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23.3.11

como consertar maria?

Maria, que não é nem gorda nem magra; nem baixa nem alta; nem bonita nem feia. Maria que não é burra nem inteligente, nem quieta nem agitada, nem normal demais e nem estranha. Maria que vive em São Paulo cinza, num apartamento fechado de paredes verdes descascadas e fuma cigarros baratos despejando as cinzas em um pires. Maria que ouve as bandas da moda, compra suas roupas em brechós e diz ter feito seu próprio estilo e ter subvertido o mundo à sua própria vida. Maria que não gosta de rótulos, exibe contente seu marlboro vermelho ou seu lucky strike mentolado, em suas calças que já foram forum, com uma blusinha vintage de sua vó e seus converse all star do ano de 2007. Rasgadinhos na sola. Maria que tentou ser famosa, tentou ser simpática, tentou ser popular e só conseguiu ser estranha. Então resolveu que tinha que comer de estranhezas, em seus coturnos mal colocados nos vestidos floridos rasgados do fundo de armário, de quando tentou ir em uma festa legal e só se achou inapropriada. Maria foi achar sua turma, foi achar seu lugar, leu muito john fante, arrotou muito bukowiski nos bares bonitos da augusta, bebeu muita cerveja no meio fio.

Maria que já usou os ultimos trocados do seu empreguinho chinfrim pra comprar um café no starbucks que estragou seu all-star vermelho, ano de 2009. Maria que já quis ser aceita, hoje quer ser estranha pra poder ser querida em seu grupo de estranhos. Maria no meio de suas maquiagens carregadas, seu perfume-imitação, seus looks de internet. Ela que já tentou ser autêntica hoje copia a si mesma todos os dias no espelho antes de sair pro trabalho. Antes de sair pro trabalho se troca. A calça jeans, o all star velho, as camisetas poídas. Pega dois ônibus e um metrô. Entra. Não é bem sucedida. Não fez faculdade. Trabalha numa loja de discos usados em troca de dois salários mínimos que compram suas roupas e seus fins de semana. Os trocados que compram as suas companhias. Maria que antes gostava de pink floyd saiu da loja com uma versão rara em vinil de uma banda indie que ela não sabe pronunciar o nome. Também não sabe pronunciar o som. Não escuta bem os solos de guitarra, não entende o porquê da flauta e já não sabe mais ler a sua alma.

Maria que nasceu feiosa, que nunca foi querida pelos meninos da escola se envergonhava de suas botas ortopédicas. Depois dos seus óculos. Depois do seu aparelho. Hoje usa botinhas pretinhas e óculos enormes. Maria nunca leu um clássico da literatura e erra concepções básicas de português, mas citou saramago num sarau. Nunca entendeu a ausência das vírgulas e nunca soube falar de ausência. Tom zé grita num rádio longe da sua cama que amanhã de manhã a felicidade vai desabar sobre os homens. Maria não acredita no que ouve. Mas sorri. Maria se olha no espelho, se coloca lápis preto, batom vermelho, rimel, blush. Meia calça arrastão, shorts, sapato de salto. Sai com cara de desarrumada depois de uma minuciosa produção. Compra uma cerveja no posto, senta no meio fio, conversa com dois caras, acende um marlboro velmelho. Traga. Coloca fumaça pra dentro, pra fora. Observa São Paulo. Só queria ser querida. Tem uma amiga mais bonita que ela. Tem mais três meninas mais interessantes. Maria sabe de suas limitações e por isso tenta ser agradável. Consegue a empatia de uns meninos nem gordos nem magros, nem bonitos nem feios, nem inteligentes nem burros demais. Sai de mãos dadas, ensaia um conto de fadas. Esquece. A vida é muito curta para que fantasiemos.

Maria volta pra casa, os pés doidos dos saltos, se olha no espelho e já não sabe quem é. Já nem sabe se um dia se chamou maria ou se atendia por outro nome. Todo passado é distante. Ela é distante dela mesma. A noite passada maria brilhou cinco ou dez minutos enquanto dançou bêbada no meio da pista. Maria, rainha de qualquer coisa por um dia. Nem se lembrava direito mais, mas ensaiou os passos na frente do espelho. Quase tropeçou. Nao reconhecia a figura disforme que tentava dançar na sua frente. Perguntou "quem é você?", mas não obteve resposta. Só um eco. Um vazio. Sabe-se lá. Maria deitou na cama com sua maquiagem borrada, e suas meias arrastão. Trabalhava no outro dia.

Maria nem gorda nem magra, nem bonita nem feia, nem burra nem muito inteligente veste sua calça, seus all-star vermelhos 2008, sua blusinha sem marca, pega dois ônibus e depois se perde na fila do metrô. Olha pros lados e de repente se acha perdida no meio de tanta gente. Olha pro chão e vê pelo menos uns cinco tênis iguais aos dela. Olha pro lado e reconhece alguns cortes de cabelo idênticos. Quase todos vestem calça jeans. Metade delas estão com blusinhas sem marca. Todos estão indo trabalhar. Ninguém que olhasse de longe os reconheceria como um ser humano isolado.

Maria é só mais uma na multidão. E sabe disso.

15.3.11

Prefácio

Eu nem gosto de ficar assim, contando os projetos pra todo mundo porque existe em mim um medo terrível de ao contar uma idéia, ela se perder. Mas pela primeira vez em 22 anos tive uma idéia pra um livro e ela parece razoável. Tem muito trabalho pela frente, mas meu livro tem um prefácio. Um prefácio do meu próprio livro escrito pela minha personagem. Minha personagem se chama Camila e nasceu de seu próprio encantamento com o universo de John Fante. Mais precisamente, de Arturo Bandini. a Camila do pergunte ao pó é a musa de Arturo Banini, mas a minha Camila não quer ser a musa de ninguém. A minha Camila quer ser Arturo Bandini. E é aí que a nossa história começa. Torçam por mim.

Prefácio.



Às vezes é tudo sobre o modo como o mundo te encara, ou a maneira que você encara o mundo. O mundo me encara de forma que, cospe na minha cara que sim, o sangue deles corre nas minhas veias. A gente pode fugir de muita coisa nessa vida, mas a hereditariedade é um carma. Você pode olhar para eles com nojo de seus pratos cheios de comida, suas barrigas pra fora da calça e suas injustiças, mas não há como negar que gotas do sangue deles correm em suas veias. Pedaços de genes, características dominantes, recessivas. Milhares de contas genéticas formando aquilo que sou. Eu tento fugir deles, mas eles estão dentro de mim. É estranho fazer parte de um sangue no qual você não se reconhece. Foi isso que eu descobri naquela tarde em que tudo ao meu redor parecia muito distante de mim. Um enorme sentimento de desperecimento frente à sua própria família. Tem sangue deles correndo nas minhas veias. Qualquer exame de DNA seria capaz de detectar nossos genes em comum, mas o que me tornou gente não foi a mesma matéria que os tornou gente. É tudo muito distante de mim, é um abismo. E talvez tudo isso tivesse doído um pouco mais fundo se não fosse recorrente.

Faz parte do clichê de quase toda pessoa que um dia acaba por ter a pretensão de se tornar artista esse desperecimento. Histórias tristes de como o mundo não deu de volta tudo aquilo que a pessoa esperava e como ela não e adequa à tudo aquilo, então resolve botar pra fora toda a sua incompreensão em forma de arte. Arte é o jeito que as pessoas encontraram para as suas loucuras fazerem sentido em algum lugar fora de suas próprias cabeças. Talvez muitos artistas não existissem se tivessem entrado em contado com freud, jung, ou lacan e curado suas angústias interiores. Não sei se acredito em psicanálise. Não sei se acredito em artistas. É claro que acredito em arte. Mas eu quero dizer artista com esse quê de dom. Pessoas que nasceram com a incumbência dada por deus, ou seja lá que entidade, de embelezarem o mundo. A arte como karma. Pra mim a arte só existe porque alguma coisa dentro da gente sempre precisa se mostrar. Pelo menos foi assim comigo. Se eu não conseguia me mostrar pro mundo, tinha que encontrar um jeito do mundo me ouvir.

Mas não se enganem. Eu não sou uma artista. Eu apenas escrevo. E escrevo porque preciso ter voz. Desde pequena. Nunca fui bonita e nunca me destaquei muito. Eu sei, isso é outro clichê. Mas é que qualquer ser humano que se preze quer ser aceito. Quer ser notado. E eu só era notada porque era mais alta que o resto das minhas coleguinhas. No mais, era tímida, desajeitada e nunca tive traquejo social. Mas a imaginação sempre foi ótima. Era um jeito de deixar a realidade mais bonita. Recriar a realidade do jeito que ela deveria ser. Criar mundos paralelos, outros universos. Uma civilização inteira vivendo dentro da minha cabeça. Guerras, holocausto, grandes amores. A vida é muito mais simples na literatura.

O que acontece é que criar mundos não faz de você uma escritora. Existem muitas histórias dentro da cabeça de um ser humano normal, prontas para serem escritas. A grande questão é como você vai colocar essas histórias pro mundo. Eu quero dizer, nem tudo que acontece na sua cabeça é atraente e mesmo que seja, nem sempre existe um jeito apropriado de se colocar isso em palavras. Todas as minhas tentativas me pareceram extremamente inapropriadas. Todas, sem nenhuma exceção. Um monte de merda tentando virar poesia, talvez vocês não entendam. Eu quero dizer, tudo é bem mais bonito antes de ser passado pro papel. Depois vira lixo. Talvez devesse existir um método. Uma quantidade certa de parágrafos, as vírgulas, o clímax perfeito. Um manual perfeito capaz de transformar qualquer pessoa em escritor, qualquer idéia boa num grande livro. Mas não existe. Além do que, todos esses anos me ensinaram que escrever é uma tarefa solitária. Escrever é uma tarefa solitária que se faz em lenços reutilizados de papel de festas em que as pessoas parecem se divertir. Escrever é meu túnel iluminado antes da morte, é o único jeito que eu encontrei de perceber que estou sozinha, e em contato com tudo que mora dentro da minha cabeça. E gosto. O silêncio que se faz fora de mim traz paz, mas as palavras de dentro são um turbilhão que sossega a alma. Parágrafos, vírgulas, sintaxe, sentimento. Escrever é o jeito que eu encontrei de me isolar do mundo e ter voz.

Mas a minha voz é rouca.

E foi aí que eu conheci o john fanfe. Não o John fanfe em si. O Jonh Fante morreu cego, faz um tempo já. Ele ainda ditou um último livro pra sua mulher e isso é uma bela história de amor. Mas o livro. Pergunte ao pó é um livro que conta a história desse cara que quer ser escritor, e o nome dele é arturo bandini. E ele precisa ter experiências intensas para que consiga escrever, porque ninguém escreve a partir do nada. Talvez Arturo Bandini fosse o próprio fante com um alter-ego. Sabem, a clássica história do jovem que quer se tornar escritor. A minha história. Pergunte ao pó é meu livro de cabeceira há pelo menos dois anos. Eu comecei quando eu tinha dezesseis anos, e hoje eu tenho dezoito. O arturo Bandini tinha vinte. O Arturo Bandini sabia que ele tinha que viver pra poder se tornar escritor. Eu fui viver pra escrever meu próprio livro. E essa é a história que vocês vão conhecer agora. Esse é apenas o prefácio. Eu escrevo o prefácio do meu próprio livro porque acho que ninguém mais o fará.

E porque o Bukowiski morreu antes de me conhecer.

Em todo caso essa história é sobre mim e não há ninguém melhor para falar de uma história sobre mim do que eu mesma.
Prazer, eu sou a Camila e nossa jornada está apenas começando.
A minha, como escritora. E a sua, como leitor.

Porque escrevi um prefácio antes mesmo de escrever um livro. Porque só sei ser assim, do avesso. De trás-pra-frente. Porque precisei conhecer Arturo Bandini pra me conhecer escritora. Porque precisei conhecer escritora pra me enxergar Camila.

A historia, caro leitor, descobriremos juntos.
Naquilo que vem depois do prefácio e chamam de livro, mas nem vocês e nem eu sabemos exatamente do que se trata. A vida é uma descoberta maravilhosa a cada capítulo que eu preferi renomear de literatura.

10.3.11

Capítulo 1

(you've never seen me that way)

Sair do personagem é coisa difícil para uma escritora. Depois que isso entra no seus genes, não parece haver outro jeito de existir. É mais fácil moldar a vida pra virar história, do que deixar de escrever histórias para caber dentro da vida. É assim, tem sido assim, não há como mudar isso. Meus arquivos dizem que faz três semanas que não escrevo. A escritora dentro de mim fugiu. Diz arturo bandini que a gente deve ter todas as experiências do mundo para poder escrever sobre elas. Um escritor não pode falar sobre algo que não viveu. Um escritor talvez possa. Eu não vivi tudo aquilo que escrevi. Eu escrevo o que eu queria ser. Hoje, eu vou escrever sobre aquilo que eu sou.

Alguém, não importa quem, não importa aonde (pois para as histórias, ficcionais ou não, não importam as circustâncias) se achou no direito de dizer que a pessoa que vos escreve costuma ter certos desvios de caráter. Resumo para bom português: que essa que vos fala se orgulha em não ser uma boa pessoa. Algumas coisas me machucam, algumas coisas me magoam e algumas coisas me fazem pensar. Essa me fez pensar, porque a pessoa em questão não me conhece. Se um dia minha mãe chegasse e me dissesse: "filha, você não é uma boa pessoa", eu desabaria. Certas pessoas não me atingem porque não me conhecem. Eu só decidi me escrever porque em alumas esquinas da minha vida eu já recebi definições como: escrota, rancorosa, não ama ninguém, não se apega, filha-da-puta, insensível. As pessoas que me apontaram isso na cara, nunca me viram chorar. Talvez uma coisa não justifique a outra, mas o que eu quero dizer é que é muito fácil pegar partes da vida de uma pessoa e fazer um julgamento. É como julgar o que eu sou pelo meu quarto. É como dizer que eu não sei organizar a minha vida porque eu nunca soube oraniganizar meus livros em ordem alfabética. É como achar que sabe o que eu sou, lendo o que eu escrevo. É como achar que eu sou o que eu nunca te contei.

Desde peqjuena, e eu quero dizer, muito jovem mesmo, eu lidei com rejeições. A pior delas foi quando um dia eu contei um segredo para uma amiga minha e ela se achou no direito de contar isso pra todo mundo que ela conhecia. Eu chorei. Eu passei alguns recreios sozinha. Eu tive que depender da pena das pessoas, por assim dizer. Ninguém se sente confortável com uma menina que chora na sala. Ninguém se sente confortável com alguém que passa os recreios na biblioteca, e então resolve sentir pena. Não confio nas pessoas. É uma predisposição. Não confio antes de conhecer e posso aprender a confiar depois, mas isso não é uma regra. Eu aprendi a escrever, porque o papel não contava minhas histórias pra ninguém. Eu aprendi a escrever porque não tinha mais pra quem me contar.

As pessoas sabem o que eu acho dos meus amigos. É disso que eu falo. Das roupas que eles usam e das besteiras que eles aprontam comigo. Porque eu pretendo manter as pessoas longe quando eu acho que elas vão me magoar. É claro que nesses vinte e dois anos, alumas pessoas conseguiram romper essas barreiras. Algumas se foram (eu costumo ser intolerante com falta de atenção) e algumas ficaram. Duas amigas e dois amigos. Um ex namorado. As únicas pessoas que um dia me conheceram por inteiro e que se um dia quisessem falar: " Larissa, você é uma bosta de ser humano" iam me fazer chorar. As meninas que arrumam tempo em suas agendas pra comer bolo no pátio de tarde, e que arrumam brechas em suas agendas no café da manhã. Um dia eu disse pra carol que eu gostava dela porque ela não me julgava. Eu disse a mesma coisa pra amanda. Porque caráter não se mede pelo fato de você ser uma pessoa frágil e sentir pena das pessoas, vocês me entendem?

Eu sou uma pessoa humana. Eu tenho raivas, rancores, eu guardo mágoas. Eu guardo muitas mágoas. Eu me machuquei a vida toda. Eu tive uma vó doente, eu perdi um vô, meu pai tem depressão. Eu tenho crises terríveis de ansiedade. Eu sou hipocondríaca. Eu sou inrolerante com certos tipos de comportamento. Eu sou inconsequente com a minha vida amorosa, mas pera aí, eu nunca machuquei ninguém. Eu costumo ser sincera. Todo mundo sabe a bagunça que eu sou, e se resolvem me aceitar assim, eu só tenho que agradecer. Eu errei, milhares de vezes. Erraram comigo outro tanto de vezes. Eu já pedi desculpas, e eu já perdoei. Eu sou dura com certas pessoas porque eu tenho medo que elas sejam infelizes. Eu tenho medo das pessoas que eu amo serem infelizes. Assim como eu tenho medo de ser infeliz. Mas eu tenho mais medo por elas.

Eu abdiquei de amizades. Eu abdiquei de amores e deixei que eles fossem porque de alguma forma eles se sentem mais felizes sem mim. Vocês não sabem quantas vezes eu chorei no meu quarto sozinha pra deixar que a outra pessoa fosse feliz. Eu já abdiquei pela minha felicidade por outra(s) pessoa(s). Eu exerço pelo meus amigos um certo tipo de controle. Tipo mãe. Você não deve fazer isso. Você não pode fazer aquilo. ás vezes eu vejo todos eles se enfiando em caminhos tão tortuosos que eu sinto raiva. Raiva deles. Porque eles vão ser infelizes e eu não posso fazer nada. Nada. Porque eu não posso fazer as escolhas por eles. Eu não posso acabar com os namoros, eu não posso colocar eles nas faculdades certas, eu não posso dar empregos melhores, eu não posso fazer com que eles virem os cineastas, os músicos, as mães e os pais que eles querem. Não posso pegar eles pela mão e enfiá-los no caminho que eu acho que vai estar certo. Eu aconselho. Eu grito. E quando eles continuam pelos caminhos erôneos eu sinto raiva. Eu sei o que é ser infeliz. Ninguém mais precisa saber como é. Vai doer, vai sim, vai doer. E eu não quero que eles doam. Mas não ter mertiolate que eu possa dar pra evitar que eles sofram então se eu vejo que eles estão prestes a tropeçar eu só sinto raiva. Raiva deles, porque vão sofrer. Raiva de mim, que não posso fazer nada.

As pessoas vão pelos caminhos que elas escolhem. E às vezes elas não enxergam, no meio de seus caminhos aquilo que você quer dizer. Eu? Eu só quero que as pessoas a minha volta sejam felizes. Porra. Vai ter coragem de ser feliz e se mexe atrás da sua felicidade. Eu tenho vontade de dizer: isso não é felicidade. Mas elas acham que é. E eu vou estar errada se disser que eu não acho. Então eu me calo. E sinto raiva. Mas de qualquer modo eu prometo dentro de mim estar ali pra segurar quando eles caírem. Eu sempre estou, não estou?

O que precisa ser explicado é que eu não sou sentimental. Eu não sinto dó de cachorrinhos que passam na rua, mas eu sinto dó de gente. Eu não choro em filme de amor, eu tenho opiniões firmissímas. E eu brigo por tudo aquilo que eu acredito. Eu quero ser feliz, porra. Todo mundo quer ser feliz. Eu nunca passei em cima de ninguém pra ser feliz, eu nunca roubei namorados, eu respeito tudo que eu posso o máximo que eu posso. Só não aprendi a ser moralista. Mas moral é um conceito pessoal. Ética é uma coisa geral. É isso que as pessoas não entendem. Dentro da minha moral, se perdoa traições, se divide sentimento de pura atração carnal, se fala daquilo que não gosta sem pudores. Mas sempre fui uma pessoa ética. Eu não sabotaria ninguém por uma vaga de emprego, eu não trairia meu namorado, eu não seria desleal com meus amigos. E eu não sou desleal. Quando eu falo deles, é simplesmente porque eu tenho raiva do caminho frente a infelicidade que eles às vezes tomam. E tenho mesmo. Daí entra a ética. Você não diz pra uma pessoa que ama o namorado que acha que o namorado dela vai fazer ela infeliz. Você não diz a pessoa que se acha talentosa que talvez ela não seja tão-maravilhosa assim. Algumas coisas não se pode dizer sem magoar. Algumas coisas tem de ficar implícitas.

Eu não gosto das pessoas boazinhas, e nem das pessoas malvadas. Eu acho que uma pessoa é boa a partir do momento que ela não falta com respeito com ninguém. Pra isso você não tem que ser polyana. Pra isso você não tem que ser uma pessoa frágil. A vida exigiu de mim ser forte desde cedo. A vida me botou de frente com gente sem caráter antes dos doze anos de idade. Eu aprendi a não me machucar tanto, não ser feita de boba tanto. Mas eu aprendi a perdoar. Porque as pessoas só são legais porque são diferentes. E a gente tem que aprender a respeitar. Talvez a gente não concorde com tudo. Talvez não seja possível amar todas as pessoas. Mas é sempre preciso respeitar. A escritora, e o ser humano que habita em mim aprendeu que antes de dizer que uma pessoa é boa ou não, há de se conhecer.

E é difícil dizer isso, mas quase ninguém me conhece. Ás vezes porque eu não quero, às vezes porque eu não deixo, e na maioria das vezes porque elas me julgam por aquilo que elas querem enxergar e não pelo que eu sou de verdade. E o que eu sou de verdade, é, muitas vezes diferente de você. E isso não me faz nem melhor, e nem pior. E isso não te faz nem melhor e nem pior que eu.

Eu me orgulho muito do que eu sou. Eu me orgulho muito do que os meus pais me ensinaram a ser. Eu tenho orgulho dos amigos que eu escolhi ter perto de mim. Eu amo as minhas meninas, e os meus meninos. ás vezes você conhece uma pessoa por anos e percebe que não a conhece. às vezes você conhece uma pessoa por duas horas e ela te leva metade da vida. Questão de afinidade, questão de confiança e acima de tudo, questão de tolerância. O jeito mais bonito de amar é amar por tudo aquilo que uma pessoa é, mas acima de tudo amá-la apesar das coisas que você não concorda. Amar o igual é muito fácil, difícil é amar aquilo que incomoda.

Talvez eu tenha um grande ego. Talvez eu tenha muitos defeitos. Talvez eu tenha muita confiança naquilo que eu sou. Eu sou humana, eu erro, eu tropeço milhares de vezes, mas eu tento ser tudo aquilo que eu quis. E o que eu quero é meia duzia de amigos, uma casa simples, um emprego bom e a minha família. Eu sou crítica, eu sou chata, eu sou ranzinza. Eu sei que eu sou difícil às vezes, mas eu tento. Eu só queria dizer que ninguém tem o direito de dizer que eu sou filha da puta e que eu me orgulho disso. Porque eu me conheço. Eu sei o que eu sou.

Vocês nunca estiveram tão errados sobre mim.

O ser humano dentro de mim saiu pra fora e quis dizer isso. Não é literatura, sou eu. Pela primeira vez. Mas agora me deem licença que eu só sou confortável na internet dentro de um personagem. Só sei me literaturar ficcionando. A quem sabe o que eu sou, e me ama por isso, amor eterno. Ao resto, me desculpem, vocês não me conhecem.

15.2.11

It takes me back to the start.

Visto meu vestido novo e vou para a poltrona fazer-me de grande escritora. Pergunto-me se um dia, haverá um dia, em que eu passe o dia inteiro sem levar um pensamento que fosse à você. Você nunca nem morou aqui mas deixou comigo o peso de todas as lembranças do mundo. Lembro desse dia, daquele, daquele outro e não sei ficcionar mais nada. Às vezes te enxergo na ponta do colchão, na outra na ponta do sofá, mas tudo que eu consigo é ouvir a minha própria respiração. Constato: estou sozinha. E botar ar pra dentro - ou sendo mais específica- viver, tem sido uma tarefa dura. Claro que nem tanto e só por você, mas também por você. Essas conjunções "não só, mas também" eu uso o tempo-todo, desde que te conheci. É porque desde não consigo pensar outra vida que não só, mas também com você. Às vezes me pego fazendo enormes listas de tudo aquilo que não teria sido caso não tivesse te conhecido: os filmes que não teria visto, os lugares que não teria ido e até as palavras que não teria colocado no meu vocabulário. Hoje mesmo usei uma delas, não propositadamente, é que dou de me referir a mim como você costumava me chamar. Tem isso também, de eu ter virado não só, mas também, um de seus adjetivos. Mas me olho sem tudo aquilo que você me deu e não consigo me enxergar nada que não seja uma figura desforme. Explico: acho que me atrelei a você de maneiras que, se tentasse agora tentar descobrir o que é meu, o que é seu, e o que é nosso, acabaria por puxar milhares de pedaços errados e criar feridas. Você entende? Às vezes eu acho que não, mas sabe, grande coisa também. Eu cansei de te explicar as coisas. Cansei de olhar pra você de jeitos inexatos implorando que de, algum jeito, você enxergasse tudo que estava passando dentro da minha cabeça - e do coração. Eu sei tanto sobre você que chega a doer, e sei cada dia menos de mim. Mas onde levam esses desabafos? Você sabe, a gente trilha uma estrada, segura na mão um do outro e promete nunca mais se largar. Mas um dia larga, eventualmente. Você se esquece que um dia nomeou estrelas com meu nome, e eu finjo que não sei mais o nome da sua música preferida. E talvez não saiba mesmo. Talvez não exista mais nada de você além de uma camisa listrada e o mesmo perfume. Eu só vivo a te buscar porque preciso. Não assim, presente. Mas lembranças de que um dia fui capaz de amar alguém. Outra coisa que não meu próprio ego. Às vezes eu me arrependo de ter tido sempre esse orgulho tremendo, de nunca ter segurado seus joelhos e te pedido pra não ir, tal qual as músicas do chico buarque, mas sabe? Tem dias que eu olho pra tudo e lembro que um dia a gente sonhou em ser astronauta só porque você disse que na lua ia ser mais fácil de dançar sem me pisar nos pés. Mas você me pisou no coração. Nem tocava a nossa música preferida, e você dançou no único dia que eu não te tirei pra dançar. Meu coração, perdido saiu rolando e você pisou desavisado. A grande verdade é que: eu também não esperaria por mim tanto tempo. Eu também devo ter pisado e destroçado seu coração desavisada algumas várias vezes. E você continuou andando. Você continua, a passos tortos, até hoje. Talvez tenha estrelas com o nome dela no teu céu. E talvez vocês já estejam dançando na lua, e você já tenha aprendido a não pisar nos pés das mocinhas enquanto dança. Eu imagino que você esteja aprendendo a andar, e a viver. Eu só estou sozinha. Mas você me disse um dia dessa minha capacidade de estar sozinha, de não gostar de nomear estrelas e de reclamar da mão suando quando me apertavam muito forte. A solidão é confortável, eu te dizia. Depois saia correndo com os braços abertos te deixando pra trás. Eu ainda gosto da sensação de ouvir meus próprios passos e escolher meus rumos. Você vivia caindo, e eu tinha que arrumar um jeito de te ensinar a andar. Um jeito de não te fazer tropeçar mais, um jeito de você deixar de pisar no meu pé. Meu mundo dividido em pedaços de mundo que eram seus. Tomando meu espaço. E a solidão é esse bicho que te toma. Te cativa. Se pertencer é bom, se bastar é melhor ainda. Daí você me tirou dela. Me ensinou a ser sua. Meus pés doeram no começo e depois aprenderam a andar de novo. Hoje meu mundo é tão imenso que eu me perco. O mundo parece enorme quando você não tem com quem dividir. Infinito. Eterno. Dói e confunde. E eu me sinto pequena na imensidão. A grande verdade é que eu fico esperando que você volte a ocupar o seu lugar no sofá pra ver se o meu mundo volta a ter um tamanho confortável. Nem grande demais, nem pequeno demais. Com um céu nem azul demais, nem cinza demais onde quando anoitecer, apareça uma estrela com o meu nome.

6.2.11

"O inventário do irremediável"

"Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good."

(Quatro casamentos e um funeral - Funeral Blues)

Acho injusto ter que lidar com morte. Não gosto. Não que eu ache que alguém no mundo goste. Meu texto vai ser fraco. Eu estou falando de coisas reais aqui. Eu, primeira pessoa do singular, acho injusto ter que lidar com morte. Lidei com isso poucas vezes na vida, é verdade. A morte do meu vô, aos nove anos, não me abalou muito. Minha mãe me contou sobre a morte dele - que tinha entrado em coma no dia da minha apresentação de dança e a madonna cantava frozen, terrível - e alguma coisa em mim dizia que eu tinha que chorar. Então deitei no colo dela, e não derramei uma lágrima sequer. A gente só sente a morte daquelas pessoas que vivem dentro da gente. Porque alguma parte da gente morre junto. E meu vô morava em algum bar da esquina onde ele jogava snooker. Mas não dentro de mim.

Alguns anos depois, foi a minha vó. Isso doeu. Vó Maria vivia dentro de mim desde os meus primeiros anos de idade. E entrou em depressão quando eu fiz sete, ou oito. Ela também não sabia lidar com morte e desistiu de viver assim que o neto dela morreu. Achou injusto que Deus levasse primeiro um homem alto de trinta e poucos anos, e deixasse ela - setenta e tantos, e deprimidissima, e doente. E resolveu que não queria mais viver, e não viveu. Mas antes disso ela teve tempo de me ensinar a fazer bifes com muito alho, e a comer paçocas. E me viciou em café. Eu conto essas histórias repetidas vezes. Conto que minha vó tinha um quadro azul com uma pomba branca desenhada, e uma caixinha de música com uma foto dela dentro. Conto que eu costumava checar quais as tele-senas que podiam ser trocadas para que meu vô levasse na lotérica. Conto que ela me pedia pra rezar o pai nosso, e que costumava cantar tonico e tinoco quando podia ("moreninha linda do meu bem querer é triste a saudade longe de você"). Eu gostava de arrumar os cabelos dela com creme e colocar "ramonas". "Ramonas" eram grampos, mas pra mim sempre foi o "apelido-que-a-minha-vó-deu-pros-grampos". Meu cabelo oleoso, ondulado e com o redemoinho na testa, é dela. Minha pele brilhante, também. Alguns traços de personalidade. Vó Maria viveu aqui pra sempre, mas um dia quando eu tinha 16 anos eu fui dar tchau pra ela antes de ir pro inglês, e as mãos dela estavam frias. Quando eu voltei, a cama dela estava vazia. Eu não me lembro de ter chorado tanto quanto eu chorei aquele dia. Eu ainda choro nos pontos finais das frases desses parágrafos. Saudades. Ela ainda não morreu dentro de mim.

Anos depois, meu vô preferido também de foi. Muitos anos. Eu ia fazer vinte e estava na faculdade. Meu vô viveu 95 anos, tanto tempo (e tão pouco). As lembranças são tantas que vez-ou-outra quando esbarro numa foto ainda acho que ele está vivo. Em algum lugar, debaixo do pé de limão onde a gente esticava uma toalha e deitava, ele está. Na mesma cadeira, me esperando voltar da escola, depois da faculdade, pra irmos almoçar. Eu não posso medir quantos pedaços de mim foram embora o dia que meu vô se foi. Mas foram muitos. Eu chorei o choro mais sincero da minha vida quando vi que meu vô não era mais vivo, assim, entre nós. Parecia mentira. Parece, ainda. Um homem tão vivo que não podia morrer. Um homem tão vivo que não morreu. Tanta lembrança, tanto ensinamento, tanta piada. Vinte anos inteiros tendo o melhor vô do mundo. O resto da vida vivendo com o melhor vô do mundo dentro do coração.

As pessoas morrem, mas não se vão. Partes entranhadas delas ficam em todo lugar. A gente não quer que elas se vão então a gente vai deixando elas em pedaços. No coração, nas fotos, nos objetos, nas histórias. Hoje me veio de novo o fantasma da morte. Não comigo. Minha amiga me deixou um recado dizendo que a tia dela não tem mais cura. Vai morrer. Hoje é viva, mas amanhã pode não estar mais. Os dias de fazendo devagar, a iminência daquilo que hoje é, e amanhã pode não ser mais nada. Não soube o que dizer. Acho injusto ter que lidar com morte. Não há o que se fazer. Quem nunca lidou com isso poderia dizer que ela devia abstrair, tomar um porre, sair, distrair quem sabe. Mas o peso da eternidade com certeza mora hoje dentro dela. A eternidade e o imediato. Você não compreende o paradoxo enquanto não lida com ele. A morte ali, imediata, a espera eterna e ao mesmo tempo rápida. A ausência eterna. Porque é isso que a morte é. Uma ausência eterna. Uma saudade eterna. Não cura. Quando a pessoa que se vai era um pedaço da gente, não cura. Lateja nos dias de sol, nos dias de chuva. Fisga com uma música, com uma pessoa parecida com ela que anda na rua. Fisga em textos como esse, a cada vírgula de lembrança. A tia da minha amiga vai morrer. Não se sabe a hora exata, e nem se vai fazer sol ou chuva. Mas ela sabe que vai. Um pedaço da minha amiga vai morrer junto com ela, e eu queria poder fazer alguma coisa. Eu sei que eu não posso. Ela também não pode fazer nada para que a tia dela continue aqui. A morte é uma impotência eterna.

Não há nada a se fazer a não ser continuar. Eu sei que o máximo que eu posso fazer por ela é um olhar condescendente, um abraço. Eu vou ser piegas, vou dizer que a tia dela não vai morrer dentro dela (e não vai mesmo), que vai existir sempre uma lembrança, um pedaço. E existe mesmo. Uma espécie de ferida aberta, terrível, que sangra de quanto-em-vez. O pedaço da pessoa que morava a gente e arrancam. Mas que continua vivo. Buraco pulsante dentro do coração. Saudade. Ausência. Falta. Com peso de eternidade. Às vezes as lembranças fazem sorrir. Às vezes fazem chorar baixinho debaixo do cobertor. Às vezes aparece uma saudade imensa em que você quer contar pra pessoa tudo que está acontecendo na sua vida - ela não está vendo. "Vô, eu me formei". "Vô, eu ainda não sei dirigir, acredita?", "Vô, eles vendem cada vez menos daquelas balas de caramelo que você gostava tanto no mercado", "Vô, eu não sei se eu vou casar, mas eu queria tanto te dar bisnetos". Mas as pessoas não vivem pra sempre. Elas nascem, crescem, deixam pedaços delas em outras pessoas, e morrem. Meu avós morreram. A tia da minha amiga vai. Ela vai perder um pedaço dela e eu não tenho como juntar os cacos, nem estancar a ferida. Não existem palavras capazes de formar frases dentro da língua portuguesa - ou de qualquer outra língua - que tirem a dor que ela está sentido,e ainda vai sentir. A morte nos deixa impotentes. A morte é eterna e imediata. A dor, a ausência e a saudade que vem com ela, também. Acho injusto ter que lidar com a morte. Acho mais injusto ainda as pessoas que eu amo terem que lidar, e eu não poder fazer nada a respeito. Porque ninguém pode fazer nada a respeito da morte. É a maneira que a vida encontrou de ser cruel: inventou o inevitável.