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3.5.12

let her talk


eu ia escrever qualquer coisa que seja, sobre qualquer coisa assim, eu-e-você, mas daí veio a clarah averbuck e disse isso tudo que é mais ou menos o que eu queria dizer. eu costumo detestar a clarah averbuck na maioria das coisas que ela escreve, mas quer saber, eu não sou nem metade do que eu conhecia esse ano, então dane-se. apatia, sofrer por amor, texto da clarah averbuck. tudo novidade. let her talk.
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é só me esfarelando toda que pego no tranco.

nos encontramos num boteco como numa cena de cinema de quinta, eu cheia de uísque e ele de sei lá o quê. o oi foi um beijo, ninguém quis lembrar da briga e de lá nem sei para onde; sei que teve gente, tóxico, minha casa, o spider jerusalem e de repente era dia, o táxi me esperava e ele já não gostava mais de mim.

o caralho que experiência serve pra alguma coisa; saudade de quando eu acreditava e conseguia me entregar sem achar que dançariam sapateado americano na minha cabeça. sempre de capacete, então, o medo de rachar a cara mandando em tudo, mandando em mim.

o caralho que do chão ninguém passa, o caralho. passa e o magma do inferno cauteriza e esteriliza tudo por meses, anos, centenas deles. incapacidade de entrega é o pior dos castigos. fiz o que pude, dei o que tinha, pobrinho, mas de coração. não foi o suficiente. suerte, então. esse tipo de dívida não se contrai.
pinga e reza forte, disse a minha amiga, a gente sabe que passa. passa. mas e se eu não quiser? me deixa aqui eternizar o efêmero, acordar em apnéia, bater na testa, mea culpa, mesmo que não seja toda minha, mesmo que você não entenda que sabe tudo quando quer, mesmo que suas chacotinhas sobre as minhas importâncias me dêem toda a vontade de largar a sua mão em plena paulista, fica aí então todo sem causa e sem mim, com as coxas das suas outras, tão importantes que nem existiam mais.

eu e o meu superpoder superinútil de criar um campo de força quando alguém - você - chega pertinho demais de me deixar frágil demais. xingar meus medos não adianta, lindeza, nem me transforma em criatura maléfica que não sou.

ninguém é uma coisa só, nem você. eu sou toda essa bagunça, boazinha, mazinha, calminha, nervosinha, acordada, dormindo, com sono, na defensiva, com sorrisinho, com carranca, sóbria, bêbada, pêga, travada, rindo na sala, chorandinho com a cara enfiada no seu ombro num quarto de hotel, pedindo desculpas, fazendo besteira, tudo isso sou uma pessoa só, monamú. algumas de nós acertam, outras de nós pisam na bola, é assim que é, somos.

errando tentamos, todas nós, dar pra outro. vamos até a casa dele sem ouvir a voz dos ovários que pulsavam "não-quero, não-quero", um beijo de cigarro, uma casa silenciosa, os lençóis brancos me esperando, não-quero, não-quero. nada de errado com ele, a não ser não ser você. chamei um taxi e deixei um monte de camisinhas mortas no chão, fui pra rua, frio e aquele outro ainda, que deixei lá no canto pra te encontrar sem saber, as pernas guiadas por sei eu quem e de volta a você no balcão.
meu cabelo pintado da cor que você pediu, minhas unhas do jeito que você gosta. quase fiquei loira, mas, idiota, quis agradar do jeito errado. no táxi, a caminho do hospital, viro poeira secando cega ao sol, vejo que não tem jeito e não mais discuto: é só me esfarelando toda que pego no tranco.

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