de lado, levantando a sombrancelha direita, depois a esquerda, batendo o pê, dando uma respirada e me dizendo que eu parecia uma criança, que não aprendia a deixar a tal da tampa da patente abaixada. E eu rindo dela, dizendo que ela estava fazendo um ótimo trabalho em tentar ser minha mãe, mas que eu preferia mesmo ela como mulher. Nunca mais vou ter que ver a cara de desprezo dela quanto a essa frase.
Bianca nunca mais vai falar que eu não sei combinar roupas. Eu posso sair por aí parecendo uma árvore de natal que eu não vou ter que ouvir que eu so um fashion week que não deu certo. Ninguém nunca mais vai falar que eu sou um fashion week que não deu certo.
Eu vou poder pegar a rebouças pra ir no shopping. A brianca falava que pegar a rebouças era o pior caminho. Eu nunca achei, mas a Bianca achava. E ela fazia uma cara um tanto convincente. Isso e falava que eu era um motorista frustrado de fórmula truck quando corria demais. Pois agora eu posso fazer rachas na pista que ninguém vai me incomodar.
Posso deixar a louça estragando por meses, sem que ela diga pra eu limpar a pia, posso ligar as músicas que ela odiava no último volume sem ter que ouvir ela sarcáticamente falando que ama minha generosidade em compartilhar com ela meu gosto musical duvidoso, posso acordar as 10 e não as 9 pra tomar café da manhã com ela, posso nunca mais ir em restaurante japonês, posso não ter que tocar vinte vezes a nossa música no violão só porque ela ficava com os olhos brilhantes e me dava os beijos mais apaixonados do mundo.
Nunca mais. Agora eu só faço o que eu quero. Agora não tem bianca cabelos ruivos, sorrisos e laços, brincadeiras. Agora, eu posso fazer tantas coisas...
...só que eu não quero fazer nada.
E eu gostava dela, sim.
E muito.
26.2.08
amo tanto e de tanto amar.
" Amo tanto e de tanto amar. Acho que ela é bonita.
Tem um olho sempra a boiar, e outro que agita.
...Amo tanto e de tanto amar, em manágua temos um "chico."
Já pensamos em nos casar em porto rico." Chico Buarque.
ela estava ouvindo essa musica. É chico, sempre chico.
quando ela era pequena achava tão bonita. pequena uns 12 anos, assim. na verdade, ainda acha umas das letras mais bonitas.
sempre achava que o dia que alguem lhe falasse coisas no minimo parecidas, valeria a pena.
agora parou de tocar. mas foi parar nela com sei lá quantos anos, ouvindo cd do chico na sala da vó e rodopiando pra ver se mudava de figura.
isso ela ja devia ter 16.
é. na musica fala '' ela pode rodopiar e mudar de figura.'' nessa hora ela levantava e rodopiava
mas eu sempre estava de fones. e a ação '' rodopiar'' fazia com que eles desplugassem do rádio fazendo todo mundo ouvir o que ela tava ouvindo. ai ela abaixava logo e botava os fones no lugar
e continuava a ouvir.
antes de ir pras aulas a tarde de laboratório. colégio e essas coisas todas. ela está sempre tendo nostalgias. toda hora, a todo momento. e tem o incrivel talento de transformar meros fatos em pequenas narrativas fantásticas.
na verdade, nem é tão incrivel assim.
é só uma menina de 16 anos rodopiando e ouvindo uma musica bonita.
e pensando '' um dia alguem vai gostar de mim que nem o cara da musica gostava da moça. ai a gente vai até sonhar em ter filho e casar num lugar bem estranho tipo porto-rico, mas não porto-rico que sei lá porque eu nem acho interessante.''
ai voltava pro colégio e via um monte de gente boba. e achava que isso sóo depois de muitos anos. um alguem que de tanto me amar lhe achasse bonita, só depois de anos luz. ou quem sabe, nem existiria.
na verdade, a parte que ela mais gostava na musica era a parte de casar em porto rico. porque era uma ideia não convencional e aquilo fechava com tudo que sempre queria. as coisas não convencionais doamor. enfim. chico a fazendo querer coisas maiores do que todo mundo queria. como sempre.
mas ela achou , no fim das contas.
e isso nem era pra ser uma declaração nem nada, era só ela ouvindo uma musica e lembrando de 3 anos atrás, mas como quando eu começa a escrever as coisas vão pra lugares que nem tinha pensando no começo...
"eu te amo, sabe. a gente casando ou não casando em porto rico. coisa que eu nem quero. a gente pode casar em qualquer lugar, e eu nem estou falando de casar. estou dizendo de ter você na minha vida, ter te encontrado e todas as pequenas felicidades banais que fazem a minha vida valer a pena. que fazem sorrisos bobobs brotarem do meu rosto. eu estou dizendo de ter achado o antes impossível. eu estou falando sobre você e isso é só sobre você. não era pra ser no começo,
mas agora é. "
e ele é aquela pessoa que ela pensava em encontrar a 3 anos atrás.
e encontrou.
¹ Chico buarque - Embalando vidas e inspirando escritores.
Tem um olho sempra a boiar, e outro que agita.
...Amo tanto e de tanto amar, em manágua temos um "chico."
Já pensamos em nos casar em porto rico." Chico Buarque.
ela estava ouvindo essa musica. É chico, sempre chico.
quando ela era pequena achava tão bonita. pequena uns 12 anos, assim. na verdade, ainda acha umas das letras mais bonitas.
sempre achava que o dia que alguem lhe falasse coisas no minimo parecidas, valeria a pena.
agora parou de tocar. mas foi parar nela com sei lá quantos anos, ouvindo cd do chico na sala da vó e rodopiando pra ver se mudava de figura.
isso ela ja devia ter 16.
é. na musica fala '' ela pode rodopiar e mudar de figura.'' nessa hora ela levantava e rodopiava
mas eu sempre estava de fones. e a ação '' rodopiar'' fazia com que eles desplugassem do rádio fazendo todo mundo ouvir o que ela tava ouvindo. ai ela abaixava logo e botava os fones no lugar
e continuava a ouvir.
antes de ir pras aulas a tarde de laboratório. colégio e essas coisas todas. ela está sempre tendo nostalgias. toda hora, a todo momento. e tem o incrivel talento de transformar meros fatos em pequenas narrativas fantásticas.
na verdade, nem é tão incrivel assim.
é só uma menina de 16 anos rodopiando e ouvindo uma musica bonita.
e pensando '' um dia alguem vai gostar de mim que nem o cara da musica gostava da moça. ai a gente vai até sonhar em ter filho e casar num lugar bem estranho tipo porto-rico, mas não porto-rico que sei lá porque eu nem acho interessante.''
ai voltava pro colégio e via um monte de gente boba. e achava que isso sóo depois de muitos anos. um alguem que de tanto me amar lhe achasse bonita, só depois de anos luz. ou quem sabe, nem existiria.
na verdade, a parte que ela mais gostava na musica era a parte de casar em porto rico. porque era uma ideia não convencional e aquilo fechava com tudo que sempre queria. as coisas não convencionais doamor. enfim. chico a fazendo querer coisas maiores do que todo mundo queria. como sempre.
mas ela achou , no fim das contas.
e isso nem era pra ser uma declaração nem nada, era só ela ouvindo uma musica e lembrando de 3 anos atrás, mas como quando eu começa a escrever as coisas vão pra lugares que nem tinha pensando no começo...
"eu te amo, sabe. a gente casando ou não casando em porto rico. coisa que eu nem quero. a gente pode casar em qualquer lugar, e eu nem estou falando de casar. estou dizendo de ter você na minha vida, ter te encontrado e todas as pequenas felicidades banais que fazem a minha vida valer a pena. que fazem sorrisos bobobs brotarem do meu rosto. eu estou dizendo de ter achado o antes impossível. eu estou falando sobre você e isso é só sobre você. não era pra ser no começo,
mas agora é. "
e ele é aquela pessoa que ela pensava em encontrar a 3 anos atrás.
e encontrou.
¹ Chico buarque - Embalando vidas e inspirando escritores.
20.2.08
e a água na canela.
E aí você vai olhar pra mim e dizer. Tudo bem, aquilo era só chuva, era só água até o meio da sua perna e não tem nada a ver, pra que se preocupar com isso.
Eu vou te olhar com meus olhos baixos e a gente vai saber, que era sim, bem mais que água até o meio da perna e chuva. Era a personificação do ridículo que meu ser habita.
Não era só chuva e água molhando até o meio da canela. Era a representação exata do que vinha a ser eu.
Porque eu, meu bem, sou água até o meio da canela.
Era quarta feira, um marasmo de dia. Eu e meu livro, e começa a chover.
Chover. sim.
Meu ímpeto? me molhar até as tampas e cabelos, e roupa na água da chuva.
Minha reação? sentar na beira da varanda, arregaçar minhas calças até os joelhos e tomar chuva só até a canela. porque eu não queria me molhar inteira, porque eu nunca quero me molhar inteira. porque eu não jogo, eu não me entrego, eu não arrisco. eu até vou um pouco pra trás que é pra não molhar meu livro.
eu sou isso. uma menina que senta na beira da varanda e só aceita tomar chuva até o meio da canela. por precaução, pra não pegar gripe , não estragar o cabelo e não ouvir bronca da mãe. pode até ser mais libertador e edificante um banho de chuva por inteiro, mas eu vou estar sempre tomando chuva até o meio da canela. porque não tenho que trocar de roupa depois, ninguém vai ficar me olhando torto, eu não vou ter que arrumar meu cabelo e nem vou levar bronca. porque todo mundo diz que água até a canela pode. se molhar por inteiro numa quarta feira a tarde, no quintal não é prudente e o mundo gosta mesmo é de pessoas prudentes.
pois bem. eu sou prudente.
eu tomo chuva até a canela, e eu vivo pela metade.
vamos pensar bem, o que eu tenho?
uma faculdade medíocre, dias e dias em casa, um talento utilizado pra nada pra escrita e uma falta de vontade total de continuar nesse mundo. Eu nunca fiz nada que emanasse perigo, eu não penso em desistir da faculdade, porque afinal, já fiz dois anos. eu nunca falo pras pessoas o que eu realmente acho delas. eu sou imbecil e conformada. vivo no meio de outros mil imbecis conformados e caminho cantando e seguindo a canção. eu nunca sumi de casa, nunca fugi e nunca morri por amor. eu estou sempre levando água só até a canela pra não me molhar.
tá. que lindo, não fico gripada.
mas também não me liberto.
eu não me entrego por inteiro. eu não esbravejo. eu não retruco. eu não me exponho. eu não conto nada a ninguém. eu sou um mistério. eu rio baixo. eu falo pouco e eu não luto. eu sou conformada na minha varanda tomando água até a canela quando o que eu queria mesmo era tomar um belo dum banho de chuva e me lixar pro universo.
agora? agora eu vou esbravejar, dizer que cansei, que não vai ser mais assim.
mas não vai mudar nada. não sou proveito, sou pura fama. sempre fui, não vou mudar de uma hora pra outra. não é do nada que a gente começa a se molhar inteira e se mostrar pro mundo. mas sabe, tem dia que cansa mesmo.
mas não se iludam, não vou levantar e tomar chuva do nada.
primeiro molho minha perna inteira, depois eu pela metade e aí sim, começo com essa de tomar banho de chuva e ficar gripada.
não sei romper bruscamente com nada. nem quero.
me arrependo depois, eu sei. prudência de mais enche, mas de menos também dá dor de cabeça.
Não quero ser mais a menina com água até a canela.
Vou me entregar mais.
Mas começando aos poucos que banho de chuva que vira rotina perde a graça.
E coragem não se compra em tabletes.
Nem deveria.
Um pouco de medo faz bem pra pele.
Porque gripe sim.
Pneumonia, é burrice.
Eu vou te olhar com meus olhos baixos e a gente vai saber, que era sim, bem mais que água até o meio da perna e chuva. Era a personificação do ridículo que meu ser habita.
Não era só chuva e água molhando até o meio da canela. Era a representação exata do que vinha a ser eu.
Porque eu, meu bem, sou água até o meio da canela.
Era quarta feira, um marasmo de dia. Eu e meu livro, e começa a chover.
Chover. sim.
Meu ímpeto? me molhar até as tampas e cabelos, e roupa na água da chuva.
Minha reação? sentar na beira da varanda, arregaçar minhas calças até os joelhos e tomar chuva só até a canela. porque eu não queria me molhar inteira, porque eu nunca quero me molhar inteira. porque eu não jogo, eu não me entrego, eu não arrisco. eu até vou um pouco pra trás que é pra não molhar meu livro.
eu sou isso. uma menina que senta na beira da varanda e só aceita tomar chuva até o meio da canela. por precaução, pra não pegar gripe , não estragar o cabelo e não ouvir bronca da mãe. pode até ser mais libertador e edificante um banho de chuva por inteiro, mas eu vou estar sempre tomando chuva até o meio da canela. porque não tenho que trocar de roupa depois, ninguém vai ficar me olhando torto, eu não vou ter que arrumar meu cabelo e nem vou levar bronca. porque todo mundo diz que água até a canela pode. se molhar por inteiro numa quarta feira a tarde, no quintal não é prudente e o mundo gosta mesmo é de pessoas prudentes.
pois bem. eu sou prudente.
eu tomo chuva até a canela, e eu vivo pela metade.
vamos pensar bem, o que eu tenho?
uma faculdade medíocre, dias e dias em casa, um talento utilizado pra nada pra escrita e uma falta de vontade total de continuar nesse mundo. Eu nunca fiz nada que emanasse perigo, eu não penso em desistir da faculdade, porque afinal, já fiz dois anos. eu nunca falo pras pessoas o que eu realmente acho delas. eu sou imbecil e conformada. vivo no meio de outros mil imbecis conformados e caminho cantando e seguindo a canção. eu nunca sumi de casa, nunca fugi e nunca morri por amor. eu estou sempre levando água só até a canela pra não me molhar.
tá. que lindo, não fico gripada.
mas também não me liberto.
eu não me entrego por inteiro. eu não esbravejo. eu não retruco. eu não me exponho. eu não conto nada a ninguém. eu sou um mistério. eu rio baixo. eu falo pouco e eu não luto. eu sou conformada na minha varanda tomando água até a canela quando o que eu queria mesmo era tomar um belo dum banho de chuva e me lixar pro universo.
agora? agora eu vou esbravejar, dizer que cansei, que não vai ser mais assim.
mas não vai mudar nada. não sou proveito, sou pura fama. sempre fui, não vou mudar de uma hora pra outra. não é do nada que a gente começa a se molhar inteira e se mostrar pro mundo. mas sabe, tem dia que cansa mesmo.
mas não se iludam, não vou levantar e tomar chuva do nada.
primeiro molho minha perna inteira, depois eu pela metade e aí sim, começo com essa de tomar banho de chuva e ficar gripada.
não sei romper bruscamente com nada. nem quero.
me arrependo depois, eu sei. prudência de mais enche, mas de menos também dá dor de cabeça.
Não quero ser mais a menina com água até a canela.
Vou me entregar mais.
Mas começando aos poucos que banho de chuva que vira rotina perde a graça.
E coragem não se compra em tabletes.
Nem deveria.
Um pouco de medo faz bem pra pele.
Porque gripe sim.
Pneumonia, é burrice.
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Vida
16.2.08
Eu sou um erro.
Eu sou um erro.
É tudo que você precisa ouvir de uma menina que faz o gênero bonitinha-depressiva, ás 16.51 de uma tarde de sábado de fevereiro em que as coisas que aqui estavam não estão mais, enquanto ela faz onda pra se arrumar para ir ver o novo filme do Tim Burton com o gato do Johnny Depp, simplesmente por não poder ir fazer outra coisa.
Mas eu sou um erro.
Se o mundo está certo, eu sou um erro. Eu só posso ser um erro. Um defeito de fábrica em cromossomos, uma indisposição genética da humanidade. Um disperdício de massa corporal e uso de oxigênio no belo baile da vida.
Se o mundo todo é que está certo, eu sou uma apendicite. Uma coisa que não deveria existir e só existe pra dar incômodo ao resto das pessoas normais. É, eu sou um erro. um zero esquerda, a contramão em que você entra e bate.
Eu sou um erro porque os filmes que estão em cartaz não me interessam, e os que me interessam não estão aqui. e quando estão, ficam pouco porque as outras pessoas, essas normais, não gostam deles. sou um erro, não gosto de música eletrônica, nem do que toca no rádio. não saio pra dançar e não bebo. Só posso ser um erro, não gosto de nada que todo mundo gosta.
Eu sou um erro porque vejo medíocriedade em todos os cantos, e eu anseio por coisas melhores. porque eu espero das pessoas o que elas não podem me dar e porque fico querendo dar o que elas não querem. Sou um erro porque não vejo propósito nessa vida em que todo mundo leva. Eu só posso ser uma anomalia no cormossomo sem número da humanidade. eu não quero um carro importado, ou uma casa grande, ou um cachorro. e não quero encher minha conta no banco nem ser horrivelmente bem sucedida. eu não quero ser um bracinho do capitalismo, não quero ter sucesso e glamour, nada disso. eu só quero ser feliz, porra. feliz com minha família e minha vida confortável. feliz. trabalhar com o que eu gosto, ouvir frases bonitas as seis da tarde e cozinhar macarrão. eu sou um erro, porque o que eu espero são bolinhos de chuva e uma conversa que valha a vida.
Sim, eu sou um erro. um erro porque eu não vejo graça nos filmes em que todo mundo vê, e porque eu acho que o mundo não tem jeito. sou um erro porque não apoio pena de morte, acho que bandidos tem solução e que todo mundo merece uma segunda chance. sou um erro porque fico querendo cuidar do mundo. porque me importo com a menina que está na rua porque perdeu os pais. me importo com quem eu não conheço. porque não disperdiço água, evito usar sacolinhas plásticas e gosto de respeito.
Eu sou um erro bem grande e ruídoso porque não troco minhas amizades por dinheiro nenhum nesse mundo. porque largaria minha carreira e minha vida confortável pra viver um grande amor. porque não jogo lixo no chão, e aceito muito bem ficar de pé para que um velhinho se sente. sou um erro porque acredito em um jeito pro mundo, num futuro pra humanidade e em políticos honestos. um erro que não acha violência aceitável em nenhum aspecto e que fica por aí expondo sua opinião por todos os lugares. uma anomalia que fica em casa em sábados a noite assistindo filmes, que não vai pra balada e não liga pra churrascos de faculdade.
Eu sou um erro em todos os aspectos. uma pária, porque não quero marido que me sustente. porque não ligo de ser mais baixa ou mais pobre que o meu namorado. porque respeito gente que não fez faculdade. porque prefiro ler a ver televisão, porque escrevo sendo designer. porque fico por aí contestando as coisas que as pessoas acham certas. sou um erro designer-comunista. um erro sem propósito.
É, eu sou um erro sim. Todo mundo acha que o mundo tá bom do jeito que tá. que morrer e matar é normal, que bandido e pobre não é gente. que algumas pessoas vão ter coisas e outras não e isso é a lei da vida. todo mundo quer ter uma carro, uma casa, cara, tv de plasma, uma mulher bonita e uma vida de aparências. todo mundo quer status, empregos milionários e ser infeliz por dentro. todo mundo procura a felicidade numa nota de papel e em líquidos alucinóginos. todo mundo está aí dançando em boates no sábado a noite ao som da música eletrônica que eu odeio. todo mundo está assistindo a novela, comentando a novela. todo mundo está apoiando a guerra. falando mal de quem não é igual a eles. todo mundo espera que tudo caia do céu, e todo mundo acha que as coisas não tem mais jeito. todo mundo está jogando lixo no chão, correndo demais e achando tempo pra conversar uma perda de tempo. e se eu não quero nem gosto de tudo isso, eu só posso ser um erro. um cromossomo sem número com uma anomalia gravíssima, vão ter que me amputar daqui para que eu não me alastre.
Eu sou um erro. dos grandes.
e vocês que concordam com as coisas que eu concordo também são erros. vocês, meus amigos, são erros como eu.
somos todos erros, estamos errados, a gente quer o que ninguém quer.
Somos erros indesejáveis, uma doença estranha e vão nos curar.
Mas eu não quero que me curem, pelo amor de Deus, ou de quem quer que seja. não quero deixar de ser essa doença, essa anomalia.
Eu sou um erro, um erro grande, malcheiroso e sem cura.
E quero ir embora daqui antes que me transformem num acerto.
É tudo que você precisa ouvir de uma menina que faz o gênero bonitinha-depressiva, ás 16.51 de uma tarde de sábado de fevereiro em que as coisas que aqui estavam não estão mais, enquanto ela faz onda pra se arrumar para ir ver o novo filme do Tim Burton com o gato do Johnny Depp, simplesmente por não poder ir fazer outra coisa.
Mas eu sou um erro.
Se o mundo está certo, eu sou um erro. Eu só posso ser um erro. Um defeito de fábrica em cromossomos, uma indisposição genética da humanidade. Um disperdício de massa corporal e uso de oxigênio no belo baile da vida.
Se o mundo todo é que está certo, eu sou uma apendicite. Uma coisa que não deveria existir e só existe pra dar incômodo ao resto das pessoas normais. É, eu sou um erro. um zero esquerda, a contramão em que você entra e bate.
Eu sou um erro porque os filmes que estão em cartaz não me interessam, e os que me interessam não estão aqui. e quando estão, ficam pouco porque as outras pessoas, essas normais, não gostam deles. sou um erro, não gosto de música eletrônica, nem do que toca no rádio. não saio pra dançar e não bebo. Só posso ser um erro, não gosto de nada que todo mundo gosta.
Eu sou um erro porque vejo medíocriedade em todos os cantos, e eu anseio por coisas melhores. porque eu espero das pessoas o que elas não podem me dar e porque fico querendo dar o que elas não querem. Sou um erro porque não vejo propósito nessa vida em que todo mundo leva. Eu só posso ser uma anomalia no cormossomo sem número da humanidade. eu não quero um carro importado, ou uma casa grande, ou um cachorro. e não quero encher minha conta no banco nem ser horrivelmente bem sucedida. eu não quero ser um bracinho do capitalismo, não quero ter sucesso e glamour, nada disso. eu só quero ser feliz, porra. feliz com minha família e minha vida confortável. feliz. trabalhar com o que eu gosto, ouvir frases bonitas as seis da tarde e cozinhar macarrão. eu sou um erro, porque o que eu espero são bolinhos de chuva e uma conversa que valha a vida.
Sim, eu sou um erro. um erro porque eu não vejo graça nos filmes em que todo mundo vê, e porque eu acho que o mundo não tem jeito. sou um erro porque não apoio pena de morte, acho que bandidos tem solução e que todo mundo merece uma segunda chance. sou um erro porque fico querendo cuidar do mundo. porque me importo com a menina que está na rua porque perdeu os pais. me importo com quem eu não conheço. porque não disperdiço água, evito usar sacolinhas plásticas e gosto de respeito.
Eu sou um erro bem grande e ruídoso porque não troco minhas amizades por dinheiro nenhum nesse mundo. porque largaria minha carreira e minha vida confortável pra viver um grande amor. porque não jogo lixo no chão, e aceito muito bem ficar de pé para que um velhinho se sente. sou um erro porque acredito em um jeito pro mundo, num futuro pra humanidade e em políticos honestos. um erro que não acha violência aceitável em nenhum aspecto e que fica por aí expondo sua opinião por todos os lugares. uma anomalia que fica em casa em sábados a noite assistindo filmes, que não vai pra balada e não liga pra churrascos de faculdade.
Eu sou um erro em todos os aspectos. uma pária, porque não quero marido que me sustente. porque não ligo de ser mais baixa ou mais pobre que o meu namorado. porque respeito gente que não fez faculdade. porque prefiro ler a ver televisão, porque escrevo sendo designer. porque fico por aí contestando as coisas que as pessoas acham certas. sou um erro designer-comunista. um erro sem propósito.
É, eu sou um erro sim. Todo mundo acha que o mundo tá bom do jeito que tá. que morrer e matar é normal, que bandido e pobre não é gente. que algumas pessoas vão ter coisas e outras não e isso é a lei da vida. todo mundo quer ter uma carro, uma casa, cara, tv de plasma, uma mulher bonita e uma vida de aparências. todo mundo quer status, empregos milionários e ser infeliz por dentro. todo mundo procura a felicidade numa nota de papel e em líquidos alucinóginos. todo mundo está aí dançando em boates no sábado a noite ao som da música eletrônica que eu odeio. todo mundo está assistindo a novela, comentando a novela. todo mundo está apoiando a guerra. falando mal de quem não é igual a eles. todo mundo espera que tudo caia do céu, e todo mundo acha que as coisas não tem mais jeito. todo mundo está jogando lixo no chão, correndo demais e achando tempo pra conversar uma perda de tempo. e se eu não quero nem gosto de tudo isso, eu só posso ser um erro. um cromossomo sem número com uma anomalia gravíssima, vão ter que me amputar daqui para que eu não me alastre.
Eu sou um erro. dos grandes.
e vocês que concordam com as coisas que eu concordo também são erros. vocês, meus amigos, são erros como eu.
somos todos erros, estamos errados, a gente quer o que ninguém quer.
Somos erros indesejáveis, uma doença estranha e vão nos curar.
Mas eu não quero que me curem, pelo amor de Deus, ou de quem quer que seja. não quero deixar de ser essa doença, essa anomalia.
Eu sou um erro, um erro grande, malcheiroso e sem cura.
E quero ir embora daqui antes que me transformem num acerto.
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